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Sucena Shkrada Resk

Blog Cidadãos do Mundo – Jornalista Sucena Shkrada Resk





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jornalista Sucena Shkrada Resk

Formada em Jornalismo,
pela PUC-SP, há 20 anos,
com especialização lato sensu
em Política Internacional (1998) e
Meio Ambiente e Sociedade (2009),pela FESPSP

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TAGS:cidadania,geopolítica,
socioambientalismo e sustentabilidade

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Confiram no Flickr,
alguns registros de imagens
que produzi referentes ao:

Viagem à Patagônia
-16 a 27/04/12

Fórum Social Temático 2012
Grande Porto Alegre
-24 a 29/01/12

V Congresso Brasileiro de
Jornalismo Ambiental - RJ
-17 a 19/11/2011

V Fórum Social Pan-Amazônico
- Santarém-PA
-25 a 29/11/2010

Entremundos...
-23 e 24/08/2010

Viagem à Aldeia Aweti, Xingu,
desde Canarana 31/7 a 03/08

Fórum Social Mundial 2010
25/01 a 29/01/2010 - Porto Alegre-RS

•VI Fórum Brasileiro de
Educação Ambiental 2009
-22 a 25/07/09 RJ

•Fórum Social Mundial 2009
27/01 a 01/02/09-Belém-PA

•Travessia Amazonas
(Belém-Santarém)
-03/02 a 05/02/09

•Povos da Floresta
no Tapajós-PSA 02/2009


"Atos de cidadania
estão sempre
a nossa frente,
mas isso
não significa,
que estamos
atentos para percebê-los.
Esse espaço é para
dar vazão ao crédito
que podemos dar às pessoas,
instituições, empresas,
gestores... que têm fibra
e persistência na arte
de viver com dignidade;
como também, expor
pensamentos e imagens
que retratem nossa
indignação com os desmandos
e a ausência do
exercício de cidadania
flagrados no dia a dia.
E esse exercício de reflexão
não tem fronteiras
geográficas ou étnicas..."
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07/05/2012 11:54
Comunicação: do cordel à tecnologia, por Sucena Shkrada Resk

O acesso à comunicação na contemporaneidade não pode ser definida somente por plataformas tecnológicas, como se fosse a única solução para tudo. Quando restringimos a uma alternativa, caímos na armadilha da verticalização. O princípio é o poder de escolha aos diversos tipos de mídias, desde o cordel, o jornal mural ao blog, a grupos, redes (acesso democrático por banda larga à internet), ao vídeo, a rádios e tvs comunitárias e a grades e pautas democráticas nas demais mídias. Tradição e modernidade são compatíveis e podem se misturar. Dão liga, porque inspiram manifestações e linguagens diversas e com um caráter importante: permitem a espontaneidade da participação.

Aqui não se trata de melhor ou pior, mas meios diferentes, com amplitudes menores ou maiores de público e participantes. Ao engessar as possibilidades, nos tornamos vítimas de nossos próprios discursos libertários. Por isso, achei interessante a apresentação do case “Cordel de Comunicação” apresentado pela jornalista pernambucana Raquel Lasalvia, do Centro de Cultura Luiz Freire, (CCLF), de Olinda, no último dia 4, durante o Seminário Desafios da Liberdade de Expressão. O evento foi promovido pelo Fórum Nacional pela Democracia da Comunicação (FNDC), em São Paulo.

Em conversa com o Blog Cidadãos do Mundo, ela explicou que a iniciativa surgiu em agosto do ano passado, no processo de divulgação das propostas do FNDC para o marco regulatório da comunicação no país. “A questão era popularizar as informações sobre os pontos discutidos. O jornalista Ivan Moraes Filho (também do CCLF) escreveu um texto em formato de cordel, nesse sentido. Daí João Brant (Intervozes) ajudou no mote, além de contribuições de Ricardo Mello”, disse. Assim surgiu a Peleja Comunicacional do Marco Regulatório e ‘Conceição’ Pública na terra sem lei dos coronéis eletrônicos.

No conteúdo, há trechos como esse:

“...Só que devia ter regra
não é brincadeira não
garantir a todo mundo
liberdade de expressão
pelo menos é o que fala
nossa Constituição...”

“Depois fizemos parceria com o Intervozes e tivemos o apoio da Ford Foundation, para fazer as cartilhas em cordel. A publicação saiu em novembro de 2011 e foi distribuída na plenária do FNDC, no mês seguinte e no Encontro Nacional sobre Direito à Comunicação, em fevereiro, no Recife”.

O projeto deve se expandir para vídeo. “A ideia é que haja a participação de atores na interpretação e que até 15 de julho o trabalho esteja concluído e possa ser divulgado pela internet e TVs públicas”, adiantou.

Veja também no Blog Cidadãos do Mundo:
07/05 Liberdade de expressão: o princípio da horizontalidade
Sucena Shkrada Resk

07/05/2012 09:30
Liberdade de expressão: o princípio da horizontalidade, por Sucena Shkrada Resk

Liberdade de expressão. Um termo que exige aprofundamento e que, cotidianamente, é pasteurizado, em definições genéricas, como slogan de campanhas. Refleti, nesta semana, sobre essa questão, durante e pós o Seminário Desafios da Liberdade de Expressão, promovido pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), em São Paulo, no último dia 4. A única certeza que tirei disso tudo: que somente quando há “horizontalidade” na comunicação é que o processo, de fato, ocorre. Para isso, a primeira coisa é quebrar rótulos e estereótipos e partir para os motivos que levam aos desafios...Colocar o dedo na ferida.

Quem fala por quem em nossa sociedade? Afinal, não é direito de todos e todas? Indivíduos? Tendo o princípio do respeito mútuo? A gente assume realmente nosso protagonismo ou quem faz isso por nós em nosso nome, sem sequer saibamos o que estão assumindo como nossas ânsias, reivindicações e metas?...

De duas ou uma: acomodação, alienação ou falta de acesso aos meios devido a monopólios e sistemas hierárquicos. Em qualquer uma das circunstâncias, cabe a cada um de nós as mudanças...

Por que lutamos por um direito que é constitucional? Já analisaram essa lógica perversa? Mas no dia a dia, nos defrontamos com uma parcela significativa da sociedade da qual fazemos parte, que não tem acesso ao mesmo. E de qual parcela estamos falando? A lista é longa, quando observamos a realidade brasileira, de forma regionalizada. São personagens (cidadãos e cidadãs) que integram grupos, com seus mais variados recortes, que anseiam por ter espaço e acesso a se manifestar.
- Cidadão (ã) comum (ing) que não faz parte de alguma associação, grupo específico etc;
- Agricultores familiares;
- Artistas de rua;
- Analfabetos;
- Desempregados;
- Idosos (maior idade);
- Imigrantes;
- Gays, lésbicas e simpatizantes;
- Jovens;
- Migrantes;
- Moradores em situação de rua;
- Mulheres;
- Negros;
- Pessoas com deficiência;
- Populações tradicionais (quilombolas, caiçaras, ribeirinhos, caboclos) e indígenas;
- Trabalhadores formais e informais;
- Ou seja, a maior parte da população.
...
O que falta para que se consiga a liberdade, no contexto comunicacional, que é um elemento que nos diferencia e, ao mesmo tempo, nos aproxima do sentido coletivo? Entre as diferentes possibilidades não-tecnológicas e tecnológicas, podemos citar:
- Acesso à alfabetização; a conhecimentos gerais e regionalizados; à informação contextualizada, à regularização de documentos básicos (certidão de nascimento, RG...); a meios de locomoção e à saúde; entre outros...
- Educação para a cidadania (formal e não-formal);
- Educomunicação;
- Espaços públicos para que as pessoas possam se expressar (pela arte cênica, pela música, pela fala, pelo jornalismo, ...);
- Estímulo às manifestações culturais; a preservação da historicidade;
- Democracia digital;
- Acabar com o monopólio na mídia;
- Acesso gratuito à banda larga;
- Regulamentação das concessões de rádios comunitárias...

Tudo parece tão óbvio, mas porque até hoje não conseguimos superar esses obstáculos? Quais interesses nos movem, que nos impedem de fazer as transformações necessárias? Quando nos expressamos, reconhecemos nossas origens, quem somos, os desafios que permeiam nossa vida cotidiana, o potencial do qual somos capazes e conseguimos ter uma leitura de mundo mais dinâmica, já que temos capacidade de fazer as escolhas dentro das diferentes realidades, que integram nossa vida no planeta, a partir de nossas ruas, nossos bairros, cidades, estados, países, continentes e do mundo.

E quando falamos em marco regulatório, voltando ao Brasil, tudo isso tem de estar na base das discussões, ou seja, horizontalmente, sem processos demagógicos e retóricos ou calcados em partidarismo político ou em meios de detenção de poder (formas veladas). Caso contrário, travestimos velhos modelos verticalizados, como inclusivos.

Agora, o exercício é o seguinte: nos dispor a reconhecer isso e mudar os caminhos, para que os meios realmente se edifiquem para que tenhamos uma sociedade mais justa. Como? Por meio do voto nas eleições; de campanhas educativas e estimuladoras àqueles que não têm acesso aos meios de comunicação; de autocrítica a modelos de gestão do poder público, de organizações do terceiro setor e da iniciativa privada. Está mais do que na hora de colocarmos o espelho e enxergarmos nosso reflexo. Enquanto, não fizermos isso, as reivindicações não passarão desse estágio.

Sucena Shkrada Resk

03/05/2012 13:45
Rumo à RioMais20: seca, fome, morte e draft zero, por Sucena Shkrada Resk

#RumoàRioMais20
O título da notícia, no último dia 2, é o seguinte: "Um milhão de crianças correm risco de morrer de desnutrição no Sahel, alerta UNICEF", no site da Organização das Nações Unidas (ONU). Nas entrelinhas, está descrita mais essa informação: Existem atualmente 15 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar no Sahel, que se estende do Oceano Atlântico ao Mar Vermelho.

Os discursos se esvaem quando a brutalidade imposta pela realidade nos bate à porta. Nessa hora, o que é "genérico" no draft zero tem sentimento, dor, nome e lugar nesse planeta. Mais que dinheiro, essa situação envolve a necessidade de mudança de diretrizes políticas, econômicas, de educação socioambiental e não só de "ajuda" que se restringe aos dólares e não se importa com a manutenção da melhoria, sem enxergar as pessoas em sua integridade.

Aqui está um fato em que a expressão "justiça socioambiental" toma corpo e grita, mas poucos ouvem e agem em relação a essa situação...E será que nós fazemos parte desse grupo? Sofremos (me coloco nisso) de um vazio de sensibilidade nesse mundo, em que colocamos como prioridade o efêmero e, não, o vital...

Veja mais sobre a Rio+20 no Blog Cidadãos do Mundo:
30/04/12 - Rumo à Rio+20: Um olhar sobre Perito Moreno
11/04/12 - Site da ONU pretende ser canal de diálogo com a sociedade sobre a Rio+20
22/03/12 - Nota: EIMA8 lança informe rumo à Rio+20
22/03/12 - Campanha A Água e a Segurança Alimentar
22/03/12 - Sustentabilidade: Gro Brundtland no Brasil
13/03/12 - #RioMais20: Reflexão: Como entender o jogo do tabuleiro?
13/03/12 - Nota: expectativas oficiais sobre a Rio+20
11/03/12 - Nota: como participar do processo da Cúpula dos Povos?
10/03/12 - Refugiados climáticos: do alerta ao fato
04/03/12 - Pensata - Rio+20: agora é a vez do como
02/03/12 - A importância da discussão da água na Rio+20
Entre outras, desde 05/12/10.

Sucena Shkrada Resk

30/04/2012 17:20
Patagônia: múltiplas experiências cotidianas, por Sucena Shkrada Resk

Durante o período de férias na Patagônia Argentina, entre os dias 16 e 27 de abril, exercitei experiências cotidianas "simples", que tiveram como principal contribuição, o significado dos valores e das mensagens socioambientais implícitas nas mesmas. Eu me deixei levar por essa atmosfera para poder usufruir a energia de quando "olhamos com a vontade de querer ver".

No Parque Nacional Los Glaciares, no dia 17, em meio aos atrativos comestíveis da cafeteria da unidade, uma cúpula de vidro me chamou a atenção: lá estavam abrigadas tampinhas plásticas para reciclagem com o objetivo de apoiar o Hospital Garraham. As perguntas básicas já estavam implícitas: o que, por que, para que e para quem, não é?

Outra situação ocorreu, quando conheci o jovem artesão Martín, em El Calafate, no dia seguinte. O que se destacava em suas obras são as escolhas dos temas (biodiversidade e meio ambiente), e os detalhes delicados no entalhe.... A arte levava a pensar na conservação. Ele reaproveita restos de madeira para passar sua mensagem e, ao mesmo tempo, gerar renda. E com um aspecto importante: aprendeu a técnicas com seu pai...o que expõe o contexto da tradição e sensibilidade.

No Museu Glaciarium, em El Calafate, (*único deste tipo no mundo), nem só a história e as imagens e filmes apresentados no espaço eram o mais interessante de tudo. Afinal, pude conhecer o "Rito". Isso mesmo ah ah. Esse mascote de pelo foi adotado pelo pessoal de lá e era um dos três sentinelas, que faziam sua ciesta no final de tarde.

E cá entre nós, o que vale são os pequenos detalhes...Entre as inúmeras coisas me encantaram na viagem, também está o paisagismo em Bariloche. Nos jardins públicos e das residências, havia quantidade significativa de "rosas selvagens" de diferentes cores (brancas, rosas, vermelhas, amarelas...), com grandes pétalas. Em fase de florescência e ao mesmo tempo, encerramento de ciclo, por causa do outono, resultam em um bonito espetáculo da natureza. Fotografei exemplares brancos e vermelhos no Circuito Chico, perto do Porto Pamuelo, no Parque Nacional Nahuel Huapi, e no centro, respectivamente nos dia 25 e 26...

Enfim, esses são alguns fragmentos de lembranças que foram significativas para mim e compartilho com vocês, dessa maneira informal, num gostoso bate-papo no final de uma tarde chuvosa de segunda-feira. As imagens podem ser conferidas em meu flickr .

Veja também no Blog Cidadãos do Mundo:
30/04 - Rumo à Rio+20: Um olhar sobre Perito Moreno

Sucena Shkrada Resk

30/04/2012 13:52
Rumo à Rio+20: Um olhar sobre Perito Moreno, por Sucena Shkrada Resk

#RumoàRioMais20 & MudançasClimáticas - Registrei essa imagem do Glacial Perito Moreno, no Parque Nacional Los Glaciares, na Patagônia Argentina, no último dia 17 de abril. O gigante de gelo dos Andes vem sofrendo transformações gradativas e grandes calotas começaram a se desprender do maciço, a partir de março deste ano, depois de um longo período de tempo. As ocorrências anteriores foram registradas oficialmente em 1988, 2004, 2006 e 2008.

Esse patrimônio da humanidade, com 60 m de altura e 200km2 de extensão é um exemplo "vivo" do quanto é importante termos um olhar voltado à conservação do planeta. Ele ainda permanece em sua maior parte estável, mas até quando?

Veja também mais artigos sobre a Rio+20 no Blog Cidadãos do Mundo:
11/04/12 - Site da ONU pretende ser canal de diálogo com a sociedade sobre a Rio+20
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Entre outras, desde 05/12/10.
Sucena Shkrada Resk

16/04/2012 11:56
Breve recesso - período de férias, por Sucena Shkrada Resk

Pessoal, boa tarde. Hoje comecei o meu curto período de férias, que prossegue até o próximo dia 27 de abril. Já cheguei em Buenos Aires e daqui a pouco, sigo para El Calafate, para iniciar a aventura na Patagônia. Nesta fase, ficarei afastada das postagens para poder absorver melhor essas vivências. Até mais.
Sucena Shkrada Resk

15/04/2012 23:10
A experiência da moeda social, por Sucena Shkrada Resk

Agora, me restam cinqüenta centavos de elo como lembrança. Vocês podem estar perguntando – “O que ela quer dizer com isso? – Esperem, já explico. É a moeda social que circulou durante o VII Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, no mês passado, em Salvador, na Bahia. O público adquiria voluntariamente para fazer compras na Feira Solidária ou na praça da alimentação do evento e não perdi a oportunidade. Mas o mais interessante nesse exercício, entretanto, foi saber a história atrás da iniciativa. Assim conheci um pouco da origem dos bancos comunitários no Estado.

São o Ecoluzia (primeiro, de 2005), de Simões Filho; de Guine, em Saramandaia; de Ilhamar, em Matarandiba, no município de Vera Cruz; de Casa do Sol, em Cairú. O próximo deverá ser em Ouricangas e receberá o nome Banco Fonte de Água Fresca.A Universidade Federal da Bahia (UFBA) mantém hoje a Incubadora Tecnológica de Economia Solidária e Gestão de Desenvolvimento Territorial, que auxilia esses projetos.

“A gente sempre fala de resgate da auto-estima. O objetivo é produzir renda na comunidade para os mais humildes, sem condições de tomar crédito fora. Podemos comprar em nossa área, alimentos, principalmente da pesca. Nossa comunidade é pequena, só não conseguimos ainda encontrar no nosso bairro roupas e materiais de construção, aí temos que usar o real”, contou a moradora Simone Santana, do bairro Santa Luzia.

Ao ouvir o relato, lembrei de minha infância, quando ganhei uma pequena máquina registradora de brinquedo, que tinha dinheiro de papel. A sensação de autonomia era muito boa. Naquela época, obviamente tudo não passava de algo lúdico. Quando voltei à realidade, observei que as cédulas (com design próprio) em cada comunidade tem um significado infinitamente maior para cada um desses cidadãos (ãs), que envolve além de renda e sobrevivência, a importância da geração de confiança nas relações humanas.

É interessante observar o quanto ainda é necessário avançar nesse modelo cooperativo de bancos comunitários no país. O processo começou em 1997, com o Banco Palmas, no Ceará, e em 2006, surgiu a Rede Brasileira de Bancos Comunitários de Desenvolvimento. Entretanto, com o tamanho continental do Brasil, novas incursões e histórias estão por vir. E quem sabe um dia, o que é exceção, se torne um modelo econômico expressivo.

Sucena Shkrada Resk

15/04/2012 21:37
Inhotim: arte e verde superam mineração no entorno, por Sucena Shkrada Resk

Em uma região na qual predomina um histórico de mineração no entorno, o Horto Florestal do Instituto Inhotim, em Brumadinho, a 60 km de Belo Horizonte, no mínimo, chama a atenção pelo efeito contrastante que causa para quem visita a unidade, que ocupa uma área de 100 ha. O espaço abriga uma das maiores coleções mundiais de palmeiras (Arecaceae), com número aproximado de 1,5 mil espécies de diferentes regiões tropicais do planeta, além de nativas de Mata Atlântica e Cerrado. A curiosidade, no entanto, é estimulada, porque em meio a esse cenário, existe literalmente um museu a céu aberto.

A iniciativa da criação desse espaço partiu do minerador e colecionador de arte, Bernardo Paes, que hoje continua à frente do Instituto. O projeto paisagístico começou a ser constituído a partir dos anos 80 e o acesso ao público teve início em 2005. Ele doou a maioria das obras de sua coleção particular ao longo dos anos ao acervo. A unidade só se tornou horto, cinco anos depois. Oficialmente, desde outubro de 2006, a área já registrou mais de 769 mil visitantes, que vêm dos mais diferentes lugares do mundo.

Apesar de Bernardo ainda continuar empresário da área de mineração, ele afirma que hoje não exerce nenhuma função operacional no segmento, se dedicando totalmente a Inhotim.

Quando caminhamos por suas alamedas e trilhas, o que fica perceptível, é a influência do paisagista Burle Marx, em alguns trechos. Para ter condições de conhecer todo o espaço, são necessários, pelo menos, dois dias de visitação.

O cuidado com o paisagismo é uma característica que impressiona ao se conhecer Inhotim. Para manter toda essa estrutura funcionando, o instituto mantém um quadro de cerca de 1000 funcionários, sendo 85% moradores da cidade de Brumadinho, segundo Letícia Aguiar, gerente de Meio Ambiente do espaço. “Nossos funcionários possuem treinamento de capacitação para cada área que exercem como jardinagem, restaurantes, administrativo, receptivo, eventos, entre outros. Além disso, participam de cursos de inglês e possuem reembolso de mensalidade de cursos técnicos, de graduação e de reciclagem”.

O cenário ambiental é cultural se divide ao redor de cinco lagos. Segundo a gerente, além das espécies de palmeiras, as florestas existentes são secundárias em diferentes estágios de desenvolvimento, ou seja, resultantes de um processo natural de regeneração da vegetação.

Parte da área que hoje abriga o Instituto Inhotim já foi local de lavra de mineração, em processo avançado de degradação ambiental. São cerca de 20 hectares de jardins plantados, além dos viveiros, compostos por mais de 4 mil espécies nativas e exóticas de todo o mundo. “Dentre as plantas nativas da Mata Atlântica, destacam-se o palmito-juçara, espécie ameaçada de extinção, além de diversas espécies de imbés, begônias, orquídeas e bromélias (aproximadamente 500 espécies)”.

Os estudos realizados na área indicaram cerca de 132 espécies de aves nos remanescentes florais e 168 nos jardins, sendo as mais comuns das famílias dos bem-te-vis e beija-flores. Há também duas espécies ameaçadas de extinção, como o gavião-de-penacho (Spizaetus ornatos) e o gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus), além de espécie rara na região, como o urubu-rei (Sarcoramphus papa).

A integração dessas aves às instalações culturais é interessante. Muitos fazem voos rasantes ou passeiam nas águas de piscinas que fazem parte das obras de arte.

Também podem ser encontrados no horto, mamíferos de médio e grande porte, entre eles, a espécie Callicebus nigrifrons, conhecida popularmente como “guigó” ou “sauá”. “Pode ser considerada uma espécie bandeira da mata atlântica, pois é endêmica deste tipo de bioma e é classificada como quase ameaçada, na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas de Extinção da International Union for Conservation of Nature (IUCN).

A gerente explica que a unidade ainda desenvolve trabalhos de resgate de flora em áreas sujeitas ao licenciamento ambiental. “Essas espécies são mantidas no acervo botânico originando protocolos de cultivo e propagação. Muitas são raras, ameaçadas de extinção ou de potencial de uso econômico. Espera-se com estes projetos, colaborar em ações de recuperação de áreas degradadas e restauração de ecossistemas”.

A unidade também mantém uma Biblioteca, em que são desenvolvidos encontros do Projeto Sala Verde, criado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), em que existe o incentivo a reflexões e divulgadas ações ambientais.

À comunidade de estudantes de ensino médio de Brumadinho, é dirigido o Projeto Jovens Agentes Ambientais. O programa de formação ambiental dura quatro eses.

Preservação da mata atlântica
Além do Jardim Botânico, o Instituto Inhotim mantém outra área próxima, que desde maio de 2010, é uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), com aproximadamente 150 ha de vegetação nativa. “O inventário da flora local revelou até o momento mais de 400 espécies e permitiu estimar que existam mais de 1000 espécies da flora nativa, muitas delas, típicas da Mata Atlântica”, esclarece Letícia.

“A criação da RPPN tem importância significativa para o Instituto, uma vez que objetiva a conservação do espaço para a pesquisa e a educação ambiental. Vai contribuir também com o desenvolvimento do Jardim Botânico em estudos de botânica, fauna, geologia e sensoriamento remoto”, afirma a gerente.

A mineração no entorno de Inhotim
Leticia Aguiar explica que, nas proximidades de Inhotim, antigas áreas mineradas estão presentes em dois pequenos fragmentos, além de zonas de mineração de empresas vizinhas atualmente em operação. “Estas áreas foram, inclusive, incluídas em projeto de que recentemente recebeu o apoio do Fundo de Mudanças Climáticas (Fundo Clima) do Ministério do Meio Ambiente (MMA), que consiste no desenvolvimento de um protótipo para iniciar um processo de recuperação de áreas degradadas por mineração”

Para isso, segundo a gerente, o Instituto realizará diversas pesquisas, desde a parte florística até o inventário de emissões/remissões de Gases de Efeito Estufa (GEEs), incluindo também a educação ambiental e o envolvimento comunitário no planejamento e execução do projeto.

Acervo cultural
No aspecto cultural, Inhotim hoje mantém mais de 500 obras distribuídas em exposições fixas e itinerantes de artistas brasileiros e estrangeiros. Uma das mais curiosas, é a Sonic Pavilion, de Doug Aitken, na qual se ouve os ruídos do fundo da Terra, originados de um grande furo de 200m de profundidade, onde foram colocados microfones.

Estive por lá, nos dias 29 e 30 de dezembro do ano passado...
Sucena Shkrada Resk

11/04/2012 09:14
Site da ONU pretende ser canal de diálogo com a sociedade sobre a Rio+20, por Sucena S.Resk

A Organização das Nações Unidas (ONU) lança oficialmente, no dia 16 de abril, (mas já pode ser consultado no ar) o site que terá versão também em português, além do inglês - https://www.riodialogues.org/login?destination=login - que segundo a instituição, pretende ser um canal de diálogo com a sociedade civil, a academia e a mídia, em função da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), a ser realizada em junho deste ano, no Rio de Janeiro.

Nesse espaço virtual, o público participante poderá propor recomendações com relação a temas como água, oceanos, segurança nutricional, sustentabilidade das cidades e inovação, energia sustentável para todos, desenvolvimento sustentável como resposta para a economia e crise financeira, trabalho decente, entre outros. Para participar do canal interativo, o interessado utiliza um login e senha. Veja mais em www.cidadaodomundo.blog-se.com.br .

Veja mais sobre a Rio+20, no Blog Cidadãos do Mundo:
22/03/12 - Nota: EIMA8 lança informe rumo à Rio+20
22/03/12 - Campanha A Água e a Segurança Alimentar
22/03/12 - Sustentabilidade: Gro Brundtland no Brasil
13/03/12 - #RioMais20: Reflexão: Como entender o jogo do tabuleiro?
13/03/12 - Nota: expectativas oficiais sobre a Rio+20
11/03/12 - Nota: como participar do processo da Cúpula dos Povos?
10/03/12 - Refugiados climáticos: do alerta ao fato
04/03/12 - Pensata - Rio+20: agora é a vez do como
02/03/12 - A importância da discussão da água na Rio+20
Entre outras, desde 05/12/10.
Sucena Shkrada Resk

10/04/2012 18:01
Nota: May East conta que Senegal criou ministério das ecovilas, por Sucena Shkrada Resk

#Curiosidades_socioambientais - Uma das informações mais interessantes que ouvi, durante o VII Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, em Salvador, em março, foi transmitida por May East, da Fundação Gaia e diretora-executiva da CIFAL Findhorn...Segundo ela, o Senegal criou o Ministério das Ecovilas... Já imaginaram que revolução conceitual e de políticas públicas?
Sucena Shkrada Resk

10/04/2012 16:10
Nota: Educomunicadores criam associação, por Sucena Shkrada Resk

#Educomunicação - A Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação (ABPEducom) foi criada em fevereiro deste ano e está em fase de estruturação. A iniciativa surgiu, durante o XXXIV Congresso Nacional da Intercom, Recife, PE, em setembro de 2011. O site da entidade é: http://www.abpeducom.org.br .
(obs: a dica me foi passada pela jornalista Daniele Próspero)

Veja também no Blog Cidadãos do Mundo:
10/04/12 - E a educomunicação ambiental nas políticas públicas brasileiras?
08/04/12 - Educomunicação: uma questão de estímulo
08/04/12 - Esp.Educom 2012:Ismar Soares e a educomunicação na academia e fora de seus muros
06/04/12 - Especial Educom 2012: Grácia Lopes Lima fala dos objetivos do Cala-Boca Já Morreu
26/03/12 - Encontro de Educomunicação no VII Fórum de EA
22/11/11 - CBJA: jornalista socioambiental na busca da liberdade
05/12/10 - Especial Fórum Social Pan-Amazônico – A luta só está no começo
10/06/10 - A multiplicidade da ação simbólica ambiental
25/05/10 - Pensata: Entre os discursos e as ações
03/04/10 - Educomunicação: Resolução Conama abre novas perspectivas
13/01/10 - Propostas da 1ª Conf. Nac. de Comunicação virarão lei?
17/11/09 - Esp. EA (4)-Entrevista:Maria del Carmen Chude
02/11/09 20 - Esp. EA (3)-Entrevista: Vilmar Berna
01/11/09 - Esp. EA (2)-Entrevista: André Trigueiro
26/10/09 -Esp. EA (1) - Entrevista: Heitor Queiroz de Medeiros
04/08/09 - Esp.-VI Fórum de Educação Ambiental-A importância do empoderamento
Sucena Shkrada Resk

10/04/2012 10:14
E a educomunicação ambiental nas políticas públicas brasileiras?, por Sucena S.Resk

Hoje o que se observa é a dificuldade de se conseguir obter informações sistematizadas e contínuas sobre o campo da educomunicação no país. Durante o Encontro Paralelo de Educomunicação, no dia 28 de março, em Salvador, que integrou o VII Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, Renata Maranhão, gerente de projetos da Secretaria de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (MMA), apresentou o resumo do histórico das iniciativas e desafios governamentais federais a respeito da pauta. Entre as novidades, está a recente proposta de incentivo a esse campo nos licenciamentos ambientais e na implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos e na Agricultura Familiar.

De forma resumida, a proposta conceitual da educomunicação socioambiental é possibilitar à totalidade da população o acesso à informação na área, para que possa criar sua própria concepção e também produzir de forma interativa, em vez de ser só receptora ou ter impressões. A pergunta que fica no ar – o quanto realmente avançamos nesse sentido?
O subprograma do setor foi introduzido, no MMA, a partir de 2004. “E no plano plurianual (PPA) 2012, há previsão para essa área, com cursos de formação de educomunicadores”, disse a gestora.

Institucionalmente a educomunicação também se encontra nas diretrizes da Estratégia Nacional em Comunicação e Educação Ambiental (Encea), nas políticas de juventude e das água e clima, como também, na Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), entre outras. Entretanto, a questão crucial é implementar essas propostas, para que não se restrinjam a projetos esporádicos.

“Na questão do licenciamento, recentemente o presidente do Ibama assinou portaria que abre um espaço promissor nesse campo...No programa Circuito Tela Verde, que está na quarta edição, alguns vídeos são mais educomunicativos. Com relação aos cerca de 500 telecentros no país, o objetivo também é torná-los espaços educomunicadores. E quanto à educação à distância, a meta é tornar a plataforma moodle mais interativa e comunicativa”, pontuou a gestora.

Para Renata, é importante que se crie o que se chama atualmente de elos comunicativos ou ecossistemas comunicativos. “O desafio está na formação de educomunicadores, não há ações stricto sensu nesse sentido”, constata (veja também no Blog Cidadãos do Mundo – as entrevistas de Grácia Lopes, do Cala-Boca já Morreu e do professor Ismar Soares, do NCE/ECA/USP).
Segundo a gerente, a prioridade, neste ano, é implementar iniciativas no Programa da Educação na Agricultura Familiar, por meio da educomunicação rural (com spots de rádios etc), e iniciativas na educação ambiental, prevista na PNRS aliada ao Consumo sustentável. “ É importante que sejam dialógicas. Também pretendemos estimular os gestores que integram o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), a desenvolverem ações no campo da educomunicação socioambiental... É fundamental ainda que os estados tenham suas estratégias”, afirmou.

Essas metas, diretrizes e planos expostos geram reflexão imediata de que nós, enquanto sociedade, temos como papel, a participação e a necessidade de acompanhar e cobrar o cumprimento dessas políticas, como também a transparência das informações sobre os processos. A publicização e mecanismos reais de participação efetiva das comunidades são o dever dos governos para tornar tudo isso realidade...

Veja também no Blog Cidadãos do Mundo:
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Sucena Shkrada Resk

08/04/2012 22:19
Educomunicação: uma questão de estímulo, por Sucena Shkrada Resk

Olhos ávidos, mentes ativas e produções educomunicativas a todo vapor. Essa combinação pôde ser observada, durante a cobertura feita por cerca de 30 alunas e alunos de oito escolas públicas de Salvador, durante o VII Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, entre 28 e 31 de março deste ano. Esses jovens exercitaram na prática, a produção de pautas, reportagens e redação e assumiram os papéis de protagonistas, nessa experiência. Cada matéria era realizada a várias mãos, refletindo o sentido coletivo de trabalho praticado pelas equipes.

No último dia, era nítida a sensação de dever cumprido expressa em cada semblante. O “gostinho de quero mais” foi refletido em uma reivindicação feita no encerramento do evento, que teve como porta-voz do grupo, o jovem baiano Daniel Alves de Sena, 19 anos. “Queremos fazer a cobertura da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável – Rio+20 e da Cúpula dos Povos, no Rio de Janeiro, em junho”. Agora, eles buscam apoio e informações para tornar esse sonho realidade.

No meio desses estudantes, conheci Carlos Alberto Santana Costa, 16; Lucas Ribeiro de Oliveira, Ramon França Brígido e Romário Santos Bispo, todos com 18 anos, do Colégio Estadual Doutor Luiz Rogério de Souza, no bairro Plataforma, que formaram um time principalmente na mídia audiovisual, além de textos e fotos. Eles contaram que se alternaram no papel de pauteiros, repórteres, câmeras e produtores. Os garotos, que fazem parte do grêmio estudantil da escola, afirmaram que o exercício os incentivou a querer se aprofundar mais sobre a pauta ambiental.

“Eu gosto de trabalhar em atividades que envolvem o povo. Fiquei contente por conhecer pessoas importantes na educação ambiental, desde especialistas a uma moça que fazia sabão artesanal. Trocamos contatos e todos nos trataram bem, com humildade”, disse Carlos, um dos mais falantes da turma.

Segundo os estudantes, a estratégia que utilizaram foi de abordarem os entrevistados pela seriedade de seus trabalhos. “Elaboramos um roteiro, com perguntas como - o que trouxeram essas pessoas ao fórum até questões (dependendo do perfil profissional), sobre qual projeto a instituição que atua implantou a educação ambiental”, explicaram os estudantes.

Depois desse bate-papo, na sala de imprensa, onde compartilharam o espaço com os demais profissionais, lá estavam os adolescentes, conferindo as anotações nos seus bloquinhos. A preocupação, naquele momento, era terminar de editar mais uma entrevista que seguia ao ar. E assim fizeram, demonstrando que, desde cedo o sentido da responsabilidade pode ser incentivado.

A iniciativa da cobertura educomunicativa teve o apoio da Cipó Comunicação Interativa, da Rede Baiana de Educação Ambiental, do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação Ambiental, da Universidade Federal da Bahia (NEPEA/UFBA) e da Organização Não-Governamental (Pracatum!). Mais detalhes podem ser conferidos em: http://coberturaeducomviifbea.blogspot.com.br/ .

Vejam também outros artigos e entrevistas a respeito de Educomunicação Ambiental, no Blog Cidadãos do Mundo:
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Sucena Shkrada Resk

08/04/2012 13:58
Esp.Educom 2012:Ismar Soares e a educomunicação na academia e fora de seus muros, por Sucena S.Resk

O professor Ismar de Oliveira Soares, mestre e doutor em Ciências da Comunicação, durante bate-papo com o Blog Cidadãos do Mundo, fala sobre as recém-criadas licenciatura em educomunicação e especialização na Universidade de São Paulo (USP), das quais é coordenador, e do panorama da formação na área no Brasil. Desde 1996, desenvolve ações voltadas à difusão dessa área do conhecimento, no Núcleo de Comunicação e Educação da Escola de Comunicações e Artes (NCE/ECA/USP). A conversa aconteceu, durante o Encontro Paralelo de Educomunicação, no VII Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, em 28 de março, na cidade de Salvador.

Blog Cidadãos do Mundo – Como ocorreu o processo que levou à decisão de se constituir o curso de licenciatura em educomunicação na USP?

Ismar de Oliveira Soares – A criação da licenciatura foi resultado de um trabalho que a própria universidade construiu, desde o início dos anos 90 até recentemente. Entre 1989 e 1991, realizamos o primeiro curso de especialização em educação e comunicação, e a partir de então, começamos a desenvolver alguns programas, como da criação da revista do segmento e do curso de gestão de processos comunicacionais. Formamos 30 turmas e somado a isso, algumas pesquisas do universo imaginário, de quem trabalhava a relação de educação e comunicação, de uma forma alternativa à já constituída nos sistemas tradicionais. E com a identificação da educomunicação como uma prática social bem definida, em termos teóricos e mercadológicos, coube ao próprio NCE/ECA/USP, o diálogo com a sociedade e com o poder público, que resultou em cursos que atenderam a cerca de 30 mil pessoas, entre 2000 e 2010. Tudo isso levou a universidade a refletir sobre sua posição de trazer a discussão para a graduação.
Com isso, reconhece que existe um saber profissional a ser compartilhado, porque a graduação existe em função de saberes e práticas de atendimento às necessidades da população.

Blog Cidadãos do Mundo – Qual é o objetivo deste curso e o que ele agregará ao profissional que se formar nele?

Ismar de Oliveira Soares - A educomunicação foi reconhecida pela USP como campo de interface entre a educação e comunicação. Ao criar a graduação, inicialmente, desenhamos um perfil de curso para bacharelado, em que o especialista trabalharia como contratado, consultor na interface na mídia no terceiro setor e na própria assessoria de escolas. No entanto, entendemos que o bacharel tem dificuldade de entrar no espaço escolar, que é aberto ao licenciado. Identificamos, que a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), nos parâmetros curriculares, especialmente no ensino médio, identificava a comunicação como área de interesse para 25% de sua grade curricular . Entretanto, ninguém preparava o profissional para assumir esse papel. O próprio Ministério da Educação, com a divulgação desse coeficiente comunicativo, tratava isso como informática educativa. Não entendia a dimensão da própria legislação. A falta desse profissional foi sentida a partir dos anos 90. Então, a graduação assumiu a figura de licenciatura híbrida, neste curso. Forma o professor para dar aula em escolas de ensino médio, como também, o consultor da mídia e do terceiro setor. Já estamos na segunda turma de iniciantes no curso.

Blog Cidadãos do Mundo – Há outros cursos universitários na área de educomunicação no Brasil?

Ismar de Oliveira Soares – Existe um bacharelado na Universidade Federal de Campina Grande, na PB, que futuramente deverá agregar a licenciatura. Foi iniciada simultaneamente à licenciatura da USP. Há um terceiro curso em formação, já em fase de contratação de professores, na Universidade Estadual de Santa Catarina. Lá está sendo criado um curso à distância de Educomunicação. É uma proposta muito inovadora. Existe um vínculo entre essas propostas e a nossa. A Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) de Assis também anunciou que criará uma licenciatura na área.

Blog Cidadãos do Mundo – Qual é o objetivo da Especialização em Educomunicação na USP?

Ismar de Oliveira Soares – Em 2012, está sendo iniciada a especialização (pós-graduação lato sensu) em Educomunicação na USP, com 360 horas, a quem já tem formação universitária. A proposta é ter duas turmas por ano. São dois semestres com núcleos teóricos e práticos e o terceiro para a elaboração da monografia. Destina-se a quem não tem condições de fazer uma nova graduação. Como a profissão não é regulamentada, tanto a graduação e a especialização cumprem o mesmo papel de reconhecimento. O aluno conviverá com pesquisadores e terá uma grade curricular bem direcionada para o entendimento e prática do conceito até a elaboração do projeto. O objetivo é promover a ampliação do número de especialistas para a difusão da educomunicação no país.

Blog Cidadãos do Mundo – Como a formação acadêmica dialoga com os saberes populares?

Ismar de Oliveira Soares – Na verdade, a universidade se inspira nos saberes populares. Tanto assim, que os alunos da Licenciatura da USP têm o trabalho de imersão semestralmente, num período de 14h, em convivência com movimentos populares, complementando a educomunicação, no âmbito escolar e midiático. Há um profundo respeito nessa relação e troca. Para o movimento popular diretamente, a USP já colabora, desde a década da Educomunicação. Houve atendimento, como citei anteriormente, a cerca de 30 mil pessoas, com cursos de extensão ou socialização, que continuarão, numa base construtivista na prática. A licenciatura e a especialização não vieram para competir com os movimentos populares.(Numa visão mais ampla), a universidade cumpre o papel de legitimação ou exclusão, em alguns casos, quando teses circulam e pesam no imaginário e nas políticas públicas. Quando a instituição decide pela Educomunicação, por exemplo, o poder público começa a se interessar sobre essa área e com isso, favorece a expansão do conceito e da prática (o que é positivo). A sociedade, no entanto, deve estar sempre vigilante com relação à universidade (seja qual for), pois tem suas regras próprias. O perigo é que haja a predominância mercantilista em sua condução, desvirtuando seu papel principal.

Blog Cidadãos do Mundo – Qual é o papel da educomunicação ambiental?

Ismar de Oliveira Soares - O ambiente natural da educomunicação é a prática da educação ambiental, levando em consideração que a própria educomunicação é a busca pela utopia. As pessoas e os grupos lutam para se expressar e dominar a utilização dos equipamentos, para implementar a difusão democrática de processos e circulação de informações. Existe um esforço de ideal de mudança. Por outro lado, a educação ambiental também se alimenta da meta por um mundo melhor, mais habitável, portanto, há uma preocupação com as gerações futuras. Aí entra uma questão fundamental que é a cultura. Como mudar a cultura para que as novas gerações possam conviver com o planeta, levando em conta que as gerações do passado praticamente o destruíram? Com isso, a educomunicação ao se aproximar da educação ambiental, traz a vontade da luta e uma visão holística dos processos. A ação do educomunicador faz com que ele se sinta duplamente envolvido. Isso é percebido pelos adolescentes.
Na experiência radiofônica do Educom Rádio em São Paulo, com cerca de 3,6 mil produções, praticamente 70% delas eram sobre o meio ambiente. Os jovens decidiram sobre o conteúdo de seus trabalhos. Reconheceram problemas da área ambiental e demonstraram estar atentos a isso e usaram a comunicação para tentar encontrar a solução. O educomunicador formado na universidade terá condições de atuar em assessoria em órgãos públicos, empresas, ONGs e nas próprias escolas, para auxiliar soluções mais adequadas socioambientais. Entra em nova perspectiva, ao considerar a complexidade do mundo da Ciência, que leva à busca imprescindível de diálogos. É o profissional do presente, que tem o papel de mediador e tem condições de assumir lideranças e de provocar lideranças.


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Sucena Shkrada Resk

06/04/2012 16:08
Especial Educom 2012: Grácia Lopes Lima fala dos objetivos do Cala-Boca Já Morreu,por Sucena S.Resk

Durante o Encontro Paralelo de Educomunicação, no VII Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, no último dia 28 de março, Grácia Lopes Lima, doutora em Educação e mestre em Ciências da Comunicação, concedeu entrevista ao Blog Cidadãos do Mundo, momento em que falou de seu olhar sobre o processo educomunicativo e os objetivos do projeto Cala-Boca Já Morreu, que teve seus primeiros passos a partir dos anos 90.

Blog Cidadãos do Mundo – Grácia, como você define a educomunicação?

Grácia Lopes Lima – Eu traduzo a educomunicação como o sinônimo de uma coisa muito simples, no meu entender, que é educação pelos meios de comunicação, ou seja, usar os meios de comunicação social (rádio, vídeo, internet), que atinge um público incontável para promover uma educação diferente daquela que a gente sempre recebeu essencialmente pela via escolar. Essa é para aprender a obedecer e se enquadrar, a ser objeto e não sujeito. É chamada de tradicional ou tecnicista. Isso quer dizer, que por muitas vezes, pensa-se em se produzir...produzir de forma fabril, em que há alguém que manda e outro que obedece. Por outro lado, diferente dessa, há a educação que queremos produzir pelos mesmos meios de comunicação, voltada ao fortalecimento do indivíduo e não ao “empoderamento” (termo muito utilizado nesta área).

Blog Cidadãos do Mundo – Qual é a diferença entre o fortalecimento e o empoderamento, na sua avaliação?

Grácia Lopes Lima – Há uma diferença brutal. O empoderamento é uma palavra que vem do inglês, que tem muito a ver com o desenvolvimento do individualismo – ‘eu sou um vencedor, invencível, então, eu me supero e fui escolhido como um cromossoma que venceu’ – e leva a querer ser mais que os outros. Já o fortalecimento propõe o desenvolvimento do indivíduo, que nasce completo e não pela metade, que junto com os outros no grupo segue essa proposta conjunta continuamente até ‘morrer’. Então, educomunicação é educar para essas questões – como recuperar o que me caracterizou como ser humano? Essa educação nos faz lembrar que nascemos para ser independentes da mãe e de qualquer outra pessoa, capazes de criar e sermos responsáveis por nós mesmos. Isso é um processo para a vida inteira, que não é possível se fazer sozinho, mas sempre junto com os outros. Em resumo, educomunicação é uma prática política de intervenção social, fazendo com que as pessoas recuperem o que nos caracteriza como seres humanos.

Blog Cidadãos do Mundo – A tecnologia é imprescindível para a educomunicação?

Grácia Lopes Lima – A tecnologia não é invenção da modernidade. Sempre existiu na leitura escrita, desde as inscrições nas cavernas, que eram tecnologias sofisticadíssimas, que poucos dominavam. Se você olhar na evolução, houve a modificação, com o formato digital, que tem a função parecida com o período das pedras. Hoje temos outros modos de ler as mensagens. Por isso, as tecnologias são imprescindíveis, para as sociedades que mantêm a leitura escrita, para escrever a própria história. Eu quero, por exemplo, jovens e velhos, sabendo usar um blog para contar sua própria história, seus pensamentos. Já para os agrafos, não é necessária a tecnologia, pois a tradição é oral. Elas dispensam o registro da palavra, porque consideram que a memória está no próprio corpo.

Blog Cidadãos do Mundo – Qual é o objetivo do Cala-Boca Já Morreu e seus desafios?

Grácia Lopes Lima – O Cala-Boca já Morreu nasceu com a proposta de uma empresa de educação chamada GENS, hoje Instituto GENS de Educação e Cultura, formada por dois professores. Um de filosofia (Donizeti) e uma de português (eu), muito inquietos quanto aos seus papéis no mundo e com relação à educação que optaram a desenvolver ao longo da vida. Que caminhos procurar para resgatar a autoria das pessoas? A escola formal contribui para perdermos essa autoria. A gente reproduz, fala a palavra dos outros. Isso desvaloriza a capacidade criativa. O GENS, em 1995, criou um programa de rádio com um grupo de crianças. Consideramos que é preciso ouvir as pessoas, desde a mais tenra idade. Elas acabaram se envolvendo tanto com as próprias palavras, que além do programa, fizeram jornal escrito e programa de TV. Isso demonstrou que quando estão envolvidas consigo, a tecnologia é a ferramenta que possibilita ouvir-se mais e prestar atenção a si mesmo e fez com que surgisse o projeto de educação pelos meios de comunicação.
Quando nos demos conta, nos anos 2000, aquelas mesmas crianças (então, adolescentes) continuavam conosco e nós, junto com eles. Então, pensamos, que essa ação da instituição, que era sem fins lucrativos, precisava caminhar com as próprias pernas. O Cala-Boca Já Morreu em 2004 passou a ter à sua frente essas crianças da década de 90. Atualmente, a sede fica em Pinheiros, em São Paulo, e desenvolvemos trabalhos semelhantes, coordenados por eles. Quem quer participar, em toda tarde de sábado, são realizadas oficinas de comunicação. Há crianças a partir de cinco anos e adolescentes fazendo rádio. O projeto ainda promove assessoria de educomunicação pelo Brasil inteiro. Todos são autônomos, ninguém é empregado de nenhuma empresa, desenvolvem projetos, como aprenderam conosco, desde aquele período.

Blog Cidadãos do Mundo – Como manter a ética na manutenção de patrocínio dos projetos?

Grácia Lopes Lima – Quando a gente diz que a pergunta principal para quem trabalha com educomunicação é: de onde vem o dinheiro que te mantém? Essa questão desencadeia as possibilidades de geração de renda. O Cala-Boca já Morreu optou por não entrar em editais, consegue trabalhos e não tem patrocinador. Hoje recebemos convites para desenvolver oficinas, palestras e projetos. Todo financiamento é gerado por trabalho pelos próprios participantes. Na sequência, conseguimos desenvolver um princípio de co-gestão, que permite a todos que participam do projeto, saber quanto entra do orçamento e decidir como será dividido. Neste momento, a definição é que independente do título acadêmico que a pessoa tenha e de função, todos ganhamos igualmente (mas não é uma cooperativa). Cada grupo terá de encontrar seu caminho. Mas é extremamente animador, quando aprendemos a ouvir nossos pares, pois nos tornamos companheiros e achamos as saídas.

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Sucena Shkrada Resk

26/03/2012 07:34
Encontro de Educomunicação no VII Fórum de EA, por Sucena Shkrada Resk

Desde 2008, venho me familiarizando com o universo da educomunicação socioambiental, quando cobri profissionalmente o VI Simpósio Brasileiro de Educomunicação, no Sesc Vila Mariana, e comecei a pesquisar e levar esse aprendizado à construção de artigos, entrevistas e matérias e aos alunos em sala de aula. Nesse contato, introduzi no meu dia a dia, o desafio de estabelecer na prática os conceitos contidos nas palavras "empoderamento" da sociedade, papel de facilitadora (sem cunho de status) e autonomia, entre tantas outras.

Tudo isso realmente provoca uma tempestade de ideias, pois cabe a quem assume o exercício de educomunicador, nos bastidores e fora deles, propiciar que os indivíduos - principalmente das chamadas minorias - tenham poder de voz ou redescubram essa potencialidade, muitas vezes, adormecida, e assumam o protagonismo.

Para tanto, é preciso primeiramente acreditar nesses princípios e que haja incentivo e implementação de políticas públicas já existentes, como a Política Nacional de Educação Ambiental (Lei 9.795/99) e a Resolução nº 422, de 23/03/2010, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que destaca o papel da educomunicação na educação ambiental.

E encontrar a sutileza (creio que é a expressão adequada) de promover esse incentivo exige persistência - há momentos em que é importante estar em cena e outros, não. Em outras palavras, ir em busca da horizontalidade da comunicação, que tenha o propósito educativo na sua gênese, de respeito cultural, ao meio ambiente e à justiça social. Uma ideia em que o conceito de rede não trava, mas liberta, em que sabemos o que, para que e porque estamos defendendo uma tese, um ideal, uma causa...com princípios éticos e temos o poder de opção das "ferramentas" para veicular essa mensagens.

Agora, nos próximos dias 28 e 29, o Encontro Paralelo de Educomunicação no VII Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, que acontece em Salvador, pretende colocar o tema no centro da pauta. Serão discutidas questões como:
- A evolução do conceito de educomunicação e a academia;
- A educomunicação em construção nas políticas públicas e em projetos de Educação Ambiental
- A comunicação e educação ambiental na visão de um pesquisador em conservação
- e obviamente, os desafios e propostas e perspectivas pela frente.

Para trazer a experiência prática, os grupos Tanara e Timoneiro (a confirmar), da Bahia, se apresentarão e os participantes do encontro terão espaço para narrar seus projetos e boas práticas...

Entre os palestrantes convidados, estão o professor Ismar de Oliveira Soares, da Universidade de São Paulo (USP), que, desde 96, difunde o tema da Educomunicação; Renata Maranhão, gerente de projetos da Secretaria de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (SAC – MMA) e Gracia Lopes Lima, sócia-fundadora do Instituto Gens de Educação e Cultura, co-responsável pelo Projeto Cala-Boca Já Morreu. Também se apresentarão o biólogo Silvio Marchini, que desenvolve o curso “Como entender e influenciar comportamentos humanos que afetam o meio ambiente” e Lara Moutinho da Costa, superintendente de Educação Ambiental da Secretaria de Estado do Ambiente do Rio de Janeiro, para falar do programa Ondas do Meio Ambiente.

O site com a programação geral do VII Fórum de Educação Ambiental é: http://viiforumeducacaoambiental.org.br/programacao-geral.

Dados sobre o Encontro Paralelo de Educomunicação podem ser encontrados, nos seguintes endereços: http://www.facebook.com/events/196571577123747 e no Blog Educom Verde .

O evento é coordenado pela jornalista Debora Menezes, no qual colaborarei na facilitação e relatoria com as também jornalistas Camila Doretto e Daniele Próspero, e a bióloga Vivian Battaini.

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Sucena Shkrada Resk

22/03/2012 22:12
Nota: EIMA8 lança informe rumo à Rio+20, por Sucena Shkrada Resk

No último dia 15, ocorreu o lançamento do Informe Eima8, do Encontro Iberoamericano sobre Desenvolvimento Sustentável, realizado pela Fundación CONAMA e parceiros, em outubro passado, em São Paulo. A íntegra do documento, que discute ações e desafios rumo à RioMais20, nos eixos da economia verde, energia e água, entre outros, pode ser consultada em pdf, neste link: http://www.eima8.org/download/bancorecursos/Eima8%20baja.pdf .

O material foi uma realização conjunta com a Fundación MAPFRE, o Laboratório de Inovação, Empreendedorismo e Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (Labies/FGV), o Instituto Ethos, a Rede Nossa São Paulo, além da Itaipu Binacional e do Ecodes.

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18/11/2009 - Entrevista especial- Enrique Leff, da sabedoria tradicional à COP-15
Sucena Shkrada Resk

22/03/2012 21:42
Campanha A Água e a Segurança Alimentar, por Sucena Shkrada Resk

Hoje, data em que se comemora o Dia Mundial da Água 2012, uma das inúmeras iniciativas pelo mundo, é a Campanha "A Água e a Segurança Alimentar", promovida pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). O objetivo é incentivar a redução do consumo, o uso racional e combater o desperdício. Mais detalhes sobre os objetivos, exemplos de onde praticamos os excessos e onde se encontra a escassez no mundo, podem ser consultados no site: http://www.unwater.org/worldwaterday/downloads/WWD2012_BROCHURE_ES.pdf .

O relatório reforça que hoje, há mais de 7 bilhões de pessoas para serem alimentadas no planeta e deverá ter mais 2 bilhões em 2050. As estatísticas mostram que todas as pessoas (com exceção de milhares que já sofrem com a escassez d´água em vários pontos) bebem de 2 a 4 litros de água por dia, mas a maior parte é incorporada no alimento que nós comemos: para produzir 1 quilo de carne, por exemplo, são consumidos 15.000 litros de água e para um 1 quilo de trigo, 1.500 litros.

Neste link, há mais dados sobre a campanha: http://www.unwater.org/worldwaterday/index_es.html .

Veja mais no Blog Cidadãos do Mundo:
02/03/12 - A importância da discussão da água na Rio+20
15/02/12 - Rumo à Rio+20: Foco da campanha Meu Sonho Verde
07/02/12 - Memória: Os bastidores da Ecoagência
13/01/12 - Rio+20: O que fazemos com tanta informação?
06/01/12 - Anos e décadas institucionais da ONU e a Rio+20
27/12/11 - Nota: Rumo à Rio+20 - água potável em questão
28/07/11 - Atenção às nossas águas
Entre outras...
Sucena Shkrada Resk

22/03/2012 21:25
Nota: Amazônia no Google Street View, por Sucena Shkrada Resk

Agora, é possível ver alguns cenários da Amazônia, em boa resolução, na plataforma Google Street View (com visão de 360 graus). A região do rio Negro é um dos destaques no acervo de imagens...Esse projeto foi realizado em parceria com a Fundação Amazonas Sustentável (FAS) e com o Centro Estadual de Unidades de Conservação (CEUC), vinculado à Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas (SDS). Segundo a FAS, a coleta de imagens foi autorizada individualmente por cada morador das localidades onde as equipes do Google e da entidade passaram.

Nesta plataforma, também são encontrados outros destinos, como das cidades históricas brasileiras, do mundo e até dos estádios da Copa. Neste último, uma boa maneira de acompanhar os gastos públicos, por sinal.

O endereço do site é: http://maps.google.com.br/intl/pt-BR/help/maps/streetview/
Sucena Shkrada Resk

22/03/2012 21:03
Resíduos sólidos: Projeto mapeia aterros sanitários necessários no país, por Sucena S. Resk

A Associação Brasileira de Resíduos Sólidos e Limpeza Pública (ABLP) lançou um projeto técnico, nesta semana, que prevê a implantação no país, de 256 aterros sanitários de grande porte e 192 de pequeno porte, totalizando 448 aterros, a um custo total de cerca de R$ 2 bilhões. A iniciativa visa a erradicação dos “lixões” até 2014, que é uma das principais diretrizes da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).

Segundo a organização, os recursos viriam do governo federal, para a aquisição de terrenos, projetos, licenciamentos e instalação de células para acondicionamento de resíduos e rejeitos, por um prazo de cinco anos. Já a manutenção e ampliação dos aterros, num prazo de duas décadas, deverão ser bancadas pela iniciativa privada. Para isso, algumas das alternativas propostas pela ABPL são a formação de consórcios municipais e PPPs (parcerias público-privadas) para a gestão das unidades.

Atualmente, de acordo com a entidade, dos 5.564 municípios brasileiros, aproximadamente 800 mantêm aterros sanitários.

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25/11/11 - Reflexão: Audiência pública nacional sobre o Plano de Resíduos Sólidos
28/10/11 - Por dentro do saneamento básico
15/05/11 - Nós e a responsabilidade compartilhada s/o consumo e destinação do lixo eletrônico
26/04/11 - A “sociedade do lixo”: 60.868.080 toneladas só em 2010
08/01/11 - Personagens do Brasil: vozes da Várzea do Amazonas
02/09/10 - Adaptação tem de ultrapassar a retórica
15/07/10 - Reflexões sobre resíduos sólidos...
Sucena Shkrada Resk

22/03/2012 20:20
Sustentabilidade: Gro Brundtland no Brasil, por Sucena Shkrada Resk

Gro Brundtland está na Amazônia e participou de entrevista coletiva no 3º Fórum Mundial de Sustentabilidade, que acontece em Manaus, promovido pelo LIDE – Grupo de Líderes Empresariais. A ex-ministra norueguesa, que coordenou o relatório Nosso Futuro Comum , importante documento que começou a nortear o conceito de desenvolvimento sustentável, em 1987, disse que o mundo precisa superar as dificuldades de negociação em bloco, durante a Rio+20.

Ela também recomendou cautela ao Brasil na exploração das jazidas de petróleo descobertas recentemente na camada do pré-sal, pois há uma série de riscos ambientais relacionados à atividade petrolífera. E sugeriu que o governo consulte outros países que fizeram esse mesmo tipo de perfuração em águas profundas, para absorver experiências negativas e positivas. A Noruega é justamente um desses países...E destacou que desenvolvimento sustentável é muito mais do que palavras, mas o que as pessoas fazem na prática desse conceito.

Abaixo, segue vídeo do Repórter Eco, de novembro de 2007, com entrevista feita com Gro Bruntdtland... http://www2.tvcultura.com.br/reportereco/materia.asp?materiaid=707 . É um material histórico interessante para consulta de mais uma passagem recente dela no país e suas considerações sobre o quadro geopolítico e socioambiental no planeta.

Veja mais no Blog Cidadãos do Mundo:
13/03/12 - #RioMais20: Reflexão: Como entender o jogo do tabuleiro?
13/03/12 - Nota: expectativas oficiais sobre a Rio+20
11/03/12 - Nota: como participar do processo da Cúpula dos Povos?
10/03/12 - Refugiados climáticos: do alerta ao fato
04/03/12 - Pensata - Rio+20: agora é a vez do como
02/03/12 - A importância da discussão da água na Rio+20
Entre outras, desde 05/12/10.
Sucena Shkrada Resk

16/03/2012 21:12
Aziz Ab`Saber: uma mente brilhante, por Sucena Shkrada Resk

Fiquei contente em encontrar em meu arquivo de imagens, a foto que tirei do professor Aziz Ab`Saber, em 30 de abril do ano passado, quando fui conversar com ele, após o espetáculo de Ariano Suassuna, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Sentado na primeira fileira, com a voz mansa e demonstrando a ânsia por continuar ativo, contou que ia praticamente todo dia à Universidade de São Paulo (USP), para fazer as suas leituras e pesquisas (não conseguia parar)...Essa foi a última vez que tive a oportunidade de vê-lo pessoalmente...Que boa lembrança!

Hoje ele partiu para uma nova jornada, mas com certeza deixa um importante legado socioambiental. O geógrafo entregou justamente ontem, o último capítulo do terceiro volume de seu livro, “Leituras indispensáveis”, que trata de comentários sobre artigos que selecionou como importantes para a formação humana dos jovens. Segundo a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), da qual o pesquisador era presidente de honra, o lançamento ocorrerá em julho. Em mais de 70 anos de atividade, produziu pelo menos, 300 trabalhos acadêmicos de relevância.

Tive oportunidade de entrevistá-lo, algumas vezes, além de ouvi-lo em algumas palestras, como a que ministrou em 2009, na Universidade Municipal de São Caetano do Sul, na abertura da Conferência Darwin no Contexto Científico e Social. Era um pesquisador vibrante. Quando falava da Amazônia e do respeito aos povos da floresta, como também da regionalização do acesso ao conhecimento das populações sobre seus biomas...era algo realmente estimulante...Atento ao processo de votação do projeto de lei do novo Código Florestal, tecia críticas fundamentadas. Para o geógrafo, as mudanças na legislação tinham que ser conduzidas por pessoas competentes e bioeticamente sensíveis.

A última vez que tive oportunidade de conversar com ele, pessoalmente, foi após o espetáculo de Ariano Suassuna. Essa experiência resultou neste artigo, que escrevi no dia 1º de maio e que é minha sincera homenagem a ele:

Suassuna, em verso e prosa, por Sucena Shkrada Resk (Blog Cidadãos do Mundo)
O escritor, poeta, dramaturgo e historiador Ariano Suassuna, 84 anos, no palco, e o geógrafo Aziz Ab´Saber, 87, na plateia. Poderia haver combinação mais emocionante de se flagrar? Presenciei esse bonito quadro, neste sábado, 30 de abril, no teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo, durante a aula-espetáculo do escritor paraibano, radicado em Recife. Por mais uma vez, ele superou ‘sua aversão’ às viagens aéreas, para trazer aos paulistanos, um pouco de sua vasta contribuição à cultura brasileira.

Durante quase duas horas, compartilhei uma viagem no tempo. Um ir e vir de trocadilhos, glosas, críticas aos preconceitos à cultura de raiz, além de um humor perspicaz, que provocou risos largos do público. Essa gama de informações trouxe à tona importantes momentos da carreira do criador do Movimento Armorial, reconhecido internacionalmente por obras, como “Auto da Compadecida” (1955).

O Movimento Armorial foi iniciado por Suassuna, em Recife, em 18 de outubro de 1970, com o propósito de ampliar o reconhecimento das raízes das manifestações populares culturais brasileiras, e até hoje ele mantém um trabalho neste sentido.

Em vez de me estender em interpretações, decidi optar por transcrever algumas frases que ouvi de sua exposição, ontem, e compartilhá-las com vocês:
-“... Minha posição tem caráter didático. Fui professor, durante minha vida toda, desde os 17 anos...”
- “...Até hoje me espanto com o poder de improviso que têm os cantadores. Que coisa extraordinária...”
- “Fui criado lendo...Além da leitura, eu me encantei pelo circo...
- “Gosto de rir e fazer rir...”
- “Quero desmoralizar esse pessoal que diz que o povo brasileiro não sabe o que é bom...Mas se apresentarem a ele só o que é ruim...”
- “...O que acho mais bonito em nosso povo é a unidade na diversidade...”

Foram tantas passagens contadas de forma coloquial pelo escritor, que seria impossível descrevê-las em um resumo. Mas de tudo que transmitiu, extrai o seguinte - Por muitas vezes, reclamamos da vida, por pequenas discordâncias, mágoas por palavras mal empregadas ou rompantes de sentimentos enraivecidos. Nesses momentos, esquecemos que a vida pode ser poética, harmoniosa, com risos largos e esperançosa. Quando conhecemos pessoas, no alto de sua maturidade, que produzem e nos incentivam, provocando nossa reforma íntima, sentimos o quanto é preciso lutar pelo envelhecimento com dignidade.

Ao falar com o professor Ab`Saber, ao término da apresentação, eu obtive mais uma lição de humildade. Ele contou que estava vendo pela primeira vez uma ‘aula’ de Suassuna e havia se encantado. Nas entrelinhas, deu o seguinte recado - um bom educador e pensador nunca se cansa de aprender. E com mais um detalhe, digno de nota. Apesar de aposentado e com dificuldade para caminhar, ele praticamente vai todo dia à Universidade de São Paulo (USP), estudar e compartilhar conhecimentos. E completou - “Uma vez (Suassuna) foi à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) para fazer uma palestra, que foi tão interessante, que depois dele, ninguém mais queria falar (rs)”.

Esses momentos singulares não pararam por aí. Ainda tive a oportunidade de entrevistar Suassuna em coletiva de imprensa, para finalizar o conteúdo para uma matéria que estou produzindo. Um momento especial nos bastidores de minha carreira. No final da noite, já cansado de tanto atender aos apelos dos jornalistas – inclusive, o meu, é claro rs -, gentilmente, ele autografou o livro Almanaque Armorial, com organização de Carlos Newton Júnior, pela José Olympio, que eu havia comprado lá, para conhecer um pouco mais de seu trabalho.

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15/09/2009 20:44 - Um pensador além de seu tempo
Sucena Shkrada Resk

13/03/2012 11:39
#RioMais20: Reflexão: Como entender o jogo do tabuleiro?, por Sucena Shkrada Resk

Como que a sociedade civil não-organizada pode entender o "jogo de tabuleiro" da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (#RioMais20) e da #CúpuladosPovos na Rio+20 por Justiça Social e Ambiental? Não há receita de bolo para isso, mas é necessário que compreendendamos quais são os atores que têm papel "decisório" nesse gigante esquema, que envolve oficialmente 193 nações mundiais e todos os cidadãos planetários (de forma organizada e não-organizada), e em qual patamar estão as negociações para possíveis acordos políticos internacionais com relação ao rascunho zero.

Ao ter essa dimensão, é possível articular pautas, reivindicações, solidificar cobranças sobre as demandas de nossas vivências reais do dia a dia: nos eixos da segurança alimentar, água, energia, adaptação às mudanças climáticas....

Mas algo que tem de estar claro, em qualquer uma das agendas: se não mudarmos nosso padrão de consumo, nossa pegada ecológica, de nada adiantarão a Rio+20, as Conferências das Partes nas áreas do clima, biodiversidade, desertificação, o Tratado de Educação Ambiental, ... Não podemos ser ingênuos: o modelo de produção do desenvolvimento econômico, que hoje vigora, só mudará, se mudarmos nossa consciência sobre o consumo...

Em tudo há pressão, nessa balança....Resta saber para qual lado da balança queremos pender...

Parece esquizofrênico? Não deixa de ser. Mas é a realidade, que por muitas vezes, tentamos esconder, com receio de constatar que somos parte atuante (seja na proatividade ou na passividade), nessa engrenagem...O que nos discursos é óbvio, na prática, está longe de ser.

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13/03/12 - Nota: expectativas oficiais sobre a Rio+20
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Sucena Shkrada Resk

13/03/2012 08:16
Nota: expectativas oficiais sobre a Rio+20, por Sucena Shkrada Resk

#Rumo_à_Rio+20 - A agenda da reunião de negociações dos países continua...(19 a 27/03 - 23/4 a 04/05 - 13/06 a 15/06), antes da rodada oficial. Segundo Sha Zukang, secretário-Geral da Conferência, a expectativa é de que governos, empresas e outras partes interessadas registrem mais de 1.000 compromissos voluntários, concretos e mensuráveis de apoio à sustentabilidade global e que os Estados-Membros e outras partes interessadas apresentem na conferência, um conjunto de “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”...

Nesse processo, cabe à sociedade participar, cobrar e acompanhar...Entender o mecanismo de participação na agenda oficial não é fácil, mas precisa ser divulgado, para que os cidadãos sejam inseridos realmente no processo... Informações podem ser encontradas no site http://www.rio20.gov.br/sobre_a_rio_mais_20/participacao-na-conferencia .

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Sucena Shkrada Resk

12/03/2012 21:09
Nota: Os vazios deixados por Fukushima, por Sucena Shkrada Resk

#Fukushima_um_ano - O desafio de se preencher vazios. Esse pensamento me passou ao ver as manifestações realizadas no domingo, com relação ao aniversário de um ano do terremoto e tsunami no Japão, que resultaram no desastre nuclear em Fukushima e em 15.853 mortes e estragos em outras cidades. Ainda 3.283 estão desaparecidas.

Às 2h46 (horário de Brasília) de ontem, houve um minuto de silêncio...Ver idosos, adultos e crianças homenageando seus mortos e desaparecidos causou comoção. Em vários lugares do mundo, as mobilizações se repetiram...Não só toneladas de escombros deixaram as marcas dessa tragédia, mas os olhares úmidos e semblantes tristes, de pessoas que ainda tentam superar a dor.
Sucena Shkrada Resk

12/03/2012 19:20
Versão em português dá dicas de 50 livros sobre sustentabilidade, por Sucena Shkrada Resk

Como fazer com que a palavra sustentabilidade não caia no descrédito? Quem nunca se questionou, ao menos, uma vez, ao ouvir aos “quatro ventos” o seu uso para os mais diferentes comportamentos e ações, já que se tornou corriqueira, em propagandas, nem sempre, condizentes ao conceito? Para ajudar nessa reflexão, uma dica de leitura é a versão em português, da publicação “Os 50+Importantes Livros em Sustentabilidade, sob organização do Instituto Jatobás, pela Editora Peirópolis.

A obra original (em inglês) é uma iniciativa da University of Cambridge – Programme for Sustainability Leadership (CPSL). O lançamento da tradução ocorreu, nesta segunda-feira, no auditório da Escola de Economia de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (EESP/FGV), com apoio do Laboratório de Inovação, Empreendedorismo e Sustentabilidade da instituição. Nesta primeira edição, está prevista a distribuição gratuita a instituições de ensino de todo país. A obra segue também às prateleiras das livrarias.

O que chama a atenção na leitura da obra é a remissão a importantes ícones da história socioambiental, suas biografias, além da bibliografia e sites para consulta. Nas sinopses dos livros constam argumentos resumidos de suas teses, o que facilita a compreensão de um leigo. O critério de escolha destes títulos, de acordo com os organizadores, foi resultado de enquete realizada entre cerca de três mil líderes seniores representados por ex-alunos do CPSL.

Entre as obras selecionadas, estão:
- A economia da mudança climática, de Nicholas Stern;
- Canibais com garfo e faca, de John Elkington;
- Gaia, de James Lock;
- Nosso Futuro Comum (Relatório Brundtland);
- O banqueiro dos pobres, de Muhammad Yunus;
- O negócio é ser pequeno, de E.F. Schumacher
- O ponto de mutação, de Fritjof Capra;
- Primavera silenciosa, de Rachel Carson…

Em tempos de tantas dúvidas sobre o caminho do planeta, ter contato pela primeira vez ou reler esses autores possibilita, ao menos, trazer à tona novas reflexões sobre qual é o papel de cada um de nós nesse processo. O fato de terem sido escritos em décadas diferentes, desde os anos 60, também possibilita verificar mudanças e similaridades nessa linha histórica.

Mais informações no site do Instituto Jatobás .
Sucena Shkrada Resk

11/03/2012 22:23
P.1- Paulo Nogueira-Neto:história que se funde com o ambientalismo brasileiro, por Sucena S.Resk

Falar sobre Paulo Nogueira-Neto não é uma das tarefas mais fáceis, afinal, é figura-chave para a compreensão da história “viva” do socioambientalismo brasileiro e internacional. Prestes a completar 90 anos, em 18 de abril, esse paulistano continua a contribuir com suas reflexões oriundas de uma experiência de pelo menos 60 anos de jornada, em que transitou do Estado Novo à Ditadura e à Democracia, consolidando seu posicionamento sobre a “sustentabilidade”.

Nos anos 50, ele lembra que “os ambientalistas”, movimento do qual já fazia parte, cabiam em uma Kombi. “Havia uma em São Paulo e outras em Minas Gerais, em Pernambuco, no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro...”, fala bem-humorado. Nessa época, foi um dos fundadores da Associação de Defesa da Flora e da Fauna, que posteriormente se transformou na Associação de Defesa do Meio Ambiente - São Paulo (Adema - SP).

Uma pessoa de sorriso fácil e memória invejável – diga-se de passagem –, ele relembra de detalhes de bastidores de momentos importantes que protagonizou como homem público e militante da área ambiental e não demonstra desânimo ao defender políticas no setor mais vigorosas no país e no mundo. Para isso, não mede esforços. Aconselha (seja quem for), desde estudantes à presidente da república, Dilma Rousseff, quando se trata dos riscos impostos na atualidade à agenda ambiental, sobre a qual se esforça em estar atualizado.

Uma de suas preocupações atuais é o andamento da votação do Código Florestal, na Câmara dos Deputados.“O projeto de lei realmente tem alguns problemas. A reforma será boa, desde que não prejudique o meio ambiente”

Professor emérito de Ecologia da Universidade de São Paulo, na qual ministrou a disciplina, desde 1988, e membro do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), do qual também foi presidente e fundador, Neto tem um currículo extenso nessa seara. Formado em Ciências Jurídicas e Sociais, em 1945, e em História Natural, em 1959, pela Universidade de São Paulo (USP), como pesquisador, tornou-se especialista em abelhas indígenas sem ferrão (Meliponinae) e em pombas e rolas, entre outras.

Foi nomeado o primeiro secretário especial do Meio Ambiente (SEMA), em 1974, órgão à época, vinculado ao Ministério do Interior, com prerrogativas de ministro. E lá permaneceu até 1986. “Sobrevivi a quatro governos (rs), até a metade da gestão Sarney. Eu estava representando a comunidade científica e interessado na relação do país com o meio ambiente”.

“Na década de 70, recebi o convite para ser secretário e me deram três salas e cinco funcionários (quase nada para a atribuição que teria), então, pensei – Como fazer isso crescer? Não tinha poder de polícia, era uma missão praticamente missionária”.

Neto se recorda que era um período difícil da Ditadura, com o governo militar e políticos conservadores. “Fiz questão de ficar fora da política partidária e pensei que uma maneira de fazer o trabalho crescer era me aliar à imprensa. Eu criticava o problema e dizia como poderia ser resolvido. Tratava de questões graves, como a poluição horrorosa em matéria de enxofre. Mesmo hoje ainda é um problema, imagine naquela época. Na cidade de São Paulo, as pessoas ficavam com lágrimas nos olhos, sem estar tristes e roucas, sem participarem de comícios...”.

Sob sua gestão, foi criada a Política Nacional de Meio Ambiente, em 1981. “Só teve dois votos contrários. A aprovação teve aspectos interessantes. O primeiro artigo que o Franco Montoro havia proposto, previa prisão. Outro líder do governo falou que se ele mantivesse essa pena no texto, não seria aprovado (então, houve alteração). E esse projeto criou o Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama)...”.

“No início do Conama, Mario Andreazza (então, ministro do Interior) ficou estupefato de o governo não ter liderança no órgão. Até hoje o governo federal é minoria lá e ninguém percebe (rs). São 110 membros e o questionamento de que não poderia funcionar por causa disso não é verdade. O conselho é subdividido em câmaras técnicas e quando a resolução vai à plenária, quase tudo está resolvido. Mas ainda há muita coisa a melhorar...”

Mais uma pauta prioritária, segundo Paulo Nogueira-Neto, se referia às fábricas de amianto e o comprometimento da saúde humana.

O ex-secretário Especial de Meio Ambiente lembra, como se fosse hoje, que um dos primeiros atos nesse cargo, foi o de ampliar aos poucos a quantidade de parques nacionais no país, enfrentando muitas resistências. “Criei três unidades novas e o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF) não podia achar ruim”.

E anos mais tarde, mais precisamente em 1989, era criado o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), com a fusão da Secretaria do Meio Ambiente (SEMA), da Superintendência da Borracha (SUDHEVEA), da Superintendência da Pesca (SUDEPE) e do IBDF. Neto foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento dos conceitos das unidades de conservação no país, que desde 2007, estão sob gestão do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

“Com relação às Áreas de Proteção Ambiental (APAs), tirei a ideia de uma viagem que fiz a Portugal. Lá recebe o nome de Parque Natural. Mas todos têm de ser (rs), o nome era meio estranho, mas o conceito bom. Não tem custo nenhum e não pode ter fonte industrial de poluição...”

Quanto às estações ecológicas, ele deu seu “toque de professor universitário”. “Deveriam ter a missão ligada à pesquisa e a gestão de universidades locais, na administração das mesmas”.

Paulo Nogueira Neto revela que um dos momentos mais marcantes de sua trajetória foi participar da Comissão Brundtland da Organização das Nações Unidas (ONU), responsável pela elaboração do relatório de “O Nosso Futuro Comum”, em 1987, quando surgiu o embrião do conceito de sustentabilidade. “A ideia era de proteção ao meio ambiente, incentivo à educação, melhoria das condições de saúde...”

Quantas recordações, em praticamente duas horas...Essas e outras histórias dos bastidores do ambientalismo, ele contou durante palestra, nesta semana, no Instituto de Eletrotécnica e Engenharia, da USP, que continuarei a relatar na segunda parte dessa matéria.

Sucena Shkrada Resk

11/03/2012 12:55
Nota: como participar do processo da Cúpula dos Povos?, por Sucena Shkrada Resk

11/03 - Para facilitar a compreensão, no processo de participação da #Cúpuladospovos , seguem duas maneiras divulgadas pela organização:
- Chamada para participação de entidades (atividades autogestionadas) - http://cupuladospovos.org.br/2012/02/como-voce-pretende-participar-da-cupula-dos-povos/
- Como a população em geral pode participar de Comitês Estaduais - http://cupuladospovos.org.br/2012/03/nao-e-do-rio-participe-de-um-dos-comites-estaduais-da-cupula/

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Entre outras.
Sucena Shkrada Resk

10/03/2012 08:07
Refugiados climáticos: do alerta ao fato, por Sucena Shkrada Resk

O anúncio feito pelo governo insular de Kiribati (arquipélago no Pacífico), em 2010, começa a se concretizar em 2012...Esse é um fato real, poucos meses antes da Rio+20. O líder do governo anunciou que o país deve adquirir 20 km² de terras em Fiji, para poder levar aos poucos a sua população de cerca de 113 mil. Essa remoção, que implica a complexidade das adaptações culturais, geração de empregos e tantas outros ângulos, não integra a pauta principal da agenda internacional. É a realidade que cerca tantas outras nações que já passam pelo mesmo problema.

A situação dos refugiados climáticos ou ambientais será uma das prioridades da conferência, em junho, com o vigor que o fato merece ou ficará "perdida" nas exaustivas negociações na COP18, já que suas reivindicações não receberam o tratamento devido nas edições anteriores? E quem se lembra de Tuvalu, por exemplo? É bom marcar esse nome, porque, talvez, não faça mais parte do mapa-múndi daqui a algum tempo, como Kiribati.

A memória para alguns é mais presente do que para outros, quando se trata do contexto do avanço dos comprometimentos humanos e territoriais, que envolvem as alterações do clima. Poucas centenas, talvez, se recordem da manifestação durante a 17ª Conferência das Partes (COP-17) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, em Durban, na África do Sul, em dezembro de 2011. Lá, centenas de pessoas lotaram os saguões em solidariedade às reivindicações dos africanos e de representantes dos países insulares.

Em 2010 (COP16), no México, Dessima Williams, presidente da Aliança dos Pequenos Estados Insulares (Aosis), que representa 43 países, também tentou, em vão, sensibilizar as nações poluidoras sobre a necessidade de mitigação (redução de danos) e adaptação, limitando a 1,5 graus a temperatura média no planeta.

E a pequena Tuvalu, de 26 km 2, encravada também no Pacífico, ganhou notoriedade na mídia, durante a COP15, em Copenhague, apelando para que o mundo olhasse para a situação dessas nações ,que ficam em arquipélagos no meio do oceano, que estão sendo engolidas literalmente pelo mar, por causa do nível das águas que aumenta a cada ano.

No gerenciamento de perdas e danos, é preciso ir mais longe e sem discursos demagogos "do vamos ajudar, somos solidários". As situações mais emergentes estão no Chifre da África, na Ásia. As pessoas vagam milhares de km em busca de refúgio. Algumas morrem pelo caminho, outras vão parar em campos de refugiados. O que as leva para esse estágio de penúria? Além da situação climática, sofrem com governos ditatoriais e guerras civis. Tudo se interliga. Basta ver o estado em que se encontra o maior campo de refugiados no mundo - Dadaab, no Quênia. Uma bomba-relógio prestes a explodir.

E o Brasil, nessa história? Fez discursos de apoios a esses países vulneráveis, mas...Por aqui, as tragédias também começam a se acumular no histórico dos últimos anos, com a intensificação das chuvas em vários pontos do país, com o avanço do mar em sua costa, a devastação dos manguezais, a savanização na Amazônia...A seca está cada vez mais presente, não só no Nordeste, mas no Sul do país. Tudo isso deveria ser argumento suficiente para medidas mais incisivas, de curto a longo prazo.

Neste mês, foi aprovada na Câmara, a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil e que autoriza a criação do Sistema de Informações e Monitoramento de Desastres. Alguns podem dizer - "Antes tarde, do que nunca". Mas o concreto é que o país está muito atrasado no quesito de adaptação...Basta relembrar: Vale do Itajaí, serras fluminenses, Atafona...e tantos outros cenários de enchentes e secas, em todas as regiões. Mais um quadro de incertezas é gerado com o processo de votação do Projeto de Lei do novo Código Florestal, na Câmara.

E voltando a Kiribati, a Tuvalu...quem se importa coma população dessas nações mesmo?

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Sucena Shkrada Resk

05/03/2012 17:43
Rio+20: Zukang no Brasil e cidadãos na mobilização, por Sucena Shkrada Resk

O principal papel da cidadania é exercê-la, senão se torna figurativa. No contexto da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável - Rio+20, o acompanhamento de algumas agendas e documentos também possibilita a construção de argumentos mais sólidos nas bandeiras de lutas. Afinal, é preciso saber "exatamente" com o que concordamos ou não e o porquê.

De hoje até o dia 10, Sha Zukang, secretário-geral da Rio+20, está no Brasil, participando de reuniões com o governo brasileiro. No dia 8, em especial, terá audiência com os parlamentares brasileiros, para tratar dos preparativos políticos e logísticos para a Rio+20 e as formas de propostas quanto à temática do desenvolvimento sustentável. É interessante acompanhar o desenrolar dessas pautas, observar as informações e tratativas.

Enquanto isso, nós, da sociedade civil, ainda podemos nos mobilizar para fazer a leitura do rascunho zero do documento oficial do evento, cujo nome é "O Futuro que queremos", construindo uma análise crítica e propostas sobre o mesmo. Primeiramente para a constituição do próprio repertório individual e depois para o compartilhamento de discussões coletivas.

Caso haja interesse, também é possível que cada cidadã e cidadão encaminhe suas análises à secretaria da Rio+20 (via vídeos ou fotografias de assuntos que você deseja sobre sua comunidade – ou assuntos que pensa que ainda serão parte da vida daqui a 20 anos; Vídeos ou gravações em que você contará suas ideias; Desenhos; Cartas ou curtas redações -300 palavras ou menos).

Esse é um canal da estrutura de comunicação da conferência, que pode ser acessado em "kit de conversação" de "O Futuro que Queremos".

Para quem não tem acesso à internet, é possível encaminhar as propostas para:
Centro de Informação das Nações Unidas – UNIC Rio | Palácio Itamaraty
Av. Marechal Floriano, 196 – CEP 20080-002 | Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Ao mesmo tempo, se cada um de nós começar a se interessar mais por essa pauta, ler, fundamentar críticas (não especificamente para órgãos institucionais obviamente), mas para geração de conhecimento, tem condições de fazer inferências com a realidade que vive e com sua leitura de mundo...É um gancho interessante para explorar.

Afim de ampliar a dimensão dessa discussão, mais uma alternativa é debater as reflexões e propostas em rodas de conversas, que incluam aqueles que têm dificuldade de leitura, não acessam a internet, mas dispõem de um bem valioso: a sabedoria e experiência de vida...

Leia também no Blog Cidadãos do Mundo
04/03 - Pensata - Rio+20: agora é a vez do como
02/03 - A importância da discussão da água na Rio+20
Entre outras.
Sucena Shkrada Resk

04/03/2012 12:30
Pensata - Rio+20: agora é a vez do como, por Sucena Shkrada Resk

Com toda a efervescência da Rio+20 e seus contextos...sabemos o que está "errado", já foi feito o diagnóstico. Agora, está mais do que na hora de pular essa etapa e partir para o como fazer diferente e melhor...E poucos tratam disso. Onde encontramos algo sistematizado, desde modelos e boas práticas contínuas em grande escala? Isso realmente é algo a se preocupar, porque o tempo do "ser humano" não é o mesmo tempo da Terra. A dificuldade está em sermos propositivos...

É importante demonstrarmos descontentamento, mas ao mesmo tempo, levarmos as propostas do fazer diferente e melhor. Emperramos sempre nessa segunda etapa, com raras exceções...

Como possibilidades, poderíamos demonstrar o quanto esse diferente é positivo para o coletivo. Enfim, pensar nas alternativas que mostrem as proposições e compartilhá-las, desde já, não só nos momentos de manifestações pontuais.

Isso requer as contribuições coletivas e o sistema de trocas de experiências. Por exemplo, muitos demonstram que a agroecologia é o caminho, então, por que não levar a agroecologia para os espaços das cidades, visibilizá-la cada vez mais?

De uma maneira geral, falamos da racionalidade da redução do consumo, mas se não reduzimos, do que adianta falar? Demonstrar isso, que vai ser um espelho nas ruas...Como em outras pautas, entre elas, energias alternativas e adaptação às mudanças climáticas etc

Leia também no Blog Cidadãos do Mundo: 02/03/122 - A importância da discussão da água na Rio+20, entre outras.
Sucena Shkrada Resk

03/03/2012 10:06
Pensata: Comunicação compartilhada, por Sucena Shkrada Resk

#Comunicação_compartilhada é o exercício do desapego...Começa por ideias, reflexões e informações para seguir a ações e mudanças de valores. Mas não basta o ctrl C, ctrl V...mas a intenção, a escolha do tema, a utilidade do mesmo, que está na rede dos porquês, dos 'comos' e para quês...Quando construirmos os alicerces de todas as linhas que fazem essa trama ser coesa, talvez, tenhamos um mundo mais inclusivo, em que não sejamos co-autores de sua destruição e consequentemente, de nós mesmos...
Sucena Shkrada Resk

03/03/2012 07:09
O desafio de reaprendermos a ser humanos, por Sucena Shkrada Resk

Alguns ensinamentos na vida são para sempre. Nesse repertório adquirido no dia a dia, as palavras de Nélida Céspedes, educadora peruana, presidente do Conselho de Educação de Adultos da América Latina (CEAAL), proporciona muitas reflexões: "Precisamos reaprender a ser seres humanos".

A frase dita, durante o Fórum Mundial de Educação, em Porto Alegre, neste ano, compreende muitas leituras. Segundo a educadora, hoje, apesar de vivenciarmos um sistema democrático intercultural, enfrentamos a corrupção e o autoritarismo.

"O Movimento de Educação Popular está vivo por sua força ética. Não pode suportar violações. Os direitos a acesso são desde as crianças a imigrantes. É uma pedagogia que combina indignação com as propostas do coração". E nesta seara, segundo ela, está a preocupação com a justiça socioambiental.

Sucena Shkrada Resk

02/03/2012 17:14
A importância da discussão da água na Rio+20, por Sucena Shkrada Resk

Hoje ao ler a matéria 2,7 bilhões de pessoas sofrem com escassez de água, veiculada no Estadão, e acompanhar as discussões que envolvem o VI Fórum Mundial da Água, que acontecerá, em Marselha, entre os dias 12 e 17, reflito o seguinte, no contexto da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20):

Se esse tema for menosprezado dentro das prioridades do encontro, realmente as soluções ficarão mais difíceis para a qualidade de vida no planeta. O tema está contemplado no draft zero (rascunho zero) à espera de uma discussão mais atenta e séria, de fôlego, de curto a longo prazo, tanto pelos governantes, como pelos representantes dos Major Groups (nove segmentos da sociedade civil – consumidores, trabalhadores, empresários, agricultores, estudantes, professores, pesquisadores, ativistas, comunidades nativas). Por outro lado, a pressão política a ser exercida pelo Fórum Mundial da Água ainda é uma incógnita.

Segundo Benedito Braga, que preside o Fórum, lá se reunirão ministros, parlamentares e prefeitos que discutirão em grupos divididos regionalmente nas Américas, Ásia Pacífico, África e Europa. “Teremos também um encontro presidencial de alto nível”, diz. Isso, em sua opinião, favorece uma discussão mais plural e com participantes ativos em decisões na gestão da água.

Ao mesmo tempo, no evento, haverá uma “vila de soluções”. “Recebemos mais de mil propostas e foi feita uma seleção que será apresentada lá. Por parte do Brasil, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apresentará o Projeto Bioma, encomendado à Embrapa, e a Governança Global da Água será um tema tratado por Vicente Andrew, diretor-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), entre outros”.

Mais um assunto importante na agenda, de acordo com Braga, será o debate sobre a questão pública e privada da gestão da água e importância da reservação, no contexto das mudanças climáticas. O que sairá de concreto dessas discussões poderá ou não contribuir, no documento em construção da Rio+20.

Consumo insustentável
Em comunicado feito hoje pelo Centro de Informações das Nações Unidas –(UNIC Rio), o secretário-Geral da Rio+20, Sha Zukang, reforça que o padrão de consumo de recursos naturais no planeta é insustentável e tem de acabar”.

E mais adiante, afirma: “...Mais de um quinto da humanidade está gravemente privado de recursos, sem bens e serviços básicos, incluindo comida, ÁGUA e energia. No entanto, por outro lado, cerca de 20% da população mundial estão consumindo 80% dos recursos naturais. Coletivamente, os sete bilhões de pessoas na Terra estão consumindo cada ano mais de 1,3 vezes os recursos naturais do que a Terra pode renovar”.

Diante de todas as constatações sobre a água e demais recursos, será que o sinal de alerta não impacta nossos governantes, empresariado e nós, da sociedade em geral? Tudo tem a ver com consumo consciente e políticas públicas eficazes e a linha entre a vida e a morte.

O que é mais do que lógico nesses diagnósticos é que a necessidade emergente de mudanças de atos cotidianos fará a diferença nesse tabuleiro mundial de perdas e danos. Não podemos pensar que tudo depende somente das macro ações.

Zukang afirma que a grande diferença entre a ECO92 e a Rio+20 é que essa última tem a participação ativa dos ‘Major Groups’nos procedimentos oficiais, intervindo e participando de mesas redondas ao lado de Estados-Membros e organizações internacionais. Agora, resta saber o quanto estão se mobilizando e qual é o alcance de poder de intervenção nas mudanças de políticas públicas a serem adotadas pelas nações.

O tempo do ser humano não é o mesmo "tempo" do planeta e, por isso, estamos em déficit, sem condições de reverter possivelmente os cenários mais pessimistas, quando formos 9 bilhões, em meados dos anos 2050...Nossas pegadas hídrica, ecológica...estão muito além do ponderável faz tempo.

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Sucena Shkrada Resk

26/02/2012 18:10
Rio+20: a crise social e os empregos verdes na mira, por Sucena Shkrada Resk

Quanto mais se discute os possíveis caminhos da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), o que fica mais claro é o fato de que o diagnóstico já está feito. A questão é tratar de “como” fazer diferente. A crise social global já é reconhecida em números, geograficamente e em suas causas. A pergunta é: o quanto a Rio+20 vai realmente se aprofundar com relação ao "combate à extrema pobreza", de forma contundente e nós, da sociedade civil, vamos pressionar e participar da mobilização, neste sentido...

Um documento que dá um panorama de como está a situação mundial é The Global Social Crisis Report on the World Social Situation 2011 .

Nesse contexto de encontrar alternativas, mais um tema vem à tona, dos empregos verdes. Está aí uma boa pauta para se aprofundar, tendo em vista a complexidade e polêmica em torno do "verde" em toda sua extensão de entendimento.

Algumas fontes de consulta a respeito são encontradas no site: http://www.pnuma.org.br/noticias_detalhar.php?id_noticias=1171 e no estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) - Empregos Verdes: qualificação profissional precisa aumentar – realizada em 21 países ( http://www.oit.org.br/content/empregos-verdes-qualifica%C3%A7%C3%A3o-profissional-precisa-aumentar ).

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Sucena Shkrada Resk

17/02/2012 19:16
Um momento de vivência de educação ambiental em Inhotim, por Sucena Shkrada Resk

O que os estudantes universitários respectivamente nas áreas de Ciências Ambientais e Biológicas, Diego José Rodrigues Pimenta, 20 anos, e Rafael Magalhães Mol, 19, têm em comum? Além de serem amigos, hoje eles atuam como agentes ambientais, que passam por período de estágio de um ano, no Horto Florestal do Instituto Inhotim, em Brumadinho, MG. Tive a oportunidade de conhecê-los, em visita que fiz por lá, no final do ano passado, o que rendeu alguns momentos interessantes, com foco em educação ambiental...

Ao observar a iniciativa desses jovens, foi possível extrair a importância da vivência, além do aprendizado teórico em sala de aula. Pois esse bate-papo foi um exemplo prático de sensibilização.

Eles estavam se preparando para recepcionar outros visitantes - principalmente crianças - para exercitar atividade lúdicas, por meio de dinâmicas, teatralização e jogos, com a finalidade de explicar como são os biomas atlântico e do cerrado e suas características endêmicas. Ao mesmo tempo, expor a singularidade do horto florestal, com mais de 1,2 mil espécies de palmeiras de diversos lugares do mundo, ou seja, seu viés também exótico, que compõe o paisagismo local, além de espécies brasileiras, como a macaúba.

O entrosamento com o meio e o respeito à biodiversidade local foram alguns dos pontos que me chamaram a atenção em suas falas. "Os jardineiros daqui recolhem as sementes dessas espécies introduzidas para que o cultivo não fique descontrolado", explicou Pimenta, ao apontar no entorno o cuidado presente no desenho dos jardins.

Ao mesmo tempo, eles ressaltaram a importância da conservação do horto, onde há mata secundária e introduzida, e o ciclo de vida da fauna da região. "O caxinguelê (um roedor) gosta das sementes e a ave viuvinha também é uma das espécies que mais aparecem por aqui", destacou Rafael, enquanto olhávamos a pequena ave de coloração preta e branca próxima a um arbusto.

E pedi que me explicassem com que linguagem interagiam com as crianças e aí ouvi a seguinte história..."O catinguelê convivia com o teiú (lagarto também comum na região) e um dia, duas crianças vieram passear por aqui e começaram a fotografar os animais, que gostavam de fazer poses. Nessa integração, eles observaram o hábito do roedor de se alimentar de sementes...No final, se deram conta, que não se deve dar alimentos aos animais silvestres, como biscoitos e outras comidas, que não fazem parte da dieta deles..."

E aí, os dois me contaram que havia o conto da Borboleta Azul e a Bromélia, já que é um dos destaques locais, com centenas de espécies. Mas essa fica para uma outra vez...Continuei minha caminhada e registrei essa passagem como algo, que devemos dar mais valor, pois são nesses atos cotidianos, que realmente há o incentivo às propostas básicas para a conservação do planeta, não é verdade? E geralmente não viram manchete.
Sucena Shkrada Resk

15/02/2012 19:26
Rumo à Rio+20: Foco da campanha Meu Sonho Verde, por Sucena Shkrada Resk

A Campanha "Meu Sonho Verde", que está em vigor até a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), propõe que cidadãos apresentem seus sonhos (mensagens em vídeo) encaminhados por e-mail ou pelo telefone. Os temas podem girar em torno de: ar e clima/água e saneamento/biodiversidade e desenvolvimento da proteção, participação comunitária e inclusão social/consumo/energia/informação e educação/ciência, tecnologia e inovação, e transporte, entre outros. A iniciativa é do Instituto para Treinamento e Pesquisa das Nações Unidas (Unitar) e da Cifal Network.

Segundo o Unitar, foi inspirada no projeto Dream In, realizado na Índia, em fevereiro passado. A campanha foi encomendada pelo braço da ONU para treinamento e lançada durante a Conferência Internacional Cidades Inovadoras, em maio 2011, pela CIFAL Curitiba e pela Federação das Indústrias do Paraná. Para mobilizar a sociedade, um número superior a 70 brasileiros chamados de "caçadores de sonhos" recolheu declarações em vídeo em comunidades urbanas de cidades vizinhas de Curitiba. O resultado foi a coleta de 800 sonhos verdes.

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12/09/11 - Rio+20: um cenário de incerteza (parte 1);
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30/06/11 - Nota: mobilização da sociedade para a Rio+20;
06/06/11 - Bastidores do processo da Rio+20;
20/02/11 - Rio além do +40: com certeza + 20 é uma redução da história;
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Sucena Shkrada Resk

11/02/2012 10:54
Memória: Repórter Eco completa 20 anos, por Sucena Shkrada Resk

Cada história completa a experiência de alguém neste planeta. De uma forma indireta, os 20 anos do Repórter Eco, completados neste mês, se integram de maneira fragmentada, às minhas próprias memórias. Em 1992, recém-saída do curso de jornalismo da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), eu participava do 1º Curso de Telejornalismo da TV Cultura, na sede da emissora, na rua Cenno Sbrighi, na Lapa...

Conheci à época, profissionais que começavam a tecer o repertório educomunicativo do jornalismo ambiental televiso, entretanto, não tinha a dimensão do que isso realmente significava. Fui ter essa perspectiva, ao me engajar nessa seara, muitos anos depois, mais precisamente a partir de 2008, de forma contínua (no jornalismo ambiental impresso e on line), quando também descobri que tinha na veia, essa proposta profissional e de vida (sem saber), com a vivência de repórter de cidades...

Voltando no tempo...Era o ano da Eco92 ou da Cúpula da Terra, em que centenas de militantes clamariam quatro meses depois, pela qualidade de vida no mundo e, em especial, em manifestações no Rio de Janeiro. O Repórter Eco nasceu, no período dessa efervescência militante e com um caráter muito interessante, que tenho condição de falar de forma amadurecida hoje: transmitir a pauta socioambiental, de uma maneira didática, o que infere o reconhecimento dos esforços de todas as pessoas que passaram por lá, em frente e por detrás das câmeras. Com o passar dos anos, soube dar mais valor a esse empenho.

Ao olhar lá para trás e para o hoje, o que é possível refletir? O senso ético e batalhador que envolve a prática da comunicação socioambiental; pois fazer cada programa, com certeza, exige muito esforço, redobrado no contexto de uma TV Educativa e pública, em que os apoios (financeiros) não são iguais ao de uma TV comercial. Vou mais além: um esforço de equipe, pois as reportagens não sensibilizarão o telespectador, se não houver o entrosamento desse grupo. Isso não quer dizer somente no âmbito “técnico”, mas quanto a princípios e ideais. E se esses últimos morrerem, não há mais sentido...Perde o diferencial.

Alguns nomes ficaram mais conhecidos na história do Repórter Eco, como de Maria Zulmira e Washington Novaes, de forma merecida. Mas muitos outros profissionais são responsáveis por essa construção. Pesquisei esses nomes:

Alexandro Forte, Camila Doretto, Claudia Tavares, Erinaldo Silva, Flávia Lippi, Isabella Chedid, Lúcia Soares, Maria Flor Calil, Márcia Bongiovanni, Mylene Parisi, Paula Piccin, Pati Ioco, Vera Diegoli e Teresa Cristina de Barros (alguns colegas, tive oportunidade de conhecer pessoalmente no ontem e no hoje), mas sei que muitos não menciono aqui devidamente (cabos man, câmeras, pauteiros, motoristas...), mas se sintam reconhecidos.

Agora, vem a Rio+20 e todas as implicações após a conferência, pois a vida continua neste planeta; um desafio e tanto para trazer novas leituras e contextualizações para a cobertura das repercussões desse evento, como da Cúpula dos Povos. Desejo que todos os profissionais, que fazem parte do Repórter Eco, continuem com a ânsia por um mundo melhor, por trás de cada minuto da fase bruta e da editada dos programas; enxergando no ribeirinho e em personalidades, como o socioeconomista Ignacy Sachs, o mesmo valor de contribuição a todos nós, por meio de suas experiências. Feliz aniversário!

Sucena Shkrada Resk

07/02/2012 18:03
Memória: Os bastidores da Ecoagência, por Sucena Shkrada Resk

Conhecer os caminhos trilhados por profissionais veteranos do jornalismo ambiental é um meio positivo de se valorizar os esforços desses pioneiros, como também revigorar a “chama” militante e os rumos editoriais. Com esse propósito, mantive um bate-papo, no último dia 23 de janeiro, com Ilza Girardi e Juarez Tosi, na sede do grupo, que fica no prédio histórico da Associação Riograndense de Imprensa, em Porto Alegre, RS. E lá realmente me dei conta de que para se permanecer na área, “idealismo” é indispensável, pois não é uma escolha profissional com a meta principal de se ganhar dinheiro.

“A Ecoagência Solidária de Notícias Ambientais surgiu a partir da necessidade que nosso Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul - NEJ-RS (formado desde 1990) sentiu de se fazer a cobertura do Fórum Social Mundial (FSM) de 2003. Não havia mídia específica que tratasse das questões ambientais”, explicou Ilza, que também é docente universitária na área de jornalismo ambiental.

Nesse time de profissionais, estavam ela, Tosi, Beto Gonçalves, Carlos Tautz, Vilmar Berna... “E no mesmo ano, criamos a Ecoagência, primeiramente na estrutura de site cedida por João Batista Aguiar, do Agir Azul (que existe até hoje e participa do grupo) e na sequência, lançamos a hospedagem na nossa própria página”.

Segundo Ilza e Tosi, a produção de matérias durante todos esses anos se deu principalmente de forma voluntária, e cada profissional tem outras fontes de renda para sobreviver. “As pautas que reportávamos naquela época eram sobre a polêmica da privatização e contaminação da água; preservação das sementes crioulas versus transgênicos, e agrotóxicos, entre outras, que continuam atuais. Só não havia ainda um destaque sobre a questão do clima, como nos últimos anos”, diz Ilza.

A geração de conteúdo no site é mantida com compartilhamento também de informações de outras agências institucionais, como da Organização das Nações Unidas (ONU), FAPESP e fontes oficiais, além de blogs ambientais parceiros. Mais um trabalho realizado por participantes do NEJ-RS é promover encontro mensal com temas socioambientais, que reúne especialistas e público, chamado de 3ª Ecológica.

“O melhor momento de cobertura do grupo, que até agora gira em torno de 20 a 30 pessoas, foi quando conseguimos ter um profissional contratado em 2008”, lembram os jornalistas. “Nessa época, se discutia a questão da silvicultura no Pampa Gaúcho, que acabou sendo aprovada pelo Conselho de Meio Ambiente, mesmo sem a concordância de ambientalistas”, fala Tosi.

Durante os últimos anos, a Ecoagência teve patrocínio de uma empresa petrolífera, que dava para manter sua sede e alguns cursos. “Mas em nenhum momento tivemos interferência em nossa linha editorial. O Brasil precisa se dedicar às energias limpas”, destaca Tosi.

Hoje os jornalistas repensam as formas de apoio e iniciaram a experiência no formato de incentivos por parte da sociedade civil. Uma das iniciativas é por meio do link http://www.lets.bt/project/sintonia-da-terra-fortalecendo-a-difus-o-de-temas-socioambientais-no-r-dio . O objetivo é incentivar a permanência de mais um braço da Ecoagência e do NEJ-RS, que é o programa radiofônico Sintonia da Terra, em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), às 5ªs feiras, às 10h05, na Rádio da Universidade (1080 AM), em Porto Alegre ou pelo site www.ufrgs.br/radio.

“Temos como desafio conseguir ampliar nossas ações no interior do RS. Atualmente há participantes em Caxias, Pelotas e Santa Maria. Também batalhamos por recursos para continuar a pagar o aluguel de nossa sede e voltar a ter uma redação por aqui”, conta Tosi.

Após mais de duas décadas de experiência, Ilza Girardi reflete que apesar dos desafios serem muitos, há algo muito maior em jogo: eu separo jornalismo ambiental de jornalismo de meio ambiente. “O primeiro tem visão de mundo e compromisso com isso. É uma militância, que propõe uma causa muito maior, que é a vida com sustentabilidade e a justiça socioambiental. Um princípio fundamental é ouvir todas as vozes. Já o segundo pode ser praticado por qualquer pessoa, sem esses vínculos”.

E terminamos nossa conversa com a seguinte questão: quais são os temas que os jornalistas do NEJ-RS/Ecoagência tratam hoje? “Além dos anteriores, nos dedicamos às questões das fontes renováveis, de ampliação de ações contra o uso excessivo dos veículos, como da importância das ciclovias; direitos das populações tradicionais...”, afirmam Ilza e Tosi, que acreditam em um jornalismo ambiental ético e possível.

Sucena Shkrada Resk

07/02/2012 10:36
Malária: uma realidade do século XXI, por Sucena Shkrada Resk

A Malária não é uma questão de saúde pública circunscrita ao passado, mas do século XXI, que não pode ser menosprezada e se relaciona com a forma como interagimos com o meio ambiente. Historicamente tem maior incidência na África subsaariana e nas Américas, o Brasil apresenta um grande número de casos junto à Colômbia, Haiti e Peru, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Pesquisa publicada na Revista Lancet, coordenada pelo professor Christopher Murray, da Universidade de Washington, aponta que a doença mata cerca de 1,2 milhão de pessoas por ano no mundo. A maioria são crianças menores de cinco anos, entretanto, aumentam incidências em crianças maiores e em adultos (veja mais em matéria divulgada pela Agência Fapesp - Malária mata 1,2 milhão por ano, de 03/02/2012).

Segundo o Ministério da Saúde, no Brasil houve mais de 300 mil notificações de casos no país em 2010, 99% deles na região amazônica. Alguns fatores que contribuem para a proliferação da fêmea do mosquito Anopheles, que é transmissora da doença (ao picar uma pessoa contaminada pelo parasita Plasmodium) são: o extrativismo, a piscicultura, os seringais e até os tipos de moradias, mais próximas às matas. Por isso, a importância da limpeza de tanques de psicultura, de igarapés, do uso de mosquiteiros...O Anopheles se reproduz em água limpa e seu voo chega a um raio de 600 a 1 mil metros do criadouro...

Um site interessante que mantém uma campanha permanente é: Mobilização contra a Malária .
Sucena Shkrada Resk

06/02/2012 13:39
Aeroportos: Um país de duas medidas, por Sucena Shkrada Resk

Na semana passada, ouvi uma notícia que, no mínimo, demonstra um desequilíbrio total de gestão. A Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero) anunciou que aeroportos em cidades da Copa terão opções de lanchonetes econômicas x aqueles preços homéricos que nos cobram. A iniciativa vai começar por Curitiba e atingirá mais 12 unidades. Agora, sabe quais não farão parte dessa renovação? Os AEROPORTOS DE GUARULHOS E VIRACOPOS, EM SP. A alegação é porque serão privatizados. Algo incompreensível do ponto de vista do direito comum ao cidadão. Então, se tivermos com muita fome, deveremos nos precaver e continuar a levar uma "merenda" na bolsa, porque pagar mais de R$ 5,00 por uma coxinha, por exemplo, faz literalmente uma grande diferença a qualquer assalariado...
Sucena Shkrada Resk

06/02/2012 11:18
Nota: Reflexões rumo às eleições & cidadania, por Sucena Shkrada Resk

Exigir que os CANDIDATOS DE TODOS OS PARTIDOS INDISTINTAMENTE a prefeitos e vereadores tenham plano de governos e legislativos coerentes, com metas, diretrizes de curto, médio e longo prazos, apresentem de onde virão as dotações orçamentárias (do tesouros, Parcerias Público-Privadas - PPs etc) para tais fins e histórico precedente "transparente" é o mínimo que temos de consolidar como indispensável, no papel de eleitores.

Outra questão importante é a transparência das articulações entre partidos: o que isso representará na ocupação de cargos estratégicos. Temos de exigir competência para a ocupação dos mesmos e não siglas.
Sucena Shkrada Resk

06/02/2012 09:18
Prática da cidadania: combate ao uso do cerol, por Sucena Shkrada Resk

Praticar cidadania não tem hora marcada, feito uma consulta no médico, e nem pode depender de conveniência, de acordo com o ambiente, personagens envolvidos e interesses particulares. Isso deveria ser a regra, mas a gente sabe que não é bem assim. Vou citar um exemplo cotidiano para reflexão, aqui mesmo em São Caetano do Sul, no bairro onde resido, pois o que mais me surpreende é o fato de muitas pessoas simplesmente se acomodarem diante de fatos importantes e extremamente graves, como se não fizessem parte do problema (direta ou indiretamente).

Crianças e adolescentes brincam com pipas a bel prazer em nossas ruas com cerol (que é um crime, devido ao poder letal que tem), com as "vistas grossas" de pais e responsáveis, e sem que haja uma fiscalização efetiva para inibir o uso. Não precisamos esperar para nos mobilizar e que quem brinca ou qualquer um de nós nos tornemos vítimas fatais ou que os danos lesem nossos patrimônios, como já ocorre, danificando vias aéreas de cabeamentos (energia elétrica, telefonia, TV etc).

Além disso, algumas crianças e adolescentes usam pedras para tentar tirar as pipas presas às fiações, invadem quintais das casas, sobem em telhados, lajes, em nome da "recuperação" do material. Como já presenciei alguma cenas, realmente é algo que causa receio e insegurança, pois perdem a capacidade de respeito e limites.

E obviamente, quando nos deparamos com as possibilidades ou os próprios danos causados, as razões para buscar ações do poder público, de prevenção, fiscalização e atos punitivos são reforçadas. Só que as orientações efetivas poderiam, certamente, evitar piores consequências. Promover e mostrar também que há outras alternativas de lazer, como leitura, passeios em parques, jogos amistosos, entre outros, seriam ações favoráveis nesses contextos. E não há como negar: os exemplos devem partir de casa.

Segundo o Corpo de Bombeiros, "expor a vida ou a saúde dos outros ao perigo iminente é crime previsto pelo artigo 132 do Código Penal Brasiliero. Soltar pipa com cerol, portanto, é uma infração (mesmo que involuntariamente). Também é enquadrada no artigo 129 (ofender integridade corporal de outrém). A pena é de três meses a um ano de prisão".

Quando de trata de crianças, conforme artigo 249 do Estatuto da Criança e Adolescente (ECA), desobedecer orientação dos pais ou responsáveis e brincar com substância perigosa, é ato infracional e encaminhado ao juiz.

Portanto, fazer campanhas municipais, nas associações de amigos de bairro, conversar com vizinhos (que são potenciais pais ou responsáveis), com as crianças e adolescentes em casa e nas escolas são alguns caminhos, além de cobrar a presença do poder público nestas questões. Afinal, se trata de um problema de comportamento social e de segurança. Estima-se que 25% das vítimas do cerol morrem em decorrência das lesões.

Sucena Shkrada Resk

02/02/2012 12:14
Chico Whitaker: Como sensibilizar os 99%?, por Sucena Shkrada Resk

Um dos raciocínios e sensibilizações mais coerentes sobre o qual refleti, durante o Fórum Social Temático (FST) 2012, entre os dias 24 e 29 de janeiro, foi expresso por Chico Whitaker. Durante um encontro entre ativistas de mídia livre, promovido pela Ciranda.Net, no dia 25, ele trouxe a bagagem de militância nos movimentos sociais há décadas e do processo do Fórum Social Mundial, desde 2001, e disse o seguinte: “...Precisamos inventar nova maneira de falar com os 99%, dos que não estão convencidos...Estamos falando para nós mesmos e o restante da população?...”. Veja mais, no artigo de Whitaker Novas Perspectivas no Processo FSM?

Diante de sua fala, que não desmereceu obviamente os esforços dos “militantes por convicção”, que realmente suam a camisa por causas justas, sem ‘pegar carona’ no oportunismo político, o que está em questão é colocar em xeque o porquê de mobilizações de movimentos sociais, no porte do FSM, não conseguirem com o passar dos anos ampliar seu alcance mundialmente.

Na minha análise, um primeiro aspecto é tentar fazer uma leitura de nossa sociedade. Quando nos voltamos à brasileira, por exemplo, não é possível simplesmente colocar de lado, a estratificação de classes – da E a A, que é o recorte real do modelo do desenvolvimento capitalista. Se pessoas que se encontravam na classe D, por exemplo, se mudaram para a C, isso não quer dizer também, que as coisas acontecem num passe de mágica. É necessário ter essa consciência, para entender o que está implícito nesse processo.

E há algumas questões que precisam ser ressaltadas, sem melindres, como as lutas pelo poder e as divergências internas e externas aos partidos vigentes.

Ao observamos o contexto global, quem está na ponta da pirâmide realmente sabe o que passa nesse universo político e que há “representantes’ pelo mundo a fora que “tentam” lutar pela reversão de suas mazelas? Obviamente, que grande parte, não. Esse distanciamento ainda vigora. A realidade é cruel, não dá para atenuar. faltam alimentos, moradia, saúde, educação e acesso a meios de comunicação (que não se restringe às mídias sociais e grande imprensa) e, consequentemente ao empoderamento dos mesmos, nessa interlocução.

Milhares de cidadãos não estão nas redes sociais, que hoje são a “coqueluche”, eles não têm acesso sequer à água potável e ao dinheiro, para subsistir, quanto mais pegar um transporte rural ou urbano ou acessar a internet...Muitos se transformam em refugiados, na tentativa de sobrevivência...Quando conseguem freqüentar a escola, um grande número sofre com o déficit de atenção, porque são vítimas ainda da desnutrição. Um ciclo vicioso e perverso, que não está no estrato da sociedade com preceitos culturais burgueses.

Justiça socioambiental e econômica. Eis o recorte das bandeiras de luta...Dá até gosto e certo orgulho defendermos esse equilíbrio. Mas quando colocamos o pé no chão, lá estão os cerca de 16 milhões de pessoas, no caso do Brasil, e na casa do um bilhão, mundialmente na pobreza. Falamos deles praticamente como se fossem entidades etéreas e numéricas. Raramente, em teses acadêmicas, especiais de cobertura da mídia ou de ONGs que vão ao seu encontro, há uma tentativa de humanizar essas relações. Mas o que fica evidente é que defendemos as suas causas, sem sequer os trazermos para o centro das discussões, no tete a tete, na constância necessária. Isso quer dizer, não podemos nos limitar a datas institucionais ou a levantes pontuais, para lembrarmos que existem....

É fácil para qualquer um de nós, sem exceção, ficar em auditórios climatizados, participarmos de fóruns, simpósios, seminários, workshops, discorrermos sobre as mazelas mundiais, participarmos de infindáveis brunchs e “reuniões”, vestirmos as camisetas institucionais com slogans chamativos, recorrermos às panfletagens e todos os penduricalhos afins, que vêm na promoção desses eventos. Afinal, o discurso está respaldado num certo conforto, não podemos negar.

Fico sempre me perguntando quanto custa para colocar toda essa parafernália em funcionamento (em encontros dos movimentos sociais, governamentais, da iniciativa privada, que têm o recorte de inclusão)? E me questiono, se em vez de tanto dinheiro ser aplicado nesses eventos, porque não utilizá-lo para trazer as pessoas-alvo, para subirem nos palcos, construir escolas, capacitar educadores populares e formais (não doutriná-los); aplicar parte dessas verbas em economia solidária, em cultivos de agroecologia e técnicas de irrigação, em recuperação de espaços socioculturais urbanos e de habitação...Isso não quer dizer substituir o papel do governo, mas otimizar recursos e discursos.

Por que não saímos do conforto e vamos ao encontro das pessoas que não podem chegar até nós? Regionalizar a comunicação onde realmente as pessoas não têm acesso. Trazer suas vozes para serem replicadas mundo a fora. São de carne e osso, têm a integridade da vivência para narrar, sem necessidade de representantes hipotéticos.

Por mais que representantes de minorias, de povos tradicionais consigam falar em alguns momentos nesses eventos nas mobilizações sociais, há outros milhares que não são vistos ou ouvidos. Eles continuam, dia a dia, passando pelos mesmos problemas, quando conseguem sobreviver.

Quando o cenário é o universo urbano, do trabalhador que batalha ter ao menos um salário mínimo, pagar aluguel, ter acesso digno aos serviços públicos ou, então, composto pelos milhares de desempregados, estamos falando de um expressivo contingente objeto do discurso dos movimentos sociais. Mas o quanto eles acreditam no potencial de transformação de suas situações, via esses meios de mobilizações?

Os pontos-chave das reivindicações das organizações na agenda são recorrentes e nos levam a mais um aprofundamento das motivações, meios e fins: Afinal, quais são os atores envolvidos e os jogos de interesse nessas questões, na própria luta?
- Luta contra as transnacionais;
- Luta pela justiça climática e pela soberania alimentar
- Luta para banir a violência contra a mulher
- Luta pela paz e contra a guerra, o colonialismo, as ocupações e a militarização de nossos territórios...

O mote está fincado no sistema capitalista de produção, distribuição e consumo, atrelado ao aquecimento global e às mudanças climáticas. Mas já pensamos quem realmente alimenta esse modelo?

Essas causas são extremamente lógicas, mas por que são praticamente sempre os mesmos convertidos que levantam essas questões, se encontram nos coletivos, nas Organizações Não-Governamentais, nos sindicatos, nos fóruns, nas mídias sociais, nos espaços acadêmicos, nas instâncias políticas? Vimos se repetir abraços, olhares cúmplices, consensos e polêmicas recorrentes entre os mesmos, quando ocorrem esses encontros. E o espaço para os “não convertidos”? Ou melhor, convertidos para quê e quem?

E aí é possível ir mais longe: será que realmente temos sensibilização suficiente por causas locais, regionais, tanto quanto aos problemas e acertos em causas afins? Nós brasileiros, por exemplo, conseguimos manter o sentimento de latinidade aflorado ou nos sentir verdadeiros cidadãos do mundo, ao ouvir e ver as dificuldades de populações de países próximos, na África, na Ásia, na Europa ou simplesmente em outras regiões geográficas de nosso próprio país? Ou as empolgações são momentâneas, quando ouvimos representantes desses povos ou movimentos como Occupy Wall Street, Primavera Árabe se manifestarem...

Ainda observo que esse contexto geopolítico e sociocultural é um dos maiores desafios para a humanidade superar. São muitas perguntas e poucas respostas concretas, objetivas, porque estão baseadas em concepções de modelos de desenvolvimento, culturais, político-partidários e, de certa forma, enredados pela disputa do poder institucional ou não.

Enfim, como Chico Whitaker falou: é preciso que os movimentos sociais repensem suas ações e encontrem maneiras de ir ao encontro dos 99%... . Por isso, quem sabe, rever a forma de conduzir os princípios das ideologias.
As redes sociais são bem-vindas, mas não podemos esquecer do olho no olho e do famoso “cuspe e giz”, nessa jornada.

Veja também no Blog Cidadãos do Mundo:
25/01 - Caminhada do FST 2012: um momento em que as vozes emergem

Sucena Shkrada Resk

25/01/2012 21:59
Caminhada do FST 2012: um momento em que as vozes emergem, por Sucena Shkrada Resk

A atmosfera de lançamento dos Fóruns Sociais consegue ter um DNA em comum a cada edição e isso se repetiu no dia 24, com o Fórum Social Temático – FST 2012, em Porto Alegre. As mais diversas “tribos” se misturaram e ao mesmo tempo se separaram em blocos e colocaram suas reivindicações na pauta das palavras de ordem, nos jingles improvisados, nas estampas das camisetas, bandeiras e faixas, que destacam as linhas políticas dos militantes.

Ao mesmo tempo, que se assemelha à vibração de um carnaval de rua, se caracteriza por uma energia que denota a necessidade de mudanças. Tudo isso a gente sente ao participar dessa manifestação popular, que nada mais é, do que a demonstração do que está preso, na garganta da população e de representantes de entidades do terceiro setor e sindicais.

Neste ano, a carga da justiça socioambiental ganhou maior relevância. O “verde” se destacou entre o colorido, por meio de participantes do SOS Mata Atlântica, do Greenpeace, da Rede Brasileira de Educação Ambiental (Rebea), do Comitê de Bacias Hidrográficas do Paraná, entre outras. Entre o tom irônico e denunciador – em que caixões simbolizavam, por exemplo, atitudes que podem destruir o meio ambiente -, emergiram temas como o processo de votação do Código Florestal (que retornou à Câmara) e deve ser votado em março; a questão da conservação da biodiversidade; bandeiras contra a adoção da energia nuclear.

No meio dessa gama de reivindicações, um tema que ocupa atualmente as manchetes dos jornais, teve relevância: a reintegração de posse no bairro Pinheirinho, em São José dos Campos. Além de questionamentos sobre o modo de intervenção do governo paulista, uma faixa enorme pendurada sobre o viaduto acima da avenida Borges de Medeiros chamou a atenção de quem passava por lá.

Entre um rosto pintado ou um cidadão simplesmente com a “cara limpa”, o que ficou claro é a importância de se fazer ouvir. Eram estudantes, aposentados, donas de casa, militantes sindicais, educadores, enfim, um microcosmo do que é nossa sociedade.

O direito à igualdade de gênero e raça, a opções sexuais afloravam de forma recorrente entre os manifestantes. Algo que é uma marca tradicional, demonstrando que ainda há muito a se conquistar nesta área.

Nos bastidores dessa manifestação, outros personagens não podem ser esquecidos: os garis, que incansavelmente tentavam deixar as vias limpas e “catadores de sucatas, com seus carrinhos de madeira, tentavam coletar resíduos recicláveis, abandonados pelas esquinas. E vale esse parênteses, pois isso demonstra que o problema ambiental é necessariamente acelerado pela ação do ser humano. As controvérsias que fazem com que o cidadão seja ao mesmo tempo vítima e co-autor dos próprios problemas que o atinge. Isso se estende a suas escolhas políticas, atitudes cotidianas.

E voltando para a grande massa caminhando pelas ruas, ao ver um grande panô, feito a várias mãos, onde cada pedaço traduzia um anseio de uma categoria profissional ou simplesmente do usuário do serviço público, a sensação da importância de se incentivar as economias criativa e solidária tomou corpo. A arte dizia muito mais do que palavras ao microfone. Talvez, tenha sido uma das curiosidades dessa edição que mereça um destaque. Lá todos os recados estavam dados, sem alardes, e de forma objetiva.

Sob um calor acima dos 32 graus e a conquista de algumas bolhas nos pés e de um cansaço prazeroso, se é possível ser identificado desta forma, na fase final da marcha, uma chuva intensa, típica de verão, veio refrescar os manifestantes. Metaforicamente, serviu para arejar as ideias para as discussões importantes e necessárias, que integram a programação do evento, até o próximo dia 29.

Sucena Shkrada Resk

13/01/2012 18:42
Rio+20: O que fazemos com tanta informação?, por Sucena Shkrada Resk

Para quem acompanha ou atua na área socioambiental, a contagem regressiva para a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), em junho, ao menos, gera uma carga significativa de pesquisas e informações para que possamos trabalhar o pensamento complexo, como diz o pensador francês Edgar Morin.

Então, nada melhor do que colocar os “neurônios” para trabalhar, para que saiamos do estado de inércia ou de eterna contemplação de discursos recorrentes da agenda ambiental e passemos para as ações no dia a dia. E vale a sabedoria implícita no “processo de formiguinha”, pois é aí que nasce, de fato, os feitos úteis à sociedade. Afinal, temos de dar sentido ao que fazer com tanta informação, não é verdade?...

Nessa gama de documentos, destaco alguns, que possibilitam reflexões a respeito da condução do modelo de desenvolvimento no qual vivemos e compactuamos, de certa forma. Com o nome “O Futuro que Queremos”, a secretaria – geral da Rio+20 lançou o draft (rascunho zero) da declaração oficial a ser apresentada no encontro. A tradução não-oficial do documento, em que constam 128 itens, pode ser consultada no site da Cúpula dos Povos (evento paralelo da sociedade civil) http://tinyurl.com/zerodraftrioplus20.

Os temas que se destacam nesse paper são: - Água potável, energia sustentável e oceanos. Outras áreas consideradas prioritárias para ações concretas de mudanças são: segurança alimentar e agricultura sustentável; cidades sustentáveis; empregos verdes, emprego e inclusão social; redução dos riscos de desastres e resiliência; biodiversidade e florestas.

Todos esses tópicos giram em torno do modelo de extração, produção e consumo, que mantemos. Numa maneira mais simplificada de interpretação, trata de nossas “pegadas” – ecológica, hídrica, energética...

E uma das conclusões óbvias expressas no texto é: "...Nós, no entanto, observamos que, apesar dos esforços dos governos e atores não-estatais em todos os países, o desenvolvimento sustentável continua a ser um objetivo distante, e as principais barreiras e lacunas sistêmicas na implementação dos compromissos acordados internacionalmente permanecem...”.

Em outro trecho, continua "...É importante permitir que todos os membros da sociedade civil sejam ativamente engajados no desenvolvimento sustentável, incorporando os seus conhecimentos específicos e conhecimentos práticos para a formulação de políticas nacionais e locais. Nesse sentido, também reconhecemos o papel dos parlamentos nacionais na promoção do desenvolvimento sustentável...”. E isso, com certeza, tem de sair do campo dos discursos.

Para dar sustentação aos diagnósticos do estado da arte do mundo em que vivemos, mais alguns documentos e processos em andamento são interessantes fontes de consulta. Quanto ao tema Biodiversidade, destaco o Plano Estratégico da Biodiversidade, definido na Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica das Nações Unidas (COP10), em Nagoya, em 2010; como também, as diretrizes da Década da Biodiversidade (2011-2020) . E vale observar, que as discussões mundiais a respeito, terão continuidade na COP11, que será realizada entre 8 e 19 de outubro deste ano, em Hyderadab, na Índia.

Os oceanos ainda tão pouco desvendados no seu aspecto ecossistêmico e principalmente com relação às mudanças climáticas começam a ser objeto de mais estudos sistemáticos. Esse é o foco do relatório Blueprint for Ocean and Coastal Sustainability: Dados sobre a Segurança Alimentar e a Agricultura Sustentável tão fundamentais para nossa sobrevivênvia e a redução de desigualdades no mundo podem ser encontrados no site da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Afinal, estamos falando de um mundo em que mais de 925 milhões passam fome e onde existe uma expectativa de que em 2050, as alterações climáticas possam fazer com que número superior a 24 milhões de crianças sofra com a desnutrição, sendo mais da metade na África Subsaariana. Entre as saídas, está o apoio aos pequenos agricultores e à autonomia das mulheres.

E um tema que não tem volta é o de Desastres Naturais e Resiliência. É um dos desafios que toca, nós, brasileiros, hoje mais de perto, não é verdade? Adaptação e mitigação (redução de danos), eis a prioridade que os países devem ter diante dos avanços das intensificações de mudanças climáticas, degradação ambiental e mau planejamento urbano. E esse assunto, por incrível que pareça, originou a Década Internacional para Redução de Desastre Naturais, entre 1990 e 1999. E a constatação óbvia: antes, durante e depois desse período, ainda temos muito a realizar, que vai desde a preocupação com as legislações (vide o processo do Novo Código Florestal) até o reordenamento habitacional. Esse capítulo está descrito neste link da Rio+20 http://www.uncsd2012.org/rio20/index.php?page=view&type=400&nr=225&menu=45.

E para quem se interessa pelo tema, indico também para reflexão do panorama nacional, que leia o artigo que foi divulgado no Blog do Noblat – Mesmo com histórico de tragédias, Brasil não investe em prevenção, de Marcelo Remígio, de O Globo, entre outros.

Esperanças diante dessas pautas? Por que não? Mais uma notícia divulgada nesta semana, nos traz hipoteticamente essa luz, no recorte das “futuras gerações”, pois foi anunciado que haverá o Encontro Prévio dos Jovens na Rio+20. Segundo a organização da Rio+20, esse evento deverá ser realizado em dois dias - 8 e 9 de junho deste ano (especialmente em português) e continuará nos dias 10 a 12 de junho, destinado a todos os jovens do mundo. A expectativa é que haja mais de 2 mil participantes nos quatro dias...Veja mais a respeito em: http://www.uncsd2012.org/rio20/index.php?page=view&nr=687&type=230&menu=38. O que se espera é que tenham poder de intervenção consciente e participativa e tragam muitas reflexões para o debate e, possam agir e influenciar na condução das diretrizes de nosso modelo de governança global.

Leia mais no Blog Cidadãos do Mundo:
06/01/2012 - Anos e décadas institucionais da ONU e a Rio+20
27/12/11 - Nota: Rumo à Rio+20 - água potável em questão;
27/12/2011 - As teias que ligam a COP17 com a Rio+20;
24/12/2011 - Dicas de sites úteis sobre o processo da Rio+20;
23/12/2011 - O capítulo da saúde no horizonte da Rio+20;
17/12/2011 - Vídeo histórico da ECO92 nos leva a refletir sobre a Rio+20;
15/12/2011 - Nota: Rio+20 - nesta semana começa análise de 643 propostas;
06/12/2011 - Abramovay:A prioridade da inovação e do limite no contexto da economia verde;
25/11/2011 - Nota: Rio+20-Lançamento de Campanha O Futuro que queremos será no dia 28;
24/11/2011 - NOTA: Site oficial da Rio+20 em português já está oficialmente no ar;
22/11/2011 - CBJA: jornalista socioambiental na busca da liberdade;
22/11/2011 - Por dentro das agendas da sociedade civil para a Rio+20;
08/11/11 - Os eixos da economia sustentável sob o olhar de Ladislau Dowbor;
19/10/11 - Recursos hídricos: uma pauta para a Rio+20;
15/10/11 - Contagem regressiva: 3º Fórum de Mídia Livre será realizado em janeiro;
04/10/11 - E se as economias solidária,criativa e verde estivessem em 1 única agenda?;
18/09/11 - Inspiração p/Rio+20:Dalai Lama (parte 1) fala sobre responsabilidade global;
06/09/11 - Rio+20: juventude, deixe a gente te ouvir e assuma o protagonismo;
13/09/11 - Rio+20: um cenário de incertezas (parte 2);
12/09/11 - Rio+20: um cenário de incerteza (parte 1);
11/09/11 – Rio+20: a importância do empoderamento da sociedade;
11/09/11 - Rio+20: Aldeia da Paz deverá ser referência para alojamento;
11/09/11 - Rio+20: pratiquem o exercício de reflexão e cidadania;
07/08/11 - O que se fala sobre vulnerabilidade climática (parte 1);
28/07/11 - Atenção às nossas águas;
22/07/11 - Alerta sobre o flagelo africano;
30/06/11 - Nota: mobilização da sociedade para a Rio+20;
06/06/11 - Bastidores do processo da Rio+20;
20/02/11 - Rio além do +40: com certeza + 20 é uma redução da história;
05/12/10 - Especial Fórum Social Pan-Amazônico – A luta só está no começo
Sucena Shkrada Resk

09/01/2012 16:14
E os planos de contingência?, por Sucena Shkrada Resk (Blog Cidadãos do Mundo)

Fiz esse breve questionário, como uma pré-pauta, para aguçar nossas reflexões. Quem será que tem as respostas na ponta da língua ou pelo menos sabe onde encontrá-las?:

- O Brasil (enquanto federação) tem um plano de contingência a desastres naturais implementado?

- Quantos dos 5.565 municípios brasileiros têm seus planos de contingência a desastres naturais?

- Dos que têm, quantos e quais o implementaram?

- Quantos e quais apresentam eficiência em sua condução?

- Dos municípios que não têm planos de contingência, quais são as maiores dificuldades? (financeiras), (capacidade técnica), (vontade política)...? O problema começa aonde? Existem diagnósticos a respeito?

- O que está sendo feito para reverter as dificuldades para as implementações de planos de contingência a desastres naturais no país?


Sucena Shkrada Resk

06/01/2012 16:13
Que chance teve a criança indígena?, por Sucena Shkrada Resk

Uma notícia realmente me abateu hoje. Foi da denúncia da atrocidade feita com uma criança indígena do povo Awá-Guajá, de cerca de oito anos. O seu corpo carbonizado teria sido abandonado pelos Awá isolados, a cerca de 20 km da aldeia Patizal do povo Tenetehara, em Arame (MA). Tudo indica que foi vítima de ataque de homens brancos. O mais estarrecedor é que esse ato de violência deve ter acontecido entre setembro e outubro passado. E está sendo apurado pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e pelas autoridades? Afinal, existe uma Coordenação Geral de Índios Isolados e Recém Contatados (CGIIRC).

Quando li no site do Conselho Missionário Indigenista (CIMI), que a criança foi "queimada viva", tive a sensação de estar no "umbral". A ganância pelas terras, pelo comércio ilegal de madeira faz com que alguns seres humanos se transformem na escória de nosso planeta. Fico apreensiva, quando dizem que descobriram índios isolados, no intuito de protegê-los. Quando o homem branco intervém, em muitos casos, vem a cobiça junto. O país é de dimensão continental, será que há tanta dificuldade de haver espaço para todos? Obviamente que não.

Ao mesmo tempo, sem saber da existência dessas comunidades, às vezes, podem ser dizimadas, sem que saibamos que um dia existiram. É uma linha muito tênue. A Funai estima que existam 28 grupos de índios isolados (povos em situação de isolamento voluntário, povos ocultos, povos não-contatados) no Brasil. Além da CGIIRC, mantém 12 Frentes de Proteção Etnoambiental, localizadas nos estados do MT (2), MA (1), PA (2), AM (3), AC (1), RO (2), e RR (1). Os povos são os seguintes:

- Juruena, Awa-Guajá, Cuminapanema, Vale do Javari, Envira, Guaporé, Madeira, Madeirinha, Purus, Médio Xingu, Uru-Eu-Wau-Wau e Yanomami.

As informações também são encontradas no site Povos Indígenas do Brasil, do Instituto Socioambiental (ISA). Mas as certezas estão longe de se efetivar sobre esse censo.

Uma das descobertas mais recentes ocorreu em janeiro do ano passado, quando foi divulgada a notícia de que a organização não -governamental (ONG) Survival International, de Londres, tinha imagens inéditas de indígenas isolados no Vale do Rio Envira, no Acre, na fronteira do Brasil com o Peru; e os mesmos sofriam pressão de madeireiros (http://www.uncontactedtribes.org/fotosbrasil). A descoberta foi confirmada pela Fundação Nacional do Índio (Funai). E a partir daí, o que essas pessoas podem esperar com relação à sua segurança?

07/01/2012 09:08 Por Sucena S.Resk - Nota: Funai afirma que irá apurar caso de criança indígena carbonizada

Praticamente três meses depois, a Fundação Nacional do Índio (Funai) informou que está encaminhando equipe para apurar o caso de denúncia de que uma criança indígena do povo Awá-Guajá teria sido queimada por madeireiros em outubro no Maranhão. Mais informações deverão ser prestadas no dia 9. A pressão das redes sociais teve um efeito imediato ontem.

Mais informações no link da matéria veiculada pela Agência Brasil, na noite de ontem: http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-01-06/funai-apura-caso-de-crianca-carbonizada-por-madeireiros-no-maranhao
Sucena Shkrada Resk

06/01/2012 11:17
Anos e décadas institucionais da ONU e a Rio+20

No contexto da #Rio+20, estrategicamente a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu 2012 como ano de importantes eixos da sustentabilidade, quando completa 40 anos de atividade:

Os temas são:
- Ano Internacional de Energia Sustentável para Todos e
- Ano Internacional das Cooperativas (que quem sabe, impulsione institucionalmente, pelo menos, a economia solidária aqui no Brasil e no mundo);

Vale lembrar que no dia 17 de dezembro passado, a organização lançou também a Década da Biodiversidade (2011-2020); mas se pensarmos bem, deveria ser (2012-2021), pois foi quase na virada de ano. Mas esse não é o detalhe principal, o que importa é que todos os acordos tecidos nas conferências das partes sejam implementados, como o Protocolo ABS, de Nagoya.

Já a Década sobre Desertos e de Combate à Desertificação (2010-2020) - observem que tem mais um ano = 11 anos -, está em vigor desde o ano retrasado e é um dos temas que deveria ser dos mais prioritários na agenda, que está interligado às mudanças climáticas, ao combate à fome, mas parece que para o mundo se torna de segundo escalão. O que é contraditório, afinal, mais de 100 países no mundo passam por este problema. O flagelo em locais como o Chifre da África, entre outros, nos lembra diariamente o que isso significa: degradação, violência e morte. Mais de 1 milhão de pessoas passando fome parece que vira um assunto a mais nas manchetes eventuais e nas discussões multilaterais principalmente na pujança da temática econômica.

O mais interessante é que a Década das Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (2005-2014) praticamente passa em branco para a imprensa, para o setor educacional e principalmente para todos nós. Não seria um exercício e tanto para se repensar o modelo de desenvolvimento, que tem muito a ver com a governança da sustentabilidade, que será tratada na Rio+20? Nesse mesmo eixo, caiu no esquecimento, a Década da ONU Água para a Vida (2005-2014). Então, para que servem todas essas datas? Em tese, no campo das negociações políticas internacionais, para que os países que fazem parte do Sistema ONU se comprometam com políticas condizentes a essas pautas. Mas é óbvio que as ações dependem de uma conjuntura: governança no poder, financiamentos, políticas públicas estruturantes e por aí vai...

E não podemos menosprezar, inclusive, as entrelinhas da Década de Ações para a Segurança no Trânsito (2011-2020). Aí alguém pode perguntar o que isso tem a ver com sustentabilidade...Algumas respostas nada desprezíveis: modelo de consumo, cultura de paz, qualidade de vida e a relação com emissões de Gases de Efeito Estufa (GEEs). A lógica é a seguinte: veículos menos poluentes e com boas condições de manutenção resultam em mais segurança...

Água, Biodiversidade, Desertificação, Energia Sustentável, Cooperativas, Segurança no Trânsito, Desenvolvimento Sustentável... Tudo está interligado e obviamente não depende dos anos ou décadas para que as políticas de longo prazo sejam formatadas e implementadas. Esses calendários são como o sinal amarelo, que tem a função de alertar. Alertar para o hoje e para o futuro e tentar lembrar o quanto é importante o compromisso de nós, como indivíduos, na participação na sociedade e do papel dos governos, do legislativo, do judiciário, do terceiro setor, do empresariado, nas ações proativas pelo bem coletivo na vizinhança de nossa casa ao sentido mais amplo, na vizinhança no mundo sem fronteiras.

Veja também no Blog Cidadãos do Mundo: 27/12/11 - Nota: Rumo à Rio+20 - água potável em questão;
27/12/2011 - As teias que ligam a COP17 com a Rio+20;
24/12/2011 - Dicas de sites úteis sobre o processo da Rio+20;
23/12/2011 - O capítulo da saúde no horizonte da Rio+20;
17/12/2011 - Vídeo histórico da ECO92 nos leva a refletir sobre a Rio+20;
15/12/2011 - Nota: Rio+20 - nesta semana começa análise de 643 propostas;
06/12/2011 - Abramovay:A prioridade da inovação e do limite no contexto da economia verde;
25/11/2011 - Nota: Rio+20-Lançamento de Campanha O Futuro que queremos será no dia 28;
24/11/2011 - NOTA: Site oficial da Rio+20 em português já está oficialmente no ar;
22/11/2011 - CBJA: jornalista socioambiental na busca da liberdade;
22/11/2011 - Por dentro das agendas da sociedade civil para a Rio+20;
08/11/11 - Os eixos da economia sustentável sob o olhar de Ladislau Dowbor;
19/10/11 - Recursos hídricos: uma pauta para a Rio+20;
15/10/11 - Contagem regressiva: 3º Fórum de Mídia Livre será realizado em janeiro;
04/10/11 - E se as economias solidária,criativa e verde estivessem em 1 única agenda?;
18/09/11 - Inspiração p/Rio+20:Dalai Lama (parte 1) fala sobre responsabilidade global;
06/09/11 - Rio+20: juventude, deixe a gente te ouvir e assuma o protagonismo;
13/09/11 - Rio+20: um cenário de incertezas (parte 2);
12/09/11 - Rio+20: um cenário de incerteza (parte 1);
11/09/11 – Rio+20: a importância do empoderamento da sociedade;
11/09/11 - Rio+20: Aldeia da Paz deverá ser referência para alojamento;
11/09/11 - Rio+20: pratiquem o exercício de reflexão e cidadania;
07/08/11 - O que se fala sobre vulnerabilidade climática (parte 1);
28/07/11 - Atenção às nossas águas;
22/07/11 - Alerta sobre o flagelo africano;
30/06/11 - Nota: mobilização da sociedade para a Rio+20;
06/06/11 - Bastidores do processo da Rio+20;
20/02/11 - Rio além do +40: com certeza + 20 é uma redução da história;
05/12/10 - Especial Fórum Social Pan-Amazônico – A luta só está no começo;
25/08/10 - Entremundos Direto na Fonte
Sucena Shkrada Resk

27/12/2011 20:13
Nota: Rumo à Rio+20- água potável em questão, por Sucena Shkrada Resk

Foi lançado, neste mês, o estudo #Equidade, Segurança e Sustentabilidade da Água Potável, do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e da Organização Mundial da Saúde (OMS), que está disponível no link:
http://www.unicef.org/media/files/JMP_Report_DrinkingWater_2011.pdf .

Este relatório aponta que 87% da população mundial têm acesso atualmente à água potável, entretanto, seguindo os ritmos atuais, cerca de 670 milhões de pessoas podem continuar expostas a condições precárias deste recurso natural em 2015 (prazo de conclusão dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio - ODMs).

Aí está uma das relações com a Rio+20, que se refere ao combate à pobreza, pautada nas condições de infraestrutura básica.

Leia mais no Blog Cidadãos do Mundo:
27/12/2011 - As teias que ligam a COP17 com a Rio+20
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22/07/11 - Alerta sobre o flagelo africano
30/06/11 - Nota: mobilização da sociedade para a Rio+20
06/06/11 - Bastidores do processo da Rio+20
20/02/11 - Rio além do +40: com certeza + 20 é uma redução da história
05/12/10 - Especial Fórum Social Pan-Amazônico – A luta só está no começo
25/08/10 - Entremundos Direto na Fonte
Sucena Shkrada Resk

27/12/2011 19:03
As teias que ligam a COP17 com a Rio+20, por Sucena Shkrada Resk

As atenções pelo mundo começam a se voltar para a virada do ano e para a retrospectiva sobre os principais acontecimentos de 2011. Diante desse frenesi, comum nesta época, os comentários sobre a 17ª Conferência das Partes (COP 17) da Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas começam a ficar escassos. Talvez não estejamos nos dando conta, mas o que foi negociado em Durban, na África do Sul, entre os dias 28 de novembro e 11 de dezembro, com a participação de representantes de 194 países, é um indício dos principais dilemas do que podemos esperar da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), em junho do ano que vem. Isso quer dizer: poucas evoluções efetivas na prática.

Ao lermos o Sumário das decisões tomadas na Conferência, o que se nota é uma série de comprometimentos postergados, sem se alinhavar os termos que nortearão os mesmos. Parece confuso, mas esse realmente é o estado da arte em que vive as relações sob os crivos do Capitalismo. E qualquer ‘acordo vinculante’, para ser implementado, deve ser ratificado por cada um dos países participantes (internamente). Do papel às ações, portanto, há um caminho importante a ser trilhado.

Quanto ao Protocolo de Kyoto (iniciado em 1997), cuja primeira fase expira em 2012, decidiu-se que a segunda etapa prosseguirá a partir de 2013 com término previsto em 2017 ou 2020. Em 2015, deverão ser estruturadas as vinculações dos países (desenvolvidos e em desenvolvimento), mas por enquanto não há um nível consolidado de ambição de redução das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEEs). Canadá já se posicionou oficialmente que não participará e o Japão e a Rússia haviam também anunciado que não integrariam a continuidade.

Na primeira fase, ficou firmado que somente os países do Anexo I (os mais desenvolvidos e mais poluidores) iriam diminuir suas emissões na faixa de 5,2% com relação aos níveis de 1.990; o que não se consolidou. Os EUA, o maior emissor (hoje a China, na categoria de país em desenvolvimento, o ultrapassou), não ratificou até hoje esse acordo e deverá permanecer com essa postura, na segunda etapa. Depois dos dois países, os maiores emissores são Índia, Rússia, Japão e Brasil, na sexta colocação. Então, no sentido da práxis, pouco sabemos, de fato, como essas ações se darão ao longo dos próximos anos. Ainda é uma incógnita.

Retomando o que foi discutido na COP16, em 2010, em Cancún, no México, o que se destacou foi o fato de a maioria das nações concordar que deveriam tomar medidas para que a temperatura média do planeta não excedesse aos 2 graus em relação aos níveis pré-industriais até o fim do século, com base em dados do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). O grupo de cientistas deverá divulgar seu quinto relatório somente entre 2013 e 2014 (o 4º é de 2007), mas já há cenários que apontam que a temperatura chegará ao aumento na casa dos 4 graus. Entretanto, os países vulneráveis (como os insulares) pleiteavam 1,5º, tendo em vista que já sofrem com o aumento do nível dos oceanos. A COP16, no final, considerou que essa discussão deveria voltar à pauta, entre os períodos de 2013 e 2015. O único país que não aceitou o acordo foi a Bolívia. Enfim, a ciranda aponta que mesmo que todos façam a lição de casa, os patamares serão acima dos dois graus.

Outra pauta que surgiu no ano passado (e não, neste, como muita gente pensa), foi a criação do Fundo Verde do Clima, que estabeleceria a liberação de US 100 bilhões por ano (a partir de 2020), administrado pelas Nações Unidas, com a participação do Banco Mundial como tesoureiro, para o repasse aos países vulneráveis. Na época, foi proposto que deveria ser instituído um conselho administrativo por 40 representantes: 25 de países em desenvolvimento e 15 dos países rico, sem determinar de onde proveriam as verbas. Por parte de países desenvolvidos, foram previstos ainda que liberariam um aporte de US$ 30 bilhões para o período 2010-2012.

Passou o período de um ano, e na COP17, o tema foi retomado, chegando a causar constrangimento, pelo fato de nada de concreto ter ocorrido antes. No documento resultante desta edição, foi estabelecido que o Fundo Verde do Clima terá um conselho e uma personalidade jurídica. Abriu-se a possibilidade de recursos serem provenientes também da iniciativa privada, mas ainda não se sabe de onde realmente virão. Inclusive, se cogita que verbas venham de taxações sobre a aviação.

Um secretariado provisório deverá ser criado até o final de março do ano que vem e a constituição total ocorrer até 15 de abril de 2012. Até a próxima COP18, que será realizada no Dacar, os acordos terão de ser celebrados para apoiar projetos, programas, políticas e outras atividades em países em desenvolvimento para a mitigação (redução) de danos climáticos. Mas enquanto isso?

Em 2010, ainda decidiu-se iniciar a primeira etapa do REED – Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação e do REED+ ( que inclui remuneração de atividades relacionadas à conservação de florestas, ao manejo sustentável e ao aumento dos estoques de carbono florestais em países em desenvolvimento), que é um mecanismo de mitigação voluntário dos países em desenvolvimento, que deverá contar com o apoio técnico e financeiro dos países desenvolvidos, mas pouco se avançou neste ano.

As palavras em torno das COPs ficam sempre no futuro, observaram? Mas os danos decorrentes das mudanças climáticas se encontram no presente. Os refugiados ambientais (termo criado por Lester Brown, do World Watch Intitute, na década de 70) são uma realidade. São obrigados a abandonar temporariamente ou definitivamente a zona onde tradicionalmente viviam.

Segundo o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), Antonio Guterrez, há um grande risco ao se tratar as mudanças climáticas de maneira isolada, sem relacioná-las ao crescimento populacional, urbanização, escassez de água e aumento da insegurança alimentar e energética. Só em 2010, pelo menos 40 mi pessoas se deslocaram devido a inundações, secas e outros tipos de desastres naturais.
Não podemos esquecer a situação gritante que ocorre no Chifre da África. As motivações se fundem: guerras civis, questões climáticas. São violências travestidas em diferentes formas.

E onde a COP 17 se cruza com a pauta da Rio+20? Em tudo: economia verde, contexto do combate à pobreza e na governança da sustentabilidade. Afinal, todos esses assuntos não estão interligados com o modelo de desenvolvimento que ativa as mudanças climáticas?

Leia também no Blog Cidadãos do Mundo:
24/12/2011 - Dicas de sites úteis sobre o processo da Rio+20 (entre outras)
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Sucena Shkrada Resk

24/12/2011 12:27
Dicas de sites úteis sobre o processo da Rio+20, por Sucena Shkrada Resk

RIO+20 (atualização até 24/12/2011)

Links importantes sobre o processo da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável - Rio+20 e da Cúpula dos Povos da Rio+20 por Justiça Social e Ambiental, que acontecerão em junho de 2012.

Rio+20 (oficial): http://www.uncsd2012.org/

Rio+20 (oficial - página em português): http://www.rio20.info/2012

Nova abertura para acreditação de organizações e movimentos na Rio+20 0ficial (anúncio em 12/2011): http://www.uncsd2012.org/rio20/?page=view&nr=657&type=230&menu=38

Cúpula dos Povos da Rio+20 por Justiça Social e Ambiental: http://cupuladospovos.org.br/

Comitê Facilitador da Sociedade Civil Brasileira para a Rio+20: http://www.rio2012.org.br/

Rede Social Rio+20 (Sociedade Civil): < a href= "http://rio20.net/" target="_blank">http://rio20.net/

Comitê Paulista para a Rio+20: http://riomais20sp.wordpress.com/

Hotsite Ministério do Meio Ambiente Rio+20: http://hotsite.mma.gov.br/rio20/

Hotsite Mulheres Rumo à Rio+20 (Ministério do Meio Ambiente): http://hotsite.mma.gov.br/mulheresrumoario20/

Fórum Social Temático 2012 - Crise Capitalista, Justiça Social e Ambiental (24 a 29/01/2012-Porto Alegre): http://www.fstematico2012.org.br/

Campanha de Mobilização Rio+Vos: http://www.rioplusyou.org/

Bicicletada nacional para a Rio+20: http://bicicletadanacional.wordpress.com/

Cúpula Mundial de Legisladores (acontecerá de 15 a 17/06/2012, antes da Rio+20, no RJ): http://www.rio.rj.gov.br/web/guest/exibeconteudo?article-id=2388829

DOCUMENTOS PRELIMINARES DO PROCESSO PARA A RIO+20:

ONU - Documento preliminar para os participantes da Rio+20 (12/12/11). Disponível em: http://www.uncsd2012.org/rio20/content/documents/350information%20note%2012%20December.pdf" target

ONU - Vídeo histórico sobre a ECO 92: http://www.youtube.com/watch?v=hraPn_XFgg8

OMS - Documento Saúde e Desenvolvimento Sustentável: Saúde na Rio+20: http://www.fiocruz.br/omsambiental/media/SaudeRio20documorientadorMS.pdf

ECONOMIA VERDE:

ONU - Relatório Trabalhando por uma Economia Verde equilibrada e inclusiva (15/12/2011). Disponível em: http://www.unemg.org/MeetingsDocuments/IssueManagementGroups/GreenEconomy/GreenEconomyreport/tabid/79175/Default.aspx" target

PNUMA - GreenEconomy. Disponível em: http://www.pnuma.org.br/arquivos/EconomiaVerde_ResumodasConclusoes.pdf

http://www.unep.org.br/admin/publicacoes/texto/1101-GREENECONOMY-synthesis_PT_-_online_version.pdf. Acesso em: 02/12/2011.

CI - Conservação Internacional - Disponível em: http://www.conservacao.org/publicacoes/files/politica_ambiental_08_portugues.pdf . Acesso em: 02/12/2011.

CI - Economia verde na américa latina: as origens do debate nos trabalhos da Cepal - Márcia Tavares. Disponível em: http://www.conservation.org.br/publicacoes/files/P%E1ginas%20de%20PoliticaAmbiental08tavares.pdf . Acesso em: 02/12/2011.

Ricardo Abramovay - Desafios da economia verde. Disponível em:http://www1.ethos.org.br/EthosWeb/pt/5923/servicos_do_portal/noticias/itens/%E2%80%9Cdesafios_da_economia_verde%E2%80%9D,_por_ricardo_abramovay_.aspx . Acesso em: 02/12/11
Sucena Shkrada Resk

23/12/2011 17:15
O capítulo da saúde no horizonte da Rio+20, por Sucena Shkrada Resk

O eixo da saúde no horizonte da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), em junho do ano que vem, não pode ser esquecido e deve priorizar dez diretrizes, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), que têm como base as discussões travadas na Conferência Mundial sobre os Determinantes Sociais da Saúde (CMDSS), realizada pela organização, no Rio de Janeiro, em outubro deste ano. Os princípios atendem ao capítulo 6, da Agenda 21, criada na ECO 92, que é relacionado à proteção e à promoção da saúde humana.

Tudo que consta no documento Saúde e Desenvolvimento Sustentável: Saúde na Rio+20 não é algo inusitado, como a prioridade à saúde integral, o atendimento universalizado e a retaguarda a doenças crônicas. O que considero interessante é o fato de ter um item dedicado especialmente ao reconhecimento das medicinas tradicionais e populares – em países em desenvolvimento, como o Brasil. A regulamentação e o respeito à repartição de benefícios propostos também vêm de encontro ao Protocolo de ABS, que foi estabelecido da 10ª. Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica, realizada em 2010, em Nagoya. O objetivo é garantir a proteção internacional do patrimônio biológico de qualquer país, que só poderá ser explorado por estrangeiros com autorização e pagamento de royalties.

Mais um material interessante que resultou da CMDSS foi a Declaração das Organizações e Movimentos de Interesse Público da Sociedade Civil” . De uma maneira geral, defende que não haja a privatização do sistema e se ampliem os dispositivos de apoio ao comprometimento comunitário no monitoramento e o planejamento.

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Sucena Shkrada Resk

23/12/2011 09:54
Que lições aprendemos após 23 anos?, por Sucena Shkrada Resk

Chico mendes foi assassinado há 23 anos, no dia 22 de dezembro. O que aprendemos nesse período? Hoje ainda outras vítimas, como José Cláudio Ribeiro da Silva, Maria do Espírito Santo da Silva e tantos outros anônimos se foram, por quê e para quê??

O vídeo Chico Mendes - Eu quero viver, sob direção de Adrian Cowell (que faleceu em outubro deste ano) e Vicente Rios, produzido em 1989, relembra a trajetória do seringueiro e ambientalista e é um material importante para impulsionar nossas reflexões sobre o que realmente queremos edificar na chamada sustentabilidade...
Sucena Shkrada Resk

23/12/2011 09:43
O que me move?, por Sucena Shkrada Resk

O que me move? Será que cada um de nós faz esse questionamento de vez em quando? Eu faço, porque acho que é preciso dar sentido à existência, para que eu não caia na armadilha do mecanicismo...E hoje, algumas das respostas às minhas indagações internas são:

- a ânsia por um mundo igualitário - sem fome, sem sede, sem violência, que promova a sintonia entre mente, corpo, ações e o meio ambiente (acredito sinceramente que a minha casa é, acima de tudo o planeta, não consigo impor fronteiras e segregações);

- aprender a sabedoria por trás de culturas tão diversas (algo tão grandioso, que com certeza, uma existência é insuficiente para tanto);

- aprender com erros e acertos e passar adiante o mínimo que seja possível. Acredito que conhecimento é como uma fonte de energia, que deve circular...

- Viajar pelo mundo em pensamento, se possível, fisicamente (o que não é tão fácil rs) e me perder entre a massa, me reencontrar nela e fazer com que essa vivência 'transpire' em ações;

- Adoro a simplicidade, que me faz lembrar, que sou uma centelha, e respeitar todas as demais...

- Assim, eu me sinto pulsar...
Sucena Shkrada Resk

17/12/2011 16:19
Vídeo histórico da ECO92 nos leva a refletir sobre a Rio+20, por Sucena Shkrada Resk

Acabei de assistir ao vídeo histórico da #ECO92, em que os principais acordos ambientais foram traçados para o mundo e de repente, ao voltar à realidade, no horizonte de 20 anos, senti um vazio e a aspiração daquela época palpitar no hoje. O que fizemos para avançar nessas pautas? E como proceder diferente, para que a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável #RioMais20, em junho do ano que vem, não seja um evento somente para constar no calendário?

Esse registro, divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU), deve ser visto nas entrelinhas e avaliado quanto ao seu significado para a condução que daremos à #RioMais20, para que não se perca no campo dos discursos. Desde lá, a pauta é: adaptação e mitigação às mudanças climáticas, investimento em energias limpas, conservação da biodiversidade, combate à pobreza, respeito aos povos tradicionais; como também, implementar a Agenda 21 na concepção do nosso modo de vida...

Líderes se comprometeram lá atrás, outros não; e as décadas foram passando, e o que foi feito até agora que nos impulsione nas diretrizes do desenvolvimento sustentável? O mundo capitalista vive uma crise econômica, desencadeada em 2008, ainda prioriza as energias fósseis e a desigualdade ainda leva milhares literalmente à morte. Como nós, enquanto sociedade, frutificamos todos esses acordos...? Sempre ao ouvir Severn Suzuki (que discursou com sua pouca idade aos líderes dos governos mundiais, com ênfase no desatino da condução que os adultos dão ao mundo), me parece que aquele sinal de alerta vem à cabeça: a transformação cabe a todos nós...Com idealismo e a racionalidade que essa pauta exige, sem mise-en-scène.

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11/09/11 - Rio+20: pratiquem o exercício de reflexão e cidadania
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Sucena Shkrada Resk

15/12/2011 22:11
Nota: Rio+20 - nesta semana começa análise de 643 propostas, por Sucena Shkrada Resk

O processo da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável - Rio+20 entra em uma fase importante, a partir de agora. Nesta semana, foi dado o início à análise de 643 propostas encaminhadas por Estados-Membros, agências internacionais, organizações não governamentais e grupos políticos.

Segundo a Secretaria-geral do evento, da análise desse material sairá o esboço 'zero' que será analisado no encontro. A compilação deverá ser concluída, entre os dias 15 e 16 de junho do ano que vem, antes da agenda oficial, que acontece de 20 a 22 do mesmo mês.

Entre as contribuições, está a do Brasil, que pode ser vista, na íntegra, no site: Documento de contribuição brasileira à Rio+20 .

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Sucena Shkrada Resk

15/12/2011 21:40
Nota: índice das cidades verdes destaca Curitiba, por Sucena Shkrada Resk

Foi lançado, nesta semana, o Latin American Green City Index que comparou o perfil de sustentabilidade ambiental de 17 capitais líderes de negócios na América Latina. Na classificação 'bem acima da média' ficou Curitiba e 'acima da média' - Belo Horizonte, Bogotá, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília.

A análise avaliou as seguintes categorias: energia e CO2, uso da terra e prédio, transporte, resíduos, águas, saneamento básico, qualidade do ar e governança ambiental. O documento na íntegra pode ser encontrado no site: Latin American Green City Index

A realização da pesquisa é da Siemens em cooperação com o Economist Intelligence Unit.
Sucena Shkrada Resk

10/12/2011 14:29
Relatório de Adaptação do IPCC: será que eles leram?, por Sucena Shkrada Resk

#COP17 - Chegou ao término mais uma conferência e... (ainda muitas reticências). Falando nisso, segue o link de um documento importante, deste ano, produzido pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) - Managing the Risks of Extreme Events and Disasters to Advance
Climate Change Adaptation
. Será que os participantes dos 193 países leram e absorveram as informações? Uma boa reflexão...

A dica do site foi do colega de Agenda 21 ABC, Edgard Moreno, que achei muito oportuna, no Dia dos Direitos Humanos...
Sucena Shkrada Resk

10/12/2011 13:09
DH: Sempre é tempo para refletir, por Sucena Shkrada Resk

Hoje é o DIA DOS DIREITOS HUMANOS, momento, em tese, para muita reflexão, mudanças de atitude calcadas no respeito, na ética e na moral, que no final das contas, devem ser permanentes nos demais 364 dias do ano, tendo em vista, que somos seres integrais e responsáveis por nossos pensamentos e atos. Sabemos que ainda estamos longe desse equilíbrio, quando nos deparamos com a violência, em todos os sentidos, a nossa alienação, a corrupção, e por que, não?, um dos sentimentos mais 'humanos': o egoísmo, essa característica que nos isola em uma bolha e nos faz esquecer que somos cidadãos planetários.

Ontem, dia 9, a Alta Comissária para os Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), Navi Pillay, respondeu durante uma hora, a perguntas feitas por vários cidadãos pelo mundo, via Twitter, Facebook e no auditório, onde ela se encontrava. O vídeo pode ser encontrado neste link: http://www.un.org/es/events/humanrightsday/2011/askthehchr.shtml .

Eu cheguei a encaminhar três, no dia anterior (via hashtag #AskRisks), sendo que duas, de certa forma, acredito que foram contempladas nas respostas dadas por ela aos outros internautas... (com exceção de Belo Monte).

Seguem as questões que fiz, abaixo (em espanhol):
08/12 - #AskRights - Cúal es la opinión de la Alta Comisionada Navi Pillay sobre el caso -construcción de usina hidrelétrica BeloMonte?
08/12 - #AskRights - otra pregunta - Cúal es la importancia de la Primavera Árabe para los derechos humanos?
08/12 #AskRigths - como es possible la resolución de la inanición y politica en el Chifre de la Africa?

Apesar de sua fala ser em inglês, ao ouvirmos com calma, conseguimos compreender as suas exposições. Uma de minhas conclusões diante dessa experiência, é que cada um de nós pode fazer uma leitura de mundo, mas de um mundo vibrante (porque temos plena certeza de que nos envolvemos com sua dinâmica). Dessa forma, fluímos a possibilidade de unirmos sensibilidade e racionalidade de forma equilibrada. Ao mesmo tempo, fazemos um chamamento à nossa responsabilidade: não temos a desculpa de falar que erramos, por causa da ignorância...

Sucena Shkrada Resk

09/12/2011 19:44
Nota: Senado divulga redação final do substitutivo do Código Florestal, por Sucena Shkrada Resk

09/12 - Eis que surge a redação final do Código Florestal aprovado pelo Senado, no último dia 6. Agora, é possível ler realmente como ficou, comentar, debater e obter avaliações de especialistas...

O documento é o Parecer nº 1.358, de 2011 *
Redação final do Substitutivo do Senado ao Projeto de Lei da Câmara nº 30, de 2011 (nº 1.876, de 1999, na Casa de origem).

Confira o link do PDF em: Redação Final do Substitutivo do Código Florestal, no Senado

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Sucena Shkrada Resk

09/12/2011 15:42
O pensamento fluindo sobre as relações humanas, por Sucena Shkrada Resk

A gentileza e a atenção são instrumentos essenciais na melhoria do conjunto de nossa saúde; a cada dia tenho mais certeza disso. Por muitas vezes, não temos paciência com alguém de nossa família, com um amigo ou desconhecido, e simplesmente magoamos essas pessoas. Daí, elas e nós mesmos vamos nutrindo essa atmosfera de mágoas, tristezas, muitas vezes, silenciosas, mas que se somatizam no nosso organismo. A maneira que tecemos essas relações humanas, no final das contas, faz a diferença na nossa qualidade de vida, não é verdade?

Hoje, ao ficar algumas horas no Pronto-Socorro Municipal aguardando a minha mãe ser medicada, aqui em São Caetano, comecei a observar os demais pacientes e acompanhantes e me dei conta que muitos (de avançada idade) estavam sós, debilitados, aguardando o atendimento. Procuravam olhos que correspondessem aos seus e palavras que os confortassem.

Uma senhora que estava na cadeira de rodas havia torcido a perna e começou a puxar assunto. Ao dar atenção a ela e sorrir (um gesto natural, que não exige nada de tão difícil de nós), ela abriu também um sorriso, apesar da dor que estava sentindo. Daí, fiquei pensando: ...- ela se sentiu, de alguma forma, acolhida; ao mesmo tempo, aquela situação me fez bem.

Essa pequena vivência me fez perceber o quanto é importante darmos valor às pessoas (enquanto estão vivas), pois vamos ser francos - não adianta depois querermos fazer aquelas homenagens póstumas...

E aí me detive em observar outras pessoas, que estavam no meu entorno. Vi uma filha que acompanhava também sua mãe de 86 anos e que estava impaciente, para que a médica pudesse avaliar os exames da senhora, que usava bengala e tinha dificuldade para andar. Então, refleti: puxa, se ela respirasse fundo, talvez sua mãe se sentisse menos constrangida (e se eu respirasse fundo em algumas situações também poderia ter desfrutado de momentos tão especiais...).

Quase ao seu lado, outro senhor tossia repetidamente e estava sem acompanhante, cabisbaixo, aguardando a vez de ser chamado para tomar a medicação - aquela cena me deu um vazio. Enquanto isso, uma outra moça tinha acabado de colocar a tala na perna quebrada e o seu marido estava guiando a cadeira de rodas, o que a deixava mais segura; isso ficava evidente em seu semblante.

Todas essas cenas fragmentadas, nada mais são que retratos da vida real, que por muitas vezes, praticamente anulamos pela impessoalidade..., mas que podem fazer com que repensemos nossas atitudes no dia a dia, para não sermos pegos na armadilha da doença social...
Sucena Shkrada Resk

07/12/2011 09:22
O exercício de decodificar o novo PL do Código Florestal, por Sucena Shkrada Resk

O ideal é que leiamos o PL nº 30 em sua íntegra ( Hotsite Código Florestal/Senado ), após as modificações com as emendas, pois aí dará para se ter noção das propostas e suas implicações, extra o texto-base. Ontem tudo ficou muito pulverizado, apesar de algumas emendas serem sintetizadas (além do número das mesmas), durante a votação - mas foram 26 de 78 aprovadas - e algumas notícias saíram, inclusive, antes do término da votação...- Em cima de dados mais concretos, dá para fazer consultas, realizar um debate...A próxima etapa, agora, é na Câmara, para depois seguir à sanção da presidenta Dilma Rousseff.


#CÓDIGO FLORESTAL: O QUE A IMPRENSA NOTICIOU SOBRE A VOTAÇÃO:
- Novo Código Florestal é aprovado e volta à Câmara dos Deputados - http://migre.me/72rPq (Agência Senado - 06/12/11)
-Cota de Reserva Ambiental poderá ser 'moeda verde' negociada entre proprietários para garantir preservação e recuperação -http://migre.me/72rZn (Agência Senado - 07/12/11)
-Senadores da base do governo e ligados ao setor rural defendem novo Código Florestal - http://migre.me/72s7e (Agência Senado - 07/12/11)
-Texto do novo Código Florestal também recebe críticas de senadores - http://migre.me/72sfS (Agência Senado - 07/12/11)
- Senado aprova novo Código Florestal - http://www.estadao.com.br/noticias/geral,senado-aprova-novo-codigo-florestal,807588,0.htm - (Estadão) - 06/12/11
- Código Florestal anistia multa dos doadores de 50 políticos - http://migre.me/72ryn (Folha de SP - 07/12/11)
- Senado aprova novo Código Florestal - http://migre.me/72rBv (G1 - 06/12/11)
- Novo Código Florestal é aprovado no Senado - http://migre.me/72rJ9 (R7 - 06/12/11)

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Sucena Shkrada Resk

06/12/2011 23:27
Nota: Substitutivo do Código Florestal é aprovado no Senado, por Sucena Shkrada Resk

Hoje acompanhei, desde o início, o processo de votação do PL nº 30 do substitutivo do Código Florestal no Senado (com emendas), que há poucos minutos foi aprovado, por 59x7 votos. O texto final realmente é uma incógnita para todo mundo, pois não ficaram claras as emendas e as modificações finais. Esses dados deveriam estar mais transparentes à sociedade, pois falavam em números e não, em conteúdos, com raras informações. A matéria seguirá à Câmara.

Ao ouvir a maioria dos senadores, algumas das falas mais repetidas foram no sentido de que - "o melhor que poderia ter sido feito, apesar de problemas a resolver". Portanto, será mais fácil tecer opiniões a respeito, após termos acesso ao texto definitivo.

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Sucena Shkrada Resk

06/12/2011 16:39
Reflexão sobre o perfil da estrutura de nossa economia, por Sucena Shkrada Resk

Esses dados levam, no mínimo, à reflexão sobre o perfil da estrutura de nossa economia hoje:

- "O Brasil é o país das grandes empresas, que representam 1% das 5.838 mi empresas no país, sendo que 0,1% delas (cerca de 6 mil) detêm quase 70% do que é gerado no Brasil...Já as micro e pequenas representam 20% do Produto Interno Bruto (PIB), percentual baixo em relação a países europeus, como Alemanha (58,65) e Espanha (50,6%) e à média da América Latina (35%), que é baixa, por causa do Brasil, enquanto outros países da região têm percentuais mais avançados. Entre eles, a Argentina, com 57%....(essa situação) não é saudável, não gera crescimento sustentável...".

Essas informações foram passadas pelo engenheiro e Doutor em Administração, Paulo Feldmann, docente na Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP) e presidente do Conselho da Pequena Empresa da Fecomercio, durante o #SeminárioFuturodaComunicação, em SP. O evento foi promovido pela Associação Brasileira de Empresas e Empreendedores da Comunicação (#Altercom), nesta 2ª feira.

Segundo ele, esse perfil recai na legislação eleitoral. "As grandes empresas é que contribuem às campanhas...". Ele considera que as contribuições deveriam vir somente da sociedade civil.

Em levantamento feito pela Fecomercio, os principais problemas apontados por micro e pequenos empresários são:
- Incapacidade de enfrentar corrupção;
- Absoluta falta de capacidade de inovar;
- De se associar entre si;
- Desconhecimento por parte do empresário de conhecimentos mínimos de gestão;
- Concorrer com a economia informal;
- Ausência de microcrédito e crédito de longo prazo ao setor.

O que poderia auxiliar a resolver essa situação, segundo a instituição:
- Estabelecer lei de consórcios;
- Criar mecanismos legais e fiscais para a formação de associações, para exportação e pesquisa;
- Adaptar no currículo de ensino médio as disciplinas de gestão;
- Microcrédito;
- Estabelecimento de compras governamentais...

"O Brasil é o país da concentração. É muito difícil a vida do pequeno e médio empresário sem a grife, por isso, a necessidade da união dos mesmos. Hoje o empresário vê no concorrente um inimigo, é uma característica cultural. Por isso, seria importante haver um instrumento legal que induzisse à união, para ter massa crítica, formar 'grife' (que auxilia também a participar de licitações)", disse Paulo Feldmann.

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06/12 - Nota: Lassance -reflexão sobre o futuro da comunicação
Sucena Shkrada Resk

06/12/2011 15:13
Nota: Lassance -reflexão sobre o futuro da comunicação, por Sucena Shkrada Resk

06/12 - O cientista político #Antonio Lassance, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), nesta segunda-feira (5), durante o #SeminárioFuturodaComunicação, em SP, promovido pela Associação Brasileira de Empresas e Empreendedores da Comunicação (#Altercom), analisou que a recente Lei de Acesso à Informação cria um caminho para a democratização da informação. Segundo ele, é importante que essa legislação seja replicada nos estados e municípios. A íntegra de sua exposição sobre o Novo Mercado de Comunicação do Brasil pode ser consultada no seu blog .
Sucena Shkrada Resk

06/12/2011 14:13
Abramovay:A prioridade da inovação e do limite no contexto da economia verde,por Sucena Shkrada Resk

Ontem, dia 5, durante a reunião mensal do Comitê Paulista para a Rio+20, o sociólogo Ricardo Abramovay, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP), sintetizou os seguintes tópicos sobre sua leitura quanto às propostas da chamada economia verde:

- Mudar fontes primárias de energia fóssil para energia renovável;
- Melhorar o uso de energia;
- Conhecimento da natureza como fator principal
e problematizou essas diretrizes, tendo como centro de seus argumentos a questão do combate à desigualdade, apontando a necessidade de focar esforços em inovação e na determinação de limites.
Seguem alguns trechos:

- "Não é só um problema de eficiência que está em questão (com relação à uma visão mais ampla de desenvolvimento sustentável)". E lembrou, que apesar de avanços quanto à redução de desigualdade de renda, no universo da responsabilidade social corporativa, no planeta há entorno de um milhão de pessoas na subalimentação...". Ao mesmo tempo, na outra ponta, outra grave situação de saúde pública é o aumento de obesos no mundo, que já ultrapassa de pessoas famintas.

- "...Tem gente que consome demais e se continuar esse padrão de consumo as contas não fecham..."
- "...A cada ano, a humanidade consome 60 bilhões de toneladas em materiais de construção, minérios, biomassa e combustíveis fósseis...Faça a economia verde que fizer, mesmo assim, a conta não fecha. Por mais que aumente a eficiência do uso dos recursos, não é suficiente para o aumento de produção das necessidade humanas (no atual padrão)...O século XXI ainda será o século das energias fósseis...;

Abramovay considera que inovação e limite são essenciais para a tomada de atitudes com relação a esse problema e exigem que se coloque a ética no centro das decisões econômicas, com relação à maneira como se está usando os recursos.
Com relação ao papel do Brasil, nesse processo, ele avalia que o documento oficial produzido pelo governo brasileiro, como contribuição à essa fase preparatória da Rio+20, deveria ser mais enfático com relação ao combate à desigualdade.

"...Porque mais que se lute contra a pobreza, se não tiver a luta contra a desigualdade no centro da estratégia para a Rio+20, esse esforço não vai nos levar a algo próximo ao desenvolvimento sustentável. Talvez para a economia verde...". De acordo com o sociólogo, existe um mito do crescimento verde. "...A energia mais preciosa é a que deixa de ser gasta e é o que não está sendo discutido; e miséria é um produto da sociedade, não da economia...".

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25/08/10 - Entremundos Direto na Fonte

Sucena Shkrada Resk

02/12/2011 16:59
Mosaicos que se cruzam com releituras de vida, por Sucena Shkrada Resk

01/12/2011
Posso dizer, sem sombra de dúvidas, que os bastidores dos eventos quase sempre rendem as melhores ‘conversas’ e aprendizados. Então, vou narrar para vocês a que eu tive com o artista plástico e restaurador Valmir Vale, 42 anos, do Instituto Musiva, antes do início da cerimônia do Prêmio Empreendedor Social de Futuro 2011, no mês passado, em São Paulo. Ele foi um dos três finalistas, por desenvolver um trabalho que possibilita que cidadãos de comunidades de baixa renda do Rio de Janeiro façam placas numéricas e objetos de arte de mosaicos, transformem o cenário de onde vivem e constituam novas leituras de vida.

A experiência dura entorno de seis meses e já foi realizada em Vigário Geral, na Rocinha, no Morro do Estado, em Niterói, e no Complexo do Alemão. Neste último, quem passa nas estações de teleférico de lá, vê as obras de arte a céu aberto, por exemplo. “O próximo curso é em Madureira. Até agora cerca de 700 pessoas foram capacitadas”, disse.

“Dona Ana (uma senhora da comunidade do Alemão) é uma delas e, depois de dois meses de curso, hoje trabalha conosco como estagiária remunerada”, contou. Para Valmir, que nasceu em Vigário Geral, o mosaico como efeito visual também se torna terapêutico. “Muitos dos participantes chegam com depressão e com o passar do tempo falam em auto-realização. Com isso, compartilho um bem-estar recíproco”.

Ao ouvi-lo e ao pesquisar um pouco mais sobre o projeto, percebi outro lado da estética, que não é só ‘aparentemente cosmético', e aí mergulhei em uma metáfora. ‘Quando literalmente reconstruímos com os cacos, somos capazes de metaforicamente também consolidar parte de nós, que poderia estar, de alguma forma, perdida. Deixamos de ser simplesmente números, para assumirmos o orgulho de uma identidade e de um endereço...’.

Para quem quer saber um pouco mais sobre esse trabalho pode consultar o site http://www.institutomusiva.org.br .
Sucena Shkrada Resk

29/11/2011 15:47
São Paulo 2022: uma recente contribuição para se pensar o próximo Plano Diretor, por Sucena S.Resk

Em 2012, se encerra o período do atual Plano diretor do município de São Paulo, em vigor desde 2002, portanto, os balanços e a proposta do próximo já têm que estar em plena discussão, pelo menos, é isso o que se espera. No contexto dessa pauta, foi lançado, no último dia 23, o projeto São Paulo 2022. A iniciativa reúne a Rede Nossa São Paulo, Escola da Cidade, o Instituto Ethos, o Instituto Arapyaú e o Instituto Socioambiental (ISA). Em linhas gerais, a proposta está baseada em 5 grandes eixos, com ideias, diretrizes e indicadores norteados pela gestão participativa.

Os temas centrais são:
- Cidade democrática, participativa e descentralizada;
- Saudável, cuidadora dos bens naturais e consumidora responsável;
- Compacta, ágil e policêntrica;
- Inclusiva, segura e próspera;
- Educadora, criativa e conectada.

Segundo o economista Cícero Iagi, um dos responsáveis pelo trabalho, não se pode perder de vista a dimensão humana da cidade. “São Paulo é gente e precisamos ver essas pessoas no território (ao se planejar)”, alertou. Na lista de desafios para a construção dessa São Paulo ‘mais coerente e justa’, foram destacadas as questões abaixo:
- Má qualidade do ar;
- Um número de 13.866 moradores em situação de rua superior a 328 cidades;
- A produção de 15 mil toneladas de resíduos sólidos diariamente;
- Aproximadamente 10 mil pessoas com renda per capita inferior a R$ 140
- e a dificuldade de mobilidade urbana, que faz com que cidadãos percam 2h42 horas por dia em seu deslocamento.

Ao mesmo tempo, a capital paulista tem uma circulação que favorece sua economia, com um evento a cada seis minutos e um total expressivo de turistas. Só em 2010, foi da ordem de 11,7 milhões de pessoas.Mas esse dado deve ser visto com o devido cuidado, pois não corresponde ao mesmo tempo às condições de infraestrutura.

Segundo o economista, os problemas e acertos devem ser pensados desde a concepção de planos de bairros, que até hoje, não saíram do papel, até sua dimensão metropolitana. E é aí que entra a necessidade de que os municípios tenham um diálogo mais próximo nessa gestão conjunta, que implica desde a economia à qualidade das águas dos rios. “A cidade incha pelas beiradas”, diz ele.

ASPECTO AMBIENTAL
No tocante ao aspecto socioambiental, algumas das orientações do documento são quanto à descanalização de rios, otimização do uso dos recursos hídricos pela população, como também ao maior controle e redução do desperdício no sistema. Com relação ao saneamento, a meta é atingir 100% do esgoto coletado e reduzir em pelo menos 20% a quantidade per capita de resíduos domiciliares (em 2010 estimado em 1,2 kg/hab). Quanto aos materiais recicláveis, constituir, no mínimo, uma central de triagem a cada 150 mil habitantes.

Mais um dos desafios expostos é que para cada habitante residente na área de uma subprefeitura, haja 12 m2 de área verde, na pior das hipóteses; e que se mantenham estações de medição da qualidade do ar em todos os 96 distritos. Enfim, são ações que no atual plano diretor não se conseguiu concretizar.

Para que possamos ter uma visão mais multidisciplinar, é importante mencionar que a Prefeitura atualmente também está articulando outro projeto para a cidade, só que nesse caso, para o horizonte de 2040. É o SP 2040 – A cidade que esperamos . É um documento adicional interessante como fonte de consulta.

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Sucena Shkrada Resk

25/11/2011 21:15
Dica: A Maior Flor do Mundo - José Saramago, por Sucena Shkrada Resk

A introdução do aspecto lúdico na educação ambiental possibilita abrirmos um campo rico não só para as crianças, mas para os adultos. O motivo é simples: mexe com a nossa sensibilidade e possibilita que enxerguemos nas entrelinhas e nas metáforas. Nessa linha, está o filme de animação “A Maior Flor do Mundo”, baseado no conto do escritor português José Saramago (1922-2010), em que ele é o próprio narrador. A produção de 2007 é dirigida por Juan Pablo Etcheverry.

Segue a dica. Em quase 10 minutos, descobrimos a importância da preservação da natureza e como estamos integrados a ela. Um bom recado para alertar aqueles que são a favor de mudanças radicais presentes no substitutivo do projeto de lei do Código Florestal. A proposta já passou pelas comissões da Casa e agora está em fase final de tramitação no Senado, e pode ser votada na próxima semana, em regime de urgência. O link é: A Maior Flor do Mundo .
Sucena Shkrada Resk

25/11/2011 15:08
Reflexão: Audiência pública nacional sobre o Plano de Resíduos Sólidos, por Sucena Shkrada Resk

Uma agenda importante na área socioambiental será realizada neste final de mês, à qual é interessante estarmos atentos. Será a audiência pública nacional da versão preliminar do Plano Nacional de Resíduos Sólidos, que acontecerá nos dias 30 de novembro e 1º de dezembro, em Brasília. O encontro tratará das diretrizes e temas transversais, como educação ambiental, logística reversa e instrumentos econômicos.

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente (MMA), responsavél por essa interlocução, na programação de debates haverá a divisão nos seguintes grupos temáticos:
- Resíduos Sólidos Urbanos e inclusão de Catadores de Materiais Recicláveis;
- Resíduos de Serviços de Saúde, Portos, Aeroportos e Terminais Rodoviários;
- Resíduos Industriais;
- de Mineração;
- Agrossilvopastoris;
- e da Construção e Demolição.

Vale lembrar que alguns prazos foram estipulados para a implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída pela Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010: de até agosto de 2014, não haver mais lixões no país e se adotar a coleta seletiva em todo território nacional.
Os municípios e estados têm o compromisso de até o ano que vem estabelecer seus planos de resíduos, entretanto, os mesmos devem estar concluídos em dezembro de 2011, para que tenham condições de se beneficiar do Programa de Resíduos Sólidos do Plano de Aceleração de Crescimento (PAC 2).

Não resta dúvidas de que essas implementações são um grande desafio para a mudança de estrutura de nossa sociedade e da gestão pública, pois infere o nosso modelo de desenvolvimento. Há vários Brasis em 5.565 municípios.

Paralelamente a esse processo, o Plano Nacional de Ação e Produção para o Consumo Sustentável, lançado no último dia 23, é outro mecanismo que deverá estar associado a essa legislação.

O MMA divulgou que foram assinados pactos setoriais, nesta semana. Um foi com a Unilever, que assumiu voluntariamente o compromisso de substituir, até 2020, o HCFCs (Hidroclorofluorcarbonos) e HFCs (HidroFluorCarbonos) em seu parque de câmaras frias, atualmente com 100 mil equipamentos, por outras com baixo potencial de aquecimento global, devendo atingir 80% até 2020.

Já a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) estipulou a meta de reduzir o consumo de sacolas plásticas em 40% até 2015 (a base de cálculo é a produção de 14 bilhões de sacolas em 2010). No caso da Associação Brasileira de Embalagens, a diretriz é a seguinte no mesmo período: instituir a simbologia técnica do descarte seletivo em mil produtos e adicionar a identificação dos materiais em outras 300 embalagens anualmente.

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15/07/2010 - Reflexões sobre resíduos sólidos.

Sucena Shkrada Resk

25/11/2011 08:21
Nota: Rio+20-Lançamento de Campanha O Futuro que queremos será no dia 28, por Sucena Shkrada Resk

No próximo dia 28 de novembro, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançará a Campanha Mundial O Futuro que Queremos, que é uma iniciativa conjunta do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais e do Departamento de Informação Pública das Nações Unidas para divulgação em âmbito mundial da Rio+20 - Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável. O evento será realizado na sede da Prefeitura do Rio de Janeiro e terá como uma das primeiras ações o 1º Encontro Global de Diretores de Centros de Informação da ONU, que ocorre entre os dias 28 e 30 deste mês. (síntese das informações transmitidas pela Humanitare).

E qual é o futuro que queremos? Reflexão sem prazo de validade, não é? Vamos fazer esse exercício se tornar factível somente ao tecer as ações em nosso presente. Afinal, não há fórmulas mágicas para essas transformações...

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Sucena Shkrada Resk

24/11/2011 08:28
NOTA: Site oficial da Rio+20 em português já está oficialmente no ar, por Sucena Shkrada Resk

Ontem, 23, foi lançado no Rio de Janeiro, o site oficial da Rio+20 em português, que facilitará a comunicação do processo em nosso idioma, tendo em vista, que nem sempre é fácil dominar o inglês e espanhol. A manutenção da página é de responsabilidade da Humanitare. Lá é possível encontrar documentos que fazem parte do processo de formatação do evento, como também uma newsletter quinzenal produzida pelo secretariado geral. O endereço é www.rio20.info/2012/ .

Mais uma iniciativa, nesta quarta-feira, (neste caso do Ministério do Meio Ambiente - MMA) foi o lançamento do hotsite Mulheres Rumo à Rio+20, que será mantido pela Secretaria de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental.

São mais alguns instrumentos de pesquisa para que possamos ter elementos para acompanhar essa pauta.

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Sucena Shkrada Resk

22/11/2011 22:26
CBJA: jornalista socioambiental na busca da liberdade, por Sucena Shkrada Resk

Três dias ou melhor, cerca de 26 horas de programação, entre palestras e oficinas, e uma conclusão: nós, que assumimos o papel de jornalistas socioambientais, sucumbiremos se ficarmos restritos aos ‘aquários’, a tarjas institucionais e às pautas métricas, envernizadas e cartoriais, que nos engessam e anulam. Precisamos de liberdade, é algo vital para nosso exercício. A reflexão pode parecer radical e até óbvia para algumas pessoas, mas foi o que realmente extrai, ao término do IV Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental, realizado entre os dias 17 e 19 de novembro, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). O evento foi organizado pelo Instituto Envolverde e pela Rede Brasileira de Informação Ambiental (Rebia), com apoio da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental (RBJA).

No fim de tarde do sábado, posso dizer que um certo incômodo tomou conta de mim, me alertando para sair de possíveis inércias e períodos lacônicos e de equivocados pedestais, armadilhas comuns em nossa área (vaidades e orgulhos). Eu me dei conta que não há nada de errado em ser frágil, pois ao mesmo tempo, sou forte ao defender meus ideais de um jornalismo ético e multidisciplinar, em meio à exigência de sobrevivência em um mercado controverso e até perverso, em certas ocasiões. Essa ‘tempestade de ideias’ não foi resultante só do que ouvi dos palestrantes, mas da troca de repertório com os colegas de Norte a Sul do país, que participaram do evento, o que foi enriquecedor.

Durante o evento, triei algumas falas que me soaram positivas para esse exercício de reavaliação. No painel, que tratou da Rio+20, ouvi, por exemplo, do jornalista Vilmar Berna, a seguinte afirmação: "Não há imprensa neutra. Fala de parte da verdade. A questão é qual parte trataremos na Rio+20. O que vamos deixar nas sombras?”. A metáfora cabe bem em um tema no qual ainda pisamos em ovos e precisamos dedicar maior atenção ao contexto histórico e socioeconômico e não sermos enredados em possíveis retóricas.

Com as mudanças de datas sofridas no evento oficial, que passou para o período de 20 a 22 de junho do ano que vem, uma informação me pareceu importante a ser aprofundada. Segundo Claudia Maciel, do Itamaraty, entre os dias 16 e 19, o Brasil realizará grandes eventos com a sociedade civil, no processo informal, que não cabe na grande conferência. Agora, é importante saber qual será a representatividade dessas atividades na qualidade de vida da sociedade, não é verdade?

No plano macro da Rio+20, tendo em vista que cerca de 80 países entregaram suas propostas de contribuições oficiais para a secretaria da Rio+20/ONU, mais uma pauta me pareceu interessante de ser aprofundada. O que converge e o que distoa nesses documentos?

O que me chamou a atenção na fala do economista Ladislau Dowbor, professor titular no departamento de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), nas áreas de economia e administração (que recentemente concedeu entrevista para o blog), foi trazer sua experiência recente na China (maior emissor de Gases de Efeito Estufa do mundo) e, ao mesmo tempo, maior investidor em energias renováveis. “Lá, as motos elétricas estão nas ruas, no valor de 350. Por que aqui no Brasil não se adota esse modelo?”, lançou o questionamento aos presentes.

Com a proposta de quebrar paradigmas, Luiz Pinguelli Rosa, do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) afirmou: "Não há energia santa...Mesmo a eólica precisa de cimento, aço, cobre que necessitam de energia fóssil...", durante sua palestra que tratou da Ciência e Inovação para uma sociedade Sustentável.

Segundo Pinguelli, o Brasil não deveria investir na energia nuclear. "Fukushima foi uma lição...e termoelétrica é um absurdo. O governo deve incentivar energia distribuída, extraí-la também do lixo. Ele também fez algumas ressalvas às hidrelétricas e mencionou que muitas pessoas do Movimento Atingidos por Barragens, populações indígenas não foram devidamente compensados e deveriam ser compensados por royalties...

Nesse exercício de questionamento, o jornalista André Trigueiro provocou - "Jornalista ambiental tem de incomodar...". A sua fala tem sentido (acredito que para todos os jornalistas, de uma maneira geral), porque quando nos acomodamos, a profissão perde consistência...gera um vazio, não acham? Outra reflexão que fez também me soou pertinente."O jornalismo fragmenta o tempo todo e nunca será sistêmico...Somos educadores informais para o bem ou para o mal...".

O professor Ismar Soares, da Universidade de São Paulo (USP), trouxe o elemento educacional para a reflexão. Ele considera importante que se pense a escola como ecossistema e reforçou: comunicação só existe se é democrática e participativa, e lançou a seguinte questão - o desafio na sociedade de consumo é como integrar as crianças na luta pela sustentabilidade, afinal representam as futuras gerações. Uma das maneiras, em sua avaliação, é por meio da educomunicação... Aí está uma pauta abrangente sobre o que identificamos como ferramenta de empoderamento da sociedade e cabe ao papel da educação informal.

Com um discurso “revigorante” aos nossos picos de desânimo, a ativista ambiental Neuza Arbocz citou uma fala de Johnny Ken, do Techtudo, que considerei interessante... Segundo ele, se uma ou duas pessoas estiverem bem informadas, podem fazer a diferença. Ou seja, não precisamos nos desanimar quando não atingimos a quantidade...Aí está um dos grandes desafios dos jornalistas ambientais e de quem trafega nesta área. Muitos freiam seus potenciais ao não conseguir, por muitas vezes, grandes sensibilizações no aspecto quantitativo.

Um painel que aqueceu a reflexão foi "O Jornalismo Científico e o diálogo imprensa/academia", com Ulisses Capozoli, Eduardo Geraque e Wilson da Costa Bueno. A questão ética, de conservar o estranhamento (que faz com que não aceitemos tudo de mão beijada), o aprofundamento das pautas as relacionando também aos aspectos sociais e ambientais fizeram parte dos temas levantados pelos palestrantes.


MÃO NA MASSA
Um dos cases interessantes apresentados, durante o CBJA, foi da iniciativa que se chama Rios e Ruas, coordenada pelo urbanista José Bueno, que visa fazer com que os cidadãos redescubram os cursos d`água sob a cidade concretada e com isso se sensibilize sobre a conservação da natureza, as histórias por trás das mesmas... Para isso, há um momento teórico e outro de expedição - https://www.facebook.com/rioseruas?sk=info

Como elemento propositivo, a Oficina de Mídias Sociais, conduzida por Alan Dubner, da qual também participei, lançou o embrião da criação colaborativa de geração e encaminhamento de conteúdo na plataforma www.jornalismoambiental.com, além de outras mídias, como blog e a rede social Facebook. A iniciativa integrou praticamente 35 pessoas de diferentes estados, faixas etárias nessa empreitada. Agora, é trabalharmos!

Durante o CBJA, a Rebia também realizou seu primeiro encontro nacional com a meta de revigorar o grupo, trazendo novas perspectivas. Ouvir colegas do Acre, de Alagoas, do Ceará, Mato Grosso do Sul, de Minas Gerais, do Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e de Salvador e eu, claro, do estado de São Paulo, foi algo muito instigante. Ouvi relatos de militância de comunicadores que vivem desafios “na pele”. E não são vivências corriqueiras, mas que exigem, acima de tudo, aprofundamento nas pautas e coragem.

Outro evento importante foi o I Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental, que reuniu 36 trabalhos apresentados na mostra científica, entre mais de 100 inscritos. Segundo a jornalista Gisele Neuls, o objetivo da comissão organizadora é formalizar uma Sociedade que coordene daqui por diante os próximo encontros, tornando o trabalho e fomento de pesquisas sistematizados.

Sucena Shkrada Resk

22/11/2011 13:37
Por dentro das agendas da sociedade civil para a Rio+20, por Sucena Shkrada Resk

Conhecimento só se dissemina, quando há a circulação de informações que facilitam o poder de escolha, não é verdade? Então, seguem os dois sites que pesquisei há pouco, que já se encontram no ar e podem ser úteis para quem vai acompanhar, cobrir e quer assimilar melhor a participação da sociedade civil no processo da Rio+20:

FÓRUM SOCIAL TEMÁTICO 2012
O encontro do Fórum Social Temático 2012 - Crise Capitalista, Justiça Social e Ambiental terá como mote a Rio+20. O evento será realizado de 24 a 29/01/2012, em Porto Alegre.

Os grupos de trabalho estão sendo constituídos em outra plataforma (Diálogos2012), que está no ar, desde o último dia 15. São divididos em Água, Bens Comuns, Cidades Sustentáveis, Ciência e Tecnologia, Clima, Consumo, Educação, Ética, Extrativismo e Mineração, Governança e Arquitetura de Poder,Territórios, Auto-Governo e Bem Viver O endereço do site é http://www.fstematico2012.org.br/ .

A página da CÚPULA DOS POVOS NA RIO+20 POR JUSTIÇA SOCIAL E AMBIENTAL, que será realizada em junho do ano que vem, também se encontra no ar. É http://cupuladospovos.org.br/ .

AGENDA OFICIAL DA RIO+20
Na agenda oficial, amanhã, 23, o subsecretário-Geral para Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas e Secretário-Geral da Rio+20, Sha Zukang, estará no RJ. Ele tratará do tema Avanços e Desafios para a #Rio+20, em evento na Prefeitura do RJ. Nesta data, também será lançado o site brasileiro oficial da conferência. Na programação de amanhã ainda está previsto o lançamento da chamada agenda Conexão G15 Rio+20, além do Global Report Initiative relacionado ao evento. As informações foram passadas hoje pela UNIC RJ.

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Sucena Shkrada Resk

09/11/2011 15:08
Neide Duque: habitação digna na maior idade, por Sucena Shkrada Resk

Somente quando a gente se dispõe a ouvir ou a vivenciar alguma situação é que possibilita abertura a reflexões, não é verdade? Com essa premissa, escutei Neide Duque, 70 anos, nos bastidores do Fórum Social de São Paulo (FSSP), no mês passado. Ela é ativista social, aposentada como promotora cultural na área artística, e integra o Grupo de Articulação para Moradia de Idosos da Capital (Garmic) e o Conselho Municipal do Idoso.

O que me chamou atenção em sua fala foi o vigor (que muitas vezes, não temos), em reivindicar qualidade de vida a esta fase da maturidade, a que chamamos carinhosamente de maior idade. Um período que, geralmente, relegamos a devida atenção, no qual muitos idosos, que recebem aposentadorias baixas, têm dificuldade de ter uma habitação digna. Em situações mais precárias, ficam em situação de rua ou moram em cortiços ou em asilos.

Isso ocorre, independente de o Estatuto do Idoso prever em seu artigo 37, que ele tem direito à moradia digna junto à sua família de origem, ou só, quando desejar, ou ainda em entidade pública ou privada. Daí comecei a pensar – todos nós um dia seremos idosos, se nenhum percalço nessa jornada acontecer, e como pensamos nessa expectativa de longevidade? Atualmente cerca de 8% da população tem idade igual ou superior a 65 anos e a expectativa de vida do brasileiro é de 73 anos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

E quando observamos o artigo 38, o mesmo diz o seguinte:
‘Nos programas habitacionais públicos ou subsidiados com recursos públicos, o idoso goza de prioridade na aquisição de imóvel para moradia própria, observando-se reserva de 3% das unidades residenciais para atender idoso, garantia de acessibilidade nas construções e critérios de financiamento compatíveis com os rendimentos de aposentadoria e pensão”. Aí, mais um questionamento: onde há transparência sobre isso ou encontramos informações condizentes com a realidade em nossos municípios?

Depois desse intervalo em que temos a noção do que a Lei diz e do que a realidade nos mostra, a narrativa de dona Neide ganha mais força. Ela contou que ela e seus companheiros de grupo defendem a alternativa da auto-gestão dos mutirões. “Em vez de contratar empreiteira, porque assim conseguimos as moradias com nossas próprias mãos, mais bem acabadas e a baixo custo”, disse. Segundo ela, é importante destacar que as mulheres também ‘pegam no pesado’ nas obras, que não é trabalho só para homens. “Somos mais propositivas. Fazemos assentamento de tijolos, dirigimos coletivo, pilotamos avião..., mas ainda temos de quebrar as barreiras do preconceito de sermos vistas como subalternas”.

Neide é uma das 200 pessoas, com mais de 65 anos, que vivem no conjunto habitacional do Projeto Vila dos Idosos com 145 apartamentos, no Pari, que foi executado pela Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab), com dependências adaptadas (a maioria quitinetes). “Pagamos o aluguel social à Prefeitura. Lutamos por mais espaços como esse. Existem no estado de São Paulo, pelo menos, 1,5 mi idosos, e mais de 50% precisam de moradia. Só no Garmic, tem cerca de 1,2 mil pessoas na fila de espera por uma moradia digna”.

Ela explicou que os idosos na cidade também têm o direito de se enquadrar no bolsa aluguel, que é monitorado por assistentes sociais.

Para quem quer saber mais um pouco sobre a história do Garmic, recomendo o artigo de Olga Luiza Leon de Quiroga, de 2007, disponível no link: http://revistas.pucsp.br/index.php/kairos/article/viewFile/2584/1638. Acesso em: 09/11/2011.

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Sucena Shkrada Resk

09/11/2011 11:52
Refletindo sobre o Estado do Futuro/Projeto Millennium, por Sucena Shkrada Resk

A 15ª edição do documento “O Estado do Futuro”, do Projeto Millennium, foi lançada no mês de outubro e revela um mundo que aspira transformações efetivas, tendo em vista que metade de nosso planeta ‘é potencialmente instável’ e expõe a dicotomia de ações de cada um de nós, que fazemos parte da humanidade. O X da questão é quanto seremos ágeis (individualmente, na figura do Estado, multilateral...), de forma eficiente, para promover as transformações necessárias.

Na balança das grandes controvérsias, hoje há mais riqueza, melhoria na educação, na qualidade de vida – vide a longevidade em alguns países. Ao mesmo tempo, os valores dos alimentos sobem, temos a diminuição dos lençóis freáticos, a corrupção e crime organizado aumentam, a crise econômica é uma realidade que deixa seus rastros desde 2008 e a insegurança ambiental e a desigualdade socioeconômica são traços marcantes neste século. Nesse quadro, a necessidade de governança transparente e coesa e de mudanças de paradigmas de desenvolvimento ganha maior força.

Rosa Alegria, vice-presidente do Núcleo de Estudos do Futuro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (NEF/PUC-SP) apresentou, no dia 26, a tradução e avaliação do sumário desse estudo, originalmente em inglês e espanhol.

No relatório, são apontados 15 grandes desafios estratégicos nessas tomadas de decisão, que giram entorno dos seguintes temas:
- Desenvolvimento Sustentável;
- Água;
- População crescente e recursos;
- Democracia;
- Perspectivas de longo prazo;
- Tecnologias da Informação/Comunicação;
- Exclusão Social;
- PIB per capita mundial – países...;
- O mapa da felicidade mundial;
- Saúde;
- Tomada de decisão;
- Paz e conflitos;
- Condição da mulher;
- Crime organizado;
- Energia;
- Ciência e Tecnologia;
- Ética Global.

CENÁRIOS DE CONTROVÉRSIAS
Em maio deste ano, o nível de CO2 estava em 394.35 ppm, o maior em pelo menos 2 milhões de ano. Tendo em vista o modelo extrativista, o consumo desenfreado e a perspectiva de sermos mais 2,3 bilhões de pessoas em 39 anos, faz com que esse cenário se torne mais relevante na agenda mundial. Vale lembrar que no dia 31 de outubro, oficialmente atingimos a marca de 7 bilhões de cidadãos.

O investimento em energias renováveis e limpas, além da eficiência energética tem aumentado. Hoje, inclusive, a China é a maior investidora , com orçamento de US$ 51 bilhões, em 2010, ao mesmo tempo que é a maior emissora de Gases de Efeito Estufa (GEEs). O relatório, entretanto, detecta que se não forem feitos grandes avanços em tecnologia e na mudança de comportamento, em 2050, ainda a maioria da energia mundial dependerá dos combustíveis fósseis.

Nesse panorama de aumento demográfico e de consumo inconsciente, a água potável já é comparada ao petróleo, devido ao seu esgotamento. Mais de 884 milhões de pessoas ainda não têm acesso à água potável, que fazem parte do contingente dos que estão na extrema pobreza, e cerca de 2,6 bi ao saneamento seguro. Apesar de quase meio bilhão de pessoas terem saído do estágio de carência extrema, entre 2005 e 2010 (US$ 1,25 por dia), esse processo é extremamente lento a olhos nus.

As mulheres são vistas como importantes pilares para lidar de maneira mais eficiente com relação aos desafios globais. Mesmo se constatando que a dificuldade de empoderamento ser relativamente grande na atualidade, houve avanços. No mundo, há uma proporção média de 19,2% de mulheres legisladoras e cerca de 20 países tem uma chefe de Estado.

Do outro lado da balança, existe um grupo de cerca de 700 sociedades financeiras que domina 43 mil empresas do mundo e 147 multinacionais, que possuem 40% do valor econômico e financeiro. Conforme a Revista Forbes, como destaca o documento, os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, e África do Sul) produziram 108 dos 214 novos bilionários em 2011, de um total de 1.210 mundialmente, sendo 115 da China e 101 russos. A pergunta é: a que custo querem chegar ao status de países desenvolvidos?

Que mundo estamos construindo, afinal, que também registra US$ 1,6 tri de transações ilícitas anualmente e que tem a fragilidade ética, que abre cada vez mais a fenda entre ricos e pobres?

Cada vez que vamos comprar alimentos, os valores estão diferentes, mas os salários não. O custo de vida está ficando mais caro e dicotomicamente consumimos mais bens de consumo. Somos a representação da controvérsia...Entre os fatores considerados para esta elevação, soma-se o aumento populacional, erosão do solo, esgotamento de aquíferos, poluição da água, produções extensivas no agronegócios, o aumento de secas e inundações creditadas às mudanças climáticas e especulação no mercado.

Ao mesmo tempo, um fenômeno do século XXI é o universo das mídias sociais, que são ferramentas para mobilizações como a Primavera Árabe, que demonstra um despertar pela ânsia por democracia, mas que ainda requer mais atenção sobre sua repercussão. Entretanto, o documento também revela que há menos liberdade em 25 países e mais liberdade em 11, e a liberdade civil e política declina em cinco anos consecutivos e a de imprensa vem caindo nos últimos nove anos. E em pleno século XXI, existe um mapa da escravidão moderna. “Quantas vidas estão em um sapato barato, por exemplo?”, questiona Rosa Alegria.

No avanço das tecnologias de comunicação e informação, há um contingente de 5,3 bi usuários de celular e 2 bi de internet e a abertura do chamado G8 (criado este ano para explorar o potencial dos negócios e governos eletrônicos), em contrapartida os produtos são mais obsoletos e as trocas mais frequentes. Mas uma nova guerra entre governos começa a surgir, a cibernética.

Já as chamadas ‘guerras ao velho estilo” também têm diminuído nas últimas décadas. De acordo com o estudo, atualmente ocorrem 10 conflitos com pelo menos 1 mil mortes anualmente (Afeganistão, Iraque, Somália, Iêmen, NW, Paquistão, Naxalities na Índia, os cartéis mexicanos, Sudão e Líbia).

No tocante ao armamento nuclear, os dados apontam que EUA e Rússia diminuem seus arsenais, enquanto China, Índia e Paquistão aumentam. O que chega a chocar, depois das hipotéticas lições da Segunda Guerra Mundial, é que em fevereiro deste ano, havia o registro de 22 mil ogivas no mundo, sendo que 2 mil estariam prontas para uso pelos EUA e Rússia, segundo a Federação de Cientistas Americanos.

Quanto ao tema saúde, o estudo registra melhorias circunstanciais, como da queda de doenças infecciosas, de 25% em 1998 para menos de 16% em 2010. Ao mesmo tempo, neste ano, há seis epidemias potenciais, sendo a mais grave, com relação à enzima NDM-1, que pode originar uma variedade de bactérias resistentes à maioria dos medicamentos.

As tentativas de planejamentos de perspectivas de longo prazo ainda são acanhadas. A constatação é que muitas ficam circunscritas a períodos eleitorais de 4 anos, quando tudo muda, dependendo da gestão. Em contrapartida... “Na Finlândia, estão criando conselhos futuristas e existe também a iniciativa mundial dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs), no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU)”, diz Rosa. Mas os resultados, obviamente, dependem de cada nação que ratificou a participação.

Seguem abaixo eixos de reflexão expostos no sumário executivo do relatório O estado do Futuro:

ONDE ESTAMOS GANHANDO:
1. Melhor acesso à água
2. Taxa de alfabetização, total de adultos (porcentagem de pessoas com mais de 15 anos
3. Matrícula escolar, secundário (porcentagem total)
4. Taxa de incidência da pobreza dos que vivem com até $ 1,25 por dia
5. Médicos (por 1 mil pessoas)
6. Usuários da internet (por 100 pessoas)
7. Taxa de mortalidade infantil (por 1 mil nascimentos de vivos)
8. Expectativa de vida no nascimento, total (anos)
9. Mulheres nos parlamentos (porcentual de todos os membros)
10. PIB por unidade de uso de energia (constante 2000 PPP $ per kg de óleo)
11. Número dos principais conflitos armados (número de mortos maior que 1,000)
12. Desnutrição (porcentual da população)
13. Predomínio de HIV, total (porcentual da pop. Idade 15-49)
14. Países que possuem ou pensam em ter planos para armas nucleares (número)
15. Total de endividamento na área de serviços – total (porcentual do GNI (países de rendas baixa e média)
16. Gastos em P&D (porcentual de orçamento nacional)

ONDE ESTAMOS PERDENDO:
17. Emissões de dióxido de carbono (kt)
18. Anomalias da temperatura na superfície global
19. Pessoas votando nas eleições (porcentual da população)
20. Níveis de corrupção (15 maiores países)
21. Pessoas mortas ou feridas em ataques terroristas (número)
22. Número de refugiados (por 100 mil população total)

ONDE HÁ INCERTEZA:
23. Desemprego, total (porcentual da força de trabalho total)
24. Consumo de combustível não-fóssil (porcentual do total)
25. População nos países que são livres (porcentual da população global total)
26. Floresta (porcentual de toda área de terra)

Segundo Rosa, para Ted Gordon, co-fundador do Projeto Millennium, é estratégica a evolução das tomadas de decisões e a questão ética. “Existe uma dificuldade hoje quanto a quais tipos de valores norteiam quem decide. Tudo vale pelo crescimento econômico. Todos somos compradores de alguma coisa...”.
Sucena Shkrada Resk

08/11/2011 16:20
Os eixos da economia sustentável sob o olhar de Ladislau Dowbor, por Sucena Shkrada Resk

O economista político Ladislau Dowbor, professor titular no departamento de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), nas áreas de economia e administração, concedeu entrevista ao Blog Cidadãos do Mundo, no dia 26 de outubro, em que trata do tema do desenvolvimento sustentável e as interfaces com as economias solidária, criativa/do conhecimento e a chamada economia verde, um dos eixos centrais da pauta da Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), em junho do ano que vem. Ele é enfático ao afirmar que a pauta central hoje é o combate à desigualdade e ao mesmo tempo considera que a sociedade civil está mais conectada mundialmente, o que pode trazer de maneira mais eficiente, formas articuladas de pressão sobre o processo..

Blog Cidadãos do Mundo – Professor, como as economias criativa e solidária estão inseridas na tarja da economia verde?

Ladislau Dowbor – Há várias dinâmicas para fazer essa análise. Hoje temos no planeta ainda 50% de população rural e que vive da agricultura. No Brasil, a agricultura familiar produz três quartos dos alimentos que vêm à nossa mesa. Toda a área do pequeno produtor, da pequena pecuária e dos cinturões verdes das cidades são profundamente diferentes do agronegócio. São dois universos distintos. O do agronegócio com intensidade de adoção de agrotóxicos, da monocultura, pecuária extensiva, em que o desmatamento para pecuária e para grãos tem um impacto significativo no conjunto dos problemas ambientais. Isso envolve também contaminação dos lençóis freáticos, das águas subterrâneas, dos rios e redução da biodiversidade e por aí vai, além do impacto climático. Agora, se observamos parte dos pequenos agricultores, que representa metade da população do planeta, eles podem utilizar a policultura, onde os plantios se equilibram, e outros sistemas naturais de preservação na agricultura em pequena escala, que com mais diversidade, tem menos pragas. Há um conjunto de processos que podem juntar a unidade menor de produção de subsistência com as novas tecnologias, com sistemas de apoio de economia solidária, como de produtos orgânicos; o abastecimento das famílias diretamente do produtor, do sistema de compras governamentais, por exemplo, para a merenda escolar. Na realidade, há uma imensa oportunidade de economia criativa, de aportes tecnológicos e acesso ao conhecimento mais sofisticado, nos sistemas de desentermediação.

Blog Cidadãos do Mundo – Mas quais são os mecanismos que auxiliam para que essa dinâmica, de fato, seja implementada?

Ladislau Dowbor - Hoje a fragilidade maior desses produtores são os atravessadores comerciais e o isolamento ao sistema de comunicação. Quando a gente vê agricultores no Quênia que fazem as transações pelo celular, mesmo sendo analfabetos, porque sabem falar e têm inteligência, percebemos que se gera, na verdade, outra dinâmica em um setor extremamente importante.

Blog Cidadãos do Mundo – Nesse contexto da economia sustentável, há mais alguma vertente?

Ladislau Dowbor – Outro eixo de imensa importância tem sido chamado de economia do conhecimento. Hoje na composição dos produtos, três quartos do valor não são matéria-prima ou trabalho físico, mas conhecimento incorporado de design, de pesquisas – os intangíveis. O conjunto das atividades econômicas, portanto, quanto mais densas em conhecimento, mais têm propensão para evoluir a processos colaborativos. Há inúmeros exemplos. Como no sistema da robótica, em que empresas privadas com bens lucrativos decidiram colocar todo o conhecimento on line (um mecanismo de compartilhamento).

Blog Cidadãos do Mundo – A economia do conhecimento, então, é compatível com a preservação ambiental?

Ladislau Dowbor - Não tira pedaço da natureza. É um conjunto de atividades econômicas que perpassa todos os setores, desde a agricultura até a construção civil, a fabricação de roupas etc. Em que pode se intensificar o conhecimento, melhorar as tecnologias, reduzir o uso de recursos naturais por unidade, utilizar muito mais os sistemas circulares, em que há reciclagem de matérias-primas. Há uma evolução generalizada que potencializa esse tipo de sistema, que ao mesmo tempo, melhora a produtividade econômica e permite a redução dos impactos naturais. Ao se abrir para processos colaborativos, tende a se reduzir o peso da competição e da desigualdade. Na Favela em Antares, no Rio de Janeiro, por exemplo, generalizaram o acesso à banda larga na internet, estão produzindo design, facilitando o uso de pessoas que têm dificuldade com o computador, com serviços on line; além de produzir cultura, se gera inclusão social. Antigamente, tínhamos de esperar que se instalasse uma fábrica na região, para a geração de empregos. A economia criativa possibilita a ascensão social por causa do adensamento do conhecimento dos processos produtivos. O conhecimento não é um bem escasso, uma vez que chegou a ele, sua circulação não é rival. Se eu te passo uma ideia, continuo com ela. Por isso, se multiplica e cada vez mais pessoas irão associar essas ideias de forma inovadora.

Blog Cidadãos do Mundo – O senhor concorda com termo economia verde?

Ladislau Dowbor - Tenho certas restrições. Por que verde? Há uma tendência de tentar dissociar o ambiental do social, o que é catastrófico. Desenvolvimento sustentável é mais abrangente, porque envolve, o social, o econômico, o ambiental e a governança política.

Blog Cidadãos do Mundo – Qual é a importância do eixo social, na sua avaliação, professor?

Ladislau Dowbor – O eixo das políticas sociais é imensamente importante. É um investimento nas pessoas, na saúde, educação e cultura, é o que a gente quer da vida, não é um gasto. Quando você pensa que há o massacre das pessoas para comprarem mais caro, por meio de publicidade, você está matando o meio ambiente. Veja São Paulo com os seus 7 milhões de veículos. Quando melhora o acesso à saúde, educação e à cultura promove um impacto zero ao meio ambiente. Economiza os recursos naturais. Hoje a ‘gritaria’ é por mais produtividade, com mais hora/trabalho, em vez de buscar produzir mais com menos recursos da natureza. Podemos usar mais mão de obra com sistemas participativos, em pequenas produções. É outro desenho diante da realidade dos recursos limitados. Uma maneira de mudar a lógica econômica.

Blog Cidadãos do Mundo – O que pode ser feito de diferente na Rio+20?

Ladislau Dowbor – A ECO 92 e a publicação do documento O Nosso Futuro Comum fizeram um balanço dos grandes problemas ambientais e sociais do planeta e resultaram em uma agenda do clima, da biodiversidade, e na Agenda 21. Mas não foram formuladas as formas de implementação. Com a Rio+20, não precisamos reformular essa agenda, que continua praticamente a mesma; entretanto, os problemas se agravaram. O que se coloca é que a visão da governança e do processo decisório é essencial. Como a gente faz as coisas acontecerem? Isso passa pela compreensão de que passamos por uma crise econômica, que por um lado, restringe recursos, e de outro, gerou um clima político mais forte e de as pessoas dizerem que é preciso mudar. A sociedade civil está mais conectada mundialmente, o que pode trazer de maneira mais eficiente, formas articuladas de pressão sobre o processo. Temos também a fragilidade imensa do sistema multilateral (Fundo Monetário Internacional-FMI; Organização Mundial do Comércio-OMC e a própria Organização das Nações Unidas...). Por outro lado, isso nos leva aos estados-nacionais, que têm a estrutura organizada. Mesmo que o conceito de desenvolvimento sustentável implique a dimensão social, agora vai ter a centralidade no processo da desigualdade. Uma parte do planeta está com o consumo surrealista e o resto do planeta querendo limitar esse consumo sofisticado. A erradicação da miséria ou da pobreza estará no centro. É possível fazer políticas redistributivas.Temos de investir nas infraestruturas sociais, como habitação, saneamento básico. Por outro lado, enfrentaremos a resistência das grandes corporações e do sistema financeiro mundial...


Sucena Shkrada Resk

07/11/2011 09:12
O aprendizado da experiência em feira de trocas..., por Sucena Shkrada Resk

Na Sala Crisantempo, na Vila Madalena, em São Paulo, tive neste domingo, a minha primeira experiência em uma feira de trocas. Levei uma chapinha, um leque indígena e um pequeno quadro com dizeres orientais feito por minha mãe. Na troca, saí de lá, com um vaso lindo com copos de leite, uma pasta e um pratinho metálico. Isso, fora conhecer gente nova, sentir o espírito aconchegante do desprendimento. Enfim, considerei a iniciativa válida e quero participar de outras. O pessoal leva de tudo, desde roupas, alimentos orgânicos a CDs, livros...Ah, eu não posso esquecer: muita gente faz itens customizados, reciclados, com acabamento bem feito...Parabéns aos artesão, não é?

Eu me senti à vontade nessa atmosfera que tem os princípios da economia solidária. A regra básica é termos o bom senso de levarmos itens em boas condições...Só não exercitamos o uso da "moeda" solidária ou social, mas conheço experiências nos Fóruns Sociais Mundiais (FSMs) e casos pontuais no Brasil, que demonstram que é algo possível e interessante de se expandir.

Ao mesmo tempo, durante a tarde de ontem, foi importante saber lidar com o respeito à vontade do outro, nesse processo de trocas. Uma colega havia levado uma carteira (que achei bonita e queria presentear à minha mãe), mas ela não se interessou pelos itens que eu havia levado. Perfeito, ninguém ficou chateado por isso. Faz parte desse processo de negociação. Enfim, um aprendizado constante...em que as duas partes devem se sentir contempladas.

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Sucena Shkrada Resk

31/10/2011 13:34
O encanto pela história oral, por Sucena Shkrada Resk

Após mais de três mil entrevistas com os mais variados cidadãos no Brasil e no exterior, o historiador José Carlos Sebe Bom Meihy, coordenador do Núcleo de História Oral da Universidade de São Paulo (Neho/USP), tem uma leitura vigorosa sobre o propósito dessa iniciativa, que não é uma disciplina, mas uma prática que se fundamenta em pesquisa, que completa duas décadas, justamente neste mês. "...Com a história oral é possível incentivar políticas públicas e resgatar o papel cidadão do narrador...Envolve a alegria de contar, a solidariedade do coletivo, o afeto da história e remete a uma conclusão: contar cura”, diz. Dela surgem publicações que tratam de histórias de migrante e imigrantes, de pessoas que passaram por traumas, de grupos de excluídos, de profissionais anônimos...

‎ Dividida nos gêneros tradição oral, história oral temática e de vida, tem sutilezas que a povoam, que nos trazem uma leitura voltada à necessidade do trato e respeito ao narrador, também chamado de colaborador, que sempre tem a palavra final. -"...É altamente política e só acontece na democracia. É o direito de se expressar...Quebra a intolerância...Não podemos falar dela em ditaduras...”.Ultrapassa os muros da universidade, da academia, que em sua avaliação, por muitas vezes, acaba silenciando as pessoas, devido à sua estrutura mais fechada". Meihy salienta que há uma solução ética como princípio da H.O. “Toda história de qualquer indivíduo é uma história pública...tem uma intenção maior, não é inocente ou neutra".

Para ele, a boa história e o prazer do texto devem ser cultivados. “Não temos a imposição do dom natural. Ninguém nasce sabendo fazer uma boa história...Aprendemos ouvindo boas histórias. Por isso, a importância da colaboração. Acho que essa é a palavra mais bonita do dicionário...". Como exemplo alegórico de alerta sobre o quanto somos dependentes uns dos outros, o que requer humildade nessa relação, citou a história da árvore:
- “Num bosque a mais bonita árvore chamava a atenção por uma ramo de orquídea que repousava em um galho. Orgulhosa disse soberba a flor: - Que seria de você sem a minha seiva? – Vaidosa a flor explicou: - Ninguém olharia você se não fosse minha beleza”.

Para que o processo aconteça, Meihy explica que precisamos nos colocar no papel de aprendizes constantemente...”E é muito importante perguntar. O que move o mundo são as perguntas, mas precisamos diferenciá-las. Há aquelas que demandam respostas diretas (por exemplo, qual é o seu nome? - José). Mas há outras que são estímulos, dão espaço a divagações e à memória seletiva... (Você sabe a origem de seu nome?...-O meu nome é José, porque nasci no dia de São José e..."

Ele explica que na transcrição e transcriação não podm ser esquecido “os dramas” vivenciados durante as narrativas. “A entrevista não é ipisis litteris, senão condena a mensagem do outro somente às palavras (sem o contexto da sensibilidade), sem observar dados como a entonação..., o choro, o riso...É importante usar a potencialidade literária do que o sujeito quis dizer olho no olho...A história é viva, é parte de mim. Sou autor com autoridade de negociar com o interlocutor...”

Nos fundamentos teóricos, os três mitos básicos da 'contação' na mitologia, que é uma grande narrativa consagrada por imagens, são o Mito de Sherazade; O destino de Sísifo e O eterno renascimento da Fênix, segundo o historiador...”O recontar constante é a memória coletiva”. Meihi afirma que uma das melhores sínteses narrativas é o Hai Kai - "Tenho um grande amor. Que não é meu, mas é tudo que possuo".

Tive a oportunidade de ouvir essas e outras explicações sobre o universo da história oral, que tem seu início no Brasil, durante a fase de Ditadura (como uma fonte não-oficial da resistência democrática), durante o término do Curso Livre de Formação em História Oral, no dia 27 de outubro, do qual participei no Neho nos últimos meses. Outros trabalhos sobre História Oral, com metodologias distintas, também são desenvolvidos no país, no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea, da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV), no Centro de Memória da Unicamp (CMU) e no Museu da Pessoa...

Sucena Shkrada Resk

31/10/2011 09:17
Somos 7 bilhões..Tempo de repensar a conservação dessa espaçonave Terra, por Sucena Shkrada Resk

Pensata - Hoje é dia de lembrar de Drummond...de que somos 7 bilhões e como queremos conservar essa espaçonave chamada Terra...

O como que é o nosso x da questão. Escolhas diárias e que são camufladas naquela palavrinha que nós já nos acostumamos: hábitos; só falta o complemento: promover as mudanças dos mesmos e estarmos dispostos (as) a isso...

Cada vez estou mais certa de que se nós, adultos, não formos exemplos para os mais jovens, de nada adiantará haver legislações, discursos de boas condutas socioambientais, de direitos humanos, sendo que eles só veem no dia a dia a prática do contrário..
Sucena Shkrada Resk

30/10/2011 16:26
FSSP: a importância da inclusão na comunicação compartilhada, por Sucena Shkrada Resk

Depois de dois dias de participação no Fórum Social de São Paulo (29 e 30 de outubro), realizado na Faculdade Zumbi dos Palmares, eu retornei com a certeza de que quanto mais optarmos pela comunicação compartilhada e pela transmissão de conhecimento com linguagem acessível para todos os públicos, essas iniciativas terão maior número de participantes. O acesso ao conhecimento e aos fatos possibilita maior segurança na liberdade de expressão e escolhas conscientes.

Algo digno de elogio é a participação de um grupo de aposentados (dona Neide, Dirce, Iraci, José Pedro e Rui, entre outros) em defesa da moradia aos idosos e do direito das mulheres! Gente ponta firme!

Neide Duque, do Grupo de Articulação para Moradia de Idosos na capital e membro do Conselho Municipal do Idoso, e mais 56 participantes, se solidarizaram na defesa de moradias no sistema mutirão e aluguel social para idosos de baixa renda.
Às 9h, deste domingo, quando ainda nem havia começado o evento, lá estavam eles vindo dos lugares mais diferentes da cidade, como São Miguel Paulista, Capão Redondo, Vila Maria e Pari...Dá orgulho ver pessoas tão esforçadas e que mantêm a chama da defesa dos direitos.

No sábado, Chico Whitaker divulgou o lançamento da campanha Brasil Livre de Usinas Nucleares, como um projeto de emenda constitucional, por iniciativa dos cidadãos. Mais informações podem ser encontradas no site www.brasilcontrausinanuclear.com.br .

A iniciativa reúne um grupo de organizações: Aliança pela Infância do Brasil, Coalização Brasileira contra Usinas Nucleares, Conselho Nacional do Laicato do Brasil-Reg.Sul1, Escola de Governo de SP, Fund. Lama Gangchen para Cultura de Paz, Greenpeace do Brasil, Iniciativa Popular Contra Usinas Nucleares, Movimento Paulo Jackson..., Sociedade Angrense de Proteção Ecológica (SAPE) e Tardö Ling - Centro de Desenvolvimento Humano Cultura e Filosófico.

Durante o evento, também houve mobilização a favor de bolsas de estudo para jovens universitários negros em bolsas de graduação e de diferentes modalidades de pós-graduação. A meta é atingir 100 mil assinaturas.

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15/11/2010 -São Paulo cria seu Fórum Social
Sucena Shkrada Resk

28/10/2011 17:38
Por dentro do saneamento básico, por Sucena Shkrada Resk

Hoje, o que vale destacar no panorama sobre o saneamento básico brasileiro é que vigora no país, a Lei Nacional de Saneamento (nº 11.445), de janeiro de 2007 e a versão preliminar do Plano Nacional de Saneamento Básico está sob análise da Presidência da República e deverá entrar em consulta pública. Isso infere a importância da participação da sociedade nessa formulação. A meta é para o período de 2015 a 2030 e prevê que até o final desse período haja 100% de abastecimento de água nas áreas urbanas e de 91% de esgotamento sanitário.

Já a Política Nacional de Resíduos Sólidos tem interface com a do saneamento, no que trata dos resíduos sólidos urbanos, com relação à coleta e varrição, segundo Yuri Rafael Della Giustina, chefe de gabinete da Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental, do Ministério das Cidades. O órgão atua no setor em municípios com mais de 50 mil habitantes. Ele falou a respeito durante o Encontro Ibero-Americano de Desenvolvimento Sustentável (EIMA 8), na semana passada, em São Paulo.

De acordo com o gestor, no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC 1), o investimento destinado ao saneamento é da ordem de R$ 40 bilhões para 2007-2010. Já para o PAC 2 mais R$ 45 bilhões (2011-2014). Das 1700 obras contratadas, 236 obras concluídas. No contexto das prefeituras, todos os municípios brasileiros devem ter seus planos municipais de saneamento até 2013.

Édison Carlos, presidente executivo do Instituto Trata Brasil expõe que grande parte das gestões municipais e estaduais, além de operadores, argumentam que as paralisações de obras são decorrentes de diferentes motivos, como de projetos mal feitos, irregularidades em licitações, intervenções do Tribunal de Contas e problema de atraso de análise para a liberação financeira aos projetos, como também, dificuldade de contratação de mão-de-obra. Para o Ministério das Cidades, muitos problemas podem ser superados com a melhoria de planejamento por parte dos gestores municipais.

Enquanto isso, observamos em várias localidades do país, cenários de extrema precariedade, insalubres. Diante desse quadro desafiador, é fácil constatar que se trata de um dos eixos de infraestrutura que precisam de maior atenção no Brasil e que não estão contemplados oficialmente, por exemplo, no planejamento da Copa do Mundo 2014, o que alerta o presidente executivo do Trata Brasil, que está discutindo essa pauta nas cidades-sedes associada a pesquisas. A iniciativa começou por Recife (http://www.tratabrasil.org.br/novo_site/cms/templates/trata_brasil/files/pesquisa-recife.pdf), uma parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Leia também no Blog Cidadãos do Mundo:
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Sucena Shkrada Resk

28/10/2011 15:52
Trata Brasil estuda projeto de educação para o saneamento, por Sucena Shkrada Resk

O Blog Cidadãos do Mundo entrevistou, nesta semana, Édison Carlos, presidente executivo do Instituto Trata Brasil (www.tratabrasil.org.br), sobre projetos recentes, que estão sendo formulados pela Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) – em especial - destinados à educação ambiental para o saneamento e à manutenção da multiplicação não-formal, por meio da comunicação.

O primeiro tem a consultoria da sanitarista Maria Cecilia Pelicioni, que é taxativa ao afirmar que os principais fatores que levam à mortalidade infantil estão relacionados à qualidade do saneamento. Para ela, não é possível dissociá-la da qualidade de vida do cidadão, que precisa obter o conhecimento sobre a relação do setor com a saúde.

A proposta principal do Trata Brasil, criado em 2007, é mobilizar a sociedade para que exerça o papel cidadão na cobrança e cooperação para que o país estabeleça a universalização do acesso à coleta e ao tratamento de esgoto, em que as conquistas são lentas. Afinal, é um desafio de grandes proporções, tendo em vista que a cobertura de coleta de esgoto, segundo o Atlas do Saneamento 2011, lançado neste mês, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta que 55% dos municípios mantêm a coleta (dados com relação a 2008.

Apesar de haver melhorias relativas em estados do Sudeste, por exemplo, o documento revela que “há um vazio em termos de melhorias e mesmo de inexistência da rede de esgotamento sanitário nas regiões Norte e Nordeste, onde mesmo as áreas que exibem números positivos de crescimento absoluto são acompanhadas de fracos resultados em melhorias de esgotamento sanitário”.

Por outro lado, em pesquisa feita pelo Ibope Inteligência, encomendada pelo Trata Brasil, um percentual de 31% dos entrevistados afirmou que desconhece o que é saneamento básico. Ao todo, foram realizadas 1.008 entrevistas com moradores das 79 cidades brasileiras com mais de 300 mil habitantes em 2009.

O conceito hoje de saneamento básico inclui: - Abastecimento de água potável; esgotamento sanitário; limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos e drenagem e manejo das águas pluviais urbanas.

Confira abaixo a entrevista:

Blog Cidadãos do Mundo – Na avaliação do Trata Brasil, qual é o motivo para o desconhecimento sobre saneamento básico apresentado na pesquisa, por parte de um percentual significativo da população?

Édison Carlos/Trata Brasil - As demais respostas às questões da pesquisa nos levam a acreditar que o tema “saneamento” ainda é demasiado técnico para muitas pessoas, sobretudo nas áreas mais afastadas e menos favorecidas. Termos como “coleta de esgoto, lixo etc.” são bem mais fáceis para a população em geral. Como muitas pessoas não associam a falta de saneamento com problemas à saúde ou impactos a outras áreas da vida diária, no geral, há um distanciamento para estes serviços que eles imaginam não serem tão importantes para seu dia a dia, como são a água e energia elétrica, por exemplo.

Blog Cidadãos do Mundo – O Trata Brasil atualmente elabora um projeto que propõe a Educação para o Saneamento. Fale a respeito.

Édison Carlos/Trata Brasil - Fomos chamados por um de nossos Embaixadores (personalidades públicas que ajudam, emprestam seu nome e imagem em prol das ações do Trata Brasil. São médicos renomados, jornalistas, atletas, professores, entre outros) a fazer um trabalho na área da Educação Ambiental voltada ao saneamento. Entendemos ser mesmo importante para o instituto, então mantivemos várias reuniões com a professora Dra. Maria Cecilia Pelicioni, da Faculdade de Saúde Pública da USP, que durante muitos anos, orientou teses e dirigiu cursos deste tipo na universidade, e formatamos um projeto de Educação Ambiental ao Saneamento, cujo primeiro público é o professor. Estamos discutindo a possibilidade de aplicação de um piloto deste “treinamento” com a Coordenação de Educação Ambiental da Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo e com a Coordenação de Saneamento do Estado. Não há ainda estimativa de implementação, pois estamos conversando com as secretarias envolvidas. Nosso interesse é começar por uma localidade específica ou pequena cidade, numa ordem de até uma centena de professores de início. Os custos seriam bancados pelas secretarias ou patrocinadores interessados.

Blog Cidadãos do Mundo - Por favor, cite alguns exemplos de como pode ser a abordagem de sensibilização das crianças, dos adolescentes e dos adultos para o tema.

Édison Carlos/Trata Brasil - Através do uso de materiais didáticos em sala de aula que mostrem a importância dos serviços de saneamento básico para o dia a dia do meio ambiente, da saúde e da educação, por exemplo. O curso pretende ensinar que é fundamental mostrar ao aluno que ele pode contribuir bem mais ao meio ambiente fazendo coisas pequenas e que estão ao seu alcance (começando pelos problemas na sua casa e em seu bairro) do que se envolver em grandes temas mundiais, nos quais ele representa uma parcela muito pequena.

Blog Cidadãos do Mundo - E como pode ser a contribuição da comunicação, em sua opinião, como instrumento de educação não-formal ao saneamento?

Édison Carlos/Trata Brasil - Comunicação é fundamental, principalmente tendo apoio dos veículos mais relevantes, como a imprensa e a Internet. Como falamos na primeira questão, é muito importante envolver o cidadão nas discussões que os afetam mais de perto. No caso do saneamento, a realização de pesquisas, como as feitas pelo Trata Brasil, necessariamente gera a expectativa de divulgação de dados novos e novas perspectivas de interação entre os problemas e vida das pessoas. Neste sentido, todas as formas de mídia são importantes, desde os pequenos periódicos que fazemos para a Pastoral da Criança, nosso parceiro, e que vai para 7.000 coordenadoras por todo o país, até spots com mensagens bem curtas que enviamos para rádios comunitárias, veículos online para formadores de opinião, até artigos escritos, entrevistas e coletivas para grandes jornais do país. Temos também nosso website visto por mais de 45.000 pessoas /mês, o blog e informações diárias em todas as mídias sociais.

(Nossa próxima entrevista sobre esse tema será com a profa. Maria Cecilia Pelicioni)

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Sucena Shkrada Resk

28/10/2011 10:18
Reflexões sobre segurança alimentar & meio ambiente, por Sucena Shkrada Resk

Corpos e mentes sucumbem aos milhares todos os dias em nosso planeta, por causa da fome e, por muitas vezes, em decorrência da má qualidade dos alimentos e especialmente da água e da destruição da natureza. São cenas tão dantescas de flagelo, mas que para muitos, não passam de um simples quadro triste. Por isso, não é difícil ouvir frases como estas - "Ah, Deus quis..." ou "Puxa, coitadinhos..." ou, então, pior "É triste, mas não posso fazer nada...".

Diante desse processo de desligamento a que nos submetemos consciente ou inconscientemente, resolvi utilizar alguns minutos para pesquisar links de programas, planos, iniciativas e notícias sobre situações no contexto da segurança alimentar & meio ambiente no Brasil (agroecologia, economia solidária, Programa Nacional de Agricultura Familiar -Pronaf, Bolsa Verde, Atlas do Saneamento no Brasil recente, propostas do Plano Nacional do Saneamento, estudo de patógenos), com o propósito de incentivar uma provocação saudável sobre o tema, com o seguinte mote: e se todo o conjunto dialogasse numa mesma política não "concorrente", tendo em vista, que há uma interdependência? E melhor: se fôssemos impulsores desse processo e participativos, ao sermos consumidores conscientes...?

Hoje sabemos que no mundo mais de 1 bilhão de pessoas passam fome - isso significa 1/7 da população do planeta, e essa proporção sobe dia a dia. Como reiterado pelo brasileiro José Graziano, que no ano que vem assumirá a direção geral da Agência da ONU para Agricultura e Segurança alimentar (FAO), não é difícil perceber que os modelos em vigor, há muito, não implicam justiça socioambiental. Segundo ele, as condições de suprimento e qualidade da água se tornaram o maior entrave à expansão da produção (de comida), especialmente em algumas áreas como a região andina, na América do Sul, e nos países da África Subsaariana - em especial, no Chifre da África. Essa afirmação foi feita em entrevista à BBC Brasil, nesta semana.

Os cenários de longo prazo também exigem ações imediatas. Existe a projeção de que em 2050 terão de ser produzidos mais 70% de alimentos, para suprir o aumento da população, que deverá passar dos atuais 7 bi para mais de 9 bi. Mas os problemas não são simplesmente demográficos. O aumento do preço torna a balança cada vez mais desigual entre os ricos, de classe média e os que estão na pobreza e na extrema pobreza. A escalada mais expressiva se deu com o arroz e milho, entre outros. O uso indiscriminado de defensivos agrícolas (agrotóxicos) e os efeitos das mudanças climáticas tornam o quadro mais emergente.

O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos no mundo e a cada relatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre as quantidades desses produtos acima do permitido ou que já estão banidos oficialmente realmente assustam. A conclusão a que chegamos é que muitos dos alimentos que saem do campo para a nossa mesa nos envenenam aos poucos. As amostras que têm apresentado maior irregularidade são de pimentão e pepino, morango e uva, por exemplo.

Mas algo de tamanha agressividade é o desperdício de alimentos mundialmente: são cerca de 1,3 bi de toneladas, ou seja, um terço de tudo do que se produz.

Nessa série de condicionantes, não podemos deixar de reforçar a questão da saúde ambiental. Afinal, mais de 70% das infecções são originadas da contaminação da água e muitas vezes são letais. Nesta semana, o pesquisador Wondwossen Gebreyes, da Ohio State University, apresentou uma iniciativa que busca integrar segurança alimentar, zoonoses veterinárias de interesse para a saúde pública e biotecnologia ao estudo de doenças de animais transmissíveis para os humanos. O que é algo pertinente diante dessa problemática. A notícia foi divulgada pela Agência Fapesp.

Quando voltamos novamente nosso olhar para o Brasil, cerca de 16 milhões estão na extrema pobreza, nesse contexto. A desigualdade é latente e está mais do que provado que o Produto Interno Bruto (PIB) não é a métrica para essa realidade e que investimentos em infraestrutura, capacitação e empregabilidade têm de estar no topo da pauta...E cada um de nós faz parte dessa transformação para reverter esse paradoxo, de dois pesos e duas medidas.

Todos os links consultados, foram acessados hoje:

- Agroecologia: http://www.agroecologia.org.br/

- Economia solidária - http://www.mte.gov.br/ecosolidaria/ecosolidaria_oque.asp;

- Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf) 2011/2012: http://www.mda.gov.br/portal/arquivos/view/Plano_Safra_da_Agricultura_Familiar_2011-2012.pdf ;

- Programa de Apoio à Conservação Ambiental (Bolsa Verde) - http://www.lexml.gov.br/urn/urn:lex:br:federal:decreto:2011-09-28;7572;

- Atlas do Saneamento no Brasil 2011/IBGE (diagnóstico): http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=1998&id_pagina=1

- Proposta do Plano Nacional do Saneamento (Plansab) - http://www.cidades.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=736%3Abrasil-tera-seu-plano-nacional-de-saneamento-basico-em-2011&catid=84&Itemid=113;

- Estudo de patógenos: matéria Patógenos globalizados, Agência Fapesp, 28/10/2011. Disponível em: http://agencia.fapesp.br/14703#.TqqGyK291pI.twitter. Acesso em: 28/10/2011

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Sucena Shkrada Resk

19/10/2011 22:06
Esgoto: o calcanhar de aquiles do Brasil, por Sucena Shkrada Resk

Hoje o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lançou o Atlas do Saneamento, que registra que ainda cerca de 45% do país ainda não tem esgoto, algo que infere uma questão de saúde pública e realmente é o calcanhar de aquiles do Brasil. Aliado a esse material, que precisa de uma pesquisa mais ampla obviamente, triei alguns apontamentos feitos nesta quarta-feira (19), durante o painel Saneamento, do Encontro Ibero-Americano sobre Desenvolvimento Sustentável (EIMA-8), em São Paulo.

Seguem os trechos:
-"...120 milhões de pessoas sem acesso ao saneamento e 40 milhões sem acesso à água potável na América Latina e Caribe..." - (Victor Arroyo, chefe do Programa Água e Saneamento do ONU Habitat);
-"...Os preços intrínsecos que não computamos. Quanto custa não tratar água residual... e a qualidade de vida?..." - (Gabriela Mantilla Morales, sub-diretora de Tratamento de Águas Residuais do Instituto Mexicano de Tecnología del Agua (INTA);
-"...55% da população brasileira com esgoto-10 milhões sem instalações sanitárias para fazer a necessidade, como Sudão...; Em 101 obras do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) em saneamento acompanhadas pelo Trata Brasil,60% estavam atrasadas paralisadas ou não iniciadas..." - (Édison Carlos, presidente executivo do Trata Brasil)

Ao humanizarmos esses números e percentuais, percebemos o quanto é preciso ainda avançarmos...

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Sucena Shkrada Resk

19/10/2011 21:12
Recursos hídricos: uma pauta para a Rio+20, por Sucena Shkrada Resk

A plenária principal de hoje, no Encontro Ibero-Americano sobre Desenvolvimento Sustentável (EIMA-8), tratou dos recursos hídricos. Entre os temas que considerei interessantes está o anúncio do Fórum Mundial de Água, que será em março de 2012, em Marselha. "Deverá privilegiar soluções e foi criado um sistema de sugestões até lá, para que a sociedade possa contribuir", disse o presidente do evento, o engenheiro brasileiro, Benedito Braga.

As discussões sobre uso da água estarão divididas nas regiões-Américas, Europa, Pacífico e África, em 12 eixos principais, desde direito humano à água e gestão fronteiriça. "Há a expectativa de que participe cerca de 120 ministros, no dia do "compromisso" (um dia antes do término do encontro), mas não tem caráter deliberativo ou vinculante à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável - Rio+20".

O evento reunirá diferentes participantes, da academia ao empresariado, segundo ele. Mais informações em www.worldwaterforum6.org.

Durante este painel, Vicente Andreu, presidente da Agência Nacional das Águas (ANA) disse que o órgão propôs ao Ministério do Meio Ambiente (MMA), que integra o Comitê Brasileiro da Rio+20, que entre as reuniões preparatórias e o encontro dos chefes de Estado, da conferência, em junho de 2012, seja realizada uma discussão sobre o tema água e que possa ser coordenada pelo Conselho Mundial da Água. "A proposta foi feita porque é um assunto que não está aprofundado na pauta oficial...", justificou.

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Sucena Shkrada Resk

18/10/2011 07:43
Vitoria-Gasteiz, esse é o nome da vez em 2012, por Sucena Shkrada Resk

Ontem, pela primeira vez, ouvi falar de Vitoria-Gasteiz (http://www.youtube.com/watch?v=26o8HXRW0uQ) e fui procurar onde fica essa cidade no mapa. Bem, deixe eu explicar o porquê dessa curiosidade repentina. Esse município basco, capital da província de Álava, na Espanha, foi eleita a Capital Verde Europeia em 2012, pela Comunidade Europeia (CI).

Em seu histórico, é descrito pelo menos três décadas de investimentos em planos de mobilidade, gestão de resíduos, eficiência energética, investimentos em espaços verdes na mancha urbana e redução de consumo de água, entre outras ações. Com cerca de 250 mil habitantes, Vitoria-Gasteiz construiu um plano de gestão, tendo em vista, o combate às mudanças climáticas.

Nas edições anteriores, as vencedoras foram Estocolmo, na Suécia (2010), e Hamburgo, na Alemanha (2011). E para 2013, a francesa Nantes já ganhou o título.

Enfim, são experiências que valem a pena ser conferidas, tendo em vista que todos nós buscamos exemplos que impulsionem a melhoria de qualidade de vida aqui no Brasil. Pude saber um pouco mais sobre essas iniciativas, com o depoimento de Javier Maroto, prefeito de Vitoria-Gasteiz, durante a abertura do Encontro Ibero-Americano sobre Desenvolvimento Sustentável - EIMA – 8, nesta segunda-feira, em São Paulo. O evento é uma promoção da Fundación Conama em parceria com a Fundación Mapfre, a Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EESP/FGV), o Instituto Ethos e a Rede Nossa São Paulo, entre outros parceiros. Agora, é pesquisar mais a respeito...

Mais dados podem ser encontrados nos sites:
http://www.vitoria-gasteiz.org/ e no European Green Capital http://ec.europa.eu/environment/europeangreencapital/index_en.htm. Acesso em 18/10/2011.

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Sucena Shkrada Resk

15/10/2011 18:00
Internet para muitos ou para poucos e com que custo-benefício?, por Sucena Shkrada Resk

Internet para muitos ou para poucos, com quais condições de qualidade de acesso e conteúdo? Pergunta capciosa essa, não é? Mas nada mais que o retrato desafiador da realidade exposto, durante a trilha Diversidade e Conteúdo, do I Fórum da Internet no Brasil, nos dias 13 e 14, em São Paulo, organizado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil - CGI.br (http://www.cgi.br).

Esses questionamentos têm como pano de fundo a estimativa de que 77,8 mi de pessoas têm acesso (no segundo trimestre de 2011), segundo divulgado pelo IBOPE Nielsen Online, num país com número superior a 191 milhões de habitantes. Isso sem inferir qualidade, é claro!

Ao mesmo tempo, que registra problemas de implementação da infraestrutura do Programa Nacional de Apoio à Inclusão Digital nas Comunidades (Programa Telecentros.BR). De oito mil computadores com acesso à internet, somente 1,3 mil (16%) estariam conectados e em funcionamento, segundo relatado no evento, com base em dados oficiais.

De acordo com a Pesquisa sobre o Uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação nas Escolas Brasileiras, promovida pelo CGI, em agosto deste ano, apenas 4% das escolas têm computador com acesso à internet em sala de aula, embora 92% das escolas públicas urbanas do país tenham o equipamento. Mais um dado do levantamento é que 18% dos educadores utilizam o recurso da internet em sala de aula.

Para deixar a situação mais complexa, aumentou a quantidade de reclamações contra as operadoras de telecomunicações (que detêm boa parte do mercado) feitas à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), quanto à internet banda larga. Passaram de 15,06 mil reclamações em fevereiro do ano passado para 24,2 mil este ano, ou seja, 60,8%. Como reação, surgiram campanhas para a melhoria do atendimento, como a Internet Lenta? Envie uma mensagem para a Anatel, promovida pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), e a Campanha da Banda Larga.

Então só restam essas perguntas:
- Por que a qualidade da conectividade ainda deixa tanto a desejar?
- Existe real representatividade quanto à gênero, raça e etnia no ciberespaço?
- Quais são os consensos sobre direitos autorais, privacidade e violação?
- E quem trata da qualidade do conteúdo?
- Qual é o papel de cada ente nessas questões?
- Porque ainda mais de 60% da população não é contemplada?

O Governo Federal, por meio do Ministério da Justiça, encaminhou ao legislativo em agosto deste ano, o projeto de lei que define regras sobre direitos, deveres e princípios para uso da internet no Brasil. Ao mesmo tempo, tramita no Congresso outro PL, o 84/99, que trata de punição a crimes e violações na Internet, que está sendo chamado de AI-5 Digital, por alguns movimentos sociais. Em manifestação contrária surgiu o movimento Mega Não!, entre outros.

Na esfera do Ministério das Comunicações, o que se discute desde o final de 2009, é a criação do marco regulatório da Comunicação, mas que em princípio, não contempla a Internet, segundo o Governo. Entretanto, uma consulta pública sobre propostas a esse documento foi encerrada por movimentos do setor, no dia 7 de outubro. Mais de 200 sugestões foram divididas em 20 eixos centrais, e deverão ser sistematizadas e encaminhadas ao Executivo. A internet é destacada somente em alguns itens:
- proteger a privacidade das comunicações nos serviços de telecomunicações e na internet;
-...como também propõe que haja mecanismos específicos, como a reforma da Lei de Direitos Autorais e quanto à instituição do marco civil da Internet.

Os movimentos sociais presentes no evento reivindicam também a continuidade do Programa Nacional de Cultura, Educação e Cidadania – Cultura Viva, pelo Ministério da Cultura, em vigor desde 2004, que tem como um dos eixos de ações, a cultura digital.

E para completar parte do quadro histórico que envolve a Internet brasileira, o Plano Nacional da Banda Larga (PNBL), lançado em maio do ano passado, e que começou a ser implementado no segundo semestre deste ano, propõe a massificação até 2014 de acesso à banda larga com velocidade de 1Mbps, com valor a partir de R$ 35, em 40 mil domicílios. Para muitas organizações e movimentos, esses números e valores já estão defasados para a realidade de demanda e socioeconômica. O processo também é lento, a expectativa da Telebrás é que até o final de 2011, 150 municípios recebam redes de fibra ótica. Mais de 600 provedores dos cerca de três mil que existem no país, já aderiram à iniciativa.

Questões difíceis essas, hein...?Em que as respostas não vêm simplesmente como um livro de receitas, mas que têm a ver com políticas públicas, sistema de fiscalização e regulador mais forte, quebra de monopólios e o grau de intensidade da participação democrática, no final das contas. Por meio dos questionamentos, relatos e propostas de alguns participantes no evento, podemos observar quantos hiatos na inclusão digital ainda são necessários preencher.

No campo de gênero, Bruna Provazi, do Movimento da Marcha Mundial das Mulheres Blogueiras Feministas, destacou que na produção tecnológica e do conhecimento, as mulheres ganham cerca de 10% menos que os homens nas mesmas funções, uma realidade que não pode ser desprezada. Ela reforçou que o movimento é a favor da paridade de gênero no próprio CGI (tendo em vista que na composição do Conselho só existe uma mulher...) e políticas públicas para igualdade na internet.

“A Internet facilitou o contato das comunidades tradicionais. Mas a gente vê a dificuldade da nossa comunidade indígena Pankararu, em Pernambuco. Nas escolas indígenas, chegaram os computadores, mas até agora estão encaixotados, ainda não sabermos como fazer para que as crianças tenham acesso”, contou Lafaete Pankararu. O indígena citou que essa ferramenta já é utilizada por muitos povos, que têm sites e blogs. “Precisam melhorar a atenção às nossas comunidades. A Internet é mais importante que o celular para nós hoje. Como Pankararu, por exemplo, posso me comunicar com outro índio no Xingu...”.

Paulo Índio, do Ivoz, destacou a importância da economia solidária na produção cultural nesse universo, que possibilita o empoderamento no processo educomunicativo, no contexto do etnodesenvolvimento. Com isso, segundo ele, é possível trazer a esse universo, por exemplo, a matriz da rede africana, reunindo comunidades de terreiros, quilombolas. Empreendimentos solidários em arranjos produtivos locais são defendidos por Pedro Jatobá, do Pontão Iteia.

“Nosso olhar sobre nossa cultura é nosso. Temos de dominar também a tecnologia, não há mal nenhum e não nos faz ser mais ou menos índios...Hoje existe a Rede Web Indígena, Índios on Line e construção de livros com a licença de creative commons... – Por que índio quer computador? Para ter direitos iguais”, disse Anapuaka Muniz Tupinambá Hã Hã Hãe.

Para Fábio Pena, representante do Projeto Saúde e Alegria, de Santarém, PA, é importante que seja contemplado o mosaico cultural na Internet. “Alguns locais estão no isolamento, outros difundem sua cultura por meio da Internet, o que dá um salto na auto-estima das comunidades...”.

Quanto ao conteúdo, foi proposta a educação para a mídia, desde a infância, pela representante do Conselho Federal de Psicologia e do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, Roseli Goffman. Esses foram alguns dos temas expostos, entre outros, por representantes de outras organizações e entidades. Um posicionamento praticamente consensual pelos participantes é o da defesa do software livre.

E para objetivo de reflexão, seguem alguns links sobre as principais questões que permeiam essa trilha e as outras cinco (liberdade, privacidade e direitos humanos/governança democrática e colaborativa/universalidade e inclusão digital/padronização, interoperabilidade, neutralidade e inovação/ambiente legal, regulatório, segurança e inimputabilidade da rede) apresentada no evento:
- Campanha Internet Lenta? Envie uma mensagem para a Anatel (IDEC) – www.idec.org.br/campanhas/qualidadeja;
- Campanha da Banda Larga - http://campanhabandalarga.org.br/
- Consulta Pública Marco Regulatório das Comunicações - http://www.comunicacaodemocratica.org.br/quem-apoia/
- Programa Cultura Viva - http://www.cgi.br
- Plano Nacional de Banda Larga - http://www4.planalto.gov.br/brasilconectado/pnbl;
- Movimento Meganão - http://meganao.wordpress.com/
- Programa Telecentros.BR - http://www.inclusaodigital.gov.br/
- Projeto de Lei 84/99 – sobre crime informático ou virtual - http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=15028

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15/10 - Contagem regressiva: 3º Fórum de Mídia Livre será realizado em janeiro
Sucena Shkrada Resk

15/10/2011 00:26
Contagem regressiva: 3º Fórum de Mídia Livre será realizado em janeiro, por Sucena Shkrada Resk

O 3º Fórum de Mídia Livre deverá ser realizado em Porto Alegre, no mês de janeiro do ano que vem, durante o período em que acontecerá o Fórum Social Mundial Temático Justiça Social e Ambiental Preparatório para a Rio+20, entre os dias 24 e 29 de janeiro. A novidade foi divulgada pela jornalista Rita Freire, da Ciranda, nesta sexta-feira (14), durante o encerramento do 1º Fórum da Internet no Brasil, em São Paulo.

Como nas edições anteriores (em 2008, nos dias 14 e 15 de junho, na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; e em 26 e 27 de janeiro de 2009, em Belém, no Pará), é previsto que o encontro seja realizado em dois dias. A partir de agora, começa o trabalho de articulação e busca de apoios.

“A decisão para a programação do evento foi tomada hoje por representantes de movimentos ligados ao grupo de trabalho do encontro (da Ciranda, do Intervozes e do BlogProg-Blogueiros Progressistas, entre outros)”. O evento antecederá o 2º Fórum Mundial de Mídia Livre, que ocorrerá no mês de junho de 2012, quando será realizada a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20).

Rita recorda que o Fórum de Mídia Livre, em Belém, foi integrado ao FSM de 2009, e teve um efeito importante. “Ocorreu um diálogo das mídias livres e os segmentos sociais representando as mulheres, negros e indígenas. Essa iniciativa contagiou o processo do fórum. No mesmo período, foi anunciada a Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), que ocorreu em dezembro de 2009, e o cruzamentos de pautas”.

Com o FSM deste ano, realizado em Dakar, houve impulso a essas mobilizações, ao se aprovar em fevereiro, uma declaração em defesa do direito à comunicação. “Discutiu-se a democratização e as mídias do Norte demonstraram interesse em saber o que acontece no Sul”, o que para a jornalista, é um fato relevante. O processo ganhou mais força, em sua avaliação, no contexto da crise econômica mundial e da importância política das mídias pela internet, com a Primavera Árabe, entre outros acontecimentos históricos.

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Sucena Shkrada Resk

10/10/2011 16:28
Russell Mittermeier(p2):desafios das unidades de conservação e dos hotspots, por Sucena Shkrada Resk

Unidades de conservação (UCs). Com certeza, a defesa desse modelo de gestão para proteger a biodiversidade é das mais aceitas hoje, conforme destacou na semana passada, Russell Mittermeier, presidente da Conservation International (CI). Na prática, no entanto, a realidade é bem mais complexa, como observamos no Brasil, que atualmente mantém 310 Unidades de Conservação federais, em cerca de 75 milhões de ha, o que corresponde a 8,5% do território brasileiro, mais 410 estaduais, além de 63 municipais, números divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), no início deste ano. O grande gargalo é justamente manter a fiscalização e a implementação efetiva dos planos de manejo e regularização fundiária, o que é confirmado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio).

No dia 7 de junho, foi lançado o estudo Contribuição das Unidades de Conservação para a Economia Nacional, pelo MMA em conjunto com o Instituto de Pesquisa Econômica (Ipea) e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o qual constata que a mão-de-obra é insuficiente na proteção das áreas e existe um baixo orçamento para investimentos em infraestrutura, entorno de R$ 300 milhões anuais, o que se repete, desde 2001. O valor ideal seria de cerca de R$ 1 bi.

O documento também chega à conclusão de que se as UCs forem exploradas economicamente de forma adequada, podem gerar, numa estimativa conservadora, de R$ 5 a 10 bilhões por ano, a partir de 2016. Esse valor seria proveniente em parte de serviços ecossistêmicos (produtos florestais, produtos não madeireiros, turismo em unidades de conservação, armazenamento de carbono, água e repartição de receitas tributárias).

A justificativa para a manutenção dessas áreas são muitas, desde se evitar desmatamento e emissões de Gases de Efeito Estufa, na ordem financeira de R$ 96 bilhões. Ao mesmo tempo, de praticamente toda a geração hidrelétrica nacional, há ao menos um curso d`água que nasce em UCs e 9% da água que consumimos vem delas.

Algumas alternativas para alavancar o manejo, com a conservação da biodiversidade, geração de empregos e inclusão social, principalmente em parques nacionais, estaduais e municipais, foi proposta em setembro deste ano, pelo Núcleo Temático Parques Nacionais da Copa do Mundo de 2014.

Para a escolha dos locais, foram estabelecidos os seguintes critérios: atributos turísticos e a beleza cênica com potencial de atrair visitantes e a existência de um plano de manejo atualizado para que o parque possa ter infraestrutura mínima de acesso e visitação. A área deverá ser acessível em até três horas por via terrestre ou duas horas por avião. Mais uma regra é que esteja em alguma das 85 regiões de destinos turísticos registrados no Ministério do Turismo.

Ao se observar o contexto histórico, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) é de 2000 (Lei federal nº 9.985), ou seja, com um pouco mais de uma década. Mas iniciativas de proteção, de maneira pontual no Brasil, tiveram seus primórdios bem antes no país. O primeiro Parque Nacional foi o de Itatiaia, na divisa entre Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, em 1937. Dois anos depois foi criado o Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, que teve o seu plano de manejo elaborado somente em 1981 e revisado em 1999.

A constatação de que a conservação na prática é emergente fica mais clara, quando nos deparamos com a realidade emergente dos hotspots (conceito criado pelo ecólogo inglês Norman Myers, em 1988) brasileiros - da mata atlântica e do cerrado. São áreas com no mínimo 1,5 mil espécies endêmicas de plantas e que tenha perdido mais de 3/4 de sua vegetação original.

Segundo Mittermeier, no caso da mata atlântica (da qual resta cerca de 8% da mata nativa), o mais importante é não ter diminuído o percentual nos últimos anos, que era na casa dos 7% (apesar de ser baixo).

“Os remanescentes continuam preservados, o que não acontece em outros hotspots no mundo. O Pacto pela Restauração da Mata Atlântica é bem interessante, com a proposta de totalizar até 2050, a restauração de 15% do bioma, que representa 15 milhões de ha, com a participação dos 17 estados onde se localiza, envolvendo governos, iniciativa privada e proprietários”.
O presidente da CI também considera importante a manutenção da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. E no caso do Estado de São Paulo, em especial, da recém-lançada Comissão Paulista para a Biodiversidade.

O primatologista acredita que o ecoturismo e o pagamento por serviços ambientais são iniciativas importantes, que integram o processo. A própria CI está em tratativa com o governo do Espírito Santo e a Vale (mineradora) para que passe a 16% de mata conservada no estado contra os 11% atuais. “O setor privado é um parceiro necessário. Não dá para brigar com ele, como na década de 70”, justifica.

Para ele, se não houver atuação nos hotspots, será perdida grande parte da biodiversidade e água doce do planeta, mesmo que haja sucesso em outras áreas. “O valor para serviços de ecossistemas essenciais, em mais de 60%, provém deles. Se o objetivo é manter a diversidade cultural, das 6,9 mil línguas faladas no mundo, metade está nessas regiões”. Segundo ele, a Nova Guiné é um dos locais com maior representatividade. Atualmente há 35 hotspots no mundo, que ocupam 16% da superfície do planeta, e o mais recente, que entrou na lista da organização, é o das florestas do leste da Austrália.

Hoje a situação mais crítica, na avaliação de Mittermeier, é em Madagascar (já foi mais de 55 vezes para lá), onde resta menos de 10% da mata nativa. “É o mais prioritário. Desde 2003, estimulamos para que sejam criadas áreas protegidas lá. Em 2005, foram criados 1.750.000 ha pelo governo local...”. Com o apoio do Banco Mundial (BIRD), ações continuam sendo realizadas junto às comunidades locais”. Segundo ele, nos dias de hoje há problemas com caça ilegal, como de quelônios, mas ao mesmo tempo, estão sendo descobertas espécies novas, entre elas, do primata lemur.

Por outro lado, há exemplos bem-sucedidos, em sua opinião. O primatólogo cita o Suriname, onde mais de 90% da floresta está intacta.

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07/10/2011-Russell Mittermeier-p1: foco em conservação das espécies e áreas protegidas,

Sucena Shkrada Resk

07/10/2011 16:22
Russell Mittermeier-p1: foco em conservação das espécies e áreas protegidas, por Sucena Shkrada Resk

O primatologista e herpetologista (especialista em primatas e anfíbios) norte-americano Russell Mittermeier, presidente da Conservation International (CI) e também dirigente do Grupo de Especialistas em Primatas da Comissão de Sobrevivência de Espécies da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), em passagem pelo Brasil, afirmou, nesta quinta-feira (6), que a conservação das espécies e a ampliação de áreas protegidas são questões centrais, que por muitas vezes, ficam esquecidas na pauta socioambiental.

“A biodiversidade é a riqueza dos genes, das espécies, dos ecossistemas e dos processos ecológicos que fazem a vida no nosso planeta. É a base do desenvolvimento sustentável e a matéria-prima para a biotecnologia e o biomimetismo”, defende o criador do conceito de megadiversidade.

Hoje, existem de 1,5 milhões a 1,9 milhões de espécies reconhecidas pela Ciência no Planeta. “E a estimativa é de que possam ser cerca de 8, 7 mi (6,5 milhões são espécies terrestres e 2,5 milhões, marinhas, segundo artigo relativo ao Censo sobre a Vida Marinha, de grupo de cientistas publicado na Revista PLoS Biology, neste ano, com margem de erro de 1,3 mi para mais ou menos). Outros cientistas falam em até 30 mi. No século XXI, ainda ignoramos a respeito...Ao mesmo tempo é impressionante e assustador”.

Ele explica que a perda de uma espécie é irreversível. “No livro The Wealth of Nature, nós, na CI, tratamos de água, clima, alimento, cultura, saúde e conservação das espécies. Achamos interessante a ideia de economia verde, em que o núcleo tem de ser os recursos naturais renováveis e a biodiversidade”, diz. Outro documento importante para essa discussão, segundo ele, é o estudo The Economics of Ecosystem Services & Biodiversity – TEEB, lançado durante a Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (COP10), realizada no ano passado em Nagoya, no Japão.

Segundo Mittermeier, entre os objetivos estabelecidos no Plano Estratégico (2011-2020), durante a COP10, a meta 11, que propõe que haja 17% de áreas protegidas no planeta, deveria ser bem mais ousada. “ Hoje esse percentual é de cerca de 13%, mas para a sobrevivência, deveria ser pelo menos 50%”, em sua avaliação.

Para o ambientalista, é indiscutível que a biodiversidade sofre ameaças da agroindústria, da expansão urbana, da extração ilegal de madeira, da mineração, da produção de carvão, das grandes hidrelétricas e das espécies invasoras, entre outras. Ele acrescenta que mais um problema é o comércio de espécies nativas em pets, o que reflete o consumo irresponsável. “As mudanças climáticas, ao mesmo tempo, que são perigosas, trazem muitas oportunidades para a conservação de florestas tropicais e ecossistemas costeiros”, considera.

Ele destaca que no Brasil há 70% das áreas protegidas terrestres mundiais. “Ao Nordeste da Amazônia, uma área localizada em parte do Suriname, do Norte do Brasil, da Guiana e Venezuela é o trecho de floresta tropical mais conservado do planeta”, diz.

Há inúmeros espaços oportunos no calendário mundial para que essa agenda seja destacada, nos próximos anos, na opinião de Mittermeier. Além da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), em junho do ano que vem; no Congresso da IUCN, três meses depois; na COP11 da Diversidade Biológica, em outubro de 2012, na Coreia, como também nos grandes eventos mundiais no Brasil, como a Copa do Mundo, em 2014, e as Olimpíadas, em 2016.

O especialista tratou do tema “Conservação da Biodiversidade no Brasil: histórico, papel no presente e visão de futuro”, no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP), nesta quinta-feira, 6 de outubro.

Sucena Shkrada Resk

07/10/2011 13:05
Dulce Maria Nunes: Um olhar semiótico sobre o atendimento à saúde, por Sucena Shkrada Resk

É possível que a semiótica (ciência dos signos) tenha relação com o atendimento à saúde? A experiência da enfermeira pediátrica Dulce Maria Nunes, uma das coordenadoras do Laboratório de Estudos Semióticos nas Interações de Cuidado, da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul(LESIC/EE/UFRGS), diz que sim. Ela vive diariamente, desde 2008, esse processo, que envolve a importância do respeito do vínculo entre docente, alunos e pacientes infantis com câncer da ala da unidade pediátrica, onde atua, e seus familiares, por meio dos textos verbais e não-verbais.

“O próprio traçado do logotipo do LESIC significa simbolicamente o seguinte – se existe o cuidado, a vida continua; caso contrário, se inviabiliza as possibilidades de viver bem ou é interrompida pela morte”. Portanto, de acordo com Dulce, o comportamento é o discurso e o cuidado é um processo que se dá entre as pessoas, o que não pode ser perdido de vista.

A enfermeira, formada há quase 50 anos na UFRGS, conta que a ideia de criar o laboratório surgiu em 2005, após o aprendizado que obteve com Jesus Antonio Durigan (já falecido), na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e com o semioticista da Escola de Paris, Ivan Darrault –Harris, respectivamente em sua fase de Doutorado, no Brasil, e Pós-Doutorado, na França. E a iniciativa veio a se consolidar três anos depois.

Ao se deparar com os desafios diários no processo de formação dos alunos de enfermagem, considerou que era necessário promover transformações. “...Geralmente o aluno tem desespero de fazer as coisas, mas esquece que o processo envolve outras, como a maneira correta de aplicar medicação, ver o contexto da dosagem e a via de aplicação, de forma integrada ao estado emocional do paciente e à sua cultura. O LESIC propõe diferentes maneiras de pensar a técnica com relação à cognição. No 4º semestre do curso, é mesclada a parte profissional com a de humanas, com esse propósito”.

Interação é a palavra-chave, segundo a especialista. “Cuidado para mim é uma arte, significa presença e modo de ser A criança precisa sentir a presença do profissional (de forma integral), para se sentir cuidada. Se a cada vez, ela é atendida por uma pessoa diferente, é difícil que consiga manter envolvimento”. Essa presença representa a enunciação da pessoa que será a cuidadora.

Segundo Dulce, os estudantes de enfermagem são convidados a ir para a parte prática, antes da teoria. “O ponto forte é a preservação do respeito à natureza relacional do ser humano, e a família do paciente está nesse espaço a ser trabalhado, onde está o tempo de vinculação”.

“Como lidar com o choro, o ranger dos dentes, com as dificuldades da criança ao se virar no leito? Tudo isso faz parte dos aspectos da linguagem. Os alunos têm de aprender a lidar com os cinco sentidos e desenvolver essa percepção. Dessa forma, ao haver a aproximação, sente o cheiro, a textura da pele...Percebe se a criança está ouvindo ou vendo, se não tem alguma limitação”.

A enfermeira expôs esse relato, nesta quinta-feira (6), durante apresentação no Seminário de Semiótica da Universidade de São Paulo (USP).

Sucena Shkrada Resk

05/10/2011 15:32
Nota: Bicicloteca retorna ao Movimento em Situação de Rua, por Sucena Shkrada Resk

Hoje ao assistir o vídeo postado pelo Green Mobility Institute, que noticia o encontro da Bicicloteca, no bairro do Brás, tive uma sensação boa, de que nem tudo está perdido, quando pensamos que os exemplos de cidadania estão cada vez mais raros. Apesar de o equipamento (bicicleta com baú) ter sido devolvido sem os livros que estavam lá, quando foi furtado no dia 22 de setembro, o mais importante é que o Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo tem de volta seu instrumento que incentiva a leitura.

Veja mais sobre o projeto no post, que coloquei no ar, no último dia 23, com o título "Cidadania: devolvam a bicicloteca ao Movimento de População de Rua".
Sucena Shkrada Resk

04/10/2011 20:39
E se as economias solidária,criativa e verde estivessem em 1 única agenda?, por Sucena Shkrada Resk

Observo no dia a dia, que muitos esforços são desperdiçados no campo da sustentabilidade, pois o mesmo propósito central é fragmentado quando se trata de otimizar ações na área socioeconômica e ambiental. Então, se fizéssemos o seguinte exercício: colocar a economia solidária, criativa e verde em uma mesma agenda? Será que não daria liga? Afinal, não têm propósitos afins? Hoje, no entanto, são temas discutidos separadamente, o que tira a força das ações.

A ampliação do espaço destinado à economia solidária (ecosol) no Brasil ainda está longe do ideal, quando olhamos para o perfil do mercado. Políticas públicas no setor foram iniciadas em 2003, ano em que foi criado o Fórum Brasileiro de Economia Solidária( http://www.fbes.org.br/)
e a Secretaria Nacional de Economia Solidária –SENAES (http://www.mte.gov.br/ecosolidaria/secretaria_nacional.asp), no Ministério do Trabalho e Emprego. Em um resultado prévio do primeiro mapeamento do setor em vigor no país, por meio do Sistema Nacional de Informações em Economia Solidária – SIES (http://www.mte.gov.br/ecosolidaria/sies.asp#), os resultados são os seguintes: mais de 21 mil empreendimentos, que envolvem 1,8 mi de pessoas em 41% dos municípios brasileiros.

Atualmente há mais organizações no Nordeste (quase 10 mil), seguido do Sudeste, com cerca de 4 mil e do Sul, com 3,6 mil.

“Até o final do ano, pretendemos totalizar 30 mil cadastros em 70% dos municípios”, disse Valmor Schiochet, diretor do Departamento de Estudos e Divulgação (DEAD), da SENAES, durante a I Semana de Economia Solidária no ABC Paulista, no último dia 29 de setembro, realizada na Universidade Federal do ABC (UFABC).

Para conseguir ampliar esses números, o principal empecilho, segundo ele, se encontra no acesso ao financiamento. “Nos últimos oito anos, ainda não conseguimos uma linha de crédito para disponibilizar recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) para a ecosol”. Schiochet explica, que mesmo o formato tripartite, ao envolver os trabalhadores, não facilita essa abertura e cerca de 60% dos recursos seguem para o BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.

“A SENAES chegou a promover um curso de 60h para gestores do BNDES quanto à viabilidade de liberações para o segmento....Em Mococa, estão assinando agora uma concessão de crédito para a recuperação de uma empresa”, citou como um exemplo de sinal de mudanças que podem se expandir futuramente. O Banco mantém em sua estrutura a Área de Inclusão Social/ Departamento de Economia Solidária, em que consta como beneficiários:
Empreendimentos de economia solidária que exerçam atividades produtivas e não tenham capacidade de endividamento e associações sem fins lucrativos que não tenha por finalidade o exercício de atividade econômica.
No entanto, a ecosol tem um desafio ainda maior – atingir quem enfrenta a miserabilidade. “Os que têm renda abaixo de R$ 70 por mês não são o seu público e nem sabem que existe essa alternativa. O nosso desafio é inseri-los, de forma que haja o desenvolvimento territorial. É preciso uma política de abordagem diferenciada, que não pode ser só indutiva”.

Por outro lado, ele informou que as implementações de incubadoras tecnológicas de cooperativas populares estão sendo retomadas. “Hoje são aproximadamente 100 incubadoras universitárias...”. Como ponto positivo também avalia o avanço das finanças solidárias, com mais de 50 experiências de bancos comunitários. “Também avançamos no diálogo com o Ministério da Educação, com relação ao conteúdo do ecosol no programa de formação da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Outra ação é o projeto Mulheres Mil (http://mulheresmil.mec.gov.br/)”.

Especialmente em São Paulo, o diretor contou que uma novidade se refere à organização da rede de saúde mental e ecosol.

Mas para que todas essas iniciativas ganhem força, se espera que sejam aprovados o Fundo, o Sistema e a Política Nacional de Economia Solidária, cujo projeto (de iniciativa popular) foi encaminhado ao Congresso. O documento foi estruturado pelo Conselho Nacional de Economia Solidária, em 2010. Existe uma campanha em andamento a respeito, no site (http://cirandas.net/leidaecosol).

A Frente Parlamentar da Economia Solidária foi relançada, em maio deste ano, com a participação de 213 deputados. Uma das propostas que tramitam no Congresso é a do PL 865/2011, que cria Secretaria da Micro e Pequena Empresa, com status de ministério, que incorporaria o Conselho Nacional de Economia Solidária.

Mas na ordem do dia está outra questão crucial de quanto a SENAES terá no Plano Plurianual PPA (2012/2015) para poder viabilizar seus projetos. “...A maior parte do orçamento da pasta atualmente é na área de resíduos sólidos e cooperativas de catadores e isso é mérito do próprio movimento”, disse Schiochet.

Mais um desafio é inseri-la, de forma concreta, na agenda da economia verde da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que será realizada em junho do ano que vem. “A economia solidária é uma economia verde e corresponde organicamente, no campo da agroecologia e também como modelo de reconversão produtiva. Há esforço das cooperativas da área rural nesse sentido. Mas na economia verde dos tratados internacionais, a ecosol está fora do debate”. Oficialmente também não integra o planejamento da Copa do Mundo de 2014.

Economia criativa
Mas é aí que o Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura, anunciou o apoio à chamada economia criativa, que envolve atualmente artesãos e artistas, num número estimado de 3,7 milhões de pessoas. Em 30 de setembro, foi assinado um convênio com o Serviço Brasileiro de Apoio a Micro, Pequena e Média Empresa (SEBRAE) para criar o Observatório da Economia Criativa e incentivo a parcerias com empresas e bancos.

De olho na Copa, deverão ser identificadas vocações criativas nas 12 cidades-sede do campeonato, que será iniciado no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Salvador. As informações serão relacionadas com as 87 oportunidades identificadas no Mapa de Oportunidades para as Micro e Pequenas Empresas nas Cidades-Sede, desenvolvido pelo próprio Sebrae em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Em 2001, John Howkins, na obra The Creative Economy, a definiu como resultado de atividades (criação, produção e distribuição de produtos e serviços) em que os indivíduos exercitam a sua imaginação e conhecimento e exploram seu valor econômico.
No Brasil, o tema da economia criativa começou a ser aprofundado a partir de 2005, com o Fórum Internacional de Indústrias Criativas, em Salvador. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), estima-se que ela responde por 8% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial.

E ao chegar à economia verde, um conceito em formação, que foi lançado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), em 22 de outubro de 2008, a proposta é de mobilizar e reorientar a economia para investimentos em tecnologias verdes e infraestrutura natural. De uma maneira preliminar o conceito quer dizer: “É a economia que resulta em melhoria do bem-estar humano e equidade social, ao mesmo tempo em que reduz significativamente os riscos ambientais e a demanda sobre recursos escassos do ecossistema. Uma economia verde e inclusiva é caracterizada por um crescimento substancial nos investimentos em setores econômicos que, visando tais resultados, aproveitam e potencializam o capital natural do planeta”.

É importante não perder de vista que é um dos temas principais da Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável – Rio+20, que será realizada em junho de 2012.
Voltando à reflexão do início: e se todas essas propostas de ‘economias’ caminhassem juntas, será que não chegaríamos próximo do tripé da sustentabilidade?

Nota de rodapé:
*Empreendimentos de economia solidária:
São iniciativas de projetos produtivos coletivos, cooperativas populares, redes de produção, comercialização e consumo, instituições financeiras voltadas para empreendimentos populares solidários, empresas autogestionárias, cooperativas de agricultura familiar, cooperativas de prestação de serviços, entre outras. Esta nova realidade do mundo do trabalho contribui, de forma significativa, para o surgimento de novos atores sociais e para construção de novos espaços institucionais. (Fonte: SENAES)

*Economia criativa:
Economia Criativa é quando capital intelectual e conhecimento se transformam em geração de trabalho e renda. É um novo modelo de gestão e negócios baseado no bem intelectual, e não no industrial ou agrícola. (Fonte: SEBRAE)

*Economia verde:
Green Economy. Disponível em: http://www.unep.org/greeneconomy/. Acesso em: 05/10/2011

Rumo à uma Economia Verde: Caminhos para o Desenvolvimento Sustentável e a Erradicação da Pobreza – Uma Síntese para Tomadores de Decisão. Pnuma. Disponível em: http://www.pnuma.org.br/arquivos/EconomiaVerde_ResumodasConclusoes.pdf. Acesso em: 05/10/2011.

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Sucena Shkrada Resk

27/09/2011 09:36
Quem quer fazer parte da estatística fatal provocada pela poluição?, por Sucena Shkrada Resk

Qualquer um de nós poderia fazer parte da estatística de mortalidade em decorrência da poluição no mundo, divulgada nesta 2ª feira, pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Estima-se que mais de 2 milhões de pessoas sejam vítimas fatais, o que equivale a quase um quinto da população paulistana. Os vilões da história são os chamados particulados inaláveis - PM10 (de 10 micrômetros ou menos), que penetram em nossos pulmões e seguem para a corrente sanguínea. Aí o estrago está feito. Quando os índices são elevados, os efeitos podem ser desde doenças cardíacas a câncer de pulmão e infecções respiratórias. O pior é que muita gente – quem sabe eu ou você - adquire essas doenças e nem sequer tem noção de que a causa pode ser o estilo de vida que levamos.

Tirem as suas próprias conclusões. Os parâmetros aceitáveis são de 20 microgramas por metro cúbico (mg/m3) de PM10 de média anual, entretanto, algumas cidades já atingiram 300 mg/m3. As áreas urbanas têm maior concentração atrelada aos combustíveis fósseis e ao crescimento demográfico. As fontes partem de:
- Veículos automotores;
- Indústrias;
- Queima de biomassa e carvão para cozinhar e aquecer;
- Empreendimentos à carvão.
- E, claro, do desmatamento.

O ar que respiramos tem a seguinte formação, além dos PM10, como destaca o livro Meio Ambiente e saúde: o desafio das metrópoles, sob realização do Instituto Saúde e Sustentabilidade, coordenado por Evangelina da Motta Pacheco Alves de Araújo Vormittag e pelo patologista Paulo Saldiva (Ex-Libris, 2010):
- Em 98%, por nitrogênio (N2), oxigênio (O2) e um pouco de argônio.

Mas o problema não está na “maioria”, mas na minoria. Daí vem o dióxido de carbono (CO2), o neônio (NE) e o hidrogênio (H2). E segue mais um batalhão de gases identificados como compostos traços. São o metano (CH4), o monóxido de carbono (CO), o ozônio (O3), a amônia (NH3), o dióxido de nitrogênio (NO2) e o dióxido de enxofre (SO2). Pensam que parou por aí? Que nada. Soma-se a tudo isso, as partículas sólidas (material particulado) ou líquidas (aerossóis atmosféricos).

Existe, entretanto, um componente mais prejudicial à nossa saúde, praticamente imperceptível, que são os materiais particulados finos (PM2,5), que apresentam concentrações elevadas em nossa atmosfera urbana. Há estimativas globais de que sejam responsáveis por aproximadamente 3% das mortes por doenças cardiopulmonares, 5% dos cânceres de pulmão e 3% dos óbitos em crianças até cinco anos de idade.

E a falta de regulação desse emaranhado de gases tem suas causas, além do que foi destacado acima. A modificação da superfície (com o aumento da rugosidade e a diminuição da umidade do solo) e a mudança do padrão do vento, por causa da presença de edifícios altos, são mais alguns dos fatores em nossas metrópoles.

Um dado interessante destacado no livro se refere à metrópole de São Paulo. Da frota que ultrapassa 7 milhões de veículos, 76,3% queimam uma mistura de quase 80% de gasolina com 22% de etanol (dados 2009, CETESB). A adição do etanol, por sua vez, reduz a de CO, mas em contrapartida, aumenta a de acetaldeídos e origina o smog (grande massa de ar estagnado em conjunto com vários gases, vapores de ar e fumaça).

Diante dessa constatação, estão se sentindo confortáveis? Eu, pelo menos, não! E não é por menos que a OMS alerta para a necessidade de medidas mais efetivas de combate à poluição urbana. A situação é tão crítica, que se houver a redução de uma média anual de 70 mg/m3 de PM10 para o padrão estabelecido, a redução de mortalidade pode ser de 15%. Os dados foram baseados em medições de 2003 a 2010, com maior proporção no período 2008-2009.

Ao analisar esse levantamento feito pela organização é impossível não nos lembrarmos que a 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP17), em Durban, ocorrerá de 28 de novembro a 9 de dezembro e tem como pano de fundo a encruzilhada das negociações entre os países, quanto à redução efetiva de emissões dos Gases de Efeito Estufa (GEEs). O destino do Protocolo de Kyoto é uma verdadeira incógnita, o que significa nas entrelinhas, que a nossa qualidade de vida depende, em grande parte, desse fórum de negociações, porque infere substancialmente nas políticas públicas.

E a nossa Política Nacional sobre Mudança do Clima, as estaduais, as municipais (que já existem)? Que escolhas de consumo fazemos? Tudo isso está colocado à mesa; é uma questão de saúde pública!...

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Sucena Shkrada Resk

26/09/2011 09:47
Wangari Maathai: um exemplo a seguir, por Sucena Shkrada Resk

"Você não pode proteger o meio ambiente, a menos que capacite as pessoas, as informe e ajude a entender que esses recursos são próprios e devem protegê-los". Essa frase de Wangari Maathai, criadora do Green Belt Movement (Movimento Cinturão Verde), traduzida em ações, nos incentiva a melhorar, pelas mais diferentes razões. Pode-se dizer, sem dúvidas, que ela é um ícone da comunidade africana, ou melhor, mundial, ao se dedicar à implementação dos princípios da sustentabilidade.

Essa mulher queniana formou-se em Biologia e fez Mestrado, por meio de bolsa de Estudos, nos EUA e foi a primeira mulher a conquistar o PhD em Anatomia, na África central e oriental, na Escola de Medicina Veterinária da Universidade de Nairobi. Nessa trajetória de emancipação, se tornou pioneira também ao presidir um departamento da Universidade e a ser nomeada professora. Uma conquista muito importante, na questão de gênero e de direitos humanos, mas transpôs a sala de aula e se dedicou à realidade do campo, da população vulnerável.

Na sua extensa biografia como ativista, comandou a Cruz Vermelha queniana nos anos 70 e foi ministra-assistente do Meio Ambiente entre 2003 e 2005. A sua agenda tinha como diretrizes o reflorestamento, proteção das florestas, e a restauração de áreas degradadas; como também projetos educacionais, com bolsas de estudo para órfãos devido ao HIV / AIDS; e acesso à nutrição aos portadores.

Uma de suas iniciativas de maior relevância foi o trabalho desenvolvido, por meio de sua organização, a partir de 1977, que resultou no plantio e replantio de cerca de 47 milhões de árvores no país, com a participação das comunidades, constituindo o sentido do empoderamento. A iniciativa nasceu, ao se defrontar com a realidade principalmente de mulheres do campo, que enfrentavam todos os tipos de dificuldades. Wangari propôs que as soluções viessem por meio de planos de manejos. Ao mesmo tempo, os camponeses deveriam proteger as bacias hidrográficas e estabilizar o solo, melhorando a agricultura.

A ideia que semeou nos anos 70 superou as fronteiras, e em 1987, já tinha seguido pela Pan African Green Belt Network , para a Tanzânia, Uganda, Etiópia, Zimbabwe e Lesoto.
As bandeiras foram ampliadas e ela se uniu a outros movimentos contra regimes ditatoriais, que acentuavam a pobreza em seu país. Uma das campanhas que iniciou, foi contra a construção de um arranha-céu em Uhuru ("Freedom") Park no centro de Nairobi, e o desmatamento de terras públicas. Durante essa militância, foi presa e espancada com outros ativistas.

Mais um trabalho relevante que não pode ser menosprezado, é que Wangari e seu movimento tiveram um papel importante na nova constituição do Quênia, ratificada pelo voto popular em 2010. O documento incluía o direito de todos os cidadãos a um ambiente limpo e saudável.

Ela colocava em prática o conceito de sustentabilidade em um contexto geopolítico e socioambiental de adversidades gritantes. Dedicou-se à proteção da selva da bacia do Congo na África central, segundo maior maciço florestal tropical do mundo...Contribuiu, em 2006, para o lançamento do Programa Um Bilhão de Árvores ao Redor do Mundo, pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnuma), que já ultrapassou a casa de bilhões.

Contribuiu também ao deixar uma bibliografia importante, calcada em suas experiência:
-The Green Belt Movement: Sharing the Approach and the Experience (2003);
- Unbowed (2006), uma auto-biografia;
- The Challenge for Africa (2008);
- Replenishing the Earth: Spiritual Values for Healing Ourselves and the World (2010).

Em 2009, ela foi designada como mensageira da paz, pela Organização das Nações Unidas (ONU).

A ativista, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz 2004, morreu neste domingo (25), aos 71 anos, devido a um câncer, em Nairóbi.

A sua partida nos entristece, mas a sua obra é tão sublime, que serve como um 'tapa com luva de pelica' à nossa inércia diante de tantas práticas erradas na condução socioambiental e, na verdade, das relações humanas...

Ao fazer a leitura de matérias a respeito, multiplicadas por agências de notícias internacionais, e ao conhecer um pouco mais de sua biografia, percebo o quanto ainda nos intitulamos mais do que realmente somos na prática.

Sucena Shkrada Resk

23/09/2011 00:48
Cidadania: devolvam a bicicloteca ao Movimento de População de Rua, por Sucena Shkrada Resk

Nesta quinta-feira (22), ao ler a notícia, no Catraca Livre, de que a Bicicloteca do Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo foi furtada, na quarta-feira, resolvi adiantar este post, que na verdade era para falar dessa experiência criativa e de resgate de cidadania, que começou há pouco mais de um mês e meio. Soube mais a respeito do projeto, ao conversar com Robson Mendonça, 60 anos, durante o Prêmio ODM Brasil, em São Paulo, e queria me aprofundar. O apelo, agora, não pode ser outro: por favor, devolvam a bicicleta que é o meio de ele poder levar a leitura a várias pessoas em situação de rua em praças da capital ou doem um novo transporte para ele (uma bicicleta com um grande baú).

Com um acervo de doações, que já totaliza cerca de 15 mil livros, ele contou que até o último dia 14, já havia emprestado 4 mil e tinham devolvido 3,8 mil, o que demonstra o respeito dos leitores ao projeto. “A média diária é de 150. Nosso objetivo é que circulassem entre toda a população”, contou. São revistas, títulos infantis e adultos.

Cada exemplar é carimbado e tem a seguinte frase: “Não pode ser vendido. Doe para outra pessoa ou devolva para a bicicloteca”.

Para poder contemplar o maior número de pessoas possível, o roteiro era o seguinte:
- 2ª feira: Praça da Sé;
- 3ª feira: Patriarca;
- 4ª feira: Dom José de Barros;
- 5ª feira: Praça da República;
- 6ª feira: Largo Santa Cecília.

Conheci um pouco da história desse senhor de Alegrete, que tem passagens que marcaram sua vida. “Após eu ser roubado e sequestrado, passei três anos dormindo nas calçadas e depois mais três, em albergues...Nesse período, também perdi minha esposa e meu casal de filhos em um acidente. Daí fundei o movimento há 12 anos e faz um ano que ganhou o status jurídico".

Em um país, em que a leitura precisa ser incentivada, exemplos como do senhor Robson e de outras pessoas que o ajudam não podem ser interrompidos por falta de apoio. Informações sobre o paradeiro da Bicicloteca podem ser passadas à 1ª Delegacia de Polícia de São Paulo ou enviadas ao email contato@bicicloteca.com.br ou no site www.bicicloteca.com.br.

Sucena Shkrada Resk

20/09/2011 08:20
Crônica da vida real de uma sem carro, por Sucena Shkrada Resk

Como uma "sem carro" convicta, dependo de transporte público, e nesta segunda-feira, para fazer uma cobertura de manhã e depois participar de um reunião à tarde (para só aí retornar para casa), bati alguns dos meus recordes: tomei três trens, quatro baldeações de metrô e dois ônibus. Geralmente tomo quatro conduções. Essa 'peregrinação', além de caminhadas básicas de deslocamento e, claro, de enfrentar lotação em horário de pico, por duas vezes, o que exige certo contorcionismo. Cheguei em casa para lá de cansada, mas me recuperei, depois de um banho, calçar um par de chinelos e simplesmente dedicar alguns momentos para pensar em nada. Do que estou falando? Do cotidiano típico de paulistana da gema, com um pé no ABC.

Moral da história: vivencio o Dia Mundial Sem Carro praticamente todo dia, há anos, sem sequelas, como outros milhares de brasileiros...Isso não quer dizer que esteja feliz com o sistema de transporte público, nosso trânsito, com mais de sete milhões de veículos nas ruas, e por aí vai. Por isso, precisamos exercer pressão para que haja a implementação dos planos de mobilidade em nossas cidades, ou melhor, em consonância entre os municípios, já que vivemos em uma região metropolitana.

Ao ser usuária diária de transporte público, em Sampa, observo 'na pele', que é necessário ampliar as redes de metrô (em função da população, e não da Copa, obviamente) com mais agilidade, e as malhas férreas mais eficientes, além de aumentar de trólebus com qualidade, em vez de ônibus com combustível ainda altamente poluente. Basta respirarmos para saber exatamente do que estou falando. Por outro lado, haver a nossa educação, como usuários (as): ao deixar as pessoas saírem das composições, antes de entrar. Parece um mero detalhe, mas faz toda a diferença.

É compreensível que as pessoas fiquem ansiosas para tomar o transporte coletivo, porque estão atrasadas, mas nada justifica, ao se abrir as portas das composições, não darem espaço para as outras poderem seguir seus caminhos nas estações. Nesse empurra-empurra, em que quase não se olham, muitas vezes, machucam umas às outras, causam um estresse desnecessário e, nem sequer, pedem desculpas. Volta e meia, me deparo com cada cena! Até os semblantes se transformam...Tenho absoluta certeza de que essa tensão não deixa ninguém feliz, no final das contas.

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Sucena Shkrada Resk

18/09/2011 20:46
Dalai Lama(p2):A secularização como forma de respeito às crenças e aos não crentes, por SucenaS.Resk

Secularização. Esse é o conceito empregado por Dalai Lama, que em sua avaliação, pode ser uma forma de conciliar o respeito às diferentes crenças e aos que também não professam algum tipo de fé. Segundo ele, o mote desse pluralismo foi se consolidando na Índia. “Com isso, não se desrespeita tradições religiosas e nem aqueles que não são filiados a nenhuma; e ao mesmo tempo, se incentiva a promoção dos valores internos”.

“Por mais sábia que seja a religião, não será aceita por toda a humanidade. Com o secularismo, a proposta é que não se privilegie nenhuma, mas se introduza valores morais e éticos”. Na sua avaliação, com base na experiência de bom senso comum entre os homens, as descobertas da Ciência auxiliam na promoção das perspectivas seculares, sem envolver religiões.

Segundo ele, para que haja a multiplicação desses valores universalmente, o instrumento é a educação, que pode ir além da formação intelectual, pois tem o poder de impulsionar o sentido de querer bem-estar ao outro, para que se forme o sentido de comunidade.

“Isso faz aparecer um sentimento de igualdade entre os seres, com visão de longo prazo. Deve ser incentivado, desde o jardim da infância às universidades”. Ao mesmo tempo, Dalai Lama frisa a importância de não se perder a noção da realidade. “Para isso, é preciso ter metas e visão política, para se enxergar o todo, porque a realidade é complexa e tem muitas facetas”.

O desenvolvimento da ética secular é necessário à humanidade, de acordo com o monge. “Nas cidades, há os arranha-céus cada vez mais altos, mas os valores internos estão declinando mais e mais, com a corrupção, que é um câncer que se alastrou no Ocidente e no Oriente, o abismo entre ricos e pobres e as injustiças sociais, mesmo em países democráticos. Isso demonstra falta de fortalecimento ético. Já no âmbito das relações internacionais, países ricos se impõem aos países mais frágeis”.

O monge tratou dessa temática, durante sua palestra, no Anhembi, em São Paulo, neste sábado, 17, que integrou a programação do roteiro de sua quarta visita ao Brasil, coordenada pela Palas Athena. O assunto também teve destaque, durante o Parlamento das Religiões do Mundo, realizado em Melbourne, como noticiado pelo sítio Religión Digital/reportagem de Koldo Aldai, em 10 de dezembro de 2009, e divulgado no site do Instituto Humanitas Unisinos (http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=28285), que é mais uma dica interessante para leitura.

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18/09/11 - Inspiração p/Rio+20:Dalai Lama (parte 1) fala sobre responsabilidade global

Sucena Shkrada Resk

18/09/2011 17:36
Inspiração p/Rio+20:Dalai Lama (parte 1) fala sobre responsabilidade global, por Sucena Shkrada Resk

A filosofia oriental budista traz uma mensagem interessante e profunda quanto ao caminho do meio, e se formos ver, nada mais é que o princípio do equilíbrio, da busca da sustentabilidade, que tanto falamos no Ocidente, e será pauta da Rio+20 – Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável. Já pensaram sobre isso?

Ao ouvir Dalai Lama, durante duas horas, neste sábado, em apresentação que fez no Anhembi, em São Paulo, em sua quarta visita ao Brasil (organizada pela Palas Athena), essa analogia ganhou mais sentido. Isso porque a palavra respeito proferida por este homem, de 76 anos, tem consistência. Ao analisarmos seu histórico, percebemos a coerência do que fala há décadas e defende em suas viagens a mais de 40 países, desde 1967.

Em uma breve biografia, ele é o 14º Dalai Lama e tem origem de uma família de camponeses da vila de Taktser, na provincia de Amdo, situada no nordeste do Tibet. Até então, seu nome oficial era Lhamo Dhondup , mas com dois anos, foi reconhecido como sendo a reencarnação de seu predecessor, Thubten Gyatso. Daí passou a se chamar Tenzin Gyatso e começou sua educação monástica aos seis anos e a dedicação ao seu trabalho de defesa da paz mundial.

Tornou-se líder do Tibet, aos 15 anos, e em 1959 teve de exilar-se na Índia por causa do ápice de conflitos de liderança históricos sobre o território com a China. Houve a criação de um governo tibetano no exílio e a bandeira de um Tibet livre é levantada por ele até hoje. Ele propôs, em 1988, a criação de um governo autônomo das três províncias tibetanas, "em associação com a República Popular da China", mas não teve êxito. Com isso, em 1991, a liderança tibetana exilada suspendeu o vigor da então proposta de Estrasburgo.

Nesse contexto, em que ao mesmo tempo, ganhou reconhecimento mundial e várias premiações, entre elas, o Prêmio Nobel da Paz, escreveu vários livros e deu aula, Dalai Lama se define até hoje 'simplesmente' como monge budista e vive em uma cabana em Dharamsala. Defende o senso de responsabilidade global, que segundo ele, começa pela educação, que é um instrumento que pode ser usado de forma construtiva ou destrutiva. Em sua análise, ao ter o componente do coração (sentimento) agregado, a tendência é que sejamos mais felizes, pois traz auto-confiança e reduz os medos.

Logo, no início, ele se dirigiu a uma plateia com centenas de pessoas e disse a seguinte frase - “Eu me dirijo a vocês como ser humano e não há diferença entre nós em nível físico e espiritual, de almejar a felicidade. Essas diferenças se encontram em nível secundário. Eu nasci no Tibet e sou budista, mas além disso, somos iguais e nessa condição, que nossa comunicação deve acontecer”, disse.

Segundo Dalai Lama, na realidade contemporânea é preciso se desenvolver o conceito de NÓS. “Toda a humanidade integra um ente único...Na economia global, por questões ecológicas e do crescimento populacional, os interesses de um país e de um continente estão interligados aos demais”. São Paulo, por exemplo, não pode se desenvolver sem recursos que venham de outras regiões do planeta, em sua opinião. “Essa interdependência tem de ser compreendida...”.

Ao olhar para um passado nem tão remoto, ele lembra que havia maior ênfase ao conceito do separatismo, que resultou nos mais variados problemas que enfrentamos hoje, desde o campo das religiões aos de diferenças profundas de classe social e de acesso à educação. “Criou-se a discriminação, e com isso, a infelicidade”. E reforçou – “Somos todos iguais, pois somos seres humanos e vivemos no mesmo planeta”.

Nesse caminhar, durante o século passado, o monge destaca que houve o desenvolvimento de coisas ‘maravilhosas’, mas também esse período ficou conhecido como o século da violência e do derramamento de sangue. “Mais de 200 mil pessoas morreram por causa de guerras civis e de armas nucleares...” Para ele, as questões que enfrentamos, no século XXI, são as consequências desse modelo que se perpetua.

Como combater esse processo? Dalai Lama defende o diálogo para a paz. “O uso da violência não coloca apenas problemas morais, pois não é um método realista de solução...Destruir o país vizinho significa se destruir”.

“Se observarmos os eventos do Iraque e Afeganistão, por exemplo, pode parecer que a ação dos EUA foi boa para trazer a democracia, mas o método utilizado é equivocado e trouxe consequências indesejáveis...”.

Dalai Lama considera que o equilíbrio terá como pressuposto a criação de um mundo desmilitarizado, livre das armas, que segundo ele, também traz consequências benéficas ao ecossistema. “Alguns países se esforçam para reduzir seus arsenais nucleares, o que é um bom começo. Enquanto isso, temos uma tarefa a cumprir:

- ...É preciso que se crie um desarmamento interno da raiva, do medo, da inveja e da ganância, que são causas primeiras da violência. Prestemos atenção ao lidar com esse mundo interno emocional, para que um dia o desarmamento externo aconteça...".

E dá o seguinte recado aos jovens - "...São a geração do século XXI e cabe a vocês criarem a forma de conduzir esse mundo...Tenham a visão de trabalhá-lo pacificamente. Não basta apenas olharem ao que está em volta, mas na perspectiva global (do planeta)...".

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Sucena Shkrada Resk

16/09/2011 00:25
Rio+20: juventude, deixe a gente te ouvir e assuma o protagonismo, por Sucena Shkrada Resk

Cada experiência de nosso dia a dia reaviva um princípio básico: somos aprendizes (independente da idade). Essa posição exige que nos esforcemos a ouvir e saber expressar o que queremos dizer e edificar. Um exercício nada fácil, porque, por muitas vezes, atropelamos etapas fundamentais nesse ritmo da comunicação, que tem de manter a ‘cadência’ e sensibilizar. No contexto da Rio+20 - Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, em que “as futuras gerações” são o foco da abordagem da ‘sustentabilidade’, nada mais lógico, então, do que apelar a vocês, jovens – deixem a gente ouvir o que desejam fazer por esse futuro, a partir do nosso presente!

Muitos de nós fomos as futuras gerações do ontem e vocês são as de hoje e seus filhos, netos, bisnetos do amanhã. Essa construção da história nada mais é que uma chance de realinharmos ideologias e práticas, com a seriedade devida de quem clama por qualidade de vida e por encontrar a métrica da felicidade. Acho que todo mundo concorda que não é possível ser feliz à base da fome, das doenças, das violências em suas diferentes formas, que acelera a destruição do planeta com a voracidade do consumo inconsciente.

Então, vocês (na militância ou não), se façam presentes, não só nas redes sociais e nas manifestações pontuais por causas justas (o que é sadio, claro!), mas assumam também o protagonismo do ativismo constante em suas casas, entre seus amigos, vizinhos, no ambiente em que estudam e trabalham, antes, durante e depois da Rio+20. Incorporem essa mudança lá no fundo, e não se cansem de ir atrás dos porquês e do para quê das motivações de suas vidas. Ouçam, pesquisem, debatam, proponham, compartilhem seus projetos de ‘novo mundo’ com outras gerações e executem. Sejam os autores dessas mudanças tão almejadas...

Estamos próximos de chegar a 7 bilhões de pessoas no planeta e na metade do século, deveremos ser 9 bi, mas em quais condições? Lembremos que mais de 1 bilhão de pessoas estão na extrema pobreza. O sinal amarelo bateu em nossas portas, faz tempo.

Como diz o cientista social e economista Pedro Jacobi, presidente da Comissão de Pós-Graduação de Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo (Procam/USP), os grandes pactos globais não estão sendo formulados, tendo como contexto a agenda da sobrevivência. “O neoliberalismo perdeu seu impulso e o projeto de sociedade alternativa, sua energia. As pessoas na Europa, por exemplo, lutam pelo emprego e pelo bem-estar social”.

Lembremos da importância também de outras manifestações, como da Primavera Árabe e a dos estudantes chilenos, pela educação de qualidade e acessível. No Brasil, por exemplo, milhares de pessoas recentemente foram às ruas em algumas regiões do país, contra a corrupção, mas nos dias seguintes, quais são os frutos dessa indignação? Vocês já se questionaram? Ou com relação ao processo de votação do Código Florestal? À estruturação do Plano Nacional de Educação? Do Plano Nacional de Resíduos Sólidos? Tantas pautas emergentes...

Jacobi alerta que a mídia, de uma maneira geral, também não contribui para o avanço dessa consciência cidadã, dessa virada de página. “Os jovens (dificilmente) leem jornais. Já os microcosmos dos blogs (e outras ferramentas digitais) têm de ter clareza da agenda, para que o diálogo não fique entre ‘nós com nós’ nas redes sociais”, observa. Ele aconselha que vocês tenham projetos de sociedade.

“Ao mesmo tempo, em muitas organizações, se perderam as energias utópicas de uma geração a outra ou estão muito céticas...Por outro lado, a agenda do país não se modificou e a lógica produtiva é a mesma”, complementou.

Para Aron Belinky, do Instituto Vitae Civilis, que integra o Comitê Nacional da Sociedade Civil para a Rio+20, o desafio hoje é combater a fragmentação entre vocês, para que não percamos a força das reivindicações e dos objetivos. “Hoje muitos não querem intermediários e não acreditam nas instituições. Os jovens precisam retomar a capacidade de acreditar que podem fazer alguma coisa, de criar plataformas de debates e trazer coesão, identificando bandeiras”.

E vocês, o que querem? Contem para nós.

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Sucena Shkrada Resk

13/09/2011 21:20
A Rio+20 sob o olhar de quem esteve na ECO 92, por Sucena Shkrada Resk

Tantos olhares e leituras. Assim se desenha os bastidores da Rio+20 – Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável. E na busca desses diálogos, fui assistir a palestra Rio+20 e a Entrada no Antropoceno, promovida pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP), no último dia 12. E lá ouvi as narrativas de quem vivenciou de perto a ECO 92, o que possibilita uma 'travessia' no tempo. A ideia foi mostrar quais são os cenários passados, presentes e possíveis no futuro, na era que tem o recorte principalmente a partir da Revolução Industrial, com destaque à intervenção humana.

Nesse hall, estavam o sociólogo francopolonês Ignacy Sachs, professor emérito da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, da França; o ambientalista Fabio Feldmann, consultor e ex-presidente do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas; o economista Ricardo Abramovay, professor titular do Departamento de Economia da FEA - Faculdade de Economia e Administração da USP, e o geógrafo Wagner Ribeiro, ambos do IEA.

Professor Sachs, aos 84 anos, trouxe uma bagagem que vem desde a Conferência de Estocolmo, em 1972. Ele destacou em sua fala a importância de os países voltarem a planejar e alertou para o cuidado de não se 'esverdear' a economia, com a nova expressão que ganha espaço na pauta da conferência – a economia verde - , sem atender o princípio da inclusão social. Abramovay destacou que existe uma grande desconfiança sobre o termo, 'como se fosse uma cortina de fumaça' para a sociedade e se o desenvolvimento sustentável sofresse um recuo. “...A economia verde é tratada como um graal energético que nos tirasse dos combustíveis fósseis”.

Sachs defendeu que nesse contexto de desigualdades entre países ricos e pobres, seria viável implementar a aplicação entre 1% e 2% do PIB – Produto Interno Bruto dos países ricos em fundos de apoio, além de taxas de carbono e sobre as especulações financeiras, que até hoje não foi implementada. “Sou favorável à proposta de pedágio de uso dos oceanos e mares”, disse, argumentando que são espaços de bem comum. O ecossocioeconomista polonês acredita na potencialização dos países emergentes, em especial, por meio da cooperação entre o Brasil e Índia, onde teve a oportunidade de viver e estudar. Já na opinião de Feldmann, não funciona a transferência norte-sul de 1% “Pois não funcionou até agora”, disse. Ele também não considera que os fundos climáticos sejam solução de médio e longo prazo.

Pensar além da Rio+20. Esse foi o recado de Sachs. Nesse sentido, mencionou a importância da cooperação científica internacional entre os países, por meio dos biomas, além da otimização do uso da terra. Como exemplo, citou a combinação da psicultura e o cultivo de hortas em áreas de poucos hectares, como uma iniciativa sustentável. “É um meio para se ganhar margens de liberdade para não produzir carne por meio de uma pecuária extensiva, que é uma das grandes fontes de desmatamento”. Ribeiro reforçou que o uso intensivo é racional e as mudanças dos padrões de agronegócio devem ter respaldo político consistente.

O alerta de Abramovay foi de que mesmo se cumprindo o que se acordou nas últimas Conferências das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 15 e 16), respectivamente em Copenhague e em Cancún, o aumento da temperatura média da Terra será de 4 graus (a próxima será antes da Rio+20, em Durban, na África, no final do ano).

“As energias renováveis como um todo representam 13% mundialmente e as modernas, 1%. Essas informações estão no Green Technological Transformation, produzido pela Organização das Nações Unidas (ONU)”, disse.

Segundo ele, o que pode ser considerado um avanço é o fato de a ONU estar estipulando limites per capitas de emissões de Gases de Efeito Estufa (GEEs). “Isso é importante, porque investimentos em tecnologia para reduzir a base energética fóssil e para a ecoeficiência são cruciais e fazem parte da economia verde; mas se não for reduzida a desigualdade do uso de recursos, não haverá economia verde que dê conta do recado”

Hoje a humanidade emite 50 gigatones de CO2e e precisaria reduzir para 10. Nesse contexto, há a questão da desigualdade dos limites físicos do planeta. “O norte-americano emite 72 vezes mais que o habitante de Bangladesh”, comparou.

Na avaliação de Feldmann, um problema na Rio+20 é que a conferência do ano que vem não deverá tratar das convenções (Clima, Diversidade Biológica, Desertificação...) e a partir daí, gera dificuldade para se entender qual, de fato, será a agenda. Ele também considera que a comissão de desenvolvimento sustentável, criada na ONU, foi mal colocada em sua estrutura e hoje há falta de liderança no processo, ao contrário de 92, em que havia o destaque na atuação de Maurice Strong. Ele lembrou que há 20 anos, houve a legitimação da participação da sociedade civil e, agora, uma marca diferenciada é de que os limites do planeta estão apresentados de maneira incisiva.

“Será um avanço na Rio+20, se forem colocados esses limites para a sociedade. Ainda há o problema do contexto de eleições em 2012, nos EUA, na França e mudança de governo também na China. Tentar fazer as COPs no mesmo período é uma das propostas e o foco da conferência teria de ser a implementação dos acordos”.

Segundo o ambientalista, é importante destacar que as emissões de GEEs, desde a Segunda Guerra mundial, se tornaram mais 'dramáticas', segundo a Ciência. “Há propostas de aliança estratégica entre setor empresarial mais cosmopolita com a sociedade civil, como mecanismos para serviços ambientais regionais e globais”. Ribeiro, que coordena a área ambiental do IEA, disse que apesar da sensibilização pública sobre a temática ambiental, ainda não acontece o mesmo com os governos.

“Temos de pensar em formas de gestão dos recursos naturais e esse é um debate muito duro”. Ele citou que nas discussões sobre a governança da sustentabilidade, um grupo considera que deve ser tratado no âmbito do Conselho de Segurança da ONU. Outro quer que se crie um novo organismo. Em outra vertente, que se reforce o papel do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – Pnuma, que segundo ele, hoje tem um papel secundário, apesar de relevante. “Criou um departamento para estudar conflitos ambientais, o que é significativo”.

Para Ribeiro, na Rio+20 é preciso lembrar também de outros acordos firmados ao longo dos anos, como a Convenção de Basileia para o Controle dos Movimentos Transfronteiriços de Resíduos Perigosos e sua Disposição, e sobre Zonas Úmidas. “É difícil pensar que os países vão desfazer suas conquistas jurídicas atuais”. E um ponto crucial, segundo ele, é o seguinte: discutir a regulação da globalização. “Por exemplo, países em desenvolvimento, como o Brasil e África do Sul têm empresas de extração mineral, que não avançam na questão do uso dos recursos, trazendo passivos ambientais”.

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13/09 - Rio+20: um cenário de incertezas (parte 2)
12/09/11 - Rio+20: um cenário de incerteza (parte 1)
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11/09/11 - Rio+20: pratiquem o exercício de reflexão e cidadania
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25/08/10 - Entremundos Direto na
Sucena Shkrada Resk

12/09/2011 22:47
Rio+20: um cenário de incertezas (parte 2), por Sucena Shkrada Resk

(continuação)
O ambientalista Marcos Sorrentino, professor do Departamento de Ciências Florestais da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), considera que a mobilização da sociedade é uma maneira de trazer a voz dos excluídos à Rio +20 - Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, no ano que vem.

“O alerta é para a mudança do padrão de consumo para a sustentabilidade da vida. É preciso ter um olhar profundo para o modo de produção e consumo. Os diversos acordos em 92 não foram cumpridos. A lição de casa está sendo feita pela metade em algumas situações ou nada, em outras. As amarras do poder são muito grandes. Os cerca de 200 chefes de Estado estão preocupados só com a agenda de desenvolvimento”.

Como Tita, ele reforçou que existe a força popular. “Um documento importante resultante da participação da sociedade civil, há duas décadas, foi o Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global”. Sorrentino lembrou que na contemporaneidade há outras manifestações importantes, como das Primaveras Árabes e dos Indignados da Espanha, e aqui no Brasil, protestos contra o projeto do novo Código Florestal. “Há um descompasso entre o que a maioria quer e necessita. Apesar de muitos torcerem o nariz, quando se trata de política e políticos, esse é o regime em que vivemos”.

“...Na ECO 92, conseguimos fazer com que o Aterro do Flamengo representasse as diversidades. Fizemos livros dos Tratados e quase ninguém o conhece e não chegou a se popularizar infelizmente. Vamos canalizar, no ano que vem, para o foro de discussão, mas que traga a esperança das grandes massas da população que estão silenciadas”.

Segundo Sorrentino, é essencial que se reforce o espírito comunitário, de fazer junto e o companheirismo, alem das redes sociais. “É importante que encontremos mecanismos de estímulo a todos os segmentos para criar espaço de expressão de todas as diversidades de vozes, que procuram caminhos diferenciados de realização humana, de sustentabilidade e na busca por ser feliz”.

O processo de preparação da sociedade civil até a Rio+20 pode se dar de diversas maneiras, de acordo com o ambientalista, desde assembleias à mobilizações por meios eletrônicos. “O mote é construir um modo de vida diferente para que não fiquemos o tempo todo ansiosos para que os governantes aprovem documentos. É preciso promover um processo pedagógico ambiental de forma ampliada, potencialização individual e coletivamente, a partir do microlocal. Isso representa uma humanidade concentrada no bem comum e no futuro melhor”.

Moema de Miranda, do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), frisou que a Eco 92 foi uma manifestação de cidadania planetária e a diversidade impactou, o que trouxe novas pautas políticas ao centro das negociações, em um contexto no qual a ONU era vista como espaço possível de apoio mundial e o mundo bipolar estava se reconfigurando, após a Queda do Muro de Berlim, em 1989. Depois de anos com fragmentação de agendas, ela acredita ainda que haja a possibilidade de espaço aberto à pluralidade no ano que vem, apesar do desgaste da organização nos dias hoje.

Em sua análise, no modelo neoliberal, das últimas décadas, houve certa ruptura entre homem e natureza no Ocidente. “As relações de mercado têm relevância, mas o que se questiona é o lugar que ocupa em nossa vida. O modelo socialista também pensava na natureza como recurso natural para o modelo de vida da sociedade”. Há a controvérsia entre progredir e crescer, e a hegemonia de crescimento foi utilizada tanto por um como por outro modelo”.

Moema avaliou que existe uma crise civilizatória e reforçou que a possibilidade de vida em harmonia não pode ser atrelada às marcas que consumimos. “É necessário um novo paradigma de ser e estar no mundo. O discursos de (ascendência) dos novos pobres é o de “agora é a minha vez' de conseguir adquirir bens de consumo e cria esses conflitos”.

Ela alertou que ao ficar no contexto do poder das corporações, se pode adquirir “o bilhete da economia verde”. A preocupação, segundo a ambientalista, é que seja um instrumento para “verdejar”, sem que haja mudança do modelo de vida e consumo. “Os pobres não estão aqui com a gente, se não tivermos como trazê-los para cá, o discurso será sempre superficial”.

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12/09/11 - Rio+20: um cenário de incerteza (parte 1)
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25/08/10 - Bastidores Entremundos - Direto na fonte

Sucena Shkrada Resk

12/09/2011 22:38
Rio+20: um cenário de incertezas (parte 1), por Sucena Shkrada Resk

As expectativas que são traçadas sobre possíveis cenários da repercussão do encontro oficial da Rio+20 Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, em junho do ano que vem, partem atualmente da cautela a um certo pessimismo, na avaliação de integrantes, que fazem parte da Comissão Nacional da Sociedade Civil para a Rio+20. O grupo de movimentos e organizações não-governamentais será responsável pela realização da Cúpula dos Povos da Rio+20 por Justiça Social e Ambiental , programada entre 26 de maio e 10 de junho do ano que vem, também no Rio de Janeiro.

O fato de a conferência não se propor a produzir documentos ou revisões efetivas da Agenda 21 e das convenções do clima e sobre a diversidade biológica, entre outros, pesa significativamente nessas incertezas. Por outro lado, 2012 será um ano de eleições presidenciais em países estratégicos, como EUA e França. Com isso, as possibilidades de acordos políticos mais consistentes podem ser minados por essas circunstâncias. Já no Brasil, haverá eleições municipais.

Durante o o 1º Seminário Estadual Rumo à Rio+20, realizado na Assembleia Legislativa de São Paulo, no último dia 10, sob coordenação do Comitê paulista da Sociedade Civil para a Rio+20, Aron Belinky, do Instituto Vitae Civilis, que integra o Comitê Nacional, citou que as perspectivas vão sendo reduzidas, também por causa das negociações das conferências das partes da convenções do clima e da diversidade biológica serem os fóruns oficiais permanentes dessas agendas ambientais. Esse cenário se complica em decorrência da crise econômica mundial.

Os temas centrais do encontro, que serão Economia Verde, no contexto da erradicação da pobreza, e a governança da sustentabilidade estão longe de chegar a consenso. “Colocar a economia em serviço da sociedade e quadro de governança efetivo é de difícil implementação. O objetivo seria de o mercado servir a sociedade, sem haver a mercantilização dos bens comuns, da natureza e dos bens genéticos”.

Para ele, a Rio+20 poderia aprofundar o princípio da precaução, que foi gerado em 92, por exemplo, além de metas do desenvolvimento sustentável, da biodiversidade, climáticas, além de paz e justiça social, que são o pano de fundo do que se discute na preparação do evento. “Os desafios emergentes são alimentos, energia, água e saneamento e a implementação de cidades sustentáveis”.

As discussões e possíveis acordos, segundo o ambientalista, deveriam ainda se estabelecer no contexto das Metas do Desenvolvimento do Milênio da ONU com prazo de efetivação pelos países signatários (incluindo o Brasil), no ano de 2015. “Na conferência do ano que vem, se espera também a prospecção para duas décadas”.

Tica Moreno, militante da Marcha Mundial das Mulheres, que também compõe o Comitê Nacional Facilitador da Sociedade Civil para a Rio+20, considera que o evento é um momento para convergir as lutas travadas nos últimos anos. “Temos uma visão crítica em comum quanto à mercantilização da vida, a questão do controle do território e da biodiversidade e a problemática do racismo. Nós fazemos parte da natureza, por isso esse tema é tão central”.

Ela constata que muito se negocia nos âmbitos das COPs, mas poucas coisas são implementadas. O MDL – Mecanismo de Desenvolvimento Limpo e o crédito de carbono ainda são insípidos, mas o mercado já reconhece essas possibilidades. “Muito dinheiro é gasto nesses encontros e o mercado continua nadando de braçada”, em sua opinião.

Uma maneira de pressão que pode surtir efeito, em sua opinião, é por meio da sociedade nas ruas, aumentando a correlação de forças. “A Rio+20 está articulada com o G20 e o G77. Recentemente nosso movimento promoveu a Marcha das Margaridas até Brasília, com 77 mil mulheres nas ruas. É preciso articular essas lutas, com mais base popular. Temos problemas locais, como a questão da privatização dos mangues, dos mares, dos impactos na pesca artesanal, como também a biodiversidade privatizada pelas leis de patentes. É importante ver em cada esfera de nossa vida como os mecanismos de mercantilização atingem a gente, nesse modelo de produção e consumo”.

Segundo Tita, é importante que se fale da economia em outros marcos, como da economia solidária, e da agroecologia como alternativa radical de modelo de consumo. “Isso envolve a experiência de conhecimento acumulado, que já existe. A soberania alimentar, o direito do que e como produzir, questiona o poder dos hipermercados, luta contra o projeto do Código Florestal (que tramita no Senado) e os agrotóxicos. Consumimos quase seis quilos de agrotóxico anualmente, algo que vai além do debate da segurança alimentar”.

Mais uma pauta a ser considerada, em sua avaliação, é a de ações predatórias de empresas de extração de bens naturais, como mineração. “É importante juntar os setores para discutir a economia verde e a governança, mas somar aos processos que já ocorrem”. (continua - parte 2)

Leia mais no Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk, sobre os bastidores para a Rio+20:
11/09/11 – Rio+20: a importância do empoderamento da sociedade
11/09/11 - Rio+20: Aldeia da Paz deverá ser referência para alojamento
11/09/11 - Rio+20: pratiquem o exercício de reflexão e cidadania
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28/07/11 - Atenção às nossas águas
22/07/11 - Alerta sobre o flagelo africano
30/06/11 - Nota: mobilização da sociedade para a Rio+20
06/06/11 - Bastidores do processo da Rio+20
20/02/11 - Rio além do +40: com certeza + 20 é uma redução da história
05/12/10 - Especial Fórum Social Pan-Amazônico – A luta só está no começo
25/08/10 - Bastidores Entremundos - Direto na fonte

Sucena Shkrada Resk

11/09/2011 17:22
Rio+20: a importância do empoderamento da sociedade, por Sucena Shkrada Resk

O que é mais instigante no processo de preparação da Rio+20 Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (independente de seus resultados) é o fato de exigir que saiamos daquele estado de inércia e acomodação quase ‘irritante’. Muitas vezes, as tempestades de ideias, nos fóruns de discussões, provocam algumas rusgas, por causa de pensamentos divergentes, mas é exatamente aí que nos exige maior capacidade de depuração, pesquisa e um olhar para a realidade cotidiana e para o ‘outro’.

Só assim, ocorre o início do empoderamento: começamos a nos sentir como parte importante, entre outros milhares de cidadãos, nesse mosaico, e percebemos que precisamos nos envolver cada vez mais. Queremos nos sentir úteis e, no meu caso, como educomunicadora, compartilhar esses anseios, conhecimentos, dúvidas e informações.

Para entender um pouco da dinâmica que envolve essa fase preparatória do evento, que está sendo considerado o mais importante do sistema da ONU – Organização das Nações Unidas, no ano que vem, há os seguintes princípios, segundo Aron Belinky, do Instituto Vitae Civilis, que integra o Comitê Facilitador da Sociedade Civil para a Rio+20 . Ele resumiu a agenda, no 1º Seminário Estadual Rumo à Rio+20, realizado na Assembleia Legislativa de São Paulo, no último dia 10, sob coordenação do Comitê paulista da Sociedade Civil para a Rio+20 .

O evento oficial, que terá a agenda principal concentrada com chefes de Estado e representantes das nações (expectativa de 202), ocorrerá entre 4 e 6 de junho, e terá uma pré-conferência entre 28 e 30 de maio e outro encontro interno de balanço, de 7 a 10 de junho do ano que vem. O mesmo não deverá produzir a efervescência de documentos, como na ECO 92, mas a expectativa é que se consiga estabelecer avanços em acordos políticos sobre os caminhos das negociações sobre mudanças climáticas, biodiversidade (que continuam nas conferências das partes que ocorrem regularmente), entre outras pautas importantes, e trace diretrizes para o horizonte de duas décadas, quanto à chamada ‘economia verde’ no contexto da erradicação da pobreza e da governança da sustentabilidade.

E a sociedade nessa história? Bem, obviamente não pode ficar assistindo de camarote. A mobilização ocorre de forma paralela. Entre os atores responsáveis por essa mobilização mundial, estão a chamada Geração +20 e outros movimentos da juventude, a Green Economy Coalition, a União Global pela Sustentabilidade e o Comitê Facilitador da Sociedade Civil para a Rio+20. Esse último, criado oficialmente, em julho deste ano, em evento no Rio de Janeiro, com a participação de mais de 150 entidades e movimentos do Brasil e de outros países.

Em especial, o Comitê promoverá o que está sendo intitulada como Cúpula dos Povos da Rio+20 por Justiça Social e Ambiental ou Rio+20 dos Povos, que deverá ocorrer extraoficialmente, entre os dias 26 de maio e 10 de junho de 2012. Mas antes disso, outro evento de grande porte, está programado para o período de 24 a 29 de janeiro. Será o FSM – Fórum Social Mundial temático sobre Meio Ambiente/Rio+20, que ocorrerá em Porto Alegre, RS.

E nós, brasileiros, nessa história? Bem, agora, até o dia 25 de setembro, podemos contribuir com sugestões, em consulta pública, formada por 11 questões, para o documento oficial que o Brasil deverá encaminhar para a Secretaria Geral do evento, em 1º de novembro, como os demais países. O questionário está disponível no hotsite (http://hotsite.mma.gov.br/rio20/consulta-publica-4/) – Leia mais a respeito no Blog Cidadãos do Mundo, no artigo que postei - Rio+20: pratiquem o exercício de reflexão e cidadania.

Além desse canal de contribuição, deverá ser produzido outro documento de apoio ao oficial do Brasil, pela chamada sociedade civil organizada, com cerca de 80 representantes, pelo CDES - Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República. A rodada final de discussões está prevista para o dia 22 de setembro, A primeira foi realizada no dia 30 de agosto. Com relação a audiências públicas, estão previstas até a Rio+20, um total de 18, segundo a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira.

Enfim, há um calendário em constante movimento, que obviamente não damos conta, mas podemos compartilhá-lo, na medida do possível.

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Sucena Shkrada Resk

11/09/2011 14:07
Rio+20: Aldeia da Paz deverá ser referência para alojamento, por Sucena Shkrada Resk

As etapas que integram a preparação da chamada Cúpula dos Povos por Justiça Social e Ambiental ou Rio+20 dos Povos (nome ainda a ser definido) envolvem diferentes ações e atores pelo Brasil, para preparar esse evento, cuja programação está prevista para ser realizada entre 26 de maio e 10 de junho de 2012, na região do Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, que fica a cerca de 40 km do encontro oficial no Rio Centro, na Barra da Tijuca (que acontecerá entre 4 e 6 de junho). Para receber a demanda de participantes dos mais variados lugares do planeta, o espaço batizado como ‘Aldeia da Paz’, localizada no Sítio das Pedras, no bairro Vargem Pequena, na zona Oeste carioca, deverá ser uma referência para acampamento e alojamento (este com 400 vagas).

O site para inscrições (http://www.aldeiadapaz.org) e mais informações sobre a infraestrutra do local está previsto para entrar no ar, no começo de novembro, segundo o consultor e ambientalista Thomas Enlazador, da coordenação da Aldeia da Paz e da Cúpula dos Povos. O custo, entre os dias 1º e 10 – período previsto para ocupação - terá valor popular. Na área, será permitida a entrada de pais, com filhos menores, sob suas responsabilidades. “Também manteremos espaço pedagógico, que será a Aldeinha da Paz”.

“O orçamento do projeto tem valor total estimado em R$ 2 mi, e estamos na fase de busca de apoio financeiro. Deverá ter um design sustentável, com sanitários secos, cozinha agroecológica, tratamento de resíduos, com compostagem e reciclagem com o trabalho de cooperativas locais, mercado de trocas e a implementação de uma moeda social”, disse ontem, ao Blog Cidadãos do Mundo, durante o 1º Seminário Estadual Rumo à Rio+20, realizado na Assembleia Legislativa de São Paulo, sob coordenação do Comitê Paulista da Sociedade Civil para a Rio+20.

Algumas das ações em curso para poder implementar as propostas são articulações que estão sendo feitas com produtores agroecológicos do Rio de Janeiro e da Associação Brasileira de Produtores Orgânicos. “A ideia é que fiquem responsáveis por todas as refeições a serem oferecidas a preços módicos na Aldeia da Paz”.

“Existirão algumas regras de convivência por lá, como não entrar com bebida alcoólica e nem comer carne. A alimentação será vegetariana e recomendaremos que as pessoas evitem fumar cigarros industrializados neste ambiente”, afirmou o consultor. Em maio do ano quem, deverá haver o treinamento de 150 agentes que irão trabalhar na Aldeia das Paz.
Enlazador disse que mais uma das metas é de que os povos indígenas possam compartilhar o mesmo espaço, que terá a proposta de convergências. “Já existe outra área destinada a eles, mas gostaríamos que estivessem conosco”.

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05/12/10 - Especial Fórum Social Pan-Amazônico – A luta só está no começo
25/08/10 - Bastidores Entremundos - Direto na fonte

Sucena Shkrada Resk

11/09/2011 11:57
Rio+20: pratiquem o exercício de reflexão e cidadania, por Sucena Shkrada Resk

Hoje, uma das ferramentas de participação da sociedade civil, no processo de elaboração da Rio+20 - Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, que ocorrerá em junho, no Rio de Janeiro, é responder a um questionário de consulta pública, disponível na página http://hotsite.mma.gov.br/rio20/consulta-publica-4/, do Ministério do Meio Ambiente (MMA), até o próximo dia 25 de setembro.

Eu dediquei esta manhã para essa experiência de reflexão, que encaminhei como minha contribuição cidadã e a compartilho com vocês. Usufram dessa ferramenta e também dediquem um pouco do tempo de vocês a esse exercício. Depois, acompanhemos como será o documento final, que o governo brasileiro irá produzir sobre sua posição, que deverá ser enviado à Secretaria do evento, até o dia 1º de novembro.

QUESTIONÁRIO Rio+20 - Respostas: Sucena Shkrada Resk
1. A Conferência deverá estabelecer a nova agenda internacional para o desenvolvimento sustentável para os próximos anos. Para que o Brasil exerça a liderança desse processo, deverá apresentar propostas para uma agenda de vanguarda, que eleve os níveis de ambição dos atuais debates. Qual seria a contribuição do Brasil nesse contexto?

Cumprir ou manter o processo de cumprimento dos acordos internacionais já em vigor, no tocante a Mudanças Climáticas, Diversidade Biológica, Florestas, Desertificação, Protocolo de Montreal, das Florestas Tropicais, entre tantos outros, atrelados à legislação nacional que os ratifica. Essa consonância é fundamental para dar sentido ao discurso, na forma prática. O protagonismo só se dá com a coerência, não é necessário nada arrojado, mas concreto e objetivo, e acima de tudo, ético e transparente. Mais que status de vanguarda, o Brasil, em minha avaliação, deve se preocupar em correr atrás do desafio das desigualdades em um país de extensão territorial continental, com mais de 16 milhões abaixo da linha da pobreza, outros milhares de pobres – que quer queira, quer não – estão invisíveis à maioria de nós, da sociedade, que só os enxerga como números nas estatísticas. Não sabemos identificar seus anseios, seus rostos, seus nomes... Por outro lado, tem de avaliar que trazer essa camada ao consumo não significa melhoria, se reproduzir o modelo atual. Todas essas questões têm de ser implementadas de forma conjunta. Na minha avaliação, o Brasil não pode se acomodar com um suposto curso de país emergente, que espera estar entre os status de desenvolvido. Afinal, não está se discutindo exatamente o paradigma de desenvolvimento? É muito fácil se falar do tripé ambiental, social e econômico, mas a questão é equilibrar essa balança em que todos os setores de um governo, desde o planejamento até o ambiental e de relações internacionais, falem a mesma linguagem; que os setores da economia sigam o mesmo paradigma, como também do legislativo, do judiciário, do terceiro setor, da Academia etc. Os cidadãos precisam ter noção de sua participação nessa cadeia.

2. Como poderá a Conferência causar impacto no debate interno sobre o desenvolvimento sustentável no Brasil e contribuir para as necessárias transformações do país rumo à sustentabilidade?
Desde que permita, de fato, o envolvimento da sociedade civil (organizada ou não) e inclua a camada significativa do planeta, dos cidadãos excluídos, que estão abaixo da linha da pobreza e na pobreza. O fato de o evento oficial ser no Rio Centro e o civil, na Praia do Flamengo (como ocorreu em 1992), a uma distância estimada de 40 km, simboliza certo afastamento. Essa distância terrestre pode ser superada por mecanismos de compartilhamento promovidos pela organização do evento. Como um trabalhador comum, estudante, desempregado, dona de casa, que tem dificuldade de pagar transporte público e ter acesso a serviços de qualidade, pode fazer esses deslocamentos? A verticalização vem na contramão da democracia, do processo inclusivo. É preciso lembrar que todos os governantes (de uma maneira geral, nos regimes democráticos mundiais) são eleitos pelo povo, são seus representantes. A comunicação que antecede ao evento é mais fundamental ainda, neste sentido, tendo em vista, que sem conhecimento, a população não tem condições de se envolver, de reivindicar, de sugerir e de ser empoderada (isso envolve todos os diferentes tipos de mídias – desde rádios comunitárias, concursos de ideias e jornais murais nas escolas, nas discussões nos condomínios, em associações de amigos de bairro, em audiências públicas e no bom uso das redes sociais e das mídias, em geral). As políticas públicas e setoriais da economia dependem dessa conjunção, e deve estar calcadas nos pilares já conhecidos, que fundem justiça social, com capacitação e geração de empregos justos; proteção da biodiversidade, investimento em energia renovável e limpa, reforço do pilar da educação socioambiental, que tenha a premissa do consumo sustentável, investimento em saúde ambiental, que envolve desde a infraestrutura do saneamento. De nada adianta se avançar no PIB (Produto Interno Bruto) do país, se o mesmo não tem coleta e tratamento de esgoto em 50% e se não investe também em economia solidária, criativa, em modais na área logística que infiram transportes menos poluentes e coletivos, como também, na efetiva implementação do Estatuto das Cidades, que exige planos diretores consistentes, em consonância com o artigo 225 da Constituição Federal a legislações como o Plano Nacional de Resíduos Sólidos, em consulta atualmente.

3. Como poderá a Rio+20 assegurar a renovação do compromisso político com o desenvolvimento sustentável? Como poderá contribuir para o fortalecimento do multilateralismo, ultrapassando as divisões tradicionais (exemplo: Norte-Sul)?
Desde que teça acordos políticos consistentes, que implementem, melhorem ou atualizem acordos, tratados e protocolos que já estão em curso, muito antes e depois da Rio 92, que fazem parte de fóruns, como as conferências das partes das convenções climática (tendo em vista a expiração da primeira etapa do Protocolo de Kyoto, por exemplo), da diversidade biológica (já firmado contra a biopirataria...), da desertificação, das florestas, das implementações de fundos já acordados para a assistência a países vulneráveis, da implementação do REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação e do REDD+, além do investimento maciço em tecnologia de mecanismos de desenvolvimento limpo, de fato. Também é importante que se reveja a Agenda 21, a sua real dificuldade de implementação e, se necessário, a atualize, e prioritariamente a torne acessível em diferentes linguagens – de acordo com a faixa etária, alfabetização (infelizmente, ainda nos deparamos com o analfabetismo, que é um dos gargalos a serem superados com vigor e vontade política). Mais um ponto é trazer à tona a reafirmação do compromisso que está sendo proposto pela 2ª Jornada Internacional de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global. O poder de escolha de um cidadão só acontece a partir do conhecimento e da prática. Nisso, incluo o respeito aos saberes tradicionais, não só da boca para fora, mas numa interrelação frutífera de suas melhores contribuições para a fundamentação do tripé da sustentabilidade. Não basta termos a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, se são ignorados, em muitas circunstâncias, em suas manifestações. Todas essas questões estão calcadas em princípios da própria Carta do Rio e da Carta da Terra.

4. Quais são os principais avanços e lacunas na implementação dos documentos resultantes das Cúpulas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio de Janeiro, 1992 e Joanesburgo, 2002)?

De uma forma resumida, os gargalos são decorrentes de vontade política e do fato de grande parte dos países não revisarem os modelos de desenvolvimento, baseados na sociedade de consumo advinda da Revolução Industrial. A palavra desenvolvimento, com os anos, foi perdendo o seu real sentido pragmático proposto, desde a Conferência de Estocolmo, em 1972. A locomotiva de um país empreendedor não pode atropelar a justiça social e o meio ambiente, por uma questão óbvia: sobrevivência. Enquanto essas ligações não forem feitas pelos governantes, pelo poder legislativo, pelo judiciário, pelas grandes a pequenas empresas, pelo terceiro setor, pelos segmentos de comunicação e por nós, da sociedade, como um todo, nada mudará. Os sinais vêm em doses homeopáticas, quando as opções de financiamentos e subsídios e políticas setoriais e internacionais, por exemplo, priorizam monocultura e pecuária extensivas, modelos construtivos que não são ecoeficientes, extração exacerbada de bens naturais, corrupção, aparelho de fiscalização deficiente para dar conta da implementação das políticas, produção de bens de consumo obsoletos, e defesa de que o consumo e mais consumo de bens é sinônimo de qualidade de vida, entre tantos outros problemas. No campo de avanços, vejo o Protocolo de Montreal. Outro é o Protocolo de Acesso e Repartição de Benefícios dos Recursos Genéticos da Biodiversidade (ABS, em inglês), assim, como a mobilização de recursos financeiros (mas que dependem de implementação).

5. Quais são os temas novos e emergentes que devem ser incluídos na nova agenda internacional do desenvolvimento sustentável? Quais temas contemplam, de forma equilibrada, as dimensões ambiental, social e econômica?

Na minha opinião, se fizermos um paralelo com a ECO 92, os temas “novos” fazem parte do leque das energias renováveis. Os demais já vêm sendo discutidos desde lá e muitos, antes, como economia solidária, criativa, agroecologia, educação ambiental transversal etc.

6. A economia verde deve ser uma ferramenta do desenvolvimento sustentável. Nesse contexto, novos padrões de consumo e produção devem guiar as atividades econômicas, sociais e ambientais. Quais seriam esses novos padrões?
Não se trata de inventar a roda, seja qual nome for dado. Essa discussão, que infere pegada ecológica e trabalho justo, vem desde o documento Os Limites do Crescimento. Os padrões têm como base produzir de forma racional, consumir menos, reaproveitar, melhor distribuir e compartilhar. Se a expectativa de sermos 9 bilhões de pessoas, em meados da metade deste século, se firmar, quantos mais padecerão por falta de água, alimento, por má distribuição, por meios indevidos de cultivo, de políticas, de guerras, por regimes ditatoriais, como pano de fundo? O desenvolvimento sustentável tem a premissa de a gestão de conhecimento e da tecnologia ser democratizada., por meio de ideias, capacitações, equipamentos e ações, gerando empregos justos. Os efeitos climáticos são latentes e visíveis. Queremos perpetuar situações como as que ocorrem nos morros, vales e rincões brasileiros, no Chifre da África, no Haiti, na América Latina, na Ásia, ou melhor nos centros urbanos, onde vivem cerca de 80% da população? Queremos perpetuar o ciclo de troca de aparelhos sonoros, domésticos, veículos, como se fosse algo sem impacto algum? Queremos construir edificações com ar-condicionado e usar milhares de folhas para imprimir nossos documentos e utilizar utensílios descartáveis de todo tipo; queremos ver nossas torneiras sem água, porque desperdiçamos em atos simples, como lavar calçada com mangueira ou deixarmos abertas as torneiras ao simples escovar dos dentes, ou então, no processo de geração de energia, desperdiçarmos cerca de 30%? A economia verde prescinde da reeducação, do entendimento dessas conexões, dos porquês, dos ciclos, sem nenhum processo demagógico. Quando se fala do ganha-ganha, aí está um sentido muito mais profundo do que possamos imaginar. É um aprendizado contínuo a que nós temos de nos submeter como consumidores, cidadãos e como gestores etc.

7. Há consenso político de que as políticas e instrumentos para a implementação da economia verde deverão variar de acordo com o contexto de cada país. Com essa premissa, e considerando o desafio da erradicação da pobreza, como a transição para uma “economia verde” pode ser inclusiva e contemplar princípios de equidade entre gerações, entre países e dentro de um mesmo país?

O princípio é implementar as propostas de forma ética e transparente. A aparente perda econômica, considerada por setores produtivos, para os conceitos desgastados de economias pujantes da locomotiva do crescimento se desconstroem em médio e longo prazo, quando se entende o que é a governança da sustentabilidade. A economia capitalista já mostra os seus sinais de apatia, com a Crise Econômica desencadeada em 2008, os processos são cíclicos na História. Investir em tecnologia limpa, em impostos que não sejam abusivos, em educação socioambiental e para a cidadania, em capacitação, em geração de emprego decente, que não comprometa a saúde física e mental das pessoas é um princípio básico em países pobres, em desenvolvidos e nos desenvolvidos. A troca de conhecimento e ajudas financeiras entre os mais ricos e pobres têm de sair do campo dos discursos. As pessoas morrem aos milhares diariamente e isso não é retórica.

8. Qual o modelo de estrutura institucional que permite integrar melhor as agendas e atividades das instituições responsáveis pelos pilares econômico, social e ambiental do desenvolvimento sustentável, nas esferas internacional e nacional?

Acredito que os modelos participativos, os quais integrem os mais diferentes atores (gestão pública, legislativa, judiciária, financeira, da iniciativa privada, do terceiro setor, da academia e da comunicação, entre outros. Considero essencial não se esquecer das minorias, porque as mesmas, têm de se manifestar.

9. Quais sugestões poderiam ser feitas para que a implementação de projetos de agências internacionais no País seja realizada de forma coordenada, evitando a duplicação de esforços?

Discute-se formar uma agência ou organismo deliberativo no Sistema ONU, que pode ser a junção de muitos braços já existentes, do reforço do PNUMA ou de um novo órgão. Seja como for, acredito que o que está em jogo é a credibilidade, que tem de ser construída. O diálogo para a efetivação de ações parte do princípio, de projetos com horizonte de curto, médio e longo prazos colocados à mesa, no âmbito global e de convergência com os planos nacionais, que podem ser divididos por diferentes formas: continentais, por biomas, por condições socioambientais similares. Em cada país, há muitas realidades que se convergem. É aí que a união de forças pode dar certo para empreender, mitigar e adaptar. Não adianta também o BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BIRD – Banco Mundial, o FMI – Fundo Monetário Internacional, o Fórum Econômico de Davos, o Fórum Social Mundial, o G20, o G77, os BRICs (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), as representações africanas, asiáticas não se dialogarem, serem dissociadas. Desenvolvimento significa unir todas essas instâncias deliberativas ou não pelo bem comum da humanidade e da conservação da vida no planeta. Obviamente não é uma tarefa fácil, mas é possível. É preciso se superar antagonismos seculares de campos ideológicos e da práxis do próprio sistema ONU e dos regimes internos políticos também dos países, dos estados e dos municípios. Do macro ao micro e vice-versa.

10. Como fortalecer a governança ambiental internacional, particularmente o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) em seu papel de apoiar os países na implementação dos compromissos ambientais e de formação de capacidades, promovendo a melhor interação entre os acordos multilaterais ambientais, entre si e com o Programa?

A resposta acima coincide com essa questão.

11. Qual o papel dos atores não-governamentais no sistema multilateral e de que forma as estruturas de governança das Nações Unidas podem viabilizar a participação e o reconhecimento das visões e demandas desses atores, de forma a não só influenciar o processo decisório como, também, de torná-los mais comprometidos com a implementação das decisões?

Todos devem estar à mesma mesa e ao mesmo tempo irem a campo, se defrontarem de perto com os problemas da vida real, ouvirem os demais atores. As políticas de Estado têm de ser vigorosas, independentes de eleições, e implementadas e corrigidas, se necessário, no curto, médio e longo prazo, visando as benfeitorias com “longa vida útil”, que atendam às atuais e futuras gerações (Sucena Shkrada Resk).

Sucena Shkrada Resk

21/08/2011 14:46
Cidades sustentáveis: a base nos planos diretores, por Sucena Shkrada Resk

No meio da plateia, uma senhora se levantou e bradou – “O importante são os planos diretores e independem de quatro anos de gestão. Sentada ao meu lado, a senhora Akiko falou - “Toda sociedade deveria estar a par de tudo”. Esse é o pano de fundo que considero oportuno registrar como pertinente no lançamento do Programa Cidades Sustentáveis , pela Rede Nossa São Paulo, pelo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social e a Rede Social Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis, no último dia 19, em São Paulo, com apoio da Fundação Avina.

O que mais me chama a atenção nos discursos oficiais e extraoficiais é a importância que se dá cada vez mais para a gestão participativa, em nossos municípios. A Plataforma, com 100 diretrizes estratégicas e diversos cases ilustram projetos bem-sucedidos por cidades mundiais e pontuam que ideias consolidadas de forma coletiva podem substancialmente resultar em práticas de longo prazo.

Mas as coisas só vão literalmente para frente se há, de fato, o envolvimento conjunto da sociedade organizada ou não, da gestão pública e do empresariado. Não dá para nos pautarmos em “audiências públicas para inglês ver” e achar que o rito protocolar é suficiente ou, então, que só basta participar de manifestações de massa. O processo precisa ter, acima de tudo, OBJETIVIDADE e reconhecimento dos pós e contras. Afinal, não há tempo a perder. Esse sentido de urgência já está claro nas entrelinhas há muito tempo.

O conteúdo que consta no Programa, na verdade, já é previsto em leis, mas na prática está longe de execução consistente em nosso país. Alguns eixos centrais exemplificam bem essa questão - Educação para a sustentabilidade, Consumo Responsável e Opções de Estilos de Vida e Economia Local, dinâmica e sustentável...

Tornar público o que é promovido nesse sentido pode servir de impulso multiplicador, adaptado obviamente, aos contextos das realidades locais; afinal, não existe uma “forma de bolo” única. Com isso, é possível verificar o que podemos agregar, por exemplo, com a experiência de Barcelona com a implementação da energia solar; do Banco Palmas, em Fortaleza, ou das ações em mobilidade em Bogotá, entre tantas outras.

E como não poderia deixar de ser, retomo as palavras daquela senhora que citei no início do artigo, quanto ao plano diretor, que é uma determinação constante no Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257/2001). Ela foi direto ao ponto, pois se trata do instrumento básico que rege a condução de nossos municípios, no qual temos de nos aprofundar e colaborar da concepção à execução. Portanto, se é falho ou desrespeitado, faz com que a cidade “adoeça”.

A legislação é muito clara:
‘...O plano diretor, aprovado pela Câmara Municipal, obrigatório para cidades com mais de vinte mil habitantes, é o instrumento básico da política de desenvolvimento e de expansão urbana...’. Sua revisão deve ocorrer de 10 em 10 anos e, segundo a resolução 15, agregou o caráter participativo, que envolve tanto a área urbana, como rural. Dessa forma, está relacionado à Agenda 21.

Caso não assuma esse caráter participativo, o prefeito pode ser julgado por improbidade administrativa, conforme o artigo 52 do Estatuto da Cidade.

Em seu artigo 39, ainda diz – ‘A propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano diretor, assegurando o atendimento das necessidades dos cidadãos quanto à qualidade de vida, à justiça social e ao desenvolvimento das atividades econômicas, respeitadas as diretrizes previstas no art. 2o desta Lei’.

Quanto à participação e divulgação, o documento salienta que na elaboração, fiscalização e implementação, os poderes Legislativo e Executivo devem garantir a promoção das audiências públicas e debates populares e de associações representativas, como também, a publicidade dos documentos e o acesso democrático aos mesmos.

Agora, pergunto – Quantos de nós temos ciência disso?

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20/05/2011 22:27 - Urbanismo: a importância de compartilhar a experiência de modelos
Sucena Shkrada Resk

19/08/2011 23:52
Trabalho decente exige consumo racional, por Sucena Shkrada Resk

A quantidade de empresas que usam mão de obra escrava é alarmante, como temos observado em notícias mais recentes com relação a redes de comércio de roupas e acessórios e seus fornecedores. Algumas continuam com a prática, mesmo com um histórico de denúncias anteriores. Essa situação nos faz querer entrar em aula de corte e costura, como nossas mães e avós tinham, pois ficamos praticamente sem saída. Olhamos para o guarda-roupa e volta e meia lá está uma marca que foi flagrada. Essa cadeia de exploração tem de ser boicotada; pois só a pressão popular é infalível. Afinal, trabalho decente é para todo mundo.

Esses cursos de trabalhos manuais são úteis, mas deveriam ser inspirados em outros contextos e, não, em decorrência dessa rede de exploração do trabalho, mas como um valor agregado em nossa vida cotidiana, para termos mais autonomia, condições de customizar e de gerar renda decentemente.

A economia solidária é um caminho coerente nessa situação. Numa outra vertente, vejo que a redução de consumo e a reforma de roupas também têm de ser vistas como algo racional e "sustentável". Não dá mais para ficarmos inebriados com os comerciais, com os apelos das propagandas. Há pessoas que se endividam comprando roupas...

Abaixo às frescuras...Com o passar do tempo, descobri que é uma grande bobagem também achar que vestir uma roupa diferente a cada dia é uma vitrine a ser preservada. O importante é que esteja "limpa", não é verdade? E nada mais sustentável do que utilizar um acessório cá, outro acolá e fazer essa reutilização com criatividade. Já pensaram o quanto podemos economizar em todo sentido?

Quanto à qualidade, nem se fala. É preciso haver mais critério ao se consumir. Muitas vezes esses produtos made in China e em outros países são feitos com materiais sem qualquer garantia. E não são só encontrados nas ruas, mas em lojas, nas prateleiras. Ficamos reféns de "preços" convidativos, que podem, no final, nos custar caro.

Em resumo, percebemos que podemos ser responsáveis por grandes transformações, com pequenos atos.
Sucena Shkrada Resk

12/08/2011 09:03
Todo dia é tempo de recomeço, por Sucena Shkrada Resk

A crise da fome e política na região do "Chifre da África" me leva a pensar que há muito a fazer e muito a mudar, não só lá, mas em nosso interior. É tempo de recomeço diário da construção de nossos valores de vida... Nada mais justo do que querermos qualidade de vida e conforto - mas os excessos comprometem o todo. A preocupação com "o cosmético"e com a estética, quando toma as rédeas de nossos caminhos, faz com que sejamos opacos na relação com o mundo...

Independente de credo e religião e fatores culturais, algo é imutável:
Só conseguimos avançar, quando reconhecemos o direito universal à dignidade e ao mesmo tempo nossos deveres nessa cadeia. A partir daí, é possível prosseguir em ações mais concretas. Tarefa fácil? Não, porque somos imperfeitos, mas temos algo a nosso favor: a consciência que nos chama sempre a refletir...

Em nosso padrão moderno de desenvolvimento, ser solidário só se torna atrativo para um grande contingente, quando os holofotes estão focados em sua direção. Aos milhares de anônimos, que resgatam o conceito da palavra, o grande prêmio é ver um sorriso, uma criança superar o estágio de desnutrição, um ser humano conseguir se sustentar com sua força e garra...Nesse caminho, há também perdas, que entristecem, mas ao mesmo tempo esperança, nessa luta conjunta...

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Sucena Shkrada Resk

07/08/2011 12:31
O que se fala sobre vulnerabilidade climática (parte 1), por Sucena Shkrada Resk

Quando se trata de vulnerabilidade climática associada à desestabilização socioeconômica e política, parece que um grande paredão se forma, e a sensação de impotência aparece, pois há outras questões fundamentais associadas: fome, falta de saúde e morte. Mais conhecimento a respeito dessa dinâmica é necessário para poder traçar discussões sobre ações de curto, médio e longo prazo, rumo à Conferência das Nações Unidas em Desenvolvimento Sustentável (Rio+20). Isso ocorre, tendo em vista, que o diálogo no âmbito das conferências das partes das convenções climáticas pouco avançaram até agora, o que gera um estado de apreensão global. O Protocolo de Kyoto, o pós Kyoto e o fundo para adaptação ficaram circunscritos aos papeis.

Em outubro do ano passado, foi divulgado o Índice de Vulnerabilidade a Mudanças Climáticas (IVMC), pela empresa britânica de consultoria de riscos Maplecroft, a partir de uma avaliação da situação em 170 países. As análises tiveram como base 42 fatores sociais, econômicos e ambientais; entre eles, a capacidade de resposta dos governos, no intuito de avaliar o risco para a população, os ecossistemas e os negócios em função das mudanças climáticas.

Um total de 16 foi colocado na categoria de ‘risco extremo’:
1- Bangladesh
2- Índia
3- Madagascar
4- Nepal
5- Moçambique
6- Filipinas
7- Haiti
8- Afeganistão
9- Zimbábue
10- Mianmar
11- Etiópia
12- Camboja
13- Vietnã
14 - Tailândia
15- Maláui
16- Paquistão

Observamos que não figura, entre os primeiros, a Somália, que enfrenta a pior seca em 60 anos, onde morrem milhares de pessoas nos últimos meses, mas a África é uma região de grande vulnerabilidade, com 12 países entre os 25 em maior risco. Já o Brasil é considerado de "médio risco" com relação à capacidade de adaptação.

O Relatório Tendências Globais 2010, divulgado neste ano, pela Agência das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), aponta que há mais de 2 milhões de pessoas afetadas por desastres naturais, que são atendidas pela organização, de um total de 43,7 milhões de cidadãos. Esses números aumentam dia a dia e exige um olhar mais profundo sobre essa questão.

Hoje, alguns estudos podem servir de parâmetro, associados à realidade incontestável de extrema pobreza que assola principalmente países na África Subsaariana e do sul da Ásia, como também na América do Sul e Central.

Seguem algumas pesquisas nacionais e internacionais, de diferentes fontes, para reunir material afim de iniciar um debate mais fundamentado a respeito:

ÂMBITO NACIONAL:
- Vulnerabilidade das Megacidades Brasileiras às Mudanças Climáticas: Região Metropolitana de São Paulo/Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e outros - 2010 - (http://www.inpe.br/noticias/arquivos/pdf/megacidades.pdf);

- " do Rio de Janeiro " 2011 - (http://www.riocomovamos.org.br/arq/vulnerabilidade2011.pdf);

- Mapa da Vulnerabilidade da População do Estado do Rio de Janeiro aos Impactos das Mudanças Climáticas nas Áreas Social, Saúde e Ambiente/Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para o Governo do Estado - (http://issuu.com/rebal/docs/mapa_de_vulnerabilidades_rj_-_relatorio_4_final_-_);

ÂMBITO MUNDIAL

- Choques Climáticos: risco e vulnerabilidade num mundo desigual, do Relatório de Desenvolvimento Humano/ Organização das Nações Unidas (ONU) 2007-2008. Disponível em: http://hdr.undp.org/en/media/HDR_20072008_PT_chapter2.pdf ;

-Concurso Internacional de Micro-documentários, de 2008 - Vulnerabilidade exposta: Dimensões sociais das mudanças climáticas/Banco Mundial (BIRD). Disponível em: http://migre.me/5rulL;

- Mudança Climática: rumo a um novo acordo mundial - Relatório Científico III Conferência sobre Mudanças Globais: América do Sul/Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP) - 2008. Disponível em: http://www.iea.usp.br/iea/textos/relatorio3confregmudancasglobaisal.pdf ;

- Alterações Climáticas: perspectivas africanas para uma acordo pós 2012/ONU-Comissão da União Africana - 2008. Disponível em: http://www.uneca.org/cfm/2008/docs/Portuguese/ClimateChange.pdf .

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Sucena Shkrada Resk

06/08/2011 14:07
Seca na Somália: precisamos sair de nossas caixas blindadas, por Sucena Shkrada Resk

Em uma palestra do patologista Paulo Saldiva, que cobri em evento em São Paulo, nesta semana, fiquei muito emocionada, no decorrer de sua exposição, quando mostrou a foto atual de uma criança somaliana tão fragilizada pela fome, que simboliza milhares de pessoas naquele país, que precisa de muita ajuda. Mais de 29 mil crianças, menores de 5 anos, morreram nos últimos 3 meses.

Nas últimas semanas, essa situação me sensibiliza. É aí que está a maior prova de que para sermos sustentáveis, no mínimo, precisamos reconhecer a fragilidade do outro e suas necessidades, e como podemos atuar, nem que seja com atos ínfimos ao olhar alheio...

É preciso começar de alguma forma: seja com divulgação, donativo, voluntariado ou emanando pensamentos de solidariedade. O que não é mais possível é ignorarmos e ficarmos em nossas caixas seguras e blindadas. Vale lembrar também, que moradores do Vale do Ribeira precisam de auxílio.

Atuam hoje, na Somália, em ações humanitárias: Action Aid, Cruz Vermelha Internacional, ANHCR, Programa Mundial de Alimentos, Care, Médicos sem Fronteiras, Save the Children e Unicef, entre outros.

Políticas públicas éticas e eficientes são pilares nessas transformações, tanto no âmbito nacional, como nas relações internacionais. Não temos que esperar datas de eventos "mundiais" importantes para nos mobilizarmos.

Enquanto muitos estão preocupados com a roupa e o calçado de grife, em comer em um restaurante da moda, em comprar o modelo mais recente de carro, em divagar sobre questões pueris e passionais, pessoas morrem aos milhares, porque não têm sequer um grão de alimento, água, roupa e morada. Aqueles olhares perdidos buscam outros olhares que os enxerguem.

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22/7/2011 - Alerta sobre o flagelo africano, por Sucena Shkrada Resk
Sucena Shkrada Resk

31/07/2011 15:38
Um diálogo com a Ecosofia, por Sucena Shkrada Resk

Ecosofia ou sabedoria da casa comum. Esse termo em construção expresso pelo sociólogo Michel Maffesoli, professor da Universidade Paris-Descartes e vice-presidente do Institut Universitaire de France (IUF), nos revela um olhar que se contrapõe à negação e ao catastrofismo. Ao assistir a transmissão pela Web, de palestra ministrada por ele, no primeiro semestre deste ano, no Brasil, fiquei com a curiosidade aguçada para compreender melhor o que está por trás dessa nova definição do “oikos”.

De acordo com o Centro de Pesquisas Atopos, da Universidade de São Paulo (USP), esse campo de conhecimento integra as ciências humanas, as naturais e as econômicas e tem por objetivo a busca de um novo pensamento, que supere a filosofia opositiva e desenvolva discussão transdisciplinar em uma dimensão ecossistêmica. Isso representa a criação de um dinamismo ecossociológico, no qual a técnica deixa de ser considerada uma forma de agressão à natureza, para se tornar o elemento de equilíbrio dessa ecologia integrada. Em outras palavras, tudo que, de certa forma, o movimento ambientalista almeja calcado na palavra sustentabilidade.

Em entrevista ao repórter Andrei Netto, do Estadão, em abril deste ano, Maffesoli faz uma analogia interessante, ao dizer que o que está em curso é um retorno ao ventre, à Terra-mãe, a que denomina de “invaginação do sentido”. Por sua vez, a Ecosofia traz esse novo paradigma, segundo ele. De certa forma, podemos relativizar sua afirmação ao conceito de Pachamama, dos povos tradicionais. Entretanto, essas populações ainda estão no embate com o “chamado” avanço tecnológico.

Em sua obra Saturação, de 2010, pela Iluminuras, é possível observar que o sociólogo faz uma leitura metafórica sobre a Ecosofia, a relacionando à sensibilidade ecológica, que tem como fundamento a aceitação das voltas e dos desvios. Ele os compara aos labirintos e aos corredores mal iluminados de todos os cômodos sombrios e desordenados da casa (oikos) individual e comunitária.

Segundo o pensador, o âmago dessa nova corrente é justamente a lógica da conjunção, que se baseia nas práticas da vida corrente, em que o corpo e o espírito fiquem intimamente mesclados. Em um dos trechos o livro, diz – “...Práticas vividas mais do que pensadas. E, em todo caso, pouco reconhecidas pelas instituições sociais. Mesmo a ecologia política, que permanece no jogo obsoleto dos partidos políticos, é estranha à ecosofia, exatamente no que ela fica obnubilada (obscurecida) pelas fendas e dicotomias que fizeram a alegrias das teorias modernas...”.

Mais adiante, ele afirma que o que está em jogo na sensibilidade ecológica e na procura da autenticidade....é reconhecer o que pode haver de tranquilizante na aceitação da finitude – “Atitude homeopática que não ultrapassa essas características da natureza humana que são a morte, a dor, a violência, mas as integra e, assim, ameniza-as...”.

Nessa corrente de pensamento, a tecnologia deixa de ser meramente instrumental e perde seu caráter ameaçador e ingressa na proposta de uma relação de troca de benefícios com o ser humano e o meio ambiente. O progresso a qualquer custo é revisto e a sociedade sai da visão substancialmente antropocêntrica.

Ao avaliar a ânsia que tange os caminhos da Ecosofia, observo que representa o que move muitas pessoas neste planeta, devido ao avanço das mudanças climáticas, do aquecimento global, do aumento dos refugiados climáticos ...É o que se discute nas conferências das partes das convenções climáticas, da biodiversidade, da desertificação...É o que se almeja, de certa forma, com a Rio+20 e em tantas outras instâncias. A questão é como implementar este novo paradigma de forma mais profunda, a tempo de que as mudanças possam ocorrer neste século...Ainda engatinhamos no processo de empoderamento dessa “conjunção” a que Maffesoli se refere. Não encontramos a “métrica” da sustentabilidade.

Sucena Shkrada Resk

30/07/2011 09:24
Estamira partiu e deixou seu legado, por Sucena Shkrada Resk

Estamira ou melhor Estamira Gomes de Sousa partiu na última quinta-feira, 28. A sua pousada de trabalho não é mais o Aterro Controlado de Gramacho, em Duque Caxias, RJ, mas o “universo”, se assim podemos dizer. Aos 72 anos, essa senhora, que com suas palavras diretas e precisas nos atinge em cheio, nos deixou um legado, por meio do documentário Estamira, de Marcos Prado, do qual foi protagonista, em produção de 2005.

Quando queremos falar sobre consumo consciente, nada melhor, do que ouvi-la e ver o que nossos olhos também, muitas vezes, não querem enxergar. É indispensável em sala de aula. Basta mostrar um trecho, para provocar a sensibilização necessária aos estudantes!

O mínimo a desejar, agora, é que essa senhora esteja em paz nessa nova jornada. Mas o que não podemos deixar em “brancas nuvens” é o fato de que, após mais de duas décadas vivendo a rotina árdua de catadora, no que foi considerado o maior lixão do Brasil, ela tenha falecido, após esperar “provavelmente” dois dias por atendimento médico nos corredores do Hospital Miguel Couto. Ela precisava ser tratada por causa de uma infecção no braço. Essa notícia causa indignação e revela, mais uma vez, como o atendimento à saúde pública, em diversas situações, em vez de nos salvar, nos definha.

De acordo com notícia divulgada no Portal Terra, Prado fez um desabafo em seu Facebook sobre a “...falência e deficiência de nossas instituições públicas...”, ao citar essa situação, que também foi relatada pelo filho dela, Ernani, em outras publicações. A Secretaria Municipal de Saúde negou as acusações e informou à imprensa que em momento algum a paciente foi acomodada em um dos corredores do hospital, segundo reportagem do G1, do dia 28. O certo, entretanto, é que ela morreu em decorrência de infecção generalizada.

Mas com certeza, as suas mensagens serão eternas. Em 14 de junho de 2009, escrevi um post sobre Estamira no Blog, pois ela ocasionou uma avalanche em meus valores de mundo, sem exagerar em acentos ou vírgulas, que intitulei de “Quantas Estamiras há no Brasil?” e volto a fazer a mesma pergunta. São Estamiras (e a versão masculina delas) que precisam ser respeitadas (os), bem cuidadas (os) e não serem vítimas do nosso descaso...
Sucena Shkrada Resk

28/07/2011 16:48
Atenção às nossas águas, por Sucena Shkrada Resk

A Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil 2011 (http://conjuntura.ana.gov.br/conjuntura/) foi divulgada, neste mês, pela Agência Nacional das Águas (ANA), e traz como ‘recado’ o alerta sobre a situação atual da qualidade e quantidade das águas no país. O levantamento foi realizado em 2.312 locais (açudes, reservatórios ou lagoas, rios, córregos e ribeirões), distribuídos em 17 estados. Com relação à qualidade da água bruta, os resultados foram os seguintes: 4% (ótima), 71% (boa), 7% (ruim) e 2% (péssima).

Uma das principais conclusões do estudo aponta também para “altos’ percentuais de desconformidades (baseados em dados apurados no ano passado e em 2009). São respectivamente de 51% com relação a coliformes e 42% quanto à presença excessiva de fósforo.

A pior situação é encontrada em regiões hidrográficas do Atlântico Nordeste Oriental, Atlântico Leste e Parnaíba e em corpos d´água, que recebem efluentes domésticos nas regiões metropolitanas de Belo Horizonte, Curitiba, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Vitória. Outra localidade afetada é a Bacia do Rio Tocantins. O que ocorre é o aumento da Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) acima de 5 mg/l.

De onde provém a maioria dos problemas? Dos esgotos domésticos e das cargas difusas, ou seja, de nosso padrão de consumo e da deficiência de redes coletoras e de tratamento nos municípios. A cobertura, atualmente, gira entorno de 50,6% e 34,6%, de acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SINS) 2008.

Um dos comprometimentos é a eutrofização, por causa do excesso de fósforo e nitrogênio. Dessa forma, ocorre a proliferação de matéria orgânica e diminuição de oxigênio nas águas e há o aumento de microalgas e cianobactérias, que podem produzir toxinas letais, além de mudanças da biodiversidade e mortandade de peixes. O problema atinge mais as represas e lagos.

No aspecto quantitativo, a situação crítica é encontrada no Nordeste, por causa da demanda, e no sul do Brasil, devido ao uso para irrigação nas culturas de arroz.

Políticas relacionadas

É importante destacar, que neste ano, deve ser lançado o Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab) http://www.cidades.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=302%3Aplansab&catid=84&Itemid=113, que apresenta como desafio dar conta desse gargalo de infraestrutura no Brasil. O processo teve início em 2008 e tem o objetivo de integrar abastecimento de água potável, esgotamento sanitário, limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos, como também, drenagem e manejo das águas pluviais urbanas. No caso da PNRS, a próxima atualização está programada para 2014.

Isso quer dizer que, pelo menos, três Políticas Nacionais têm de estar casadas: a de Saneamento, de Recursos Hídricos e a mais recente, que é a de Resíduos Sólidos, cuja primeira versão do Plano está prevista para ser apresentada à sociedade, agora, no mês de agosto.

Capacidade e consumo
Quando se observa os recursos hídricos no quesito de capacidade total instalada para a produção de energia elétrica, os números são mais favoráveis x esgotamento sanitário. As hidroelétricas representam 72% dos 113.327 MW. Mas ao se avaliar regionalmente, é detectado que o maior estresse hídrico está nas regiões do Semiárido, da Bacia do Tietê e das Bacias do Uruguai e do Atlântico Sul.

Disparadamente, o maior uso da água é para a irrigação (47%) e ao abastecimento urbano (26%), seguidos pela indústria (17%), pelo segmento de criação animal (8%) e pela área rural (2%).

Situações de emergência
Em 2010, segundo o levantamento, um total de 563 municípios decretou situação de emergência ou estado de calamidade pública, devido às cheias, principalmente na região Sudeste e no Rio Grande do Sul. No caso da Amazônia, entretanto, o destaque foi para a estiagem, entre setembro e dezembro daquele ano.

Segundo a ANA, desde 2009, é aplicada a metodologia de elaboração de planos de recursos hídricos de bacias hidrográficas com a simulação dos efeitos das mudanças climáticas. Os documentos são elaborados no âmbito de 164 comitês de Bacias estaduais e nove interestaduais.

No ano passado, a 2ª Conferência Internacional sobre Clima, Sustentabilidade e Desenvolvimento Sustentável em Regiões Semiáridas, realizada no Brasil, resultou na Declaração de Fortaleza, que será apresentada na Rio+20, no ano que vem. A constatação de mais de 80 países presentes no evento é que há a necessidade de melhoria do monitoramento ambiental em regiões áridas e semiáridas, com relação ao planejamento e enfrentamento dos eventos da seca. Dentre os objetivos consensuais, estão:
- Fortalecimento de mecanismos para a mitigação dos efeitos das secas, de incêndios e de enchentes;
- Conservação do solo, da água, da biodiversidade e adaptação às mudanças climáticas.

O que é possível tirar de aprendizado sobre essa carga de informações é que nós, brasileiros, temos a obrigação de contribuir para os avanços, tendo em vista, que os problemas começam com nossas atitudes aliadas a ações de infraestrutura por parte dos governos.

Perspectivas futuras
De acordo com Miriam Belchior, ministra do Planejamento, 4.855 municípios com menos de 50 mil habitantes receberão R$ 5 bilhões para investimentos na área de saneamento básico. O anúncio foi feito em maio deste ano. As obras do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) no setor, entretanto, ainda estão bem aquém do proposto.

Em matéria veiculada pelo site UOL, em 9 de junho deste ano, o diretor da Consultoria em Direito Público, Gladimir Chiele, informou que apenas 4% das obras de saneamento do PAC foram concluídas. Em quatro anos, R$ 2,8 bilhões foram investidos em 101 obras, mas cerca de 40% delas não foram iniciadas ou não chegaram à sua metade, conforme dados apurados pelo Instituto Trata Brasil.

Para alcançar as metas dos Objetivos do Milênio, da Organização das Nações Unidas (ONU) até 2015, o Brasil terá de acelerar suas ações. Apesar de já ter atingido em 2008, quanto ao suprimento de água potável (91,6%), o esgotamento sanitário é o retrato da desigualdade espacial e social, como observa o IPEA, em estudo divulgado no final de junho.

Na escala regional, os maiores déficits ocorrem no Norte, Centro-Oeste e Nordeste e nas áreas rurais. As condições são insuficientes, embora, o percentual de cobertura por rede geral de esgotos ou fossa séptica tenha subido de 10,3%, em 1992, para 23,1%, em 2008.

Sucena Shkrada Resk

27/07/2011 11:01
Código Florestal: só para lembrar, a discussão está no Senado..., por Sucena Shkrada Resk

A discussão sobre o projeto do novo Código Florestal brasileiro, durante meses, desde o ano passado, chegou a sofrer um desgaste, na Câmara dos Deputados, até ser aprovado em 24 de maio deste ano (PL 1876/99 + emenda 164), com objeções de movimentos ambientalistas, de cientistas e do Ministério do Meio Ambiente, e com adesão do setor do agronegócio e dos ministérios da área. As principais modificações podem ser consultadas no site http://www2.camara.gov.br/agencia/noticias/MEIO-AMBIENTE/197556-INFOGRAFICO:-VEJA-AS-MUDANCAS-NO-CODIGO-FLORESTAL-APROVADAS-NA-CAMARA.html. Mas o texto final está ainda longe de ser consumado. A matéria passou das “mãos” dos deputados para as dos senadores e ganhou novo número 30/2011. A tramitação legal está à disposição na página http://www12.senado.gov.br/codigoflorestal. E a pergunta óbvia, nesta fase, não pode ser outra: qual é a situação atual?

Bem, desde o dia 19, o Senado está em recesso parlamentar e a casa retoma as atividades em 1º de agosto. Até agora, já foram ouvidos os cientistas, o Ministério do Meio Ambiente, que propõem alterações no atual texto do PL, além do setor do agronegócios, que é a favor da atual redação, e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). O mesmo emitiu um relatório, no último dia 6 de junho, no qual aponta os possíveis reflexos, caso seja mantida a anistia ao desmatamento da reserva legal (RL) em propriedades de até quatro módulos fiscais, prevista no PL.

No cenário mais otimista, significaria a perda de cerca de 29 milhões de hectares de mata nativa, pois deixariam de ser recuperados. Em outro cenário, que considera o “risco moral” da isenção, 47 milhões de hectares poderiam ser perdidos. Segundo o documento, isso se configuraria na hipótese de que a anistia poderia incentivar outros proprietários rurais a derrubar a reserva legal remanescente.

Alguns senadores já propuseram emendas. O principal teor são incentivos para que agricultores familiares consigam recuperar e manter as áreas protegidas em vez de dispensa de áreas de reserva legal em pequenas propriedades.

A Confederação Nacional dos Bispos (CNBB) emitiu uma nota, em 16 de junho, em que também se posiciona contra a atual redação do PL (http://www.cnbb.org.br/site/imprensa/noticias/6878-cnbb-nao-temos-o-direito-de-subordinar-a-agenda-ambiental-a-agenda-economica) . A coalizão SOS Florestas mantém uma série de mobilizações (http://www.sosflorestas.com.br/). Já a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) colocou no ar, um hotsite a favor do PL (http://www.canaldoprodutor.com.br/index.html?d=1311774466).

Quanto à votação, cogita-se que possa ocorrer entre setembro e o final do ano. A pauta já passou pelas Comissões de Agricultura, de Meio Ambiente e de Ciência e Tecnologia. Para facilitar o entendimento do tema, foi criado um “glossário” sobre a pauta, que pode ser acessado em http://www12.senado.gov.br/codigoflorestal/news/entenda-os-principais-termos-utilizados-na-discussao-do-novo-codigo-florestal.

Para refrescar nossa memória, segue o que foi aprovado na Câmara (Fonte: Agência Câmara):

Com relação à Área de Preservação Permanente (APP):

Obs: são constituídas por florestas e demais formas de vegetação natural situadas ao longo de rios, cursos d’água, lagoas, lagos, reservatórios naturais ou artificiais, nascentes e restingas, entre outras. Essas áreas têm a função ambiental de preservar recursos hídricos, paisagens, estabilidade geológica, biodiversidade e fluxo gênico (transferência de genes de uma população para outra) de fauna e flora, além de proteger o solo e assegurar o bem estar das populações humanas que vivem no local. As APPs ocupam mais de 20% do território brasileiro e foram estabelecidas pelo atual Código Florestal (Lei 4.771/65).

- Mantém as mesmas medidas previstas na lei vigente nº 4.771/65;
- Admite culturas lenhosas perenes, atividades florestais e de pastoreio nas APPs de topo de morro, encostas e de altitudes elevadas (acima de 1,8 mil metros);
- Para cursos d`água de até 10 metros de largura, permite a recomposição de 15m (metade do que exige a lei atual)
- Para as APPs de margem de rio, prevê a medição a partir do nível regular da água.

O que foi introduzido com a Emenda 164:
- Permite a manutenção de atividades agrossilvipastoris, de ecoturismo e de turismo rural nas APPs se estiverem em áreas consolidadas até 22 de julho de 2008;
- Outras atividades em APPs poderão ser permitidas pelos estados por meio de Programa de Regularização Ambiental, se não estiverem em áreas de risco;
- Atividades em APPs consideradas de utilidade pública, interesse social ou de baixo impacto ambiental serão definidas por lei;

Quanto à reserva legal:
Hoje: Área localizada no interior de propriedade ou posse rural, excetuada a de preservação permanente, necessária ao uso sustentável dos recursos naturais, onde não é permitido o desmatamento (corte raso), mas é permitido o uso com manejo sustentável, que garanta a perenidade dos recursos ambientais e dos processos ecológicos. É destinada também à conservação e reabilitação dos processos ecológicos, da biodiversidade e ao abrigo e proteção da fauna e da flora nativas. O tamanho da reserva varia de acordo com a região e o bioma: 80% em áreas de florestas da Amazônia Legal; 35% no Cerrado; 20% em campos gerais; e 20% em todos os biomas das demais regiões do país.

O que permaneceu com o projeto, na Amazônia Legal:
- 80% em caso de floresta;
- 35% em caso de cerrado;
- 20% em caso de campos gerais.

Demais regiões do país:
- 20%

- Admite-se a soma de APPs no cálculo de reserva legal, desde que a área esteja conservada e isso não implique em mais desmatamento;
- Imóveis de até quatro módulos fiscais poderão considerar como reserva legal a área remanescente de vegetação nativa existente em 22 de julho de 2008;
- Admite exploração de reserva legal, mediante aprovação do órgão competente do Sistema Nacional de Meio Ambiente (Sisnama).
Competência para emitir licença para supressão de vegetação nativa:
- Fica com órgão estadual integrante do Sisnama.
- O órgão municipal dará licenças, no caso de florestas públicas ou unidades de conservação criadas pelo município e por delegação.

Registro de Reserva Legal:
- Acaba com a exigência de averbação em cartório;
- A Reserva deverá ser registrada no Cadastro Ambiental Rural criado pelo Projeto para todos os imóveis rurais.

Áreas consolidadas:
- Dispensa propriedades de até quatro módulos fiscais da necessidade de recompor as áreas de Reserva Legal utilizadas;
- Quem desmatou antes do aumento dos percentuais de Reserva Legal (a partir de 2000) deverá manter a área exigida pela legislação da época;

Punição:
- isenta os proprietários rurais de multas e demais sanções previstas na lei em vigor por utilização irregular, até 22 de julho de 2008, de áreas protegidas;

Obs: definição de módulo fiscal - Unidade de medida agrária usada no Brasil, instituída pelo Estatuto da Terra (Lei 6.746/79). Na região Norte, um módulo fiscal varia de 50 a 100 hectares; no Nordeste, de 15 a 90 hectares; no Centro-Oeste, de 5 a 110 ha; na região Sul, de 5 a 40 ha; e no Sudeste, de 5 a 70 ha.
Sucena Shkrada Resk

22/07/2011 13:40
Alerta sobre o flagelo africano, por Sucena Shkrada Resk

A pior seca nos últimos 60 anos e conflitos étnicos ou decorrentes de regimes opressores, que se desdobram por décadas. Esse é o quadro que aflige uma boa parte da população de diversos países do continente africano, que sofre com a falta de água, de alimentação, de infraestrutura e de gestão política eficiente para administrar essa catástrofe humanitária. Os números não são precisos, mas estima-se que sejam mais de 4 milhões de homens, mulheres e crianças.

Apesar de eu ser uma pessoa otimista, há momentos que realmente me deprimo, quando vejo notícias da situação tão grave que atinge a Somália, a Etiópia, o Sudão (agora, dividido em dois, com a criação de Sudão do Sul, o 193º país no mundo)...Imagino como aquelas pessoas em um flagelo tão grande, precisam de ajuda, sem tê-la. E por muitas vezes, sucumbem pelo caminho que percorrem, na tentativa de sobreviver.

Por causas políticas, climáticas...essas catástrofes se ampliam e demonstram que a vulnerabilidade não pode ser negligenciada ou constar somente em relatórios...Nossos atos, sejam aqui ou lá, influenciam de alguma forma todo esse processo...As Conferências do Clima (sendo a COP17, no fim deste ano), a Rio+20, no ano que vem, os Fóruns Sociais, ou melhor, nós todos precisamos nos mobilizar para reverter e minimizar os impactos sem precedentes, que dia a dia, formam cicatrizes profundas nesses povos.

Como? Ao utilizar as redes sociais, participar de campanhas sérias, como também, incentivando a solidariedade e replicando essas vozes oprimidas, que clamam por ajuda. É preciso utilizar a tecnologia para promover a adaptação e mitigação. Isso é o que me vem à mente, no momento, além da mudança de nosso consumo, obviamente. Porque se consumimos e desperdiçamos mais, emitimos mais CO2 e também promovemos o aumento do desequilíbrio em nosso planeta. Não custa lembrar que chegamos a desperdiçar anualmente 1,3 bilhão de toneladas de alimento, segundo a Agência da ONU para Agricultura e Alimentação.

Nesses países africanos, reconheçam como deve ser duro para uma mãe ou pai, com suas forças esgotadas, ainda terem de deixar alguns filhos para trás, para tentar salvar os outros. É algo que avassala o corpo, o espírito e exige resignação. Os idosos, então, padecem mais rapidante. E é isso que ocorre diariamente, segundo relatos de representantes de organizações humanitárias, como Médico Sem Fronteiras, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e o Acnur - Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados, entre outros.

Nessa logística do êxodo, em extensões quilométricas, muitos morrem ou quando chegam a um campo de refugiados, como o de Dadaab, no Quênia, se deparam com a superlotação e têm de prosseguir a um caminho incerto, se ainda tiverem forças para isso. Lá estão mais de 440 mil somalis em um local, com pouco mais de 50 km2, que poderia abrigar cerca de 80 mil.

Em notícia recente divulgada pela Acnur, se prevê a criação de mais um campo de refugiados pelo governo queniano, o que nutre um pouco mais de esperança. Essas ações, entretanto, ainda são insuficientes, além das toneladas de alimentos e água que seguem para lá, pelas mais diversas fontes.

A questão é a seguinte: mais e mais refugiados chegam. Desde o início deste ano, segundo a ONU, um número superior a 60 mil somalis caminharam até o Quênia e esse fluxo migratório se torna cada vez mais constante.

Sucena Shkrada Resk

20/07/2011 10:48
A natureza da amizade, por Sucena Shkrada Resk

"Amigo certo conhece-se na hora incerta". Essa expressão de origem latina-"Amicus certus in re incerta cernitur" -, segundo li recentemente no artigo de José Pereira da Silva, no site do Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos, com certeza, é um provérbio de grande valia, quando nos deparamos com a realidade do dia a dia, não é? Trocando em miúdos, quer dizer que é 'para toda hora".

E hoje - 20 de julho - quando se comemora o Dia Internacional do Amigo, acredito que ninguém tenha dúvida de que todos os dias são destinados ao exercício dessa prática do compartilhar, do ouvir, do aconselhar, do abraçar, enfim, do querer bem ao outro. Essa relação é construída pela teia de relações que nos faz crescer como seres humanos.

Mas por uma questão de curiosidade, fui verificar a origem da data, e qual foi a minha surpresa, ao observar que uma das versões mais aceitas é a seguinte:

O dentista argentino, Enrique Febbaro, ao ficar entusiasmado com a corrida espacial, nos anos 60, prestou uma homenagem a toda a humanidade por seus esforços em estabelecer vínculos para além do planeta Terra. Assim, teria surgido o lema: "Meu amigo é meu mestre, meu discípulo e meu companheiro". Daí, quando o homem chegou à lua, em 20 de julho de 1969, ele teria escolhido esse dia para a comemoração, que primeiramente se tornou oficial na Argentina, e uma década depois, começou a se multiplicar pelo mundo.

Mas seja qual for a gênese, o que se pode dizer é que a amizade nos fortalece, enquanto seres sociais, pelos laços da afeição e da ternura. Isso expande nossos horizontes, além da relação humana, e segue à que mantemos com os animais, com a flora, ou seja, com a natureza. No final das contas, corresponde às nossas ações como seres ativos na cadeia socioambiental.

E aí está um bom termômetro para avaliarmos o quanto somos "amigos" em nossas essências e reformularmos nossos pensamentos e ações, se necessário.
Sucena Shkrada Resk

03/07/2011 11:09
Dizer obrigado´(a) é muito mais que convenção social, por Sucena Shkrada Resk

Quantas vezes nós dizemos ‘obrigada’ ou ‘obrigado’ em nossas vidas? Perderam a conta ou dá para totalizar nos dedos?...Geralmente nossos pais nos ensinam as regras de boa educação a partir de nossa infância, mas nem sempre assimilamos o valor dessas expressões ou palavras que fazem, de certa forma, parte das convenções sociais. É aí que está o grande segredo – valorar o sentido impresso do OBRIGADO. Há uma energia intrínseca muito além do que mais uma palavra em nosso vocabulário. Algo que, de certa forma, é cósmico.

- Obrigada por mais um dia!
- Obrigada pelo alimento e força de trabalho que tenho para viver!
- Obrigada por você ou vocês existirem!
- Obrigada pelo teu sorriso!
- Obrigada por me ensinar a corrigir os meus erros!
- Obrigada por acompanhar o meu crescimento!
- Obrigada por me ouvir!
- Obrigada por me alertar!
- Obrigada por me sensibilizar!
- Obrigada por compartilhar seus conhecimentos comigo!
- Obrigada por compartilhar sua amizade e afeto!
- Obrigada por me perdoar!
- Obrigada pelo seu amor!
- Obrigada pelo sofrimento que me faz crescer como ser humano!
- Obrigada pela chuva, pelo sol, pela gota de orvalho, pelo planeta!
- Obrigada pela dor que me sensibiliza, que faz com que eu enxergue o outro que pode obter o melhor de mim!
- Obrigada, obrigada, obrigada...

Tantas vezes, temos dificuldade de entender essa vastidão de interpretações e nos lembramos só de pedir, reclamar e nos consideramos órfãos nesse universo de pensamentos e ações, porque insistimos em seguir numa jornada solo, sem lembrar que existe o coletivo em tudo, mesmo que não o percebamos em sua suposta invisibilidade material..

Sucena Shkrada Resk

03/07/2011 10:15
Pensata: ensinamento de pai, por Sucena Shkrada Resk

‎Quando o meu pai Alberto (já falecido) dizia que devemos buscar a companhia daquelas pessoas que são iguais ou melhores que nós, dizia respeito ao caráter, amorosidade, respeito e garra por vencer, sem atropelar os outros. São pessoas que compartilham conhecimentos, sem se importar que o outro "cresça mais", porque isso faz com que sejam felizes. Hoje, recobrando esse ensinamento, vejo o quanto é profundo...

E não se trata de intelectualidade, mas sim, de conhecimento de vida, sabedoria, aprendizado que enriquece nossa ignorância e nos permite saber dividir com o outro esse "valor agregado" imponderável...

Sou grata a ele por ter plantado essa sementinha em mim que faz com que eu busque esse caminho para ser feliz...

Muitas vezes, erro nessas escolhas, mas tento corrigir e seguir minha jornada...E claro, também tento extrair o meu melhor, para que possa agregar ao meu semelhante. Senão, de nada valeria essa busca, não é?
Sucena Shkrada Resk

30/06/2011 20:23
50 anos de Xingu: memórias de reportagens, por Sucena Shkrada Resk

Aos 50 anos do Xingu, faço uma imersão em minhas memórias e confesso que fico feliz por ter feito três matérias em minha carreira sobre o Parque Indígena, que me deram um gostinho especial por ter batalhado por estas pautas, com uma certa carga de idealismo, não nego. Sou movida por ele até hoje rs.

A 1ª foi uma entrevista ping pong com Orlando Villas Bôas, chamada "Fiel escudeiro dos índios" - http://www.flickr.com/photos/sucenashkradareskportfolioprofissional/4897746644/, para a Rede A, em 1994, em sua casa, na Lapa. Lembro de detalhes até hoje...De sua fala mansa e o sorriso nos "olhos" ao mostrar as fotos em preto e branco de sua trajetória com seus irmãos junto aos povos indígenas.

A 2ª reportagem escrevi para a edição 19, da Revista Leituras da História, da Escala, com o título "História dos índios-Xingu - Um paraíso sob ameaça" - http://leiturasdahistoria.uol.com.br/ESLH/edicoes/19/artigo134622-4.asp. Nesta, recobrei o contato com a família Villas Bôas, o que foi uma recomposição após anos, e entrevistei Washington Novaes.

Já a terceira, para a Revista Fórum - "O retrato da Convergência entre Dois Mundos" - http://www.revistaforum.com.br/conteudo/detalhe_materia.php?codMateria=8900, descrevi o resultado de minha visita à aldeia Aweti, no ano passado. Também relatei os bastidores dessa experiência, aqui, no Blog. Foi algo ímpar e inesquecível, apesar do pouco tempo de permanência.

O que tirei de todas essas vivências? Só posso dizer que foi o aprendizado de que devemos ter o respeito pelas diferentes culturas e trajetórias de vidas dos povos das florestas (incluindo caboclos, ribeirinhos, sertanejos, caiçaras...) e pelas pessoas que lutam "por ideais", neste sentido. Mesmo que ainda sejamos ignorantes e não compreendamos muitas coisas, precisamos entender que o diferente é para ser observado com olhos e ouvidos sem "preconceitos". Ao abrirmos essa janela, trazemos a luz que nos possibilita a integração com a sabedoria popular, com as marcas da ancestralidade. Inclusive nos abre as portas para reconhecermos a nossa própria história, que no meu caso, vem com avós imigrantes da Ucrânia e do Líbano.

Sucena Shkrada Resk

30/06/2011 16:26
Tamanduateí: anônimos dão vida a piano, por Sucena Shkrada Resk

Cenas do cotidiano... quando vou para a região da Paulista, quase sempre embarco em um trem em São Caetano do Sul e sigo para a estação de metrô Tamanduateí. Nessas idas cotidianas, em várias ocasiões, nas últimas semanas, tenho me deparado com pianistas anônimos de todas as idades, no saguão de lá, tocando clássicos ou populares. Uma vez ouvi um recital a quatro mãos.

Mesmo que a pressa nos limite a acompanhar pequenos trechos, já é possível sentirmos uma sensação agradável diante da quebra da impessoalidade, de olhos que não se cruzam, e de paredes cinzas no entorno.

É uma iniciativa interessante, pois o piano fica "à disposição" do cidadão. Uma oportunidade para que muitas pessoas desestressem, mostrem seu talento e compartilhem esses momentos conosco.

Sucena Shkrada Resk

30/06/2011 14:42
Nota: mobilização da sociedade para a Rio+20, por Sucena Shkrada Resk

‎A sociedade civil, por meio de ONGs, se mobiliza para o evento paralelo à Rio+20, em junho de 2012, que deverá ter o nome de Cúpula dos Povos da Rio + 20 por Justiça Social e Ambiental. Representantes de cerca de 150 entidades se encontram no RJ, para a reunião inicial, que ocorrerá no dia 2 de julho, para definir diretrizes de ações. Amanhã haverá coletiva de imprensa a respeito.

Leia também no Blog Cidadãos do Mundo:
06/06/2011- Bastidores do processo da Rio +20
20/02/2011- Rio além do +40: com certeza + 20 é uma redução da história

Sucena Shkrada Resk

22/06/2011 17:01
A lei de ação e reação à atividade antrópica, por Sucena Shkrada Resk

A notícia que mais me chamou a atenção hoje foi sobre o estudo realizado pelos pesquisadores do Programa Internacional sobre o Estado dos Oceanos (IPSO). Os cenários são tão alarmantes, desde a extinção de espécies devido aos plásticos que param no mar - isto mesmo! - até a aceleração do derretimento do Ártico, da Antártida...Acidificação, Aquecimento Global e poluição em ação...

Outra informação tão importante quanto à dos oceanos é a do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), que registra cerca de 43,7 milhões de pessoas deslocadas pelo mundo. O que mais me chocou é que há 15,5 mil crianças solicitantes de refúgio desacompanhadas, a maioria da Somália e do Afeganistão...

Tudo isso é devido às ações antrópicas, que atestam mais uma vez, que é preciso mudar o paradigma de desenvolvimento.
Sucena Shkrada Resk

21/06/2011 11:36
Nunca é tarde para ser solidário, por Sucena Shkrada Resk

O inverno chegou e sinaliza a tendência de as baixas temperaturas serem piores. Nunca é demais lembrar daqueles que sofrem com o frio ao relento. Então, deem uma olhada no guarda-roupa, vejam o que podem doar. Mesmo que não seja a campanhas ou entidades, saiam com a sacola em mãos, que com certeza, encontrarão alguém que ficará muito feliz com a contribuição. Os poucos albergues que existem não dão conta da população em situação de rua.

Outra maneira de ajudar é com alimentos a grupos ou entidades que fazem sopas ou outras refeições quentes para aquecer essas pessoas. Ou então, se voluntariarem a esses trabalhos...Pode parecer paliativo, mas faz diferença.
Sucena Shkrada Resk

17/06/2011 10:34
Pensata - As veredas da educação socioambiental, por Sucena Shkrada Resk

Quando ingressamos nas veredas da educação socioambiental, o prazer mais edificante dessa jornada é poder ver os semblantes ávidos por conhecimento e pela construção de sonhos por um mundo melhor, que resultam em atitudes, mesmo que tímidas, a princípio, e que crescem sem que os alunos se deem conta.

E ao desafiá-los a descobrirem ou resgatarem o que têm de melhor, o que nos vem quase que instantaneamente, é a felicidade de poder compartilhar esses momentos. São realmente únicos...Talvez, só nós tenhamos a dimensão de tudo isso internamente. Algo que nos faz querer aprender e vivenciar cada vez mais cada momento de nossa existência dentro e fora da sala de aula, que resulta nessa troca, que só soma, e nunca subtrai.

Sucena Shkrada Resk

14/06/2011 23:10
A arte que brota da terra do Vale do Jequitinhonha, por Sucena Shkrada Resk

A terra é muito mais do que o chão de onde brota a semente, é matéria-prima para a imaginação se transformar em arte nas mãos de artesãos do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, considerada uma das regiões mais pobres do Brasil. A terra de formigueiro, com seu tom mais avermelhado, misturada à de tabatinga (mais amarela) e à toa, que resulta em uma cor mais clara, se transformam em tintas, que preenchem desenhos em lindos cartões. Esse processo praticamente de alquimia é resultado do empenho de artesãos do Dedo de Gente, uma cooperativa de unidades de produção solidária, que existe desde 1996. A iniciativa começou em Curvelo e se estendeu a Araçuaí, a partir de 2002.

Como descobri essa história? Ao comprar um joguinho dos cartões e ter a minha curiosidade aguçada pelas cores tão diferenciadas do trabalho e pelos motivos rurais da região. Daí, comecei um bate-papo com Andréia Fonseca, durante o IV Fórum Internacional de Comunicação e Solidariedade, em Belo Horizonte, no dia 26 de maio, e soube um pouco da história dessa artesã, que um dia foi aprendiz e hoje integra a coordenação do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), responsável pela gestão do projeto.

"Depois passei à cooperada, à educadora social e à agente de educação. Não aprendi só o ofício, mas a valorizar as pessoas e a trabalhar os valores humanos e culturais, ambientais, além da satisfação econômica e empoderamento comunitário", disse. Segundo a gestora, dessa forma, conseguiu obter crescimento pessoal. "No Vale do Jequitinhonha, há riqueza no artesanato, na música e na poesia, baseada na simplicidade", resumiu.

Segundo Andréia, atualmente o grupo é formado por cerca de 80 pessoas, a partir dos 16 anos, e a Dedo de Gente já conta uma loja virtual e outra física, além de fabriquetas nas áreas de bordados, cinemas, doces, serralheria, marcenaria, software, tinta da terra e vídeo. A média de rendimento mensal é de R$ 500.

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Sucena Shkrada Resk

11/06/2011 10:58
Reflexões: o que pensar depois do C-40, por Sucena Shkrada Resk

Dizem que devemos ser racionais, para que a vida flua com equilíbrio. Mas se essa premissa é válida, porque destruímos as cidades com o nosso modelo de desenvolvimento tão cartesiano?

Após o C-40 Larges Cities - Climate Summit São Paulo 2011, que reuniu cerca de 50 lideranças de prefeituras das maiores cidades mundiais, neste mês, foi possível constatar que de nada adiantarão os discursos sobre políticas e projetos aparentemente bem intencionados e ousados expostos, durante o evento, se não houver ética e compromisso das diferentes gestões nos planos diretores calcados na realidade muldisciplinar de uma cidade, com visão de longo prazo. O ponto primordial é de mitigar e adaptar nossas cidades à vulnerabilidade, não só aos desastres naturais, mas correr atrás do prejuízo resultante de nossa negligência com infraestrutura e regras predatórias de mercado, que envolvem o consumo desenfreado.

De Adis Abeba, na Etiópia, a Copenhague, na Dinamarca, as soluções expostas passam por investimentos em ciclovias, metrôs, modelos com matriz energética renovável, construções e clusters industriais verdes, que se calcam na eficiência energética, com destaque aos retrofits (adaptações de construções). De uma maneira geral, o pensamento contemporâneo concebe a ideia de se implementar cidades compactas. Entretanto, cada uma está obviamente em estágio bem diferenciado. É indiscutível, que o apoio financeiro e compartilhamento de tecnologias entre ricos e pobres serão determinantes para efetivas mudanças.

O que ficou claro é que as ações devem ir muito além do protocolo de intenção de apoio do Banco Mundial (BIRD), anunciado no evento. O enxugamento de gastos com a máquina pública e a manutenção de políticas de incentivo devem ser uma constante nessas metrópoles.

Afinal, a racionalidade controversa que impera hoje, tão senhora de si, é capaz de construir um quadro de extrema pobreza mundial, que em 2005 atingia 1,4 bilhão de pessoas, com expectativa de chegar a 883 milhões em 2015, segundo relatório do próprio BIRD e do Fundo Monetário Internacional (FMI). E a parcela correspondente ao Brasil supera 16,2 milhões de homens, mulheres e crianças, de acordo com os dados preliminares do Censo 2010, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

São pessoas que não têm acesso a saneamento básico, habitação, serviços de saúde, transporte e de ensino dignos. Vivem ao relento ou em casebres, palafitas, se amontoando em espaços tão pequenos e se alimentando, muitas vezes, de restos encontrados em nossos lixos ou devido à caridade alheia.

Que modelo de desenvolvimento é esse, que também faz com que as grandes metrópoles sejam uma mola potente e voraz, que emite gigatoneladas de Gases de Efeito Estufa (GEEs) por meio de um modelo de transporte ainda baseado em combustíveis fósseis e de excessiva produção de resíduos, que traduz o nosso consumo insustentável?

Os grandes centros urbanos, no Brasil, por exemplo, foram responsáveis pela produção de 60.868.080 toneladas (t) de resíduos sólidos urbanos (RSU), cerca de 7,7% a mais do que em 2009, conforme destaca o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, publicado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). E a população, neste período, cresceu apenas 1%!

Enfim, as metrópoles, com o glamour cosmopolita, conseguem ter tamanho poder destrutivo, ocupando apenas 1% do espaço territorial do planeta. Uma razão – essa incontestável – é que nesse pedaço de chão vivem simplesmente 80% da população mundial. A relação de ação e reação nesse cenário resulta na morte de mais de 2 milhões de pessoas anualmente em decorrência da poluição, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Até aqui, muitas perguntas, constatações empíricas e algumas respostas refletem que os padrões que ditam as regras em nossa sociedade contemporânea são desprovidos de sensibilidade, como se não pudessem manter uma relação harmoniosa. Aí está o contexto paradoxal e perverso da locomotiva da globalização.

E para concluir minha reflexão, um dos aspectos que considerei dos mais interessantes, durante o C40, é que enquanto prefeitos e técnicos discutiam em salas climatizadas de um grande espaço de eventos em São Paulo, a cidade no lado de fora, exalava dióxido de carbono com sua frota de veículos exorbitante, com as marginais e principais corredores congestionados, além do fétido odor de seus rios – Pinheiros, Tietê e Tamanduateí – que como a parte cardíaca de muitos cidadãos, já estão praticamente em falência múltipla, por causa da poluição.

Para chegar ao hotel, os políticos tinham o auxílio de batedores, para abrir o trânsito, enquanto os milhares de cidadãos comuns enfrentavam todos os tipos de adversidades para conseguir se locomover. Por coincidência, nesse período, também houve greve de funcionários da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e de motoristas e cobradores de linhas de ônibus da região do Grande ABC. De certa forma, o próprio evento e seus bastidores foram um retrato dessa dicotomia que faz parte das marcas de nossas metrópoles.

Sucena Shkrada Resk

10/06/2011 19:52
Diário de bordo - Uma noite no Santos Dumont..., por Sucena Shkrada Resk

Ontem, o fim do dia foi um tanto complexo, para uma simples quinta-feira. Depois de eu cobrir um evento no RJ, retornei à noite ao Aeroporto Santos Dumont, para voltar para casa, e aí começou a peregrinação. Eu e mais dezenas de passageiros do voo 1555 da Gol esperamos literalmente 4h para chegar a Sampa, por causa das más condições atmosféricas. Os aviões não conseguiam aterrissar por lá, tendo em vista ainda, um aspecto peculiar da pista - é curta e rente ao mar. Extra à falta de informação precisa (ficamos, pelo menos 1h30, sem ninguém falar conosco), depois nos levaram en vans para o Galeão e consequentemente fomos a Cumbica, em vez de Congonhas.

Moral da história rs - chegamos às 0h30 de hoje em Guarulhos e a cia. teve de pagar táxi para todo mundo, para podermos ir para casa. O mais surreal é que haviam anunciado no aeroporto que havia um ônibus para fazer o transfer a Congonhas (olha, que loucura, em um horário no qual só quem tem carro se vira, pois lá já estava fechado). Entretanto, o mesmo nem apareceu. Então, a empresa partiu para o plano B, respeitando o código do consumidor, e voltamos sãos e salvos para nossos lares.

O que valeu nisso tudo foi conhecer gente nova, histórias de vida interessantes, nesse compasso de espera. Com isso, o tempo passou junto com o estresse...E, agora, deu até para contar essa pequena experiência urbana para vocês (rs)...

Sucena Shkrada Resk

07/06/2011 22:08
Pensata: Pôr-do-Sol no Rio de La Plata, em Montevidéu, por Sucena Shkrada Resk

Que, nós, seres humanos, somos movidos à energia, acredito que ninguém tem dúvida. E quando essa energia parte da sensação de bem-estar de um momento de contato com a natureza, aí, se torna mais prazeroso. Depois dessa pequena divagação, eis o que me fez escrever essas linhas – simplesmente o pôr-do-sol com a vista do rio de La Plata, em Montevidéu, Uruguai, na altura do café Hemingway. Ao ver o horizonte, com aquele colorido com tons fortes avermelhados e o brilho das águas, que mais parecem um mar, senti o quanto é importante apreciarmos o que nos é dado de graça e que, por muitas vezes, menosprezamos.

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Sucena Shkrada Resk

07/06/2011 21:40
Necessidade de educação ambiental não tem fronteira, por Sucena Shkrada Resk

Quem pensa que Montevidéu, no Uruguai, com seu estilo europeu, escapa dos problemas ambientais, está enganado. No sábado, durante um passeio nos pontos turísticos da cidade, eis que uma cena me remeteu imediatamente aos nossos rios e córregos, em São Paulo, só que em escala menor. Um lindo cartão-postal da cidade, com alamedas e vistosos monumentos, exibe um riacho, que se mistura a PETs e a outros tipos de lixos, que param lá das mais diferentes formas. A única certeza é que o seu atual estado se deve a uma questão básica: falta de educação ambiental.

Poucas latas de lixo e falta de coleta seletiva se somam a esse quadro. Mas a questão é mais profunda, de ordem socioeconômica. Ao mesmo tempo, que há casas imponentes no percurso, um pouco mais adiante, construções modestas estão bem rentes ao córrego. É o retrato que as metrópoles não conseguem mascarar.

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07/06 - Tristán Narvaja: uma feira quase infinita

Sucena Shkrada Resk

07/06/2011 21:12
Tristán Narvaja: uma feira quase infinita, por Sucena Shkrada Resk

O Mercado das Pulgas, na região de Tristán Narvaja, em Montevidéu, no Uruguai, é particularmente peculiar e dá a sensação de infinito, pois se desdobra em várias travessas, o que faz com que caminhemos, caminhemos e a cada esquina descubramos mais uma novidade. O seu caráter popular nos deixa muito à vontade. A miscelânea de produtos é digna de nota. Lá encontramos desde legumes a objetos de antiquário. O que dá certo charme a essa babel de produtos, é a série de livrarias e sebos que ficam ao redor, em casarios antigos.

O mais curioso nesse cenário anárquico é encontrar volta e meia alguns quiosques de queijos e frios e do lado, por exemplo, uma banca cheia de meias de lãs quentinhas. Não adianta querer se deparar com a organização, pois a mistura é a marca registrada.

Domingo é, sem dúvida, dia de bater perna por lá, nem que não compremos nada. Já vale o passeio, que registra peculiaridades culturais do povo uruguaio. O segredo é se deixar levar. Enfim, aí está uma pequena faceta da capital de nosso país vizinho sul-americano, que pude conhecer, no último domingo.

Sucena Shkrada Resk

06/06/2011 16:32
Bastidores do processo da Rio +20, por Sucena Shkrada Resk

Os Ministérios das Relações Exteriores e do Meio Ambiente criam oficialmente amanhã, dia 7 de junho, os Comitês Nacional e de Organização da Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (Rio+20). E no próximo dia 2 de julho, no Rio de Janeiro, está programado o primeiro encontro do Comitê Facilitador da Sociedade Civil Brasileira para a Rio+20 com organizações e movimentos sociais. A partir de agora, a tendência é que o processo comece a ganhar mais visibilidade.

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Sucena Shkrada Resk

31/05/2011 22:26
Mobilização na Europa visa valoração da pegada ecológica nos produtos, por Sucena Shkrada Resk

Uma informação interessante passada pelo empresário estoniano Rainer Nõlvak, criador do movimento Let`s do It, no último dia 27, é que uma das mais recentes mobilizações na Europa se refere à exigência da mudança da legislação, baseada em critérios socioambientais, que levanta a bandeira do consumo consciente.

"Exigimos que o imposto nos produtos tenham como base o custo dos recursos. Isso quer dizer, por exemplo, que deve ter diferenciação, se forem provenientes da China ou dos catadores de materiais recicláveis. Tecnicamente é possível fazer essa alteração. Também permite que as empresas inovem de forma sustentável".

Segundo o ativista, o ciclo dos produtos deve ter pegada ecológica. E a lógica, obviamente, é a seguinte: quanto menor essa relação, menor o custo dos produtos.

Nõlvak tratou do tema, durante o IV Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade, realizado em Belo Horizonte, pela Atitude Brasil.

Sucena Shkrada Resk

31/05/2011 21:37
Aprendendo mais sobre os condimentos naturais em nossa nutrição, por Sucena Shkrada Resk

Acabei de retornar de uma aula sobre nutrição saudável, no SESC São Caetano. Nem preciso falar, que constatei que a alimentação aqui em casa está longe do ideal e precisa mudar urgentemente. O mais bacana nas orientações da nutricionista Bianca Valim foi tratar do valor das ervas e condimentos naturais em nossos cardápios x os alimentos industrializados.

Entre uma dica aqui, outra ali, ela falou que é recomendado colocar de 5 a 10 folhinhas de salvia na hora da preparação de comidas fritas e assadas, para atenuar o efeito nocivo da gordura, o que torna a comida mais digestiva. Já a mostarda tem serventia até sob a sola do pé para combater enxaqueca, imaginem!

Para nós, que vivemos uma vida muito corrida e temos gastrite, as ervas que ajudam a fortificar o estômago e ativar a digestão são coentro, cominho, endro, manjericão, mostarda, orégano, entre outros.

Ah, e vocês sabiam que o recomendado é usar 6 gramas de sal diariamente, mas que nós, brasileiros, usamos cerca de 13 gramas! Moral da história - o sal 'rouba' o cálcio do nosso organismo, que vai parar em nossa urina...

Mas algo que me deixou mais apreensiva foi o poder devastador dos temperos industrializados, que têm glutamato monossódico. Essa substância propicia a sensação do chamado "5º sabor", que faz com que as papilas degustativas sejam acionadas e confundam nossa saciedade, fazendo com que queiramos comer mais. Os efeitos do seu consumo contínuo pode causar cefaléia, fraqueza, obesidade e palpitação cardíaca etc

Sucena Shkrada Resk

31/05/2011 10:00
Tião Santos: “A vida é nossa mentora...”, por Sucena Shkrada Resk

Tião Santos, catador de material reciclável do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, é falante por natureza. Não é difícil observar a sua desenvoltura frente às câmeras e aos microfones, mas destaca - 'não posso perder a humildade'. Nessa hora, seu semblante fica sério.

Numa brecha, durante o IV Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade, no último dia 27, em Belo Horizonte, (após me conceder uma entrevista que fiz para o Planeta Sustentável, publicada hoje), ele contou ao Blog Cidadãos do Mundo, que se considera praticamente uma 'esponja'. E logo, completou - "Não canso de aprender e me inspiro nos conselhos de pessoas que têm conhecimento. A vida é nossa mentora. E tem gente arrogante, que às vezes, não sabe nada, não é?", reflete.

Segundo ele, o fato de estar em evidência na mídia não faz com que perca a cabeça, principalmente após ser um dos protagonistas do documentário “Lixo Extraordinário”, que destaca o trabalho do artista plástico Vik Muniz, no Aterro Controlado de Gramacho. Lá, Tião é presidente da Associação de Catadores de Material Reciclável, além integrar o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis.

“Eu estou representante de alguém. Não sou maior que a minha categoria. Quando dou palestra para os catadores (como eu), falo da melhor forma possível, lúcida, para que possam entender. Esse é meu papel. Nos eventos em que sou convidado, também me preparo para que compreendam minha mensagem e reivindicações”.

Com o tempo, ele diz que descobriu que a linguagem é um instrumento de comunicação que não pode ser desprezado. E ela será importante em seu novo desafio de coordenar a logística do Movimento Limpa Brasil, que tem como público-alvo, tanto os catadores, como a sociedade civil, em geral.

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Sucena Shkrada Resk

30/05/2011 10:54
Arte com identidade negra, por Sucena Shkrada Resk

Ana Paula Soares Medina (filha), 35 anos, e Ana das Dores Soares (mãe), 60 anos, integram o pequeno grupo familiar de artesanato mineiro, Clareart`s Mulheres em Ação. Essa história começou há cinco anos, e naquela época, com cinco integrantes. “Acabou se desfazendo, mas sobraram nós, as Medinas. Não queríamos deixar essa ideia morrer. Hoje já somos em quatro”.

Devem estar curiosos para saber o que elas fazem, não é? Desde marcadores de livros a bonecas com cabaça e garrafa PET, e obras em tecido. A singularidade é o fato do mote ser a identidade negra. “Nossos trabalhos são a geração de renda da família. Usamos a aptidão de cada uma e vamos a feiras e eventos para comercializar os trabalhos. O próximo passo é conseguir oficializar nossa associação”, diz Ana Paula.

Para poder divulgar o trabalho, ela criou o blog www.clarearts.blogspot.com. “Mas ainda preciso melhorar o conteúdo”, frisa. As duas expuseram suas obras, durante o IV Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade, em Belo Horizonte, nos dias 26 e 27 deste mês.

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Sucena Shkrada Resk

30/05/2011 10:34
O jornal que vira arte e gera renda, por Sucena Shkrada Resk

Os jornais não servem somente para ser fonte de informação. O funcionário público mineiro, Ronaldo Lima, 40 anos, descobriu isso, de forma casual, há 14 anos. “Eu me inspirei em aprender a fazer essa transformação, quando ganhei um cestinho em uma festa de casamento. Pensei que era de bambu, mas aí uma amiga explicou que eram canudinhos de jornal”, conta.

A curiosidade foi tanta, que o novo artesão comprou revistas a respeito, consultou quem faz trabalhos com essa matéria-prima e o resultado é o seguinte: - “Há sete anos, faço grandes mandalas, que vendo por aqui e exporto para a Itália e os EUA”.

As obras são vistosas, chegam até a quase 1m de diâmetro. “Geralmente faço cerca de 600 canudos e recebo esses jornais de doação. Acabo cada peça, em média, num prazo de 20 dias. Uso o horário de almoço e dedico o período das 20h às 22h, para esse trabalho”. E não é que o negócio é rentável! Lima afirma que chega a ganhar três vezes o seu salário.

Descobri essa história interessante de economia criativa, ao conversar com ele, durante o IV Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade, em Belo Horizonte, no último dia 26.

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Sucena Shkrada Resk

29/05/2011 22:47
Mais um pouco de BH - 'Realidade' de maio de 1970..., por Sucena Shkrada Resk

Segue mais um pouco dos bastidores em Belo Horizonte. Depois do IV Fórum, dediquei o sábado, para conhecer um pouco da cidade, e contei com a ajuda de Hugo, que mora por lá. Isso me possibilitou ir a alguns locais bem bacanas, além dos tradicionais. Nesse city tour, conheci um sebo de um colega dele, no centro, e eis o que vi em uma das prateleiras- várias revistas 'Realidade', da Abril, em bom estado, desde a década de 60. Foi como fazer uma viagem por meio do idealismo, que nos reaviva, de tempos em tempos.

Aí, imaginem o que aconteceu. Não aguentei o impulso e comprei um exemplar de maio de 1970 - nº 50 (se pudesse, levaria mais, é claro!...). Nessa edição, algumas das matérias são "Um país chamado Nordeste", "Racismo: África do Sul"... Há 41 anos, falávamos dos mesmos temas e, neste caso, vale frisar - com qualidade...Os textos e as fotos transmitem sensibilidade!

No expediente, estão nomes de jornalistas veteranos, que, talvez, as novas gerações desconheçam. Entre eles, Paulo Mendonça, Luiz Fernando Mercadante, Hamilton Ribeiro, Luís Weis, Mylton Severiano da Silva, Audálio Dantas, Jorge Andrade, José Carlos Marão, Luís Edgar de Andrade, Rodolfo Konder, Antônio Alberto Prado, Laís de Castro e Talvani Guedes.

As imagens são de responsabilidade de Lew Parrella, Jean Solari, Luigi Mamprin e Maureen Bisilliat. As fotos (naquela época, em P&B e coloridas) são puras obras de arte. Podemos ver nitidamente os vincos nos rostos sofridos ou o sorriso franco, que vai além da pose convencional.

Saudosismo? Será? Talvez, só vontade de reencontrar esses caminhos. Para isso, não devemos ter medo de nos reinventar, quantas vezes for necessário...

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Sucena Shkrada Resk

29/05/2011 21:17
Flashs do IV Fórum de Comunicação e Sustentabilidade, por Sucena Shkrada Resk

Durante dois dias – 26 e 27 de maio – o IV Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade, em Belo Horizonte, organizado pela Atitude Brasil, trouxe em seus painéis, algumas informações interessantes, desde a reflexão sobre a importância da educação informal e não-formal, fechamento de acordo sobre linha de microcrédito para geração de negócios à população de baixa renda a mobilizações socioambientais por meio do Limpa Brasil. Esse último inspirado no movimento internacional Let`s do It.

Rainer Nõlvak, empresário e ativista estoniano, criador do Let´s do It, contou que a iniciativa chegou a obter a adesão de 110 mil pessoas, 13% da população, quando foi lançada em 2008
Aqui no Brasil, a primeira ação está programada para o próximo dia 5 de junho, a partir das 9h, no Rio de Janeiro. Há um calendário que envolverá outras cidades, por meio da participação civil no recolhimento de lixo nas cidades. A estratégia visa incentivar o consumo consciente, como destacou. A parte logística ficará sob a responsabilidade de Tião Silva, representante do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis. Segundo ele, atualmente há 19 ecopontos definidos e 400 catadores de 20 cooperativas participando.

Durante o evento, foi assinado um termo de compromisso entre o Banco do Brasil e a fundação do professor bengalês Muhammad Yunus (Nobel da Paz 2006 e fundador do Grammeen Bank, do qual foi retirado da direção recentemente, pelo governo de Bangladesh). A proposta é que a modelagem que ele criou do sistema de microcrédito sirva de fonte para impulsionar abertura de linhas especialmente destinadas para a geração de negócios, entre a população de baixa renda. O economista explicou ao público presente o histórico e os objetivos do projeto, que já foi multiplicado em 40 países.

Segundo o presidente do BB, Aldemir Bendine, a instituição financeira utilizará a própria rede e capacitará agentes de crédito. Ele informou que serão utilizados recursos mantidos pelo banco para o fim de microcrédito (que hoje é dirigido a consumo), já liberados pelo Banco Central. É um valor anual estimado em R$ 1,5 bilhões.

Para refletir
Nos painel Democracia, Não Violência e Paz, o filósofo Mario Sérgio Cortella lembrou que cada um de nós faz política até quando recusa. Uma das mensagens destacadas pela monja Coen foi voltada para a mudança de paradigmas – “...A grande mudança na humanidade é abrir a terceira visão, que percebe a conexão com todos...O olhar que compreende, acompanha e acolhe...” Se pensarmos bem, são questões profundas, que nos passam despercebidas, não é verdade?

As apresentações dos dois Tiões - o Rocha (diretor-presidente do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento - CPCD), que desenvolve projetos principalmente no Vale do Jequitinhonha, e o Silva, possibilitaram uma imersão, que sai do universo dos gabinetes, e vai para o ´pé no chão´. O objetivo é promover o empoderamento das comunidades mais carentes.

Fredric Litto, presidente da Associação Brasileira de Educação à Distância (Abed), levou o público a reavaliar o modelo da educação formal. “...Durante 10 anos falei em educar por competências. Mas percebi que não é por aí. O perigo é que o esforço dos alunos estará no pôster ou vídeo e, não, no conhecimento...”

O físico e astrônomo, Marcelo Gleiser, alertou – “...De certa forma, somos nós os Ets colonizadores do espaço. As respostas têm de vir de nós, para preservar a vida e, não, destruí-la...”.

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27/05 - Pensata - BH com cara de "Sampa"

Sucena Shkrada Resk

29/05/2011 19:35
Desvendando curiosidades em Belo Horizonte, por Sucena Shkrada Resk

Vocês sabiam que em Belo Horizonte, na Avenida Afonso Pena, circulam os táxis - lotação? Isso mesmo. Nessa, que é uma das principais vias da capital mineira, pude utilizar ontem, dia 28, mais esse meio de transporte, com um novo amigo que fiz por lá, o Hugo. Cada usuário paga R$ 2,60. O interessante é que no meio do caminho, entram outras pessoas, que param em pontos diversos. Na avenida do Contorno, em um só sentido, também já tem essa modalidade...Aí está uma alternativa de mobilidade urbana.

Mais uma curiosidade na cidade é que em alguns ônibus (na região da Pampulha), é possível se deparar com textos do projeto “Leitura e Ciência para Todos”, 'amarrados' aos bancos. É uma estratégia interessante para impulsionar a Leitura.

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27/05 - Pensata - BH com cara de "Sampa"
Sucena Shkrada Resk

27/05/2011 23:01
Pensata - BH com cara de `Sampa`, por Sucena Shkrada Resk

Desde ontem, estou me sentindo em Sampa rs. Tomei trem da CBTU, aqui em Belo Horizonte, que lógico - hoje, já estava lotado esta manhã - mas são só 2 estações - Santa Tereza, Santa Efigênia até a Central. Tomei um pingado com pão de queijo (ops, ontem foi pão na chapa), vi o frenesi das pessoas usando transporte público e ônibus de todos os lados, que também utilizei. Enfim, aqui pulsa como aí, com os mesmos problemas e curiosidades, que volta e meia, nos surpreendem, em meio a nossas andanças...

O centrão da cidade também precisa de melhorias, mas entre o cinza dos prédios, ruas sujas, o Parque da Cidade é um pulmão verde, que lembra muito o Parque da Luz, com direito a um coreto secular. Alguns prédios antigos, como o Museu de Artes e Oficios, estão preservados. Convive perfeitamente com a estação de trem, os murais e paredes com grafites e pichações...

Agora, o custo do transporte público, na capital mineira, é bem inferior. O trem (R$ 1,80). A maioria dos ônibus (R$ 2,45), mas há tarifa diferenciada mais barata, se é circular, por exemplo. Amanhã conhecerei com mais calma, a Pampulha, por onde passei de relance, pois o avião aterrissou em Confins, que fica a uma hora de BH, e um boteco com suas tradicionais especialidades. Esse ano o pequi foi o centro do festival.

Mas o que mais gostei foi da sensação boa de ninguém querer me dar uma sacolinha de plástico no comércio local, conforme a lei vigente. Como dizem, só dá para começar - começando (essa é uma das redundâncias com as quais a gente não se incomoda...)

Sucena Shkrada Resk

22/05/2011 15:22
Fritjof Capra: da transdisciplinaridade da Ecologia a da Vinci, por Sucena Shkrada Resk

“...Se ensinamos Ecologia como matéria interdisciplinar, não só estamos mudando a mente dos alunos, mas da comunidade do aprendizado”. Com essa frase, o físico e teórico austríaco do pensamento sistêmico, Fritjof Capra, encerrou sua participação na Conferência Internacional de Cidades Inovadoras, que aconteceu em Curitiba, PR (transmitida pela WEB, no dia 19). Para o pensador, não é possível se compreender o todo, quando não conseguimos analisar as interconexões das partes. E é em Leonardo da Vinci (1452-1519), que ele encontra muitas respostas, a anos de pesquisas.

Autor do livro “O Tao da Física” (1975), que li há mais de 19 anos, quando ainda estudava jornalismo na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), Capra é, acima de tudo, um filósofo, que tem de ser relido muitas vezes. Aliás, algo que devo fazer não só com sua obra, mas com as de outros escritores.

No entanto, deixe eu voltar desse breve momento de reflexão e vamos ao que interessa. Bombardeado por perguntas, ele conseguiu sintetizar sua postura favorável à agroecologia, à solidariedade nas redes sociais e criticar o greenwashing, o que era de se esperar, pelo seu histórico. O que achei ainda mais instrutivo é que expôs algumas informações sobre seu trabalho realizado, durante seis anos, que resultou no livro “A Ciência de Leonardo da Vinci”.

“Ele (da Vinci) foi um pensador sistêmico...e viveu 100 anos antes de Galileu Galilei...A Ciência dele não era mecanicista, o que é muito inspirador”, disse. Capra explicou que o artista fez inúmeros desenhos de dilúvios e seres humanos pequenos nessa dimensão espacial. “Tinha fascinação pelo poder da força das catástrofes naturais. Apesar de ser contra as guerras, também desenhou máquinas de guerra...”.

Essa aparente dicotomia, segundo Capra, não é conflitante, pois já naquela época, Leonardo da Vinci fazia o que identificamos na atualidade, de design ecológico. Em entrevistas concedidas a respeito, como no Mercado Ético, o autor afirma que no contexto do século XVI, o artista observava a natureza e efetuava o que hoje é denominado de movimento biométrico. Tanto que, fez muitos estudos voltados à hidráulica, ao movimento dos gatos e ao voo dos pássaros, entre outros. Com certeza, não era um autor de uma obra só - a Monalisa, pela qual é reconhecido mundialmente.

Sucena Shkrada Resk

22/05/2011 12:28
TEDx MataAtlântica(6):educador indígena fala da simbologia entre o homem e a árvore, porSucenaS.Resk

Quando fechamos os olhos, podemos fazer uma viagem ao nosso interior e lá descobrimos nossa semelhança com as árvores, com suas raízes, um sistema orgânico tão complexo e ao mesmo tempo tão maravilhoso, que desprezamos, nessa relação do material e imaterial... Kaká Werá nos apresentou essa simbologia, que integra a sabedoria da cultura indígena, no encerramento do TEDx Mata Atlântica, na tarde deste sábado, em São Paulo.

Ao fazer uma alusão aos ensinamentos tupi-guaranis, assumiu o papel de contador de histórias e a sensação, pelo menos, de minha parte, foi a de ser uma curumim, nesta grande aldeia, que é o planeta Terra. “A origem do primeiro ser humano é a primeira árvore...que os portugueses passaram a chamar de pau-brasil (árvore de alma vermelha)... Os primeiros brasileiros, por sua vez, também foram pioneiros em roubar essa alma”, alertou por meio dessa analogia.

Werá, ao mesmo tempo, ponderou que temos o poder de mudar o rumo de nossas ações. Ele considera que, no entanto, ao querermos recobrar ‘a alma’, não podemos nos calcar na revolta, mas na indignação quanto a essa relação de maus-tratos provocada pelo homem em relação ao meio ambiente.

“...Só existe união na diversidade e há uma vida maior nesse sistema, que é o grande amor que sustenta a vida...”. Nesse contexto, segundo ele, a educação na medida correta pode ser chamada de sustentabilidade e sem ela não chegaremos ao fim do século XXI.

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21/05 - TEDx Mata Atlântica (parte 2): jornalista opta pela vida em ecovila
21/05 - TEDx Mata Atlântica: a educação ambiental por meio de histórias de vida

Sucena Shkrada Resk

22/05/2011 11:22
TEDx Mata Atlântica (5): apresentadora mescla a relação do bioma c/cultura, por Sucena S.Resk

Regina Casé encontrou uma maneira criativa de mesclar o bioma às manifestações culturais, em sua apresentação durante o TEDx Mata Atlântica, neste sábado, em São Paulo. Foi uma forma perspicaz de levar ao público, o conhecimento de algumas espécies e argumentos diferenciados para que lutemos pela conservação das mesmas. A apresentadora usou a ferramenta do vídeo, unindo depoimentos e imagens, com o componente histórico, antropológico e religioso. E, claro, que nessa linha de raciocínio, os personagens centrais só poderiam ser representantes do próprio povo brasileiro.

Nessa viagem pela Mata Atlântica, descobrimos a biriba que é matéria-prima do berimbau, essencial na capoeira. O pinhão, que é utilizado em nossa culinária, em diversos festejos, que provém da araucária ou pinheiro-brasileiro/pinheiro-do-paraná, uma das espécies mais antigas do bioma.

E quem poderia imaginar, que os luthiers (profissão rara nos dias de hoje) usam o caixete na construção dos instrumentos. Já nas comemorações cristãs da Quaresma, a famosa quaresmeira dá o nome à própria celebração.

De repente, na tela apareceram alguns indígenas, com suas bonitas roupagens feitas do quê? Da juremeira... Mas é claro que ao fazer essa composição da riqueza da diversidade, ela deixou claro que não pode ficar de fora em nenhum momento, o uso sustentável.

Para quem se interessa por essas peculiaridades, Regina indicou o site www.umpedeque.com.br , que é o nome do programa que ela é uma das criadoras e apresentadora, em cartaz na TV Futura. Ao mesmo tempo, demonstrou que a educação ambiental pode ser expressa pelas mais variadas linguagens, o que amplia o acesso do público às informações.

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Sucena Shkrada Resk

22/05/2011 09:43
TEDx Mata Atlântica (parte 4): editora relata a importância do jornalismo local, por Sucena S.Resk

A editora Cristiana Randow narrou como é importante redescobrirmos a importância do jornalismo local x o aparente status profissional que nos leva o âmbito nacional, durante o TEDx Mata Atlântica, neste sábado. Ela contou que sua carreira, nos últimos anos, sofreu uma reviravolta, ao assumir o Radar SP. Praticamente teve de fazer uma releitura do papel da mídia, focada nos serviços, na qualidade de vida.

A necessidade de ampliar o horizonte das pautas resultou na formulação do projeto do Programa Respirar, que está no ar, desde 4 de abril. “Trata de transporte público alternativo. O doutor Paulo Saldiva é um dos mentores da proposta”.

Ela lembrou que o médico, responsável pelo Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da USP, alerta constantemente que em São Paulo morrem anualmente 4 mil pessoas, em decorrência da poluição. Mais um desafio é atualizar os parâmetros defasados da contabilização do problema, tendo em vista, que a Resolução Conama é de 1990.

“No México (uma das metrópoles mais adensadas e poluídas do mundo), por exemplo, a inspeção veicular existe há 20 anos, e aqui, há três. Lá o rodízio é mais rigoroso e é a primeira cidade da América Latina a adotar a bicicleta como meio alternativo de transporte”, exemplificou. Ao mesmo tempo, Cristiana lembrou que em outras cidades a poluição aumentou, o que pesou na balança dessa melhoria mexicana.

O sistema de transporte Transmilenio de Bogotá, na Colômbia, é mais um exemplo considerado positivo mundialmente, que o programa apresentou. “É importante registrar, que em 1974, o urbanista Jayme Lerner criou essa concepção (mais eficiente) em Curitiba, mas que não se expandiu no Brasil”.

O Respirar também foi às grandes vias de ligação à periferia, como a estrada de M`Boi Mirim, onde flagrou o desrespeito ainda tão presente à faixa de pedestres. Agora, o programa usa o lençol branco para mostrar os efeitos da poluição. “Também estamos em fase de implementação do projeto respirómetro (que terá condições de refletir o impacto à saúde)”, adiantou.

Diante de todas essas evidências, a jornalista considera que a educação ambiental é uma maneira de tentar transpor as barreiras presentes no campo da mobilidade e acessibilidade e no modelo de consumo da sociedade.

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21/05 - TEDx Mata Atlântica: a educação ambiental por meio de histórias de vida

Sucena Shkrada Resk

21/05/2011 23:54
TEDx Mata Atlântica (3): bióloga conta experiência da restauração florestal,por Sucena Shkrada Resk

A bióloga Simone Bazarian acredita que mais que reflorestar é preciso restaurar as florestas, o que envolve as relações internas da biodiversidade. Esse se tornou o tema central de seu doutorado, contou durante sua participação no TEDx Mata Atlântica, realizado hoje, na marquise do Ibirapuera. O evento integrou a agenda do Viva a Mata, promovido pelo SOS Mata Atlântica.

“A Mata Atlântica é o bioma com mais florestas restauradas na América Latina”, disse. Segundo ela, entretanto, há muito chão ainda para se promover a recuperação. “As capoeiras (terrenos onde os matos foram roçados ou queimados) geralmente se estabilizam, mas não conseguem se regenerar. Há locais em que nem sementes se tem mais por perto”, alertou.

Ao acompanhar trabalho de campo de agricultores, ela contou que aprendeu como plantar e retomar a biodiversidade. “Em assentamentos, na cidade de Sumaré, no interior paulista, os agricultores conseguiram recuperar matas ciliares, por iniciativa própria, e ampliar a Área de Preservação Ambiental (APP), de 30 para 40 metros”. (um contraponto às propostas de reduções apresentadas pelo deputado Aldo Rebelo, no projeto de lei substitutivo do Código Florestal).

“...As florestas precisam gerar novos descendentes e, para isso, não basta se plantar mudas. A reprodução precisa da ajuda dos animais, que carregam o gameta masculino que adere ao seus corpos. Quando o pólen e a semente se encontram, uma nova planta nasce...Tudo isso representa o conceito de rede. São interações biológicas”. Com essa perspectiva, segundo ela, há uma reconexão com a ancestralidade, que tem ligação com a natureza.

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21/05 - TEDx Mata Atlântica: a educação ambiental por meio de histórias de vida

Sucena Shkrada Resk

21/05/2011 23:07
TEDx Mata Atlântica (parte 2): jornalista opta pela vida em ecovila, por Sucena Shkrada Resk

O depoimento de Giuliana Capello, blogueira do site Planeta Sustentável, trouxe um pouco da atmosfera das ecovilas, durante a apresentação do TEDx Mata Atlântica, na tarde de hoje, na marquise do Ibirapuera, em São Paulo. “Existem cerca de 15 mil comunidades no mundo”, disse, logo no início de sua apresentação, o que levou à reflexão sobre como deve ser o dia a dia, nesse modelo de vida.

Ela contou que optou por morar na Ecovila Clareando, em Piracaia, a 100 km de São Paulo, há sete anos. Segundo a jornalista, o que a atraiu para esse novo universo, depois de morar na capital, tem muito a ver com essa frase – “se não é divertido, não é sustentável”. Na ecovila, observou que teria contato com ruas estreitas que priorizam pedestres e bicicletas, o tratamento do reflorestamento do entorno, composteiras que resultam na ausência de lixo na porta de casa, estação de tratamento de esgoto que não tem um ‘aspecto feio’, como tradicionamente se vê...

“Eu e meu marido construímos nossa casa com garrafas de vidro, barro, pau-a-pique. Se muitas cidades antigas de MG estão de pé, é porque esse sistema de construção também funciona. Até nosso banheiro é compostável”, contou.

A filosofia que Giuliana segue é – “Cada uma das pessoas se alimenta da esperança da outra”. Para ela, esse sistema comunitário impulsiona a pensar no quarteirão, no bairro, o que segundo ela, poderia ser uma prática também adotada nos grandes centros urbanos.

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21/05 - TEDx Mata Atlântica: a educação ambiental por meio de histórias de vida
Sucena Shkrada Resk

21/05/2011 22:24
TEDx Mata Atlântica: a educação ambiental por meio das histórias de vida, por Sucena Shkrada Resk

Durante praticamente duas horas e meia, sentada à vontade sobre um banquinho de papelão em meio à marquise do Parque Ibirapuera, em São Paulo, com o caderno e caneta na mão, anotei relatos interessantes que ouvi, hoje, durante o TEDx Mata Atlântica. O encontro fez parte da programação do Viva a Mata, promovido pelo SOS Mata Atlântica. Há algum tempo queria compreender qual é a proposta deste evento, que cada vez mais se populariza nas redes sociais, com um formato bem singular de participação.

Em 18 minutos cravados, cada convidado conseguiu nos transmitir vivências socioambientais, por meio de suas histórias de vida. Uma maneira eficaz e ‘sem frescuras’, o que é muito positivo para se compartilhar e multiplicar educação ambiental.

O que se desenhou, durante as apresentações, foi a construção de um mosaico de trajetórias, no qual os palestrantes, de certa forma, dividiram conosco, ideais, práticas, erros, acertos e questionamentos, como se estivéssemos em um bate-papo informal. Com isso, se quebrou a formalidade costumeira que vivenciamos geralmente em seminários e fóruns.

Participaram desta rodada, o ambientalista Fábio Feldmann, a jornalista ambiental Giuliana Capello, a bióloga Simone Bazarian, a jornalista Cristiana Randow, Regina Casé e o ambientalista Kaká Werá.

Neste post, vou citar primeiramente o depoimento de Fábio Feldmann (que foi um dos fundadores do SOS Mata Atlântica). Ele retomou as lembranças dos caminhos de sua juventude, desde os anos 80, quando fez parte da entidade Oikos - União dos Defensores da Terra, que lutava por causas, como o combate à poluição em Cubatão, que chegou a resultar em anomalias de fetos. Muitos de vocês, talvez, nem saibam ou se recordem desse episódio de saúde ambiental marcante no Brasil.

Ele nos contou que a Oikos e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) ajudaram a criar a Associação de Vítimas da Poluição de Cubatão. Mais uma bandeira do seu grupo era a luta contra a construção de bombas atômicas e usinas nucleares no Brasil. Uma das propostas à época era de se construir uma unidade na Jureia, algo que com certeza poucas pessoas tenham conhecimento. Eu, pelo menos, desconhecia.

O documento “Os Limites do Crescimento”, produzido pelo Clube de Roma, em 1972, teve um efeito marcante na vida do ambientalista, segundo ele. Mais uma passagem que não esquece foi quando a ministra norueguesa Gro Brudland (responsável pelo relatório Nosso Futuro Comum, na Conferência de Estocolmo-1987) visitou Cubatão, onde verificou a situação grave ambiental, que afligia a cidade.

O tempo foi passando e Feldmann tornou-se deputado constituinte, aos 26 anos, e quase ao mesmo tempo ajudou a criar o SOS Mata Atlântica, em 1986. Depois foi gestor público na área ambiental e até hoje é consultor na área. “Na década de 80, a revelação da imagem do buraco na camada de ozônio foi um ponto importante para a ampliação da causa ambiental, que demonstrou os impactos humanos no planeta...”, explicou. E diante desse cenário, a Rio 92 foi uma resposta a tudo isso, em sua avaliação.

Hoje, com a iminência da votação do projeto substitutivo do Código Florestal, com a relatoria de Aldo Rebelo, ele avalia que há um retrocesso aos séculos XX e XIX, o que tem reiterado em diversos eventos dos quais participa. No contexto do combate ao Aquecimento Global, defende maior participação consciente do consumidor, tendo em vista um quadro complexo de necessidade de diminuição das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEEs) e da temperatura média do planeta.

Sucena Shkrada Resk

20/05/2011 22:27
Urbanismo: a importância de compartilhar a experiência de modelos, por Sucena Shkrada Resk

O que São Paulo tem em comum com Tóquio? Num primeiro momento, logo vem à mente – todas são metrópoles. Ok, até aí tudo bem. O que as diferenciam, na prática, no entanto, é o modelo de gestão urbanístico adotado em cada uma. Então, descobrir ‘o que está dando certo’ nessas e outras cidades pode ser um caminho viável para se repensar modelos, a fim de que os cidadãos tenham a melhoria da qualidade de vida.

De uma maneira resumida, aí está a proposta apresentada pela Plataforma Cidades Sustentáveis (http://www.cidadessustentaveis.org.br), uma parceria entre a Rede Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis, a Rede Nossa São Paulo e a Fundação Avina.

Segundo o historiador Maurício Broinizi, coordenador da secretária-executiva da Rede Nossa São Paulo, o objetivo da pesquisa é apresentar casos bem-sucedidos de responsabilidade e justiça social em diferentes cidades mundiais.

“Proporemos aos candidatos a cargos públicos que assinem carta-compromisso, pela qual, se comprometam com uma agenda sustentável urbana. O próximo passo será produzir um conjunto de indicadores”, disse hoje, durante o IV Encontro de Cultura e Sustentabilidade: Economia Criativa – Desafios e Rupturas para Construção de Uma Cidade Sustentável. O evento foi promovido pela Fundação Tide Setubal, no Clube da Comunidade (CDC) de mesmo nome, em São Miguel Paulista, em São Paulo.

Durante sua exposição, Broinizi citou como exemplo, a experiência de “perda” nas redes de água tratada de São Paulo e Tóquio. “Aqui, 26% de toda água tratada pela Sabesp é perdida no sistema, por diferentes motivos (manutenção, canos furados, problemas de mapeamento...). Já em Tóquio é de 3,6%...”.

Na área de mobilidade urbana, segundo ele, uma das experiências com êxito de replanejamento viário integrado é o da cidade de Lyon, na França. “Aqui em São Paulo, ainda não se conseguiu implementar o Plano Municipal de Transportes”, comparou.

“Em Medellín, na Colômbia, a urbanização de favelas (Viviendas com Corazón) é um dos melhores exemplos neste setor. Praticamente é autogestionado pela população”. No campo da coleta seletiva, um dos municípios com melhor performance no Brasil – ainda lanterninha nesta área – é o de Santana de Parnaíba, com 40%. Esses são alguns dos casos apurados no levantamento, que podem ser conferidos no site do projeto.

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20/05 - A reinvenção dos bairros no processo urbano
20/05 - Da Economia à cidade criativa
Sucena Shkrada Resk

20/05/2011 21:05
A reinvenção dos bairros no processo urbano, por Sucena Shkrada Resk

Os bairros são as células que precisam de planejamentos e ações pontuais para que a cidade tenha condições de pulsar em direção ao modelo sustentável. Essa é a conclusão tirada, quando ouvimos o urbanista Cândido Malta, um defensor obstinado, nas últimas décadas, do “agir local”. Mas a realidade é bem outra, como ele enfatiza. Apesar de o Plano Diretor de São Paulo já mencionar os “planos de bairro”, desde 2005, até hoje as diretrizes não saíram do papel. “O primeiro município do país a ter seu plano é Itapecerica da Serra, no bairro Branca-Flor”, diz o especialista, que participou da formulação do projeto.

“Os planos diretores não tratam dessa escala local, que envolve questões voltadas ao déficit de escolas, creches, quanto à necessidade das implementações e demandas”, afirma. Para ultrapassar essas barreiras, o urbanista considera que o ideal seria a adoção da chamada unidade de vizinhança, que significa ‘uma forma de reinventar o bairro’ , ou melhor, das unidades ambientais de moradia.

“Nessa perspectiva, as ruas se tornam espaços de convívio de crianças a idosos. Diante disso, não é adequado que os (equipamentos públicos) estejam em ruas de ligação, como acontece hoje, o que dificulta a locomoção dos moradores e a segurança da comunidade”.

Na avaliação de Malta, para que todas essas transformações ocorram é preciso capacitar o cidadão na constituição do orçamento do município, com visão de médio a longo prazo, começando pelo bairro onde vive. Nesse momento, são pensados o compartilhamento de vias pelos veículos e pedestres, a construção de equipamentos públicos etc.

“Para se efetivar o plano de bairro, a sociedade deve ser convocada sem discriminação, por meio de assembleias. Ainda é importante que o poder público reserve os terrenos para essas unidades (com as localizações pensadas em conjunto com os cidadãos) e facilite antecipadamente meios compensatórios aos atuais proprietários, por meio de isenção de Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU), entre outros mecanismos”.

Segundo o urbanista, nessa escala local, é possível se fazer levantamentos demográficos, de renda e de escolaridade mais precisos, que complementam os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Mais um ponto importante é no aspecto qualitativo. É preciso se fazer um levantamento de opinião dos próprios moradores (de uma forma sistematizada) sobre as demandas locais”.

O especialista foi um dos palestrantes do IV Encontro de Cultura e Sustentabilidade: Economia Criativa – Desafios e Rupturas para Construção de Uma Cidade Sustentável, que foi realizado hoje, dia 20, pela Fundação Tide Setubal, no Clube da Comunidade (CDC) de mesmo nome, em São Miguel Paulista, em São Paulo.

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20/05 - Da Economia à cidade criativa
Sucena Shkrada Resk

20/05/2011 19:17
Da economia à cidade criativa, por Sucena Shkrada Resk

Quando ouvimos a expressão ‘economia criativa’, no mínimo, imaginamos que está aí mais um novo jargão para incluirmos em nosso glossário. Mas se formos a fundo na história deste termo, a prática é muito mais antiga, como explica a economista e urbanista, Ana Carla Fonseca Reis. “Os próprios neandertais já faziam jóias naquele período".

Segundo antropólogos e arqueólogos, era algo vital cultivar a criatividade. "Não tinha caráter acessório, está com a gente há pelo menos 50 mil anos”, disse a especialista, durante o IV Encontro de Cultura e Sustentabilidade: Economia Criativa – Desafios e Rupturas para Construção de uma Cidade Sustentável, realizado hoje (20), pela Fundação Tide Setubal, no Clube da Comunidade (CDC) de mesmo nome, em São Miguel Paulista.

Ao se fazer uma pesquisa sobre esse conceito na contemporaneidade, há a seguinte definição na obra “The Creative Economy – How People Make Money From Ideas” (2001), do consultor inglês, John Howkins: é um conjunto de atividades mercadológicas provenientes da capacidade criativa e imaginativa dos indivíduos, que possibilita a geração de soluções e produtos, resultando em valor econômico.

Ele explica, que no campo empresarial, pode ser encontrado no departamento de “Pesquisa e desenvolvimento”. Está concentrado na esfera da propriedade intelectual. Há alusões de que o termo já existia desde os anos 90, em especial, na indústria cultural e do segmento das comunicações.

Segundo Ana Carla, no contexto da economia recente, o fator diferencial é justamente a criatividade de nosso povo, que representa um valor agregado intangível. Como desafio à sua expansão, em sua avaliação, está a necessidade da melhoria do acesso à educação. “Não somente no banco da escola, mas na aquisição de conhecimentos gerais...É preciso começar dentro de casa, no cotidiano de nossas famílias”. Algumas das ferramentas neste processo, em sua opinião, são a tecnologia digital, para ampliar o ‘espaço mental’ e o reconhecimento dos diferentes valores culturais.

Essa discussão, há cerca de sete anos, também se dirigiu a outro campo, o da constituição do perfil do que seria uma ‘cidade criativa’. De acordo com um levantamento feito com especialistas de 13 países (Brasil, Colômbia, França, Israel, Itália, Holanda e Noruega,...) a urbanista contou que se chegou a alguns consensos sobre o que são requisitos básicos. Um deles é o impulso a inovações, tendo em vista as mudanças constantes para se superar ou evitar problemas.

Como exemplo, a economista citou que em uma cidade norueguesa, onde chove demais durante o ano todo, foi descoberto que a água pode ser encarada como solução em um mundo que tem cada vez menos água potável. Dessa forma, se substituiu o problema oriundo do desastre natural (enchentes) pelo empreendedorismo na mudança de uso desse excesso de água pluvial.

Neste processo, outro ponto considerado importante é a construção de conexões. “Entre bairros, parcerias público-privadas, com a sociedade civil, somadas às contribuições das diversidades e do ambiente”, destacou Ana Carla.

“Num primeiro estágio, o foco é a catalisação de mudanças, liderança e a inclusão dos atores no processo. O segundo é a governança articulada (entre público e privado), em que a sociedade civil também se apropria, nesta fase”. São constituídos mapas geográficos, mentais (menor que a dimensão da cidade) e emocionais (ligados aos locais e bairros onde moramos e que gostamos).

Em Bogotá, por exemplo, foi criada a Rota Cidadã, que partiu da experiência de crianças, que no caminho entre a casa e escola, percebiam a insegurança. “A comunidade, então, decidiu criar essa rota, com a perspectiva de reverter essa situação. Contatou os comerciantes locais e aqueles que aderiam, colocavam um selo (como ponto de referência e apoio a esses estudantes)”.

Já em uma cidade inglesa, onde havia pouca movimentação de turistas, a partir desse processo conjunto, foi criada uma grande peça artesanal ao ar livre, com o formato de órgão, que revelava uma peculiaridade local – o poder do vento. Os visitantes ao verem a instalação, têm condições de ouvir diferentes sons reproduzidos pela peça, que chama a atenção das pessoas.

Sucena Shkrada Resk

15/05/2011 15:30
Nós e a responsabilidade compartilhada s/o consumo e destinação do lixo eletrônico,por Sucena S.Resk

André, Alexandre, Everton, Fabiana, Giovanni, José Roberto, José, Maria, Quitéria, Paulo, Solange, Vera, Ana e eu... O que temos em comum? Todos nós dividimos, nesta semana, nossa porção de aprendizes, que nos levou a compreender um pouco do universo sobre a responsabilidade compartilhada. Apesar de cada um ter uma história de vida diferente – alguns na labuta da vida de cooperados na área de reciclagem, outros na atuação técnica da gestão pública ou simplesmente no papel de cidadãos, estávamos juntos por um interesse: a capacitação sobre reciclagem de lixo eletrônico (ligado à informática).

A vivência ocorreu, durante a fase teórica do curso gratuito do Projeto Eco-Eletro, promovido pelo Instituto GEA Ética e Meio Ambiente e pelo Laboratório de Sustentabilidade da Escola Politécnica de São Paulo, da Universidade de São Paulo (Lassu/Poli/USP), com patrocínio da iniciativa privada, dirigido especialmente aos catadores. Um momento oportuno, tendo em vista o processo de implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que envolve a logística reversa – entre elas, do setor eletroeletrônico -, além da coleta seletiva, da meta do fim dos lixões e da geração de renda aos catadores, num horizonte de implementação até agosto de 2014.

Vou confessar que o que me levou a participar do módulo (ministrado por Ana Maria Domingues Luz - presidente do Instituto GEA, Walter Akio Goya, Daniel Maurício Magalhães de Paula e André Rangel de Souza, com apoio do Carlos Alberto Conde Regina) foi a necessidade de conhecimento básico, já que existe a ausência de informações sistematizadas sobre esse segmento.

Algo que sempre me incomodou foi o fato de ver todo o tipo de resíduo jogado indiscriminadamente e não saber exatamente qual fim é o correto, em muitos casos, no final do chamado ciclo de vida útil. Isso, tendo em vista, que é sabido que muitos seguem aos ‘lixões’ ou aterros e vão parar em terrenos baldios, o que não deveria ocorrer.

Nessa infinidade de produtos, estão inclusos nossos computadores, impressoras, como também, televisores, celulares, baterias, pilhas, que têm componentes contaminantes. Para tornar a situação mais complexa, muitos desses objetos estão cada vez mais obsoletos, ao mesmo tempo, que a propaganda massiva leva a um consumo desenfreado e desnecessário.

Mas segue o alerta: com a nova legislação, os fabricantes devem se responsabilizar nessa logística reversa e, nós, na separação. Enquanto, a forma de tudo isso ocorrer é formatada, já devemos ter a consciência de como proceder. Vale lembrar que algumas empresas se adiantam neste recebimento, por isso, não custa entrar em contato com os fabricantes da área de informática ou verificar se apresentam informações a respeito. No caso de pilhas, por exemplo, agências do Banco Santander, unidades da Drogaria São Paulo e do Pão de Açúcar têm os “papa-pilhas”.

A primeira lição retirada das aulas nesses últimos dias foi que, por muitas vezes, esses aparelhos, que nós consideramos sucatas, podem ser recuperados por técnicos e repassados a instituições. Isso ocorre no Centro de Descarte e Reuso de Resíduos de Informática (Cedir), inaugurado no fim de 2009, na USP. Há uma finalidade socioambiental atribuída a esse processo, no qual podemos ser agentes atuantes e deixar a passividade para trás. O interessante é que a instituição, no entanto, deve devolver o equipamento ao centro, quando parar de funcionar, para que não incorra em descartá-lo incorretamente. Com isso, tem a possibilidade de receber o empréstimo de outro em boas condições de utilização. Uma maneira de estimular o consumo consciente.

Mas o que não podemos perder de vista é que o equipamento aparentemente considerado irrecuperável para uso também é útil e pode gerar renda aos catadores capacitados na triagem, separação e comercialização dos componentes, que têm valor no mercado. Só que é aí que deve existir o cuidado para não colocar tudo a perder. O essencial é ter o conhecimento de como fazer o descarte e manipulação dessas peças.

Primeira orientação: nossos micros, monitores, impressoras... não podem ser jogados de qualquer jeito, nem serem expostos à umidade, chuva, queimados ou colocados junto ao resíduo orgânico ou corpos d´água, e sabem por quê? Por um motivo simples: têm substâncias contaminantes. Seguem alguns exemplos:
- Bário (capacitadores nas placas-mães...); Perigo: desde náuseas a crises convulsivas;
- Cádmio (bateria, chip, monitor CRT, cabos...)/ Perigo: envenenamento
- Chumbo (monitores grandes CRT, mais antigos, bateria, processador...)/Perigo: destruição dos ossos e do cérebro;
- Cromo (placa-mãe, fita de vídeo...)/Perigo: destruição do fígado, rim e pulmão;
- Mercúrio (bateria, monitor LCD, lâmpada de scanners, fluorescente...)/Perigo: lesões cerebrais graves.
Obs: Arsênio, nos celulares/Perigo: envenenamento.

Atenção do começo ao fim
Cabe tanto a quem doa, como também a quem vai manipular e fazer a separação dos componentes estarem atentos a isso. No caso dos catadores, são indispensáveis luvas com ou sem fio de aço, botas e, em alguns casos, máscaras, além de ferramentas adequadas, e nada de marretas!!!. E quem não levar esses cuidados a sério, está colocando em perigo muitas vidas.

A orientação hoje é que os catadores não recebam monitores e nem os desmontem, justamente por causa do chumbo ou mercúrio, dependendo do modelo. Muitos fabricantes já recebem o equipamento de volta, o que adianta o que a lei da PNRS, em implementação, determina, o que facilita ao consumidor fazer o descarte.

Tudo isso implica mudança de paradigmas no consumo, não é? E só para terem noção, nesses equipamentos são encontrados alumínio, plásticos, ferro e até ouro. Ao desmontá-los corretamente, o catador tem a oportunidade de ganhar com uma tonelada, 10 x mais, do que o mesmo peso do equipamento inservível completo. E mais uma curiosidade: a placa-mãe é a peça mais valiosa no computador, sabiam?

Um detalhe importante é que com relação aos cabos de cobre é preciso ter o comprovante de origem, tendo em vista que hoje há muitos furtos desse tipo de material, que obrigaram a fiscalização a ser mais rígida.

Objetivo: todo mundo ganhar
“A universidade tem o papel social, além da pesquisa. Com os catadores, há uma troca. Estamos aprendendo com eles. Precisamos ‘vender’ essa ideia ao mercado”, avalia a coordenadora do Lassu, a Doutora Tereza Cristina Melo de Brito Carvalho.

Ao todo, o projeto deverá atingir 180 alunos até o ano que vem. Agora, a minha participação por lá acabou, mas meus colegas catadores continuam por mais uma semana, colocando a mão-na-massa. É o momento de exercitarem o desmonte e separação das peças para poderem otimizar o trabalho futuramente em suas cooperativas.

Para dona Maria, seu marido Paulo e a sobrinha Solange, da região da famosa Cratera de Colônia, em Vargem Grande, a capacitação é uma oportunidade a mais de recomeçar a cooperativa, que está sendo reestruturada. “A gente tinha dúvidas de o que fazer com essas peças, da maneira certa”, conta Maria, que alertou seu marido sobre essa preocupação. O desafio de Fabiana e Quitéria, de Taboão, em Guarulhos, é repassar a mais de 70 cooperados o aprendizado. Enfim, todo mundo terá muito trabalho pela frente e o que podemos desejar é que tenham muita sorte nessa nova etapa.

Mais informações:
Instituto GEA - www.institutogea.org.br
Lassu - www.lassu.usp.br
Cedir - http://www.cce.usp.br/?q=node/266

Sucena Shkrada Resk

15/05/2011 11:15
Quem sabe qual é o texto atual do subst do PL do Código Florestal a ser votado?, por Sucena S.Resk

Praticamente 45 minutos. Esse foi o tempo que levei hoje em pesquisas e mais pesquisas no site da Câmara, no Google, em notícias variadas para poder chegar à íntegra da chamada “emenda substitutiva global de plenário nº 186, que altera o Projeto de Lei - PL 1.876/99, do novo Código Florestal ( http://www.camara.gov.br/internet/sileg/Prop_Detalhe.asp?id=502264), sob relatoria do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP)”. Confesso, que ainda estou com dúvida, se cheguei ao teor atual do documento.

Em um regime de transparência política, a dificuldade para que qualquer cidadão possa ler com atenção o conteúdo, que será votado na Casa, é realmente digno de menção. Cá com meus botões, faço a seguinte pergunta – quais deputados leram a nova redação disposta em 36 páginas, para ter o pleno conhecimento da pauta modificada? Comecei a ler agora, e isso leva tempo. Seria interessante que os itens alterados estivessem grafados, para facilitar a comparação com o relatório anterior.

Quando entramos no link do substitutivo, a última redação do PL que aparece é a que foi aprovada pela Comissão Especial da Câmara, em julho do ano passado. No campo de tramitação do projeto de lei (http://www.camara.gov.br/sileg/Prop_Detalhe.asp?id=17338), a mais recente atualização, do dia 12, diz o seguinte:
– “COORDENAÇÃO DE COMISSÕES PERMANENTES (CCP) Encaminhada à publicação. Parecer do relator, designado em Plenário, pela Comissão Especial às emendas de Plenário, publicado no DCD de 13/5/2011, Letra B”. – Qualquer leigo consegue entender o que isso quer dizer? E a remissão à emenda atualizada?

Sem entrar no mérito da polêmica que envolve o tema, principalmente no que tange a menos restrições em Áreas de Preservação Permanente (APPs) – (trecho em que Rebelo voltou atrás em seu parecer), Reservas Legais (RLs), anistia a infrações ambientais, o que está em discussão é fundamentalmente de interesse público e não pode se configurar como “privado”, o que tem se acentuado nos últimos meses. Coincidentemente, vale destacar que a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu 2011, como Ano Internacional das Florestas, o que facilita a visualização e acompanhamento sobre essa temática. O Ministério do Meio Ambiente (MMA) também criou uma página na internet, a respeito, com o nome “Ano da Floresta”.

Agricultura e meio ambiente não são antagônicos, será tão difícil compreender que o mau uso dos recursos da natureza penaliza o todo, o que infere também a visão economicista de mercado estruturada no Produto Interno Bruto (PIB)?

Essa legislação faz parte do dever e da cobrança por parte dos mais de 191 milhões de brasileiros e brasileiras, que vivem neste país. Mesmo os que hoje não têm idade suficiente para votar – nossas crianças e adolescentes - são parte profundamente envolvida, pois serão afetados direta e indiretamente pelas decisões tomadas agora. Afinal, não defendemos tanto a sustentabilidade, com o horizonte das futuras gerações? Ou é mais um discurso que fica no famoso “blá-blá-blá”.

O Código Florestal é parte integrante, quer queira, quer não, da configuração da Política de Estado, antes e depois da nossa Constituição de 1988, expressa na Lei de Crimes Ambientais, nas Políticas Nacionais do Meio Ambiente, de Educação Ambiental, de Recursos Hídricos, de Saneamento, sobre a Mudança do Clima, de Energia, da Biodiversidade, da Fauna e de Resíduos Sólidos, de Segurança Alimentar, do Estatuto das Cidades, da Reforma Agrária, entre outras. É estrutura, inclusive, do posicionamento do Brasil diante das ratificações em Tratados Internacionais, algo que é necessário não se perder a dimensão.

Mais um aspecto importante, que se pulverizou, nos últimos meses, foi o de expor à discussão com a sociedade, o que de fato está desatualizado na lei atual, de 1965, com suas emendas, e se a fiscalização sobre o cumprimento da mesma ocorre devidamente. Esclarecer porque se restringem ocupações e tipos de usos? E como não penalizar os pequenos agricultores, em sua subsistência, e a produção de alimentos no país, ao ter a visão de longo prazo x imediatista, com a premissa da pegada ecológica?

Desde o ano passado, ao fazer matérias a respeito do substitutivo do PL e ao acompanhar a pauta como qualquer cidadã (fui mais recentemente ao Seminário Nacional sobre o Código Florestal, que aconteceu no SENAC Consolação, em São Paulo, no último dia 7, sob organização de entidades do terceiro setor), foi impossível não observar a tônica da polarização. Sem dúvida alguma, é uma marca evidente, que demonstra ‘escancaradamente’ o jogo de poder e interesses corporativos, que envolvem a discussão sobre a legislação, o que conflita com a ideia do coletivo, do público, em primeiro lugar.

Ao analisar o histórico, é possível verificar que diversos setores - Governo, ambientalistas, pequenos agricultores, Ciência, áreas da Justiça e Direito, ruralistas e setor industrial se mobilizaram efetivamente com o “calor” do rumo da iminência da votação. Tanto que podemos ver recentemente a divulgação de inúmeros pareceres técnicos, socioeconômicos e ambientais a respeito. E fica difícil não questionar – Essas avaliações não deveriam estar em curso bem antes? Neste país, tudo funciona sob pressão? Vale lembrar, que o PL inicial é de 1999.

Pesquisei algumas notícias e documentos, que considero interessantes, para que nós da sociedade, possamos nos inteirar minimamente do atual estágio dessa discussão, e com isso, obter mais informações sobre o tema:
- 13/5 – Nota do PV sobre o relatório do Código Florestal (Fonte: Agência Câmara)
- 12/5 - Votação do Código Florestal está adiada indefinidamente, diz líder do governo - http://www2.camara.gov.br/agencia/noticias/MEIO-AMBIENTE/197011-VOTACAO-DO-CODIGO-FLORESTAL-ESTA-ADIADA-INDEFINIDAMENTE,-DIZ-LIDER-DO-GOVERNO.html (Fonte: Agência Câmara)
- 10/5 - SBPC e ABC divulgam FAQ sobre o Código Florestal -
http://www.sbpcnet.org.br/site/home/home.php?id=1478
- Relatório O Código Florestal e a Ciência – Contribuições para o Diálogo (SBPC/ABC) - http://www.sbpcnet.org.br/site/arquivos/codigo_florestal_e_a_ciencia.pdf
- 04/05 - CNA divulga Nota Oficial sobre atualização do Código Florestal - http://www.agrolink.com.br/aftosa/noticia/cna-divulga-nota-oficial-sobre-atualizacao-do-codigo-florestal_129711.html (Fonte: CNA)
- Site: SOS Florestas - http://www.sosflorestas.com.br/
- Ano Internacional das Florestas (ONU) - www.un.org/en/events/iyof2011/
- Ano da Floresta (MMA) - http://www.anodafloresta.com.br/
- Lei vigente do Código Florestal (nº 4.771/65) - http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L4771.htm

Obs: o governo não divulgou o seu relatório técnico atual, o que seria importante compartilhar com a sociedade, já que tem uma posição anunciada sobre o substitutivo.

Sucena Shkrada Resk

03/05/2011 13:50
O apelo contra a desumanidade, por Sucena Shkrada Resk

No período desta manhã, durante o 2º Fórum Democracia & Liberdade, realizado na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo, pelo Instituto Millenium, o que mais mexeu com a emoção do público, foi o depoimento de Mina Ahadi, 54 anos, ativista iraniana e coordenadora do Comitê Internacional contra o Apedrejamento de Mulheres, criado em 2001. Ela trouxe uma mensagem carregada de um histórico de lutas, iniciado desde seus 19 anos, que a obrigou a mudar de vários endereços e se exilar em Colônia, na Alemanha, com seus dois filhos, onde vivem desde 1996.

Sua indignação com a adoção de apedrejamentos em países do Oriente, estupros, a falta de liberdade de expressão feminina, a levou a se mobilizar em 2010, em uma campanha mundial contra o apedrejamento da iraniana Sakineh Mohammadi, por suposto adultério.

"...Muitos amigos e amigas foram executados por defenderem a causa. O que pedimos é que todos tenham os mesmos direitos, independente de gênero...Para mim, a democracia existe quando as pessoas têm possibilidade de viver com bem-estar e liberdade de opinião..."

Hoje, ela pleiteia uma reunião com a presidente Dilma Rousseff, para obter o apoio do Brasil mais efetivo à causa.
Sucena Shkrada Resk

01/05/2011 15:31
Suassuna, em verso e prosa, por Sucena Shkrada Resk

O escritor, poeta, dramaturgo e historiador Ariano Suassuna, 84 anos, no palco, e o geógrafo Aziz Ab´Saber, 87, na plateia. Poderia haver combinação mais emocionante de se flagrar? Presenciei esse bonito quadro, neste sábado, 30 de abril, no teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo, durante a aula-espetáculo do escritor paraibano, radicado em Recife. Por mais uma vez, ele superou ‘sua aversão’ às viagens aéreas, para trazer aos paulistanos, um pouco de sua vasta contribuição à cultura brasileira.

Durante quase duas horas, compartilhei uma viagem no tempo. Um ir e vir de trocadilhos, glosas, críticas aos preconceitos à cultura de raiz, além de um humor perspicaz, que provocou risos largos do público. Essa gama de informações trouxe à tona importantes momentos da carreira do criador do Movimento Armorial, reconhecido internacionalmente por obras, como “Auto da Compadecida” (1955).

O Movimento Armorial foi iniciado por Suassuna, em Recife, em 18 de outubro de 1970, com o propósito de ampliar o reconhecimento das raízes das manifestações populares culturais brasileiras, e até hoje ele mantém um trabalho neste sentido.

Em vez de me estender em interpretações, decidi optar por transcrever algumas frases que ouvi de sua exposição, ontem, e compartilhá-las com vocês:
-“... Minha posição tem caráter didático. Fui professor, durante minha vida toda, desde os 17 anos...”
- “...Até hoje me espanto com o poder de improviso que têm os cantadores. Que coisa extraordinária...”
- “Fui criado lendo...Além da leitura, eu me encantei pelo circo...
- “Gosto de rir e fazer rir...”
- “Quero desmoralizar esse pessoal que diz que o povo brasileiro não sabe o que é bom...Mas se apresentarem a ele só o que é ruim...”
- “...O que acho mais bonito em nosso povo é a unidade na diversidade...”

Foram tantas passagens contadas de forma coloquial pelo escritor, que seria impossível descrevê-las em um resumo. Mas de tudo que transmitiu, extrai o seguinte - Por muitas vezes, reclamamos da vida, por pequenas discordâncias, mágoas por palavras mal empregadas ou rompantes de sentimentos enraivecidos. Nesses momentos, esquecemos que a vida pode ser poética, harmoniosa, com risos largos e esperançosa. Quando conhecemos pessoas, no alto de sua maturidade, que produzem e nos incentivam, provocando nossa reforma íntima, sentimos o quanto é preciso lutar pelo envelhecimento com dignidade.

Ao falar com o professor Ab`Saber, ao término da apresentação, eu obtive mais uma lição de humildade. Ele contou que estava vendo pela primeira vez uma ‘aula’ de Suassuna e havia se encantado. Nas entrelinhas, deu o seguinte recado - um bom educador e pensador nunca se cansa de aprender. E com mais um detalhe, digno de nota. Apesar de aposentado e com dificuldade para caminhar, ele praticamente vai todo dia à Universidade de São Paulo (USP), estudar e compartilhar conhecimentos. E completou - “Uma vez (Suassuna) foi à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) para fazer uma palestra, que foi tão interessante, que depois dele, ninguém mais queria falar (rs)”.

Esses momentos singulares não pararam por aí. Ainda tive a oportunidade de entrevistar Suassuna em coletiva de imprensa, para finalizar o conteúdo para uma matéria que estou produzindo. Um momento especial nos bastidores de minha carreira. No final da noite, já cansado de tanto atender aos apelos dos jornalistas – inclusive, o meu, é claro rs -, gentilmente, ele autografou o livro Almanaque Armorial, com organização de Carlos Newton Júnior, pela José Olympio, que eu havia comprado lá, para conhecer um pouco mais de seu trabalho.

Sucena Shkrada Resk

26/04/2011 21:28
A “sociedade do lixo”: 60.868.080 toneladas só em 2010, por Sucena Shkrada Resk

A expressão “sociedade do lixo” se tornou um chavão, mas com profundo sentido. Hoje fui à prévia do Fórum Brasileiro de Resíduos Sólidos, em São Paulo, em que a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais - Abrelpe divulgou o resumo da atual edição do Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, que reitera o alerta à nossa sociedade de consumo. Afinal, em um país, no qual em 2010, produzimos 60.868.080 toneladas (t) de resíduos sólidos urbanos (RSU), cerca de 7,7% a mais do que o ano anterior, exige que repensemos nosso modelo de vida. Estou me incluindo nisso, é claro!

Por meio dessas informações, que nos envolvem em uma torrente de números e percentuais, é possível extrair que é preciso muito empenho para que a Política Nacional de Resíduos Sólidos (nº 12.305/10), regulamentada pelo Decreto (nº 7.404/10) seja, de fato, implementada, com um Plano Nacional objetivo e eficaz.

Acordos setoriais (segmentos de embalagens de agrotóxicos e defensivos, pneus, óleos lubrificantes, pilhas e baterias, lixo eletroeletrônico e lâmpadas com mercúrio, descarte de medicamentos e embalagens variadas), investimentos em educação ambiental e para o consumo consciente, em aterros sanitários, na coleta seletiva, em uma relação digna de geração de renda aos catadores (expectativa trazida pelo Programa Pró-Catador, instituído pelo Decreto nº 7.405/10), na logística reversa, e tantas outras iniciativas exigem a participação de todos indistintamente.

É importante ressaltar que foram estipulados prazos e os mesmos estão passando. Para a apresentação do Plano Nacional (com horizonte de pelo menos 20 anos), é em junho. Já para o fim dos lixões, 2 de agosto de 2014, quando também deverá estar em vigor a coleta seletiva em todo o país. Um processo nada fácil, diante do cenário construído até agora.

O que não me sai da cabeça é que esses dados são mais um motivo para ligar o sinal vermelho aos excessos, futilidades, e à construção anunciada de cenários, como vimos nesta semana, do incidente em Itaquaquecetuba - veja matéria veiculada na Agência Brasil. A fatia do bolo dos resíduos coletados é a seguinte – Sudeste (53,1%); Nordeste (22%); Sul (10,8%); Centro-Oeste (8%) e Norte (6,1%).

Uma observação interessante feita por Carlos Silva Filho, diretor-executivo da entidade, é que de 2009 para 2010, o aumento populacional foi na faixa de 1%. Isso quer dizer que produzimos muito mais resíduos no período (6%, pelo menos). “As metas a serem alcançadas envolvem a separação de resíduos e de rejeitos, medidas de preservação ambiental, redução de desperdício, de aplicação da hierarquia da geração de resíduos (redução, reuso, reciclagem, tratamento e disposição no solo). Para isso, é preciso planejamento estratégico intersetorial, com soluções integradas”, disse.

Segundo o levantamento do relatório, cada habitante produz em média anualmente 378,4 quilos de ‘lixo’ (expressão que não é mais politicamente correta, mas coloquial) ou 1,213 quilos por dia, uma quantidade similar a países, como Canadá (382 quilos/hab/ano – dados 2006-2007), como observei em uma tabela apresentada.

De todo esse volume, entretanto, coleta-se 1,079 kg/hab/dia. “Cerca de 6 milhões de t deixaram de ser coletadas em 2010”, disse. É uma quantidade tão expressiva, que ao pararmos para pensar, a encontramos em todos os cantos de nossas cidades, nas ruas, parques, terrenos baldios, em nossos córregos, rios, várzeas, morros, ...

E para onde vai todo o resíduo coletado? É aí que detectamos mais um desafio e tanto que, talvez, não dediquemos a devida atenção. No ano passado, 22.962.948 t (42,4%) foram encaminhadas a destinos inadequados (lixões e aterros controlados), contra 21,7 milhões em 2009. Regionalmente, de acordo com o levantamento, a região Centro-Oeste é a lanterninha, ao computar 71,2% da destinação inadequadamente, seguida pelo Nordeste (66%) e Norte (65%).

Os 31.194.948 (57,6%) restantes seguiram a aterros sanitários. Mas diante dessas informações, me surgiu uma pergunta – em que situações e condições de vida útil?

Será que tudo é orgânico? Obviamente, que não. Mais uma vez, o levantamento aponta nesta direção. Muito material reciclável vai junto, e como vai. O relatório registra que existe “algum tipo de coleta seletiva’, sem inferir qualidade ou quantidade, em 57,6% dos municípios e 42,4% não mantêm nenhum tipo de iniciativa. Os dados foram obtidos por meio de informações prestadas pelas prefeituras. “Um aspecto relevante é que 8% das cidades com 500 mil habitantes ou mais não possuem qualquer tipo de iniciativa”, destacou Filho.

Com relação aos resíduos da construção e demolição, houve um aumento de 8,7% com relação a 2009, mais do que o percentual geral de RSU. No ano passado, foram coletadas 30.998 milhões de t, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil. No caso dos resíduos da saúde, a situação ainda é mais preocupante. Só para se ter noção 27,5% seguem para aterros e 15,4% para lixões...

Ao todo, foram pesquisados 350 municípios brasileiros – 32 (Norte); 109 (Nordeste); 25 (Centro-Oeste); 127 (Sudeste) e 57 (Sul), onde vivem 79,7 milhões de habitantes.

O documento será disponibilizado no site da Abrelpe.

Sucena Shkrada Resk

25/04/2011 20:27
Campanha Banda Larga é um direito seu! lançada hoje, por Sucena Shkrada Resk

Mais de 40 entidades lançaram hoje a Campanha Banda Larga é um direito seu. É uma iniciativa que visa combater os valores altos ainda aplicados para se obter os serviços e melhorar a qualidade do sistema.

Entre os argumentos utilizados, está o de que 'é preciso pensar a banda larga como um serviço essencial. A internet é instrumento de efetivação de direitos fundamentais e de desenvolvimento, além de espaço da expressão das diferentes opiniões e manifestações culturais brasileiras por meio da rede'.

Sucena Shkrada Resk

23/04/2011 10:06
Compartilhando - Oração à Mãe Terra, de Leonardo Boff

Oração à Mãe Terra
22/04/2011
por Leonardo Boff
Nota: No dia 22 de abril de 2010, numa sessão solene, a ONU votou o projeto de mudar o Dia da Terra que seria hoje para o dia da Mãe Terra. Coube a mim e a ao Presidente Evo Morales fazer a sustentação política (Evo) e a científica, ética e espiritual (eu). A mudança foi aprovada por unanimidade, por 192 votos. Essa mudança é carregada de boas consequências. Terra a gente pode comprar,vender e usar. Mãe a gente não compra nem vende nem usa, mas ama, cuida e venera. Assim devemos fazer com a nossa Grande Mãe, Pacha Mama, a Terra. Neste contexto fiz a seguinte oração: lb

“Terra minha querida, Grande Mãe e Casa Comum! Vieste nascendo, lentamente, há milhões e milhões de anos, grávida de energiais criadoras.

veja a íntegra no blog de Leonardo Boff, no Wordpress.
Sucena Shkrada Resk

22/04/2011 20:49
Dica de vídeo - Uma Chance para viver, por Sucena Shkrada Resk

Assisti ontem o filme Uma Chance para viver, com direção de Dan Ireland, baseado no livro Her-2, de Robert Bazell! É uma história verídica, muito sensível e motivadora! Trata-se do empenho do médico oncologista Dennis Slamon (interpretado por Harry Connick Jr.), que lutou por 12 anos, por sua pesquisa referente a uma droga contra o câncer de mama.

Ele enfrentou muita resistência da indústria farmacêutica, de outros cientistas, mas não desistiu, por nenhum momento, conquistando o apoio de pessoas solidárias à causa - e no final, o medicamento hoje auxilia no tratamento de milhares de mulheres.

Sucena Shkrada Resk

22/04/2011 18:10
Parte 3- As mobilizações pelo PNE e pela Carta da Terra, por Sucena Shkrada Resk

A universalização da comunicação sobre o projeto de Lei (PL) nº 8035/2010, do Plano Nacional de Educação (PNE), e a Carta da Terra é uma tarefa sem hora e data marcada para acabar e ainda precisa superar o ‘fantasma’ da exclusão. Isso obviamente não quer dizer que não existam movimentos articulados, que fomentam dia a dia a multiplicação da discussão sobre essas pautas. Com certeza, todas essas iniciativas são importantes, mas é preciso muito mais informações e reflexões a respeito. Afinal, o país é formado por praticamente 191 milhões de cidadãos.

No CE, por exemplo, foi lançada a Campanha PNE Pra Valer, no último dia 18, que reúne desde legisladores a entidades do terceiro setor. No período de 29 a 30 deste mês, a XXX Sessão Plenária do Fórum Paranaense em Defesa da Escola Pública, em Curitiba, terá como tema o "Plano Nacional de Educação: Diretrizes e Metas à Luz do Documento Final da Conae".

De 2 a 8 de maio, o PL terá um destaque importante na Semana de Ação Mundial (SAM), que integra a Campanha Global pela Educação, e é coordenada no Brasil, pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação. Em fevereiro, a entidade e a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação entregaram um documento com mais de 70 propostas de emendas, para a relatora Fátima Bezerra (PT).

CARTA DA TERRA
A Carta da Terra, por sua vez, lançou uma campanha mundial de comunicação ,por meio de um vídeo de 60 segundos (aqui no Brasil, em português), que já pode ser acessado e multiplicado. Saiba mais no site da Carta da Terra Brasil . Para a garotada, outra opção com uma linguagem mais acessível pode ser encontrada no site Carta da Terra .

Veja também:
22/04/2011 - Parte 2 – O PNE, a Carta da Terra e a comunicação
22/04/2011 - Parte 1 - O Plano Nacional de Educação e a Carta da Terra
Sucena Shkrada Resk

22/04/2011 11:44
Parte 2 – O PNE, a Carta da Terra e a comunicação, por Sucena Shkrada Resk

Dando continuidade à reflexão sobre o projeto do Plano Nacional de Educação (2011-2020) e sua relação com a Carta da Terra, resolvi introduzir agora, o papel da comunicação. Essa é a liga entre os diversos atores envolvidos e responsável por humanizar ou desumanizar a questão.

Em um primeiro momento, quais são os atores de que estamos realmente tratando? Vou falar sobre alguns, que estão inseridos na figura de nossa sociedade e dos chamados personagens institucionais. É aí que percebemos que ninguém escapa dessa responsabilidade:
- estudantes; pais e responsáveis; educadores; agentes administrativos escolares (diretores, reitores, vices, coordenadores pedagógicos, inspetores...); merendeiros: faxineiros;
- comunicadores, educomunicadores; gestores públicos; técnicos; empresários...
- diretorias (escolas, de ensino – públicas e privadas...), secretarias (municipais, estaduais), reitorias, Ministério da Educação, associação de pais e mestres, de amigos de amigos, centros estudantis, sindicatos patronais e profissionais de cada categoria, associações em defesa do consumidor;
- entidades do terceiro setor, setores de RH, sustentabilidade, responsabilidade social das empresas;
- IBGE, IPEA, os mais diversos institutos de pesquisas, UNESCO, UNICEF, PNUMA, PNUD...;
- mídia em geral (publicações jornalísticas, publicitárias, de marketing)...

Somos todos nós! Mas será que temos essa dimensão participativa? Claro, que não, pois se tivéssemos, a educação no país e o nosso papel como cuidadores e parte do Planeta não estariam tão aquém do ideal.

Nesse contexto, a comunicação se torna chave fundamental para tecer essas relações. Estou falando da integração de ser humano com ser humano até a mais ampla, na figura institucional. E é por esse caminho, que vejo que somos uma sociedade ainda excludente.

Vou citar um exemplo básico – a própria discussão do PNE e a multiplicação da mensagem da Carta da Terra. Eis alguns questionamentos para refletirmos:
- Quem faz essa discussão hoje?
- Por quais meios? (na conversa informal, na formal, pela internet, pela TV, pelos meios impressos...?
- Com qual linguagem?
- Com qual propósito?
- Para quem é tecida essa rede de comunicação?
- Incluímos: os “cerca” de 14 milhões de analfabetos? As 700 mil crianças fora da escola, como atores, neste processo?
- os mais invisíveis ainda, que ainda no século XXI, não têm sua certidão de nascimento e nem fazem parte da estatística? Será que o Censo 2010 deu conta desses cidadãos?
- os “letrados”, que estão em nossos lares, nas escolas e nas universidades ou que já saíram dela?
- E por aí vai...
E segue mais uma questão para nós refletirmos: Por que esses documentos, que registram metas, diretrizes e estratégias são importantes? Ou são mais papéis sem sentido prático? Na parte 3, continuamos essa conversa...

Veja mais:
22/4 – Parte 1 – o Plano Nacional de Educação e a Carta da Terra, por Sucena Shkrada Resk


Sucena Shkrada Resk

22/04/2011 09:52
Parte 1 - O Plano Nacional de Educação e a Carta da Terra, por Sucena Shkrada Resk

Tudo passa pela educação formal, não-formal e informal, quando observamos as constatações e propostas presentes na Carta da Terra. Isso quer dizer que o ingrediente da sensibilidade é inato a cada um de nós, mas precisa de incentivo para ser aflorado. Precisamos obter o conhecimento com QUALIDADE que aguce nossa capacidade de cognição. Isso está muito além do “saber” ler e escrever o idioma de nossa terra ou de outros países ou fazer as quatro formulações aritméticas.

É aí que está o grande nó a desatar – compreendermos o nosso papel no planeta, os enunciados e as entrelinhas, para que assumamos nossos papéis como protagonistas. E quando vemos a proposta do Plano Nacional de Educação (PNE), para o período de 2011-2020, que está sob análise no Congresso Nacional, é notório que detectamos que estamos longe disso, ao longo das décadas. A discussão sobre esse assunto tem mais um desafio a enfrentar – sair do universo das estatísticas, para humanizar as complexas relações envolvidas em cada número.

Quando vamos pesquisar dados a respeito, é quase que uma sentença – o que nos chega são os percentuais “sem nomes”. No ano passado, alguns números levantados pelo Ministério da Educação (MEC) já sinalizavam que o país não havia atingido as diretrizes do PNE anterior. Para se ter ideia, na ciranda das estatísticas, os percentuais eram os seguintes:
-10% de analfabetos com 15 ou mais;
- 13% de repetência no ensino fundamental;
- 13,7% de matriculados entre 18 e 24 anos no ensino superior.

O Brasil, segundo relatório recente da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (UNESCO), está em 88º lugar em ranking de educação, numa lista com 127 países. O estudo aponta que há cerca de 700 mil crianças em idade escolar primária que não estão estudando e 14 milhões de adultos analfabetos. Por outro lado, há outros milhares de estudantes que se encontram no “sistema de ensino formal”, mas com um déficit considerável de aprendizado.

Quem são essas pessoas? Meus e seus vizinhos, parentes, colegas, nossos compatriotas em nossos bairros, cidades, estados, de outros estados? Quais os seus nomes, suas histórias e expectativas? Quando vemos as macro-análises e, inclusive, as regionalizadas, temos dificuldades em fazer essas abordagens. A questão é simples – os detalhes estão no âmbito das famílias, das unidades escolares, das associações de amigos de bairro, das Agendas 21 locais, o que no fundo, refletem os princípios da Carta da Terra. Sim, isso mesmo, uma teia de inferências.

Com todos esses desafios expostos, de uma maneira geral, o novo PNE não traz nada que desconheçamos que precisa melhorar, não é verdade?:
I - erradicação do analfabetismo;
II - universalização do atendimento escolar;
III - superação das desigualdades educacionais;
IV - melhoria da qualidade do ensino;
V - formação para o trabalho;
VI - promoção da sustentabilidade socioambiental;
VII - promoção humanística, científica e tecnológica do País;
VIII - estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em educação
como proporção do produto interno bruto;
IX - valorização dos profissionais da educação; e
X - difusão dos princípios da equidade, do respeito à diversidade e a gestão
democrática da educação.

E qual é a meta da Carta da Terra? Identifiquei algumas, para que possamos refletir:
“...Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz...”.

E no seu item 9-b, diz o seguinte – “...Erradicar a pobreza como um imperativo ético, social e ambiental...Prover cada ser humano de educação e recursos para assegurar uma subsistência sustentável, e proporcionar seguro social e segurança coletiva a todos aqueles que não são capazes de manter-se por conta própria.

Já no 11/c – “Afirmar a igualdade e a eqüidade de gênero como pré-requisitos para o desenvolvimento sustentável e assegurar o acesso universal à educação, assistência de saúde e às oportunidades econômicas - c. Fortalecer as famílias e garantir a segurança e a educação amorosa de todos os membros da família.

No 14/c-d – “Integrar, na educação formal e na aprendizagem ao longo da vida, os conhecimentos, valores e habilidades necessárias para um modo de vida sustentável. - b. Promover a contribuição das artes e humanidades, assim como das ciências, na educação para sustentabilidade. - d. Reconhecer a importância da educação moral e espiritual para uma subsistência sustentável.

Agora, voltemos às metas do PNE (2011-2020), mas não “esfriemos’ a discussão, por causa da síntese mais uma vez estatística, que pode nos desvirtuar de fazermos uma imersão mais ‘sensível’:

Meta 1: Universalizar, até 2016, o atendimento escolar da população de quatro e cinco anos, e
ampliar, até 2020, a oferta de educação infantil de forma a atender a cinquenta por
cento da população de até três anos.

Meta 2: Universalizar o ensino fundamental de nove anos para toda população de seis a
quatorze anos.

Meta 3: Universalizar, até 2016, o atendimento escolar para toda a população de quinze a
dezessete anos e elevar, até 2020, a taxa líquida de matrículas no ensino médio para
oitenta e cinco por cento, nesta faixa etária.

Meta 4: Universalizar, para a população de quatro a dezessete anos, o atendimento escolar aos
estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades
ou superdotação na rede regular de ensino.

Meta 5: Alfabetizar todas as crianças até, no máximo, os oito anos de idade.

Meta 6: Oferecer educação em tempo integral em cinquenta por cento das escolas públicas de
educação básica.

Meta 7: Atingir as seguintes médias nacionais para o IDEB

Meta 8: Elevar a escolaridade média da população de dezoito a vinte e quatro anos de modo a
alcançar mínimo de doze anos de estudo para as populações do campo, da região de
menor escolaridade no país e dos vinte e cinco por cento mais pobres, bem como
igualar a escolaridade média entre negros e não negros, com vistas à redução da
desigualdade educacional.

Meta 9: Elevar a taxa de alfabetização da população com quinze anos ou mais para noventa e
três vírgula cinco por cento até 2015 e erradicar, até 2020, o analfabetismo absoluto e
reduzir em cinquenta por cento a taxa de analfabetismo funcional.

Meta 10: Oferecer, no mínimo, vinte e cinco por cento das matrículas de educação de jovens e
adultos na forma integrada à educação profissional nos anos finais do ensino
fundamental e no ensino médio.

Meta 11: Duplicar as matrículas da educação profissional técnica de nível médio, assegurando
a qualidade da oferta.

Meta 12: Elevar a taxa bruta de matrícula na educação superior para cinquenta por cento e a
taxa líquida para trinta e três por cento da população de dezoito a vinte e quatro anos,
assegurando a qualidade da oferta.

Meta 13: Elevar a qualidade da educação superior pela ampliação da atuação de mestres e
doutores nas instituições de educação superior para setenta e cinco por cento, no
mínimo, do corpo docente em efetivo exercício, sendo, do total, trinta e cinco por
cento doutores.

Meta 14: Elevar gradualmente o número de matrículas na pós-graduação stricto sensu, de
modo a atingir a titulação anual de sessenta mil mestres e vinte e cinco mil doutores.

Meta 15: Garantir, em regime de colaboração entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os
Municípios, que todos os professores da educação básica possuam formação
específica de nível superior, obtida em curso de licenciatura na área de conhecimento
em que atuam.

Meta 16: Formar cinquenta por cento dos professores da educação básica em nível de pósgraduação
lato e stricto sensu e garantir a todos formação continuada em sua área de
atuação.

Meta 17: Valorizar o magistério público da educação básica, a fim de aproximar o rendimento
médio do profissional do magistério com mais de onze anos de escolaridade do
rendimento médio dos demais profissionais com escolaridade equivalente.

Meta 18: Assegurar, no prazo de dois anos, a existência de planos de carreira para os
profissionais do magistério em todos os sistemas de ensino.

Meta 19: Garantir, mediante lei específica aprovada no âmbito dos Estados, do Distrito Federal
e dos Municípios, a nomeação comissionada de diretores de escola vinculada a
critérios técnicos de mérito e desempenho e à participação da comunidade escolar.

Meta 20: Ampliar progressivamente o investimento público em educação até atingir, no
mínimo, o patamar de sete por cento do produto interno bruto do País.

Com tanta informação, nossa mente precisa de um tempo para assimilação. Paremos um pouco para pensar sobre esses dados, para continuarmos a discuti-los na parte 2 dessa reflexão, que trata dos aspectos das estratégias e do que está possivelmente errado na comunicação... Afinal, é um assunto tão denso, que não se esgota...

Vejam na íntegra:
Projeto de Lei PNE – Plano Nacional de Educação (2011-2020) .
Sucena Shkrada Resk

21/04/2011 10:45
Carta da Terra: muito além da utopia, por Sucena Shkrada Resk

A Carta da Terra vai muito além da utopia, do imaginário. Ela é factível em nossas reformas íntimas, que transbordam à prática cotidiana, nos pequenos detalhes que se tornam grandes. Nós, que fazemos parte dessa humanidade, talvez estejamos ainda na fase da infância para incorporá-la em sua plenitude. Mas se fomos capazes de construí-la em nossa intenção, somos capazes de edificá-la...

Quando lemos e relemos o texto (http://www.cartadaterrabrasil.org/prt/text.html) e nos deixamos envolver por todas as mensagens tão contundentes e realistas, que lá estão expressas, dá uma ânsia por transformar o mundo em um lar solidário, inclusivo, bem cuidado. Depois de chegar à última palavra, a única coisa que emerge, é querer fazer parte dessa jornada.
Sucena Shkrada Resk

19/04/2011 11:05
Atmosfera paulistana na Virada Literária, por Sucena Shkrada Resk

Durante a Virada Literária, promovida pela Libre - Liga Brasileira de Editoras, em parceria com a Secretaria de Cultura e a Biblioteca Mario de Andrade, no último dia 16, tive uma experiência muito gratificante, ao poder ler três textos sobre São Paulo, de autores como Sérgio Milliet, no livro Paixão Por São Paulo, organizado por Luiz Roberto Guedes, pela Terceiro Nome; e de Heródoto Barbeiro. Ainda acompanhei a leitura feita de outras obras por autores - como Roniwalter Jatobá - e de anônimos, como eu, que entraram nessa atmosfera deliciosamente paulistana. Escutamos um pouco de Clarice Lispector, de Camões, de Shakespeare... A noite agradável ficou mais gostosa, ao som de músicas ao piano, tocadas por artistas que se apresentaram na Praça Dom José Gaspar.

Sucena Shkrada Resk

18/04/2011 19:58
Pensata:Requinte de crueldade reflete necessidade da mobilização para a paz, por Sucena Shkrada Resk

Neste domingo, vi uma matéria, no Domingo Espetacular, que já havia repercutido por toda mídia, que me deixou indignada e muito triste com o requinte de maldade a que pode chegar o ser humano. Um filhote de pitt bull sofreu queimaduras graves, com óleo quente, em Jaguariúna, e por sorte foi encontrado e, agora, está em fase de recuperação. O animal que estava agonizando em um terreno baldio, próximo à estrada de ferro, está sendo tratado em uma clínica veterinária, entretanto, ficará com muitas sequelas e deverá passar por cirurgia.

Ao ver o cachorro, foi impossível não perceber o sofrimento pelo qual está passando. Fiquei com um nó na garganta, ao olhar parte de seu rosto desfigurado, além de outras partes de seu corpo afetadas. Nós, sequer, temos noção de quantos episódios como este se repetem cotidianamente com animais, seres humanos, enfim, com a natureza. Esse exemplo de brutalidade é mais uma prova da violência velada que está em nossa sociedade e que necessita ser combatida com a mobilização pela paz, que nutra desde a infância, o respeito ao outro, incentive o querer bem e a afetividade.

Sucena Shkrada Resk

15/04/2011 17:42
Poluição - Por outro lado, são mais de 7 milhões de chances para tudo mudar, por Sucena Shkrada Resk

Existem alguns recordes, que não são motivo de orgulho, quando se tem por objetivo a melhoria da qualidade de vida nas grandes metrópoles. Um deles é a marca de São Paulo, de até março, registrar 7.012.795 veículos (5.124.568 carros, 889.164 motos, triciclos e quadriciclos, 718.450 micro-ônibus, caminhonetes e utilitários, 158.190 caminhões e 42.367 ônibus), segundo o Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (DETRAN). O que torna essa realidade mais impactante é que no município há uma população de cerca de 11 milhões de habitantes.

Por outro lado, podemos enxergar esses números superlativos sob um outro prisma. Significam que há mais de 7 milhões de chances para a racionalização da circulação dessa frota ‘homérica’, a partir do momento que os condutores, suas famílias e as empresas que a utilizam, otimizarem a relação com os meios de transporte, tendo em vista, que nestes dados não estão computados o metrô, trem e as bicicletas, além da opção da caminhada, dependendo das circunstâncias, além da opção da carona solidária. Tudo isso, somado a ações efetivas do poder público. O que não é possível é que as pessoas usem os automóveis e motocicletas durante os sete dias da semana.

Afinal, isso é algo imperativo, tendo em vista a densidade cada vez maior dos congestionamentos, das partículas finais que seguem para a atmosfera que comprometem nossa saúde, da formação das ilhas de calor, da poluição sonora e do estresse provocado por horas no trânsito. Tudo isso ganha maiores proporções, com as más condições de manutenção de muitas vias, com as intempéries climáticas e pela imprudência praticada por alguns motoristas.

Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), só em 2009, morreram em decorrência de acidentes de trânsito na cidade, 1.342 pessoas. Quando se regionaliza as piores situações, quanto ao número de mortes de ocupantes de automóveis e caminhonetes por cem mil habitantes, por local de moradia da vítima, as concentrações maiores são encontradas nas regiões das subprefeituras de Ermelino Matarazzo, Parelheiros e Mooca. As informações fazem parte do Programa de Aprimoramento das Informações de Mortalidade no Município de São Paulo (Pro-Aim)/Secretaria Municipal de Saúde (SMS), elaboradas pelo Kairós.

Entretanto, há outras milhares de mortes relacionadas à poluição. Como destaca o patologista Paulo Saldiva, coordenador do Laboratório de Poluição Atmosférica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), a qualidade do ar já reduziu a expectativa de vida do paulistano em um ano e meio em média – o equivalente a fumar quatro cigarros por dia.

Leia também no Blog Cidadãos do Mundo:
30/01/2010 -Esp.FSM 2010 - Como a população se integra à política pública
04/10/2009 - Poluição: a importância da pesquisa
16/08/2009 - Saúde Ambiental: A poluição que nos consome
18/03/2009 - Ilhas urbanas
10/12/2008 -A polêmica do enxofre

Sucena Shkrada Resk

12/04/2011 10:21
Fukushima é a Tchernobyl de hoje, por Sucena Shkrada Resk

‎Fukushima é a Tchernobyl de hoje ou talvez pior. Já está no nível 7, segundo as autoridades japonesas. A zona de evacuação ao redor está sendo ampliada, no entanto, e tudo que já foi para o mar, para o solo e a atmosfera, seguindo a outros países?... Quem tem respostas precisas e sinceras a respeito disso, para que os cidadãos possam obter a real dimensão do desastre nuclear?

O discurso das imprecisões continua. Uns dizem que é para não causar pânico. Já para outros, é uma questão política. Uma terceira corrente argumenta que o conhecimento técnico ainda é impreciso ou, então, uma conjunção dos três. Em qualquer uma das alternativas, há falhas que vêm desde o sistema de precaução, diante de um tipo de resíduo tão complexo e invasivo, para o gerenciamento de crise.
Sucena Shkrada Resk

10/04/2011 17:54
A socionatureza e as cidades saudáveis, por Sucena Shkrada Resk

Há muitas nomenclaturas para se designar um mesmo propósito, mas algumas são mais fáceis de assimilação do que outras. Nesse caminho, está o termo ‘socionatureza’ adotado pelo geógrafo Jan Bitoun, professor da Universidade Federal de Pernambuco. Ao ouvi-lo, nesta semana, durante um evento em São Paulo, achei interessante destacar essa expressão, que segundo ele, significa o seguinte – ‘a qualidade da relação da cidade com o sítio (área ou uso do solo) é reflexo da qualidade das relações sociais e depende dos valores que norteiam as ações dos habitantes’. Agora, o interessante seria observarmos as condições de nossas cidades e reavaliarmos o que espelham, não é?

Em miúdos, o que o pesquisador quer dizer é que existem os sistemas naturais, como ciclo da água, de erosão, de decomposição dos resíduos que são perturbados pela intensidade das características físico-naturais da área, ou seja, seu grau de vulnerabilidade. Com isso, a compensação ocorre por meio de sistemas artificiais, de saneamento básico, de manejo das águas pluviais, das técnicas de implantação e construção das edificações, dos serviços de coleta e destino dos resíduos.

Para que haja a eficiência dessas relações, ele aposta na ampliação dos chamados serviços ambientais, como um dos caminhos para de construir ‘cidades saudáveis’. “Vamos investir em atores que têm a equidade como foco do trabalho. Nessa rede, estariam agentes de redução de riscos e de vigilância ambiental”, diz.

Sucena Shkrada Resk

02/04/2011 20:10
Não se trata da história do outro, é a nossa história..., por Sucena Shkrada Resk

Dia após dia, o incidente nuclear em Fukushima, no Japão, se agrava em escala internacional, e não há como negar - o iodo, o césio, enfim, o efeito radioativo, já comprometeram a atmosfera, o solo e o mar, os alimentos e o ecossistema. Cada um tem um impacto e temporalidade de ação distintos, mas a maioria com poder letal - em pouco, médio ou longo prazo. Esse é o nosso hoje e o nosso ontem na história. Não se trata da história de um ente distante, que nada tem a ver conosco. Será que, de fato, nos damos conta disso?

Sucena Shkrada Resk

29/03/2011 20:09
Resiliência e serenidade, por Sucena Shkrada Resk

Fico muito sensibilizada com o sofrimento, que geralmente, as pessoas com câncer têm, pois tive alguns familiares que passaram por essa situação ou faleceram em decorrência dele. No caso de José Alencar, e de muitos homens e mulheres anônimos que não têm acesso a tratamentos, o que fica é o registro da resiliência, que é o sentido de luta pela vida.

Resolvi escrever essas palavras, porque eu me recordei, agora, vendo a notícia de sua morte, que a única vez que tive oportunidade de entrevistá-lo, foi durante o período de campanhas eleitorais em 2006, quando eu trabalhava no Repórter Diário. Guardo desta época, o respeito pelo homem público (independente de posições políticas). Ele teve um gesto cortês de lembrar de responder minhas questões, bem depois, no final da coletiva, apesar das pressões do político e comitiva que o acompanhavam e da saúde fragilizada, que era visível. Dessa serenidade ou educação para com o outro, como possa chamar, nunca mais me esqueci...

Sucena Shkrada Resk

27/03/2011 17:28
Com qual lente olhamos os desastres naturais?, por Sucena Shkrada Resk

A palavra desastre natural se tornou similar à fibromialgia ou virose, na área médica. Explico o porquê desta minha conotação. Os efeitos e as intensidades das chuvas, enchentes, deslizamentos, terremotos, tsunamis, tufões, furacões e outros eventos climáticos são creditados geralmente como resultantes de fenômenos que independem da ação do homem e que fazem parte da dinâmica própria da natureza na Terra a que somos submetidos, e ponto final. Na verdade, poucas pessoas se esforçam em analisar qual é a causa primordial da sucessão de acontecimentos e, como têm relação intrínseca, com padrão de desenvolvimento e gestão. Ir a fundo incomoda, muitas vezes, a uma série de segmentos. Afinal, é mais fácil culpar a natureza e usar o argumento de que o ser humano é vítima.

Nem é preciso destacar que a nossa memória é curta. Passa-se algum tempo, quem se lembra do Tsunami, na Indonésia, em 2004, das conseqüências devastadoras dos terremotos no Haiti, no Chile e até no Japão?? Ou que a tragédia no Vale do Itajaí, em SC, não ocorreu somente em 2008, mas em grande proporção, em 1983. E que São Luiz de Paraitinga, em SP, até hoje tenta se reerguer das enchentes em 2010, como as cidades da serra fluminense, New Orleans, nos EUA. Que bom que há banco de dados, não é? Se as nossas ligações neurais falham, temos o Google e outros instrumentos de busca para recorrer.

Mas isso não basta! A sucessão de acontecimentos está aí e demonstra, para nós brasileiros, que há ‘algo’ além do natural e que nossos governantes, legisladores e nós mesmos sabemos, mesmo que seja no famoso “inconsciente coletivo”, em alguns casos. Num esforço um pouco além da observação dos fatos consumados, podemos elencar alguns pontos, que nos dizem respeito, mais de perto, e precisam de revisão:
- Crescimento desordenado das cidades, que resultam em décadas de invasões em morros, várzeas e que o poder público em inúmeras gestões acompanhou e, agora, tem dificuldade de remediar;
- Planos Diretores falhos ou desrespeitados por brechas abertas na legislação;
- Modelos construtivos que impermeabilizam nossas ruas, calçadas;
- Que desviam a rota de nossos rios, como se a forma sinuosa não tivesse uma razão de ser;
- Destroem continuamente as nossas encostas, mangues, restingas, matas ciliares
- Modelos de produção que desmatam nossas terras, sem que ela tenha condições de recuperação em ‘tempo hábil’ para a vida do planeta, de restabelecer o seu ciclo de troca com o regime climático;
- Tudo isso, um reflexo de falta de educação cidadã e ambiental – basta ver a quantidade de resíduos que produzimos e onde grande parte é despejada;
- Da falta de locais apropriados para a destinação de nossos resíduos. Os lixões ainda são uma marca do subdesenvolvimento e não, do status de ‘emergente’;
- De gestões públicas incapazes de prover planos de adaptação, prevenção e gerenciamento de riscos com planejamentos em longo prazo;
- Além de esgotamento sanitário pífio para somente metade do país, que aflige não só a saúde de nosso corpo, mas do corpo do planeta...

Aí alguém pode perguntar - Mas se pensarmos mais profundamente, onde poderíamos viver diante de tantos condicionantes? A geologia, a geografia e o clima nos impediriam de estarmos em grande parte de nossas terras? Mais uma vez, entraríamos nessa linha reducionista de culpar a ‘natureza’ por tudo de mal x o bem que acontece e de seguir a teoria do mínimo esforço.

Compartilho essa reflexão diante da angústia de ver os impactos fatais e a constatação de que muitas situações poderão se repetir, se só se agir sobre os fatos consumados. Não adianta reconstruir pontes, estradas, casas, como se fosse um jogo de lego. Ao se mapear os riscos, é preciso retirar, de alguma forma, as pessoas dessas zonas de potenciais desastres e estruturar novos zoneamentos criteriosos para as populações vulneráveis. Tarefa fácil, claro que não. Principalmente em muitas metrópoles, falta metro quadrado para ocupações regulares.

Mas aí está o maior projeto que nossos gestores, arquitetos, engenheiros, administradores, economistas, climatologistas, cientistas, educadores, jornalistas, enfim, todos nós, com nossa participação individual e em equipe, podemos contribuir de alguma forma. Isso não se dará em dias ou em anos, mas em décadas! Mas precisa começar e, acima de tudo, TER CONTINUIDADE.

Porque não será necessário esperar mais um verão. Durante os 365 dias do ano, há necessidade de prevenção e mudança do modelo de desenvolvimento. Afinal, acredito que nenhum de nós quer ficar só contabilizando anos dos desastres, mortes, perdas materiais e emocionais, calcadas no sofrimento.

Sucena Shkrada Resk

24/03/2011 00:45
Ficha limpa só em 2012?, por Sucena Shkrada Resk

A notícia caiu hoje como uma bomba. A implementação do Projeto Ficha Limpa só valerá a partir das Eleições 2012. Isso quer dizer, que muitos dos candidatos que foram impedidos de se eleger no ano passado, com base nas determinações da legislação, agora, poderão assumir, se tiveram votos suficientes à época. O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que a Lei entra em vigor no pleito de 2012. Essa decisão foi tomada numa disputada votação de seis votos contra cinco.

A pergunta que fica no ar é a seguinte - quer dizer que há prazo para sanearmos nosso quadro político? As milhares de assinaturas a favor do projeto em 2010 não valeram de nada? Com certeza, fica uma situação desconfortável a nós, eleitores.

Veja também no Blog Cidadãos do Mundo:
02/07/2010 - Ficha Limpa: não são admissíveis exceções
18/06/2010 - Eleições 2010: Ficha Limpa, sem meias palavras
Sucena Shkrada Resk

24/03/2011 00:39
Repensando o Tietê, por Sucena Shkrada Resk

20/03/2011 20:08 Hoje participei da Caminhada pela Água e Saneamento, no Parque Ecológico do Tietê, promovida pelo Planeta Sustentável, National Geographic e Trata Brasil. Foi um bom exercício para alertar sobre as possibilidades de conservação e a nossa necessidade de mudança de padrão de consumo, para não perpetuarmos a situação de nossos rios, como esgoto a céu aberto e depósito de lixo, contaminando todo o ecossistema...Por outro lado, a atividade possibilitou a sensibilização com a situação de várias pessoas no mundo, que percorrem quilômetros para encontrar um pouco de água potável, para sobreviver.

Na década de 70, aquela região da várzea do Tietê era um imenso lixão, que ainda está em estado de recuperação, pois não é fácil mitigar tantos maus-tratos. Entretanto, quando vemos certos trechos dos lagos que se formam, com as águas do rio - lá estão garrafas e sacos plásticos, isopores, esgoto, a vista da cidade grande com o crescimento descontrolado. É o retrato de um rio que clama por socorro na região metropolitana. Isso quer dizer que ainda não aprendemos a lição.

De forma resiliente, biguás entre outras aves ficam em meio a esses detritos. Por outro lado, quatis e macacos-prego, na área do parque, também se destacam nessa natureza, que já não é mais intocada, mas tem suas 'ilhas' de conservação. Entretanto, há necessidade de cuidado, para que não cometamos, por mais uma vez, o erro de querer interferir em suas vidas, dando alimentos industrializados. Afinal, não é difícil ver os pequenos animais à procura de guloseimas, nessa integração com o ser humano.

Veja as imagens no meu Flickr


Sucena Shkrada Resk

08/03/2011 13:18
A busca pela Felicidade Interna Bruta, por Sucena Shkrada Resk

Voltei ontem à noite, do Parque Ecológico do Instituto Visão Futuro, em Porangaba, SP, e posso dizer que estou muito feliz com a experiência. Foi um dos meus melhores carnavais. Sabe aquela leveza e energia vital que nos recarrega? Essa sintonia que obtive por lá...Estávamos mais ou menos em 60 pessoas de diferentes lugares do Brasil, profissões, mas com um anseio comum - entender o âmago da Felicidade Interna Bruta (FIB), que nasceu no pequeno Butão, e fazer aflorar tudo que a gente carrega de bom e está represado.

Amor leva a amor e mais amor e, acima de tudo, à simplicidade. Redundante? Utópico? Piegas? Será? Com certeza, nem um pouco. É energia pura, fluxo, emoção, certezas que ultrapassam as barreiras mais tênues ou pesadas de nossa materialidade irriquieta. Amor não dá espaço para fome de qualquer sentido. Fazemos germinar da terra, do pensamento, da unidade e da coletividade, dos duetos e da sintonia com algo maior, transfronteiriço e arrebatador. É o momento em que nos reconhecemos como parte do mosaico ambiental deste planeta e, por que não, do cosmos...

Uma situação singular que tive nesses dias, foi de jantar com os olhos vendados, no escuro, e em vez de talheres, usar as mãos, como os indianos. Aguçar a sensibilidade dos sentidos do tato, do olfato e perceber que podemos saborear os alimentos, sem necessidade de comer demais, porque nos sentimos saciados. Sobre as folhas de bananeiras degustei especiarias deliciosas e, ao mesmo tempo, vi (sem olhar), tendo uma experiência de como as pessoas cegas possivelmente enxergam o mundo. Algo realmente especial!

Como fruto do aprendizado, exercitei um pouco a meditação que realmente é algo profundo. E quando dessa meditação partimos para a vibração, a sensação de bem-estar é emocionante. Impossível não deixarmos as águas rolarem dos olhos sobre nossas faces, como uma cachoeira que nos banha com seu manto carinhoso...Nesse momento, não temos vergonha de nos mostrarmos sensíveis e receptivos - sermos nós mesmos, sem as máscaras das convenções cotidianas.

Sucena Shkrada Resk

20/02/2011 11:15
Rio além do +40: com certeza + 20 é uma redução da história, por Sucena Shkrada Resk


Os grandes eventos têm capacidade de forjar ou ressuscitar movimentos. Por um lado, é muito positivo, mas por outro, nos prega a peça de ações calcadas em modismos, das quais devemos fugir. Seja como for, a Rio+20, no próximo ano, deve ser encarada, ao meu ver, como Rio ‘muito além do +40’, pois esta história é muito antiga e tem outros personagens envolvidos, que devem ser reconhecidos na trajetória do ambientalismo mundial. A juventude, por sua vez, deve saber desse processo, para que sinta o quanto é importante ter o empoderamento nessa causa planetária, que exige muita seriedade e responsabilidade de todos nós, cidadãos.

Nos idos dos anos 60 para os 70, constatações ainda tão atuais de que o mundo estava sendo consumido predatoriamente por nós, seres humanos, já ocorriam. Relatórios como “Os Limites do Crescimento”, do Clube de Roma, é um exemplo disso, apesar de até então, estar circunscrito ao bojo dos intelectuais. Em “O Nosso Futuro Comum”, da Comissão Brundtland, a 1ª Primeira Conferência Mundial sobre o Homem e o Meio Ambiente, popularmente conhecida por Conferência de Estocolmo, trouxe em 1972, mais uma vez, a constatação do desequilíbrio do que se chamou posteriormente do tripé da sustentabilidade.

Bem antes disso, em 1962, não podemos esquecer da atitude ousada da bióloga Rachel Carson, ao publicar "Primavera Silenciosa". Sinceramente devemos ser gratos a essa mulher de fibra, que ao descobrir os efeitos maléficos dos pesticidas, teve a grandeza de colocar isso ao mundo, apesar das perseguições sofridas. A causa dela transcendia corporações, segmentos...

Pioneiros de movimentos, como do Greenpeace, em 1978, que foram redescobertos em Documentário Os Guerreiros do Arco Íris da Ilha Waihek, apresentado na TV Cultura, se somam a esses ativistas. Os neo-zelandezes, por ideologia (com I maiúsculo e não, aquela partidária que se abre a qualquer concessão), abriram uma nova discussão na agenda mundial. Naquela época, iniciaram mobilização no Pacífico contra os testes nucleares franceses. Hoje continuam com a mesma postura coerente de vida, como minha amiga socióloga Leda me falou na semana passada e me fez recobrar o quanto é essencial, não termos essa memória fragilizada.

Pessoas como essas têm que ser lembradas, como tantas outras anônimas, que construíram a luta pela qualidade de vida, para que as ações do hoje não sejam meros oba-obas de ocasião.

A ECO 92, Rio 92 ou Cúpula da Terra – seja qual for o nome que se queira identificá-la - com certeza tem um peso extremamente estratégico (não tão reconhecido à época), o que não podemos esquecer em nenhum segundo na preparação da Rio+20. Foi de lá, que surgiram documentos tão importantes, mas ainda tão relegados ao segundo plano, como a Agenda 21 e as Convenções do Clima e da Diversidade Biológica.
A Rio+10, em Johannesburgo, na África, também não pode ser engavetada e colocada nos porões de nossa conveniência.

Diante de todo este arcabouço, ao se fazer uma análise, verificamos que ainda somos muito superficiais na aplicação desse novo modelo civilizatório proposto, há décadas. Vide a situação do Protocolo de Kyoto, da morosidade de compromissos das nações, com a COP16 (climática). Talvez a COP10 é a que tenha mais avançado, com a tentativa de combate à biopirataria. Mas temos de ser realistas. Ela só dará certo se estiver interligada com as discussões climáticas, entre outras. Não é possível compartimentar essas discussões, como se fossem água e vinho.

Quando lemos diretrizes, como as constantes na Carta da Terra, que teve uma gestação longa até 2000, ao ser lapidada, observamos que todas as prerrogativas, desde 68 apenas são modificadas em vírgulas. O conteúdo é o mesmo!!!!!! Sabemos o que está errado.

Agora, a discussão gira em torno da economia verde e da governança da sustentabilidade. Com certeza, nada mudou em nossas pautas, porque ainda não mudamos nosso padrão de desenvolvimento.

Para que a Rio+20 (ou melhor além do +40) ganhe verdadeiro significado às atuais e futuras gerações, é necessário que se envolva todos os atores da sociedade, sem exceção. Temos o dever civilizatório de multiplicarmos essas informações e fomentar questionamentos em nossas crianças, adolescentes, adultos e idosos. E acima de tudo, não esquecermos que aquelas pessoas que hoje não conseguem se expressar, porque passam fome, sede, estão abaixo da linha da pobreza ou em meio a guerras insanas, que ceifam seu poder de discernimento ou que são refugiados climáticos, merecem ser inseridos decentemente nesta agenda. Não só como meras menções, mas como atores a serem ouvidos.

Esses cidadãos devem estar representados no ano que vem, no Rio de Janeiro, e terem o poder de fala. Uma fala autêntica, desprovida de politicagem. Uma fala que ingresse até o fundo de nossa consciência e seja capaz de fazer agirmos, de fato, em busca de um mundo diferente, inclusivo, equilibrado e amoroso. Um amor ao semelhante, à terra, à água, ao ar, à vida, um amor a nós mesmos...


Sucena Shkrada Resk

13/02/2011 19:33
Pensata: Muito além da zona de conforto, por Sucena Shkrada Resk

Até que ponto nos desprendemos de nossas zonas de conforto? Esse é um questionamento que tenho feito, nesta semana, ao realizar um balanço sobre ideais, ideologias, práticas, desafios e metas. Cheguei à seguinte conclusão: nada é mais eficaz do que uma certa inquietude, sem a comodidade plena daquele conforto que nada nos exige. Para isso, liberdade e perseverança fazem a diferença nessa trajetória. Isso nos alimenta a felicidade íntima, que somente cada um de nós sabe o quanto é maravilhosa.

Sucena Shkrada Resk

10/02/2011 01:54
Diferenças e semelhanças que cruzam fronteiras geográficas, por Sucena Shkrada Resk

Rua Florida, Buenos Aires. Rua São Bento ou Barão de Itapetininga, em São Paulo. Apenas quilômetros de distância, mas muitas semelhanças entre esses endereços centrais das duas metrópoles sul-americanas.... O ritmo do frenesi do consumo, a luta diária de ambulantes, os passos rápidos de trabalhadores que precisam chegar a tempo em seus destinos...Tudo isso se repete como se fosse um CD que tocasse em uma mesma faixa musical. A faixa musical da vida moderna, que corre contra o tempo, para que esse mesmo tempo não a atropele sem piedade.

Mesmo assim, nesses cenários tão similares podemos perceber diferenças gritantes. Uma delas é quanto à tarifa do transporte público. Enquanto em São Paulo, o valor é atualmente de R$ 3,00, na capital portenha está na faixa de R$ 0,60. Algo a se avaliar com atenção, apesar de as duas capitais serem proporcionalmente diferentes quanto ao tamanho de seus perímetros.

A limpeza urbana também é um diferencial importante, o que infere a educação para a cidadania. Não é difícil vermos em São Paulo, entulho, lixo orgânico em meio a calçadas e ruas. Já em Buenos Aires esse problema é bem menor, mas se revela nos bairros mais humildes.

Agora, no quesito segurança, novamente as duas cidades se cruzam, como se fossem extensão uma da outra. Não é difícil flagrar assaltantes surrupiando a carteira de um turista desavisado. Pude observar, nesta semana, em Buenos Aires, essa triste cena, de dentro de um ônibus, ao olhar a movimentação em uma calçada.

Esses são fragmentos da vida real, que estão aí latentes para refletir. São um laboratório de cidadania, de educação informal. Revelam que nada é mais instrutivo do que nos misturarmos à turba e vivenciarmos o cotidiano, sem nos limitarmos à incorporação do personagem de turista, para que as reflexões possam emergir e nos fazer pensar que as nossas semelhanças podem estar nas diferenças. Isso é perfeitamente possível. A geografia, por sua vez, não é capaz de quebrar essa ligação sociocultural.
Sucena Shkrada Resk

22/01/2011 21:26
Descoberta e redescoberta do Ibirapuera, por Sucena Shkrada Resk

Créd: Sucena S.Resk


Descobrir e redescobrir. Fiz esse exercício hoje (22), ao participar de um passeio monitorado no Parque do Ibirapuera, promovido durante o evento Planeta no Parque, que prossegue até dia 25, aniversário de 457 de São Paulo. Sob a batuta do biólogo Moisés e da gestora ambiental Cíntia, me dei o direito a uma imersão, que teve, ao mesmo tempo, um toque de botânica, educação ambiental e de zoologia. E lá fui eu junto com outros visitantes nesse passeio, que durou 1h.

Minha primeira reflexão foi quanto à própria origem do nome Ibirapuera, que significa pau podre e madeira velha, fruto da língua tupi (ypi-ra-ouêra), para um local que hoje só reflete, em grande parte, um cartão-postal na capital. E quem diria que há cerca de 83 anos, tudo aquilo era praticamente um brejo...e um senhor, com nome de ‘Manequinho’ Lopes começou a arborizar a área, que se transformou no que conhecemos hoje. Vale lembrar que o viveiro leva seu nome e abastece a cidade de São Paulo com as plantas herbáceas (de pequeno porte).

No meio daquela região de várzea, o que se sabe, é que, pelo menos, uma bela figueira, que até hoje dá o ar de sua graça, já existia por lá. Atualmente são mais de 15 mil espécies que povoam o parque, segundo Moisés. Muitas, por sinal, são ‘exóticas’, vindas de outros países e se concentram na Praça da Paz, misturadas às nativas. Por isso, nos deparamos com memaleucas (provenientes de regiões da Malásia e Austrália), que aparentemente estão definhando, por causa de suas cascas que lhe dão aparência de morta. Entretanto, estão mais vivas do que nunca!

E de repente, lá está uma seringueira – mas não aquela que se extrai látex – é uma espécie que se assemelha muito ao chorão. Mais um pouco adiante, a ‘nossa’ brasileira pata-de-vaca. Quantas descobertas para um dia de ‘folga’, enquanto meus colegas arduamente faziam a cobertura do evento. Mas pensando bem, não deixa de ser um lazer com ‘cara’ de trabalho...rs

Ao atravessar uma das ruas que cortam o Ibirapuera, com altura a perder de vista, estão os exemplares do bosque de eucaliptos. Dá uma sensação estranha, pois ao mesmo tempo, que vão de encontro ao céu, na terra não se encontram com outras espécies. Ou melhor, as árvores liberam o feromônio na terra, que geralmente impede o crescimento de outras plantas. O solo, por sua vez, está menos permeável, e algumas já estão tombando.

Daí vem um parênteses na caminhada. Momento propício para viajar ao pensamento indiano, quando nos deparamos com uma figueira bengalense enorme. Os seus galhos mais parecem troncos e se estendem, estendem...e têm até de ser sustentados por pedaços de ferro. “Foi embaixo de uma árvore dessa que Buda se iluminou”, conta Cíntia. E pelo que se sabe, só existe mais um exemplar no Parque da Luz e outro em um restaurante!

Mas a majestade, no Ibirapuera, sem dúvida é a figueira microcarpa, que se enraíza tantas vezes, enganando aos olhos, pois parece muitas árvores. Por sua vez, os seres humanos, que são seus súditos, a estão maltrando, pois a cortam para colocar declarações de amor, o que possibilitou que fosse contaminada por cupins. Ela está bem perto de uma área do parque que eu nunca havia ido – próximo à desativada serralheria que existia há décadas.

Mais um pouco, lá está o pau-brasil. E para não ter engano, vai uma dica. Seus troncos exibem saliências, como espinhos, que o diferem de outras espécies com folhagem semelhante. Que bom que não está extinto, não é?

E, alguns passos adiante, o viveiro Manequinho Lopes exibe variedades de flores de todos os tons, folhagens, algumas à vista, outras sob as estufas. Um requinte aos olhos. As aves se deliciam por lá, como uma família de joão-de-barro. Num daqueles flagrantes, vejo um e ‘click’ e em alguns minutos, me encanto ao registrar a cena de uma borboleta sobre a flor.

Logo mais, na área de recuperação da fauna, podemos ver pela grade, alguns animais silvestres que foram recolhidos. Observo um primata e ouço os mais variados sons de outros animais. Lá moram temporariamente corujas e bugios, entre outros. O que desejo é que todos possam estar firmes e fortes logo, para voltar à natureza, sua verdadeira casa. E como não poderia deixar de ser, surge mais uma reflexão – muitos estão neste 'hospital', por causa da maldade do bicho-homem ou da invasão das áreas urbanas sobre as matas. Moral da história – precisamos repensar o modelo de desenvolvimento que adensa e devasta, sem haver o pensamento a longo prazo.

E à reboque, não poderia esquecer de falar sobre o lago que tanto encanta os paulistanos e seus admiradores, no Ibirapuera, apesar de suas condições precárias. Até o ano passado, segundo relato dos monitores, recebia ainda 40 esgotos clandestinos, o que demonstra o quanto há necessidade de reeducação ambiental. Agora, suas águas passam por tratamento. Quem sabe, mais adiante, poderão ser a moradia novamente de várias espécies aquáticas...

Vou parando por aqui. Espero ter novas oportunidades para poder ver com outros olhos o que o cotidiano frenético me faz esquecer que existe. Para quem quiser participar do passeio é só se informar pelo
site.
Sucena Shkrada Resk

15/01/2011 13:22
Tragédia na Serra Fluminense - resultados dos híatos, por Sucena Shkrada Resk

Nesta semana, ao fazer matérias sobre a tragédia na Serra Fluminense, me dei conta de como falta infraestrutura de contingenciamento neste país. Apesar das áreas de risco estarem mapeadas, não há esquema de prevenção. No ano passado, escrevia sobre o mesmo tema, referente a outras localidades. Não é possível ter segurança em encostas ou fundos de vales, em áreas desmatadas, sem mata ciliar, com solos impermeabilizados, em cidades sem planos de habitação e diretores adequados... Será que tudo isso virá palavras vãs?

Não é só culpa da chuva, do El Niño ou de La Niña, como se transformassem em entes do mal e algozes. A intensidade das catástrofes aumenta de acordo com a dissonância entre o ser humano, o poder público e a natureza.

Sucena Shkrada Resk

09/01/2011 17:33
Personagens do Brasil: Dona Alzira, das Missões – RS, por Sucena Shkrada Resk


Dona Alzira, benzedeira tradicional de São Miguel das Missões, RS, é a mais recente personagem que destaco em minhas andanças por esse país. Eu a conheci em minha viagem de fim de ano, quando resolvi explorar um pouco dessa região com apelo cultural, histórico e místico, além do ecoturístico. O encontro ocorreu em uma tarde ensolarada, no dia 29 de dezembro. Essa senhora, de 75 anos, me recebeu ao lado de seu esposo (que é mateiro), de 81, e de sua cunhada, no auge dos 91. Um bonito quadro de longevidade.

Sentados em cadeiras dispostas em frente à modesta casa em que moram, nas proximidades do Sítio Arqueológico, me cumprimentaram e começaram um diálogo bem no ‘clima de interior’. Batemos papo sobre costumes do dia a dia, ervas medicinais... Mas sinceramente, mais ouvi, do que falei. Já que quando nos damos conta que recebemos conselhos com sabedoria, devemos absorvê-los com atenção.

Depois dona Alzira me levou a um pequeno cômodo em sua casa de madeira, protegido por uma varanda com vários vasos de plantas, e lá sentei para receber seu benzimento (que faz por caridade). À minha frente, uma estante de madeira com algumas imagens eram seu altar doméstico, de uma singeleza, que me deixou à vontade. E aí me deixei energizar pela carga ‘positiva’ que emitiu em suas palavras.

Registrei esse momento em minha memória, porque me fez bem. E me serviu de lição. Pois sãos essas facetas aparentemente fragmentadas de nossas vidas, que nos fazem felizes.

Veja mais "Personagens do Brasil", no Blog Cidadãos do Mundo:
08/01/2011- Vozes da Várzea do Amazonas
28/11/2010 -Esp.Fórum Social Pan-Amazônico - Sr.Mucura do Tapajós
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29/07/2009- O povo da floresta
16/07/2009 - Os guardiães do Pico da Pedra Selada


Sucena Shkrada Resk

08/01/2011 23:15
Personagens do Brasil: vozes da Várzea do Amazonas, por Sucena Shkrada Resk

Piracaueira de Baixo, na região da Várzea do rio Amazonas, fica a cerca de 39 km de Santarém, via fluvial. É lá que mora o casal Iderlan de Sousa e Lucidalva, ambos com 28 anos, e seus dois filhos e cerca de 80 famílias. Os agricultores cultivam em suas terras, melancia, melão e verduras, com mais seis familiares. Durante um dedo de prosa, no Mercadão de Santarém (onde comercializam sua produção) Iderlan concedeu entrevista, no final de novembro de 2010, ao Blog Cidadãos do Mundo, quando contou um pouco do dia a dia da vivência ribeirinha, nessa região do país.

“Nossa casa é feita de madeira e alvenaria. Nascemos nessa região e as saudades sempre nos fazem ficar por lá, apesar das dificuldades”. O agricultor relata que para conseguir sobreviver, divide a morada um pouco em Piracaueira e um pouco em Santarém, onde o casal tem familiares. Tudo isso para poder escoar seus produtos e por causa do alto custo do transporte fluvial.

“Levamos mais ou menos 1h30 de barco e a passagem é de R$ 14 (só ida). Por isso, dividimos nossas saídas. Tenho de estar na cidade, pelo menos, três vezes por semana e Lucidalva fica uma temporada na cidade”, diz Iderlan.

Com uma vida modesta, na várzea, a família é beneficiada com energia elétrica algumas horas por dia, gerada por placa solar. “Só temos uma TV, que ligamos à noite, na hora do jornal”, fala o agricultor. O casal não tem geladeira e salga alguns alimentos perecíveis para conservá-los, como muitos ribeirinhos da região. “O restante plantamos e compramos batata, cenoura, óleo e sal”, explica.

Algo interessante a destacar na história dos jovens produtores rurais, se refere à coleta de lixo na comunidade. “Faz dois anos que começou a coleta seletiva e a gente se adaptou”, diz. Um exemplo a ser mencionado em tempos de implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos.

Quanto às outras áreas básicas, como saúde e educação, os desafios em Piracaueira de Baixo não diferem muito da região amazônica, como é possível observar pela experiência do casal. “Só dois professores dão aula na comunidade e na área de saúde, não existe nenhum posto aqui perto e precisamos ir à outra comunidade. Precisamos de melhoria, porque quando acontece picada de cobra venenosa, muitas vezes, não dá tempo de chegar à cidade”.

Ao ouvir Iderlan, recobrei as narrativas que no ano passado escutei de ribeirinhos do rio Tapajós, quando viajei durante uma semana, acompanhando a equipe do navio-hospital do Projeto Saúde e Alegria (PSA). Aí está um Brasil que, por muitas vezes, a maioria da sociedade desconhece, que necessita de maior amparo, como os rincões nordestinos e do centro-oeste e do sudeste do país.

Praticamente 15 dias depois que tive essa conversa com o agricultor, o Ministério da Saúde (MMA) divulgou a inauguração oficial, no dia 7 de dezembro, da primeira unidade fluvial do Saúde da Família, na região, justamente com a estrutura do navio-hospital do PSA, que desde 2006 desenvolve com os municípios de Santarém, Aveiro e Belterra, esse atendimento ao longo do Tapajós e Arapiuns.

De acordo, com o MMA, a proposta é estender o atendimento aos amazônidas e ribeirinhos do Mato Grosso do Sul. Quem sabe se com isso a comunidade de Piracaueira de Baixo terá uma assistência devida e até o final desse ano Iderlan possa contar novidades...

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Sucena Shkrada Resk

08/01/2011 10:14
Mercadão de Santarém: produção dos povos ribeirinhos, por Sucena Shkrada Resk

Quando a gente chega ao 'Mercadão' de Santarém, PA, se depara com frutas e iguarias em abundância, que atraem os olhos e o paladar. São abacaxis, açaís, melancias, melões, uma série de frutas típicas vistosas, além de produtos diretamente da terra, derivados da mandioca. Aí não é difícil aguçar a curiosidade sobre quem está por trás de tais feitos. E não são poucos! Segundo Jocimary Regina, 44 anos, secretária da Associação dos Produtores Rurais de Santarém (Aprusan), há o registro de cerca de 1,5 mil associados de 86 comunidades, entre o planalto e a várzea dos rios Tapajós e Amazonas.

“Em 1989, eram somente 45 associados, e hoje o espaço do Mercado não mais comporta tantos produtos e pessoas. Entre janeiro e fevereiro de 2011, também devemos fazer o recadastramento dos produtores nas próprias comunidades, para saber o que têm de área plantada, quanto produzem e comercializam. Atualmente não sabemos precisamente quanto é vendido aqui”, explica ela.

Muitos desses ribeirinhos produzem farinha, de maneira rústica. Extraem da mandioca, alimentos típicos locais, como o tucupi (líquido amarelo extraído da raspagem da mandioca) e o tacacá (goma extraída antes do tucupi). Nesse festival gastronômico, levam para suas pequenas bancas, beijocicas (massa fina e torrada crocante com sal), bolos de macaxeira, farinha de tapioca, lencinhos (salgado em formato de quadrado crocante), pé-de-moleque...Deu fome? Não é para menos.

Mas nem tudo é tão fácil para esses povos da floresta, como parece. “São praticamente seis meses de estiagem, entre julho e dezembro. Em 2010, chegou perto da pior que tivemos, em 2005. O rio fica longe da margem e os barcos têm dificuldade de passar, porque formam grandes bancos de areia. Ao mesmo tempo, as últimas chuvas ‘fora de época’ começaram a facilitar a produção de melancias’, conta.

Jocimary se recorda, que há cinco anos, a falta de água afetou gravemente várias comunidades. “Houve uma grande mobilização para ajudar os ribeirinhos, com alimentação e água potável. A população da região foi muito solidária”. E completa – “Não pode faltar farinha na mesa dos ribeirinhos, é indispensável”.

Em 2010, as comunidades de Fátima e Uricuritiba, ao longo do Amazonas, foram algumas das mais prejudicadas, segundo ela. “Ocorreu o fenômeno das terras caídas, que destruíram muitas casas. A Defesa Civil e a Marinha foram para lá, mas a situação estava difícil”, afirma.

Para o pequeno produtor rural dessa região, de acordo com a secretária, há muitos desafios a superar, como o da dificuldade para escoação dos produtos (geralmente fluvial ou por estradas de terra).

“Na várzea, os agricultores ficam seis meses praticamente sem produzir. Quem sobrevive da pesca ainda enfrenta o período do defeso, quando recebe um salário para garantir a sobrevivência, enquanto não pode pescar”, explica.

(a entrevista foi concedida ao Blog Cidadãos do Mundo, em novembro de 2010)

Sucena Shkrada Resk

05/12/2010 17:59
Especial Fórum Social Pan-Amazônico – A luta só está no começo, por Sucena Shkrada Resk

Lutar pelos direitos mais básicos e ter consciência de que os mesmos são indiscutíveis fazem do Fórum Social Pan-Amazônico, realizado entre 24 e 29 de novembro, em Santarém, no PA, mais uma arena em que ficou perceptível que a pauta das minorais está longe de acabar. Lá, índios, quilombolas, caboclos, feministas, movimentos de diferentes minorias, intelectuais, estudantes e curiosos teceram a agenda, que já é registrada no âmbito do histórico do Fórum Social Mundial – em especial - no de Belém, em 2009.

A questão do território continua sendo uma reivindicação muito importante para esses personagens da Pan-Amazônia, com destaque ao contexto das implementações das grandes hidrelétricas no Norte do país. É como ouvir o ecoar de vozes que querem se libertar, mas ficam metaforicamente represadas.

É uma discussão em que o Estado e o empresariado estão em faixas diversas de sintonia. Por mais que haja os argumentos de Estudos de Impactos Ambientais – Relatórios de Impactos (EIA-Rimas), há um subdimensionamento da perspectiva de curto a longo prazo, nessa esfera socioambiental de diálogo.

Isso diz respeito à história, a tradições, meios de vida, ao reconhecimento de identidade, à biodiversidade, relação de custo-benefício na agenda energética nacional em contraponto a outras fontes, como PCHs, energia eólica, solar, das algas...A comunicação entre todos estes stakeholders (partes envolvidas) está pulverizada e fere o preceito da sustentabilidade. Por mais que se queira negar isso, é um problema que tem de ser encarado com seriedade.

Dentre todos os painéis apresentados no evento, também houve o relato de ações de educomunicação que conseguem sair da superficialidade, e possibilitam o empoderamento por parte dos povos tradicionais e indígenas, como é o Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia.

A iniciativa é um exercício prático dessas populações na autonomia do reconhecimento e gerenciamento do mapeamento de seus problemas socioambientais. Participar de oficinas, ouvir depoimentos e visualizar diferentes fascículos criados em vários locais no Brasil, confirmam a necessidade de ampliação nessa linha de trabalho pró-ativo, que sai do ciclo dos discursos.

Se é suficiente? Obviamente que não. a Carta de Santarém , que foi o resultado do V FSPA, só reafirma o compromisso de que o reconhecimento dos personagens amazônidas faz parte do paradigma de um Estado, que respeita seu povo, suas angústias e necessidades tão prementes.

O território é só uma delas, sendo que a mais importante, é a qualidade do mesmo. Quando nos deparamos com esgoto a céu aberto, falta de infraestrutura sanitária, viária, logística, de saúde, de educação, aí se configuram problemas que são passados de gestão para gestão e são o alicerce do ‘desenvolvimento’ em seu strictu sensu. É uma realidade, que não pode ser mascarada, em qualquer um dos estados da Pan-Amazônia.

Com a proximidade da Rio+20, em 2012, essa faceta do Brasil, como tantas outras nas demais regiões do país, demonstram que estamos longe da edificação da Carta da Terra, da Agenda 21, do Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, da Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, do cumprimento da resolução nº 169, da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e de tantos e tantos tratados firmados ao longo dos anos.

Não se trata de romantizar uma situação, mas de querer enxergar todos os contextos que envolvem esses problemas, em que a sociedade, ou seja, cada um de nós tem um papel a exercer, nesse complexo quebra-cabeças.

Veja mais no Blog Cidadãos do Mundo - Especial V Fórum Social Pan-Amazônico:
05/12 - Como comunicar nas mídias livres?
28/11 - Círio em Santarém leva à reflexão
28/11 - Sr. Mucura, do Tapajós
26/11 - Conciliação com arte
25/11 - Abertura leva centenas de pessoas à orla

Sucena Shkrada Resk

05/12/2010 16:37
Especial Fórum Social Pan-Amazônico: Como comunicar nas mídias livres?, por Sucena Shkrada Resk

Acreditar naquilo que se escreve, fala, transmite e pensa e querer compartilhar essas informações faz parte da gênese da chamada mídia livre ou alternativa, em que o processo colaborativo para a transmissão do conhecimento está acima do apelo comercial. O desafio maior, no entanto, é conseguir empoderar a sociedade para se tornar protagonista nesta trajetória da comunicação. Esse foi o ponto central do painel Nossa Imagem e Nossa Voz: Mídias Livres e Alternativas, no segundo dia de debates e seminários do V Fórum Social Pan-Amazônico, no dia 27 de novembro deste ano.

Na opinião de Ermanno Allegri, da Adital – Brasil, conhecer significa ser livre. “Qualquer boletim, rádio comunitária devem ser valorizados. Mas é preciso exigir e ir atrás para que haja expansão (desses meios)”, defendeu.

Para Terezinha Vicente do Ciranda.net, informação é, acima de tudo, poder. “Por isso, ele será maior, quanto mais for organizada”. Na análise da jornalista, hoje ainda há um acesso maior por meio da TV e do rádio e é preciso expandir a proposta da banda larga gratuita para todos. “A comunicação forma valores e a leitura crítica da mídia, nesse sentido, deve ser ensinada desde a infância”, disse.

O fato de a grande mídia misturar informação com entretenimento é um aspecto a ser reavaliado, segundo ela. “ “Conflitos viram show, como se estivessem longe da gente”, falou. Terezinha lembra que em relatório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - UNESCO, dos anos 80, no direito à comunicação está o de buscar as fontes, discutir e transmitir a verdade do coletivo.

Na busca de novos espaços para a mídia alternativa, o jornalista Sérgio Miletto informou que foi fundada a Associação Brasileira de Empresas e Empreendedores de Comunicação - Altercom (www.altercombrasil.com.br), com esse propósito, como um dos resultados da Conferência Nacional da Comunicação - Confecom, no ano passado.

Respeito à regionalidade

A professora Rosane Steinbrenner, da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal do Pará (UFPA), reforçou que nos rincões do Brasil, as pessoas têm o direito de decidir como vai chegar a comunicação. “...O destino dos amazônidas (hoje) não está sendo discutido por eles, como com relação à Belo Monte...Sem comunicação, sem território não há jeito de apresentar identidade e, com isso, se pauta em referências externas...”, avaliou.

Nessa seara de exclusões, a educadora conta – “A gente diz que a Amazônia Continental é a periferia da periferia...”. A falta de oferta de tecnologia se acentua principalmente na região Norte rural. Segundo ela, jovens dos 10 aos 18 anos, que recebem na faixa de até três salários mínimos, e que pagam pelos serviços, são chamados de ´geração lan house´. “Só há na região 3% de oferta pública”, diz, baseada em dados do Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação - CETIC 2008.

Dea Melo, da ABRA – Brasil refletiu que, ao mesmo tempo, é melhor que essas tecnologias não cheguem às comunidades (incluindo acesso à energia elétrica), caso não haja um preparo da mesma para a assimilação das mudanças a serem inseridas. “O meio de comunicação da Amazônia é tradicionalmente oral. O desafio é como fazer o diálogo entre as ‘raízes’ e as ‘antenas’, afirmou.

E é justamente a educação dialógica que vem com a comunicação, que deve ser pauta também nos espaços formais das escolas (além dos informais e não-formais), segundo Dan Baron, da Rede Brasileira de Arte-Educadores e da Comissão do FSM. “Há jovens no Pará, por exemplo, que não se identificam como da Amazônia”, disse.

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Sucena Shkrada Resk

28/11/2010 20:31
Círio em Santarém leva à reflexão, por Sucena Shkrada Resk

O Círio de Nossa Senhora da Conceição, realizado hoje (28), em Santarém, me levou a inúmeras reflexões. Acompanhei parte da procissão, que percorreu várias ruas da cidade, sendo a maior parte na orla, onde pude observar, desde exemplos de fé à falta de educação ambiental. O exercício de apreciar grandes manifestações de massa, nos obriga a ter um olhar mais realista, que independe de religião que sigamos. E com esse pensamento libertador, me inclui no meio da multidão.

Essa experiência me possibilitou conhecer a dona de casa cearense, radicada no Pará, Maria Silva Sousa, 85 anos, que estava acompanhada por duas de seus 12 filhos. Ela caminhava com certa dificuldade em meio a centenas de pessoas, mas com um semblante feliz, que me cativou. Isso me fez abordá-la, para saber o que levava àquela manifestação, que percorre uma longa extensão. E a resposta foi surpreendente.

´É a fé. Gosto de Nossa Senhora. Já fui atendida em meus pedidos...Não sinto nenhum cansaço, nada de agonia. Estou bem, graças a Deus`, disse dona Maria, que há pelo menos 30 anos participa da celebração. A espontaneidade expressa por ela realmente me proporcionou um bem-estar e respeito à sua devoção.

Depois desse momento, em particular, pude vislumbrar o conjunto da caminhada. Aí me deparei com um problema, que infere falta de educação ambiental. A quantidade de garrafinhas de água e de refrigerante jogadas nas ruas e calçadas por pessoas, que participavam da procissão, era realmente significativa. Em dado momento, vi uma jovem jogar, sem titubear, a garrafa que estava em suas mãos, e continuar no cortejo, como se nada tivesse acontecido.

O mais interessante é que na fala de uma representante da igreja, que se pronunciou durante o evento, uma das preocupações apontadas foi quanto ao meio ambiente. Em contra-partida, alguns cidadãos não estavam sintonizados com o papel que cabe a cada um de nós, neste sentido. Talvez, quem saiba, nas próprias igrejas ou em espaços ecumênicos, essa pauta possa ser melhor difundida.

Nesse caminhar, mais questões me surgiram, quanto à infraestrutura urbana local. Não dava para deixar de ver o esgoto escorrendo nos meios-fios e desembocando diretamente no rio Tapajós, que atualmente sofre com a estiagem. Os corpos de areia, que surgem na orla, em decorrência, da diminuição do volume de água, também revelavam essa faceta de saneamento ambiental que precisa ser melhorada.

Depois dessa imersão, parti para o Parque da Cidade, para participar do penúltimo dia do V Fórum Social Pan-Amazônico. E lá, parei antes para visitar a feira de economia solidária paralela, formada principalmente por associações de ribeirinhos ou cooperativas locais. E aí, mais uma reflexão surgiu. Ao ouvir narrativas, percebi que ao mesmo tempo, que artesãs se esforçam em participar de capacitações para aprimorar seus produtos (como artefatos de palha de tucumã, entre outros), ainda enfrentam dificuldades na gestão da comercialização.

E aí parti para as tendas do fórum, em que as reivindicações dessas populações no Brasil e em outros países da Amazônia, me deixaram cada vez mais certa, que é preciso ser revisto com brevidade o conceito de desenvolvimento e qualidade de vida em nosso planeta.

Sucena Shkrada Resk

28/11/2010 10:25
Especial Fórum Social Pan-Amazônico - Sr.Mucura do Tapajós, por Sucena Shkrada Resk



O nome dele é Antonio de Oliveira, 72 anos, mas todo mundo o conhece por ´senhor Mucura´. A primeira pergunta, é claro, o que significa, e ele logo explica - ´Ganhei esse apelido quando era criança. Mucura é um animalzinho que vive na floresta que exala um cheiro muito forte e, que quando molhado, o cabelo fica todo separado`, conta o caboclo nascido na comunidade de Jauarituba, na região do Tapajós, PA. Esse é o indício de sua história com relação à terra, que brevemente deverá virar um livro, que escreve à mão e já totaliza 236 folhas, que mistura vivências e muita pesquisa, como destaca, desde 1918...

´Desde 1965, escrevo minhas experiências de vida´, diz. E que experiência, diga-se de passagem. Oliveira conta que viveu a maior parte de sua vida em Santarém. ´Trabalhei 20 anos como agricultor. Participei 20 anos (62-82) da Catequese Rural, depois do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santarém (82-2005). Fui comandante em embarcação que fazia o percurso para o Amazonas e Belém´, recorda.

Mas suas experiências não pararam por aí. O agricultor, navegador, sindicalista lembra que grande parte da sua vida sobreviveu do roçado. ´Acordava 8h e voltava pelas 15h. Ah` - emenda – Também trabalhei no Movimento de Educação de Base – MEB em uma comunidade e, durante seis anos, cuidei do Programa de Desenvolvimento do Extrativismo, no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA).

Dessa gama de experiências, ele afirma que surgiu a consciência ambiental, quando começou a fazer parte do Conselho Nacional de Seringueiros (CNS). ´Uma luta que começou em 1975, pela defesa da terra, para quem trabalha nela. Enfrentamos as grandes madeireiras. Criamos a Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns. Uma luta, que começou primeiro no âmbito dos movimentos eclesiais e depois, na década de 80, passou para o movimento sindical`, explica.

Essa defesa tinha endereço certo, segundo ele. Dos rios, da terra, da floresta. ´Hoje também trabalho com a questão do lixo na cidade e no interior. ´Senhor´ Mucura trabalha em várias frentes, na Escola da Floresta, ligada ao setor de educação municipal de Santarém. ´Fazemos reflorestamento, pois a mata é secundária´. Ele ensina que há espécies regionais que precisam ser preservadas, como o cedro, jatobá, ipê, itaúba. ´Também as frutíferas, como o açaí, bacaba, castanha, pequi e uxi´.

Os trabalhos para conservação do meio ambiente o deixam realizado. ´Eu também criei meus filhos com recursos naturais, pescando... Na época, também caçava caititu e queixada e com o tempo criei consciência que tem de ser algo controlado, para o sustento´, recorda.

Não tem preço o valor da conservação da biodiversidade, na opinião dele. ´Para ganhar dinheiro, não precisamos fazer desmatamento e nem matar espécies. Através do ecoturismo podemos ter o nosso sustento´, defende.

Além de suas atividades na Escola da Floresta, ´senhor´ Mucura faz artesanato com resíduos da floresta, conta muitas histórias para a garotada da segunda fase do ensino fundamental e visitantes, que frequentam o espaço.

Aí ele dá uma respirada e lembra de mais uma passagem de suas inúmeras atribuições, em pelo menos, seis décadas. Antes de fazer parte da Escola da Floresta, o simpático caboclo – com um pé rural e outro na área urbana – trabalhou no mesmo local, que fica em Alter do Chão, a 1h de Santarém, no Projeto Peixe-Boi (já desativado).

´Fizemos pesquisas, ouvindo histórias...Os primeiros exploradores que vieram para cá, matavam muitos exemplares, como também de jacaré e, nós, (brasileiros) seguimos essa onda, mesmo sendo nativos`. Ele lamenta o fim do trabalho de conservação, que ocorreu nos anos 2000, por questões principalmente de recursos.
E aí termina a prosa de forma amistosa – como é comum entre a comunidade local -, já que não há tempo a perder. Segue compenetrado em defesa da população ribeirinha, cabocla, dos índios, para mais uma atividade - participar de um dos paineis do V Fórum Social Pan-Amazônico, que acontece até o dia 29 de novembro, em Santarém.

Diante de toda essa vivência, agora, é esperar pelo lançamento de sua obra, que em 2011 deverá estar nas prateleiras e de mais um trabalho, que começa a todo vapor, segundo ele. ´Meu próximo livro será sobre os 12 anos da instituição das reservas extrativistas´, diz.

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26/11 - Conciliação com arte
25/11 - Abertura leva centenas de pessoas à orla

Sucena Shkrada Resk

26/11/2010 23:16
Especial Fórum Social Pan-Amazônico - Conciliação com arte, por Sucena Shkrada Resk

Uma das atividades desenvolvidas no primeiro dia (26) da programação do V Fórum Social Pan-Amazônico, em Santarém, teve como foco, a promoção de oficinas voltadas à conciliação de conflitos. Os participantes mostraram sua ´porção artista´, em pinturas e produção de adereços e interpretações, que resultaram em um ambiente animado em uma das salas de uma escola estadual local, onde houve parte da agenda do dia.

Segundo o padre José Boing, presidente da Comissão de Justiça e Paz da Verbita Justiça, Paz e Integridade da Criação na Amazônia, filiada à entidade internacional ligada aos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), a preocupação é de se formar agentes de justiça e paz nas próprias comunidades.

´O objetivo é capacitar líderes locais que queiram aperfeiçoar o papel de mediador. Para isso, serão orientados para entender as leis e como ajudar a diminuir, desde conflitos ecológicos ao tema da terra`, diz. Entre as técnicas aprendidas, está a de abordar métodos de reconciliação em situações de crise, como entre vizinhos. ´Pensamos na justiça restaurativa e em ajudar também as pessoas a não cometerem mais crimes ecológicos, por exemplo´, fala.

Uma das estratégias de sensibilização utilizadas é da produção de bonecos para teatro, com objetos descartados no lixo. ´Cada um produz o seu, descobre a habilidade de algo para o bem`, explica. A dança e as artes plásticas também são incorporadas às opções.

Essa iniciativa teve início em Santarém, em 2003, e foi expandida a 10 municípios vizinhos. ´Hoje há 320 agentes comunitários de justiça e paz nessas comunidades`, relata padre Boing.

Veja mais V Fórum Social Pan-Amazônico, no Blog Cidadãos do Mundo:
25/11-Abertura leva centenas de pessoas à orla
Sucena Shkrada Resk

26/11/2010 00:10
Especial Fórum Social Pan-Amazônico-Abertura leva centenas de pessoas à orla, por Sucena S.Resk

Hoje houve o lançamento do V Fórum Social Pan-Amazônico, em Santarém, PA, que reuniu centenas de pessoas em uma caminhada, desde o Parque da Cidade até a orla à beira do rio Tapajós. Foram praticamente duas horas em que cidadãos amazônidas e de outras partes do Brasil e dos países da região puderam se manifestar por meio da música e de cartazes, que repudiavam a violência contra a mulher; tratavam da reivindição da reforma urbana e que afirmavam a ação dos povos indígenas em defesa da Mãe Terra, entre outras pautas.

No meio desses cidadãos, estava a quilombola Maria Zenaide Rodrigues, 66 anos, que com suas vestes coloridas e semblante risonho, se destacou em meio à multidão. ´Meu traje é da minha terra. Esse colorido representa a Amazônia e a beira do rio`, contou. Segundo a líder da comunidade do Quilombo de Umaicá, próximo à cidade, estava lá principalmente para se mobilizar em defesa das mulheres.

´Muitas vezes, somos discriminadas e não temos liberdade. Quando todas nós nos unimos, por essa causa, nos sentimos felizes e temos um crescimento especial´, afirmou. A dona de casa, mãe de oito filhos, ainda destacou a importância da ligação com suas origens. ´Eu sou a raiz e meus filhos, os galhos, que partiram para o mundo´. E completou - ´Eu ainda trabalho, faço tapete, bordo e pesco muito. Sou viúva hoje e nada me para (de seguir meus ideais), só Deus`.

Logo, no início da caminhada, segurando um dos lados da bandeira do Fórum, estava a jovem indígena Raquel Ester Kampá Pereira, 19 anos, que também narrou a ânsia pelo respeito aos direitos humanos e por uma sociedade igualitária. ´O que me motiva estar aqui é mostrar para a população que nós (indígenas, quilombolas, caboclos...) fazemos parte do mundo. É um momento para poder gritar e para que ouçam esse grito por nossa luta´.

Segundo a estudante, ao olhar para os companheiros de caminhada e observar uma representativa presença de jovens a fez sentir esperança. ´Queremos coisas comuns. Que todos tenham o que comer, possam viver na terrra sem ter medo de assumir sua identidade. Eu sou índia, apesar de muitos acharem que não, por causa das roupas e traços´, disse.

Maria e Raquel se uniram a mais manifestantes que entoavam cânticos ou palavras pela defesa da igualdade ao som da Fanfarra Afro-Amazônica, na qual, havia em grande parte, jovens quilombolas, que tocavam músicas alegres e dançantes, contagiando os demais.

Nessa atmosfera, nem o calor intenso do final de tarde, na faixa dos 30 graus, foi capaz de dissuadir os manifestantes. A celebração mística teve um destaque especial, durante o evento. No início, povos tradicionais e indígenas fizeram um ritual, em que cada representante da Pan-Amazônia colocou uma porção d´água em uma cuia, simbolizando a metáfora sobre a união dos povos. Na fase de encerramento, à noite, tochas acesas iluminaram o trecho de areia próximo à beira do Tapajós, como sinal de abertura de caminhos. O encontro prossegue até o próximo dia 29 de novembro.
Sucena Shkrada Resk

15/11/2010 17:51
São Paulo cria seu Fórum Social, por Sucena Shkrada Resk

Créd.foto: Sucena S.Resk

São Paulo se insere oficialmente na agenda local do Fórum Social Mundial, com o lançamento do Fórum Social de São Paulo , ocorrido no último dia 9 de novembro. A iniciativa, que reúne diferentes movimentos e entidades do terceiro setor na 'região metropolitana", tem o objetivo de organizar as ações da sociedade civil para potencializá-las. De acordo com os organizadores, o primeiro grande encontro está programado para maio de 2011. Até lá, está agendada uma série de reuniões de grupos de trabalhos (abertos a novas adesões), desde a área de comunicação à ambiental.

Ao ouvir as falas dos representantes de iniciativas socioambientais, que se manifestaram, na terça-feira, foi possível perceber nas entrelinhas, a necessidade de inclusão no que se refere à gênero, raça, condições socioeconômicas, socioambientais e, acima de tudo, quanto à visibilidade de projetos já existentes mas, muitas vezes, desconhecidos da população.
A ambientalista Nina Orlow, por exemplo, expôs a proposta de um diálogo efetivo sobre Educação Ambiental em São Paulo, que teve um primeiro painel sistematizado, reunindo sociedade, governo e academia, no dia 12, sob organização dos GTs de Meio Ambiente e de Educação, da Rede Nossa São Paulo.

Uma integrante da Agenda 21 do Centro contou que na região, cidadãos se articulam pela igualdade social. "Atualmente, nos encontramos no segundo passo do processo de nossa agenda, que está no quarto ano", disse.

No bairro de Bela Vista, a Rede Social que leva o mesmo nome, se mobiliza para o resgate do Bixiga, com o mote '2014', ao fazer uma conotação à Copa do Mundo.

Enfim, o que é possível avaliar preliminarmente, é que o desafio imposto é de se difundir o conceito do bem coletivo, para que haja, de fato, a consolidação de uma rede social, na qual antigos e novos atores possam construir planos de curto a longo prazo, que contagiem as novas gerações. E São Paulo é um universo gigantesco de paradoxos a serem superados.


Sucena Shkrada Resk

01/11/2010 14:56
COP10-Biodiversidade: cartas colocadas à mesa, por Sucena Shkrada Resk

A Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP10) , realizada em Nagoya, no Japão, entre 18 e 29 de outubro, foi encerrada com o desafio de que os 193 países representados - incluindo o Brasil - ratifiquem e cumpram as 20 metas acordadas no Plano Estratégico, para os próximos 10 anos, além do Protocolo sobre Acesso e Repartição de Benefícios dos Recursos Genéticos da Biodiversidade (ABS)... O que se espera é que as decisões não se transformem no desenrolar do Protocolo de Kyoto (no âmbito do clima) ou repliquem o acordo anterior não cumprido...Enfim, as cartas foram colocadas à mesa.

A coordenação do evento expõe como principais diretrizes, a aprovação de cerca de metade dos participantes, da possibilidade de se reduzir a quase zero a taxa de perda de habitats naturais, incluindo florestas. Outro acordo significativo estabeleceu a meta de conservação de 17% das águas interiores e áreas terrestres e 10% dos recursos marinhos e áreas costeiras. Hoje há 12% de áreas protegidas terrestres em todo o mundo e apenas 1% para os oceanos. Os governos ainda se comprometeram a recuperar, no mínimo, 15% das áreas degradadas em seus territórios.

A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, declarou à Agência Brasil, que o país tem grandes desafios a enfrentar no tocante principalmente à conservação do Cerrado e da Zona Costeira.

Mais um aspecto considerado positivo entre as propostas firmadas, foi a inclusão do valor da biodiversidade nas contas públicas dos países, como também, da redução de subsídios destinados a atividades consideradas prejudiciais à biodiversidade.

Quanto à aprovação do Protocolo ABS, que nada mais é que um instrumento contra a biopirataria, pode-se dizer que foi a conquista mais árdua, durante todos esses dias de negociação. A meta é que haja base do consentimento prévio informado e condições mutuamente acordadas e a partilha equitativa dos benefícios, tendo em conta o importante papel do conhecimento tradicional (índigenas/povos da floresta). Para isso, foi proposta ainda da criação de um mecanismo multilateral global, que irá operar áreas transfronteiriças ou situações em que o consentimento prévio informado não pode ser obtido.

O encontro, que reuniu mais de 18 mil participantes, também agregou maior integração da biodiversidade com a agenda da mudança climática e do uso da terra, no Pavilhão Ecossistemas ( www.ecosystemspavilion.org), para costurar propostas para a COP16 (Climática), no México. Este será mais um importante evento ambiental para ser acompanhado.



Sucena Shkrada Resk

26/10/2010 15:10
A Psicologia e os índios: na busca de respostas, por Sucena Shkrada Resk

Tudo é muito novo. Assim pode ser caracterizada a relação da Psicologia (tradicional) com o universo indígena. A busca de respostas para esse diálogo foi o mote para a publicação da obra disponível em PDF, que trata do tema , lançada neste ano, pelo Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP-SP). No livro, são relatadas diferentes iniciativas no estado, entre 2007 e 2009, que tentam encontrar o equilíbrio entre as diferentes culturas.

Como principais recomendações, estão as seguintes diretrizes dispostas na parte final do documento, que reúne relatos tanto de psicólogos, como de lideranças indígenas de diferentes povos:

-O desafio das sociedades nativas é poder manter um contato com a sociedade nacional sem perder a integridade cultural e étnica. Este desafio deve ser tratado também como premissa ético-política dos psicólogos com as comunidades indígenas, embasando suas práticas e concepções.

-Apoiar as lutas dos povos indígenas, especialmente pelo direito à terra e à implantação de projetos estruturantes que promovam o desenvolvimento sustentável das aldeias.

-Apoiar a educação indígena diferenciada, expressa pela Constituição Federal, que garante uma educação bilíngue e a valorização étnica e cultural.

-Promover saúde mental a partir de um enfoque psicossocial, com base nos determinantes sócio-históricos dos problemas enfrentados hoje pelas diversas comunidades. Superar relações históricas de dominação.

-Fortalecer os laços familiares e comunitários. Intermediar conflitos e promover vínculos integradores da comunidade, por meio do fortalecimento da identidade étnica e cultural e da legitimação dos conhecimentos tradicionais.

-Inserir a temática indígena nos espaços de debate e formulação de políticas • públicas, como Conselhos Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente, da Saúde, da Assistência, da Educação. Torná-los presentes na formulação de políticas locais.

-Incentivar a participação de lideranças indígenas nesses espaços e na relação com pesquisadores.
-Contribuir nas discussões interdisciplinares, especialmente sobre a natureza dos processos psicossociais e a ética nas relações interculturais.

-Tratar de modo diferenciado cada etnia, em função de sua cultura particular.

-Tomar cuidado nas pesquisas de campo; princípios éticos devem prevalecer aos interesses acadêmicos. Garantir as devolutivas dos conhecimentos produzidos às comunidades interessadas

Entre outras.

“...Já existe a psicologia do indígena que é conhecida pelo pajé. Agora, se deve aproveitar a potencialidade de ambas culturas. É importante compreender que a dimensão subjetiva não se expressa das teorias mais importantes da Europa. Ao mesmo tempo, a generalidade servirá para qualquer ser humano, como o exemplo das dinâmicas de grupo adaptadas às circunstâncias locais”, explica o psicólogo Odair Furtado.

Na análise da pedagoga Dora Pankararu, os indígenas apreendem ainda hoje o conhecimento da vivência e não do que a Academia busca. “...O mais velho é a estrutura da comunidade. Muitas vezes, os pesquisadores têm pressa a abordá-los e esses (anciãos) pedem que eles venham outro dia e, em algumas ocasiões, também não entendem as perguntas”, explica. São tempos e necessidades diferentes a serem conciliadas, segundo ela.

Em sua avaliação, desde 2007, há um estreitamento das relações entre os psicólogos e indígenas, mas ainda existem questionamentos por parte das comunidades. “Quanto tempo (o psicólogo) vai permanecer? Será que só quer pesquisar? Vai falar o que contei sobre o vizinho?”, diz.

Para Edinaldo Xucurú, estudante de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), o desafio está em desconstruir bases com conceitos da colonização europeia, para alicerçar trabalhos genuinamente brasileiros. Ele produz hoje um livro voltado à saúde indígena, focado no estado de PE, onde fica a etnia a que pertence. Segundo ele, os pajés ainda hoje são vistos como ‘grandes psicólogos’, entre os povos indígenas, e isso não pode ser desprezado.

Para o pesquisador, no campo da psicologia, existe hoje um tempo de diálogo entre as populações indígenas e brancas, que devem construir uma proposta conjunta.
Ao se constatar ‘esses dois mundos’ da psicologia, se verifica que na última década, surgem demandas na área indígena, por serviços de saúde mental, com o uso de medicamentos psicotrópicos, como também problemas de alcoolismo. Mais um problema em que o campo da psicologia pode contribuir, na visão de algumas comunidades e especialistas, é em relação às que estão em terras demarcadas, pois passaram por processo de perseguição extensa e tiveram de desenvolver outras técnicas de sobrevivência.

O antropólogo Rinaldo Sérgio Vieira Arruda, coordenador do Núcleo de Estudos de Etnologia Indígena, Meio Ambiente e Populações Tradicionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), constata a importância de se reconhecer as (diferentes) formas de sentir o mundo. “Na socialização, se incorpora maneiras emocionais, por meio da cultura, que tem muitos significados. O ser humano não é somente um organismo físico biológico que age automaticamente”, diz.

Segundo o especialista, o ambiente cultural está ligado à história do grupo no qual nascemos. “Mas as culturas nunca estão isoladas...não têm fronteiras. A diferença, entre uma e outra, está na maneira como cada povo incorpora esse conteúdo”, alerta.

A quebra de paradigmas são estratégicas para esse novo olhar, em sua opinião. “Quando as mudanças ocorrem conosco, chamamos de progresso; quando ocorre com os outros, visualizamos como perda”, ilustra para reflexão

Arruda explica que a questão identitária se desenvolve no campo político. “E apesar de ações conservadoras ainda vigentes, o próprio movimento indígena abriu muitos espaços”, avalia.

Mais informações sobre as ações do Grupo de trabalho do CRP-SP sobre a Psicologia e os povos indígenas podem ser consultadas no site http://www.crp06.org.br/povos/acoes.aspx.

Veja mais, no Blog Cidadãos do Mundo:
19/09/2010 - O pensamento de nova liderança indígena, por Sucena Shkrada Resk

Sucena Shkrada Resk

19/09/2010 17:19
O pensamento de nova liderança indígena, por Sucena Shkrada Resk

O atual cacique da aldeia Tenondé Porã, na região de Parelheiros, em São Paulo, é o jovem Ataíde Gonçalves Papá Mirin, de 24 anos, que também atua como conselheiro na Comissão Nacional da Juventude Indígena. Em entrevista ao Blog Cidadãos do Mundo, concedida em agosto deste ano, ele conta quais são os anseios e desafios de seu povo, no século XXI.

Cidadãos do Mundo - Ataíde, conte um pouco de sua história.

Ataíde - Tenho quatro irmãos e quando tinha entre 12 e 13 anos já fazia trabalhos voltados para a educação. Eu me formei como educador, quando estava no Espírito Santo. Há um ano sou cacique, aqui, e antes fui coordenador do conselho guarani local. A liderança anterior foi do cacique Timóteo.

Cidadãos do Mundo - Quais são seus anseios como nova liderança?

Ataíde - Eu tenho vontade de adquirir mais conhecimentos para a minha comunidade. A vida é uma aprendizagem. Nossa maior preocupação é cuidar para que nossos jovens não caiam no mundo e se entreguem para as drogas. Já fiz antes trabalho em três aldeias voltados para essa questão e ainda tenho muito a aprender para orientar a minha comunidade. A liderança, como o pai de família, passa os conhecimentos por gerações.

Cidadãos do Mundo - Que elos há entre o seu povo e outros que falam guarani no Brasil?

Ataíde - Nosso elo é a luta pelo território. No nosso caso, hoje somos 1,2 mil pessoas distribuídas em um território de 26ha, que se tornou pequeno, e é um desafio. Na década de 80, cerca de 90 pessoas de meu povo seguiram para cá e formaram nossa aldeia. Daí houve mais migrações vindas do PR e ES. Atualmente a maioria da população local (70%) é de crianças e adolescentes. Outra luta em comum é pela saúde e educação e para ter o espaço de nossa cultura valorizado pelos não-indígenas.

Cidadãos do Mundo - A educação bilíngue ajuda nesse processo?

Ataíde - A educação bilíngue é importante para que a gente consiga reivindicar em português e em tupi-guarani e para compreender os documentos escritos dos brancos. Hoje nosso povo frequenta duas escolas. Na municipal, as crianças de 0 a 6 anos aprendem nossa cultura índigena, e a continuação é na estadual, onde começam a aprender português.

Cidadão do Mundo - Como você faz para ter uma comunicação contínua com outros jovens indígenas, já que participa da Comissão Nacional da Juventude Indígena?

Ataíde - Hoje o orkut é um dos principais elos de comunicação, além do MSN. Na minha lista, tenho quase 1 mil participantes, sendo a maioria indígenas.

(Ataíde concedeu a entrevista antes do lançamento do livro Psicologia e Povos Indígenas, do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo)
Sucena Shkrada Resk

19/09/2010 15:16
Pensata: Joverina e Benedito, cidadãos brasileiros, por Sucena Shkrada Resk

Outro dia eu estava refletindo sobre quais são as situações nas quais eu realmente sinto aquela sensação terna de bem-querer, e cheguei à seguinte conclusão: uma dessas vivências ocorrem quando posso compartilhar histórias de vida de pessoas humildes. Ouvi-las me faz recarregar todas as energias dissipadas em experiências desgastantes do cotidiano frenético, em que "ter" parece ser um divisor de águas. E foi assim, que dona Joverina, 56, em Gaúcha do Norte, MT, me fez sentir com um "dedo de prosa", no saguão de um pequeno hotel local, onde eu estava hospedada, voltando da viagem à aldeia Aweti, no mês de agosto.

Ela e seu marido Benedito, que moram há pelo o menos 60 km da cidade, estavam lá, aguardando para falar com um rapaz responsável pelos contatos administrativos com as populações, que aguardam chegar energia na área rural, no Programa Luz para Todos. Eles precisavam autorizar que os postes fossem instalados em suas propriedades e aí deveriam esperar mais (um tempo indeterminado), para ver se iriam ser beneficiados ainda este ano. No caso dessa família, já se somavam pelo o menos dois anos, nessa expectativa.

Dona Joverina contou que nunca havia tido contato com energia elétrica nos lugares em que morou, exceto quando visita sua filha casada. Os candeeiros e velas iluminam há décadas seu cotidiano, desde seus avós e pais. E como uma criança, que exprime grandes expectativas, falou - "...O Benedito já chegou a comprar uma TV e um freezer, faz dois anos, que ainda estão na caixa, na espera de a gente conseguir que chegue a luz elétrica em casa".

Quando ela mencionou isso, foi como se alguns cenários se formassem em minha mente e vi como há tantos brasis. Imaginem, como para essas pessoas adquirir um bem de consumo tem um valor tão diferente do nosso, que vivemos nas metrópoles. Eu me emocionei, pois ela estava narrando uma realidade que se contrasta do adquirir desenfreado que faz com que se lotem as lojas todos os dias de clientes que querem o mais moderno, apesar de já ter modelos que mal acabaram de pagar.

Durante o bate papo, ela me convidou para conhecer a casa dela (sem ao menos saber quem eu era realmente), mas com uma amistosidade tão encantadora, que me fez sentir bem.

A dona de casa falou ainda que cultivava um pouco de horta para alimentação, mas que um glaucoma a impedia de fazer muitos esforços. Mas logo em seguida, disse contente -
"Ah, mas agora a gente espera fazer a primeira colheita, da carreira de pequi, que o Benedito plantou", afirmou.

Resolvi destacar essa conversa no blog, pois são desses pequenos encontros, que as nossas vidas são feitas, e às vezes, esquecemos, nos lembrando somente daqueles que não merecem tanta atenção...

Sucena Shkrada Resk

09/09/2010 19:02
Cepal utiliza metodologia da síndrome de mudança climática, por Sucena S.Resk

A Comissão Econômica para a América Latina e Caribe da Organização das Nações Unidas (CEPAL/ONU) adota hoje a Metodologia da Síndrome de Mudança Climática e sustentabilidade, que foi desenvolvida pelo Postdam Institut for Climate Impact Research (www.pik-postdam.de), para atuar na região. Projetos estão sendo desenvolvidos na Argentina, Colômbia e México, sob esse modelo de sistema.

“É um instrumento que tem a relevância de reconhecer as causas de mudanças no meio ambiente, ao promover a seleção de plataforma de indicadores e envolver diversos stakeholders”, diz o Doutor em Economia, Andrés Schuschny, da Divisão de Recursos Naturais e Infraestrutura, da Cepal, em Santiago, no Chile. Ele foi um dos palestrantes do Simpósio Internacional de Mudanças Climáticas e Pobreza na América do Sul, realizado pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP), neste mês.

Segundo o especialista, nesse sistema, primeiro foram identificados os problemas centrais das mudanças globais, como mudança climática, degradação do solo, perda da biodiversidade, escassez e contaminação das fontes de água potável, dos oceanos e incidência crescente dos desastres naturais pressionados pela ação antrópica.

Ao todo fizeram a descrição de 16 síndromes globais. Entre elas, está a do desenvolvimento, que tem a ver com a economia. “Nessa síndrome, se constata a deterioração das paisagens naturais, como resultado de projetos de grande escala, degradação por métodos agrícolas inapropriados e por causa do crescimento urbano descontrolado, além da síndrome da favela, dos Tigres Asiáticos, ....e de grandes acidentes, como Chernobyl”, explica.

Nesse modelo, também existe a síndrome do sumidouro, que está relacionada à chamada síndrome da chaminé e da terra contaminada. “Dependendo do local, em que se é aplicada a metodologia, são investigados quais itens têm maior relevância e urgência”, diz Schuschny.

As esferas de intervenções são divididas entre as biosfera e atmosfera, instâncias hidrológica, demográfica, dos solos, econômica, de cultura, de organização social e de inovação. “Isso quer dizer que são incorporadas as principais pautas da problemática socioambiental. E aí vai se fazendo as relações mais aprofundadas e o cruzamento entre essas áreas, para se encontrar as causas dos problemas. A proposta é quebrar o ciclo vicioso”, expõe o economista.

“Na Argentina, sobre a região dos Pampas, por exemplo, houve o diagnóstico de uso crescente das terras para cultivos agrícolas, além de intensificação do monocultivo”, relata Schuschny.

De acordo com o economista, houve aumento de mais de 70% da superfície agrícola entre 1988 e 2002. O monocultivo da soja é mais de 90% transgênico. Quanto a impactos ambientais, há prognósticos de erosão severa e diminuição de rendimento entre 30 e 40%, por exemplo. “A intensificação da soja causou efeitos sociais, como perda de emprego rural. É uma grande teia de relações”, analisa.

No âmbito de países da América Latina e Caribe, a Cepal já produziu 14 informes de avaliação de desastres, segundo ele. “Foram observados 13 fatores recorrentes e proposta a síndrome de vulnerabilidade como ponto de partida para negociações. Foi previsto o incremento de ocupações em áreas de riscos, relacionadas ao aumentos de afetados por desastres”, diz. Em sua avaliação, hoje ainda há pouca comunicação entre os setores acadêmicos e estruturas de governo, como também falta de alerta aos riscos e meios de prevenção, nessas circunstâncias.

Segundo Schuschny, há prós e contras ao se adotar essa metodologia, por isso, é necessário haver redução de redundâncias, para que o instrumento possa ser aplicado, e não exista conflitos entre escalas locais e nacionais. “Caso houver um ‘mal desenho’, pode resultar em dados confusos ou reduzir a complexidade do tema. Se a sociedade não valida o indicador, não tem sentido”, considera. O gargalo, em sua opinião, ainda é a ausência de informação básica e a falta de consciência ambiental.

Mais um aspecto a se considerar nas análises, é a identificação de variáveis quanto a indicadores, como também definir marco conceitual e tratamento de dados perdidos. “O tema de mudanças climáticas está relacionado a áreas protegidas, de cultivo com fertilizante e pesticidas, quantidade de espécies ameaçadas, áreas degradadas, afetadas por desertificação e proporção de áreas com florestas”, afirma.

Nessa escala de aprofundamento, são avaliados os recursos hídricos disponibilizados, qualidade das águas, estado de contaminação e tratamento de águas residuais. Com relação aos oceanos, população vivendo em áreas costeiras, peixes em limites biológicos seguros. No campo da atmosfera, as emissões de CO2, consumo de substâncias que esgotam a camada de ozônio e concentração de contaminação do ar.

Ao se pesquisar desastres naturais, são levantadas áreas propensas para as ocorrências, como também números e tipos, prevenção e respostas os mesmos.
São avaliados ainda padrões de produção e consumo sustentável, no tocante a materiais, intensidade de uso energético, fontes renováveis, proporção de tratamento, transporte terrestre, aéreo, serviços sanitários, água potável, acesso à energia e condições de vida das pessoas vivendo em favelas, entre outros.

Para completar o ciclo, a gestão ambiental é mais um aspecto priorizado. “São apuradas as companhias com ISO 14001, feitas avaliações de indicadores de informe de estado ambiental, sistemas de informação, convenções internacionais e financiamentos”, explica o representante da Cepal.

Sucena Shkrada Resk

08/09/2010 16:37
Pensamentos de Alfredo Pena-Vega, por Sucena Shkrada Resk

O pesquisador e escritor Alfredo Pena-Vega, da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris, autor de O Despertar Ecológico, pela Garamond, é um defensor da ecologia complexa, e nutre obviamente, por Edgar Morin, grande reconhecimento. Os seus trabalhos mais recentes são sobre a consciência ecológica dos jovens na China, país que figura como maior emissor de gases de efeito estufa (GEEs) no planeta.

Para o acadêmico, não é possível esquecer em qualquer que seja a análise, a componente histórica. "Qual é a história de noção de natureza e meio ambiente? Há a importância da contextualização, para compreender, por exemplo, as catástrofes dos últimos 20 anos. Como Edgar Morin diz, existe um blecaute. Cada prática social construiu uma imagem da natureza. Isso levou a uma situação viciada da mesma", avalia.

Segundo o pensador, é necessário para todos que trabalham com Meio Ambiente, que revisitem o relatório de Roma, que alerta sobre o que acontecerá décadas depois. "É o primeiro passo para verificar o sistema de mundo... Chernobyl, Mar Negro, chuvas ácidas....Trabalhei 10 anos, na Ucrânia e Bielorrússia sobre Chernobyl e nos últimos 20 anos, sobre Aquecimento Global. Por isso, vejo a necessidade de reconstruir a noção de meio ambiente", diz.

Ele ainda defende que haja a revisão epistemiológica e se revisite os últimos 40 anos, para se mudar os paradigmas. "É importante entender natureza, ecologia e sociedade. A Ecologia nasce como Ciência para entender a complexidade da biosfera. Minha crítica, é que desde o século XIX, acabou isolando o homem do meio ambiente", critica o cientista social.

Alfredo Pena-Vega foi um dos palestrantes que participaram do Simpósio Internacional de Mudanças Climáticas e Pobreza na América Latina, realizado na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP), entre 29 de agosto e 1 de setembro deste ano.

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Sucena Shkrada Resk

08/09/2010 16:03
Precisamos nos reconhecer sul-americanos (II), por Sucena Shkrada Resk

Durante o Simpósio Internacional de Mudanças Climáticas e Pobreza na América Latina, realizado na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP), tive a oportunidade de ouvir, no dia 31 de agosto, relatos de pesquisadores do Equador, Paraguai e Uruguai sobre os problemas que afligem esses países, além da Bolívia e Chile, no dia anterior. Os diagnósticos, apesar de parciais em alguns setores, devido à falta de disponibilidade de dados, revelam mais uma vez como são urgentes ações de adaptação em nosso continente. As doenças infecto-contagiosas tendem a se alastrar, caso nenhuma medida de fundo sanitário e de planejamento urbano seja tomada.

Equador...
Sandra Jimenez, da Pontifícia Universidad Católica del Ecuador, reitera que o tema ambiental tem conotação econômica importante. "A zona rural representa 35% da população e 18% do território são áreas protegidas, mas a exploração do recurso de petróleo tem levado ao desflorestamento. Na área de saneamento, o país tem hoje 15% das casas com cobertura, sendo 72% de água encanada", fala.

Estudos que já estão sendo viabilizados no país apontam secas futuras em regiões de montanhas, como na Amazônia. "As comunidades mais expostas, são indígenas e de origem afro", esclarece a professora.

"No Equador, foi criado um índice de risco provincial, baseado no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), entre 2010 e 2030. Cruza cobertura vegetal e registra cenários de clima de alto risco em Guayas, Bolívar e Cañar", explica.

Com esse prognóstico, haverá perda de ecossistemas e meios de subsistência, produtividade agrícola e de infraestrutura. "As populações tradicionais vão perdendo suas fontes de subsistencia, além de adquirirem as infecções. Os indígenas serão afetados pela seca. Há a possibilidade do aumento de malária, com a expectativa de temperaturas entre 15 a 27 graus...", informa.

Na possibilidade de haver o aumento da temperatura de 2,8 graus até 2030, segundo Sandra Jimenez, também se multiplicarão casos de dengue e malária e a vulnerabilidade será maior na costa.

Paraguai...
Antonieta Rojas de Arias, do Centro de Desenvolvimento da Investigação Científica, do Paraguai, afirma que o perfil de problemas no país é similar ao de outros paíse sul-americanos. "Nossa economia também depende da agricultura. O país tem praticamente 8% da mata atlântica, e é o quarto em produção de soja, grande parte para subsistência", fala.

As secas atingem principalmente a região do Chaco e s populações indígenas locais estão sujeitas a adquirir cólera. Já nas zonas orientais, há frequência das chuvas. "O El Niño resultaou em impacto no PIB... Também temos preocupação com as epidemias", alerta.

Uruguai...
O oceanógrafo Gustavo Nagy, da Universidad de la República, em Montevidéu, no Uruguai, considera que quando se trata do tema adaptação às mudanças climáticas, há muito papel na academia, mas que reverte em pouca ação. Ele citou a dificuldade no país, de haver associações interdisciplinares para essas pautas.

Entre os problemas levantados, nos últimos anos, o acadêmico contou que durante 55 dias, em 2007, a temperatura no Uruguai não ultrapassou os 15 graus, o que gerou mortalidade infantil. "O país tem sérios problemas de saúde, mas não há dados suficientes para estudar e ainda emitimos mais metano, e a última seca durou 10 meses, representando a perda de 3% do Produto Interno Bruto (PIB)", conta.

Em sua avaliação, falta aprofundar projetos baseados no tempo presente. "Caso isso não seja feito, podemos incorrer no erro da má adaptação. A pobreza hoje atinge 22% da população e a informalidade é de 25%", diz.

Em contra-partida, há outros indicadores positivos, quanto à matriz energética. "Quase 99% são hidrelétricas e há cobertura de água potável praticamente na totalidade do país", afirma.

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08/09 - Precisamos nos reconhecer sul-americanos (I)
02/09 - Adaptação tem de ultrapassar a retórica
Sucena Shkrada Resk

02/09/2010 16:57
Precisamos nos reconhecer sul-americanos (I), por Sucena Shkrada Resk

Quando pensamos em América do Sul, então, aí que se configura a ausência da força regional articulada. Nós, a maioria dos brasileiros, nem imaginamos o que ocorre em outros países e no nosso próprio país, porque essa falta de conectividade já vem da escola. Não aprendemos a incorporar o sentido de ser sul ou latino-americano, pois não faz parte dos nossos currículos e da gênese de nossa cultura. Ainda há muito a avançar neste sentido.

Bolívia...
Quando ouvi Maria Del Carmen Ledo Garcia, da Universidade Mayor de San Simon, na Bolivia, falar durante o Simpósio Internacional de Mudanças Climáticas e Pobreza na América do Sul, eu constatei o quanto ignoro dos países do cone Sul.

Ela explicou que a Bolívia ocupa o primeiro lugar em nível de desigualdade na América Latina, seguido pelo Brasil. "Meu país não só tem diversidades ecológicas, mas culturais e politicas...O último censo foi em 2001, e La Paz, Cochabamba e Santa Cruz centralizam a população urbana, em 72%, e 90% da população vive em 5% do território. O atraso na estrutura produtiva é um desafio. Há precarização das forças de trabalho e um rosto feminino da pobreza, não só na faceta vísível, como na invisível”, afirma.

Segundo ela, quase da metade dos bolivianos não tem moradia própria. “Os efeitos simultâneos das mudanças climáticas estão na inseguridade, desemprego,...Em alguns pontos de Cochabamba – que foi objeto principal de sua exposição - , há índices similares aos africanos e subsaarianos. A migração é resultado de duas facetas: inspirações e insatisfações”, constata.

Dramaticamente o analfabetismo feminino é uma realidade hoje, de acordo com a pesquisadora. “A mortalidade infantil é acima de 100 em cada 1000 nascidos vivos. A política pública está atrasadíssima. A desigualdade é revelada, por exemplo, com a diferença do custo da água, que chega a 4 dólares por metro cúbico, dependendo da localização”, diz.

No campo da saúde, há dificuldade em levantar estatísticas, explica Maria Del Carmen, devido aos registros precários de dados. “Mas a maior parte de problemas é de diarréia, cólicas e dores de cabeça, e há muitos casos de sarnas em crianças”. Outro aspecto preocupante, é a contaminação em fontes de água.

“Há necessidade de se estabelecer parcerias entre os sul-americanos, para mitigar os danos...O
Desenvolvimento Humano tem de ser visto de forma holística. Cochabamba é uma síntese da Bolívia. Há dois círculos perversos, a inserção precária no mercado de trabalho e falta de acesso aos serviços básicos, principalmente problemas hídricos”, explica. Carmenledo@gmail.com

Chile...
Oscar Parra, da Universidade de Concepción, no Chile, considera que é preciso falar da vulnerabilidade aos desastres naturais, vendo a regionalidade de cada país. No caso chileno, há condições extremas desérticas ao norte, como o deserto de Atacama, e de muita umidade ao Sul, vulcões muito ativos, além de o país ser afetado pelos fenômenos El Niño e El Niña.

“Cerca de 12 mi habitantes vive em escassez de água. A Patagônia Chilena, onde há mais recursos hídricos, com chuvas constantes, é muito sensível à mudança climática. E onde existe mais atividade econômica, há mais restrição hídrica”, afirma.

O Chile, ao estar localizado no Cinturão de Fogo do Pacífico, tem alta produtividade na área sísmica, que é um elemento crucial em sua análise. Parra citou o exemplo do terremoto de 27 de fevereiro, além do tsunami, que atingiu cidades da costa. “Após os cataclismas, ocorreram grandes mortandades de animais e processos de desertificação. Por isso, não podemos analisar mudança climática, sem desastre natural”, avalia.

Com todos esses fatores, o especialista explica que há necessidade de se recuperar o saneamento ambiental destruído. “São necessários US$ 150 milhões a serem aplicados só na infraestrutura e essa recuperação deverá demorar por volta de três anos”, diz.

“O reservatório de água do Chile está na Cordilheira dos Andes e os setores mais afetados são os agrícolas, com a diminuição da área andina das geleiras", explica

Apesar de já existir plano de adaptação e mitigação, o trabalho é intenso. “Depois do terremoto, os recursos hidrológicos foram modificados, há rios que não mais desembocando no mar...E ainda precisamos verificar o comprometimento no ecossistema patagônico”, revela.

A fala de Parra foi complementada pela do sociólogo Jorge Rojas, da Universidade de Concepción, que trouxe o case de Bío Bío. O Projeto Anillos SOC-28, executado lá, destaca a importância em todo o processo de adaptação de se respeitar o conhecimento popular, que é o saber acumulado por meio da experiência das populações em seus nichos ecológicos.

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02/09 - Adaptação tem de ultrapassar a retórica
Sucena Shkrada Resk

02/09/2010 16:46
Adaptação tem de ultrapassar a retórica, por Sucena Shkrada Resk

Por qualquer caminho que se discuta a questão das mudanças climáticas, a adaptação se configura como o grande gargalo, desde os campos de estudos, políticas públicas e de manutenção de ações contundentes multidisciplinares em beneficio da população vulnerável. Apesar de o problema ser detectado, a maioria dos estudiosos e afetados diretamente não tem dúvidas de que faltam projetos efetivos neste sentido, o que reflete impotência de gestão compartilhada e diálogo permanente a respeito, o que exige ações em rede.

Por mais agressivo que possa parecer, o retrato dessa desarticulação se revela em milhares de crianças na região morrendo ainda de diarréia, aumento de doenças de fundo hídrico, desnutrição, desemprego, analfabetismo...

Essa constatação permeou o Simpósio Internacional de Mudanças Climáticas e Pobreza na América do Sul, nesta semana, na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP). O grande embate a enfrentar é fazer com que o campo dos discursos ultrapasse e interaja com a realidade que existe do lado de fora do auditório, das salas de aula, dos gabinetes administrativos, das empresas...

O que consegui observar, após refletir sobre os inúmeros relatos que ouvi, é que as doses são homeopáticas demais nessa discussão no Brasil e no mundo. E os desastres naturais já ocorrem há muito tempo, sejam antrópicos ou não. Vide os terremotos no Haiti e Chile, inundações e deslizamentos ocorridos, no Vale do Itajaí, SC, em São Luiz de Paraitinga, SP, em Angra dos Reis, Niterói, Rio de Janeiro, no RJ, além de incidentes de grandes proporções que atingem o Paquistão e a Rússia, nesse caso, com temperaturas altas contínuas jamais vistas. E como esquecer, a baixa umidade do ar que nos atinge aqui em São Paulo e as queimadas de grandes proporções no Centro-Oeste Brasileiro. Enfim, é um mar sem fim de acontecimentos.

No Brasil, foi sancionada a Política Nacional de Mudanças Climáticas, além de algumas legislações municipais e estaduais no setor, como no caso de São Paulo, mas isso ainda é muito pouco. Implementar todos os dispositivos propostos requer posturas políticas contínuas e aparato técnico para as ações. Caso contrário, nada feito. Há um inimigo supostamente invisível dos lobbies...

A recém aprovada Política Nacional de Resíduos Sólidos vem nesse contexto, mas precisa ser regulamentada e associada a de Saneamento, Meio Ambiente e à de Mudança Climática, pois todas estão relacionadas. Senão, será mais uma sustentação institucional sem o vigor necessário para as transformações.

E diante de tudo isso, quem estava devidamente preparado?... A resposta já sabemos...E a reboque vemos as ações emergenciais acontecendo, mas que não substituem medidas a longo prazo. Nessa avalanche de acontecimentos gerados pelas mudanças climáticas, as populações tradicionais e/ou de baixa renda ficam praticamente invisíveis, pois raramente sabem o que está sendo discutido a seu respeito ou tem poder de fala nessas interlocuções, apesar de serem objetos de reflexões no chamado pacote 'pobreza'... Não podemos ser hipócritas em desconsiderar esse contexto.

Sucena Shkrada Resk

28/08/2010 17:28
Cora Coralina: pensamentos intensos, por Sucena Shkrada Resk

Neste mês, tive a oportunidade de entrar em contato com o pensamento transcendente de Cora Coralina (1889-1985), ao ser contagiada pela atmosfera da casa onde nasceu e viveu boa parte de sua vida, em Goiás (Velha), GO, à beira do rio Vermelho. Após sua morte, o imóvel se tornou um museu, mantido pela Associação Amigos de Cora Coralina, que tenta manter os traços originais da construção do século XVIII e dos pertences e história da autora. Não é difícil sentir a presença dela, o que é uma sensação tão envolvente e até posso dizer, transformadora.

Logo na entrada, ouvimos vídeos em que Cora foi entrevistada pela TV Cultura e TV Brasil Central, no limiar de seus 95 anos. Emociona! Lúcida e com um humor perspicaz, ela diz que considerava ter um fogão, um ferro...mordomias e isso para ela era suficiente na sua maturidade...Objetiva, demonstra que a felicidade está muito além dos bens materiais. Sua ligação com a terra, as raízes, o respeito ao outro e com sua evolução espiritual é traçada em cada frase.

Ao brincar com as palavras, conta como a Ana Lins dos Guimarães Peixoto (seu nome original) se transformou em Cora... "...Esta cidade era cheia de Ana: a burra, a louca...Eu tive medo que a minha glória literária não fosse com Ana...Achei Coralina e juntei..."

Os seus pensamentos ecoam também em manuscritos originais ou ampliados nas paredes da residência de pau-a-pique, com aquelas portas imensas de madeira e um imenso quintal... Foi nesse espaço, que aos 14 anos começou a escrever e só conseguiu publicar sua primeira obra, aos 76 anos, após ter 6 filhos, 15 netos e 30 bisnetos.

Essa trajetória exigiu determinação da poetisa. Depois de passagens por outras cidades, como São Paulo, retornou a Goiás Velha em 1956, onde começou a atuar como doceira, reconhecida principalmente, pelo doce de laranja..., que era a fonte de sua subsistência. Esse cotidiano também foi impresso em seus escritos, destacando a originalidade de suas palavras.

Algumas frases da poetisa retratam isso - "...Eu estava nos meus doces. Eu me punha nos meus doces, imprimia os tons da minha personalidade no meus doces..." - "...Sou poeta por acaso e doceira por convicção e necessidade..."

As metáforas carregadas de sentido de Cora Coralina, que somente com o curso primário, transpôs todos os redutos da intelectualidade, sendo reconhecida mundialmente, demonstra o quanto o nosso valor está no poder de nossa essência. Arrojada, aprendeu datilografia aos 70 anos. Ela foi atrás dos seus sonhos na melhor idade, sem pestanejar. Eu sinto orgulho por ela ter existido e ser um exemplo para todos nós, que titubeamos tanto a lutar por nossos sonhos.

"Sou mulher como outra qualquer.Venho do século passado e trago comigo todas as idades" (trecho de Cora Coralina, quem é você?) traduz o pensamento maduro, que perpetua o pensamento da autora, que foi a primeira mulher no Brasil a receber o Troféu Juca Pato, em 1984, da União Brasileira de Escritores; quebrou dogmas em um reduto até então predominantemente masculino e constituído dos 'homens das letras'.

Para quem não pode presencialmente visitar o museu, desde o ano passado, tem a possibilidade de acessar o espaço virtualmente pelo site http://www.eravirtual.org/cora_br/. E informações sobre a casa de cultura são encontradas no site www.casadecoracoralina.com.br. Vale a pena ter essa experiência para se descontaminar das redomas das palavras difíceis, que não conseguem atingir nossa sensibilidade e propiciar transformações.

E como Cora Coralina dizia em seu poema Aninha e suas pedras -

"...Não te deixes destruir...

Ajuntando novas pedras

e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.

Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha

um poema..." (Cora Coralina)


Sucena Shkrada Resk

28/08/2010 13:46
Entremundos: ter orgulho de ser..., por Sucena Shkrada Resk

A palavra orgulho pode ter diferentes conotações e quando ganha o seu sentido mais nobre, é carregada de emoção. Foi essa emoção que me foi passada, nesta semana, pelo quilombola José Lolasco de França, 68, de Nhunguara, no município de Poranga, SP, e pela índigena guarani, da região do Jaraguá, na capital, Ywa Poty Mirim, 55 anos. Eles participaram do evento Entremundos, em Registro, SP.

Ele me contou que ainda conserva sua rotina de vida, de décadas. "Acordo 7h para ir para a roça...". Lá cultiva arroz, feijão, milho, batata doce, mandioca...um cotidiano vivido pela maior parte das 140 famílias, que moram por lá.

"Não gosto de TV e só assisto jornal", confessa o quilombola, que muito tempo não teve acesso à energia elétrica e que até hoje não deixa de lado seu lampião e sua relação com a terra, que segundo ele, também tem papel de guardião.

Em sua filosofia de vida, diz - "A gente é o que Deus deixou no mundo e não somos melhores do que o outro...".

Para Ywa, o que mais lhe dá orgulho, é ser índigena guarani originária de terras brasileiras. Ela conta que o cultivo do respeito à ancestralidade ainda é muito forte entre seu povo, apesar de estarem na área urbana. "Até os seis anos, as crianças aprendem somente tupi e sua cultura e só depois lhes é ensinado também o português", fala.

Recentemente voltou a estudar e está concluindo o ensino médio. "Eu gostaria de cursar Medicina para ajudar meu povo, mas às vezes, sinto incerteza se não estou velha para isso...", mas logo lhe vem a motivação de continuar o seu propósito incentivado pela sua comunidade, onde por muito tempo atua como agente de saúde indígena. Aprender a medicina do branco, em sua visão, é uma forma de complementar os conhecimentos e ações dos pajés, sem ferir os costumes de seu povo. Veja ainda:

28/8 - Olhar atento ao leque de conhecimento
28/8 - Identidade, uma questão semântica?
28/8 - Qual é a nossa identidade?
27/8 - PR tem a Rede Puxirão
27/8 - Entremundos: antropóloga fala das diferenças
25/8 - Bastidores Entremundos - Direto na fonte
23/8 - Resumo de hoje

Confira a íntegra do evento em Ocareté-Entremundos
Sucena Shkrada Resk

28/08/2010 13:05
Entremundos:olhar atento ao leque de conhecimento, por Sucena Shkrada Resk

"Posso ser o que você é sem deixar de ser quem sou". Essa frase estampada no slide apresentado por Marcos Terena, no dia 24, no encontro Entremundos, em Registro, SP, segundo ele, é da sua fase de estudante, proferida em 1981, na União das Nações Indígenas (UNI) e traduz todos os anseios presentes hoje entre eles.

"Pela primeira vez no Brasil, na semana passada, a banca examinadora de mestrado de dois indígenas Terena ouviu dos mestrandos suas defesas em português e terena, na própria aldeia. Isso é um momento histórico", conta. Segundo Marcos, o único cuidado que não pode ser desprezado, nessa integração, é para que os índios com formação universitária não menosprezem suas tradições ancestrais. Ele lembra que há um longo processo histórico, há décadas e séculos atrás, quando o índio era considerado incapaz pelo Estado. brasileiro... ".

Ele conta que sofreu na pele isso, quando teve de esperar por três anos, para reconhecerem que estava apto a pilotar aviões e liberarem seu brevê, apesar de ter cursado na Força Aérea Brasileira (FAB). "Depois pilotei na Fundação Nacional do Índio (FUNAI)...". Foi uma das oportunidades em que conheceu vários povos pelo Brasil e facilitou seu trabalho político e militância voltados aos índigenas.

Ele foi coordenador geral da Conferência Mundial dos Povos Indígenas durante a RIO 92 e também participou da criação da Declaração da Organização das Nações Unidas sobre os Direitos Indígenas, como contribuiu aos direitos indígenas na Constituinte de 88.

Hoje Terena, além de seu papel político, participa da Cátedra Índigena Itinerante e representa o Brasil em fóruns internacionais, no campo da espiritualidade indígena.
Veja ainda:

28/8 - Identidade, uma questão semântica?
28/8 - Qual é a nossa identidade?
27/8 - PR tem a Rede Puxirão
27/8 - Entremundos: antropóloga fala das diferenças
25/8 - Bastidores Entremundos - Direto na fonte
23/8 - Resumo de hoje

Confira a íntegra do evento em Ocareté-Entremundos
Sucena Shkrada Resk

28/08/2010 11:06
Entremundos: Identidade, uma questão semântica?, por Sucena Shkrada Resk

A visão do antropólogo Gersem Baniwa, coordenador geral da Educação Escolar Indígena, no Ministério da Educação (MEC) levou à reflexão sobre se a proposta de homogeneização das políticas públicas é o caminho a se trilhar, visto que identidade é um conceito ocidental. Ele compôs a mesa, com Manzatti e Marcos Terena.

"Na vivência das comunidades indígenas, não se fala em identidade. Esse é um conceito ocidental. Não há algo mais artificial, do que falar de liderança indígena. Na verdade, "eu" sou liderança para o não-índio", diz.

Segundo Baniwa, neste sentido, identidade tem a ver com representação. "Por isso, há dificuldade de se trabalhar com política pública, que na verdade, deveria ir à comunidade. Hoje são cerca de 10 mil baniwas no Brasil, Colômbia e Venezuela, e nós nos reconhecemos se eu falar sobre o meu clã, vão me compreender", explica.

A identificação "povos indígenas" veio depois de décadas. "O que há de semelhança entre as sociedades já reconhecidas, com cosmologias próprias, são os processos históricos que sofreram de dominação e de experiência de vida autônoma", afirma. Atualmente, nas regiões N e NE, os indígenas já se identificam como parentes e especificamente na região amazônica, há o reconhecimento como 'povos da floresta'. Em cada lugar do país, são constituídos novos termos de designação.

"Os povos indígenas da Amazônia não aceitam serem denominados como povos tradicionais, apesar de se aliarem em mesmas causas e os grupos de interesse surgem em função dessa relação com o mundo branco", afirma.

O que é preciso ficar claro, segundo Baniwa, é que a diversidade existe e está pautada no caráter social, religioso e político. Por isso, tratamos de educação Terena, Baniwa distintamente...

Na avaliação de Gersem Baniwa, por sua vez, a globalização tem ajudado, mais do que prejudicado. "Isso acontece pela habilidade dos povos indígenas se apropriarem e adequarem, como na questão da comunicação. Não acredito que haja o risco de que as identidades desapareçam", avalia. Mais um aspecto relevante é que há uma emergência étnica. "Algo sem precedentes, mas ninguém sabe como será daqui por diante. Talvez bateremos a marca de 1 milhão de índios contra os 5 mi, no início da colonização...".

Diante de todos esses fatores, o antropólogo 'indígena' diz que identidade pode ser considerada a base da autodeterminação, como também do auto-controle do governo. "Esses termos ainda inspiram medo, por isso os indígenas preferem falar de autonomia".

Veja ainda:

28/8 - Qual é a nossa identidade?
27/8 - PR tem a Rede Puxirão
27/8 - Entremundos: antropóloga fala das diferenças
25/8 - Bastidores Entremundos - Direto na fonte
23/8 - Resumo de hoje

Confira a íntegra do evento em Ocareté-Entremundos
Sucena Shkrada Resk

28/08/2010 10:36
Entremundos: Qual é a nossa identidade?, por Sucena Shkrada Resk

Traçar interpretações para o que entendemos por identidade foi um bom exercício realizado, no segundo dia (24) do Entremundos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil, realizado em Registro, no Vale do Ribeira, SP. Com certeza, o despertar para a noção de que somos sujeitos históricos foi um dos pontos mais relevantes nesse processo, na minha opinião.

O antropólogo Marcelo Simon Manzatti partiu da seguinte premissa: "Eu posso me identificar como...filho de, pai de, antropólogo, cientista social, caipira...A identidade nunca é restrita a um só elemento e só se dá na relação com outras pessoas".

O fato de o Brasil ter centenas de grupos étnicos abre mais essa questão, em sua avaliação. "Entre os grupos indígenas, há projeções de que havia centenas de milhares que foram massacrados. Atualmente se conhece cerca de 230 povos, que existem, apesar do massacre. E ainda há os "isolados" (voluntariamente), que estão sendo identificados. Aí esse número pode passar para 260", diz.

Manzatti conta que a formação acadêmica não deu suporte a essas leituras. "Os índios brasileiros não são ensinados na etnologia brasileira. Na faculdade, era uma disciplina optativa...".

A construção de sentido foi ocorrendo com o contato com esses povos. Segundo ele, foi aí que percebeu que a fluidez para a constituição da "identidade" não é fácil". Há uma tensão constante e isso se dá com diferentes grupos. "Os preconceitos existem até hoje, apesar de o Brasil se dizer a favor da diversidade. Institui-se rótulos e se evita o conflito, ou seja, se vai conduzindo as coisas com 'jeitinho'..."

Na sua avaliação, talvez o Estado não possa ser considerado como mediador de conflitos. "Tende a jogar no campo da vida privada as mazelas. Nos EUA, por exemplo, há o multiculturalismo, em que há 'tolerância' ao diferente, o que também não acredito ser uma boa ideia no dia a dia", diz.

Para Manzatti, no Brasil ainda há o conceito pré-concebido de se esperar ver o índio como na "carta de Pero Vaz de Caminha". "Hoje a conquista de direitos na prática é das mais difíceis, apesar da Constituição Cidadã (88). Quantos anos demorou para a criação da Secretaria de Saúde Indígena (recentemente)? O Estatuto dos Povos Indígenas há 20 anos para ser votado no Congresso. Por isso, vejo que acima de tudo, deve haver o controle social, além do marco legal, etc...".

Mais um ponto a se refletir, segundo o antropólogo, é que o Estado não legitima ou reconhece categoricamente em suas relações, os caciques, pajés, mães e pais de santos, entre outros. "Se não forem reconhecidos para pleitear recursos públicos, realmente fica difícil. Esse processo na política é pedagógico para os povos tradicionais (de uma maneira geral)", considera.

Veja ainda:

27/8 - PR tem a Rede Puxirão 27/8 - Entremundos: antropóloga fala das diferenças
25/8 - Bastidores Entremundos - Direto na fonte/
23/8 - Resumo de hoje

Confira a íntegra do evento em Ocareté-Entremundos
Sucena Shkrada Resk

28/08/2010 09:55
O tempo de conversar comigo, por Sucena Shkrada Resk

Por Sucena Shkrada Resk

Pensata que me fluiu no Networking Saudável desta semana, realizado, no último dia 26: "A verdade que está dentro de mim não pode ficar confinada. Ouvir é essencial nesse processo de aprendizado de vida. E aí está o desafio: de ser aberta ao polissêmico e desconstruir 'preconceitos', que estão ainda pulsantes. Então, vejo que a simplicidade me leva ao caminho do meio, me nutre e me faz feliz; dá a liga ao meu equilíbrio..."

E do que eu abriria mão? Pensei...da intolerância ao erro, do perfeccionismo e do rancor, que realmente corrói. E de que não abriria mão? Da minha autenticidade, sensibilidade. auto-estima e da minha lealdade para com o outro, pois sem essas características, não conseguirei evoluir, no sentido espiritual...

E mais:
27/8 - Quando os anseios se convergem


Sucena Shkrada Resk

27/08/2010 19:21
Entremundos- PR tem a rede Puxirão, por Sucena Shkrada Resk

O direito de fala a diferentes manifestações foi uma marca do encontro Entremundos. Rômulo Barroso Miranda, religioso de matriz africana, do Fórum Paranaense das Religiões de Matriz Africana e da coordenação da Rede Puxirão, apresentou o histórico de lutas do grupo, no primeiro dia do evento (23).

"Entrei na militância, por causa da dificuldade de mostrar que havia essas religiões no PR. Quer queira ou não, o povo tradicional tem de discutir essa modernidade. Para nos manter, tivermos de colocar a cara na rua, porque quem assume a instância de poder são os inimigos", diz. Segundo ele, as casas de candomblé começaram a ser invadidas por religiosos fanáticos de outra religião. Hoje, entretanto, o Fórum vai fazer um ano com adesão de 80 casas.

Miranda falou que os desafios ainda são muitos. "No Censo 2010, na região de Colombo, por exemplo, muitos religiosos de matriz africana não foram contemplados na amostragem. "Dia 2 vamos fazer um acampamento em Curitiba, dos povos tradicionais, para discutir essas questões..."

De acordo com o religioso, o povo tradicional que cultua com a natureza é considerado, por muitos, como do mal, e isso é um desafio a quebrar. "A Rede Puxirão existe oficialmente desde 2008. Queremos que o governo do Paraná nos reconheça como povos tradicionais. Já afirmar a nossa existência enquanto grupo já é um avanço nos últimos anos", considera.

Mais um empasse, segundo Miranda, é o confronto com as mobilizações de ambientalistas, no sentido da criação de mais áreas ambientais em localizações onde os religiosos vivem. "Quando criam uma Área de Preservação Ambiental (APA), o meu povo não pode mais comer, porque o rio é bonito...A Academia é equivocada sobre os nossos valores, temos de mudar o pensar sobre nós. Atualmente há oito decretos municipais aprovados no PR para o reconhecimento de nosso segmento", afirma o religioso.

"Queremos políticas e ações neste sentido. O povo tradicional quer perpetuar sua relação com a terra. A Rede Puxirão tem oito segmentos, com demandas individuais, mas descobrimos que junto somos fortes, e nos apropriamos um pouco do saber do outro. O maior problema é no campo do Direito", fala o coordenador. No ano que vem, a discussão deverá ser em âmbito nacional.

"O poder de transformar a sociedade, é do povo tradicional. Não pode ser colocado na mão da academia e do gestor...O conhecimento do candomblé é um culto de ancestrais divinos e humanos, passados desde nossos bisavôs. Os divinizados (Olorum) tem diferentes nomenclaturas em outras religiões. Na judaico-cristão, por exemplo, é o Jeová. A aura que a gente carrega é o sopro de Deus no nosso nariz", fala.

A figura do Exu foi demonizada pelas Igrejas, segundo Miranda. "Ele não tem chifre ou rabo. Cada orixa cultua a natureza, as aves e rios. Todo mundo tem ligações energéticas, dentro do candomblé, onde os laços ancestrais são divinizados. Pode não ter o vínculo com o negro africano, mas pode ter o vínculo divino", explica.

O sincretismo, em sua avaliação, foi uma ferramenta de resistência para que pudéssem se manter vivos. "Temos nossos ritos ligados à natureza, alguns contestados como o sacrifício de animais. O candomblé não é uma religião catequisadora e todo mundo é sacerdote. Não vamos fazer propaganda de ninguém para chamar devotos", afirma.

"Insisto na questão do direito, para que seja colocado em prática. Não existe a identificação de povos tradicionais no sul do Brasil. Lá são tão oprimidos como na Amazônia", diz o coordenador da Rede Puxirão.

Veja ainda:

27/08 - Entremundos: antropóloga fala das diferenças
25/8 - Bastidores Entremundos - Direto na fonte/
23/8 - Resumo de hoje

Confira a íntegra do evento em Ocareté-Entremundos
Sucena Shkrada Resk

27/08/2010 18:47
Entremundos: antropóloga fala das diferenças, por Sucena Shkrada Resk

No primeiro dia (23) do encontro Entremundos - Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil, realizado em Registro, no Vale do Ribeira, Rita Laura Segato, antropóloga da Universidade de Brasília (UnB) permeou a questão da diferença de comunidade com a sociedade de massa moderna. Segundo ela, a colocação de nós e outros é produto disso e isso resulta na seguinte pergunta: como fugir dessa armadilha? "Não é simples dar um estatuto de cada povo. Existe um pluralismo, com um caos e anarquia, no bom sentido da palavra. Cada um é diferentemente diferente, mas todos iguais em sua forma de relação com o Estado", fala.

O Estado, por sua vez, formula políticas públicas, e por outro lado, é um formatador das comunidades nesta relação, de acordo com a acadêmica. Ela considera esse aspecto negativo.

"Uma comunidade, na definição estatal, é a forma de operacionalizar a relação, mas aí contém alguns perigos, porque fecha essa definição. Já a comunidade opera com relação coletivista e tem de restringir o individualismo, com metas diferentes das adotadas no mercado. Mas também opera com racionalidade", diz.

No mundo moderno, a antropóloga afirma que o discurso é igualitário, entretanto, há prática individualista, com o cálculo do custo-benefício do mercado. "A esfera pública sequestra a política e tira o caráter doméstico, como o resto".

Em sua análise, avalia que na suposta gestão para a cidadania, existe também um sujeito da República com aspecto masculino, sobretudo branco, letrado, proprietário e pai de família. "Ele não tem nada de democrático. Quando colocamos esse dilema com discurso hierárquico, há o contraponto de que a imaginação não é", fala.

"...Quando entra o salário nas aldeias indígenas, por exemplo, isso gera hierarquias ou são ampliadas. Apesar das boas intenções das políticas públicas, essa situação acaba rasgando o tecido comunitário, que é o mais importante de todos", considera.

Segundo a antropóloga, a linguagem do Estado tem sua origem histórica. É herdeiro da colonização portuguesa, criado para administrar em benefício das elites, com repartições e carimbos para destinar os recursos da nação.

"Estamos vivendo a tentativa que repasse ao papel redistributivo. Esse pensar coletivista envolve fortalecer as comunidades em algum grau de economia, que passa a se configurar como um povo, que é algo complexo. Tem de haver uma densidade simbólica, chamada de cultura e de tradição", afirma.

Essas definições enlatam a comunidade, na sua avaliação. "A cultura tem o lado bom do compartilhamento de crenças, religião, como também, retira a comunidade da História. Todo povo se encontra na História e o que o faz ser um povo é compartilhá-la, mesmo havendo os conflitos de interesse internos".

Indo mais além nessa reflexão, ela diz que um povo é aquele que se sente construindo uma história comum, um sujeito coletivo vivo que se sente parte, mas não está restrito a uma cultura fixa. Por isso, é preciso devolver ao povo o sentido juridicional, quando esta justiça própria é devolvida.

Portanto, se uma nação é definida como confederação de povos, deliberar constantemente, avaliar e julgar seus conflitos, (aparentemente) devolve a rédea de sua própria história. "Quando o Estado devolve esse empoderamento, obriga a todos os membros da coletividade a produzir uma fachada de identidade para haver a relação", explica Rita.

Como exemplo, cita o caminhar das comunidades do candomblé. "O povo do terreiro...como estratégia de sobrevivência, incluiu o branco, em um ambiente que era hostil e conseguiu algo milagroso, de se expandir. Agora, o Estado muda de signo e propõe a política de identidade racial. Ela quer dizer que há o engessamento nos mesmos padrões e formas", diz.

Veja ainda:
25/8 - Bastidores Entremundos - Direto na fonte/
23/8 - Resumo de hoje

Confira a íntegra do evento em Ocareté-Entremundos
Sucena Shkrada Resk

27/08/2010 16:28
Quando os anseios se convergem, por Sucena Shkrada Resk

‎Participei, nesta quinta-feira (26), pela primeira vez, do encontro presencial do Networking Saudável (6), da Rede Novo Olhar, da qual participo, no NING, desde novembro de 2009. Já estava mais do que na hora (rs), não é?

O evento aconteceu no espaço HUB, em São Paulo, que é um local que abriga diferentes empresas/profissionais em uma mesma área, o que reflete uma nova tendência no mercado, de compartilhamento e redução de custos, e eventos neste perfil. Posso dizer que foi uma experiência e tanto de trocas e compartilhamentos de conhecimentos, com grupos de profissionais afins e, acima de tudo, seres humanos em busca de um equilíbrio nas relações de trabalho, com o mote de sustentabilidade.

Quando me dei conta, já estava interagindo com diferentes pessoas e conhecendo um pouco de suas histórias e dividindo a minha com eles. Pudemos fazer imersões em questionamentos que nos levam ao entendimento das 'nossas verdades'. Refletimos, por exemplo, sobre o que abrimos e não abrimos mão em nossas atividades, entre outras indagações.

Considero esse tipo de iniciativa positivo, como um contraponto a um mundo, em que as relações tendem a ser cada vez mais superficiais. Mais detalhes podem ser encontrados em www.novolhar.ning.com.
Sucena Shkrada Resk

27/08/2010 14:16
Diferentes olhares sobre a biodiversidade, por Sucena Shkrada Resk

‎Ontem, ao acompanhar o Fórum de Biodiversidade e Nova Economia, promovido pelo Planeta Sustentável entre outros parceiros, na Abril, achei interessante a informação que Bráulio Dias, coordenador de Conservação da Biodiversidadedo Ministério do Meio Ambiente (MMA), passou, de que na próxima assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU), em 22 de setembro, deve ser aprovado o Intergovernmental Platform on Biodiversity and Ecosystem Services-IPBES, plataforma internacional similar ao Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Algo que estabelece um trabalho científico mais aprofundado sobre o tema, de forma sistemática.

"...O Brasil precisa assumir papel de protagonismo nas discussões sobre a biodiversidade, hoje é reativo...e não tem sabido aproveitar o espaço no cenário internacional", avalia. Ele ainda expôs, que no cenário internacional, os países europeus têm como meta sustar até 2020 todas as perdas da biodiversidade e que isso depende, obviamente, dos setores de energia, agrícola, além do ambiental.

"...Quanto do potencial dos 10% da biodiversidade conhecida foi utilizada (de forma sustentável)? Precisa-se aumentar a escala de iniciativas de ciência e tecnologia", fala o gestor. Ele considera que não dá para sustentar divergências entre MMA e MCT. "...A maior parte das nossas Unidades de Conservação (UCs) são caixas pretas. Não sabemos o que tem lá dentro e elas representam 17% do país..."

No Fórum, Fabio Scarano, da Conservação Internacional - Brasil (CI-Brasil), fez a seguinte análise: "O Brasil lançou sua primeira lista de plantas depois de 100 anos. Não temos uma rede nacional de diversidade...O governo precisa investir mais e também muito conhecimento não é compartilhado por cientistas, por desconhecimento ou preciosismo em muitas questões. Precisamos mandar gente (por exemplo) para o exterior para estudar biologia marinha", diz.

A secretária de Biodiversidade e Florestas da pasta, Maria Cecília Wey de Brito, disse que na 10ª COP sobre Diversidade Biológica (http://www.cbd.int/), que será realizada em Nagoya, Japão, no mês de outubro, o Brasil tem condições de mostrar ao mundo o processo de certificação e que o país alcançou 75% das metas. Mas a secretária analisa que não haverá posição brasileira consensuada, pois também há dificuldades no legislativo. "No país há avanços no marco regulatório, mas são tratados como impedimento à atividade econômica, de forma retrógrada...A Biodiversidade não está na agenda política brasileira, espero que isso mude com rapidez", afirma.

Uma das pautas que precisam ser aprofundadas, segundo ela, é a dos serviços ambientais. "Sequer temos ideia de quanto é necessário e quanto custam...", diz.

Na pauta do dia, o Código Florestal não poderia ficar de fora. O economista José Eli da Veiga, tratou da questão do substitutivo da legislação, cujo parecer do deputado Aldo Rebelo, foi aprovado por Comissão Especial, na Câmara. "...Se não sair um texto do MMA que contemple a comunidade científica e ambiental (a tempo da votação, pós Eleições), será um desastre. Acredito que há chances de salvar a questão no Senado...". Maria Cecília Wey de Brito informou que o documento está sendo produzido.

Maurício Messias, do BB, também expôs ontem case interessante de incentivo a empreendedorismo sustentável, sobre grupo de moradores da região do Montanhão, em São Bernardo do Campo, que coletavam óleo de cozinha para não ser despejado no rio. Com o incentivo das linha de sustentabilidade do banco, criaram a Cooperativa Sabão Selecta, que é um meio de gerar renda, além da preservação ambiental que essas pessoas já praticavam.

Eu fui verificar hoje, na Internet, se encontrava mais dados sobre a Cooperativa de Sabão Selecta, que é uma pauta bacana. Segue o endereço do blog: http://sabaodoselecta.blogspot.com/2008_05_01_archive.html.

Sucena Shkrada Resk

25/08/2010 20:45
Bastidores Entremundos - Direto na fonte, por Sucena Shkrada Resk

Quando ouvimos pessoas que realmente têm algo a agregar, conseguimos perceber o quanto perdemos tempo com outras, que se prevalecem do dom da oratória, para fazer da palavra moeda de mercado...

Ontem (24), tive o privilégio de entrevistar nos intervalos do Entremundos, Gersem Baniwa e Marcos Terena, sobre suas leituras da ECO-92 a Rio+20, além da indígena guarani Ywa Poti Mirim e do quilombola José de França, que falaram sobre suas identidades e modos de vida. Todos os depoimentos foram carregados de ricas experiências e serão apresentados aos meus alunos na área ambiental, para que possam ter o contato mais próximo com as falas originais de representantes das comunidades tradicionais brasileiras.

Na parte da manhã, a questão da identidade indígena foi o tema da mesa que reuniu Baniwa, Terena e Marcelo Manzatti, com discussões profundas e reflexivas, sobre as diferentes interpretações que permeiam o universo conceitual. No final, Terena homenageou os guarani, que são o povo indígena da região, e encerrou o painel, com uma oração, em sua língua...!

Veja mais:
23/8 - Bastidores Entremundos - Resumo de hoje
Sucena Shkrada Resk

23/08/2010 21:37
Bastidores Entremundos- Resumo de hoje, por Sucena Shkrada Resk

A antropóloga Rita Segato falou, hoje (23), dia de abertura do evento Entremundos - Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil, realizado em Registro, no Vale do Ribeira, sobre a necessidade de os indígenas poderem discutir a questão da remuneração feita pelo Estado, aos agentes de saúde e educação indígenas. Rômulo Miranda, do Fórum PR das Religiões de Matriz Africana defendeu mobilização contínua para promover a visibilidade. Dia 2 ocorrerá manifestação em Curitiba. E o antropólogo Aderval Costa Filho falou do desafio de transformar o Decreto 6.040, do ano de 2007, em lei.

O grupo Batucajé, por meio de contos regionais e da música com requintes de percussão, transmitiu aulas de educação ambiental à plateia.
´...Tem tempo de colher, tem tempo de plantar...
´...Deixe o caiçara ser feliz em seu chão...
...Anhangá é símbolo da sustentabilidade...
Alunos da educação municipal do município se encantaram com a maneira lúdica de ensinar.

A quilombola Antonilha, 72 anos, da comunidade São Pedro, em Eldorado, me concedeu uma entrevista com riqueza de autenticidade, durante intervalo do evento...

E ainda tive a oportunidade de conhecer a senhora Conceição Watanabe, 78 anos, em seu empório tradicional de Registro, que foi criado por sua família, desde a década de 20. Uma viagem ao túnel do tempo...Prateleiras e pisos antigos...Doces tradicionais de banana, que são uma marca do Vale do Ribeira...Encantador!

Sucena Shkrada Resk

22/08/2010 20:52
Especial Viagem ao Xingu - Quebrando estereótipos, por Sucena Shkrada Resk

Todas as experiências resultam em aprendizados. E foi exatamente isso que me aconteceu no Xingu. Percebi que não posso construir um modelo padronizado do índio brasileiro. Cada povo tem sua história e construção de identidade. Tender ao extremo do purismo é um caminho equivocado.
Com os Aweti, fiquei imaginando quais os anseios de cada índio da comunidade, pois são gerações diferentes como as nossas, que nutrem múltiplas expectativas. E em meio a essas indagações, percebi elos em comum. Têm um apelo forte na composição do sentido de família.
As pequenas crianças de colo ficavam praticamente o tempo todo com suas mães e as que são maiores brincavam harmoniosamente. Cheguei a flagrar uma cena bonita, na qual um pequeno grupo trocava ideias em tupi e carregava com cuidado filhotes de papagaios, animais que se tornam de estimação na aldeia.

As mulheres faziam beijus e mingaus de mandioca, tratavam da produção para consumo do sal extraído dos aguapés, teciam desenhos com linhas nos tapetes que produzem com palha...

Enfim, viviam suas realidades no meio da floresta, de forma harmoniosa...Simplesmente...

Esp.- Viagem ao Xingu - Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk:

Fotos de bastidores Viagem ao Xingu - Sucena-08-2010
21/8 - De encontro como Kurisevo 21/8 - Relações transparentes
16/8 - Linha histórica
05/8 - Primeiros flashs
30/7 - Aprendendo em um mosaico do Xingu
Sucena Shkrada Resk

21/08/2010 16:05
Especial Viagem ao Xingu - de encontro com o Kurisevo, por Sucena Shkrada Resk

O rio Kurisevo, no Alto Xingu, com suas linhas sinuosas, é um cenário encantador de se ver. Entre a ida e volta da aldeia Aweti, neste mês, pude apreciá-lo por 12 horas. Flagrei durante o percurso, um casal de pacas, dois tracajás, sendo que um foi pego pelos Aweti para sua alimentação, e outro ficou camuflado sobre um pedaço de pau, no meio das águas. Até consegui ver uma espécie de iguana, que tão ligeira sobre as areias, quase passou despercebida...Já no céu, alguns tu-iu-ius e outras espécies rapidamente faziam suas revoadas difíceis de serem registradas pela câmera.

Os trechos de mata nativa que margeiam o Kurisevo são característicos de Cerrado mesclado com mata tropical. Alguns pontos apresentavam composição mais densa e outros assoreados, sem mata ciliar, fazendo com que grandes árvores tivessem suas raízes arrancadas e ficassem sobre as águas. Com isso, em várias ocasiões os indígenas tiveram de prestar muita atenção e fazer contornos com o pequeno barco motor da aldeia, para evitar acidentes. Mais um aspecto que redobrava o cuidado é que nessa época de estiagem, baixa muito o nível das águas, chegando na faixa de três metros.

Toda essa composição, que ainda era permeada, volta e meia, por bolsões de areias ao lado do leito do rio, proporcionaram um relaxamento mental para mim e a certeza de que precisamos conservar a natureza. Tanto que em uma pequena área vi a mata queimada, o que é um perigo constante nessa região, como estamos constatando com as notícias de queimadas no Centro-Oeste.

Esp.- Viagem ao Xingu - Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk:

Fotos de bastidores Viagem ao Xingu - Sucena-08-2010
21/8 - Relações transparentes
16/8 - Linha histórica
05/8 - Primeiros flashs
30/7 - Aprendendo em um mosaico do Xingu
Sucena Shkrada Resk

21/08/2010 09:27
Especial Viagem ao Xingu - Relações transparentes, por Sucena Shkrada Resk

A relação transparente é algo extremamente importante em qualquer setor de nossas vidas e não poderia ser diferente nessa experiência que tive com os Aweti, no Xingu. Desde o convite que recebi do cacique Awajatu, deixei claro que iria arcar com a minha viagem - o que para uma profissional liberal de classe média exige apertar o cinto. Afinal tive de arcar com as passagens desde São Paulo, pagamento de combustível do barco que leva e traz da aldeia (um dos itens mais caros), hospedagens até chegar lá, minha alimentação, compra de itens de consumo que pediram se eu poderia levar. E fui honesta, que iria fazer tudo de forma racional, que não comprometesse meu orçamento...

Nesse diálogo, ao mesmo tempo, expus que o meu intuito como jornalista era que parte dos relatos, entrevistas e conhecimento absorvidos nessa vivência resultassem em pautas socioambientais, nos veículos nos quais sou jornalista colaboradora, além de memorial em meu blog, e como elementos de aula, como educadora ambiental. E isso seria feito, respeitando seus costumes.

O cacique concordou e assinou a autorização para o uso de entrevista dele e de outros índios, por ele traduzidas, além de imagens para esse propósito. (cujas cópias das reportagens a ele serão enviadas, ao serem publicadas). E ele me disse que queria mostrar os Aweti à sociedade, porque até hoje são pouco reconhecidos na história do Xingu e, ao mesmo tempo, gostaria que essa divulgação pudesse auxiliá-los em seus projetos, que visam a preservação de sua cultura, como a extração de sal de aguapés.

Simplesmente houve uma relação verdadeira, que muitas vezes, não ocorre entre a sociedade branca e os povos tradicionais, o que gera desconfortos e desentendimentos, que vemos se repetir cotidianamente.

E acima de tudo, achei importante ele expor a cada membro de sua família entrevistado, as questões e destinação do conteúdo. Não é porque falam tupi e ele estava traduzindo, que não deveriam estar cientes do que se tratava. E assim foi se compondo o processo de interação. Pude conhecer um pouco do pensamento de seu pai, que é um dos cinco pajés da aldeia, de sua mãe, que tem um traço peculiar de conservação de costumes ancestrais, de uma jovem índia artesã e aluna da educação bilíngue e de uma das indígenas que produz o sal...Fui compondo o quebra-cabeças de relatos e impressões.

Os itens de consumo que comprei para eles foram separados de forma harmoniosa, entre homens e mulheres, no centro da aldeia, o que eu achei um gesto muito bonito de compartilhamento.

Acima, de tudo, os respeitei e fui respeitada, perguntando também se poderia tirar algumas fotos deles, tanto que somente obtive imagens consensuais. E pude compartilhar alguns momentos de seu dia a dia, como ser hospedada na grande oca, onde vive a família do cacique. Lá eles penduraram a minha rede de nylon e separaram um espaço para eu colocar a minha bagagem...

Eu me adaptei aos seus costumes. Como dormem por volta das 20h, também me recolhi nesse horário...Eu me senti aquecida contra o frio, que é comum em uma zona de mata, pois acendem pequenas fogueiras dentro da oca feita com palha de buriti, que segundo me informaram, só é trocada, por volta de cinco anos...

Para que eu me sentisse mais à vontade, eles disponibilizaram o banheiro da unidade do Posto da Saúde da Família local, para poder utilizá-lo, e preservaram seu cotidiano de acordar por volta das 6h, para se banharem em um rio próximo.

Fui recebida em cada "casa" das famílias, que compõem a aldeia, de uma forma gentil, nessa troca de conhecimentos. Eu mais recebi do que doei, neste sentido. Enfim, considero que foi um momento de construção conjunta.

Esp.- Viagem ao Xingu - Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk:

Fotos de bastidores Viagem ao Xingu - Sucena-08-2010
16/8 - Linha histórica
05/8 - Primeiros flashs
30/7 - Aprendendo em um mosaico do Xingu
Sucena Shkrada Resk

16/08/2010 10:44
Especial Viagem ao Xingu - Linha histórica, por Sucena Shkrada Resk

Para tecer a linha histórica da curta imersão que fiz neste mês de agosto, no Parque Índigena do Xingu, em visita à Aldeia Aweti, mediante o convite do cacique Awajatu, é necessário que eu retorne ao ano de 1994. Especificamente na edição de 10 a 16 de setembro daquele ano, da Rede A de Jornais de Bairro, foi publicada
a entrevista que fiz com o sertanista Orlando Villas Bôas (1914-2002), com o título Fiel escudeiro dos índios. Com certeza, foi um momento ímpar para mim, poder compartilhar as memórias dele e ver parte do acervo que guardava com cuidado sobre seus longos anos no Xingu em companhia de seus irmãos e posteriormente de sua família...

Essa passagem de minha carreira guardei em minhas lembranças com carinho e a recobrei no ano passado, quando propus a pauta e fiz a matéria
Xingu, um paraíso sob ameaça, para a edição 19/2009, da Revista Leituras da História, da Editora Escala. Nesta reportagem, pude alinhavar o processo de formação do parque com os irmãos Villas-Bôas, entrevistar os familiares de Orlando, além do jornalista Washington Novaes e do cacique Awajatu Aweti. Esse último participava de um encontro indígena, no SESC Pompéia, em SP.

Passaram-se os meses e em 17 de outubro do ano passado, o cacique me passou um e-mail, convidando para conhecer sua aldeia. E como eu iria custear a viagem com recursos próprios e tinha de tramitar oficialmente via Fundação Nacional do Índio (FUNAI), consegui concretizá-la, neste mês. Isso dá um sabor especial a toda essa trajetória, porque exigiu empenho e esforço, como também, uma certa dose de idealismo com o qual sou contagiada até hoje...

Esp.- Viagem ao Xingu - Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk:

Fotos de bastidores Viagem ao Xingu - Sucena-08-2010
05/8 - Primeiros flashs
30/7 - Aprendendo em um mosaico do Xingu
Sucena Shkrada Resk

05/08/2010 12:52
Especial Viagem ao Xingu-primeiros flashs, por Sucena Shkrada Resk

‎Da viagem ao Xingu, não consigo me esquecer da emoção que extravasei ao andar de barco, principalmente na volta, que durou 5h, pelo rio Kurisevo (no dia 3), com seu tom esverdeado (que me lembrou o Tapajós) e o vento batendo ao rosto. Tive a sensação de conversar com Deus e realmente me emocionei...As lágrimas vinham sem querer, além da vontade de agradecer. Só os sons dos pássaros ecoavam naquele cenário de águas sinuosas, ora com floresta densa às margens, ora com imensas árvores caídas.

A vivência de praticamente três dias, na aldeia Aweti, me fez rever alguns conceitos tão desgastados que tenho na vida urbana. Ao conhecer uma anciã indígena de mais de 90 anos, debilitada, deitada na rede, em uma das grandes ocas, me deparei ao mesmo tempo com a fragilidade e a força dessa mulher. Longe de tudo..., mas talvez, com uma essência mais próxima do caminho do meio...

Hoje (5) Saí de Gaúcha do Norte - MT, às 4h30 (hor local, -1h de Brasília) e cheguei em Canarana-MT, 5h dep.O Cerrado é um dos retratos mais interessantes do mosaico brasileiro, em q nos deparamos com rodovias não-pavimentadas em extensões de quilômetros, terras e terras com agricultura extensiva, gado, vegetação menos ...densa, estiagem, poeira.E com pessoas humildes encantadoras, que nos deixam à vontade num proseado.

Esses são alguns dos flashs que estou narrando dessa experiência. Aos poucos vou relatando mais memórias da viagem, nos intervalos em que encontro lan houses, nas paradas de volta para casa...Até...

Esp.- Viagem ao Xingu - Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk:

Fotos de bastidores Viagem ao Xingu - Sucena-08-2010

30/7 - Aprendendo em um mosaico do Xingu
Sucena Shkrada Resk

30/07/2010 21:35
Aprendendo em um mosaico do Xingu, por Sucena Shkrada Resk

Hoje (30) cheguei a Canarana, MT, depois de uma viagem de ônibus de 16h, partindo de Brasília, percurso que integra a primeira etapa para visitar a aldeia Aweti, no Xingu. Posso dizer que, ao mesmo tempo, que é uma vivência desgastante fisicamente, se torna um profundo aprendizado de relações humanas, de tentativa de compreensão da cultura índigena, no século XXI, extra o aspecto socioambiental presente.

Amanhã, provavelmente, seguirei em companhia do cacique Awajatu, de seu irmão e primo, para Gaúcha do Norte, e de lá deveremos viajar via fluvial, por praticamente 7h, até chegar à aldeia. Neste período, estarei fora do ar, absorvendo essa experiência que deverá agregar valor à minha vida. Não nego que estou com um friozinho na barriga. Mas a vontade de conhecer, compartilhar e ter essa relação de convívio pessoal e profissional supera tudo isso.

Sucena Shkrada Resk

22/07/2010 10:13
É interessante acompanhar propostas da Plataf.Cidades Sustentáveis, por Sucena S. Resk

‎‎Nesta quarta-feira (21/7), fui ao lançamento da
Plataforma Cidades Sustentáveis , formulada pelo Movimento Nossa São Paulo e pela Rede Social Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis, com apoio da Fundação Avina. O material é interessante e apresenta cases de diversas cidades no mundo, como Bogotá, que tem 300 km de ciclovias, além de Rizhao, na China, que implementou aquecedores solares, que hoje atendem 99% da população.

Exemplos de municípios brasileiros também fazem parte do material, como o Plano Municipal de Segurança Pública, de Diadema e a Lei do Plano de Metas aprovada em 2008, o projeto Bairro-Escola, o Programa Ambientes Verdes e Saudáveis e Lei da Cidade Limpa, em São Paulo. Ainda são apresentados o planejamento urbano orientado pela sustentabilidade e arranjos educativos locais, em Curitiba (PR), além do Biossistema integrado, em Petrópolis (RJ).

Segundo o secretário-executivo do Movimento Nossa São Paulo, Maurício Broinizi, a publicação está sendo encaminhada a gestores de todos os municípios e estados brasileiros. "...A sustentabilidade é transversal ao planejamento em todos os níveis da Federação", disse.

Antes do início do lançamento da publicação, uma cidadã foi à frente da plateia e desabafou algo bastante coerente - "...elegemos os candidatos para gestões de 4 anos...". A afirmação foi uma crítica aos políticos que tentam reelerger-se ou/e se descompatibilizam no ano eleitoral, não cumprindo o total do mandato.

O trabalho resultou em uma carta-compromisso assinada por candidatos às Eleições, por São Paulo. Lá estavam: os candidatos a governo - Mercadante, Paulo Búfalo e representados - Alckmin, SKaff e Feldmann. Ao Senado: Ricardo Young, Romeu Tuma, e representado, Aloísio N Ferreira, e por carta, Marta Suplicy. Agora, é acompanhar!

Veja a íntegra da carta
Sucena Shkrada Resk

20/07/2010 16:24
Reflexão: Gastos com campanha presidencial, por Sucena Shkrada Resk

Ao juntarmos as previsões de gastos com as campanhas presidenciais divulgadas pelos três principais candidatos nas Eleições 2010 - as cifras chegam a aproximadamente R$ 430 milhões. É muito dinheiro! Valor que poderia ser aplicado, por exemplo, em esgotamento sanitário, já que mais da metade do Brasil não tem esgoto tratado. Um dos principais problemas de infraestrutura do país, que até hoje não foi resolvido.

Sucena Shkrada Resk

18/07/2010 12:44
Mandela: 92 anos de universalidade, por Sucena Shkrada Resk

Nelson Mandela completa hoje 92 anos de vida e 67 anos dedicados à liberdade e paz. A história desse homem me emociona sempre, por sua coerência de convicções e energia que emana. Exibe uma ligação tão forte com o sentido de raiz, que provoca uma avalanche de sensações. Ver o lindo semblante iluminado e enrugado com as marcas da maturidade traduz sua trajetória, com muitas linhas incisivas e marcantes deixadas como exemplo nesse Planeta. Apesar do cansaço físico, ainda consegue contagiar o mundo com esperança, honra e o verdadeiro sentido positivo da persistência. É um exemplo de homem público que deve servir de inspiração em ano de Eleições, pois não é calcado em falácias.

Talvez eu esteja me excedendo em adjetivos, mas não consigo ficar inerte à importância desse cidadão. É uma pessoa que nos faz bem. Nossos políticos deveriam se espelhar na autenticidade e coerência desse homem sul-africano, que dedicou sua vida a lutar por uma nação sem apartheid e a um mundo fraterno. Os quase 30 anos que ficou detido devido a um regime de segregação só o fortificaram, e extrapolaram as paredes das celas, contagiando o planeta. Os resultados nas urnas ocorridos em seu país, em 1994, deflagraram essa verdade. Uma verdade de luta, solidariedade, igualdade racial, socioeconômica...da sustentabilidade.

Agora, dia 18 de julho é mais uma data instituída no calendário da Organização das Nações Unidas (ONU). Entretanto, com profundo sentido, que deve ser explicada às nossas crianças e adolescentes. Nesse dia nasceu um homem que faz a diferença nesse mundo tão desigual.

Sucena Shkrada Resk

16/07/2010 10:03
Chico Mendes: Centro de Memória deve ser reaberto, por Sucena Shkrada Resk

‎As notícias veiculadas neste mês (veja abaixo), sobre o fechamento do Centro de Memória Chico Mendes, em Xapuri, no AC, por sua família, devido a problemas financeiros, revela como a sustentabilidade defendida pelo ambientalista, assassinado em 22 de dezembro de 1988, é difícil de ser praticada na contemporaneidade. É algo que envolve gestão eficiente, vontade política, educação socioambiental e para a cidadania e, acima de tudo, pensamento que incorpore o coletivo.

Espero que as denúncias a respeito de falta de prestação de contas de uso de verba pública estadual pela família, contestada pela mesma, sejam devidamente apuradas e solucionadas, mas que acima de tudo, haja uma mobilização nacional para a conservação do espaço e da representação como patrimônio material e imaterial que a trajetória do seringueiro, ambientalista e sindicalista representa para a sociedade e à história da evolução das diretrizes do ambientalismo.

No ano passado, quando participei do Fórum Social Mundial, em Belém, PA, tive a oportunidade de entrevistar o também serigueiro e ativista Júlio Barbosa (companheiro de Chico Mendes), que resultou na publicação A Amazônia de Chico Mendes, veiculada na edição 20, da Revista Leituras da História/Escala. Além do conhecimento precedente que eu já tinha sobre a história dele, ouvir narrativas sobre os bastidores de suas ações foram importantes como incentivo a incorporar na prática o conceito de sustentabilidade.

É disso que se trata. Não fazer com que tudo vire poeira e caia no esquecimento. É necessário extrair as lições que cada existência nesse Planeta nos possa oferecer, tanto de erros como de acertos, para que possamos construir caminhos melhores. Isso não significa colocar Chico Mendes em um pedestal, mas respeitar a sua contribuição.

Veja mais detalhes sobre matérias a respeito:
06/07-A Gazeta.net -Família decide fechar casa onde morava Chico Mendes, por Rutemberg Crispim

14/7-Folha de São Paulo - Casa e Museu de Chico Mendes são fechados por falta de verba, por Jean-Philip Struck

Entrevista com Júlio Barbosa - A Amazônia de Chico Mendes, por Sucena Shkrada Resk - Edição 20/2009 - Revista Leituras da História

Sucena Shkrada Resk

15/07/2010 09:25
Reflexões sobre resíduos sólidos, por Sucena Shkrada Resk

Quando vejo o descarte indiscriminado de lixo em nossas ruas, observo o quanto a Política Nacional de Resíduos Sólidos deverá ser aplicada de forma consonante à educação ambiental, o que já é previsto nos Arts. (8º/VIII) e (19º/X), este último referente aos Planos Municipais de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos, constantes na redação do texto final do projeto de lei do Senado nº 354/89. Uma tarefa e tanto a sair do papel, tendo em vista, que a discussão ocorre há 19 anos.

A realidade é cruel no dia a dia. Alguém pode explicar como, por exemplo, pode haver tanto entulho na av Almirante Delamare, em São Paulo, próximo à Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) do ABC e à região da comunidade do Heliópolis. O que ocorre também em terreno próximo ao Viaduto do Expresso Tiradentes/Terminal Sacomã? Aí está configurada uma situação clássica local de desrespeito à cidadania.

Pela nova legislação, há a determinação da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos - "conjunto de atribuições individualizadas e encadeadas dos fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, dos consumidores e dos titulares dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo dos resíduos sólidos, para minimizar o volume de resíduos sólidos e rejeitos gerados, bem como para reduzir os impactos causados à saúde humana e à qualidade ambiental decorrentes do ciclo de vida dos produtos, nos termos desta Lei".

Isso é importante, mas não exime no ontem e no hoje a responsabilidade que cabe a cada um de nós - cidadãos-, desde a produção ao despejo do lixo que geramos, além do que cabe ao poder público.
A área do Sacomã é significativa e tempos atrás serviu de canteiro de obras. Há quase dois anos, é possível visualizar lá rotineiramente montanhas de lixo orgânico e entulho se misturando ao cenário cinza da cidade. Algo insalubre! Para completar, nas calçadas adjacentes, pessoas jogam mais resíduos, como se tudo deixasse de ter fronteira.

Nesse processo de reflexão, aliado a um desabafo, se soma a experiência de ter ido a uma cidade do Litoral Norte de São Paulo, neste fim de semana. Os resíduos produzidos na região (São Sebastião, Ilhabela, Caraguatatuba e Ubatuba) migram para o Vale do Paraíba (Tremembé) e à cidade de Santa Isabel, pois 'falta espaço'. Infere a poluição produzida pela logística, custo, e transferência de problemas a médio e longo prazo - e acima de tudo, necessidade de redução de consumo e, obviamente, ações efetivas de EDUCAÇÃO, no âmbito escolar, nas comunidades, nas empresas etc.

O sistema entrou em estado de alerta a partir de 2008. Estima-se que mensalmente sejam geradas 5.000 t de resíduos, que chegam a triplicar no período do verão. Estuda-se atualmente a implementação de uma usina de energia a partir da queima dos resíduos coletados na região, como forma de minizar este cenário. Em abril, a TV Cultura chegou a exibir o documentário ´O caminho do Lixo no Litoral Norte´, produzido por estudantes do curso de Rádio e TV da Universidade do Vale do Paraíba.

No PLS 354/89, uma ocorrência desse tipo se enquadraria aos tópicos: "a existência de plano municipal de gestão integrada de resíduos sólidos não exime o Município ou o Distrito Federal do licenciamento ambiental de aterros sanitários e de outras infraestruturas e instalações operacionais integrantes do serviço público de limpeza urbana e de manejo de resíduos sólidos pelo órgão competente do Sisnama", como também da logística reversa, prevista na legislação. E qualquer uma das disposições deve ser regulamentada posteriormente, para que se instituam os efeitos práticos.

Isso demonstra o quanto a questão dos resíduos sólidos não pode ser banalizada, como ocorre há décadas, no país. É uma verdadeira chaga ambiental. Ainda é preciso lembrar que há cerca de 6 mil municípios neste país e de 200 milhões de habitantes!

Mais uma vez é necessário questionar como a Política Nacional a ser sancionada, lidará com esse tipo de problema, que é uma constante no Brasil

Redação Final PLS 354/89-Substitutivo Política Nacional de Resíduos Sólidos, aprovado neste mês no Senado, que seguiu para sanção

Sucena Shkrada Resk

14/07/2010 18:09
Uma realidade sem agrotóxicos é possível, por Sucena Shkrada Resk

Nada melhor do que gastar sola de sapato e conhecer experiências de como é possível haver uma agricultura saudável, sem agrotóxicos. Essa experiência vivenciei, neste mês, no Centro de Promoção Social Bororé, que fica localizado em uma região carente da zonal Sul de São Paulo, na Área de Proteção Ambiental (APA) Bororé-Colônia. Lá pude ver carreiras de alface, beterraba, cebolinha, coentro, couve e repolho cultivados simplesmente - com irrigação e adubo orgânico - pelo 'agricultor urbano" paraibano Reginaldo, 54 anos.

Essas verduras e legumes chegam ao prato de 350 pessoas diariamente, principalmente crianças e adolescentes atendidos pela instituição. Isso demonstra como é possível otimizar espaço de forma saudável. "Gosto de plantar, capinar. Meus pais eram da roça e nasci nesse ambiente e aqui em São Paulo, onde estou desde 1966, também continuei a plantar nas casas onde morei e fui feirante durante 13 anos", explicou o agricultor.

Diante de produtos que davam gosto de ver, não resisti, e comprei algumas verduras para levar para casa, que carreguei feliz da vida, por saber que poderia confiar na origem. Aí está um exemplo que cada cidadão pode potencializar. Posso relatar, inclusive, uma experiência doméstica. Minha mãe (Valia) tem uma horta caseira, da qual também retiramos a produção para nos alimentar. Neste caso, posso dizer, que o mérito é dela, ao tratar da terra com carinho e disciplina...

Agora, é expandir esse conceito de agricultura sustentável aos médios e grandes agricultores. Ao mesmo tempo, boicotarmos a aquisição dos produtos que utilizam agrotóxicos, já que muitos estão em não-conformidade ao que determina a legislação, conforme dados disponibilizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e noticiados pela mídia. O propósito era que exterminassem as pragas, mas muitos podem prejudicar a nossa saúde. Afinal, o Brasil é campeão mundial na utilização do produto, segundo estudo da consultoria alemã Kleffmann Group, encomendado pela Associação Nacional de Defesa de Vegetal (Andef), em 2009.

Veja mais:
Blog Cidadãos do Mundo - O que comemos? (29/06/2010)
Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA
Lei do Agrotóxico
Sucena Shkrada Resk

02/07/2010 17:41
Ficha Limpa: não são admissíveis exceções, por Sucena Shkrada Resk

A sociedade deve acompanhar e cobrar uma postura coerente quanto à aplicação da legislação da Ficha Limpa, nestas Eleições. Será que admitirão exceções, neste processo? Isso é inadmissível em um Estado democrático.

Uma decisão que já está causando polêmica é do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), ao permitir ao senador Heráclito Fortes (DEM-PI) registrar sua candidatura, segundo noticiado pelo Estadão hoje - Decisão não pode ser de um só, reage especialista . Afinal, o magistrado sozinho não representa um colegiado, tendo em vista, que as determinações constantes na Lei Complementar 135/2010 são muito claras quanto a este aspecto.

De acordo com a reportagem, o questionamento se pauta no fato de o parlamentar ter sido condenado por "conduta lesiva ao patrimônio público" pelo Tribunal de Justiça do Piauí (TJ-PI), e o seu recurso extraordinário estar em julgamento pela 2.ª Turma do STF. Então, o que é passível de entendimento é o seguinte: somente após a decisão do colegiado, será possível estabelecer se Fortes pode se candidatar ou não, conforme estipula as novas normas válidas a partir deste ano. Isso vale para qualquer outro candidato.

Vale lembrar que a legislação é fruto de uma grande pressão da sociedade, com mais de 1,6 milhão de assinaturas. Isso é digno de nota e não pode ser menosprezado.

Veja mais no Blog Cidadãos do Mundo:
18/06 - Eleições 2010: Ficha Limpa, sem meias palavras
Confira também a íntegra: Lei Complementar 135

Sucena Shkrada Resk

29/06/2010 18:40
Mudanças Climáticas em pauta, por Sucena Shkrada Resk

Este mês está sendo produtivo quanto a iniciativas com relação a ações em benefício da conscientização e efetivação de políticas para redução dos gases de efeito estufa (GEEs). Uma delas é a sanção do decreto nº 55.947, de 24/06/2010, que regulamenta a Lei nº 13.798, de 9/11/2009, da Política Estadual de Mudanças Climáticas paulista. Outra é o lançamento de duas publicações sobre o tema dirigidas aos povos indígenas (Cartilha Mudanças Climáticas e Povos Indígenas e o estudo Povos Indígenas, Terra e Proteção na Amazônia).

A Cartilha, com cerca de 30 páginas, foi produzida pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e por alunos do Centro Amazônico de Formação Indígena (CAFI), com apoio técnico do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). O material apresenta como metodologia, perguntas e respostas curtas, com linguagem simples, que tratam de temas como a definição de GEEs, o Protocolo de Kyoto, os direitos indígenas no universo das mudanças climáticas (aos seus territórios ancestrais, ao uso exclusivo dos recursos naturais nos territórios indígenas, à autodeterminação e autonomia e de consulta e de participação) a créditos de carbono.

O estudo também foi realizado pela COIAB com apoio técnico da TNC e da Fundação Vitório Amazônica (FVA).

Regulamentação da política paulista
O decreto paulista determina a criação do Comitê Gestor da Política Estadual de Mudanças Climáticas, sob a coordenação da Casa Civil, que deverá ter 12 membros do poder público, além do Conselho Estadual de Mudanças Climáticas. Esse, por sua vez, manterá representantes do Estado, dos municípios e da sociedade civil e terá caráter consultivo.

Um dos principais destaques do documento fica por conta do pagamento por serviços ambientais. Segundo a regulamentação, se trata de transação voluntária por meio da qual uma atividade desenvolvida por um provedor de serviços ambientais, que conserve ou recupere um serviço ambiental previamente definido, é remunerada por um pagador de serviços ambientais, mediante a comprovação do atendimento das disposições previamente contratadas nos termos deste decreto...

Esse dispositivo permitiu a publicação da resolução sobre o Projeto Mina D’água – Projeto de Pagamento por Serviços Ambientais na modalidade proteção de nascentes no âmbito do Programa de Remanescentes Florestais. O objetivo é remunerar pequenos agricultores que preservarem nascentes e cursos d`´agua em suas propriedades. O montante anual que cada um deverá receber gira entorno de R$ 75 a R$ 300, que serão provenientes do Fundo Estadual de Prevenção e Controle da Poluição (FECOP).
Mais um elemento interessante da regulamentação é configurar o Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE), como instrumento básico e referencial para o planejamento ambiental e a gestão do processo de desenvolvimento.

Confira:
Decreto nº 55.947
Minuta d`água
Cartilha Mudanças Climáticas e Povos Indígenas
COIAB

Sucena Shkrada Resk

29/06/2010 11:33
O que comemos?, por Sucena Shkrada Resk

Parece surreal, mas é pura realidade. Literalmente não sabemos o que ingerimos e ficamos a mercê, muitas vezes, de propagandas enganosas, de que nos alimentamos de legumes e vegetais saudáveis, que nos são vendidos no dia a dia. No entanto, parte deles contém substâncias prejudiciais à saúde, que obviamente não estão descritas nos rótulos. É essa a conclusão ao se ler os resultados do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para), divulgados neste mês, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). De um total de 3.130 amostras, 29% registraram algum tipo de irregularidade, como utilização de substâncias proibidas ou em quantidade acima da permitida pela legislação vigente.

Para a maioria da população, como eu e você, que é leiga, quanto a esse assunto, descobrir que come substâncias tóxicas, como endossulfan (em pepinos e pimentões), acefato (em cebolas e cenouras) e metamidofós (em alfaces, cebolas e tomates), é atestar que sofreu um atentado ao direito do consumidor, cidadão, ou melhor, aos direitos humanos. O relatório aponta que a quantidade expressiva desses componentes pode causar, desde problemas neurológicos até câncer. E quem paga a conta no bolso e na qualidade de vida? Nós.

No balanço das avaliações, os campeões de irregularidades foram o pimentão (80% das amostras), uvas (56,4%), pepino (54,8%) e morango (50,8%), segundo a Anvisa.

Diante disso, o mais revoltante é a sensação de ser lesado por um mecanismo de produção deficitário. Resta mudarmos nosso padrão de consumo, indo em busca das "origens", como verdadeiros rastreadores. Nessa peregrinação, os produtos orgânicos ganham relevância. Experiências de se adquirir a produção de agricultores que plantam em áreas de linhões de concessionárias de energia, como acontece em São Paulo, são interessantes, como também a possibilidade de cultivar a horta caseira.

Mais uma medida de suma importância é quanto à higiene, no ato da lavagem antes do consumo. Devemos ainda cobrar dos mercados uma postura ética com o consumidor, ao não permitir que em sua cadeia haja fornecedores que não mantenham boas práticas de produção. E cobrarmos uma legislação e fiscalização mais duras, que não fiquem reféns de brechas jurídicas, que punem, na verdade, a sociedade.

Sucena Shkrada Resk

28/06/2010 14:41
A relação das APPs e as enchentes nordestinas, por Sucena Shkrada Resk

As chuvas continuam a castigar Alagoas e Pernambuco, o que torna a instabilidade maior em cidades afetadas pelas enchentes. O flagelo que atinge cidadãos dos municípios desses estados são importantes estudos de caso, que podem ser colocados em remissão implícita ao atual parecer sobre a reformulação do Código Florestal (Lei nº 4.771/65), divulgado pelo relator da Comissão Especial dos Códigos Ambiental e Florestal, deputado Aldo Rebelo (PCdoB), no último dia 9, ao que se refere a Áreas de Proteção Permanente (APPs). Afinal, a questão é a seguinte: qual é a segurança proporcionada pelo parecer, quando defende uma faixa inicial menor (15 metros) para cursos d´água com menos de cinco metros de largura...?

A indagação se pauta em constatações da realidade: distanciar-se das margens de corpos d`água não significa somente levantar bandeiras de conservação da natureza, mas a promoção da qualidade de vida. Não é por acaso, que autoridades de algumas localidades afetadas pela tragédia da última semana afirmaram hoje que reconstruirão as moradias em outros terrenos, que estão sendo desapropriados (longe das margens de rios, como o Mundaú, AL). Afinal, seria um crime realocar essas pessoas novamente nas áreas de risco. Aí, me pergunto: e as centenas de milhares de ribeirinhos que vivem por este país, literalmente em palafitas sobre as águas (independente da legislação vigente)?

As cenas de destruição não mentem. As águas ultrapassaram, e muito, os telhados das casas e transformaram bairros em front de guerras e focos de doenças endêmicas. Algumas horas de chuvas torrenciais foram suficientes para fazer com que campos de refugiados climáticos emergissem. Respostas à intensa precipitação podem ser muitas ao lado da deficiência de infraestrutura e planejamento urbano. Assoreamento, destruição de matas ciliares, falta de esgotamento sanitário e, acima de tudo, de política pública próativa em consonância com a visão multidisciplinar.

A estrutura habitacional está profundamente interligada à área ambiental e de saúde. Não é preciso ser catedrático para observar essa teia de relações. O problema que assola o Nordeste demonstra que é preciso fazer essas conexões. E isso implica alinhavar o Estatuto das Cidades com o Código Florestal, com as Políticas Nacionais de Saneamento e de Recursos Hídricos e com a futura Política Nacional de Resíduos Sólidos (que continua parada no Senado).

Veja mais:
27/6 - Enchentes AL-PE: necessidades atuais

Sucena Shkrada Resk

27/06/2010 13:32
Enchentes AL-PE: necessidades atuais, por Sucena Shkrada Resk

São praticamente 300 mil pessoas afetadas pelos temporais que atingiram Alagoas e Pernambuco, nesta semana. A situação de calamidade pública demonstra a fragilidade de infraestrutura em muitas localidades do interior brasileiro. Como as chuvas continuam, segundo a metereologia, a dificuldade de acesso às áreas atingidas e o nível de destruição se ampliam, além de notificações de registros de surtos, devido à água contaminada (diarréia).

Essa tragédia ainda requer mais empenho da mobilização nacional (governos e sociedade), que já ocorre, em prol das vítimas- a maioria pessoas simples de regiões ribeirinhas - que ficaram sem teto, água, comida e roupas. Hoje, o maior apelo do setor de Defesa Civil desses Estados é que empresários possam disponibilizar tanto transporte aéreo (para donativos de outros estados) e caminhões para ajudar no encaminhamento de mantimentos e donativos às cidades atingidas pelas chuvas. Quanto às doações, faltam principalmente material de limpeza e de higiene pessoal, colchões, cobertores e utensílios domésticos, além dos alimentos não-perecíveis.

Esse cenário reitera uma questão pública premente: é preciso efetivamente planejamento urbano, que contemple os pequenos municípios. Em Alagoas, as principais cidades afetadas são: Branquinha, Cajueiro, Capela, Murici, Quebrangulo, Paulo Jacinto, Palmeira dos Índios, Rio Largo, Santana do Mundaú, São José da Laje, União dos Palmares e Viçosa. De acordo com autoridades do Estado, mais de 200 mil pessoas foram afetadas. O saldo até agora registrado é de 34 mortes, 76 pessoas desaparecidas; cerca de 26.700 desabrigados e 47.700 desalojados, como também serviços essenciais destruídos, entre eles, 43 postos de saúde e 25 escolas.

No Estado de Pernambuco, há um número superior a 80 mil pessoas desalojadas, cerca de 20 mortos e praticamente 40 municípios em situação de calamidade pública. Os pontos em situação mais crítica são Água Preta, Barreiros, Correntes, Cortês, Jaqueira, Palmares, São Benedito do Sul e Vitória.

O Governo Federal anunciou que está liberando um montante de R$ 550 mi (entre os dois Estados), que deverão ser utilizados para ações emergenciais.

Informações sobre doações e voluntariado em Alagoas são fornecidas por meio dos sites:
- www.sosalagoas.al.gov.br
- Banco do Brasil - C/C 5241-8 / Agência 3557-2 (Beneficiado: CBMAL – Defesa Civil)
Caixa Econômica Federal – C/C 955-6 / Agência 2735 / Operação 006 (Beneficiado – Defesa Civil)
Banco Bradesco – C/C 10000-5 / Agência 389-1 (Beneficiado: Defesa Civil)

Em Pernambuco:
Codecipe - Coordenadoria de Defesa Civil de Pernambuco
Fone: (81) 3181.2490 / 3181.2491
SOS Pernambuco (conta aberta pelo Governo do Estado)
Caixa Econômica Federal – Código 104
Agência – 1294
Operação – 006
Conta – 2010-0
Mais informações pelo site: http://www2.pe.gov.br/web/portalpe/home

Outras campanhas:
Copa Solidária (http://acaoglobal.globo.com/)
SOS Nordeste (http://www.ressoar.org.br/sos_ne_conta.asp)
Sucena Shkrada Resk

18/06/2010 07:57
Eleições 2010: Ficha Limpa, sem meias palavras, por Sucena Shkrada Resk

Um ponto a favor dos direitos dos cidadãos, que inclui todos os eleitores deste país, e acima de tudo, uma resposta à iniciativa da população, no ano passado, composta por mais 1,6 milhão de assinaturas. A decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), proferida ontem (17), deixa claro que não há meias medidas da validação da Ficha Limpa, nas eleições 2010. Portanto, os políticos condenados por órgãos colegiados antes da sanção da Lei nº 135/2010 (7 de junho), também estão inelegíveis por oito anos. A situação legal já deverá ser verificada, a partir de agora, no ato de registro das candidaturas. É bom destacar que, no hall de excluídos à candidatura, ainda estão os parlamentares que renunciaram ao mandato para evitar processos de cassação por quebra de decoro.

Esse saneamento sempre foi necessário e demorou décadas para ser enquadrado na legislação. Nada mais óbvio do que não termos nos quadros de nossa política, pessoas condenadas por crimes contra a administração pública, o sistema financeiro, ilícitos eleitorais, de abuso de autoridade, prática de lavagem de dinheiro ou formação de quadrilha, além de tráfico de drogas, tortura, racismo e trabalho escravo.

Nós, cidadãos brasileiros, muitas vezes somos enganados por falácias nas retóricas floreadas das falsas promessas, o que exige um nível de reflexão sobre essa complexidade cada vez maior. Pelo o menos, agora, em tese, estamos livres de pagarmos por meio de impostos e tributos, o salário de quem 'comprovadamente' lesou a sociedade.

Sucena Shkrada Resk

16/06/2010 09:36
Reflexão: Segunda ou primeira?, por Sucena Shkrada Resk

Apenas dois municípios no país têm como 'segunda' língua oficial, a indígena. Um é São Gabriel da Cachoeira, no extremo norte do Amazonas, que fala Nheengatu, Baniwa e Tukano. E agora, em Tacuru, MS, próximo ao Paraguai, o guarani foi instituído também 'legalmente', pelo Governo Federal, já que 30% da população local correspondem a esse povo, de um total de 9.554 habitantes.

Diante dessa notícia, veiculada pela Secretaria de Identidade e Diversidade Cultural, do Ministério da Cultura (SID/MINC), fiquei pensando: segunda ou primeira língua? Afinal, o recorte do Brasil multirracial tem uma história polêmica de fundo e moralmente, qual é a raiz? Hoje estima-se que haja cerca de um milhão de indígenas, de 270 povos diferentes (os que restaram em mais de cinco séculos de colonização), que falam mais de 180 línguas, segundo a própria SID/MinC.


Sucena Shkrada Resk

11/06/2010 08:59
Pensata: Relações sublimes, por Sucena Shkrada Resk

Nesta semana, ao tomar o metrô no Sacomã com destino à Consolação, em São Paulo, eu me deparei com uma cena que me instigou a repetir mentalmente como é bom nos depararmos com relações sublimes. Um rapaz entrou com o seu cão-guia, na composição, e se sentou próximo ao banco onde eu estava. O belo Golden Retrivier de cor preta se postou sob as pernas de seu dono e com o olhar dócil debruçou a cabeça sobre o joelho dele, para olhar o movimento da porta do vagão. Algo que me chamou a atenção...

Vocês podem considerar que a cena é banal, mas naquele momento me inspirou delicadeza e amorosidade. O animal queria se aconchegar ao seu companheiro humano em um gesto que intitulo de pura amizade.

Depois de algumas estações, o cão colocou sua cabeça no chão, naquele típico gesto de descanso e esperou a hora de partir para guiar seu dono. Não demorou muito tempo, os dois seguiram para suas jornadas e me deixaram essa sensação gostosa de companheirismo que compartilho com vocês. E isso revela uma relação muito além do adestramento, e uma demanda reprimida. Estima-se que haja no país cerca de 60 cães-guias, sendo que o contingente de pessoas com deficiência visual é de aproximadamente 1,4 milhão, de acordo com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia.

Esses dados revelam que poderia haver mais investimento, neste sentido, com patrocínio de empresas em projetos sustentáveis, neste campo de atuação. O alto custo e os poucos locais de adestramento nacionais inviabilizam a oportunidade de um maior número de pessoas ser agraciado com a companhia desses leais escudeiros de quatro patas.
Sucena Shkrada Resk

10/06/2010 10:37
A multiplicidade da ação simbólica ambiental, por Sucena Shkrada Resk

O símbolo ou elemento representativo inserido em uma ação ambiental só existe se resultar em sentido ao receptor. Para isso, precisa ser divulgado e gerar um processo de comunicação. Isso exige linguagem (escrita, oral, gestual etc) adaptada ao público-alvo

As ações simbólicas devem ser construídas de forma conjunta, o que propõe o processo de reflexão e o diagnóstico. Caso não reconheçamos o problema ou meios de solução, criaremos um ruído neste processo.

Geralmente o que só registra a imposição como forma de metodologia, não se mantém por muito tempo. É necessário haver o empoderamento de todas as partes.

As perguntas presentes são: o quê, por quê, onde, para quem? Ou seja, qual é o sentido da ação simbólica?

E aí enveredamos para um universo de multiplicidades, que começa com o gesto mais simples de um cidadão, de colocar o papel de bala na bolsa e não jogar na rua ou não emitir ruídos altos que afetem a vizinhança, além de:

Abaixo-assinados

Árvore dos sonhos

Atos de silêncio

Campanhas (coleta de lixo reciclável, lixo eletrônico, pela mata atlântica, cerrado, amazônia, biodiversidade, pelo consumo consciente, pelos povos tradicionais, pela redução do uso das sacolas plásticas, uso racional de energia...)

Caminhadas, passeatas

Comparar cenários (ex: degradado/recuperado)

Criação de jingles, músicas, peças com mote de educação ambiental

Demonstrar o ciclo do ecossistema (oficinas, dinâmicas)

Documentário

Grafitagem

Feiras de trocas

Festas/eventos com caráter de educação ambiental

Levantamento oral/roda de conversa com populações tradicionais

Muro das lamentações

Mutirões de limpeza

Mostras e concurso de redações, fotográficos temáticos

Passeios ciclísticos por uma causa

Produção de imagens, frases (flagrantes, alertas, de reconhecimento de ações propositivas...)

Revitalizar uma área degradada

Trotes da cidadania

Seguem alguns eventos e mobilizações tradicionais, com participação popular:

Viva a mata (SOS Mata Atlântica)

Hora do planeta www.horadoplaneta.org.br (WWF Brasil entre outras entidades)

Segunda sem carne http://diasemcarne.wordpress.com/ (secretaria do verde e meio ambiente de são paulo, entre outros)

O dia do fóssil (durante as conferências de mudanças climáticas) – para eleger os países com posicionamentos mais retrógrados quanto ao tema, durante os eventos - www.climatenetwork.org/.../fossil-of-the-day-1,
Entre outras.

Enfim, as ações simbólicas ambientais são um ótimo exercício de educomunicação, que exigem desprendimento, objetividade e sensibilização, acima de tudo, para não se perderem em possíveis estratégias de marketing verde ou de recursos políticos.
Sucena Shkrada Resk

26/05/2010 10:52
Pauta para Reflexão: lançamento do Plano Nacional de Trabalho Decente, por Sucena Shkrada Resk

O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) lançou, neste mês, o Plano Nacional de Trabalho Decente, com o mote de combater a pobreza e as desigualdades sociais. O documento com 37 pp. é um bom instrumento de análise para um fórum.

A partir do momento que se trata da palavra decente, temos o pano de fundo do indecente, que aflige as relações de trabalho. E como colocar essas mudanças de paradigmas em prática?

Estamos falando de ética, moralidade, sustentabilidade e muito mais.


Sucena Shkrada Resk

26/05/2010 08:59
Mapa é recurso para pesquisa sobre injustiça ambiental, por Sucena Shkrada Resk

Levantamentos sistematizados de estudos de caso contribuem bastante aos gestores públicos, empresas, ao terceiro setor e, principalmente, aos educomunicadores socioambientais. Neste sentido, o lançamento do Mapa de Conflitos Envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil, no último dia 5, pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a instituição FASE, é uma interessante ferramenta de pesquisa. Cerca de 300 casos estão disponibilizados no site http:/www.conflitoambiental.icict.fiocruz.br/. Esse número, entretanto, deve ser ampliado, segundo a coordenação do trabalho, com novas denúncias e apurações.

Os dados estão organizados por estados/municípios e são constituídos de histórico, tendo como premissa, o ponto de vista das vítimas, por meio de entidades do terceiro setor, do Ministério Público, além de outras referências bibliográficas de consulta. Ao interagir com o material, é interessante observar que há situações que envolvem, em grande escala, populações tradicionais, além de passivos ambientais de destaque em grandes cidades, envolvendo contaminações industriais.

A relação de todas essas situações, que em muitos casos, acontecem há décadas, demonstra o quanto é importante se promover ações mais substanciais, para que não ocorram tantos quadros de doenças e mortes, além do prejuízo da qualidade de vida de milhares de cidadãos.
Sucena Shkrada Resk

25/05/2010 09:49
Pensata: Entre os discursos e as ações, por Sucena Shkrada Resk

Ouvir. Como é importante essa palavra de cinco letras...Nossas vidas são povoadas de discursos explícitos e implícitos, com os quais, muitas vezes, não sabemos lidar. O vício de manter ideias preconcebidas no auge de nossos valores, nos torna insensíveis às chamadas entrelinhas. E aí enveredamos para as equivocadas e tendenciosas interpretações, que acabam nos fazendo perder literalmente o tempo, em sua vertente de integralidade. E ledo engano, quem considera que somos seres apolíticos (não se aplica aqui o sentido de partidarismo de legendas).

Aonde quero chegar com essa reflexão? Ao chamado pensamento crítico. Nas últimas semanas, ao fazer entrevistas e matérias sobre diferentes pautas socioambientais, ao ministrar aulas de educomunicação e voltadas à saúde ambiental, senti o quanto precisamos achar o 'nosso tempo' de parar, ouvir e dissecar as informações. O grande desafio é fazer o processo de imersão, que nos permita contextualizar a carga arrebatadora de informações com a qual nos defrontamos diariamente. Aí as desculpas da 'falta de tempo' são as mais usuais.

Mas é neste ponto, que está um elemento importante: saber administrar essa 'ditadura do relógio' e priorizar pautas, sem querer abraçar todos os temas de uma vez. Podemos, sim, nos informar sobre variados assuntos, mas elencarmos alguns nos quais pretendemos nos aprofundar. Isso vale para qualquer segmento de nossas vidas. Caso contrário, seremos sempre os generalistas do ontem e do amanhã. Os repetidores de discursos vazios e que não conseguem transpor a barreira do 'achismo'.

Com certeza, é uma tarefa difícil. Mas qual seria o sabor de nossas existências, se não fôssemos desafiados continuamente, nesse cotidiano dos discursos, que levam a escolhas e, obviamente, a ações concretas?

Enfim, o grande desafio é não comprarmos facilmente belas retóricas, e aqueles glossários rebuscados ou supostamente 'humildes', que se repetem. O que percebemos, no fundo, é que a falta de consistência não preenche nossa assimilação. Por isso, toda hora é momento de refletir, pois somos seres pensantes e protagonistas nesse mundo. Precisamos, então, nos dar esse tempo para encontrarmos nossas raízes, nossas histórias, nossos objetivos...

O sentido de 'nosso' ingressa no contexto holístico. Isso não quer dizer que devemos anular a nossa individualidade, que é o DNA da presença de cada um no Planeta. Mas significa que não podemos vislumbrar somente linhas retas, sem a transversalidade.
Sucena Shkrada Resk

23/05/2010 10:36
A flora na biodiversidade brasileira, por Sucena Shkrada Resk

2010 tem um peso importante no campo de ações ambientais, por ser o Ano Internacional da Biodiversidade, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU), o que repercute em várias iniciativas pelo mundo, de forma mais ordenada e visível à mídia. Nesse cenário, o Brasil, ao ser um país megadiverso, é um protagonista estratégico - muito além do recorte da Amazônia - e está apresentando alguns trabalhos nas áreas da pesquisa, de campanhas e de mobilizações, que são importantes destacar. Entre eles, a recém-lançada Lista da Flora Brasileira.

O material foi produzido pelo Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), sob coordenadação do Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora), ao Ministério do Meio Ambiente (MMA). O levantamento, segundo o JBRJ, envolveu equipe formada por aproximadamente 400 taxonomistas brasileiros e estrangeiros.

A lista exibe 41.123 espécies da flora brasileira, sendo 3.633 de Fungos, 3.521 de Algas, 1.522 de Briófitas, 1.176 de Pteridófitas, 23 de Gimnospermas e 31.248 de Angiospermas; uma descoberta que está ainda longe de acabar. Para se ter ideia, uma pesquisa desse porte só havia sido feita entre 1846 e 1906, na obra Flora brasiliensis, elaboradora por Von Martius, Eichler & Urban, na qual constavam 22.767 espécies. E ainda há muita pesquisa a fazer, porque conhecemos uma parcela ínfima de nossa biodiversidade.

No estado de Minas Gerais, também houve um lançamento interessante por parte da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É o livro Plantas Úteis de Minas Gerais na Obra dos Naturalistas, que respeita os conhecimentos tradicionais das chamadas raizeiras.

Já em Padre Bernardo (GO), uma parceria da representação da publicação Geo, no Brasil, com o MMA, resultou no "Action Day", que já ocorre em outros países. Neste caso, o propósito da mobilização foi a conservação do bioma do Cerrado. O evento reuniu pesquisadores, representantes de Secretarias da Agricultura e do Meio Ambiente, empresas do setor privado, entre outros. Segundo a organização, os participantes focaram o trabalho na experiência da comunidade de mulheres do Assentamento Colônia I, com a Cooperativa Central do Cerrado e a Associação Sabor do Cerrado.

Em São Paulo capital, no evento Viva Mata, organizado pelo SOS Mata Atlântica no Parque do Ibirapuera, pude observar ontem (22), alguns estandes que me chamaram a atenção, por envolver, em especial, o caráter socioambiental. Com isso, mais uma vez é reiterado, que as populações tradicionais são o maior exemplo de respeito à biodiversidade, de forma sustentável. Mas para isso, sem dúvida, precisam de incentivos e apoios do poder público, do terceiro setor e do empresariado.

Como exemplo de que a união desses atores faz toda a diferença, lá estavam expostos trabalhos da Associação de Moradores da Reserva Extrativista de Mandira, que tive a oportunidade de conhecer no ano passado, na região de Cananéia, além de artefatos com fibras de piaçava, produzidos pela Associação de Mulheres Artesãs de Ponto Central, em Santa Cruz de Cabrália, BA e de artesanato taboa produzido por integrante da Associação de Artesãos de Feliz Deserto (AL), entre outros. Prova de que a forma racional do uso dos recursos naturais, para a geração de renda dessas comunidades, é o caminho do tripé (ambiental, econômico e social).

Cases de trabalhos de educação ambiental e reflorestamento e manutenção das características nativas em Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN), por meio de parcerias, também apontaram caminhos possíveis das unidades de conservação de uso sustentável, sem ter o ecoturismo como simples fachada. Um dos exemplos ilustrados foi da RPPN Alto da Boa Vista, localizada na Serra do Relógio, MG.

Mais um atrativo da edição deste ano, do Viva Mata, que termina hoje, é o incentivo ao conhecimento e conservação da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, que ocupa uma área de 78.465.476 hectares em território nacional, envolvendo 2.385 municípios em 16 estados. É um apelo forte para que somente o mote do 'ano internacional da biodiversidade' não seja suficiente, pois se trata de algo sem data ou hora para acabar. Lembremos, que restam 7% da vegetação nativa do bioma.

E não podemos esquecer que no Brasil inteiro, ações anônimas ocorrem e transformam cada cidadão em um potencial protagonista na história ambiental nacional, em busca de tornar a nossa qualidade de vida e das próximas gerações rica em experiências nessa flora, que não só nos enche os olhos de beleza, mas é substancial à nossa existência e de todo o ecossistema.

Sucena Shkrada Resk

05/05/2010 18:49
Impacto ambiental-vazamento de petróleo: subestimamos a história, por Sucena Shkrada Resk

Quando se fala que nossa memória é curta, há um profundo sentido nesse comentário. Somente com o vazamento de petróleo recente no Golfo do México, que se expande para a região do estado da Lousiana, além do Mississipi, nos EUA, é que foi recobrado o alerta decorrente do acidente com o petroleiro Exxon-Valdez, que se chocou contra um recife, no Alasca, em 1989. Na época, vazaram 42 mil toneladas de petróleo, o que comprometeu cerca de 6 mil km2 do mar e o ecossistema local.

Vinte e um anos depois, se percebe que ainda é frágil o sistema de adaptação e mitigação a ocorrências desse porte, em plataformas marítimas e oleodutos. Estima-se que mais de 600 espécies de animais possam estar ameaçadas. Ao mesmo tempo é interessante observar, que além do aparato da guarda costeira, entre outras retaguardas operacionais governamentais, a população também se mobiliza para ajudar, afim de evitar que haja a morte indiscriminada da fauna contaminada com o óleo. É a mobilização socioambiental presente, mas que também fica de mãos atadas, por não saber lidar com certas circunstâncias de salvamento.

Tudo isso foi um alerta ao Brasil. Em notícia veiculada, pela Agência Estado/Gabriela Moreira, ontem (4), foi divulgada a formação de uma comissão por integrantes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, da Petrobras e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com o objetivo de estabelecer trabalho para prevenção e mapeamento de riscos em plataformas de petróleo nacionais.

A dificuldade de contenção apresentada no atual incidente apontou que é preciso maior atenção de caráter preventivo. Atualmente, o estado responde por cerca de 80% da produção petrolífera nacional, mas a iniciativa deverá ser ampliada aos demais estados produtores. No país, incidentes de grandes proporções ocorreram em 2000 e 2001, no RJ e no PR.


Sucena Shkrada Resk

03/05/2010 10:23
Educação ambiental: o saneamento é um elemento básico, por Sucena Shkrada Resk

As discussões que giram em torno da educação ambiental, muitas vezes, perdem de vista um elemento essencial: a pauta do saneamento básico e ambiental. Em março deste ano, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) emitiu o relatório Progress on Sanitation and Drinking-Water: 2010 Update Report, no qual, aponta que 39% da população mundial, que correspondem a cerca de 2,6 bilhões de pessoas, vivem sem instalações sanitárias melhoradas. Isso quer dizer, sem condições de higiene. Com isso, a expectativa de se atingir os Objetivos do Milênio relacionados ao saneamento, até 2015, se torna mais difícil. Esse é o retrato da desigualdade social, que avassala algumas regiões do planeta e as periferias das grandes cidades.

O que é importante se discutir, já que pouco se fala a respeito em EA, é que 17% da população mundial (dados 2008) ainda defecam ao ar livre, principalmente no sul asiático. Não podemos descartar que essa realidade também atinge os rincões latino-americanos e a África. São milhares de pessoas expostas aos riscos de doenças ou que adoecem e até morrem, em decorrência dessa insalubridade. Estima-se que 1,5 milhão de crianças menores de cinco anos morram anualmente em decorrência dessa situação.

Quando voltamos a atenção ao Brasil, não é preciso ir muito longe. É só ver as construções desordenadas nas encostas ou em regiões de vale, sobre os esgotos, onde o resíduos orgânicos se misturam ao reciclável e o chorume emerge, durante as enchentes. Um dia, aqueles trechos foram límpidas nascentes, mananciais e cursos d´água potáveis. Quantas pessoas ainda mantêm poços artesianos bem próximos de fossas sépticas em bairros, por exemplo, de São Paulo.

Tudo isso demonstra o quanto ações preventivas são importantes no curso da educação ambiental. É preciso tirar falsos rótulos de que só as pessoas de baixa renda produzem os danos ao saneamento. O filão de culpa cabe também à classe média e rica. Como os bueiros entopem? Será que o R, do reduzir, não está interligado a esse cenário? E o simples ato de jogar o lixo no lixo?

O relatório ainda registra alguns avanços nos últimos anos consideráveis quanto ao acesso a água potável, mas mesmo assim, cerca de 884 milhões de pessoas não integram o contingente de pessoas beneficiadas. Há um longo caminho a percorrer, para que esses cidadãos reconstituam o mínimo de dignidade, que é um direito universal.

Diante desses dados, é perceptível que o educador socioambiental tem uma tarefa cada vez mais árdua na constituição das agendas 21. Não é por acaso que a Conferência Mundial dos Povos sobre a Mudança Climática, realizada em abril deste ano, em Cochabamba, na Bolívia, ecoou 'o grito' de defesa da Pachamama (Mãe Terra). Nos discursos e reivindicações, ficou tão claro, o quanto o saneamento está ligado às mudanças climáticas, ao quadro de fome no mundo...

Quando falam de agricultura orgânica, água limpa e rede de coleta e tratamento de esgoto são princípios implícitos. Como é possível haver qualidade de vida, com extração desenfreada de recursos naturais, que prejudicam os solos e as águas? O projeto da Declaração dos direitos da Mãe Terra, decorrente do encontro, apresenta como algumas das reivindicações, a reafirmação do 'direito à água como fonte de vida', 'direito a estar livre da contaminação e poluição de dejetos tóxicos e radioativos; 'direito à saúde integral'...

O conceito de saúde integral demonstra que precisamos incentivar na educação socioambiental nos campos formal, não-formal e informal, essa visão holística, em que todos são responsáveis. Enquanto não houver esse sentimento de pertencimento, atitudes não serão renovadas na sociedade, nas empresas e no poder público. O saneamento não só tem de atingir a água/esgoto, como nossas mentes.


Sucena Shkrada Resk

21/04/2010 16:24
Comportamento: atenção a mentes adoecidas, por Sucena Shkrada Resk

A vida moderna exige cada vez mais que o cidadão 'enfrente um leão a cada dia', para superar as adversidades, e consiga manter o seu humor 'saudável'. Mas o que podemos perceber no dia a dia é algo mais complexo do ponto de vista psicológico, que deve ser objeto sistemático da saúde pública: os transtornos bipolares de humor, pois são mais comuns do que possamos imaginar.

Quando lidamos diretamente com o público, ou melhor, temos o convívio mais contínuo com as pessoas, começamos a perceber o quanto comportamentos extremos dos indivíduos podem se alterar. sem respostas lógicas. É como se uma mesma pessoa tivesse dupla personalidade. Algo que assusta, pois não sabemos até onde as euforias e depressões podem levar esses cidadãos.

Segundo José Alberto Del Porto, do Departamento de Psiquiatria da Unifesp/EPM, o transtorno bipolar é caracterizado pela ocorrrência de episódios de “mania” (exaltação do humor, euforia, hiperatividade, loquacidade exagerada, diminuição da necessidade de sono, exacerbação da sexualidade e comprometimento da crítica) comumente alternados com períodos de depressão e de normalidade. Em algumas situações, essas ocorrências incluem irritabilidade, agressividade e incapacidade de controlar adequadamente os impulsos.

Ao chegar ao extremo, essas pessoas começam literalmente a delirar, com manias de grandeza ou de poder, excesso de humor ou delírios de perseguição. Nesse ponto, o especialista explica que o quadro clínico é confundido com a esquizofrenia. O interessante é que a doença pode ter um histórico precedente familiar e tem incidência mais recorrente a partir dos 20 anos ou após os 50 anos. O alerta é que os pacientes graves não diagnosticados podem chegar até ao suicídio. Ao mesmo tempo, são potencialmente perigosos à integridade física alheia. Nos casos agudos, de acordo com a bibliografia médica, há maior dificuldade para a eficácia do tratamento.

Diante dessas mentes adoecidas, a sociedade deve se mobilizar, seja a família, os amigos, companheiros de trabalho ou de estudos. Não considerar que seja algo normal, com frases do tipo - "Ah, ele é assim mesmo, não ligue...Ele é esquentado..." Ao se detectar sintomas contínuos, é preciso verificar a melhor maneira para que a pessoa possa aceitar se submeter a uma consulta com um especialista e iniciar o tratamento. É óbvio que não podemos somatizar os problemas, mas ao menos, tentar ajudar. O importante é que o paciente reconheça que está doente.

As características opressivas do meio ambiente contemporâneo podem mascarar o transtorno bipolar de humor, pois infelizmente a violência, em todos os sentidos, é banalizada na sociedade do 'ter'.

Sucena Shkrada Resk

08/04/2010 20:40
As imagens da dor, por Sucena Shkrada Resk

Até ontem (7), poucas pessoas sabiam onde fica o Morro do Bumba. Em poucos minutos, o que já era uma área de risco, na cidade de Niterói, no RJ, se transformou em um espetáculo de horror difícil de ser esquecido. Estima-se que aproximadamente 200 pessoas ficaram soterradas, em questão de minutos, sob toneladas de lixo, pois elas moravam sobre esses resíduos e fonte de gás metano. A cena é tão dantesca, que é indescritível a dor que causa. Dor pela perda, pela humilhação de crianças, jovens, adultos e idosos serem misturados ao chorume, ao concreto, à lama e ao descaso crônico, que por décadas, marca a vida de cidadãos de baixa renda.

Quando vi, no final da tarde, uma menina em estado de choque salva pelos bombeiros, em cobertura ao vivo, pela TV Bandeirantes, eu pude sentir toda a fragilidade daquela criança diante do "monstro" que havia engolido sua casa e seus familiares. Mães, pais, avós, filhos chorando suas perdas. E agora, começou a chover denovo e há risco de mais deslizamentos, não só lá, mas em outras áreas. Com isso, os resgates de vidas e de corpos ficam mais difíceis.

O mais incompreensível é ouvir de representantes do poder público e de especialistas, além de moradores, em entrevistas à mídia, que sabiam há anos dessa situação, ou melhor, décadas. E o que foi feito para solucionar o problema? Absolutamente nada. Diagnósticos sobre a área se perderam na burocracia e com o descaso. A ocupação irregular avançou cada vez mais e o resultado é este - praticamente toda a comunidade local está 'morta' sob esse amontoado de resíduos, resultado de nosso consumo desenfreado.

A situação é extremamente grave, pois há milhares de pessoas que moram nos morros do estado do Rio de Janeiro, além de outras vítimas que perderam tudo com as enchentes. Até o momento, há o registro de mais de 15 mil desabrigados, segundo as autoridades locais, e esses números mudam a cada momento. Falar de mortos, então, é uma incógnita, diante deste deslizamento.


Sucena Shkrada Resk

07/04/2010 21:33
Os reflexos do planejamento urbano deficitário, por Sucena Shkrada Resk

O caos vivido por cidadãos fluminenses, com o temporal que atinge o Estado, desde ontem, só prova que é preciso haver ações concretas de planejamento urbano para mitigar e adaptar a situação dos moradores vitimados, principalmente de encostas e em localidades próximas a morros. É extremamente triste, até agora, saber que pelo menos 130 pessoas morreram, sem a mínima chance de se proteger.

Esse quadro de emergência acontece pouco tempo depois do V Fórum Urbano Mundial, que ironicamente, ocorreu no Rio de Janeiro, no mês passado. E como resultado deste evento, foi divulgada a Carta do RJ, na qual destaco os seguintes trechos.

"...que espaços institucionais devem ser criados e fortalecidos para representar diferentes segmentos da sociedade, permitindo que estes participem de decisões estratégicas, como orçamentos, planos diretores, projetos de larga escala, megaeventos, melhorias de áreas degradadas, preservação do meio ambiente, da cultura e da história...

O documento ainda sela as propostas estabelecendo que,"para garantir o direito à cidade, as instituições responsáveis em níveis local, nacional e internacional devem assegurar acesso à moradia, habitação decente, infraestrutura e mecanismos de financiamento para projetos inclusivos e sustentáveis".

A única coisa a dizer é que as ações são prementes e que essa carta não pode ser um papel a ser engavetado. Não é possível que fiquemos também entorpecidos pelo 'glamour' de uma Olimpíada à vista. A palavra infraestrutura ganha peso no hoje, no momento imediato. Quem resgatará a vida dessas famílias vitimadas, tanto dos entes que partiram, como os que ficaram sem nada, pois tudo se perdeu no meio de escombros. E as pessoas que ficaram sob as águas ou para evitá-las, pernoitaram sobre viadutos, para não terem os seus carros e suas vidas tragadas pelas águas?...

Agora, o Governo Federal anunciou a construção de 4.080 casas, em convênio com o Governo do Estado e com pelo menos 11 prefeituras. Mas será que essa reestruturação habitacional precisava ser decidida com base em uma tragédia?

Sucena Shkrada Resk

03/04/2010 10:56
Educomunicação: Resolução Conama abre novas perspectivas, por Sucena Shkrada Resk

O cenário da política pública ambiental no Brasil registrou ocorrências importantes, nas últimas semanas, com a publicação da Resolução nº 422, de 23/03/2010, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que destaca o papel da educomunicação na educação ambiental (EA), e quase ao mesmo tempo, a saída, no último dia 31, de Carlos Minc do cargo.

Ao se descompatibilizar, para concorrer às eleições de deputado estadual, no Rio de Janeiro, o ministro foi substituído pela bióloga e doutora em Planejamento, Izabella Teixeira, que é funcionária de carreira e ocupava recentemente, o cargo de secretária-executiva da pasta. Com a dança de cadeiras, o que se espera é que não haja interrupção dos principais programas do MMA, principalmente na área de educação ambiental e no que tange a essa nova resolução, já que EA é um dos setores com menor investimento no ministério.

O valor agregado da resolução nº 422 é 'finalmente' definir o papel da educomunicação como campo de intervenção social que visa promover o acesso democrático dos cidadãos à produção e à difusão da informação, envolvendo a ação comunicativa no espaço educativo formal e não-formal.

Ainda salienta que são diretrizes das campanhas, projetos de comunicação e educação ambiental: promover a educomunicação, propiciando a construção, a gestão e a difusão do conhecimento, a partir das experiências da realidade socioambiental de cada local.

Na série histórica legislativa do setor, é importante destacar que a proposta da educomunicação, de forma 'subliminar', faz parte do Tratado de de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, oriundo da Rio 92. Em seu princípio 14, diz que a "EA requer a democratização dos meios de comunicação de massa e seu comprometimento com os interesses de todos os setores da sociedade...mas também promovendo intercâmbio de experiências, métodos e valores.).

Já na Política Nacional de Educação Ambiental (lei nº 9.795, de 27/4/1999), no parágrafo IV, diz que no âmbito dos meio de comunicação, cabe a colaboração de maneira ativa e permanente na disseminação de informações e práticas educativas sobre meio ambiente e incorporar a dimensão ambiental em sua programação (tendo o pressuposto do empoderamento).

No site do MMA, também está inserida no link http://www.mma.gov.br/sitio/index.php?ido=conteudo.monta&idEstrutura=20&idConteudo=9447&idMenu=10165, com os projetos do Circuito Tela Verde e Nas Ondas do Ambiente. Apesar de ter havido a produção de um CDRom, em 2008, sobre o tema, não houve a difusão da divulgação na fase posterior. Agora, quem sabe, haja a implementação de forma mais sistemática da educomunicação nos programas do governo. Entretanto, é necessário criar regras bem claras, para que as campanhas não sejam massa de manobra de interesses, que não constituam o empoderamento dos cidadãos.

Veja mais sobre educomunicação, no Blog Cidadãos do Mundo: 13/01/2010 09:56 -Propostas da 1ª Conf. Nac. de Comunicação virarão lei?;
17/11/2009 00:23 - Especial Educomunicação Ambiental (4)-Entrevista:Maria del Carmen Chude;
02/11/2009 20:52-Esp. EA (3)-Entrevista: Vilmar Berna;
01/11/2009 19:11 -Esp. EA (2)-Entrevista: André Trigueiro;
26/10/2009 09:17 -Esp. EA (1) - Entrevista: Heitor Queiroz de Medeiros;
04/08/2009 15:37 -Especial-VI Fórum de Educação Ambiental-A importância do empoderamento.
Sucena Shkrada Resk

02/04/2010 20:33
Diego, obrigada por sua existência, por Sucena Shkrada Resk

A canção Encontros e Despedidas, de Milton Nascimento e Fernando Brant, cala fundo, quando diz - "Mande notícias do mundo de lá, diz quem fica, me dê um abraço, venha me apertar, tô chegando...". A letra se funde ao anseio de centenas de pessoas que se depararam ontem com a partida de Diego Frazão. O menino, aos 12 anos, interrompeu sua trajetória, para seguir a uma nova estação. O jovem violinista da Orquestra de Cordas do AfroReggae, em sua curta passagem por esse plano, deixou o legado de que a sensibilidade aflora os mais maravilhosos talentos - 'de ser gente'.

Ao conhecer um pouco de sua história, a gente se emociona. Diego foi vitimado por meningite e pneumonia, aos 4 anos, que deixaram sequelas em suas memórias...Mas nada que pudesse prejudicar a sua vocação musical, que emocionava e, acima de tudo, era e é uma ótima influência a outros meninos e meninas de comunidades carentes. Morador de Parada de Lucas, no Rio de Janeiro, essa criança autodidata inspirava amizades, sorrisos e o que é mais importante - bons sentimentos.

Ver a cena em que ele tocou no enterro de Evandro da Silva, coordenador social do AfroReggae, em outubro passado, é algo inesquecível. Visualizar sua bela negritude, com seus olhos inocentes úmidos, e suas mãos regendo o violino expressou o que todos nós precisamos renovar a cada minuto das nossas vidas - sermos verdadeiros.

Apesar de eu não ter conhecido Diego, é como se ele começasse, de alguma forma, a fazer parte de minha vida, por meio de sua representação da esperança. Esse pequeno artista é um cidadão do mundo a quem devoto respeito pelo o maior legado que deixou: ser autêntico, amigo e que deixará saudades 'boas', que nos povoam de esperança.

Os jovens violinistas, que o acompanhavam na orquestra, hoje o homenagearam com os acordes de "Asa Branca" (Luiz Gonzaga e Alberto Teixeira), transpiraram a emoção de carinho tão necessária nessas comunidades, que também sofrem com a violência. Então, menino Diego, o que te desejo, com toda sinceridade, é que voe como os sonhos de Ícaro e na estação que pare, nos mande notícias, por meio de inspirações de paz.
Sucena Shkrada Resk

28/03/2010 17:00
Pensata: O caminho dos sonhos possíveis, por Sucena Shkrada Resk

O filme Um Sonho Possível, sob direção de John Lee Hancock, com o jovem Quinton Aaron e Sandra Bullock exibe um roteiro que mexe com os paradigmas da cultura ocidental e traz um aspecto a seu favor, ao ser inspirado em uma história real. O longa-metragem remete, de certa forma, a uma outra obra - Pedagogia dos Sonhos Possíveis - de Paulo Freire, publicada em 2001, postumamente à sua morte, sob organização de Ana Maria Araújo Freire, pela Editora UNESP.

Em ambas as produções, há a ânsia pela quebra de preconceitos e de fronteiras físicas e mentais. Ao mesmo tempo, tratam da essência das palavras respeito, esperança e persistência. Nada de chavões, mas reflexo de uma realidade que integra os desafios da sociedade nos dias de hoje.

Como dizia Freire - "para mim, desde o início, nunca foi possível separar a leitura das palavras da leitura do mundo...". Ao discutir os desafios sobre a alfabetização de jovens e adultos, ele proporcionava uma reflexão sobre o sentido da comunicação quebrar as barreiras das fachadas. Para isso, ele refletiu sobre a experiência prática do dia a dia. Com isso, concluiu que não deveria impor aos camponeses conhecimentos pré-concebidos, mas deixá-los à vontade para que trouxessem seu conhecimento sobre o seu contexto local e de mundo e sua habilidade para expressá-los com sua própria linguagem.

O personagem Michael Oher, interpretado por Aaron, também aguardava alguém que o enxergasse e ouvisse, para que pudesse expressar e reconhecer a potencialidade de seus anseios e sonhos, se abrisse para o aprendizado das letras, da matemática e das ciências, mas acima de tudo, para o universo das relações. Fruto de uma família desestruturada, sem lar, esse jovem não havia perdido o bem mais precioso a um ser humano, a dignidade. Mesmo sem roupa, sem um endereço para voltar, e somente com uma oportunidade aberta em uma escola - que também teve de desconstruir modelos pré-concebidos para aceitá-lo integralmente- ele se reconheceu com um ator importante nesse mundo.

Mas o que foi necessário? Simplesmente oportunidade, mas vale ressaltar que significou uma iniciativa de mão dupla. A personagem de Sandra Bullock, a bem-sucedida Anne Tuohy, também precisava dar um sentido aos seus discursos e valores. E foi assim, que as vidas dos dois se cruzaram e transformaram sonhos em ações concretas e conscientes. Ambos se doaram e se reconheceram em suas habilidades e fraquezas e, assim, puderam crescer juntos.

Uma premissa que rege o caminho da educação libertadora proposto por Freire. Um de seus pensamentos destacado em Pedagogia dos Sonhos Possíveis reforça essa tese -"aquele aluno que sabe ouvir implica um certo tratamento de silêncio e os momentos intermediários do silêncios. Aqueles que falam de modo democrático precisam silenciar-se para que se permita que a voz daqueles que devem ser ouvidos emerja...".

Uma reflexão profunda e sábia...Há o tempo de falar e o de ouvir, para que existamos na plenitude e não fiquemos submersos em um sistema de opressão, que castra perspectivas e realizações.
Sucena Shkrada Resk

19/03/2010 18:10
Biodiversidade - Abelhas: pequenas, mas estratégicas, por Sucena Shkrada Resk

Minúscula, mas estratégica. Quem poderia imaginar, que esse inseto é considerado importante para a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO)? Pois é, tanto que a instituição coordena o projeto Conservação e Manejo de Polinizadores para Agricultura Sustentável, em andamento, em vários países, inclusive, no Brasil, pois as mudanças climáticas já estão reduzindo o número de espécies no planeta.

A iniciativa é oriunda da Declaração de São Paulo sobre os Polinizadores, que foi aprovada em 2000 pela quinta Conferência das Partes da Convenção da Diversidade Biológica (COP5/CDB), ratificada por 187 países, e ampliada na COP6, em 2002. Essa preocupação mundial é reforçada, desde 1995, quando a COP2/CDB, em 1995, introduziu a polinização e a conservação dos solos como temas de relevância na agenda para a manutenção da diversidade agrícola.

"A polinização é essencial para o ciclo da produção alimentar", como destaca a professora do Instituto de Biologia da Universidade de São Paulo e do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IB-IEA/USP), Vera Lúcia Imperatriz Fonseca. A pesquisadora é uma das coordenadoras do trabalho "Avaliação do Uso Sustentável e Conservação dos Serviços Ambientais Realizados pelos Polinizadores no Brasil", em fase de conclusão, em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O levantamento tem por objetivo, otimizar a produção de alimentos, biocombustíveis e a conservação da biodiversidade, por meio de serviços de polinizadores.

Segundo ela, cerca de 90% das plantas com flores são polinizadas e isso interfere de forma substancial para a qualidade do alimento, que nos chega à mesa. "No mundo, há pelo o menos 20 mil espécies de abelhas, sendo que no Brasil são 3 mil, e pouco se desenvolve de pesquisas a respeito no país", explica.

A bióloga afirma que no hemisfério Norte, a situação é de alerta, já que há cerca de 35% de perda das abelhas anualmente, o que compromete cultivos. "No caso do Brasil, é importante o estudo, porque cerca de 2/3 das áreas cultivadas ficam em países tropicais e mais de 50% da agricultura, nestas áreas, é dependente da polinização", fala. Como exemplo, ela cita que a florada do café, que é de apenas três dias, caso seja polinizada, tende a ter a produção ampliada em 14 a 50%.
Sucena Shkrada Resk

18/03/2010 08:13
Paulo Freire: lembranças de Ana, por Sucena Shkrada Resk

A tarde desta quarta-feira, 17 de março, teve um toque de 'libertação', se assim é possível dizer. A pedagoga e editora Ana Maria Araújo Freire, 77 anos, - ou melhor, Nita Freire, durante praticamente duas horas viajou por suas lembranças para resgatar momentos importantes da vida do educador pernambucano Paulo Freire (1921-1997), que foi seu companheiro, a partir de 1988 até sua morte, e do qual, se tornou multiplicadora de suas obras. Com olhos e ouvidos ávidos, embarquei junto a professores e estudantes, nesse roteiro, que começou em Jaboatão dos Guararapes, em Recife, retornando à UMAPAZ, no Ibirapuera, onde essa narrativa aconteceu.

Nesse vaivém, uma frase marcante de Freire foi resgatada por ela, como uma chave para compreender o seu pensamento..."Eu luto para transformar o mundo para torná-lo mais fácil...". E essa afirmação tinha razão de ser, como Ana destaca.

Daqui por diante, deixo vocês à vontade para refletir sobre a fala 'em primeira pessoa', de Ana Freire, afim de que seja possível sentir a 'sensibilidade' que suas palavras irradiaram sobre fragmentos da história do pensador Paulo Freire.

- ..."Eu estive há uma semana, no lugar onde Paulo viveu sua infância - que era um casebre. Continua um lugar miserável...Lá, praticamente da adolescência aos 20 e poucos anos viveu com seus pais, quatro irmãos e com a tia 'Lurdes' e a empregada Dadá...Fiquei pensando como todos eles conseguiam se acomodar por lá, naquela casa pequena e escura. Mas foi ali que ele começou a se sentir cidadão do mundo"...

O pai dele foi capitão em PE, era da cavalaria, mas depois de levar uma patada, ficou afastado, o que levou a família a passar dificuldades. Ele ouvia o pai dizer que ia ganhar dinheiro, vendendo rapaduras, mas ninguém comprava...Daí partiu para itens de palha, e nada...e se viu obrigado para mudar com a família para Jaboatão.

Mas Paulo repetia, que mesmo antes, já aprendeu princípios da convivência com a simplicidade a começar a escrever com gravetos das mangueiras do quintal onde nasceu, com o empenho de sua mãe e pai.

...Foi crescendo e, por algum tempo, teve dificuldade de compreender como se escrevia palavras com dois 'rs', não sabia diferenciar dois 's' de 'ç', mas tinha muita vontade de estudar. O segredo era o seguinte - a curiosidade inata, uma grande virtude que não pode ser descartada ou desincentivada...

...Para conseguir ir a uma escola com melhores recursos era difícil, não tinha condições de pagar o trem ou o custo das parcelas...E Paulo a vida toda teve horror a pechinchar, pois foi marcante em sua infância, relembrar de sua mãe quase não ganhar nada com a venda de produtos ao ceder aos pedidos das freguesas...Com isso, identificou a importância de valorizar o trabalho, a dignidade.

...Nessa atmosfera de pobreza, Paulo Freire, se tornou homem e aprendeu a não ter piedade de si mesmo", diz Ana. Nessa pequena casa, ele começou a valorizar seus pais. Lá cabiam poucos pertences, que não haviam vendido - o piano de tia Lurdes e a gravata do pai, que resgatavam o período em que foram da classe média...

...Um universo, em que ele aprendeu a jogar futebol com garotos pobres, ler e escrever, a namorar...Com esse sentido de pertencimento, percebeu que não havia diferença entre ele e o filho do operário, do camponês. Algo que destacou durante toda sua vida... A indignação com as lutas de classes sociais já aflorou nesse período da infância e adolescência...

...E aos 16 anos, ele estava cursando a quinta-série, e conseguiu gratuidade para continuar seus estudos, na escola Osvaldo Cruz, que era de meu pai. Lá vinha gente de todo o Nordeste e de todas as religiões, era um espaço ecumênico. Lá ele reforçou a importância da tolerância com o diferente e com o multiculturalismo...E foi nessa época, que eu tive meu primeiro contato com Paulo, na verdade, aos três anos de idade...

...Os anos foram se passando e Paulo se tornou professor de Língua Portuguesa ao receber a classificação de 'notório saber', já que não havia licenciatura à época. Aos 22 anos foi estudar na Faculdade de Direito de Recife, porque não havia outro espaço para o pensamento filosófico... Quando estava no último ano, percebeu que seu caminho não era esse. Ao ter de cobrar um dentista a devolução do equipamento que não havia pago, o devedor falou - Se o senhor me tirar isso, não conseguirei pagar, pois vai tirar o sustento de minha família...". Isso foi decisivo para que visse que não teria condições de agir nesses casos...

Na década de 40, assumiu a direção do Departamento de educação e cultura do Sesi local. Foi aí que começou a pensar a educação para a transformação social. Criticava o que intitulava de educação bancária, pois não enxergava os alunos como vasilhas vazias...O seu conceito era que, por meio das emoções, conseguia perceber a intolerância, a malvadeza, proporcionando a reflexão...Por sua vez, a reflexão ao começar pela prática, é iluminada pela teoria...

A vida fez com que Ana e Paulo se reencontrassem..."Paulo foi meu orientador na faculdade. Ele me dizia - "Nós aprendemos com o corpo inteiro...Só com a raiva (indignação) se pode construir o amor, ao combater a rejeição aos diferentes, e com isso, estou anunciando o amor a essas pessoas..."

...Naquela época, brilhava o pensamento de Piaget... Havia o pensamento sistemático no Brasil, após as guerras, de que o bom vinha de fora. Mas Euclides da Cunha, em Os Sertões, e João Cabral de Mello Neto, com Morte e Vida Severina, começaram a pensar o Brasil como ele é. Com isso, houve a reflexão sobre a proposta do diálogo. Esse diálogo podia ser entre eu e o livro, o teatro, ou melhor, do eu com a objetividade...

...Ao dialogar, Paulo via nesse contexto, que as perguntas são fundamentais - o quê, por quê, para onde, a favor ou contra quem? Assim, se desvela o mundo. E essa premissa, o educador aprendeu com os operários, no dia a dia... Ele dizia que ao apreender, se aprende e se apropria. A educação tem de contemplar as crendices, festas, desejos populares...

Isso fez com que adotasse aulas em que as pessoas se sentavam em círculos, olhando umas para as outras, expressando os seus saberes diferentes e com isso se facilitava a alfabetização de jovens e adultos...

...Paulo criou uma filosofia da educação. Ele dizia - 'uma certa compreensão ética e crítica da educação"...Segundo ele, o processo de consciência só é acelerado, dessa forma, se tornando libertador. A base do seu pensamento era que havia necessidade de se fazer a leitura de mundo, e acreditar na cultura de paz e de sustentabilidade...

...Ele expressava sua 'raiva' e, não, 'raivicidade' sobre situações cruéis, por meio da mansidão e humildade...Paulo valorizava ser mais gente...E não menosprezava ninguém... Dizia que nunca a gente perde tempo em conversar com outras pessoas...

...Uma vez ele recebeu reclamações de algumas mulheres, de que falava em seus discursos e textos somente de homens (que na verdade, queria dizer do ser humano)...Mas começou a refletir, que na condição de opressão, a expressão tinha um peso importante, e passou a falar e escrever homens e mulheres... A cerne de seu pensamento, posso dizer, que é a Pedagogia do Oprimido...

Para ele, coisas feias eram as anti-éticas...Ele acreditava que se a gente não tratar o semelhante com humildade, a gente se perde...Em sua concepção, não existia o determinismo marxista...Mesmo em cargos públicos, rodando mundo, dando aulas, palestras, vivendo no exílio e retornando ao Brasil, Paulo foi fiel a ele até o fim...

...E posso dizer, que nosso amor foi realmente radical. Pedagogia da Esperança foi o primeiro livro que ele escreveu, após nos unirmos (ambos éramos viúvos). Nesta fase, sua linguagem se tornou cada vez mais fácil e bonita...
Sucena Shkrada Resk

10/03/2010 15:16
Acessibilidade: Novo dicionário de libras, por Sucena Shkrada Resk

Com a tônica de difusão da acessibilidade, segue nota sobre o lançamento do DEIT-Libras: Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue da Língua de Sinais Brasileira (Libras), baseado em Lingüística e Neurociências Cognitivas, pela Edusp, em versão capa dura. São 9.828 entradas para os sinais, que correspondem a 14 mil verbetes em português e 56 mil, na língua inglesa.

A obra, de autoria de Aline Maurício, Fernando Capovilla e Walkiria Duarte Raphael, é dividida em dois volumes de 2.460 páginas e pode ser consultada gratuitamente na Biblioteca do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP/USP). O atendimento é das 8h às 18h45, de segunda a sexta-feira, à avenida Professor Mello Moraes, 1721, Cidade Universitária - São Paulo. Mais informações por meio do telefone 3091-4190. O dicionário também está à venda nas lojas da Edusp.

Mais informações:

Instituto de Psicologia - Biblioteca IP/USP: http://www.ip.usp.br/biblioteca/biblioteca.htm
Site Edusp: http://www.edusp.com.br/detlivro.asp?ID=31411786
Arte Pau Brasil: http://www.artepaubrasil.com.br/descricao.asp?cod_livro=8531411785&origem=edusp

Sucena Shkrada Resk

06/03/2010 19:23
As necessidades elementares, por Sucena Shkrada Resk

O Haiti e o Chile ainda têm uma longa jornada para conseguir restituir o que pode se chamar de retomada da normalidade. Os dias 12 de janeiro e 27 de fevereiro precisam ficar marcados para a humanidade, como exemplos de que a fragilidade do ser humano à força da natureza não é superada por padrões de crescimento, que se pautam em explorar cada vez mais riquezas do nosso solo e águas e, inclusive, do universo. Ao mesmo tempo, é possível detectar uma corrente de solidariedade de vários segmentos, inclusive do futebol, com doações de jogos amistosos antes da Copa ao Haiti. Estamos em um tempo de revisão de valores.

Só no Haiti, segundo agências de notícias internacionais, 1,3 milhão de civis não têm onde morar e mais de 220 mil estão mortos. Essa é a realidade dois meses depois do terremoto. No Chile, o número de residências a serem reconstruídas também chega a 1,3 milhão, conforme estimativas governamentais. Muito trabalho de mitigação e adaptação que levará anos...

Enquanto isso, profissionais da Defesa Civil, de organizações como Cruz Vermelha, Médicos Sem Fronteiras, entre outros, se desdobram no socorro às vítimas. Cidadãos desses países com atitudes resilientes auxiliam uns aos outros. Não há tempo a perder, pois ferimentos, casos de diarréia e desnutrição matam sem piedade. As condições sanitárias são o que mais preocupa os especialistas em saúde e autoridades. Centenas de pessoas estão bebendo água contaminada e vivendo entre o lixo.

Nesse momento de crise civilizatória, é possível questionar do que adianta o homem ir à Lua e gastar bilhões para desvendar os segredos do espaço, se de um dia para outro, milhares de pessoas estão mortas ou desabrigadas, sem acesso a saneamento básico e ao mínimo de infraestrutura para viver no planeta Terra.

É interessante fazer algumas comparações. O orçamento anual da Agência Nacional Norte-Americana, por exemplo, é de US$ 18,7 bi, um pouco acima do valor que deverá ser gasto para a infraestrutura da Copa do Mundo, no Brasil, segundo o governo. O Produto Interno Bruto (PIB) do Haiti, em 2008, era de US$ 6,9 bilhões.

Segundo especialistas, provavelmente serão necessários pelo o menos 15% desse valor para que nos próximos anos, o mais pobre país das Américas consiga se recuperar. Agora, recuperar uma situação que já era - sem os efeitos do terremoto - de extrema carência, com habitações que não suportam terremotos... Esses são exercícios de reflexão importantes a se fazer.

O presidente Barack Obama deve ir ao Haiti, na próxima semana, quando se reunirá com René Préval. Daí definirá o teor de auxílio que os EUA se comprometerá a efetivar. Nicolas Sarkozy anunciou uma ajuda de 270 milhões de euros, nos próximos dois anos. Historicamente há uma dívida da França para com o ex-país colonizado, que não pode ser esquecida, e chega a ser surreal a França decidir 'cancelar' a dívida de 56 milhões de euros que o país caribenho mantinha. Uma mesma palavra tem sentidos tão diferentes...


No Chile, cidades como Concepción, Talcahuano, Bio Bio e o povoado de Dichato estão em situação de calamidade pública. Apesar de o país estar 'crescendo' nos últimos anos e manter renda per capita das mais favoráveis na América do Sul, não estava preparado para o abalo de 8.8 graus e 'falhou' quanto ao alerta do Tsunami. Isso acabou resultando na demissão do responsável pelos 'alertas'.

Hoje mesmo, o país sofreu mais um abalo sísmico, o que vem ocorrendo há dias. Ainda não se sabe ao certo o número de mortos, estima-se que sejam na faixa de 800, mas foram encontrados cerca de 450 corpos. Outras pessoas estão desaparecidas, muitas tragadas pelas águas. Diante desse cenário de catástrofe climática, campanhas movimentam vários países, mas é necessário se ter em mente, que as ajudas multilaterais deverão ser a longo prazo.

A Organização das Nações Unidas (ONU) deve enviar US$ 10 mi para o auxílio da recuperação. A estimativa da atual presidente Michelle Bachelet (que daqui alguns dias sairá do cargo, quando será empossado o novo presidente, Sebastián Piñera) é que pelo o menos serão necessários quatro anos para que o Chile consiga estabilizar a reconstrução.

Sucena Shkrada Resk

28/02/2010 16:22
Mindlin eternizado em Brasiliana, por Sucena Shkrada Resk

Há alguns personagens ao longo da História, que se eternizam por seu papéis, que excedem a citações em livros e na mídia. José Mindlin é um desses cidadãos, que aos 95 anos, partiu hoje para uma nova morada, deixando ao mundo, por meio de doação, em 2009, à Universidade de São Paulo (USP), a Coleção Brasiliana Guita e José Mindlin(http://www.brasiliana.usp.br/). São mais de 40 mil volumes. Uma riqueza em um Brasil que ainda tem muito a avançar, já que mantém cerca de 15 milhões de analfabetos de 15 anos ou mais e outros milhares de potenciais leitores sedentos por descobrir o sabor da literatura e das diferentes linguagens compostas por imagens e textos.

Ao longo de décadas, o bibliófilo, jornalista e empresário, com ascendência ucraniana, se revelou um cidadão do mundo persistente e ético. Pode-se dizer que foi um cuidador das letras, dos símbolos, das memórias juntamente com sua esposa Guita (falecida em 2006). Aos trezes anos, ele já sabia dar valor à literatura, como ninguém. Mais do que raridades em suas coleções, como os originais da obra Saragarana, do autor Guimarães Rosa, e de primeiras edições de José de Alencar, buscou a história do país por esse mundo afora, atrás de mapas, manuscritos e tudo que pudesse compor um mosaico brasileiro. Com isso, exemplares portugueses também foram agregados ao seu acervo.

Boa parte desse material também está sendo digitalizada, para facilitar o acesso ao público. A biblioteca deverá ser aberta ainda neste ano, na Cidade Universitária. Mas só isso não basta. É importante que as escolas, os docentes, os intelectuais, os jornalistas, os articulistas... incorporem em seus programas e discursos a história desse 'senhor das letras' e possibilitem o encantamento ou o reencantamento pela viagem à linguagem nas suas mais diferentes expressões.


Sucena Shkrada Resk

27/02/2010 09:48
Abalo no Chile é mais um alerta, por Sucena Shkrada Resk

Terremoto no Chile e alerta de Tsunami em várias localidades até o Havaí exigem atenção do mundo à adaptação às mudanças climáticas. São Paulo também sentiu abalos, segundo Corpo de Bombeiros, que recebeu chamados, mas sem registrar rachaduras ou feridos.

Nas próximas horas, haverá notícias mais detalhadas das proporções desse incidente geológico, que exige ações multilaterais. Afinal, foram praticamente 9 graus na Escala Richter.

Presidente do Chile, Michelle Bachelet, anuncia estado de catástrofe. Órgãos de defesa civil e sismólogos ainda avaliam os efeitos e quantidade de mortos e vítimas.

Lembremos que iceberg gigante se desprendeu da Antártida, nesta semana...Incidentes em cascata...Haiti, Antártida, Chile. E a COP 16, que tipo de postura, nossos governantes terão no México, depois do fracasso de Copenhague?
Sucena Shkrada Resk

21/02/2010 19:38
Pensata: Da ‘Pachamama’ ao ‘avatar’, por Sucena Shkrada Resk

A simbologia expressa pela linguagem escrita, oral, dos gestos e do olhar é um material infinitamente poderoso para reconhecermos e identificarmos nosso papel socioambiental neste planeta. Por meio da manifestação cultural, podemos desenvolver essa concepção e promover reflexões.

Isso se torna cada vez mais evidente em alguns exemplos semióticos, como a interpretação do profundo sentido da expressão “Pachamama’, que significa a Mãe Terra ou Natureza, na língua indígena dos povos andinos da América do Sul. Ouvi com profundo respeito essa palavra, quando a escutei da boca do sociólogo peruano Roberto Espinoza e do índio equatoriano Virgilio Churuchumbi, durante o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, neste ano.

Nas entrelinhas do filme Avatar (reencarnação ou transformação; termo originário do sânscrito e utilizado no hinduísmo), do diretor norte-americano James Cameron, pude viajar a caminho dos diferentes significados da ‘árvore-mãe’, que foi um eixo central da trama.

Eu fiz essa analogia ao assistir hoje o longa-metragem, sem me prender obviamente aos efeitos técnicos e ao custo milionário da produção, que ao meu ver, poderia ter outro tipo de destinação em um mundo tão desigual, fazendo jus à mensagem proposta pelo enredo, contra a exploração desenfreada do planeta, que, por conseqüência, suga as suas energias vitais.

Deixei-me levar pela sensibilidade de ver como o ser humano, ou seja, nós, temos o livre arbítrio da escolha e podemos mudar os rumos de ações e recomeçar nossas histórias. Podemos escolher o caminho do lucro a qualquer custo ou do respeito à vida, ou melhor, ao meio ambiente. É algo tão evidente, mas que temos dificuldade de exercitar de forma responsável e consciente no dia a dia, em pequenos atos ou gestos.

Consegui extrair da mensagem expressa no filme, que somos, sim, responsáveis pela mobilização do coletivo em prol do planeta, o que infere conceito de rede ou teia. É um princípio no qual acredito. Os povos ‘Avatares’ de diferentes locais se uniram pela preservação da natureza, dos seus costumes, de suas crenças e, acima de tudo, da harmonia material e espiritual. Foi impossível não correlacionar esse recado subliminar ao dos povos tradicionais, que lutam pela ‘Pachamama’.

A analogia é a seguinte: o nosso desafio é unir os povos do planeta, em todos os continentes, pela mãe Terra ou pela ‘árvore-mãe’ (seja qual nome queiramos dar), nos possibilitando a segunda chance de corrigir os erros. Não importa que haja culturas, línguas e histórias diferentes. São justamente essas diferenças que dão ritmo à harmonia do planeta, nos obrigando a sermos eternos aprendizes em busca do compartilhamento.



Sucena Shkrada Resk

20/02/2010 21:33
Dengue: prevenção não pode ser sazonal, por Sucena Shkrada Resk

Boa parte dos brasileiros desconhece que os picos de casos de dengue, no Brasil, ocorreram em 1991, 1998 e em 2002, quando se registrou um dos quadros de epidemia mais intensos (467 casos/100 mil habitantes), segundo o Datasus. As manchetes eram sucessivas, apontando centenas de milhares de casos, o que mobilizou os departamentos de vigilância epidemiológica e em saúde a fazer operações de combate ao mosquito-fêmea do Aedes aegypti, que transmite a doença, além de aumentar a retaguarda para tratamento. Agora, oito anos depois, os cenários de alerta começam a se repetir, no Centro-Oeste, principalmente no Mato Grosso e Distrito Federal.

No Mato Grosso, foi registrado em janeiro, o aumento de 804% (mais de 12 mil, atualmente acima de 15 mil) de notificações de casos com relação ao mesmo período do ano passado. Até ontem haviam sido confirmadas 17 mortes. Na capital federal e cidades satélites, o percentual ultrapassa 300%. Isso demonstra a fragilidade de políticas permanentes de educação socioambiental, que prevê combate aos criadouros.

Água limpa e parada, eis a combinação perfeita para a proliferação das larvas do mosquito. Uma situação que exige medidas preventivas ininterruptas, pois os 'ovinhos' podem ficar em estado de latência até por um ano, aguardando o ambiente propício, para que o ciclo de reprodução se inicie.

Não é possível que ainda hoje pessoas deixem suas caixas d`água destampadas, pratinhos de vasos expostos à chuva, pneus a céu aberto e joguem cada vez mais entulhos por todos os lados nas vias e passeios públicos, além de quintais, o que facilita o acúmulo de água.

Além das autoridades, é preciso que a sociedade, por meio das associações de amigos de bairro e de organizações não-governamentais ampliem ações educativas em suas comunidades e multipliquem a conscientização e atitudes pró-ativas. A mídia, por sua vez, não pode se eximir de ser um canal para orientações, reforçando o caráter público de prestação de serviços. Todos nós temos um papel importante, nesta rede social. Não é possível estarmos no século XXI e nos depararmos com mortes causadas pela ausência de mínimos cuidados sanitários, que nos remetem aos idos dos séculos passados. Será necessário reavivar ações de Vital Brazil e de Oswaldo Cruz?

Sucena Shkrada Resk

15/02/2010 07:42
O seu nome era Alcides, por Sucena Shkrada Resk

O dia 6 de fevereiro marcou a partida abrupta do estudante de biomedicina pernambucano, Alcides do Nascimento Lins, de 22 anos. O material que manipulava em trabalho que desenvolvia no laboratório da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ainda está lá, como noticiado pela imprensa. As risadas gostosas e o trabalho do jovem esforçado, prestes a se formar, agora, só serão lembranças aos seus companheiros e à sua família. A ironia do destino é arrebatadora. O rapaz de origem humilde, que se destacou em noticiários, em 2007, por passar no vestibular nas primeiras colocações de uma universidade pública, agora voltou à mídia, como mais uma vítima da violência urbana.

Um dos acusados de matar Alcides, preso na semana passada, alegou que, ele e o seu comparsa queriam eliminar outra pessoa, mas na ausência desta, tiraram a vida do rapaz. O argumento demonstra o quanto nossa sociedade, em suas entranhas, está doente e desumanizada.

Quantos Alcides não têm suas vidas interrompidas por esse Brasil? O filho da ex-catadora de lixo queria mudar os rumos da família humilde do Recife. De acordo com relatos de familiares, ainda auxiliava no pagamento do cursinho de uma das irmãs, que agora, passou no vestibular. Em poucos segundos, todos esses sonhos foram retirados do jovem, que apenas batalhava por um espaço digno nesta sociedade, para não ser mais um número nas estatísticas da pobreza.

O destino de Alcides só nos faz repensar que precisamos resgatar valores de amor e de compaixão. Isso significa que a sociedade e o Estado não podem ficar omissos neste processo, que envolve acesso à educação e empregabilidade e, acima de tudo, à cidadania. No duelo dos antagonismos, as chamadas minorias são as maiorias, desde os primórdios da colonização. É como uma chaga e até quando?

Sucena Shkrada Resk

13/02/2010 12:11
É preciso muito mais do que ortografia, por Sucena Shkrada Resk

Desde janeiro do ano passado, o Brasil instituiu no país, a implementação do Acordo Ortográfico dos Países de Língua Portuguesa, que é mantido em conjunto por Portugal, Angola, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Trinidad e Tobago. Uma discussão, que se prolongou desde os anos 90, e que agora, passa por mais um desafio, sair do campo das palavras e ganhar projeção em acordos multilaterais, que incorporem cultura, educação, infraestrutura, inovação e saúde. É preciso constituir um sentido mais profundo, que lide com as realidades dessas populações.

Tirar o trema, acrescentar ou colocar hífen, acentos agudos, circunflexos...Essas novas regras ainda são assimiladas por pequena parcela dos cerca de 200 milhões de brasileiros. Muitos desconhecem que até 2012, em tese, todas as modificações deverão estar estruturadas no país. Isso chega a mostrar um abismo, ou melhor, uma ferida quanto ao tema justiça social, que está na entrelinha de todo o processo em andamento.

Quantos analfabetos funcionais existem nesses países, que um dia foram colônias portuguesas? Como é a situação geopolítica, já que boa parte dessas nações sofreu décadas de guerras civis, além de epidemias. Ao ver o ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), de 2009, o quadro é o seguinte:
173º lugar: Guiné-Bissau
172º “ : Moçambique
162º “ : Timor-Leste
143º “ : Angola
131º “ : São Thomé e Príncipe
121º “ : Cabo Verde
75º “ : Brasil
64º “ : Trinidad e Tobago
34º “ : Portugal

Um retrato que demonstra que a unificação deve consistir em ações concretas de transferência e compartilhamento de conhecimento, para que a qualidade de vida de cada cidadão desses países possa sofrer, de fato, uma influência a caminho da maturação dessas relações instituídas primeiramente no campo da ortografia.

Algumas missões brasileiras do Brasil, a partir do ano passado, principalmente a Guiné-Bissau, apontam ao direcionamento de um 'trabalho de reestruturação do exército do país africano'', que mantém uma situação geopolítica complexa.

Foi implementada a partir de 1997, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (http://www.cplp.org/). Alguns acordos de cooperação em andamento, como no campo da saúde, no que se refere a Aids e Malária, por exemplo, parece ser um indício de que ao longo dos anos, o que começou com palavras, possa se constituir em atitudes mais holísticas de longo prazo. Mas ainda é muito cedo, para se fazer diagnósticos, visto que, depende também das gestões governamentais manterem e aprimorarem os programas.

Mais um aspecto que não pode ser desprezado é o fato de parte dos portugueses manifestar rejeição ao acordo. Conforme matéria publicada na Revista Língua Portuguesa, escrita por Lúcia Jardim, na edição de janeiro deste ano, enquanto no Brasil o Ministério da Educação (MEC) já lança livros didáticos atualizados, além da mídia e dicionários já seguirem as novas regras, Portugal se restringiu a adotar o acordo somente em dicionários. No campo da imprensa, até agora, três veículos aderiram. E o prazo para efetivar as mudanças é até 2014.
Os questionamentos inferem que há muitas lacunas nesse acordo, tanto que não interferem na língua oral.

Sucena Shkrada Resk

02/02/2010 23:52
Esp.FSM 2010 - Muitos mundos possíveis, por Sucena Shkrada Resk

A experiência de participar, pela segunda vez, de uma edição do Fórum Social Mundial, me faz pensar que não é possível sonhar com 'um outro mundo possível'. Mas, sim, em muitos mundos possíveis, que se confrontarão indefinidamente, numa relação dialética e, até certo ponto, esquizofrênica. A única convergência entre tantos interesses diferenciados é que, de alguma forma, todas as centenas de milhares de pessoas que se deslocam para participar desses encontros, querem ser felizes.

Não há receita pronta para mensurar felicidade. Diria que é possível tentar traduzir alguns relatos e observações de atores, que compõem esse intrigante e, ao mesmo tempo, fascinante mosaico, ao dar voz a essas personagens. A cidadania se constrói com esse tipo de participação. E mesmo num espaço plural, percebemos que muitas vozes ainda são caladas ou ficam represadas, por causa, de uma cultura da negação do outro.

No último dia 29, o encerramento do Seminário Dez Anos Depois: Desafios e Propostas para Um Mundo Possível, do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, ressaltou esse aspecto. O interessante foi ouvir pessoas de diferentes gerações se expressando, o que demonstra que o empoderamento deve ser de todos. A juventude não pode desprezar os mais velhos e vice-versa. Esse quebra-cabeças é que enriquece o diálogo.

Assim é possível acreditar na construção de uma rede mundial, a partir do momento, em que se unam as vozes do fórum de Porto Alegre, no Brasil, com as dos EUA, do Paraguai, da Palestina, de Israel e da Europa, entre outros, que ocorrerão neste ano, rumo a Dakar, no Senegal, em 2011. Há um apelo, cada vez maior de que a justiça socioambiental e econômica saia do campo das utopias, que nos dão esperança, para as ações, que as renovam.

Entre os relatos que ouvi, selecionei o do estudante de Relações Internacionais, Pedro Borba, 21 anos, do RS, que resumiu em poucas palavras, o que é o indício dessa busca de felicidade. "É preciso que haja mais discursos propositivos do que perguntas sobre o que fazer", disse o jovem, que também participou da edição de 2005 do FSM.

Na sua opinião, movimentos como de moradores de Cochabamba, pela o direito à água, é prova de que a ideia de bem-viver, concebida pelos povos originários, tem tudo a ver com as populações dos grandes centros. "Pensando na agenda de futuro, me preocupo com os falsos consensos quanto à hegemonia. A questão é descontruir a agenda atual. Temos de combater o aquecimento global, com a ideia de justiça climática", diz.

Borba falou ao Blog Cidadãos do Mundo, que no FSM ainda a participação do jovem é superficial, em sua avaliação. "A mobilização juvenil nasce em outros espaços, como o de manifestações sobre quotas de direitos étnicos nas universidades. "A soma de pequenos esforços amplia a consciência. O desafio é ser um multiplicador", afirma.

Veja mais nos posts do Blog Cidadãos do Mundo/jornalista Sucena Shkrada Resk Especial Fórum Social Mundial 2010:
01/02 - Qual é a nossa conjuntura ambiental?
31/01 - Índio do Equador apresenta manifesto
30/01 - Voluntários: exemplo de espírito de equipe
30/01 - Como a população se integra à política pública
29/01 - Muito além do consumo inconsciente
28/01 - Boaventura Santos traça o perfil da hegemonia
27/01 - Vítimas de chuvas em SC se manifestam em Porto Alegre
27/01 - 10 anos de Fórum registrados pelas rádios comunitárias
26/01 - Índios na ofensiva ideológica
26/01 - Mobilização em prol do Haiti
26/01 - Agroecologia e mulheres camponesas
25/01 - Caminhada celebra diversidade
25/01 -Desafio é levar reflexão à massa
24/01 -Esta edição não reunirá multidões
21/01 - Pensata: Qual é o mundo possível?
Sucena Shkrada Resk

01/02/2010 21:28
Esp.FSM 2010 - Qual é a nossa conjuntura ambiental?, por Sucena Shkrada Resk

Chuvas torrenciais causam grandes estragos pelo Brasil. Ontem vivenciei, em São Caetano do Sul, no Grande ABC paulista - onde moro - , um temporal de granizos, acompanhado por ventos de 60 km, que causou destruição na cidade, que exibe o melhor Índice de Desenvolvimento Humano, no Brasil (veja fotos na rede www.cidadaosdomundo.ning)...O que nesta hora, não faz muita diferença, para quem é vitimado por esta situação.

No Paraná, trechos de rodovias e moradias viraram entulho e, o mais importante, vidas foram perdidas. Hoje as cenas de impotência diante das águas se repetiu em Diadema, em São Bernardo do Campo, em São Paulo...Na cidade de Iguape, famílias estão isoladas. Em São Luiz de Paraitinga, a população tenta retomar a vida. Enfim, a cada dia temos a confirmação de que precisamos ter medidas de adaptação às mudanças climáticas. E a questão é a seguinte: qual é a conjuntura ambiental em que vivemos?

O Seminário Internacional Conjuntura Ambiental Hoje, realizado em 26 de janeiro, durante o Fórum Social Mundial 10 anos, em Porto Alegre, trouxe à discussão justamente a questão das mudanças climáticas e a justiça socioambiental, que vem de encontro com os problemas da atualidade no país e no mundo.

Segundo o educador Moacir Gadotti, o fracasso da COP15 - 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas atesta a crise de um modelo econômico, que utiliza desordenadamente os recursos do planeta. Na cronologia da história ambiental, ele afirma que não é possível dizer que os alertas não estão sendo, dados desde a década de 60. "Nessa época, o Clube de Roma alertava para os limites do crescimento. Em 70, houve o relatório Brundtland, seguido da Agenda 21, do Tratado de educação Ambiental, da Carta da Terra, do Protocolo de Kyoto e a Conferência de Johannesburgo e, mais recentemente, de Copenhague", disse.

O sociólogo Roberto Espinoza, coordenador do Fórum da Crise civilizatória e consultor técnico da Coordenação Andina de Organizações Indígenas destacou que a Ciência demonstra, que se em 15 anos, os rumos do planeta não mudarem, o comprometimento será irreversível. "As construções de hidrelétricas irão destruir o Peru, para gerar energia a indústrias de São Paulo. Não vamos aceitar. Não se pode desrespeitar a soberania. A maior diversidade biológica está associada à maior diversidade popular. Quem está sofrendo são os quilombolas, indígenas e povos descendentes", citou como exemplo. A exposição foi feita poucos dias antes da liberação do licenciamento ambiental, da Usina de Belo Monte, no rio Xingu, que ocorreu hoje.

Segundo o sociólogo peruano, os povos indígenas andinos têm as seguintes propostas:
- Mais controle do subsolo pelos indígenas, contra o lobby de empresas petrolíferas,
- Apoio aos movimentos sociais e ambientalistas políticos para defender a natureza e as populações tradicionais:
- Combater as indústrias de extração de minério suspeitas, que 'colocam mercúrio na terra que nunca desaparece'.

"Vamos chegar à COP16, com um cenário de disputa grande, cobrando medidas efetivas. Estamos pessimistas que no México haja o mesmo resultado de Copenhague. Não é uma luta só indígena. Todas essas crises são da civilização, que continuam no modelo colonial, de opressão". Essas questões serão discutidas na Cúpula da Mãe Terra, em outubro, na Bolivia.

Hildebrando Veléz Galeano, coordenador de Mudanças Climáticas do Amigos da Terra, analisa que o discurso dos ambientalistas agora está no coração dos debates, devido à situaçao atual do planeta. "Mas será que governos progressistas assumirão a agenda ambientalista, para sair dessa crise civilizatória?", questionou.

O ambientalista lembrou da importância, nos anos 60, da obra Primavera Silenciosa, de Rachel Carson. "Hoje há necessidade de enfrentamento das estruturas do poder, de buscar a ecoeficiência, mas não são as únicas respostas. As lutas devem ser territorializadas. Existe a possibilidade de a utopia trazer a esperança. Estamos falando da soberania dos povos e não dos Estados". Ele considera o cooperativismo como um caminho para a autonomia econômica.

Para Adriana Mezadri, dirigente nacional de Mulheres Camponesas, é incontestável que acontece a destruição dos biomas nacionais com monocultivos e o perigo dos agrotóxicos. Ainda há a tomada dos territórios indígenas e quilombolas. "As mulheres têm papel fundamental na agroecologia, com a conservação das sementes crioulas. Trata-se de soberania alimentar, com a preservação da biodiversidade. Esse processo ocorrerá quanto mais houver consciência política", considera.

Antonio Marcos Muniz Carneiro, coordenador ambiental de pesca e agricultura sustentável da COPPE, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), analisa que a tecnologia não pode ser vista como simples artefato. "Mas por meio do uso que fazemos dela, ou seja, a prática social", diz.

O pesquisador reforça a necessidade de se estudar o campo do conhecimento tradicional, principalmente na região sul do planeta, nos trópicos. "A Itaipu Binacional produz 50% da energia elétrica do país, sendo que não é o maior reservatório. Isso quer dizer que é possível produzir energia sem maior área ocupada", afirma.

Segundo ele, é preciso considerar que um pescador, por exemplo, dificilmente se transformará em um apicultor. "Isso quer dizer que deve se respeitar o conhecimento que tem do ecossistema do rio", fala.

Nicola Bullard, da Focus on the Global South, alerta sobre a efetivação da justiça climática, contra o quadro presente de fome e imigrações pelo o mundo, com os refugiados climáticos. "Copenhague mostrou o despertar para a falta de democracia e exclusão. Os governos chegaram ao mínimo de acordo político, que é melhor do que acordos fracos, em sua opinião. "É perigoso que a alta tecnologia esteja nas mãos dos países poderosos" analisa.

"As bases sociais podem transformar as relações, em lugar do que simplesmente resistir.Depende da sociedade dizer aos governantes o que fazer, e não das organizações", afirmou. Nicola citou a presença de cerca de 120 governantes na COP15, como algo importante. O Brasil, África do Sul, China e Índia são atores poderosos para as negociações do clima globais, segundo a ambientalista.

O questionamento sobre a transformação dos seres humanos em mercadoria foi destaque na exposição de Gilmar Mauro, coordenador nacional dos Trabalhadores sem Terra. "Os agrotóxicos contaminam o aquífero guarani. A produção desenfreada automobilistica recebe subsídios", afirmou.

Segundo o militante, ao haver a especialização em tantos assuntos, as dificuldades de acesso de informação à população aumenta. "O trabalhador morre por produtividade, como os cortadores de cana e os autônomos", falou.

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Sucena Shkrada Resk

31/01/2010 15:00
Esp.FSM 2010 - Índio do Equador apresenta manifesto, por Sucena Shkrada Resk

O encerramento, nesta sexta-feira, do Seminário Dez Anos Depois: Desafios e Propostas para Um Mundo Possível, em Porto Alegre, que integra o Fórum Social Mundial 2010, contou com a intervenção do índio equatoriano Virgilio Churuchumbi, da organização Ecuarunari (www.ecuarunari.org), filiada à Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie). A sua participação teve como objetivo apresentar um manifesto contra o desrespeito aos direitos desses povos, que acontece atualmente, no país sul-americano, segundo ele. As tensões vêm se agravando nos últimos anos, e chegam às ruas. Em outubro do ano passado, um confronto resultou na morte de um professor da etnia Shuar.

Em entrevista ao Blog Cidadãos do Mundo, Churuchumbi afirmou que tudo o que está sendo pedido não é algo 'novo'. "Os povos indígenas querem o de sempre, se libertar da colonização espanhola, com a recuperação de territórios, exigindo direitos de educação, saúde e meios de produção. Queremos debater as leis privatizadoras e de educação bilíngue", diz.

O indígena afirma que os direitos coletivos das comunidades, que constam na Constituição de seu país, estão sendo desrespeitados. "Temos nossos governos comunitários, formados pelas próprias organizações, que não são ouvidos".

De acordo com o representante da Conaie, existe atualmente um problema de relacionamento com o governo equatoriano. "Há exploração de petróleo e minério em territórios indígenas, e não existe a compreensão governamental, de que ocorre uma violação dos direitos da Constituição e da natureza, quando os povos indigenas não são consultados. O FSM deve ser espaço de denúncia, por isso, trouxe o documento para buscar apoio dos movimentos", afirma.

O discurso do índio Churuchumbi só reforça as reivindicações de centenas de povos na América Latina, e que ganha força no Brasil, principalmente na região Norte, devido aos projetos de construções de hidrelétricas e de rodovias, que ocupam as manchetes dos jornais, principalmente, desde o ano passado. Na edição do FSM, em Belém, essa tônica já era acentuada, e de lá para cá, é notório que pouca coisa avançou no sentido do diálogo.

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Sucena Shkrada Resk

30/01/2010 22:32
Esp.FSM 2010 - Voluntários: exemplo de espírito de equipe, por Sucena Shkrada Resk

Quando podemos presenciar o esforço de cooperação por uma causa, não devemos deixar isso passar em branco. Estou me referindo ao papel desenvolvido por um grupo de cerca de 100 pessoas, de diferentes idades, que atuaram como voluntárias, durante o Seminário Dez Anos Depois: Desafios e Propostas para Um Mundo Possível, no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, de 25 a 29 de janeiro. Em conversa de bastidores, soube que o trabalho foi realizado na 'raça', pois chegou a faltar tíquetes-restaurantes para componentes da equipe. Ainda ouvi de duas voluntárias, que estavam lá, por amor à causa e repetiam a dose, depois da edição de 2005, que também foi na capital gaúcha. Uma afirmação espontânea e sem demagogias, de pessoas simples, literalmente do povo.

Nesta sexta-feira, 29, durante o encerramento, essas pessoas mostraram seus rostos para a plateia que ocupava o auditório da Assembleia Legislativa, um dos locais que sediou o evento, e foram aplaudidos. Os incidentes de percurso e dificuldades que enfrentaram foram irrelevantes diante do espírito cooperativo que promoveram. Esses são cidadãos do mundo, no estrito senso da palavra, que fazem com que tenhamos esperança num mundo melhor. Confira a foto do grupo no site Rede Ning - Cidadãos do Mundo , no qual também coloquei outras fotos do evento.

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Sucena Shkrada Resk

30/01/2010 20:41
Esp.FSM 2010 - Como a população se integra à política pública, por Sucena Shkrada Resk

Os resultados dos Indicadores de Referência de Bem-Estar no Município IRBEM , - um trabalho promovido pelo Movimento Nossa São Paulo, sob coordenação técnica do IBOPE Inteligência -, em 2009, registram que a opinião pública é um importante referencial para os gestores conduzirem as políticas nas cidades. O secretário-executivo da organização, o historiador Maurício Broinizi, em entrevista ao Blog Cidadãos do Mundo, nesta semana, explicou que o instrumento de pesquisa pode ser aplicado por outras cidades. "É uma forma de pressão e, ao mesmo tempo, de subsídio. Também pode servir como meio para o gestor público olhar com mais critério a distribuição de recursos", avalia.

O levantamento está à disposição, na íntegra, no site do movimento. "Só pedimos a citação, mas qualquer município pode utilizar. No entanto, é preciso ser adaptado às realidades locais, e para isso, há necessidade de aporte técnico e de pesquisa", explica. A metodologia já foi disponibilizada à Rede Social Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis, da qual o Nossa São Paulo faz parte, que conta com 30 organizações pelo Brasil.

"O processo de construção da pesquisa foi coletiva. Cerca de 37 mil pessoas ajudaram a escolher as questões de qualidade de vida apresentadas pelo IBOPE, sobre aspectos da vida pública e privada", explicou.

O universo de amostragem totalizou 1.512 entrevistados, a partir de 16 anos ao público da terceira idade, entre o período de 2 a 16 de dezembro do ano passado. Um total de 45% considerou que a qualidade de vida ficou estável. Já os menores níveis de satisfação foram relacionados a:
- Oportunidades de trabalho para terceira idade;
- Distribuição de renda;
- Respeito ao pedestre;
- Segurança no trânsito;
- Acompanhamento dos políticos eleitos;
- Punição à corrupção;
- Honestidade dos governantes, entre outros.

A informação foi concedida por Broinizi, em Porto Alegre, durante o Seminário Dez Anos Depois: Desafios e Propostas para Um Mundo Possível, que integra o Fórum Social Mundial 2010.

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Sucena Shkrada Resk

29/01/2010 05:34
Esp.FSM 2010-Muito além do consumo inconsciente, por Sucena Shkrada Resk

Mais do que o problema do consumo inconsciente, há uma mazela maior a ser refletida – o subconsumo. Essa foi a discussão trazida pelo indiano Amit Sengupta, da organização Peoples Health Movement, durante o Seminário Dez Anos Depois: Desafios e Propostas para Um Outro Mundo Possível, dentro da programação do Fórum Social Mundial (FSM) 10 anos, em Porto Alegre, nesta última quinta-feira (28). O militante propõe que o evento, neste sentido, se mobilize ao desafio de se tornar um espaço multiplicador de outras iniciativas pelo o mundo, de construção de uma hegemonia, que não se alicerce no eterno conflito de direita e esquerda.

´É preciso desafiar as classes dominantes. Em Mumbai, que é a terceira maior cidade do mundo, o tipo de pobreza é grave. Dez pessoas morrem por dia, por exemplo, porque têm de pegar transporte público urbano, que é muito inseguro. Embora, tenhamos a Índia dos turistas, temos a Índia dos sem-teto, andarilhos, que foram tirados de suas terras e estão desempregados, sem comida`, diz.

O indiano alerta que não é possível se fechar os olhos a essa questão. ´Acredito que 50% dos cidadãos de meu país compartilham da visão de querer salvar o planeta. Mas muitas pessoas no mundo não têm esse interesse`, diz.

Nesse contexto, Sengupta analisa que o FSM começou há dez anos, em Porto Alegre, mostrando que o ´monstro´ do capital global poderia ser desafiado. ´Era um dos poucos lugares onde a voz saiu do sul para o sul. Estamos dez anos depois, decidindo se vamos fazer história`, afirma.

O representante da Peoples Health Movement considera que é possível que os países em desenvolvimento reconstruam os parâmetros de crescimento, e citou a importância do Brasil, neste processo junto à Índia. ´O planeta vai sobreviver, mas estamos preocupados se a espécie humana não conseguirá sobreviver.

A sua crítica é aos países com governos progressistas e de esquerda. ´Fico incomodado que a construção da hegemonia alternativa seja uma eterna oposição (direita-esquerda). ´Não podemos construir o socialismo do século XXI, sem enfrentar o do século XX`, afirma.

Sengupta acredita que o caminho é que a humanidade seja capaz de revolucionar as forças produtivas. ´Embora o Capitalismo pareça estar morrendo, ainda procura colonizar nosso futuro. Em nível global, movimentos feministas, de defesa do clima surgiram porque os antigos não conseguiam captar as aspirações das pessoas. Precisamos ir além da hostilidade, precisamos de uma nova linguagem para que os antigos e novos movimentos possam conversar um com outro`, analisa.

Segundo ele, é natural a impaciência dos integrantes no FSM, em buscas de soluções. ´O desafio é ver se podemos trazer movimentos de outros lugares que vejam no fórum um espaço para construir hegemonia futura. Em Porto Alegre, em Nairobi, em Belém, havia esperança de transformação. O amanhã pertence a nós e ninguém pode nos tirar isso`, diz.

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Sucena Shkrada Resk

28/01/2010 20:14
Esp. FSM 2010 - Boaventura Santos traça perfil da hegemonia, por Sucena Shkrada Resk

O doutor em Sociologia, o português Boaventura de Sousa Santos, traçou hoje os caminhos da hegemonia, em uma exposição ovacionada, durante o painel Como Construir Hegemonia Política, que integra o Seminário Dez Anos Depois: Desafios e Propostas Para um Outro Mundo Possível, durante o Fórum Social Mundial (FSM), em Porto Alegre. O intelectual trouxe, no bojo de seu discurso, o respeito aos povos tradicionais. E finalizou sua apresentação, com a seguinte provocação - "Nós queremos criar rebeldes competentes, e não ser conhecidos como somentes inconformistas".

Segundo Santos, hegemonia é um consenso, pelo o qual, pode se juntar grupos sociais distintos para compartilhar determinadas ideias. "Estamos agora na corrente contrária e o neoliberalismo não foi derrotado. Está mais difícil de se estabelecer os consensos, de que falava Gramsci (pensador italiano referência do pensamento de Esquerda).

O intelectual, que é professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, contesta as bases do pensamento neoliberal. "O movimento capitalista é insustentável. Pertencemos à pequena porcentagem do mundo que se beneficia dessa injustiça. Estamos todos envolvidos nessa injustiça e na insustentabilidade ambiental, que vai afetar tanto Bangladesh como a Holanda", afirma.

Em sua avaliação, ao final de 10 anos, o FSM tem de mudar o ciclo. "É necessário que se criem sujeitos de direitos humanos (DH). Alterar o que fundamentalmente são os dh hoje. Com isso, o FSM tem de ser apropriado pelas classes populares", defende.

Até hoje, segundo ele, na América Latina, há a criminalização dos movimentos sociais e um controle repressivo e autoritário. "A democracia deve ser entendida como estratégia revolucionária, com uma prática cotidiana", considera.

Neste momento, ele anunciou que denunciaria ao Ministério Público (MP), o desmantelamento das escolas do Movimento Sem-Terra (MST), e que pediria o arquivamento as ações civis públicas contra o movimento. O que fez pouco tempo depois, retornando posteriormente ao evento.

Santos defende que a compreensão do mundo é muito mais ampla que a concepção ocidental do mundo. "Temos ideias novas de pensamento ocidental em outros continentes. Os povos indígenas falam de dignidade e respeito e, não do socialismo. Isso significa que podemos ter diferentes linguagens do Socialismo. E a hegemonia deve juntar todas essas ideias", afirma.

A conjuntura do FSM, em sua opinião, tem de assumir o papel protagônico, em que figurem menos diferenças de propósitos entre os movimentos. "O sentimento de urgência é prioritário para nós, é de mudança civilizacional".

"Nesta década, lançamos a ideia de que cada movimento isolado não consegue atingir agenda. Temos de consolidar esta ação. O FSM deve ser espaço de espaços, para que em outros lugares do mundo leve o selo do fórum. É o fórum social em movimento".

Em sua exposição, o doutor em Sociologia também se aprofundou na metalinguagem, com frases, como - "Ao lado de cada esperança há um caixão". Referiu-se ao que chama de necessidade de desmercantilização. "É preciso tirar do capital, os bens públicos, a soberania alimentar.... O economista e sociólogo defende a economia solidária e a luta contra o colonialismo sobre os quilombolas e os povos indígenas. "Descolonizar é vencer os preconceitos raciais e sexistas", considera.

Boaventura de Sousa Santos ainda critica o prêmio nobel da Paz. "Temos de denunciar o comitê do Nobel da Paz, que se tornou um comitê de guerra. Não dá para dizer que não temos a ver com isso", diz.
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Sucena Shkrada Resk

27/01/2010 19:52
Esp: FSM 2010 - Vítimas de chuvas em SC se manifestam em Porto Alegre, por Sucena Shkrada Resk

Vítimas das chuvas que atingiram o estado de Santa Catarina, em 2008, participaram nesta quarta-feira, do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, para pedir auxílio global à população que ainda sofre devido às chuvas e intempéries climáticas, que são frequentes nesta parte do Brasil. Durante uma oficina sobre a COP 16 - 16ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (que ocorrerá no México, no final do ano), apresentaram a publicação da Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais (ABONG) - "SOS Comunidade Vale do Itajaí - monitoramento e organização comunitária em desastres".

A revista, com 50 páginas, é um dossiê da situação de calamidade, que até hoje ainda reflete na vida da população local, apesar de intervenções do poder público. No material disponibilizado em CD, há o relatório "Direito à Sobrevivência", lançado em 2009, pela Oxfam Internacional. O levantamento aponta que os eventos de desastres climáticos podem aumentar em 50% em todo planeta, até o ano de 2015.

Algumas das vítimas das chuvas concederam entrevista ao Blog Cidadãos do Mundo, e relataram, que o dia a dia das famílias sofre interferência da tragédia até hoje, mais de um ano após o incidente. O presidente da Associação de Moradores do Rio da Luz e Barra do Rio, Hélio Teixeira da Rosa, 36 anos, de Jaraguá do Sul, conta que a infra-estrutura do bairro onde mora - bairro Rio da Luz, é precária, mesmo após providências tomadas pelo poder público em auxílio aos moradores locais.,br>
"Sofremos com o deslizamento de terra e alagamentos em novembro de 2008, quando houve a morte de 9 pessoas. O problema é que fica em área de encosta e ribeirinha. Acredito que mora cerca de 2000 pessoas em áreas de risco na região", conta.

Segundo o morador, os rios Jaraguá, da Luz e Guamiranga, que atingem outros bairros, chegaram a subir em dois metros. "Até hoje sinto tristeza e desânimo. Minha casa teve rachaduras e as casas de alguns vizinhos foram abaixo ou interditadas", afirma. Cerca de 20 famílias ficaram desalojadas. "A Prefeitura pagou um ano de aluguel e agora, as pessoas têm de se virar por conta própria" afirma.

A reivindicação da comunidade, de acordo com Teixeira da Rosa, é que as ruas da região sejam pavimentadas e que seja construída área de lazer. "Ainda não temos endereço, não recebemos carta, com nome de rua. Só vem a conta de água e luz", fala.

A história de moradora assistida pelo Centro de Direitos Humanos Maria da Graça Braz, de Joinvile, retrata mais uma situação de dificuldade provocada pelos temporais. "A minha casa cedeu, foi interditada pela Defesa Civil, em novembro de 2008. Eu morava lá, há 18 anos. Somente em 95 , tinha ocorrido chuva semelhante", diz.

A dona de casa lamenta, que não pôde mais voltar com sua família à sua casa própria, que foi resultado do esforço de longos anos, porque o 'solo não tem firmeza', segundo laudo oficial. "A Secretaria Municipal de Habitação ofereceu um outro local, em terreno menor, não aceitamos. A nossa casa tinha três quartos, sala e cozinha e lavanderia. Mesmo sem estar lá, temos ainda de pagar Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU) e taxa de lixo", conta. Ela se recorda que ficou em pânico na época. "Eu e minha família (marido e dois filhos), por 11 dias, tivemos de permanecer alojados em um colégio. Depois mudamos para Guaramirim, onde pagamos aluguel".

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27/01/2010 13:48
Esp. FSM 2010 - 10 anos de Fórum registrados pelas rádios comunitárias, por Sucena Shkrada Resk

Hoje foi lançado o CD "Palavras dos Primeiros 10 anos do Fórum Social Mundial, com entrevistas, depoimentos e coberturas realizadas pelas rádios comunitárias. A iniciativa foi da Associação Mundial de Rádios Comunitárias da América Latina e Caribe (AMARC-AL) e da Associação Latinoamericana de Educação Radiofônica (ALER), no programa conjunto Ritmo Sur.

Para a chilena Maria Pia Matta Cerna, presidente da AMARC -AL, o trabalho representa um incentivo aos movimentos sociais. Ela lembrou que há um processo difícil de reconhecimento deste segmento de mídia mundialmente, como as perseguições, que ocorrem no Brasil, com cerca de 7 mil pessoas punidas. "Iniciamos a captação do material em maio do ano ano passado e foi uma contribuição de vários multiplicadores pela América Latina", conta. Entre as entrevistas, há depoimentos de intelectuais, como do sociólogo português Boaventura de Souza Santos, que está presente nesta edição.

"São diálogos múltiplos registrados, neste período, que representam um aporte da memória do encontro", afirma Nestor Busso, da ALER, da Argentina.

Cobertura em Porto Alegre

Com uma rede de aproximadamente 400 associadas, as organizações das rádios comunitárias estão cobrindo a edição do FSM, que acontece em Porto Alegre. "Aqui está ocorrendo uma reavaliação de todo o histórico, com a proposta de uma articulação mais avançada. Em Belém, no ano passado, o foco foi a força local dirigida ao global, trazendo a problemática da Amazônia", analisa Maria Pia.

A ativista da mídia livre acredita que a construção de interferência do FSM é 'paulatina'. "Deve ampliar a ação ativista, não é uma revolução. Eu acredito que neste processo deve haver a construção dos sujeitos midiáticos", diz.

A brasileira Rita Freire, da Ciranda.net, conta que neste ano, um dos intercâmbios que ocorre em Porto Alegre é com a Rádio Koch, de Nairóbi, no Quênia, que tem uma representante na edição. "Essa rádio, que foi instalada em um conteiner, é inspirada na Rádio Favela, do Brasil, que chegou a ser retratada no filme "Uma Onda no Ar"", diz a ativista.

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Sucena Shkrada Resk

26/01/2010 19:23
Especial Fórum Social Mundial 2010 - Índios na ofensiva ideológica, por Sucena Shkrada Resk

O painel A Conjuntura Ambiental Hoje, do Fórum Social Mundial - FSM 2010, em Porto Alegre, teve como destaque, nesta manhã, a exposição de Roberto Espinoza, coordenador do Fórum de Crise Civilizatória e da Coordenação Andina de Organizações Indígenas. Com convicção, chamou a atenção do público, ao afirmar - "Os povos indígenas estão na ofensiva ideológica...".

Espinoza explicou ao Blog Cidadãos do Mundo, após o seminário, que em outubro, haverá um encontro em Cochabamba, na Bolívia, entre indígenas, povos africanos e grupos de apoio ao FSM, para discutir a crise civilizatória, que representa a modernidade com interferências da colonialidade. A estimativa é que participem cerca de 2000 mil pessoas.

"Queremos a desmercantilização da vida e o crescimento da felicidade. Trataremos do tema subjetividade, para discutir conceitos a serem reavaliados. Não podemos, por exemplo, dissociar egocentrismo do racismo e do patriarcalismo", disse.

O indígena afirma que a construção de hidrelétricas, como Belo Monte, no rio Madeira, também afetam as comunidades do Peru. "O que pedimos é que haja consulta aos povos indígenas para a construção de hidrelétricas e de rodovias", diz. Segundo ele, a maior diversidade biológica está associada à diversidade popular e as indústrias (petroleiras, mineradoras) não podem deter o poder sobre o subsolo.
Espinoza está atento aos efeitos das mudanças climáticas. "Em 15 anos, se nada for alterado, as mudanças serão irreversíveis, de acordo com as divulgações científicas. "Na Bolívia, já temos a malária, e na África, as catástrofes também são presenciadas...Chegamos ao limite da incapacidade ao desenvolvimento sustentável, por causa do Capitalismo...", diz.

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Especial Fórum Social Mundial 2010:

26/01 - Mobilização em prol do Haiti
26/01 - Agroecologia e mulheres camponesas
25/01 - Caminhada celebra diversidade
25/01 -Desafio é levar reflexão à massa
24/01 -Esta edição não reunirá multidões
21/01 - Pensata: Qual é o mundo possível?
Sucena Shkrada Resk

26/01/2010 17:14
Especial Fórum Social Mundial 2010 - Mobilização em prol ao Haiti, por Sucena Shkrada Resk

A Via Campesina e a Central Única dos Trabalhadores (CUT) anunciaram hoje, em entrevista coletiva, durante o Fórum Social Mundial 2010, em Porto Alegre, ações dos movimentos, que estão em andamento no Haiti, antes e depois do terremoto do último dia 12. O intuito é entregar uma carta , com reivindicações de auxílio aos projetos propostos pelas organizações, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ainda hoje. O encontro deverá acontecer, à noite, quando o presidente fará pronunciamento, no ginásio Gigantinho, na capital gaúcha.

O camponês e técnico agrícola paranaense, radicado em Rondônia, Carlos Roberto Oliveira, 31 anos, e o também técnico agrícola capixaba, Sidevaldo Miranda, 25, contaram a experiência que vivem no Haiti, desde janeiro de 2009. Os dois integram uma equipe de quatro representantes da Via Campesina, responsável por um projeto junto aos camponeses do país, para auxiliá-los no enfrentamento da crise humanitária pré-existente ao terremoto. Eles devem retornar no dia 31 de janeiro para lá. "Mais 40 militantes da Via Campesina deverão seguir para lá, em 25 de fevereiro. E estamos reivindicando que 120 jovens haitianos possam ter formação técnica no Brasil", disse Sidevaldo Miranda.

Os profissionais fizeram uma imersão no idioma, cultura e geografia haitiana, antes de iniciarem a prospecção da área rural, com o auxílio dos movimentos campesinos locais. "Viajamos por 10 estados e detectamos várias organizações sociais e verificamos a possibilidade de propostas para executar em 2010, quanto ao abastecimento de água, produção de sementes de legumes e reflorestamento, ", contou Oliveira.

Eles se depararam com dados ambientais impactantes, como uma cobertura florestal de 3% e 90% do uso de energia do carvão destinada para produzir alimentos. "Identificamos que o nível de analfabetismo chega a 70% e verificamos que a falta da água é grave. Às vezes, as pessoas demoram até 5 horas no deslocamento para ter acesso..., e há o problema dos coliformes fecais...", explicou Oliveira.

Desse levantamento, surgiu a seguinte demanda:
- Implementação de escola técnica agrícola;
-- Cultivo de 20 milhões de árvores frutíferas;
- Construção de 50 mil cisternas;
-Além de açudes para as famílias nos campos e poços artesianos, entre outras.

O secretário -geral da CUT Nacional, Quintino Severo, expôs que 60% dos haitianos estão desempregados. "Já estabelecemos uma relação com o movimento sindical local, para auxiliá-los neste sentido. Com o terremoto, retomamos este contato. Também decidimos criar duas brigadas, uma concentrada na prevenção de saúde pública e outra com pedreiros, carpinteiros...", explicou. Entretanto, o fator logístico ainda dificulta o transporte dos profissionais para o Haiti. "A questão do deslocamento é precário, vamos pedir auxílio ao poder público. A entidade também providenciou um galpão no Rio de Janeiro, onde deverá armazenar donativos às vítimas do terremoto haitiano.

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Especial Fórum Social Mundial 2010:
26/01 - Agroecologia e mulheres camponesas
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E posts sobre o Haiti:
21/01/10 - Haiti: mais braços se somam
14/01/10 - Haiti - A comunicação e a saúde ambiental
13/01/10 - Pensata: Haiti - O sentido da universalidade (2)
11/01/10 - Pensata: o sentido da universalidade
10/12/09 - Especial COP15 - Lembrem bem deste nome - Tuvalu
Sucena Shkrada Resk

26/01/2010 14:21
Especial Fórum Social Mundial 2010 - Agroecologia e mulheres camponesas, por Sucena Shkrada Resk

O trabalho no campo, nos dias de hoje, começa a manter novos sistemas de relação do trabalho e o meio ambiente. Para falar sobre este tema, que envolve a agroecologia, o Blog Cidadãos do Mundo entrevistou a dirigente nacional do Movimento Mulheres Camponesas, Adriana Mezadri, que foi uma das participantes do Fórum Social Mundial 2010, em Porto Alegre. Ela integrou, pela manhã, o painel A Conjuntura Ambiental Hoje, com outros convidados do Brasil e do exterior, mediado pelo pensador Moacir Gadotti. Adriana é gaúcha, de uma pequena localidade a 400 km da capital, e única dos quatro irmãos, que continuou no meio rural.

Blog Cidadãos do Mundo - Qual é a história da origem do Movimento Mulheres Camponesas?

Adriana Mezadri - O grupo começou em 2004, devido ao desafio de combater o modelo do agronegócio e a violência praticada contra as mulheres e hoje já se encontra em 22 estados, com exceção de AP, DF, PI, RJ e SP. Nossa missão é tentar libertar as mulheres da exploração e discriminação e incentivar a agricultura agroecológica, baseada na ótica feminista. Apostamos na construção da relação da troca com a natureza. As camponesas são posseiras, quebradeiras de coco e ribeirinhas principalmente.

Cidadãos do Mundo - Explique como funciona, na prática, o sistema de agroecologia do movimento.

Adriana Mezadri - É importante lembrar que a agricultura foi descoberta pelas mulheres e que a agroecologia tem como base que trabalhemos com sementes crioulas, ou seja, nativas, que não sofreram alterações genéticas. Com isso, trabalhamos com hortaliças, feijão, milho, entre outras, com a proposta de obter uma alimentação saudável para subsistência, como também, para venda em feiras ou diretamente nas casas dos consumidores, que são trabalhadores como nós.

Cidadãos do Mundo - Além da alimentação, há investimento em outras frentes de produção?

Adriana Mezadri - Também estamos trabalhando com plantas medicinais, usando o conhecimento local, que vem de geração em geração. No meu caso, que sou da região sul, cultivo marcela, que é uma flor que tem um ritual interessante, de ser colhida na Sexta-feira Santa. É usada para problemas do sistema digestivo e desde que sou gente soube disso e agora a gente está re-significando esta cultura.

Cidadãos do Mundo - Vocês mantêm algum tipo de parceria técnica para o cultivo agroecológico?

Adriana Mezadri - São poucas as parcerias, como o curso de extensão que tivemos na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), sobre reconhecer que o trabalho das mulheres camponesas vai além do campo, cuidando de casa, de seus animais, dos idosos. Uma companheira do movimento chegou a levantar, que de maneira geral, chegamos a trabalhar, por muitas vezes, 18 horas por dia.

Cidadãos do Mundo - E a questão da mobilização contra a violência, o que tem a dizer?

Adriana Mezadri - É um assunto muito sério, porque no meio rural, há um maior conservadorismo. As mulheres no campo, na maioria das vezes, sofrem violência física e moral e são vítimas dos próprios companheiros ou familiares. A dificuldade aumenta, por causa das distâncias às cidades e que os agressores estão muito próximos. A Lei Maria da Penha é importante, mas as mulheres precisam ser mais incentivadas a fazer as denúncias. Esse é um dos principais desafios e bandeira de luta de nosso movimento, além da manutenção de direitos adquiridos, como o salário maternidade, e da aposentadoria como seguradas especiais, aos 55 anos, com um salário mínimo.

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25/01 - Caminhada celebra diversidade
25/01 -Desafio é levar reflexão à massa
24/01 -Esta edição não reunirá multidões
21/01 - Pensata: Qual é o mundo possível?

Sucena Shkrada Resk

25/01/2010 19:46
Especial: Fórum Social Mundial 2010 - Caminhada celebra a diversidade, por Sucena Shkrada Resk

Os termômetros marcavam hoje, mais de 30 graus, e os participantes da caminhada oficial do Fórum Social Mundial 2010, não arredaram pé das ruas centrais de Porto Alegre. A concentração foi em frente ao mercado municipal, a partir das 15h, e teve como destino final, a Usina do Gasômetro, às margens do rio Guaiba, por volta das 19h. A pluralidade de reinvindicações marcou mais esta edição. Aos manifestantes se juntaram participantes da Marcha Estadual pela Liberdade Religiosa 2010, que comemoravam principalmente as expressões das religiões afro. Ao mesmo tempo, sindicalistas, sambistas, curiosos e artistas de rua interagiram nessa festa popular, que acabou em apresentações musicais, no decorrer da noite.

O ponto negativo, como se repete nesses encontros, se refere à educação da população, ao jogar o lixo nas ruas, o que não combina com a consciência ambiental, esperada num evento com esta temática. Com isso, os varredores tiveram bastante trabalho, num mutirão de limpeza que foi praticamente simultâneo ao evento. Por outro lado, centenas de participantes demonstravam em suas falas, faixas e palavras de ordem, que o que os movia era a necessidade de encontrar caminhos para um mundo melhor.

Nesse grupo eclético, tive a oportunidade de conversar com a presidente da Organização de Mulheres de São Joaquim (Chile), entidade criada em 1999, que hoje reúne cerca de 300 integrantes. "É a terceira vez que participo do FSM, é uma forma de intercâmbio", disse ela. Eva contou que o movimento nasceu como reação à fase ditatorial. "Hoje nossa luta é para combater as desigualdades sociais, que são muito intensas em nossa região", conta.

A entidade compartilha conhecimentos com o Centro de Assessoria e Estudos Urbanos, de Porto Alegre, que atua na formação de conselheiros do orçamento participativo, há 21 anos. "O nosso público-alvo são lideranças comunitárias principalmente femininas", diz a a socióloga Daniela Tolfo, que representa a instituição.

A presença desses cidadãos de diferentes partes do mundo, neste ato popular, funciona como um aquecimento para discussões mais sérias. Entre elas, justiça social, igualdade de gênero, direitos trabalhistas e defesa ambiental, que deverão ocorrer nos próximos dias. Amanhã, o destaque será o Seminário Internacional Conjuntura Mundial Hoje, em Porto Alegre, e o Terceiro Encontro Nacional de Agendas 21, em Gravataí.

Neste primeiro dia, entretanto, foi possível fazer comparações com a edição passada, em Belém, que registrou momentos ímpares da história do FSM, com um diferencial expressivo, com a atual. Na capital paraense, as minorias tiveram representatividade significativa. Aldalice Otterloo, representante da coordenação do FSM 2009, fez um balanço hoje do movimento, ao definir que uma de suas marcas foi a de estabelecer o caráter pan-amazônico. Ela reinvindicou que esta, como as próximas edições deem prosseguimento à defesa de direitos de índios, ribeirinhos, quilombolas, entre outros, que são o principal público-alvo, que gerou a concepção do fórum.

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25/01 - Especial FSM 2010 - Desafio é levar reflexão à massa
24/01 - Especial FSM 2010 - Esta edição não reunirá multidões
21/01 - Especial FSM 2010 - Pensata: Qual é o mundo possível?
Sucena Shkrada Resk

25/01/2010 13:37
Especial: Fórum Social Mundial 2010 - Desafio é levar reflexão à massa, por Sucena Shkrada Resk

Hoje, a abertura do Fórum Social Mundial - 10 anos, em Porto Alegre, teve como tônica, o desafio de o evento conseguir pluralizar as reflexões à sociedade, ou melhor, popularizar a difusão das propostas, que são discutidas nos encontros. Os principais idealizadores do movimento expuseram o balanço que fazem das ações, nos últimos anos, que se confrontam com uma resistência ao modelo neoliberal e imperialista.

O arquiteto e pensador, Chico Whitaker, priorizou em sua fala, o chamado 'alter-mundialismo', como uma visão de criar espaços abertos para conceber ações propositivas. "O nosso objetivo atual é encontrar a união dentro deste alter-mundialismo. Isso enfrenta uma das maldições que paira sobre a Esquerda, que é a divisão que nos debilita", disse.

De acordo com Oded Grajew, do Movimento Nossa São Paulo e também um dos idealizadores do FSM, não será possível chegar à universalização dos ideais manifestados no evento, por meio de imposições. O respeito à gênese do respeito à diversidade deve ser uma meta a ser seguida pelo o movimento, em sua análise.

Na opinião de João Pedro Stedile, da Via Campesina, 'democracia demais' também não pode ser o caminho a ser seguido pelo FSM, como ocorreu em tempos passados. "Quando todos fazem o que querem, não funciona a democracia", afirmou.

Um dos méritos do FSM, de acordo com Cândido Grzybowski, do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), é a decisão de não concentrar o evento em um único local. "Foi uma decisão acertada rodar o mundo, o que desencadeou processos autônomos", considera.

A crítica à grande imprensa quanto à cobertura do FSM foi feita pelo representante da Central Única dos Trabalhadores (CUT), João Antonio Felício. "Não gosta de nós", disse. O sindicalista ainda ressaltou a necessidade do movimento se concentrar nas ações consensuais, o que facilitaria o êxito das metas do fórum.,

De uma maneira geral, as avaliações dos idealizadores do FSM pontuam que ainda há um longo caminho a trilhar, para que haja uma sociedade mais justa e sustentável. Um dos principais pontos para isso, segundo eles, é não dissociar o papel do encontro com a política (não-partidária), pois deve ter influência sobre políticas públicas, entre outras atribuições. O peso do 'descaminho ambiental' no mundo é mais um problema a solucionar para se chegar ao ideal de 'um outro mundo possível'. Com isso, o FSM 2010 pretende ainda chegar a algumas propostas para a COP16 - 16ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, no México, em novembro deste ano.

Veja mais nos posts:
24/01 - Especial: Fórum Social Mundial 2010 - Esta edição não reunirá multidões
21/01 - Especial: Fórum Social Mundial 2010 - Pensata: Qual é o mundo possível?
Sucena Shkrada Resk

24/01/2010 14:26
Especial: Fórum Social Mundial 2010 - Esta edição não reunirá multidões, por Sucena Shkrada Resk

Cheguei a Porto Alegre e estou me familiarizando com a organização do Fórum Social Mundial 2010, que fará uma reflexão sobre os 10 anos do evento. Diferentemente da edição anterior, em Belém, e do encontro na cidade, que ocorreu em 2005, a organização não pretende reunir multidões em um mesmo local, já que a programação está descentralizada em diferentes temáticas, na região metropolitana de Porto Alegre e em outras regiões do mundo.

Em conversas de bastidores, a proposta, neste ano, será promover uma reflexão que tenha como um dos eixos, os rumos do planeta, principalmente, na contagem regressiva à COP 16 - 16ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que acontecerá no México, no final do ano. O fracasso em Copenhague é visto como um sinal de alerta - para o mote 'de um mundo possível'.

Hoje ocorreu uma coletiva de imprensa com Oded Grajew, Chico Whitaker, entre outros representantes, a um grupo pequeno de jornalistas brasileiros e internacionais, que já se encontram na cidade. Amanhã haverá a abertura oficial, com um Seminário, pela manhã, e passeata, no período da tarde. Aí será possível sentir a atmosfera que se produzirá até o encerramento, no dia 29.

Veja mais: post 21-01 - Especial Fórum Social Mundial 2010 - Pensata: Qual é o mundo possível?
Sucena Shkrada Resk

21/01/2010 14:40
Haiti: mais braços se somam, por Sucena Shkrada Resk

Mais tremores atingem a nação caribenha do Haiti e mais braços se somam no auxílio às vítimas do terremoto de 7 graus, do último dia 12. Aqui, no Brasil, o Ministério da Saúde (MS)iniciou uma campanha de cadastramento de doares de medicamentos, insumos de saúde e de profissionais autônomos voluntários, que tenham interesse em participar de uma lista de reserva para possíveis missões humanitárias.

Os dados são disponibilizados no site p/para medicamentos e insumos (http://formsus.datasus.gov.br/site/formulario.php?id_aplicacao=3646) e para profissional de saúde http://formsus.datasus.gov.br/site/formulario.php?id_aplicacao=3647 .
Mais informações podem ser obtidas no site: www.saude.gov.br .
Segundo a Agência Saúde, o MS analisará as inscrições. Os critérios são estabelecidos pelo gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, que coordena a ação de apoio ao Haiti.

Na frente de auxílio, também constam organizações não-governamentais. Seguem os sites:
Care Brasil: www.care.org.br/
Cruz Vermelha brasileira: www.cvbb.org.br
Médicos sem Fronteiras: www.msf.org.br

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14/1/2010 - Haiti - A comunicação e a saúde ambiental
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11/01/10 - Pensata: o sentido da universalidade
10/12/09 - Especial COP15 - Lembrem bem deste nome - Tuvalu

Sucena Shkrada Resk

21/01/2010 12:17
Especial: Fórum Social Mundial 2010 - Pensata: Qual é o mundo possível?, por Sucena Shkrada Resk

Qual é o mundo possível? Uma pergunta que não cala em minha mente. Depois de um ano, em que fui ao Fórum Social Mundial (FSM) Fórum Social Mundial 2009, em Belém, no PA, estou me preparando para seguir a Porto Alegre, RS. O encontro comemorará 10 anos do evento, em cinco dias, e reunirá personagens de diversas partes do mundo em busca de respostas para a construção de um planeta sustentável. Nesta contagem regressiva, um turbilhão de ideias povoa minha mente, no balanço sobre os caminhos que estou trilhando como cidadã e profissional integrante desta sociedade. Com isso, metaforicamente em minha 'caderneta' de anotações, o alerta é - 'tenho muito ainda a fazer''. E o seu, qual é?

É positivo dialogarmos conosco, entre nós, sem muitos rodeios. A pior coisa é tentarmos nos enganar. No saldo devedor ao mundo, elenquei o seguinte:
- Preciso ouvir mais, para refletir sobre o que falo e faço. As palavras são edificações;
- Pulverizar as mágoas as confrontando com tudo de bom que nos acontece e que, nem sequer, prestamos atenção;
- Ajudar ao próximo em ações contínuas (se possível, anônimas), tendo em vista, que o transitório e o 'alarde' não agrega valor moral;
- Ampliar o meu papel de jornalista/comunicadora em contribuição às causas humanitárias; ser multiplicadora
- Ampliar o meu papel como educadora ambiental com o objetivo de provocar cada vez mais reflexões e compartilhamentos de ideais e práticas sustentáveis...E sempre me colocar também como aprendiz, nesta relação.
-Tentar enxergar no outro os seus melhores potenciais e ajudar com que os mesmos se aflorem.
-Dizer eu te amo ao companheiro do hoje e do amanhã, familiar, amigo, ao cidadão que está abandonado e colocar para fora esse sentimento com ternura, se possível, em todos os dias da minha vida

Enfim, esta 'caderneta' poderia ser sua ou de outra pessoa, ou melhor, de todos nós. O FSM simboliza, de certa forma, esses anseios e questionamentos, dos quais estou falando. E o principal nisso tudo é que a troca de experiências, que ocorrerá em Porto Alegre e região metropolitana, e em outros lugares do mundo, tem a possibilidade de desconstruir pilares erguidos em vaidades, casuímos e de estabelecer uma estrutura sólida, fortificando principalmente as ações de Agenda 21 por este mundo, que resumem esse propósito perseguido por milhares de pessoas. E isso exige participação integral de nossa parte, ou seja, uma meta de vida.

Veja mais no Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk:
Cobertura FSM 2009

24-02 - Encerramento leva à reflexão sobre exclusão
24-02 - Ministro declara que biomas serão monitorados
24-02 - O manifesto da Ciência na Amazônia
20-02 - A constituição dos estados plurinacionais
20-02 - A palavra quilombola
08-02 - Nota sobre breve ausência
08-02 - Reflorestamento em pauta
08-02 - Experiências da Agenda 21
08-02 - Os caminhos da mídia livre
02-02 - Índios nas ondas digitais
01-02 - Mídia livre discute a necessidade de mais poder de articulação
31-01 - Protesto contra hidrelétricas marca dia 30
31-01 - Fitoterapia chega a usuários da saúde pública
30-01 - Bastidores A realidade a olho nu para se refletir
30-01 - Pensata - Caldeirão de diversidades
28-01 - O clamor dos povos indígenas
27-01 - Pela ótica da simplicidade
22-01 - Especial Fórum Social Mundial (2009)
Sucena Shkrada Resk

14/01/2010 15:51
Haiti - A comunicação e a saúde ambiental, por Sucena Shkrada Resk

Os acontecimentos trágicos que afligem o Haiti me remetem aos dados apresentados na 5ª edição do Global Climate Risk Índex 2010, da organização não-governamental(ONG) Germanwatch - http://www.germanwatch.org/klima/cri2010.pdf, na qual figura em sexto lugar no mundo, quanto à vulnerabilidade, no período de 1990 a 2008. O documento exposto, durante a COP15, em dezembro passado, registra aproximadamente 600 mil mortes no mundo, neste intervalo, devido a mudanças climáticas. Não importa se os cataclismas são de fundo antrópico ou não. O fato é que as ações preventivas são indispensáveis. É uma questão de saúde ambiental e a comunicação pode ter um importante papel neste processo.

Primeiramente o país caribenho sofre com centenas de furações e abalos sísmicos de menor proporção anualmente, o que exige um investimento de reconstrução, que tenha foco em defesa civil e em sistema de alerta integrado, que atende ao princípio da adaptação. Tantas vidas estão perdidas, não só, por causa do terremoto, mas porque pessoas vivem na miserabilidade. O mundo agora enxerga esses irmãos, que por tantas décadas, sofreram opressão de regimes despóticos e foram negligenciados.

A comunicação entra com apelo educativo, que visa desde orientações de ferver a água a como proceder em situação de perigo de cataclismas climáticos. O fato é que, apesar de esses homens, mulheres e crianças viverem em um lugar rico em belezas naturais, rodeado por um mar de cartão-postal, não conseguem usufruir desse suposto paraíso.

Para muitos faltam saneamento básico, acessibilidade, água potável, alimentação, educação, roupas e, obviamente, saúde. A mortalidade é de 10,15/1000 hab (dados 2008, do The World Fact Book, da Agência Central de Inteligência Norte-Americana). A expectativa de vida não chega aos 60 anos e a economia é calcada na agricultura.

Hoje, com certeza, a preocupação é salvar vidas sob os escombros das edificações destruídas. Cada segundo é indispensável, mas o planejamento a longo prazo, requer, sim, ações efetivas de apoio do Banco Mundial (BIRD), do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), das Organizações das Nações Unidas (ONU), dos países da América. Os países insulares são incontestavelmente os que mais sofrem e sofrerão com as mudanças climáticas.

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13/01/10 - Pensata: Haiti - O sentido da universalidade (2)
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Sucena Shkrada Resk

13/01/2010 19:52
Pensata: Haiti - O sentido da universalidade (2), por Sucena Shkrada Resk

A situação pela qual passa o Haiti, que fica localizado na Ilha Hispaniola, no Caribe, é a prova incontestável de que somos seres únicos e ao mesmo tempo universais. A comoção e dor, quase física, que causam as cenas de destruição de vidas e vítimas feridas à espera do socorro emergem o ímpeto de solidariedade. O papel da Cruz Vermelha e da organização dos Médicos sem Fronteiras, que são quase 800 no país, é admirável. O esforço dos mais de 1,2 mil militares brasileiros, que integram a Força de Paz da Organização das Nações Unidas, também enriquece esse exercício de fraternidade.

A morte da médica sanitarista Zilda Arns se soma ao infortúnio de muitos cidadãos que morreram em decorrência da tragédia. Com certeza, foi uma perda significativa. É incontestável a importância dessa profissional, que criou a Pastoral da Criança, no Brasil. Não me esqueço até hoje de matérias que fiz no Diário do Grande ABC, vendo o trabalho de uma corrente de voluntários acompanhando o crescimento das crianças, orientando gestantes, ... Uma mobilização social digna, em que as pessoas das próprias comunidades fazem literalmente as ações com amor.

Confesso que ainda estou muito emocionada. Ainda não se sabe quantas milhares de pessoas estão sob os escombros. Vi em uma reportagem na TV, um colega jornalista suplicando ajuda pela Internet-Skype, já que os meios de comunicação e de abastecimento de energia e água foram gravemente afetados. Era visível sua aflição e, talvez, um misto de fé e desespero. É difícil não lembrar da tragédia do Tsunami, na Ásia, que teve proporções devastadoras, como esse terremoto de 7 graus. Estima-se que possam ter sido afetadas cerca de 3 mi de uma população de 8 mi pessoas. Mas mais que emoção, nós que integramos o universo da mídia livre, também podemos ajudar pela Web.

Já foram divulgadas as conta-correntes da Cruz Vermelha e da Embaixada do Haiti, que estão recebendo doações, além do telefone disponibilizado pelo Itamaraty:

Nome: Comitê Internacional da Cruz Vermelha
Banco: HSBC
Agência: 1276
CC: 14526-84
CNPJ: 04359688/0001-51

E da Embaixada do Haiti, no Brasil:

Nome: Embaixada da República do Haiti
Banco: Banco do Brasil
Agência: 1606-3
CC: 91000-7
CNPJ: 04170237/0001-71 Mais informações podem ser encontradas no site:

Cruz Vermelha no Brasil - www.cvbb.org.br

Informações referentes a cidadãos brasileiros no Haiti poderão ser obtidas junto ao Núcleo de Assistência a Brasileiros do Itamaraty, nos telefones: (061) 3411.8803/ 8805 / 8808 / 8817 / 9718 ou 8197.2284.

Veja mais: 11/1/2010- Título:Pensata: O sentido da universalidade
Sucena Shkrada Resk

13/01/2010 09:56
Propostas da 1ª Conf. Nac. de Comunicação virarão lei?, por Sucena Shkrada Resk


Pouco se falou na mídia, sobre os resultados da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (CONFECOM), que ocorreu em Brasília, em dezembro passado, que resultou em 665 propostas aprovadas - http://www.confecom.com.br/propostas_plenaria -, com a participação de 1.684 delegados representantes da sociedade civil, empresarial e do poder público. Apesar de não ter um caráter deliberativo, é importante que a sociedade, de uma maneira geral, acompanhe o que poderá ser objeto de projetos de lei. Enfim, saber o que foi discutido por lá e verificar se há sentido prático quanto à realização de um evento deste porte.

No campo da educomunicação, o que me chamou a atenção são os seguintes itens aprovados:

"Através de um diálogo com o Ministério da Educação, criar mecanismos para implantar a educomunicação em todos os segmentos formais e informais de educação como prática metodológica que favoreça a compreensão da comunicação como direito humano e o aprendizado da leitura crítica dos meios, desde os primeiros anos escolares".

"Desenvolver políticas para a criação de núcleos comunitários de comunicação com a perspectiva de fornecer os aparatos técnicos e instrumentais, permitindo que a sociedade construa, socialize e discuta suas próprias pautas e produções".

É importante ressaltar, que já houve, por exemplo, investimento público em um CDRom produzido em 2008, pelo Ministério do Meio Ambiente, e divulgado no VI Simpósio de Educomunicação - Meio Ambiente, Jornalismo & Educomunicação, em São Paulo, no mesmo ano, sobre o tema educomunicação ambiental. Como também, que a Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo (ECA/USP) também deverá implementar em 2011, a primeira licenciatura em Educomunicação no Brasil, segundo o professor Ismar Soares.

Na lista de propostas aprovadas, ainda destaco a de elaboração de planos de comunicação participativos...com a difusão dos temas relacionados à educação ambiental...

...da criação de cursos de capacitação para formar agente de de multiplicação em comunicação e mídia...

...Integração de telecentros, rádios comunitárias, estruturas de produção nas escolas, pontos de cultura ... para produção cidadã...

São apontamentos que já existem em pequena escala no país, e que precisam realmente de maior difusão.

Com relação à mídia livre, há várias recomendações sobre a internet livre, como ao fim da criminalização das rádios comunitárias sem outorgas e anistia aos processados e condenados, além de criação de mecanismo de reparação de emissoras penalizadas. Isso me fez recordar as principais pautas discutidas, durante o Fórum Mundial de Mídia Livre, que participei em Belém, no ano passado.

Mais uma informação que considero relevante para ser verificada, com atenção, a partir de agora, é a proposta da criação de conselhos nos âmbitos federal, estaduais e municipais, de caráter paritário, para acompanhar a execução de políticas públicas, que garantam o exercício pleno do direito humano à comunicação. Entre as atribuições do grupo, estaria a regulação de conteúdo e políticas de concessões.

E outra é a proibição de políticos de exercer a função de comunicador em qualquer concessão pública de comunicação, durante exercício de mandato e em fase eleitoral...

Para completar, como jornalista (diplomada), estou atenta também se realmente vai ser garantida a regulamentação da profissão, como defendida na Confecom, já que houve a decisão por parte do Supremo, no ano passado, de não mais exigir o diploma; além da criação de 'um novo' código de ética da profissão - em que patamares...

Sucena Shkrada Resk

12/01/2010 10:07
Mudanças climáticas: Uma política nacional a ser lapidada, por Sucena Shkrada Resk

O movimento no cenário político nacional no final de 2009 registrou algumas decisões, que passaram despercebidas para a maioria da população, como a sanção da PNMC - Política Nacional sobre Mudança do Clima (Lei nº 12.187/09, de 29/12). Depois da aprovação do Fundo Nacional, o governo 'ratificou' seu discurso durante a COP 15 - 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas, em dezembro, realizada em Copenhague. Mas é preciso ter ciência que o texto resume diretrizes genericamente, que devem ser esmiuçadas no Plano Nacional sobre a Mudança do Clima, criado em 2008, a ser revisado neste semestre. Por outro lado, depende dos resultados que serão apontados no inventário das emissões de gases de efeito estufa ainda a ser divulgado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT).

Ao fazer a leitura da recente legislação, já é possível verificar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou três itens no texto (sobre a proibição de contingenciamento de recursos para o combate às mudanças climáticas, o artigo que prevê o paulatino abandono do uso de fontes energéticas que utilizem combustíveis fósseis, e a limitação dos estímulos governamentais às usinas hidrelétricas de pequeno porte).

Isso quer dizer que as adoções do governo, dentro desse raciocínio, compatibilizarão os combustíveis fósseis (vide Pré-Sal) e construção de grandes hidrelétricas com fontes de energia limpa. O que é importante a ser colocado de forma transparente à sociedade é o quanto isso compromete ou não as metas de redução de GEES e a qualidade de vida.

O documento destaca, por várias vezes, as palavras desenvolvimento sustentável, mitigação e adaptação, termos que se tornaram usuais na área ambiental. O grande desafio é tornar tudo isso factível no plano de ações. Não é possível deixarmos de associar os planos diretores e o crescimento desordenado de nossas cidades em consonância com esses propósitos. Quantas encostas, como as de Angra dos Reis e Ilha Grande estão ocupadas por esse país? Quantas casas são construídas em fundos de várzea? Quanto produzimos de lixo que assoreia nossos rios?

As mudanças no clima acontecem gradativamente. O aumento de temperatura e da intensidade pluviométrica são fatos incontestáveis. O aspecto preventivo é praticamente nulo. Só há ações mais incisivas, quando os desastres já ocorreram. Brigas de 'competência' também entre as três esferas de poder são prejudiciais neste processo de gestão.

O que mais causa apreensão é que nesse caminhar ainda há um inimigo poderoso para a edificação das políticas - a especulação. Vide o aumento do álcool nas bombas dos postos de gasolina. Quer dizer que agora o açúcar rende mais no mercado ou há outros interesses para que se reduza a produção do combustível? Enfim, é preciso refletir...

A PNMC, no entanto, destaca entre seus itens, as medidas de divulgação, educação e conscientização. Então, é importante cobrar e exercer esse direito, para que a sociedade seja pró-ativa nessa construção.

Sucena Shkrada Resk

11/01/2010 17:33
Pensata: O sentido da universalidade, por Sucena Shkrada Resk

O recesso das festas de Natal e de Ano Novo de 2009/2010 tiveram literalmente um 'efeito terapêutico' para mim, pois me possibilitou refletir sobre o que é dar o sentido de 'universalidade' a nossas vidas. Fiz uma releitura de anos passados e me dei conta de que vamos deixando os mapas de nossas histórias fragmentados em esquecimentos, mágoas e fragilidades da psiquê humana conectados a um materialismo enraízado na gênese social ocidental.

Ao olhar as prateleiras do supermercado, vi os tenders, os perus, os panettones e as bebidas, além de outros produtos da época, e vi os rótulos superando a casa dos R$ 20 e pessoas encantadas em colocar nos carrinhos as mercadorias, e diálogos como - o que falta na lista para a ceia?...Então, me recordei, que não há muito tempo atrás, também mantinha essa preocupação. Mas alguma coisa mudou - sinceramente comecei a observar esses produtos com questionamentos, que vão muito além da questão ambiental. Trocando em miúdos - por que comemos tanto nesses períodos, já que o sentido - em tese - é de renovação e purificação?

Nas ruas, pedintes com roupas surradas e catadores de sucata sob o sol, humildemente perguntam se temos um prato de comida ou água. Eu, particularmente me deparei com um jovem catador que suava muito, e me disse, quase sem voz - 'a senhora tem um pedaço de pão? eu não comi nada até agora...' Naquele momento, não tive condições de ajudá-lo, pois não tinha sequer um trocado para ir à padaria, mas eu me senti triste, pois lembrei de quantas vezes a gente desperdiça ou exagera em nossos hábitos.

Essa alusão à recuperação dos caminhos da espiritualidade é importante - independente de credos - porque estamos cansados de saber que o nosso corpo deve ser mantido com qualidade, mas nos deixamos levar por sabores, sentidos sinestéticos e nos enebriamos em sensações transitórias, que depois nos deixam, na maioria das vezes, com aquele tradicional peso sobre as pernas e na consciência, é claro. Muitas pessoas acabam com o décimo terceiro salário, se afundam em dívidas em cheque especial e em cartões de crédito, para manter esse prazer efêmero. Muitas vezes, um prazer de puro status do 'ter'. Outros colocam dinheiro nas cuecas e meias e ficam impunes...Aumentam seus salários em causa própria, onerando a sociedade...

Eu ainda me dei conta sinceramente, que família vai além do strictu sensu sanguíneo, que as convenções seculares nos estabelecem. Família é a reunião de semelhantes por afinidades, que muitas vezes, não têm os laços parentais. Com essa analogia, estamos falando de todos os seres humanos e, inclusive, animais. E me vi no meio deste desafio, de perceber que somos universais ao mesmo tempo que nos configuramos como centelhas nesse espaço infinito. Sendo assim, devemos nos dar o valor e encontrar e reencontrar essa essência, que deixamos adormecida.

Somos parte das famílias que sofreram em Angra dos Reis, em Ilha Grande, na baixada fluminense, que tiveram de sair das encostas da Serra do Mar, que foram vítimas de bombas em países em conflito, ou que estão morrendo, sob temperaturas abaixo de 50 graus. Somos parte das famílias, que se amam e dividem o pouco que têm com aqueles que não têm. É o sentido do pertencimento, do conceito fraterno.

Uma das cenas mais significativas e emocionantes, que me incentivaram a querer a cada dia me melhorar, foi a de um senhor que havia separado suas poucas roupas e alguns mantimentos para auxiliar os desabrigados e os levou com sua bicicleta ao local de entrega de donativos. Desprovido de qualquer apego, doou e se doou. Não há redundância nisso, pois ele exemplificou o que é ser universal; e quem sabe, um dia cheguemos a essa plenitude...
Sucena Shkrada Resk

22/12/2009 10:59
Especial COP15: Agora é a vez do panettone, por Sucena Shkrada Resk

A COP 15 - 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas foi encerrada, no último dia 19, sem chegar ao mérito de acordos, e as manchetes, agora, são as ruas lotadas para as compras de Natal. E, num piscar de olhos, é a vez do panettone...Não serei hipócrita de dizer que não gosto do sabor, mas a rapidez com que as páginas são viradas nas pautas midiáticas é que me assusta. Isso faz com que assuntos sérios sejam, de certa forma, banalizados. E o apelo da sociedade de consumo é a bola da vez.

Voltando à terra brasilis, depois do fiasco de Copenhague, o que temos para acompanhar em 2010, são algumas decisões legais que tiveram curso em dezembro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou, no último dia 9, a lei que cria o Fundo Nacional sobre Mudança do Clima. Essa fonte utilizará recursos do lucro da atividade petroleira para ações de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, vide o Pré-Sal, que obviamente o governo não mencionou em seu discurso na Dinamarca. Já no dia 18, a Câmara aprovou o projeto de lei do Executivo, que cria a Petro-Sal, que gerenciará os contratos de exploração e produção da Camada do Pré-Sal.

O Plano Nacional sobre a Mudança do Clima, aprovado em dezembro de 2008, deverá sofrer revisão no primeiro semestre do ano que vem. Já a Política Nacional, que ganhou texto substitutivo e novas emendas, ainda precisa sair do prelo da área legislativa.

Enfim, a vida real está aí para a gente poder se integrar, para que tudo não acabe em gélidas pautas, que ajudam a reduzir nossa consciência...

Veja mais, no Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk:
19/12 - Especial COP15 - O desacordo sela encontro
13/12 - Especial COP15 - O balanço dos antagonismos
10/12 - Especial COP15 - Lembrem bem deste nome - Tuvalu
06/12 - Copenhague vira o centro do planeta
Sucena Shkrada Resk

19/12/2009 22:11
Especial COP15: O desacordo sela encontro, por Sucena Shkrada Resk

E tudo acabou em desacordo...Hoje, foi selado o fracasso das negociações climáticas no mundo, com o encerramento da COP15 - 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Nada tem força de lei. Metas de redução de emissões de gases de efeito estufa para 2020 serão iniciativas isoladas...O que se sabe é que a temperatura média do planeta não pode ultrapassar dois graus até o fim do século, mas nos bastidores, ao fazerem uma conta aqui, acolá, sobre os dados apresentados pelos 192 países presentes no evento, esse número subirá para três graus, pelo o menos...Em resumo, pudemos observar o cenário do 'sem consenso', que conseguiu ser pior do que a falta de proatividade, que se apresenta o rumo do Procolo de Kyoto (97), que passou a valer, de fato, a partir de 2005. E quem ganha com isso?

Ao fazer matérias e notas sobre a Cúpula do Clima, principalmente, nestas duas últimas semanas, para o Planeta Sustentável, da Abril, pude acompanhar as discussões que prevaleciam no encontro e percebi o quanto há uma longa distância entre o discurso e a prática. Do dia 7 a hoje, 19 (um dia a mais do previsto para o encerramento) se desenhou a situação geopolítica do mundo em que vivemos - algo completamente dissociado do conceito de harmonia planetária.

Sabe aquela sensação de estar órfã...pois é, bateu muito forte, e ainda bate, como a muitos cidadãos por esse mundo. Agora, o que espero é que, independente dos resultados em Copenhague, os municípios, estados e o governo federal, de países, como o Brasil, honrem seus compromissos assumidos. E que, nós como cidadãos, façamos nossa parte, por meio do consumo responsável...

EUA, China, Canadá, Austrália tiveram um forte peso nesta derrocada da COP15. Não avançaram em nada nas negociações. A fala do presidente Barack Obama, no dia 18, realmente consolidou o 'balde de água fria' juntamente com o primeiro-ministro chinês Wen Jiabao. Pode-se dizer que a União Européia teve um papel aparentemente mais articulado, no entanto, sem conseguir exercer peso no desfecho. Nem pronunciamentos de Nicolas Sarcozy conseguiram reverter o quadro previamente anunciado.

Mais de 100 países pobres e em desenvolvimento saíram de lá, com certeza, mais oprimidos do que já são. Foram vozes abafadas pelo o peso dos hegemonas, tão avassalador. É difícil conseguir manifestar algo a mais do que indignação...A sensação é de que nada aconteceu, como se a COP15 fosse mais uma sigla perdida na memória, dos sem-memórias...

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13/12 - Especial COP15 - O balanço dos antagonismos
10/12 - Especial COP15 - Lembrem bem deste nome - Tuvalu
06/12 - Copenhague vira o centro do planeta
Sucena Shkrada Resk

13/12/2009 17:02
Especial COP15: O balanço dos antagonismos, por Sucena Shkrada Resk

Uma semana de COP15 - 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (www.en.cop15.dk), e podemos dizer, que estamos presenciando os bastidores de um perfeito laboratório dos antagonismos, que formam nosso planeta. Os países insulares, que estão prestes a desaparecer, reivindicam que o mundo não exceda a temperatura média a 1,5 graus. Os países desenvolvidos e em desenvolvimento desconsideram totalmente esta possibilidade. Nas entrelinhas, podemos entender que mais de 2 graus serão inevitáveis, no padrão de crescimento mundial, até 2050. A reboque, virão possíveis cenários catastróficos previstos pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

Nesse contexto da urgência de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEEs), os percentuais já antecipados pelos grandes países poluidores são realmente vergonhosos. Nações, como China, EUA, Austrália, Canadá e Índia apresentam propostas ínfimas, se confrontadas a praticamente 50% de redução com base a 1990, adoções necessárias, segundo os cientistas do IPCC. É como se passassem uma borracha no ‘atraso de posturas’, durante a implementação do Protocolo de Kyoto, ainda em vigor até 2012. Não gosto de rótulos – como ser cético ou crente – mas me questiono se haverá avanço, neste sentido?

Ouvir colocações, como a do Japão, que não irá reduzir suas emissões, se não houver um posicionamento de China e dos EUA, é ainda mais surreal. Outra nação, que está causando mal-estar em Copenhague, é o Canadá, que não está fazendo nenhum esforço em melhorar seu desempenho nas negociações, como noticiado por dias seguidos...

Por outro lado, para esquentar ainda mais as discussões, declarações do porta-voz da UE - União Européia, quanto ao bloco considerar que países emergentes devem contribuir para o Fundo, é mais um ponto que causa embate. Outro item que mexe com os ânimos em Copenhague, é que os países industrializados estão colocando mais uma exigência à mesa - que os emergentes também tenham metas obrigatórias. Em todas essas pautas, as posições do Brasil, China e Índia, entre outros países, ficam mais complexas.

O tema Fundo do Clima global, então, aparece nesse contexto, como uma loteria de números. É óbvio, que tem de ser criterioso, entretanto, este não é um assunto novo, de última hora. A questão é - os países consideram a iniciativa, como gasto ou investimento? Será que ainda é difícil entender que a segunda opção é a correta?

Nações pobres precisam de ajuda para a adaptação e mitigação. Tuvalu, Bangladesh, Myanmar,...Migrações, fomes, doenças e mortes. Esses são alguns dos reflexos das mudanças climáticas em andamento. Onde foi parar a cidadania planetária? Onde está o discurso de compartilhamento de tecnologias limpas? E por aí vai. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que será necessário o repasse de cerca de US 150 bi anualmente. Até agora, o que parece acordado, é que somente a UE se compromete com US$ 10,6 bi, entre 2010 e 2012. Até 2020, ainda está longe do consenso entre os países participantes.

A sociedade diante de todos esses paradoxos tem reagido com manifestações nas ruas, com movimentos instituídos, como o KlimaForum09 – www.klimaforum09.org/, que entregará um documento com propostas e reivindicações aos líderes da negociação. O Movimento Dia do Fóssil www.fossil-of-the-day.org também é mais um instrumento de pressão sobre as performances dos países consideradas negativas, durante o encontro. É interessante conferir o conteúdo.

Nesta última semana, que será encerrada no dia 18, 192 países (número atualizado) presentes no encontro, que correspondem a mais de 15 mil pessoas discutindo o tema, deverão entrar hipoteticamente em um consenso. Está prevista a participação de 110 líderes de nações ou Estados, o que infere um peso ainda maior nas negociações.

Há a possibilidade de saírem até dois textos, sendo que o primeiro ainda estaria vinculado ao Protocolo de Kyoto, que expira em 2012. A questão é que tudo isso não tem tempo e hora para acabar. Na sequência, deve haver as ratificações e implementações dos compromissos firmados, o que é o mais importante. O que não pode ocorrer é empurrar acordos concretos, para outras COPs, que acontecem anualmente. A próxima será no México e a seqüente está prevista para ser realizada na África.

Seja como for, o que mais me entristece, como cidadã, é saber que nós, que integramos os quase 7 bilhões de pessoas no planeta, dependemos, muitas vezes, de lideranças insensíveis e de regimes que entendem crescimento como cifras polpudas, sem enxergar as desigualdades atrás desses números; que acreditam, que uma economia saudável é sinônimo de produtos obsoletos, que levam à compra de mais produtos obsoletos, a mais lixo, mais extração de petróleo, carvão, de minerais, além de desmatamento...Que não se afligem com a existência hoje de mais de 1 bilhão de pessoas desnutridas, número que tende a crescer cada vez mais...

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10/12 - Especial COP15 - Lembrem bem deste nome - Tuvalu
06/12 - Copenhague vira o centro do planeta
Sucena Shkrada Resk

10/12/2009 07:59
Especial COP15 - Lembrem bem deste nome - Tuvalu, por Sucena Shkrada Resk

Em três dias de negociações da 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, nada foi mais representativo para mim, do que a manifestação do pequeno estado insular do Pacífico - Tuvalu. O seu representante praticamente implorou aos países em desenvolvimento, que as metas a serem implementadas, tenham como objetivo não ultrapassar 1,5 graus na temperatura média do planeta. Não é preciso dizer, que um sonoro não ressoou no encontro. Países, como Índia, China e África do Sul não aceitaram a reivindicação, que na verdade, já havia sido feita na COP14, mas só agora, havia sido colocada para a apreciação das partes.

Acredito, que nem os professores de Geografia sabem onde fica Tuvalu. E é importante marcar bem esse nome, porque literalmente o arquipélago está desaparecendo com o aumento das águas no Pacífico. É um exemplo das mudanças climáticas em ação, entre outras centenas de situações semelhantes no mundo.

Será que é tão difícil compreender que o processo dos refugiados climáticos está aí, bem à nossa frente? A situação é tão crítica, que este arquipélago, a poucos metros acima do nível do mar, onde havia 11 mil pessoas, está sumindo e sofrendo o exôdo de milhares de pessoas. Desde 2002, há um acordo com a Nova Zelândia, para que receba anualmente 75 pessoas de lá, segundo o artigo Sustentabilidade do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, de pós-graduação de Ana Cristina Casa, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) - 2007.

Para dar sustentação à prioridade dos países em prol da adaptação - como ilustra a situação de Tuvalu - durante esses dias, também foram lançados dois estudos importantes. Um deles é a 5ª edição do Global Climate Risk Índex 2010, da organização não-governamental(ONG) Germanwatch - http://www.germanwatch.org/klima/cri2010.pdf. Entre os dados mais impactantes, revela que houve cerca de 600 mil mortes no mundo, entre 1990 e 2008, em decorrência de eventos climáticos extremos. Os países com maior vulnerabilidade, nesse histórico, são Bangladesh, Myanmar e Honduras.

O outro é o estudo Migração, Desenvolvimento e Mudança Climática - Acessando a Evidência, da OIM – Organização Internacional para as Migrações. O levantamento chega à constatação da possibilidade de que 25 milhões a 1 bilhão de pessoas podem ser expulsas das terras onde vivem nas próximas quatro décadas; algo que já ocorre, como o exemplo de Tuvalu... http://publications.iom.int/bookstore/free/migration_and_environment.pdf.

Sucena Shkrada Resk

06/12/2009 21:00
Copenhague vira o centro do planeta, por Sucena Shkrada Resk

A capital da Dinamarca – Copenhague – a partir de amanhã (7) até o dia 18, se transforma no centro do mundo, com a realização da 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15). O encontro deverá reunir representantes de 191 países, na busca de uma negociação para construir um Protocolo Pós-Kyoto. Para sair algo concreto, é preciso haver a aprovação consensual dos participantes. É aí que está o desafio de países desenvolvidos e em desenvolvimento buscarem o caminho do meio para a redução das emissões dos gases de efeito estufa (GEEs), financiamentos para tecnologias limpas e, acima de tudo, estruturar ações concretas de mitigação (redução de danos) e adaptação, além da introdução da Redução de Emissões para o Desmatamento e Degradação (REDD) .

Nem quando ocorreu a Rio 92 – que é considerado o maior evento ambiental mundial até hoje -, os holofotes da mídia foram tão intensos. A mobilização da sociedade também é considerável, o que revela hipoteticamente, que há esperança. Numa análise superficial, aos poucos, há o empoderamento por parte dos cidadãos. Isso pode ser um importante instrumento de pressão sobre os governantes. Agora, é acompanhar com atenção todos os passos durante e após Copenhague. Não é possível ficarmos pró-ativos somente no ‘frenesi’ do evento.

De nada adiantará a presença esperada de mais de 65 chefes-de-estado, de 1,5 mil jornalistas, de uma comitiva brasileira, por exemplo, com mais de 600 pessoas – algo inédito – se não houver ações de cunho planetário.

Já é sabido que os principais poluidores mundiais – China e EUA – são peças estratégicas nesse quebra-cabeça. O presidente Barack Obama enfrenta resistência poderosa do Senado norte-americano, mas divulgou que o país poderia diminuir em 17% as emissões em 2020, com relação a 2005. Entretanto, é importante lembrar que vários estados norte-americanos já estão tomando atitudes quanto à redução, independente da decisão federal.

Já os chineses anunciaram 40%, com um desafio considerável que está baseado em sua matriz energética no carvão. A União Européia fala em 20%. O Brasil, que se encontra na quarta colocação (mas por causa do desmatamento), mencionou também quase 40%, estipulando uma meta de 80% de redução do desmatamento. A Índia chegou a divulgar 25%. Essa ciranda de percentuais ainda deve ser estudada com mais cuidado, pois não pode ser entendida ao pé da letra, por nós, que somos leigos.

O certo é que todos os posicionamentos têm como meta atenuar a possibilidade de a temperatura média do planeta aumentar acima de 2 graus, segundo projeções do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

A grande questão é – isso será suficiente, se de fato for praticado? Muitos especialistas consideram esses anúncios aquém do necessário, visto que poucos países (desenvolvidos) cumpriram a meta de redução na faixa de 5% com relação aos níveis de 90.

Mais um item que não pode ser menosprezado à mesa de negociação é a questão da adaptação, pois as mudanças climáticas já estão acontecendo, e o que está sendo feito a respeito? No Brasil, temos exemplos clássicos, como Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Os países estão se preparando para catástrofes como tsunamis, furacões etc? Quem está olhando, de fato, para os países africanos e mais pobres da América Latina e da Ásia? Se nem quando se trata da fome – como a recente conferência da Organização para a Agricultura e Alimentação das Nações Unidas (FAO), há empenho, o que dirá das mudanças climáticas, que infere a mesma problemática, com a projeção dos refugiados climáticos.

Enfim, é preciso, acima de tudo, comprometimento. E no caso do Brasil, mais ainda, já que o ano que vem é um período eleitoral, em que geralmente há a dança de cadeiras e a desaceleração de implementações de projetos. Por isso, há necessidade de um acompanhamento contínuo sobre a Política Nacional sobre a Mudança do Clima, que tramita no Congresso (substitutivo), e na aplicação do Fundo, aprovado recentemente para sanção, que será a sustentação financeira das ações, além da revisão do Plano Nacional sobre a Mudança do Clima (dez/2008), que deverá ocorrer no primeiro semestre do ano que vem.

E mais do que o foco na Amazônia, é preciso lembrar que há o Cerrado, tão comprometido, e que deve estar calculado no inventário de emissão de gases de efeito estufa brasileiro, que só será anunciado também, no ano que vem, pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Para fechar o ciclo, está o investimento em tecnologias limpas e a mudança do padrão de consumo capitalista, o que envolve a educação desde a infância. Metaforicamente, podemos dizer que também nos encontramos na infância quanto ao amadurecimento em relação a essa temática, mas precisamos evoluir e crescer holisticamente.

Sucena Shkrada Resk

06/12/2009 19:11
20 anos de reconstrução, por Sucena Shkrada Resk

Duas décadas marcam a queda do Muro de Berlim, na Alemanha, que simbolicamente representou o fim da Guerra Fria (EUA x ex-URSS). O dia 9 de novembro de 1989 ganhou as manchetes dos noticiários mundiais, como a constatação da crise do sistema socialista no leste Europeu. O processo de reunificação das duas Alemanhas, que prossegue até hoje, desenhou um novo cenário da geopolítica mundial e culminou no fim da Guerra Fria. No lugar do concreto, que dividiu duas ideologias, hoje resta uma linha no asfalto, que registra essa passagem. Próximo ao Portão de Brandemburgo – um dos ícones arquitetônicos alemães - artistas fazem a leitura sobre esse período histórico mundial em um muro estilizado para as comemorações da reunificação.

“A modernização acontece aos poucos. É muito difícil unir as diferenças culturais nesses 20 anos. Alguns alemães estão nostálgicos, perdidos no universo frio do Capitalismo. Outros dizem que o ‘muro na cabeça’ ainda existe”, diz Wolfgang Bader, diretor de São Paulo e Regional para a América do Sul do Goethe-Institut.

Para o historiador Eric Hobsbawm, serão necessárias diversas décadas antes de que as sociedades pós-comunistas encontrem uma estabilidade no seu “modus vivendi” na nova era. Segundo ele, algumas consequências dessa desagregação social, da corrupção e da criminalidade institucionalizadas poderiam exigir ainda muito mais tempo para serem combatidas (LA REPUBLICA, 2009). O autor da Era dos Extremos, que mapeia o mundo entre 1914 e o fim da URSS, em 1991, analisa que a atual crise econômica mundial é o fim de mais um ciclo, só que dessa vez, do Capitalismo.

O professor de História Contemporânea da USP, Osvaldo Coggiola, considera que a Alemanha caminhou para o Capitalismo, apesar do ônus econômico que desferiu internamente na ex-Alemanha Oriental. “Hoje muitos alemães conhecem o desemprego e os preços altos nas prateleiras. Antigamente não havia democracia, mas hoje há muitas pessoas que não têm o que comer”, diz. A região também continua menos moderna com relação à ocidental.

O mérito da instituição da democracia, nesse marco histórico, não pode ser desprezado, na opinião do professor de História Contemporânea da USP. “No antigo regime, havia 500 mil espiões da República Democrática Alemã (RDA). A delação era instituída como forma de governo. O fim da divisão, nesse ponto, foi visto com grande alívio pelas as duas Alemanhas”, explica.

Recentemente foi divulgado, que cerca de 17 mil funcionários públicos alemães pertenceu à antiga política secreta da Alemanha Oriental – a Stasi (Staatsicherheit), que significa segurança do Estado. Apesar de o número ser objeto de controvérsias já causou um mal-estar, por haver informações de que muitos hoje ocupam quadros dentro da própria polícia.
De acordo com notícias publicadas, em julho deste ano, no jornal alemão Der Spiegel, a Stasi, no auge de suas ações nos anos 80, teria um contingente de aproximadamente 91 mil pessoas. Pesquisadores afirmam que provavelmente mais 2 milhões de civis espionavam desde a família a colegas. Tudo isso gerava registros – arquivos da repressão – que podiam interferir em direitos básicos dos cidadãos, como educação e empregabilidade. Os arquivos desse período começaram a ser abertos a partir de 1991. São mais de 140 km de papel, 1,3 milhões de imagens, cerca de 5 mil filmes e vídeos, além de 164 mil fitas cassetes e 20 mil disquetes e fitas de áudio.

Segundo Dina Lida Kinoshita, do conselho da Cátedra UNESCO de Educação para a Paz, Direitos Humanos, Democracia e Tolerância, no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP), incontestavelmente as duas Alemanhas significaram as fronteiras de dois mundos. “Na Alemanha Oriental, era como se estivessem presas em campos de concentração. A reunificação simboliza que não existe mais a espada de uma guerra nuclear, mas por outro lado, não houve grande avanço social nesses 20 anos”, considera Dina, que era dirigente estadual do Partido Comunista Brasileiro, à época.

Mikhail Gorbachev em 1987 havia iniciado a Perestroika (reconstrução em russo), que abria o regime socialista a uma reforma econômica e a Glasnost (política), que tinha como um dos princípios desacelerar o foco armamentista da Guerra Fria. O intuito, entretanto, não era acabar com o modelo do regime.

Mas essa situação foi deflagrada em 1991, quando em 8 de dezembro, os presidentes da Ucrânia, Rússia e Bielorrússia deram início ao processo que originou a Comunidade de Estados Independentes (CEI), no mesmo mês, que teve apoio das demais repúblicas soviéticas, culminando em 25 de dezembro daquele ano, na renúncia do presidente soviético.

Raízes na Segunda Guerra
Para se compreender, a atmosfera que deflagrou a construção do Muro a partir de 1961, é preciso retroceder até o período pós Segunda Guerra Mundial, quando a capital alemã – Berlim – foi dividida em quatro áreas subordinadas respectivamente aos EUA, Grã-Bretanha, França e ex-URSS. O desgaste provocado anteriormente pelo Nazismo, liderado por Adolf Hitler, ainda marcava a trajetória do país.

Esse cenário começou a sofrer modificações em 1949, ano em que a cidade sofreu uma divisão administrativa em que se configurava as disputas da Guerra Fria, nas quais os EUA e a ex-URSS disputariam a hegemonia mundial até 1989. O lado capitalista ocidental passou a representar a República Federal da Alemanha. O oriental, por sua vez, ficou sob a gestão do sistema socialista liderado pelos soviéticos, denominado de República Democrática da Alemanha (RDA).

Ao se analisar o contexto mundial, o mundo fica também dividido em blocos, que se aliam militarmente aos norte-americanos, por meio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e aos soviéticos, com a instituição do Pacto de Varsóvia. Essa divisão político-ideológica foi identificada mundialmente como a fase da ‘Cortina de Ferro’ e da corrida nuclear e espacial.

No ano de 1961, quando se configurava o auge da Guerra Fria, começou a ser construído pelo governo da Alemanha Oriental, o muro de Berlim, como representação da cisão entre os dois regimes políticos, que totalizou cerca de 155 km de extensão. Instalou-se no país, à época, uma legislação que cerceava o direito de passagem dos cidadãos ao lado Ocidental. Quem ousasse ultrapassar, corria risco de morte, o que resultou em várias baixas com o passar dos anos. O reforço da vigilância, quase três décadas depois, era estruturado por meio de soldados, cerca de 300 torres de vigilância, além de cercas elétricas e valas com campo minado. Um aparato que intimidava e demonstrava o radicalismo que marcava o período.


Dias de comoção

A atmosfera nos países do leste europeu também antecipava mudanças de paradigmas. O partido comunista húngaro, a partir de maio de 89, deu início ao processo, ao tomar a decisão de colocar abaixo 246 km de cerca entre o país e a Áustria, o que foi apoiado também por este país. Em outubro, o Partido Comunista Húngaro se desarticulava, sendo o primeiro do bloco da ex-URSS a iniciar o desmonte. Cidadãos da Alemanha Oriental às centenas começavam a transpor as fronteiras.
A professora de Literatura alemã e História, a alemã Claudia Blumtritt, 51 anos, da cidade de Chemnitz, na ex-Alemanha Oriental, se recorda como se fosse hoje, as semanas que antecederam à queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989. “Nos meses de setembro e outubro, além das manifestações que aconteciam na capital, havia uma mobilização que crescia dia a dia, principalmente às segundas-feiras, na cidade de Leipzig”, conta. Uma massa de cidadãos em passeatas pacíficas se dirigia à Igreja de São Nicolau, para pedir o fim da divisão. A manifestação concentrava a população, que reivindicava ‘liberdade’ no direito de ir e vir.

As cenas que se presenciavam com a queda do Muro de Berlim eram de comoção. Todas as pessoas se abraçavam. Os alemães receberam uma quantia para poder ‘gastar’ no antigo lado ocidental. “Eu comprei uma bota de couro”, fala Claudia. Segundo ela, as dificuldades de consumo no lado oriental, devido à filosofia do regime, era uma marca insuperável.

Processo de reunificação
Em 12 de setembro de 1990, com a assinatura do tratado Dois-mais-Quatro, a Alemanha unificada consegue obter a soberania plena, após a aprovação dos EUA, França, Grã-Bretanha e URSS. E o primeiro chanceler federal a assumir o poder foi Heltmut Kohl (CDU) e em 2005, foi a vez de uma mulher ocupa o posto – a democrata-cristã Ângela Merkel, que foi reeleita em 2009, e agora parte para a coalizão com os liberais.

No artigo monográfico de pós-graduação - O Pensamento Ideológico da Esquerda Brasileira Pós-Queda do Muro de Berlim -, a historiadora Márcia Rossetto Nunhofer, afirma que a Alemanha Ocidental exerceu grande influência no desfecho dos fatos. Um dos principais articuladores, em sua análise, foi Kohl, nas eleições da RDA e na campanha em prol da unificação.

“...Ocorre que as forças ocidentais e soviéticas, que impulsionavam a ruína destes regimes, afastavam os dirigentes comunistas do poder com a aprovação de Gorbachev, encorajando as oposições dos demais regimes socialistas do Leste europeu e seus aliados externos a passarem à ofensiva. Então a pressão soviética e ocidental voltou-se aos países que ainda resistiam às reformas, dentre estes, a Alemanha Oriental” , diz a historiadora.

Com isso, segundo Márcia Nunhofer, é possível fazer a leitura de que com a queda do Muro de Berlim, a esquerda brasileira também se fragilizou quanto à prática social e revolucionária, desarticulando suas bases. “...Mesmo que o desenvolvimento dos países socialistas, em termos globais, tenha sido significativo por algum tempo, nenhuma alternativa ou programa socialista mais articulado foi desenvolvido, o que tornou o modelo extremamente vulnerável e marginalizado, sem, no nosso caso, haver a projeção de um programa com especificidades brasileiras...”, afirma. (2005)

O processo de reunificação continua até hoje. Derrubar as barreiras construídas por décadas ainda é um desafio a superar. “Meu primeiro telefone só consegui comprar em 1997. O salário de professora era baixo. Vivi por cinco anos em um apto localizado em um porão, em que no verão, havia muitos mosquitos, e no inverno ficava muito frio. Havia dificuldade de encontrar novas moradias, porque não havia construção de prédios novos”, explica a professora de História, a alemã Claudia Blumtritt.

Após a queda do muro, a professora teve oportunidade de lecionar em outras escolas e veio para o Brasil em 2000 para ser docente em um colégio particular, onde deve permanecer até o fim de 2009, quando retornará à Alemanha.

A revisão do fim da História
O término da polarização entre os EUA e URSS, que estava implícito, na queda do muro de Berlim, resultou em uma terminologia, que causou polêmica nos meios acadêmicos norte-americanos e ocidentais. O filósofo Francis Fukuyama escreveu um artigo, em que afirmava que ocorria "o fim da História ", com a vitória capitalista e o encerramento dos conflitos armados mundiais e de lutas ideológicas. A realidade, entretanto, demonstrou que o mundo ainda está longe dessa paz.

O próprio Fukuyama revê essa posição, na obra Construção de Estados: governo e organização no século XXI, de 2004. O norte-americano analisa o contexto mundial, após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, que atingiram os EUA e abalaram a comunidade internacional. O filósofo defende a ideia de que o fortalecimento do que intitula de Estados falidos, por várias formas de construção de nações, é uma tarefa que se tornou vital para a segurança internacional.

Cinematografia faz imersão sobre a bipolaridade

A queda do Muro de Berlim resultou em uma produção cinematográfica diversificada sobre as fases antes, durante e pós a bipolaridade dos blocos ocidental e oriental. Entre os filmes mais exibidos na última década, está o premiado longa-metragem, de 2003, o Good Bye, Lenin!, dirigido por Wolfganger Becker. O roteiro retrata a queda do Muro e o impasse de um jovem a contar para sua mãe debilitada, da antiga Alemanha Oriental, que o regime mudou.

Em A vida dos Outros, de 2006, é retratado a atmosfera que presente com a Stasi, quando um ministro da Alemanha Oriental ordena que o maior dramaturgo do país seja vigiado pelo serviço secreto, sem que haja alguma acusação, de fato, contra o intelectual. A direção é do alemão Florian Henckel von Donnersmarck.


Referências:

FUKUYAMA, Francis. Construção de Estados: governo e organização no século XXI. Rio de Janeiro: Rocco, 2004

FUKUYAMA, . Artigo O fim da História. Revista National Interest. 1989. Livro O Fim da História e o Último Homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

HOBSBAWM, Eric. Uma nova igualdade depois da crise. Trecho de conferência publicada no jornal La Repubblica, 09/10/2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto/in IHU on Line.

NUNHOFER, Márcia Rossetto. Monografia O Pensamento Ideológico da Esquerda Brasileira Pós-Queda do Muro de Berlim, apresentado na Faculdade Porto-Alegrense (FAPA). 2005. Disponível em: http://www4.fapa.com.br/monographia/artigos/2edicao/artigo06mg2.pdf. Acesso em: 14/10/09.

Arquivos da Stasi revelam a “realidade suja da Alemanha Oriental, por Der Spiegel, com tradução de Deborah Weinberg, no site UOL. 17/07/09. Disponível em: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2009/07/11/ult2682u1233.jhtm. Acesso em: 14/10/09.


Sucena Shkrada Resk

02/12/2009 08:30
As empresas no corpus de uma cidade sustentável, por Sucena Shkrada Resk

O Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social lançou no dia 1º, a publicação Cidades sustentáveis: como as empresas podem contribuir, que está disponível gratuitamente por meio de download, no link: http://www1.ethos.org.br/EthosWeb/arquivo/0-A-a9931-2585%20Cidades%20Sustent%c3%a1veis%20Ethos%20-%20FINALIZADO.pdf. Participei da produção do conteúdo, ao integrar a equipe de pesquisa e reportagem da obra com Laura Folgueira e Lélio Vieira Júnior, à convite das redatoras Fabiana Pereira e Solange Barreira, da P&B Comunicação, sob coordenação editorial de Benjamim Gonçalves. O que mais foi construtivo no trabalho, no meu ponto de vista, foi poder levantar o histórico de ações dos Movimentos Sociais, que se instalam no país, reunindo convergências entre a sociedade civil e o empresariado em causas públicas, além de cases em que as organizações internalizam iniciativas, que extrapolam barreiras corporativas.

O material reúne as trajetórias dos Movimentos Nossa São Paulo, Nossa Ilha Mais Bela, Nossa Teresópolis, Rio Como Vamos, Nossa BH, Nossa Santos-Sempre Ética, Movimento Nossa São Luís e Observatório do Recife, que constituem a Rede Social Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis. A proposta é que essas iniciativas cresçam, de forma duradoura, por todo o país. Os exemplos das empresas citadas mostram também como é possível a parceria público-privada, que parte do princípio de que só há mudanças, quando mexemos nas bases dos problemas socioeconômicos e ambientais. Isso exige alterações na cultura organizacional.

A execução do projeto Bogotá Cómo Vamos, a partir de 1997, na capital da Colômbia, é considerado um importante incentivador desse processo brasileiro, que em resumo é uma resposta contra desmandos, inércias, corrupções e ausência do que é mais crucial - exercitar a cidadania, de forma integral e articulada, prática em que todos lutam pelos mesmos objetivos, pois querem qualidade de vida.


Sucena Shkrada Resk

29/11/2009 13:00
O caminho da economia verde, por Sucena Shkrada Resk

A chamada Economia Verde começa a ganhar projeções mundiais. A representante do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Isabel Martínez, enfatiza que essa é uma das prioridades do Acordo Global para 2010. Atualmente há 2,3 milhões de trabalhadores empregados em energias renováveis, e em 2030, podem ser 20 milhões de postos de trabalho, de acordo com a estimativa da organização.

Durante o 7º Encontro Iberoamericano de Desenvolvimento Sustentável, em Foz do Iguaçu, PR, na semana passada, a especialista afirmou que são necessárias ações efetivas, neste sentido, fazendo um paralelo com os números decorrentes da degradação ambiental. “Só no ano de 2009, houve perdas econômicas mundiais decorrentes da degradação ambiental, na ordem de trilhões de dólares. Nossa demanda sobre o planeta tem duplicado nos últimos 40 anos, e com isso, aumenta o número de refugiados ambientais no planeta”, alertou.

O exemplo do empreendedor orgânico, Arthur Oscar Passos, 74, que conheci em um estande do 6º Encontro Cultivando Água Boa, que incorporou outros eventos paralelos ao EIMA-7, ilustra uma das experiências possíves de economia verde, além de todo o leque de utilização da biomassa, que está dando certo. Como ele próprio se definiu, se considera hoje, o ‘garoto-propaganda’ de sua empresa familiar, que conta com mais seis pessoas, entre esposa e filhos. O advogado paranaense se divide entre o escritório de advocacia e a propriedade rural, que mantém há 15 anos, em Campina Grande do Sul, há 35 km de Curitiba.

“Nós começamos como caquicultores e nos tornamos produtores orgânicos a agregar valor a novos cultivos, como uva, amora preta. O próximo passo foi produzir geléias e pastas dessas variedades, porque há 4 anos a produção do caqui foi reduzida, por causa de secas, geadas e, depois, devido a fungos”, contou.

Isso demonstra que as “mudanças climáticas” acabaram dando novos rumos ao empreendimento, ou seja, exigiram adaptação. A família, com isso, montou uma pequena fábrica, que revende para hipermercados e recentemente para hotéis. “A atividade gera renda para a minha família, mas acima disso, está o prazer em fazer um produto diferenciado, porque trabalhamos desde o cultivo à produção”, disse.

Passos estava em um espaço, onde outros empreendedores na área de ervas medicinais e adereços confeccionados com sementes exibiam seus produtos para o público do evento.

*Viajei a Foz do Iguaçu, para participar do EIMA7, representando o Núcleo Ciência e Vida, da Editora Escala, a convite das Fundações CONAMA e MAPFRE, para mediar o painel Cooperação para o Desenvolvimento, realizado no dia 20. O evento integrou o 6º Encontro Cultivando Água Boa, sob promoção da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná e da Itaipu Binacional, entre outros parceiros.
Sucena Shkrada Resk

27/11/2009 09:01
Sustentabilidade com pé no chão, por Sucena Shkrada Resk

Ter o pé no chão. Expressão curta e objetiva, que cabe na medida certa, quando se trata do tema sustentabilidade, visto que, a realidade sempre nos chama a observar e compartilhar histórias de vida, a fim do aprimoramento. Faço esse comentário, para narrar a experiência, que tive, durante o encerramento do 6º Encontro Cultivando Água Boa, em Foz do Iguaçu, PR, no último dia 20, ao conhecer a catadora e recicladora de sucata paranaense, Lindomir, 46.

“Dona” Lindomir me contou que há oito anos é catadora de sucata. Essa é a sua fonte de sustento para a família composta por três filhos, com as idades de 9, 10 e 13 anos. Quando perguntei a ela, quanto é o seu rendimento mensal, me respondeu – “Ganho R$ 210,00, trabalhando três horas por dia, para poder ter tempo de cuidar (sozinha) dos filhos”. Diante da afirmação, fiz mais uma pergunta – Mas a senhora não tem outra fonte de renda fixa? – Não.

Com o grau de escolaridade, que não ultrapassou a primeira série do ensino fundamental, essa senhora citou as dificuldades de conseguir outras alternativas de trabalho, e ainda afirmou que a ‘crise econômica’ diminuiu o rendimento dela e de outros participantes da cooperativa a que pertence. “Antes da crise, ganhava mais ou menos, R$ 320”. Numa rápida pesquisa, verifiquei que a cesta básica em Curitiba é de R$ 216,59, e obviamente, refleti que a situação dessa trabalhadora é semelhante a de muitos brasileiros em todos os estados brasileiros.

O mais surpreendente, no entanto, é que toda a sua fala não era calcada em lamentação. De certa forma, os olhos brilhavam, porque estava junto com centenas de outros catadores no evento, o que confere a importância e aconchego do coletivo, em busca de mais conhecimento e oportunidades, e obviamente, solidariedade, no dia a dia. “A gente não pode parar de lutar. Aprendi, nesses dias, a fazer vassoura com PET, flor e telha. Meu plano é ganhar mais dinheiro com a reciclagem”, disse. Ainda expressava esperança de aumentar sua renda de R$ 210, com a possibilidade de um emprego temporário na área de jardinagem.

Falar com essa senhora me possibilitou compreender, que o investimento em infra-estrutura básica e em educação é fundamental em qualquer modelo de desenvolvimento. Dona Lindomir ganha por mês praticamente uma diária do hotel onde o encontro estava acontecendo e corresponde ao valor de roupas, que estavam expostas nas vitrines das boutiques próximas. Tantos paradoxos de padrões de vida e de consumo.

Só que os R$ 210 para ela representam assegurar um teto, alimento, roupas e um futuro aos seus filhos. Onde quero chegar? Em nosso padrão de consumo – quanto à alimentação, água, energia, geração de resíduos, veículos, ... Confesso que caí literalmente na realidade.

Durante todos os dias, as discussões que ouvi e pude mediar foram muito saudáveis, mas como o primeiro-ministro do Butão falou, há um sentido de urgência. “Dona” Lindomir não é um gráfico ou somente um número da estatística da pobreza. Ela é uma pessoa com sentimento, expectativas e potenciais represados, que deseja que seus filhos tenham melhores oportunidades nesse mundo – as futuras gerações, que são a base do conceito de sustentabilidade.

*Viajei a Foz do Iguaçu, para participar do EIMA7, representando o Núcleo Ciência e Vida, da Editora Escala, a convite das Fundações CONAMA e MAPFRE, para mediar o painel Cooperação para o Desenvolvimento, realizado no dia 20. O evento integrou o 6º Encontro Cultivando Água Boa, sob promoção da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná e da Itaipu Binacional, entre outros parceiros.

Sucena Shkrada Resk

23/11/2009 23:21
A felicidade construída pelo Butão, por Sucena Shkrada Resk

Ouvir as palavras do primeiro-ministro butanês, Lyongpo Jigme Thinley, no último dia 20, durante o encerramento do 6º Encontro Cultivando Água Boa, em Foz do Iguaçu, PR, me incentivou a seguir cada vez mais ideais planetários. Com a humildade, de quem quer compartilhar, e não, segregar, ele começou sua fala, com as seguintes palavras - "Somos felizes e tudo dará certo...". Ele transmitiu em seu discurso, quase 40 anos do ideário de Felicidade Interna Bruta (FIB), lançado na pequena nação asiática, nos anos 70, pelo rei Jigme Singye Wangchuck. Proposta amadurecida pelo país, a partir dos anos 80, que já é disseminada desde o ano passado, no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU).

O cálculo do FIB reúne quesitos como, bem-estar psicológico, saúde, expectativa de vida e longevidade, equilíbrio ambiental, padrão de vida econômica, educação de qualidade, acesso à cultura, bons critérios de governança e gerenciamento equilibrado.

O diplomata veio ao país, acompanhado por sua comitiva, para narrar a experiência de estabelecer um contraponto aos parâmetros do Produto Interno Bruto (PIB), na 5ª Conferência Internacional sobre FIB, que foi encerrada hoje. Uma proposta que ultrapassa as fronteiras e é uma luta diária, no Butão, que tenta reverter décadas anteriores de isolamento. Ao mesmo tempo, Thinley demonstrou a clareza do sentido de urgência da mudança dos padrões de desenvolvimento mundiais.

"Os desafios são sérios. O mundo está em perigo. O problema da escassez da água é presente também na Ásia, oriundo do Himalaia. Mais de 1,2 bi de pessoas dependem dessas águas. Se juntarmos essa população com os indianos e outros povos, representam 50% da população terrestre", diz.

Thinley explica, que hoje, o Himalaia é considerado o terceiro pólo, com 33 mil km2 de geleiras. "Estão derretendo a uma velocidade acelerada. Caso a escalada do Aquecimento Global continue dessa forma, em 25 anos, tudo estará derretido. A mensagem ao ser humano é que saber conviver com a natureza é prioridade", fala o primeiro ministro butanês.

*Viajei a Foz do Iguaçu, para participar do EIMA7, representando o Núcleo Ciência e Vida, da Editora Escala, a convite das Fundações CONAMA e MAPFRE, para mediar o painel Cooperação para o Desenvolvimento, realizado no dia 20. O evento integrou o 6º Encontro Cultivando Água Boa, sob promoção da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná e da Itaipu Binacional, entre outros parceiros.
Sucena Shkrada Resk

22/11/2009 19:16
EIMA7:Carta pela sustentabilidade e coop técnica marcam encerramento, por Sucena S. Resk

O encerramento do 7º Encontro Iberoamericano de Desenvolvimento Sustentável (EIMA7), em Foz do Iguaçu, PR, no último dia 20, ocorreu durante a solenidade final do 6º Encontro Cultivando Água Boa. O evento foi marcado pela a divulgação de uma carta aberta dos organizadores do EIMA-7, lida pelo presidente da Fundação CONAMA, Gonzalo Echagüe Méndez de Vigo. O documento, em linhas gerais, reinvindica ações cooperativas efetivas de governos, empresariado e sociedade na busca dos princípios da combinação de ações financeiramente viáveis, socialmente justas e ambientalmente responsáveis, com a preocupação com as futuras gerações. Valores disseminados principalmente com o relatório Nosso Futuro Comum, da Comissão Brundtland (1987), e pelo economista John Elkington (1994).

No dia 20, ainda foi celebrado um convênio de cooperação técnica, entre a Fundação CONAMA, da Espanha, e o Parque Tecnológico de Itaipu (PTI).

Segundo o diretor-superintendente do PTI, Juan Carlos Sotuyo, essa parceria será importante para integrar as duas organizações em projetos sustentáveis. “Isso significa um intercâmbio técnico-científico e entre empresas clientes e fornecedores. O objetivo é trocar experiências principalmente sobre energias renováveis, com foco na biomassa, além de outras fontes, como a solar e da ‘chamada quinta onda’, proveniente das algas”, diz. Com isso, o executivo acredita que as ações poderão ainda transformar lixões em locais produtivos.

O EIMA-7 é uma iniciativa da Fundação CONAMA, em parceria com a Fundação MAPFRE, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Paraná, a Itaipu Binacional, entre outros parceiros, com o apoio do Ministério do Meio Ambiente e do Governo Federal brasileiro.

Sucena Shkrada Resk

22/11/2009 15:50
EIMA7: Saberes e pró-atividade regem o desenvolvimento sustentável, por Sucena Shkrada Resk

A oportunidade de mediar o debate Cooperação para o Desenvolvimento, no último dia 20, que integrou o último dia do 7º Encontro Iberoamericano de Desenvolvimento Sustentável (EIMA-7), realizado em Foz do Iguaçu, PR, me proporcionou a possibilidade de refletir mais sobre a necessidade da quebra de todos os tipos de fronteiras nos processos de desenvolvimento. Um amadurecimento que todos nós, como cidadãos, precisamos vislumbrar, como atores nesse mundo. Não basta pensarmos, precisamos agir. Com essa experiência, que podemos chamar de ecossistêmica, é que o mundo pode ser transformado. Somente palavras bonitas não bastam. A retórica chama a atenção, mas a realidade clama por atitudes cooperativas. Uma cooperação numa América Latina, que se une à África, à Europa, que transpõe as fronteiras territoriais. Essa fusão resgata o sentido da cidadania planetária.

Durante o evento, representei o Núcleo Ciência e Vida da Editora Escala, a convite das Fundações CONAMA e MAPFRE, que integraram a organização do evento com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná e a Itaipu Binacional, entre outros parceiros. Um aspecto significativo para o país, já que pela primeira vez, uma edição foi realizada no Brasil.

O EIMA7 integrou o 6º Encontro Cultivando Água Boa, que desenvolveu outras pautas de extrema importância, como o Encontro Anual do Centro de Saberes e Cuidados Socioambientais da Bacia do Prata, a V Conferência Internacional Felicidade Interna Bruta e o 1º Encontro de Organismo de Bacias da América Latina e Caribe. Nessa convergência de propósitos socioambientais, participaram mais de cinco mil pessoas, desde catadores de sucata a executivos, o que conferiu um diálogo, que tentou quebrar as barreiras socioeconômicas vigentes. Algo marcante, que não pode ser mascarado, já que é a realidade do dia a dia, dentro e além das paredes dos auditórios.

Durante o debate que mediei – Cooperação para o Desenvolvimento, o que mais me chamou a atenção, nas falas dos convidados, é que as pautas mais prementes nos países em desenvolvimento continuam fundamentalmente calcadas na infra-estrutura. Séculos de colonização, pós-colonização, que refletem que os problemas mais básicos são uma marca difícil de apagar. Nesse aspecto, todos os stakeholders (partes interessadas) têm o papel como agentes e, não só, como vítimas de um sistema opressor.

A ajuda mútua, que não pode ser confundida com assistencialismo, infere a necessidade de programas efetivos de saneamento básico, transferência de tecnologia, comércio justo, igualdade de gênero, respeito aos saberes tradicionais nesse processo de crescimento, diagnósticos e imersões em cada realidade dos países envolvidos, sem cometer o erro de trazer modelos prontos, como se bastasse esse tipo de posicionamento, para a solução dos problemas.

Os debatedores expuseram iniciativas de cooperação em andamento e ainda destacaram a importância de não se dissociar meio ambiente de desenvolvimento, visto que, um dos debates mais importantes mundiais está para acontecer, em dezembro, na 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15), em Copenhague, na Dinamarca. E que acima de tudo, que o antigo e o novo não são conflitantes, mas complementares no caminho do desenvolvimento.

A discussão sobre esses temas foi feita pelos seguintes convidados:
- Agustín Espinosa, representante da Secretaria Geral Iberoamericana no Brasil, entidade que apóia a Conferência Iberoamericana e a Cúpula de Chefes de Estado e de Governo integrada por 22 países distribuídos na América Latina e na Península Ibérica;
- Ana Leiva, diretora da Fundação Biodiversidade e ex-secretária de Estado de Cooperação Territorial do Ministério de Administração Pública, da comunidade autônoma de Rioja;
- Carola Reintjes, presidenta européia da Organização Mundial de Comércio Justo, que reúne cerca de 400 organizações de 76 países; também coordenadora para a Estratégia Institucional e Política de Alianças da organização Comércio para o Desenvolvimento (COPADE) e delegada do conselho do Fórum Social Mundial;
- José Maria de Juan Alonso, vice-presidente da entidade Aliança Européia para o Turismo Responsável e Hospitabilidade, com sede em Bruxelas, que reúne 30 instituições, de 7 países; também diretor da Koan – Consultores em Tursimo e Cooperação para o Desenvolvimento;
- Lúcia Helena de Oliveira Cunha – doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), da Universidade de Paris 7 e Universidade de Bourdeaux2 – da Cátedra da UNESCO;
- Mariane Crevels, especialista em Cooperação Internacional da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), do Ministério das Relações Exteriores, que atua na América Latina;
- Rodrigo Tarté – diretor acadêmico da Fundação Cidade do Saber, no Panamá, e presidente do Conselho Diretivo do Centro Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (CIDES), no país e:
- Santiago Porto, consultor da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID).

A introdução do tema coube ao consultor brasileiro especializado em implementação de estratégias de gestão e sustentabilidade e cultura organizativa, Marcos Egydio.

A intervenção no encerramento do debate, feita por participantes da plateia, consolidou uma ânsia que não se pode calar – que quando se fala em integração e cooperação, não se pode esquecer do fundamental: o acesso à educação de qualidade, a programas de cooperação efetivos e não, sazonais, que incorporem a sustentabilidade, sem a proposta subliminar de mais um artifício publicitário e mercadológico.

Sucena Shkrada Resk

22/11/2009 13:49
EIMA7: Como sair na contramão dos rumos das mudanças climáticas?, por Sucena Shkrada Resk

Quanto mais presenciamos as discussões sobre os possíveis cenários do futuro do planeta, tendo em vista, o modelo de desenvolvimento, percebemos que falta justamente a visão holística e, ao mesmo tempo local, com visões de longo prazo. É um quebra-cabeças difícil de montar. Para ressoar essa indagação em diferentes fontes, o BLOG CIDADÃOS DO MUNDO ouviu LUÍS JIMÉNEZ HERRERO, diretor-executivo do Observatório da Sustentabilidade na Espanha (OSE) e o diretor-geral do Instituto de Prevenção, Saúde e Meio Ambiente, da Fundação MAPFRE, ANTONIO GUZMÁN CÓRDOBA. Ambos integraram a organização e debates promovidos no 7º Encontro Iberoamericano de Desenvolvimento Sustentável (EIMA 7), realizado em Foz do Iguaçu, PR, entre os dias 18 e 20 deste mês.

Segundo Herrero, por mais complexa que seja a situação que permeia a 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15), as decisões a serem tomadas daqui por diante têm um peso histórico decisivo. “No Protocolo de Kyoto, a média de redução de 5% até 2012 sobre padrões de 1990, teve respostas bem diferenciadas das nações. A União Européia propôs 20%, no entanto, se os EUA (que não ratificaram o protocolo) tivessem assumido um compromisso semelhante, os países desenvolvidos se comprometeriam com 30%”, analisa o diretor da OSE.

Nesse quadro, ainda é preciso priorizar o respaldo científico, baseado no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), quanto aos cenários nas próximas décadas, que levam ao aumento acima de 2 graus, da temperatura média da Terra, o que pode acarretar grandes catástrofes socioambientais. “Seria necessário que a média mundial de redução fosse de 50% nos países em desenvolvimento e de 80 a 95% nos países desenvolvidos”, afirma.

Como chegar a esses índices, se uma grande parte não cumpriu sequer os 5%? “Alguns países ricos (industrializados) estão diminuindo as suas emissões dos gases de efeito estufa (GEEs), no entanto, grandes nações em desenvolvimento, como China, Índia, Brasil e Indonésia estão aumentando. Há um outro ponto a discutir - as suas metas, até agora, são voluntárias”, analisa Herrero.

Segundo ele, a mudança desses critérios terá de ser reavaliada prioritariamente, no Pós-Quioto. “O mais importante é que na COP-15 se negocie transferência de tecnologia de países ricos para os pobres, como também financiamentos, de forma regular, para que haja, de fato, alterações nesse quadro, o que não ocorre atualmente”, considera. O caminho consensual está nas energias limpas e renováveis. “A China tem sua matriz baseada no carvão, mas com esses apoios, pode ir transformando suas fontes”, cita como exemplo.

Antonio Guzmán Córdoba, diretor-geral de Prevenção, Saúde e Meio Ambiente, da Fundação MAPFRE, analisa que todos os setores devem agir localmente, sem esperar somente as decisões das políticas globais, para manter posturas pró-ativas. “Em Copenhague, discutirão essas ações macro”, diz. Segundo o executivo, o investimento na educação socioambiental, com o objetivo de prevenção e de mudanças de padrões de consumo, é um ponto importante a ser explorado.

Uma das ações da Fundação MAPFRE realizada em países em desenvolvimento, ocorre na Argentina. “Por meio de um espetáculo teatral, que percorre várias cidades do país, são passadas noções de consumo responsável quanto à energia, água e resíduos, entre outros”, diz. O espetáculo gratuito se chama Deshollinadores (limpadores de chaminés), uma murga necesaria, de autoria de Manuel González Gil, é destinada a um público, na faixa dos 5 aos 10 anos, que acaba sendo assistida por toda a família. No final das apresentações, os docentes levem um livro e CD, com os quais podem trabalhar com os alunos em sala de aula. Nessa mesma linha de atividade, também já foi apresentado Payasos em Peligro, do mesmo autor.

No Brasil, as ações ambientais, intituladas de Eco MAPFRE, são voltadas à ecoeficiência nos processos do grupo, no apoio à Rede Ecoblogs, que reúne produções de diversos autores da área ambiental no país, como também, a um dos projetos mais recentes, em parceria com o Governo do Estado de São Paulo, com a criação do Programa Villa Ambiental, no Parque Villa Lobos, na capital.

O 7º Encontro Iberoamericano de Desenvolvimento Sustentável (EIMA 7), foi uma realização das Fundações CONAMA e MAPFRE em parceria com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná e da Itaipu Binacional, entre outras instituições.

*Viajei a Foz do Iguaçu, para participar do EIMA7, representando o Núcleo Ciência e Vida, da Editora Escala, a convite das Fundações CONAMA e MAPFRE, para mediar o painel Cooperação para o Desenvolvimento, realizado no dia 20.
Sucena Shkrada Resk

22/11/2009 11:00
EIMA7: Entrevista: Giovanni Barontini sobre a COP-15, por Sucena Shkrada Resk

A 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15), a ser realizada em dezembro, em Copenhague, se tornou o foco das rodas de conversa, do empresariado ao terceiro setor. Será que o Pós-Quioto sai desse encontro? Quais são as arestas a se aparar? Para falar sobre esse tema, o BLOG CIDADÃOS DO MUNDO entrevistou, no último dia 19, o advogado GIOVANNI BARONTINI, sócio da Fátrica Ethica e membro dos Estudos do Futuro da Pontifícia Universidade Católica (PUC). Barontini analisa a discussão, com o olhar de quem já teve a oportunidade de participar de cinco COPs. O especialista participou do 7º Encontro Iberoamericano de Desenvolvimento Sustentável, realizado em Foz do Iguaçu, PR, sob organização das Fundações CONAMA, MAPFRE e da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná e da Itaipu Binacional, entre outros.

Por Sucena Shkrada Resk

Blog Cidadãos do Mundo – Qual é a sua análise sobre a participação do empresariado brasileiro na discussão da COP-15?

Giovanni Barontini – Nos últimos três meses, a gente tem assistido diferentes posicionamentos corporativos. Houve a Carta das 22 empresas (Instituto Ethos), manifestações, pela primeira vez, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), como também da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Em minha opinião, o que está acontecendo é que o setor empresarial quer firmar espaço, apesar de não ter consolidado visões políticas. Vislumbraram posições mais calcadas em ‘um assunto da moda’, sem posições de longo prazo. Critico que muitas áreas do empresariado não fizeram nada até pouco tempo atrás, para falar que estão exercitando ações pró-ativas. Mas há exemplos, de quem já toma uma postura há mais tempo, como empresas da área de papel e celulose, dos cosméticos, por causa de fatores específicos de seus segmentos. Afinal, nem todo mundo está no estágio inicial.

Blog Cidadãos do Mundo – A COP-15 terá condições de pautar ações concretas para o Pós-Quioto?

Barontini – A COP-15 vai ser um circo. Nada será decidido para o Pós-Quioto. Não se chegou ao nível de amadurecimento necessário. Tive a oportunidade de participar ao longo dos anos, de cinco dessas conferências, desde 1999. Depois, deixei de ir, porque para mim, se tornou uma feira com grandes estandes, como pessoas indo para um shopping, no happy hour. É preciso compreender que a COP-15 é um momento em que se ratifica decisões que aconteceram antes. Para consolidar o que já foi discutido em ações multilaterais etc.

Blog Cidadãos do Mundo – Mas, então, pode se dizer que é um fracasso anunciado?

Barontini – Para não decepcionar a opinião pública, talvez saia do encontro, uma carta de comprometimento. Algo mais simbólico, para satisfazer a sociedade, do que um passo pós-diplomático. Existem questões complexas, com relação à China e EUA. No congresso norte-americano é preciso aperfeiçoar as tomadas de decisões. Na COP-6, em Haia, no final de 2000, por exemplo, houve uma frustração geral, e teve de ser convocada uma nova conferência, em seis meses, em Bohn, na Alemanha. Isso pode se repetir, em Copenhague.

Blog Cidadãos do Mundo – E quanto à posição do Brasil?

Barontini – O Brasil firmou uma posição voluntária. Não coloco fé em posições baseadas na macroeconomia como sustentação, como é o caso do país, que está relacionando as ações ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Há necessidade de se encontrar novas métricas, que se pautem na qualidade de vida e bem-estar. O PIB pode crescer, por exemplo, com fatores adversos, como uma guerra. Há um movimento da Organização das Nações Unidas (ONU), iniciado em 2008, que estuda ações que caminhem além desse paradigma de crescimento. Mas depende da vontade dos países. É difícil fazer com que o conceito de Felicidade Interna Bruta, proposto pelo país asiático do Butão, seja rapidamente assimilado pelo modelo ocidental.

*Viajei a Foz do Iguaçu, para participar do EIMA7, representando o Núcleo Ciência e Vida, da Editora Escala, a convite das Fundações CONAMA e MAPFRE, para mediar o painel Cooperação para o Desenvolvimento, realizado no dia 20.

Sucena Shkrada Resk

21/11/2009 22:00
EIMA-7: A desafiadora prática do comércio justo, por Sucena Shkrada Resk

Hoje estão em funcionamento cerca de 400 empreendimentos identificados como praticantes do ‘comércio justo’, distribuídos em 76 países, segundo a Organização Mundial de Comércio Justo (OMCJ) e a Fundação Comércio para o Desenvolvimento (COPADE)– http://www.copade.org. Nesse universo, existem cerca de 5 mi pessoas beneficiadas divididas em associações, cooperativas e empresas. Isso demonstra que há um longo caminho a percorrer, para que produtores rurais e artesãos, entre outros profissionais de países em desenvolvimento, não sejam penalizados por uma relação predatória de negócios.

Cada vez mais se constata que está na contramão dos princípios éticos, o velho lema de que levar vantagem a qualquer custo é sinal de bom negócio. Tornar esse objetivo uma prática, com certeza não é fácil, pois esbarra com necessidades prementes de uma sociedade, como a formação educacional, que carece de maior investimento, entre outros aspectos.

Em entrevista ao BLOG CIDADÃOS DO MUNDO, no último dia 19, CAROLA REINTJES, presidente européia da OMCJ e coordenadora de Estratégia Institucional e Política de Alianças, da Fundação Comércio para o Desenvolvimento (COPADE), afirmou que o maior desafio para a implementação do comércio justo é a dificuldade de acesso ao mercado e de capacitação. “Pois têm de ser medidas permanentes, que requerem emprego de tempo e fomento de recursos”, explica.

Segundo Carola, que também integra a delegação do Fórum Social Mundial, o sentido de justiça aplicado às comunidades, incorpora as finanças e atividades relacionadas à saúde e ao meio ambiente. “Essas ações contribuem para a formação permanente das pessoas, nas organizações. Não é algo imposto, têm autonomia para a gestão. Mas para que sejam reconhecidas nesse papel, não é aprovada a exploração de trabalho infantil, como também, a ausência do canal de participação dos funcionários na organização, de respeito ao meio ambiente e à igualdade de gênero”, diz.

“Em um diagnóstico mundial, pode-se dizer que praticamente não existe comércio justo local nos continentes africanos e Ásia. Mas na exportação, já há bons resultados, como no Quênia e na Índia, com produtos artesanais”, afirma. No Brasil, um dos exemplos citados por ela, são com associações de seringueiros no Acre. “Cultivam e comercializam castanha do Pará, e o café para exportação é o destaque no Nordeste”, fala.

O coordenador de Projetos da COPADE, JAIME MANTECA AGÜEROS, explica que o
comércio justo se baseia na relação dos países desenvolvidos em apoio aos em desenvolvimento. “Auxiliamos pequenos produtores com menos recursos, para que possam vender seus produtos em mercados, como EUA e Europa. Geralmente o que acontece é que vendem a intermediários, sendo prejudicados nas margens de lucro”, diz. Uma das estratégias é voltada à capacitação e outra ao apoio à criação de linhas de microcréditos.

As organizações que praticam o conceito do comércio justo adquirem diretamente destes produtores. Para estabelecer critérios, hoje existem duas certificações internacionais, segundo ele. “Uma é concedida pela Organização Mundial de Comércio Justo, que deverá criar um novo selo, com mais exigências, para o ano que vem.

Segundo Agüeros, para se promover a qualificação, a COPADE se pauta em selos aos produtos, concedidos pela Fairtrade Labelling Organization (FLO). “Já para as organizações é do âmbito do Fairtrade Organization (FTO). Para 2010 deverá ser lançado o Sustanaible Fairtrade Management System, que é mais exigente”, informa.

“Para a aquisição com preço justo, se calcula custo de produção e margem de benefício, e se tenta reverter injusticas. O café, por exemplo, foi vendido por um preço injusto na América Central, por muitos anos até começar a se reverter esse quadro”, explica.

Com essa filosofia, os produtores devem ter condições de trabalho dignas, respeitando o salário mínimo profissional de cada país, condições de higiênicas e medidas trabalhistas adequadas. “Ainda há a importância da transparência na gestão, com a contabilidade. Parte dos benefícios sociais da cooperativa tem de ser destinado a projetos sociais da própria comunidade. Tudo isso passa por auditoria”, diz.


Madeira Justa
Agüeros explica que um dos principais projetos da COPADE é voltado à iniciativa Madeira Justa. Os espanhóis atuam nesta área de madeira florestal, especificamente em Honduras, há 10 anos, e na Bolívia, há 4. O trabalho atende a cerca de 2 mil pessoas. “Toda madeira que os produtores com os quais trabalhamos utilizam, deve ser certificada. A dificuldade é garantir a qualidade da madeira (Caoba e Teca) até chegar aos compradores na Espanha, onde serão transformadas em móveis. Nesse caso, o problema é quanto a condições climáticas”, afirma.

No caso da madeira (produto), o Forest Stewardship Council, é a organização independente que promove a gestão ambiental florestal ambientalmente responsável em bosques de todo o mundo. A certificação, por sua vez, se chama FSC. Mais informações podem ser obtidas no site http://www.fsc-info.org.

A meta é expandir mercado. “Estudamos a possibilidade de trabalhar no Brasil, com a Secretaria Estadual do Paraná, ao fomentar a certificação florestal e capacitação de carpinteiros, para que os produtos sejam exportados à Espanha”, diz Agüeros.

As entrevistas foram concedidas, durante o 7º Encontro Iberoamericano de Desenvolvimento Sustentável (EIMA-7), realizado em Foz do Iguaçu, PR, de 18 a 20 de novembro. O evento foi organizado pelas Fundações CONAMA e MAPFRE em parceria com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná e a Itaipu Binacional, entre outros.

*Viajei a Foz do Iguaçu, representando o Núcleo Ciência e Vida, da Editora Escala, a convite das Fundações CONAMA e MAPFRE, para mediar o painel Cooperação para o Desenvolvimento, realizado no dia 20.

Notícias relacionadas à certificação de madeira no blog:
19/03/2009 11:16 - Madeira (estado de São Paulo): protocolo pela certificação, por Sucena Shkrada Resk

Sucena Shkrada Resk

18/11/2009 19:24
Entrevista especial- Enrique Leff, da sabedoria tradicional à COP-15, por Sucena Shkrada Resk


"O conceito de territorialidade é uma coisa que rompe o planejamento estritamente urbano e regional. O território é um território de vida, uma reapropriação da cultura. Passa a uma dimensão mais política, de espaço vital. Como espaços étnicos, que nos processos políticos foram delimitados como territórios, parte dessa vida cultural são práticas produtivas...A única sustentabilidade possível é no espaço rural. O espaço urbano por si é insustentável...Não estamos em nenhum absolutismo conservacionista". (Enrique Leff, 18/11/09, Foz do Iguaçu, PR)

ENRIQUE LEFF, doutor em Economia do Desenvolvimento e professor de Ecologia Política e Políticas Ambientais da Universidade Autônoma de México (UNAM) concedeu, hoje, entrevista especial ao BLOG CIDADÃOS DO MUNDO, durante lançamento da reedição modificada do livro Ecologia, Capital e Cultura, com a incorporação do tema: a Territorialização da Racionalidade Ambiental. A primeira versão da obra foi escrita em 86 e depois, em 2000. O bate-papo ocorreu, em intervalo do primeiro dia do 7º Encontro Ibero-Americano de Desenvolvimento Sustentável (EIMA-7), realizado em Foz do Iguaçu, PR. O evento é uma promoção das Fundações CONAMA e MAPFRE, em parceria com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná e a Itaipu Binacional, entre outros. Do saber tradicional à 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que ocorrerá em dezembro, o escritor traçou seu pensamento sobre alguns caminhos contemporâneos socioambientais e da sustentabilidade.

Por Sucena Shkrada Resk
Blog Cidadãos do Mundo - Qual é a sua leitura sobre saber tradicional?
Enrique Leff - É sempre um saber local, que vem da tradição de um caminho que nos constitue no mundo, como pessoas. Cada saber vem de acordo com o contexto cultural. Equivocadamente há a desvalorização da forma de ser no mundo, por causa da falsa supremacia dos saberes dominantes acadêmicos, baseada na racionalização e supervalorização da ciência, ao favorecer certos interesses. Com isso, há subjulgação de vínculos com outras práticas culturais produtivas que são contempladas nesse processo.

Blog Cidadãos do Mundo - Mas, então, podemos dizer que os saberes tradicionais 'morrem'?
Leff - Alguns saberes "morrem" ou deixam de ser praticados. Mas existe certa capacidade de recuperação, por meio do 'hibridismo' com saberes atuais. Pode-se dizer que é um mito dizer que todos os saberes são puros. Na verdade, há diálogos de saberes, com as mestiçagem cultural. Em alguns casos, se conservam por meio de manifestações religiosas, por rituais e cerimoniais. O que é híbrido também tem uma identidade. Faz parte da categoria de novos saberes.

Cidadãos do Mundo - Como o senhor interpreta o papel da mídia na contemporaneidade com relação à pauta socioambiental?

Leff - Há a difusão de muitas mensagens curtas, que dificultam que o leitor chegue a uma consciência crítica incisiva. Os teores são, muitas vezes, sensacionalistas, simplistas e oportunistas, com o apelo comercial. Esse é um percurso na contramão de uma nova cultura. Por outro lado, há meios de comunicação que são bem-sucedidos nesse papel, como quando tratam de temas preventivos e de orientação, como a redução do consumo da água. Entretanto, poderiam ir mais longe. É difícil ver informações sobre a escassez quanto ao ciclo ecológico da produção, que são temas mais complexos, implicando a biodiversidade. Falta uma direção mais pontual da mídia, que evitar problematizar, por causa do predomínio das questões econômicas.

Cidadãos do Mundo - Qual análise o senhor faz sobre o contexto que envolve a COP15?
Leff - As principais potências não chegaram a definições. A questão não está sendo problematizada, ou seja, traduzindo debates mais complexos para os países. A vinculação do processo do Aquecimento Global com a Globalização demonstra que, o critério da Economia, baseado na produtividade impera. A leitura que se faz da crise financeira atual, que envolveu as grandes potências, é como se estivesse dissociada da agenda ambiental, o que erroneamente dá a entender que é possível esperar mais para ter posições pró-ativas. Até mesmo o investimento em tecnologia limpa, da economia de baixo carbono, está enquadrada no modelo economicista.

Cidadãos do Mundo - Sendo assim, qual é a sua análise sobre a efetividade da sustentabilidade?
Leff A sustentabilidade, na prática, é bastante fraca e restrita à capacidade do sistema econômico absorver essas questões. Mas a minha esperança é grande, quando se trata do sentido de mudanças em novas formas de produção.

*Viajei a Foz do Iguaçu, para participar do EIMA7, representando o Núcleo Ciência e Vida, da Editora Escala, a convite das Fundações CONAMA e MAPFRE, para mediar o painel Cooperação para o Desenvolvimento, a ser realizado no próximo dia 20.
Sucena Shkrada Resk

17/11/2009 00:23
Especial Educomunicação Ambiental (4)-Entrevista:Maria del Carmen Chude, por Sucena Shkrada Resk

A quarta entrevistada do Especial Educomunicação Ambiental, do Blog Cidadãos do Mundo, é a psicopedagoga argentina, radicada no Brasil, Maria del Carmen Guadalupe Chude. A especialista em Tecnologia da Educação, há 10 anos, é diretora pedagógica do Programa Ciência Hoje de Apoio à Educação (PCHAE), desenvolvido no ciclo 1 de escolas públicas municipais. O Programa é do Instituto Ciência Hoje e vinculado à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Blog Cidadãos do Mundo - Como a educomunicação pode ser exercida na prática?

Maria del Carmen Guadalupe Chude- Ao contextualizarmos a questão para o âmbito escolar, poderíamos dizer que, na prática, a educomunicação passa a ser um caminho, uma ponte ou até uma chave de compreensão para intervir na dimensão multicultural dos ambientes educativos de hoje. A diversidade cultural está presente hoje na escola (daqui e de outros lugares do mundo) e numa das dimensões em que se manifesta, vimos muito bem retratada no recente filme documentário “Entre os muros da escola”. A escola vive hoje imersa num desafio cultural. Busca resolvê-lo, aproximando-se das mídias e das TIC’s (Tecnologias da Informação e Comunicação) , desenvolvendo currículos de perspectiva cultural e apresentando-se para o debate. Eu diria que a escola já está a caminho. Hoje se permite repensar-se já não mais como “o locus privilegiado do conhecimento”. Mas a escola precisa superar um desafio bem profundo: a relação professor-aluno e o ambiente de aprendizagem. No dizer de Martín-Barbero, a mídia e as tecnologias da informação deixam visíveis e cada vez maiores, as brechas entre a cultura, a partir da qual os professores ensinam; e aquela outra, a partir da qual os alunos aprendem.

Cidadãos do Mundo - Conte, por favor, a experiência do Projeto Ciência Hoje de Apoio à Educação (PCHAE):

Maria del Carmen - A experiência do Projeto Ciência Hoje de Apoio à Educação, desenvolvido pelo Instituto Ciência Hoje, vinculado à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, foi iniciado em 2001. Preocupados com os resultados dos jovens em matéria científica, nós, como educadores e pesquisadores, desenhamos um programa para intervir nas séries iniciais de formação escolar, que estimule a leitura, a alfabetização científica e a postura investigativa de professores e alunos.
O ICH já tinha uma revista de divulgação científica especialmente desenvolvida por pesquisadores para crianças entre 8 e 13 anos. A “Ciência Hoje das Crianças” tem mais de 20 anos ininterruptos de circulação, premiada internacionalmente. É uma das poucas com estas características no mundo. O PCHAE é um programa que alia a revista nas mãos das crianças e uma formação para o seu professor, de maneira que a criança seja o espelho da mudança do professor, pois seu entusiasmo ao receber mensalmente sua revista e levá-la para casa, compartilhar com os seus irmãos e familiares o torna o principal vetor de mudança deste Programa. A criança é o grande elo da comunidade leitora de ciência e tecnologia.
O PCHAE coloca nas mãos dos professores uma mídia impressa para provocar discussões com seus alunos, transformando o papel do professor, que pela prática tradicional, era um mero transmissor de informação, para o de um mediador; alguém que problematiza, instiga e abre portas para outras fontes de informação.
No PCHAE valorizamos como ponto alto da avaliação dos projetos, a pesquisa em diversas fontes conversacionais. Tem tanto valor quanto a presença de livros especializados, enciclopédias ou mapas. Um exemplo interessante foi a ampla pesquisa realizada por alunos de uma escola pública de Embu das Artes, que para descobrir uma praga, que atacava a horta da escola, convocaram ambientalistas, jardineiro, avô de uma das crianças que tinha plantação, botânico e engenheiro agrônomo. Pesquisaram em internet, documentários e livros. A solução para conseguir chegar a um recurso, que não agrida o ecossistema da horta, gerou uma cartilha para a comunidade, disseminando diferentes técnicas e conhecimentos aprendidos. Isso resultou em “aulas práticas” nas reuniões para pais e professores.

Cidadãos do Mundo - Quais são os principais desafios para que haja, de fato, o empoderamento? Por quê? Como é possível superá-los?

Maria del Carmen - No contexto escolar, eu diria que o principal desafio é dar voz à criança e ter um “time”, uma equipe (de professores e alunos) na sala de aula, que busque o conhecimento. Criar projetos é uma manifestação da inteligência criadora, que inventa finalidades às informações. Por isso, podemos superar os desafios, se os professores organizam ambientes e situações de aprendizagem desafiadoras e se permitem estar no papel de mediador. O pedagogo Lauro de Oliveira Lima dizia que a Inteligência só se ativa diante de uma situação-problema. “Passar conhecimento” é uma expressão que reflete uma prática docente, que não reconhece o aluno como sujeito. Na escola, empoderamos crianças e professores, quando lhes damos a liberdade de inventar projetos, que eles próprios tornam interessantes.

Cidadãos do Mundo - De acordo com sua experiência, o que é indispensável na formação dos multiplicadores da educomunicação ambiental?

Maria del Carmen - Na área ambiental, educomunicadores são muito importantes, diria que essenciais, para ajudar na maturação deste movimento de cidadania planetária e sustentabilidade. Na formação destes multiplicadores, consideraria como importantes, dois aspectos: um relativo ao respeito da cultura do outro, ao entender de que lugar o seu interlocutor ou o seu “público-alvo” está falando; e outro relativo à sua formação. “Quem educa o educador?”. Esta pergunta nos convoca a ler mais e entender melhor Paulo Freire e ainda, lembrar sempre que não deve desistir de transformar, antes que o próprio mundo, a si próprio.

Sucena Shkrada Resk

08/11/2009 23:13
Amazonas - Anamã ainda sob efeito das cheias, por Sucena Shkrada Resk

As cheias que atingiram o estado do Amazonas, neste ano, deixaram marcas ainda presentes às populações ribeirinhas. O município de Anamã, que fica a cerca de 180 km de Manaus, é um dos que mais sofreram, e não se recuperou do estado de calamidade pública, segundo a secretária-executiva de Assistência Social do Estado do Amazonas, Maria das Graças Soares Prola. A cidade, à beira do rio Solimões, busca superar o maior aumento do nível da água, na série histórica, ocorrida na região. Poucas informações da imprensa sobre a situação pós-cheias demonstra o quanto a mídia brasileira se detém aos temas de pico. Poucos se lembram das questões de infraestrutura e doenças de fundo hídrico, que se acentuam depois dessas catástrofes climáticas, que também atingem outras cidades no Brasil. E nós, com essa ignorância, perpetuamos o ciclo de 'esquecimento'.

No mês de maio, o único hospital da cidade e unidade de saúde foram inundados, inviabilizando o atendimento. A situação se agravou até o mês de julho principalmente. As aulas foram suspensas. A vida da população local foi totalmente afetada. Houve ainda o aumento de casos de diarréia e picadas de animais peçonhentos.

A dificuldade de acesso ao município é mais um fator que compromete a assistência mais eficiente, já que a logística até lá é por meio fluvial, o que ocorre em várias cidades na região Norte do país. A Defesa Civil, a Marinha e organizações não-governamentais foram ao socorro das famílias. O auxílio é necessário até hoje.

Ao recuperar as poucas notícias sobre o município à disposição na Internet, é possível verificar que a localidade sofre com os antagonismos climáticos. Em 2005, cerca de 4,5 mil pessoas, dos 6,6 mil habitantes do município à época, vivenciaram o drama da maior seca dos últimos 40 anos (Jornal A Crítica, 13/10/2005).

Hoje o que chega a ser contrastante é o fato de Anamã ser um local estratégico na construção do Gasoduto Coari -Manaus, e que recebeu por conta disso, R$ 14 mi em seu orçamento, oriundo da arrecadação do Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS), referente ao período 2006-2009, segundo informações do Portal do Governo, divulgada no Portal Amazonas, em outubro deste ano. A obra realizada pela Petrobras, tem um total de 383 quilômetros de tubos, que deverão ligar a reserva localizada em Urucum até a capital, passa pela localidade. Resta saber como a verba será aplicada.

E as perguntas a serem respondidas são: Como está a situação da qualidade de vida dos moradores deste município? As ações de adaptação e mitigação estão sendo realizadas com vistas a novos períodos de intempéries climáticas?


Sucena Shkrada Resk

08/11/2009 11:21
Amazonas-Manaus: o desafio dos resíduos, por Sucena Shkrada Resk

Há pelo o menos 10 anos, uma discussão que envolve o Distrito Industrial de Manaus é quanto à destinação dos resíduos. Isso implica o que fazer com os rejeitos industrial, urbano, hospitalar, do setor da construção e radiológico, em um parque com mais de 500 empresas - o maior na região norte do país. Esse cenário pode ser modificado com um projeto em discussão, desde o final do ano passado, que prevê até 2011, o início da implementação do Centro de Pólo de Tratamento de Resíduos.

A situação socioambiental da capital do Amazonas exige ações efetivas, visto que, a cidade apresenta outros problemas. Tem apenas a cobertura de esgoto em 11% de sua área urbana, o que propicia a geração de doenças, como destaca Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), Trata Brasil, que tem um trabalho específico voltado ao saneamento. Com a proliferação de vetores, há incidências de hepatites e malárias, entre outras.

Para o tratamento de resíduos do pólo, foi firmado um acordo internacional de cooperação técnica entre a Agência Brasileira de Cooperação (ABC), a Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA) e a Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA), em 2008. "Participamos do primeiro workshop, em setembro deste ano, para discutir o processo", explica Josué Campos, gerente de Gestão e Responsabilidade Social da Moto Honda, que integra a comissão, que discute o projeto.

A questão é urgente já que hoje somente 16 empresas - incluindo a Honda - realizam um trabalho sistematizado quanto ao ciclo dos resíduos e 80 são certificadas pela ISO 14001, de acordo com Campos. Do ponto de vista ambiental, exige um olhar sistêmico. O levantamento realizado pela Jica aponta que o tratamento de grande parte dos resíduos gerados pelas indústrias locais, é realizado em Manaus, por meio da terceirização, pelas fábricas geradoras, dos serviços de coleta, transporte e a destinação final a empresas credenciadas pelos órgãos ambientais no Amazonas. Quando se trata de resíduos perigosos, o tratamento de parte deles é feito em outros Estados. Isso infere logística, poluição gerada pelo transporte etc. Mais detalhamentos podem ser consultados no link: http://www.suframa.gov.br/download/publicacoes/jica/newsletter_nr003_pt.pdf.

O que chama atenção nessas apurações, por exemplo, é que o levantamento executado em um universo de 123 fábricas do distrito, referente ao período de junho de 2008 a maio deste ano, detectou que foram produzidos 36,97 ton/dia de resíduos da construção, sendo a maioria reutilizáveis. A maior parte desse total, entretanto, seguiu misturada a outros rejeitos, para o Aterro Municipal de Manaus. Esses dados preliminares destacam a necessidade de reavaliação da gestão em todo o processo.

O projeto prevê a criação de um Plano Diretor, com duração de cinco anos (2011-2015). Um estudo está sendo promovido pela Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), pelo Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), com a participação da Câmara de Comércio e Indústria Nipo-Brasileira do Amazonas. . A Suframa, segundo o técnico, já cedeu um terreno para a construção do Centro do Pólo de Tratamento de Resíduos, no Distrito Industrial 2.

A discussão envolve ainda um Subcomitê Técnico Consultivo, com a participação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), o Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas (Ipaam), as Secretarias Municipais de Limpeza Urbana e de Desenvolvimento e Meio Ambiente, além da Unidade de Gestão do Programa Igarapé (UGPI).

De acordo com a representação da Jica, no Brasil, a instituição deve apoiar a iniciativa com um aporte de cerca de 2 milhões para a execução do projeto, extra a contrapartida brasileira.

Soluções individuais
No caso da Moto Honda, o gerente de Gestão e Responsabilidade Social explica que são geradas mensalmente 1,8 mil t de resíduos, sendo 400 t perigosos, pela planta da empresa. "Cerca de 1,1 mil são aparas de aço da estamparia, que vendemos para a Gerdau. Isso resultou, de janeiro a setembro, em cerca de R$ 6 mi. O papel e papelão destinamos a outras empresas. O que arrecadamos com essa comercialização, utilizamos para ao cumprimento da destinação dos nossos resíduos perigosos", diz.

Outra política adotada pela empresa foi de fazer parcerias, que facilitaram a vinda de fornecedores para para o parque industrial. "A distância dos produtores de alumínio, por exemplo, era um problema complexo. Agora, já estão instalados no distrito. Com isso, reaproveitam parte de nossos rejeitos. O mesmo acontece com a areia de fundição e plástico. Essas mudanças diminuiram o custo de fretes e impostos", afirma Josué Campos. A exposição do gerente demonstra que a gestão dos resíduos, dessa forma, pode se tornar rentável financeiramente e ambientalmente.

*Viajei para Manaus, representando o Blog Cidadãos do Mundo, entre 27 e 29 de outubro, integrando um fan tour jornalístico, a convite da Honda South América, em companhia de cerca de 20 colegas da área ambiental no Brasil.

Sucena Shkrada Resk

07/11/2009 01:39
Amazonas: o difícil resgate da infância e da juventude, por Sucena Shkrada Resk


Uma pequena jovem se debruça sobre um caixão, enquanto outras dançam e exibem uma coreografia marcada por expressões de sacrifícios e de tristeza. A cena em questão, que inspira reflexão, é interpretada por alunas da Casa Mamãe Margarida, em Manaus, AM, que é a única referência no Estado para meninas em situação de risco social e pessoal. Com o tema ‘Ensaio sobre a Morte da Infância’ descrevem, na verdade, histórias reais de infâncias e juventudes, que sofrem rupturas em busca de reestruturação. Um difícil resgate que é ignorado por boa parte da mídia, das autoridades, do empresariado e pela própria sociedade.

A entidade atua como lar-abrigo e escola. De acordo com a coordenadora, a irmã salesiana Liliana Maria Daou Lindoso, atualmente são atendidas cerca de 350 crianças e jovens, dos 6 aos 18 anos, (sendo 30 no abrigo), não só de Manaus, como também de Parintins e de São Gabriel, entre outras cidades. “Temos muitas dificuldades para a manutenção, porque dependemos principalmente de doações. Para o abrigo, temos uma fila de espera de aproximadamente 30 crianças”, diz.

A parceria com a iniciativa privada é um dos recursos que auxilia a entidade, a exemplo da Honda, localizada no Distrito Industrial. A empresa doa frutas oriundas do projeto agrícola, que mantém em Rio Preto da Eva, desde 1999, que é a contrapartida de compensação ambiental, para a pista de testes de motos localizada na área. Lá são cultivados limões, mamões, cocos, entre outros.

“Do Estado, recebemos mensalmente R$ 22 mil, mas as remessas não são regulares. No entanto, só nossas despesas chegam a cerca de R$ 45 mil, sendo R$ 38 mil, da folha de pagamento”, conta. A necessidade de reforma das instalações elétricas requerem mais cerca de R$ 40 mil.

Ao ser perguntada, a secretária-executiva (adjunta) de Assistência Social do Estado do Amazonas, Maria das Graças Soares Prola, afirmou, no último dia 28, que os atrasos ocorrem porque a entidade deve prestar contas antes de receber a quantia. “Tem capacidade para abrigar 28 meninas, mas recebe mais”, diz.

Ela afirma que há retaguarda ao atendimento relacionado à violência sexual, que é a principal demanda dos casos, em 23 dos 62 municípios do estado. Mas a questão, que fica em aberto, é por que essas instituições não assistem a meninas e jovens de suas cidades?

A construção de novos abrigos, de acordo com Maria das Graças, também não é a proposta mais adequada, de acordo com o Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária. “Nos estados, precisamos implementar o desabrigamento e criar alternativas para as famílias acolhedoras”, diz. A secretária afirma que em 2010, o Amazonas dará andamento a um plano estadual, com esse objetivo, em parceria com as prefeituras.

Uma série de desafios
Enquanto tramitam esses processos de mudanças de ‘políticas’, o que não pode ser esquecido é que as crianças precisam receber ‘em tempo real’ um atendimento digno, para que consigam superar as agressões pelas quais passam. Esse não é um processo fácil, como destaca a psicóloga da Casa Mamãe Margarida, Maria Auxiliadora Ribeiro. “O principal desafio da entidade é que as meninas percebam que é possível ‘reescrever’ a vida delas. “Como têm a experiência de viver em famílias desestruturadas, pensam que não podem seguir novos caminhos”, diz.

A dificuldade de encontrar parcerias para promover o primeiro emprego das jovens é mais um fator que pesa nesse processo. “Do que adianta prepará-las, se o mercado não está preparado para elas. Nós ainda esbarramos na disfunção série/idade. Muitas têm 18 e ainda estão na terceira série”, explica.

Resgatar a auto-estima exige um trabalho redobrado dos profissionais que trabalham diariamente com as meninas e adolescentes atendidas na Casa Mamãe Margarida. “Quando são feridas em um alto grau de agressão, isso afeta a educação. Têm dificuldade de aprender a ler e quanto à apreensão do conhecimento. A progressão continuada acaba acentuando esse problema.

Por outro lado, a inconstância do voluntariado é mais uma barreira a superar. “Quando essas pessoas deixam de vir, a carência afetiva dessas crianças aumenta”, conta a irmã Liliana Maria.

Comemorar os aniversários de 15 anos de muitas dessas jovens requer um trabalho cooperativo. “Vinte e uma meninas estão completando essa idade e fizemos campanhas para adquirir vestidos e apadrinhamento. Utilizamos, inclusive, a rádio, como mídia”, conta a irmã. Nessa maratona, mães e familiares de algumas jovens também ajudam na confecção dos adereços.

A capacidade de resiliência
Para a jovem Marce Moraes da Silva, 23 anos, se dedicar ao trabalho de arte-educação, ao auxiliar na coreografia do grupo de dança de meninas atendidas pela Casa Mamãe Margarida, é como recobrasse a sua própria história de vida. A funcionária conta que um dia foi atendida pela instituição. Nessa trajetória, encontrou no esporte uma vocação.

“Joguei vôlei, basquete, handball, participei da seleção infanto e juvenil da Universidade Nilton Lins do Amazonas. Fui descoberta pelo ex-jogador da seleção de vôlei, Xandó, que me indicou ao treinador”, se recorda.

Marce cursou dois anos da Faculdade de Dança, na Universidade do Estado do Amazonas e agora parte para um novo desafio – prestar vestibular para Educação Física.

“Acima de tudo, o que resgatei foi minha auto-estima. A partir do momento, em que estamos bem conosco, corremos atrás do que queremos”, afirma. E diz – “Agora tenho cabelo grande pela primeira vez em minha vida. Meu pai (já falecido) sempre cortava...”, conta, como se reconstruísse a sua auto-imagem.

*Viajei para Manaus, representando o Blog Cidadãos do Mundo, entre 27 e 29 de outubro, integrando um fan tour jornalístico, a convite da Honda South América, em companhia de cerca de 20 colegas da área ambiental no Brasil.



Sucena Shkrada Resk

05/11/2009 16:20
Lévi-Strauss: um intelectual que vivenciou a brasilidade, por Sucena Shkrada Resk

Aos 100 anos, o antropólogo e etnólogo belga, Claude Lévi-Strauss, deixa um legado importante à humanidade e, especialmente ao Brasil, com seu falecimento, no último dia 31. O fato de reconhecer a importância dos povos tradicionais - pode-se dizer no papel de guardiães - é de suma importância, quando há a tentativa de se desenvolver o conceito de humanização. O autor de Tristes Trópicos (1955) e de Raça e Cultura, entre outras obras, traduziu em seus escritos, o sabor das raízes e o desenvolvimento do conceito de que não existe "povos sem história", mas sim, povos dos quais desconhecemos o passado. Pode-se dizer que essa 'ignorância' consciente ou inconsciente revela os valores do desenvolvimento de uma civilização.

A sua imersão no centro-oeste e norte do Brasil (década de 30), quando manteve contato com bororos, cadiuéus e nambiquaras, entre outros povos, serviu de laboratório para conceituar o estruturalismo, teoria pela qual tece as relações dos processos cognitivos. Como observador do comportamento humano, se aprofundou na importância nas redes ou teias, ao fazer o cruzamento entre o comportamento da família com mitologia e preparação de alimentos, entre outras ações.


Sucena Shkrada Resk

02/11/2009 20:52
Especial Educomunicação Ambiental (3)-Entrevista: Vilmar Berna, por Sucena Shkrada Resk

Em continuidade ao Especial EDUCOMUNICAÇÃO AMBIENTAL, do BLOG CIDADÃOS DO MUNDO, o terceiro entrevistado é o jornalista gaúcho VILMAR BERNA. Com uma biografia permeada pela militância no movimento socioambiental, optou por mudar de ‘vida’ e morar com a família, em uma colônia de pescadores em Niterói, RJ. Em 1999, recebeu o Prêmio Global 500 para o Meio Ambiente, concedido pela Organização das Nações Unidas (ONU), em reconhecimento a suas ações em prol da cidadania planetária. É um dos fundadores da Rede Brasileira de Informação Ambiental (REBIA) e edita voluntariamente a Revista do Meio Ambiente e o Portal do Meio Ambiente (www.portaldomeioambiente.org.br). Na carreira literária, se dedica principalmente ao tema de ecologia e educação ambiental, com mais de 10 títulos publicados.

Por Sucena Shkrada Resk

Blog Cidadãos do Mundo – Qual é a sua leitura sobre a história da comunicação ambiental brasileira?

Vilmar Berna – A partir da década de 70, o inconsciente coletivo aceitava a ideia do progresso com a poluição, como um preço a pagar. Neste período, poluir chegava a ser sinônimo de crescimento. A terra desmatada era tratada como beneficiada. Três décadas depois, houve uma mudança radical dessa visão. Não se aceita mais aqueles modelos. Apesar de sermos consumidores, para mantermos a sobrevivência, não aceitamos mais a poluição como um preço por nossa paz. Essa mudança não se deu por acaso. As pessoas mudaram, porque começaram a receber informações por meio dos profissionais da comunicação, que têm o papel de mediadores. Embora os jornalistas, em geral, se recusem ao compromisso de engajamento, os comunicadores (categoria da qual faz parte) são a alavanca de conhecimento para a sociedade.

Blog Cidadãos do Mundo – Mas como esse processo acontece?

Berna – É falsa a ideia de que a informação sozinha gera mudança, precisa estar acompanhada por valores fraternos, para que não seja manipulada. A mudança não acontece ao mesmo tempo em todo mundo. Cada pessoa percebe em um momento distinto. Há setores que são mais atrasados nessa reflexão. Mas o importante a destacar é que os profissionais de comunicação fizeram avançar o inconsciente coletivo. Alguns avançaram pela dor ou pelo amor. Como exemplo, cito a cobertura de casos clássicos, como o vazamento de petróleo do Exxon Valdez (1989); o acidente em Bhopal, Índia, em que milhares de pessoas morreram por causa da nuvem tóxica provocada por um vazamento na planta da Union Carbide (1984); o acidente na Usina Nuclear Chernobyl, na Ucrânia (1986), que foi considerado o mais grave da história. Ao ter conhecimento desses casos, a sociedade começou a ver que havia algo errado com o modelo de desenvolvimento. Como também, que os representantes políticos, ao incorporarem a legislação ambiental, assumiam avanços. Outras pautas, como o trabalho escravo (caso Nike), fizeram com que as pessoas reagissem com o descaso nas relações trabalhistas/humanas.

Blog Cidadãos do Mundo – Qual é o papel da educomunicação nesse trajeto da comunicação ambiental?

Berna – Embora os profissionais de comunicação e os educadores ambientais não percebam que são lados diferentes da mesma moeda, eles são e podem ser a mesma pessoa. A noção de educomunicação tem um conteúdo filosófico, em que a educação mais a comunicação são consideradas ferramentas capazes de levar informações com valores. Há ainda uma segunda visão prática, de que a EA utiliza os meios de comunicação para atingir a massa. A proposta é sintetizar grandes saberes, por meio da informação e construir esses valores. Tudo isso vem, desde o Clube de Roma e com a Organização das Nações Unidas (ONU). Paulo Freire é um caudatário deste movimento. Ele falava que o grande desafio da educação é libertar o ser humano da escravidão do consumismo. Toda mudança exige movimentos de cima para baixo e vice-versa, principalmente das comunidades atingidas, reagindo e denunciando. Por outro lado, governos criando normas (mesmo que não cumpram). A luta continua hoje, porque os agentes que produzem mudanças permanecem ativos. A Internet possibilita essa globalização, com redes trabalhando em processos semelhantes. O desafio é aumentar a velocidade desses processos, porque se continuarmos com esse modelo predatório, o ser humano não terá mais tempo. O problema não é crescer, mas o tipo de crescimento. É preciso desconstruir mitos.

Blog Cidadãos do Mundo – Mas as redes trabalham com um propósito comum?

Berna – Segundo o mestre em Sociologia e doutor em Ciência Política, Eduardo Viola, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), existem os fundamentalistas, que chamamos de naturebas, que vivem no campo, ligados à raiz e que se integram à natureza e aos rituais. Outra vertente é dos ecossocialistas, que consideram que o problema é a falta de políticas públicas e que o meio ambiente não pode ser commodity. Uma terceira modalidade é a dos chamados ecocapitalistas, que defendem que a iniciativa privada tem o papel importante para a captação de recursos e com isso as grandes corporações não querem destruir isso. Nesse contexto, há as ISOS, os selos ambientais, os prêmios. A figura do Estado se restringe ao papel regulatório das regras do jogo. Por fim, estão os pragmáticos, que evitam se sobrepor a essas posições. São aqueles que articulam os abaixo-assinados, sentam com os governantes para discutir... É uma linha mais prática. O grande desafio é que todas essas correntes falem umas com as outras e que os jornalistas ambientais se afastem um pouco dessas tendências (para ter um olhar mais isento), a não ser que seja corporativo.

Blog Cidadãos do Mundo – Como a ética está inserida na educomunicação?

Berna – Existem várias éticas, que mudam de acordo com o tempo e lugar. Não são imutáveis. Em função da informação que as pessoas recebem, elas fazem escolhas, constroem valores. O que permite mudar é estar consciente dessas escolhas. Não acredito que somos somente resultado de genes e história. Escolhemos os valores e suas relações em função da informação. Mas com certeza é falta de ética eleger determinada informação em detrimento de outra. Mentira não é ética em lugar algum. Acho inadmissível que a pretexto de divulgar uma informação considerada valorosa, por exemplo, só do lado de um movimento social, não seja ouvido o contraponto etc. Também não há nada de errado que uma empresa patrocine um veículo de comunicação. O errado é que esse patrocínio signifique cercear as informações.

*O jornalista Vilmar Berna concedeu a entrevista ao Especial Educomunicação Ambiental do Blog Cidadãos do Mundo (www.cidadaodomundo.blogse.com.br), no dia 29 de outubro deste ano, durante fantour jornalístico, do qual participamos com outros profissionais da área de comunicação ambiental, promovido em Manaus, AM, pela Honda South America. A singularidade da ocasião, que considero oportuna de mencionar, é que estávamos em uma embarcação sobre o Rio Negro, quase nas confluências com o Amazonas e Solimões. Um rico cenário educomunicativo, em que há os povos da floresta e, ao mesmo tempo, os trabalhadores do Distrito Industrial de Manaus. Pessoas que, por muitas vezes, ficam anônimas e não conseguem se expressar, porque não se dá a oportunidade a elas para esse empoderamento.

Sucena Shkrada Resk

01/11/2009 22:30
Mudanças Climáticas - Muito ainda a se fazer (parte 2), por Sucena Shkrada Resk

A Câmara dos Deputados aprovou em 27 de outubro, a Política Nacional sobre a Mudança do Clima e no dia 28, o projeto de lei nº 2223/07, que institui o Fundo Nacional, que será o braço orçamentário. No caso da Política, o texto que foi votado é o "substitutivo da comissão especial, de autoria do deputado Antonio Carlos Mendes Thame (PSDB-SP). A base é o projeto de lei nº 18/2007, do deputado federal Sarney Filho, como também o projeto do executivo nº 3.535/2008.

Agora, os documentos tramitam no Senado, para que o ciclo legislativo seja consumado. A pauta, entretanto, ainda requer muito mais discussão e sintonia na agenda política nacional e internacional, já que será a referência brasileira na 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro da Organização das Nações Unidas (COP-15). O governo brasileiro ainda não definiu as metas de redução oficiais que apresentará no encontro.

Com relação ao Fundo, o projeto prevê que parte dos recursos provenha da cota que cabe ao Ministério do Meio Ambiente no rateio da participação especial das empresas petrolíferas. Deverá ficar sob gestão de um comitê a ser criado e a operação ficará por conta do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O que ainda causa apreensão é a cobertura da imprensa. Tive oportunidade de ler algumas matérias a respeito da pauta, para poder acompanhar melhor o processo. Boa parte dos textos é confusa principalmente para um leitor, que pela primeira vez, se deparar com o tema. O que falta é o histórico, algo imprescindível para se contextualizar a aprovação desses projetos. Parece que todo mundo foi pego de calças curtas.

* Parte 1 (post 23/08/2009 22:46)


Sucena Shkrada Resk

01/11/2009 19:11
Especial Educomunicação Ambiental (2)-Entrevista: André Trigueiro, por Sucena Shkrada Resk


O segundo entrevistado do ESPECIAL EDUCOMUNICAÇÃO AMBIENTAL, do BLOG CIDADÃOS DO MUNDO, é o jornalista ANDRÉ TRIGUEIRO. Além de comunicador, é pós-graduado em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ e professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ). Atua como apresentador do Jornal das Dez, da Globo News, e como comentarista do programa Mundo Sustentável da Rádio CBN. Recentemente lançou o livro Espiritismo e Ecologia, pela FEB. Também é coordenador editorial e um dos autores da obra Meio Ambiente no século XXI, pela Sextante (2003).

Por Sucena Shkrada Resk

Blog Cidadãos do Mundo - Qual é a importância da comunicação ambiental hoje com relação a ações práticas?

André Trigueiro – O papel da comunicação ambiental é reportar uma crise sem precedentes na história da humanidade e dar a devida compreensão e diagnóstico do que emerge das comunidades acadêmicas e científicas. Dessa forma, desperta um senso de urgência para uma nova atitude, um novo modelo de desenvolvimento, uma revisão estrutural de hábitos, de comportamento, de padrões de consumo e de modelagem de gestão pública e de gestão privada. Com isso, é possível sinalizar rumos e perspectivas e quais são os caminhos, ou seja, se a situação do jeito que está não é boa, o que é preciso fazer e de que jeito? Esse também é papel da mídia e de quem produz informação, em geral, mas acima de tudo, da educação e da comunicação.

Blog Cidadãos do Mundo - Como você analisa o papel da mídia atualmente quando trata do tema ambiental?

Trigueiro – A mídia se detém no factual, neste sentido, a grande mídia, em particular, e a maioria das segmentadas vive de notícias. A mídia pode informalmente educar ou deseducar, mas o papel do jornalista é informar. Acho que hoje, na área ambiental, estamos muito melhor do que no passado recente. Há um cuidado maior na confecção das pautas e em relação à cobertura de determinados assuntos, mas aquém do que achamos que seja um nível ótimo. Há muito o que fazer no sentido de qualificar o profissional de imprensa quanto a descobrir pautas que não sejam tão óbvias. Como também a descobrir o jeito certo de tratar a crise climática, sem fazer com que as pessoas se desmobilizem e digam que não tem jeito, já que os piores cenários estão colocados como perspectiva concreta. A calibragem desses assuntos requer certo cuidado, até porque há muito o que aprimorar e melhorar.

Blog Cidadãos do Mundo – Mas a quem cabe melhorar todo esse contexto da crise?

Trigueiro – A capilaridade da crise não distingue setores que devem agir em detrimento de outros. Eu particularmente considero que devem ser todos que têm consciência da dimensão dessa crise, que é principalmente climática, mas há outros nichos de risco de esgotamento e de colapso da capacidade dos ecossistemas suprirem, os níveis de consumo de energia absurdos, a necessidade de educação para o consumo e de uma nova maneira de enxergar e medir desenvolvimento. São demandas civilizatórias que dizem respeito a todo mundo que está vivo. Certamente, o gestor público e os dirigentes políticos do país têm uma responsabilidade maior, mas não é só deles. Sozinhos não irão resolver.

Blog Cidadãos do Mundo – Qual é o seu parecer sobre a educomunicação, já que tem um papel que não se restringe ao jornalista?

Trigueiro – Eu acho válido e pertinente. Toda a possibilidade que você tem de utilizar as ferramentas midiáticas é uma tendência inexorável. Antes de a educomunicação existir, já existia a internet e a possibilidade de qualquer pessoa ser mídia e de se comunicar. Na educomunicação, há também uma missão de identificar as pautas de interesse em sinergia com o seu público-alvo, validando o que e quem é eventualmente desprezado pela grande mídia, emprestando o microfone a essas pessoas, transformando a realidade local em área de interesse e atuação dessa ‘mídia’ para o bem. Há o empoderamento da pessoa física. Então, o mundo caminha para a possibilidade de cada um comunicar o que deseja, do jeito que bem entender, e de se fazer ouvir por meio do nível de interesse que desperte, e pela competência de comunicar o que julga importante. Dentro da educomunicação, se abre a perspectiva concreta de qualificar essa comunicação, e da responsabilidade pelo uso ético desta ferramenta.

* a entrevista de André Trigueiro sobre Educomunicação Ambiental foi concedida ao Blog Cidadãos do Mundo, durante o VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, realizado no Rio de Janeiro, em julho de 2009.

Sucena Shkrada Resk

26/10/2009 09:17
Especial Educomunicação Ambiental - Entrevista: Heitor Queiroz de Medeiros, por Sucena Shkrada Resk

ESPECIAL EDUCOMUNICAÇÃO AMBIENTAL

Por Sucena Shkrada Resk

Em entrevista concedida ao BLOG CIDADÃOS DO MUNDO, HEITOR QUEIROZ DE MEDEIROS fala sobre os caminhos da EDUCOMUNICAÇÃO AMBIENTAL no Brasil. O historiador e Doutor em Ecologia e Recursos Naturais é um dos fundadores da Revista Brasileira de Educação Ambiental. Também atua como professor-visitante na Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), na área de Mestrado em Ciências Ambientais, Departamento de Ciências Biológicas e Departamento de Agronomia.

Confira os principais trechos:

Blog Cidadãos do Mundo – Qual é o papel da Educomunicação e a sua importância no processo de empoderamento da sociedade?

Heitor - ...A educomunicação é importante pela capacidade de poder potencializar as informações em educação ambiental, principalmente com relação ao eixo não-escolarizado. É evidente, que dentro das escolas, também esse tipo de comunicação tem valor, mas é um locus específico de trabalho de professores e alunos.

Um dos grandes desafios da educação ambiental é no campo difuso e não-formal. É a capacidade de aprender a utilizar com eficiência veículos de comunicação, das mais diversas formas, sabendo que hoje no Brasil, existe um esforço muito grande na área de EA em trabalhar com o conceito Educomunicação.

Uma coisa é trabalhar a educação dentro dos veículos de comunicação de massa e utilizar a capacidade de capilaridade que eles têm. Outra coisa é você ter a capacidade de fazer com que as pessoas possam produzir os seus próprios materiais educacionais e que isso se transforme em um projeto pedagógico, desde os sinais de fumaça ou rufar de tambores aos potenciais da Internet.

O objetivo é que as pessoas conquistem autonomia, para não ficarem dependentes dos veículos de massa, que são importantes, mas também têm suas dificuldades com as linhas editoriais. Muitas vezes, estão compromissadas com o Capital e com os capitalistas, mais do que com a transformação necessária para um novo modelo de sociedade. Mas isso não significa que a gente não possa usar esse instrumento, por causa disso.

Blog Cidadãos do Mundo – Quem são os principais atores no processo de Educomunicação e como acontece a capacitação?

Heitor - A Educomunicação, na verdade, é a capacidade que você tem de utilizar as informações. Isso quer dizer utilizar a comunicação no processo do fazer pedagógico, de trabalhar na formação das pessoas, para que tenham autonomia. Daí você passa pela discussão da democratização, inclusive, dos veículos de comunicação, o que é fundamental.

Eu considero que cresce hoje no Brasil uma demanda de jovens e educadores ambientais pela melhoria da condição de trabalhar, a partir dessa proposta. É um desafio muito grande entender o que é, e como a gente faz isso.

Quanto ao aspecto de capacitação, quando se fala de política pública, não está só se tratando do Governo, mas do controle social por parte da sociedade civil. Existe uma proposta metodológica de trabalhar isso, e que o órgão gestor da Política Nacional de Educação Ambiental vem trabalhando há algum tempo. Eu acredito que isso está razoavelmente consolidado no espaço das educadoras e educadores ambientais, o que possibilita a autonomia da sociedade.


Blog Cidadãos do Mundo – Empoderar os cidadãos significa substituir o papel do poder público na EA?

Heitor - Empoderar os cidadãos não significa que o poder público não deva liderar o processo de EA. O que quero dizer é que quando o governo não tiver condições, interesse, política, vontade e dinheiro, a gente tem de ter capacidade de fazer, enquanto sociedade. Esse é o grande ‘barato’ da Educomunicação. Não pode se atrelar a uma dependência institucional do poder público, do Ministério do Meio Ambiente (MMA), que lançou a proposta conceitual para ser adotada no Brasil no ano passado (o conceito proposto hoje pela educomunicação vem amadurecendo, pelo o menos há três décadas, na América Latina, com educadores como Paulo Freire e se estruturando com mais ênfase, a partir da Rio 92). Não podemos esquecer que a pasta tem o menor orçamento da Esplanada dos Ministérios, o que implica um contexto complexo.

Existe recurso para destruir a natureza, para a agricultura, para fazer (péssima) política na área da saúde, que são áreas que dão visibilidade aos políticos, mas no segmento ambiental, os recursos são muito poucos. Acredito que hoje, no MMA, teremos muita dificuldade para potencializar as políticas anteriores. Em contrapartida, acho que temos um conceito estabelecido e experiências no país, que mostram que isso é possível a sociedade se apropriar disso, e dar continuidade no processo.

Blog Cidadãos do Mundo – Pode citar algum exemplo?

Heitor - Os Coletivos Jovens (CJs) do Meio Ambiente, articulados pelo órgão gestor e principalmente pelo Ministério da Educação (MEC), hoje têm capilaridade no Brasil inteiro. Eu venho da velha militância do Movimento Ecológico e sempre faço uma autocrítica, dizendo que um dos maiores erros nossos foi não investir intencionalmente em novas lideranças.

Os CJs são essas novas lideranças...trabalhando com uma lógica muito bacana, pois não querem tutela para agir. O repertório e práticas de Educomunicação estão no repertório deles. Isso é um dos exemplos concretos. A proposta desses jovens é “meio anárquica”, pois se já se envelhece e vira burocrata, quando é jovem, não há salvação para o planeta.

Blog Cidadãos do Mundo – Fale sobre a proposta da Revista Brasileira da Educação Ambiental.

Heitor - Em 2004, eu e a professora Michelle Sato (bióloga, mestre em Filosofia e pós-doutora em Educação), por meio da Rede Matogrossense de Educação Ambiental, chegamos à conclusão, que uma das contribuições que poderíamos dar à REBEA, seria editar uma revista específica de EA, que não tivesse proposta de ser só acadêmica, porque diversas universidades já mantêm esse trabalho. Assim, surgiu a Revista Brasileira de Educação Ambiental, da REBEA, com proposta de publicar experiências de EA no Brasil inteiro, para dar visibilidade a essas publicações, sem excluir trabalhos científicos. Temos cinco exemplares até agora, sendo que o quinto foi lançado no VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental.

A ideia é que a revista não tenha ‘dono’, pois queremos trabalhar com a cultura de rede e horizontalidade. Achamos por bem, que a cada ano do Fórum se mude a coordenação editorial, que agora passará a dois professores-doutores - José Vicente de Freitas e Maria do Carmo Galiazzi- ambos da Universidade do Rio Grande (FURG), que tem mestrado em EA. Com isso, eu e Michelle passamos para o Conselho Editorial. Essa proposta de alterações na coordenação editorial deve prosseguir a cada Fórum, como forma de democratizar o processo de construção da publicação.


* a entrevista de Heitor Queiróz de Medeiros sobre Educomunicação Ambiental foi concedida ao Blog Cidadãos do Mundo, durante o VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, realizado no Rio de Janeiro, em julho de 2009.


Sucena Shkrada Resk

24/10/2009 23:15
A fome não tem fronteiras, por Sucena Shkrada Resk

Mais de um sexto da população mundial, ou seja, um número superior a 1 bilhão de pessoas são subnutridas, segundo dados recentes divulgados pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Em 2007, eram 800 milhões. Houve um acréscimo acima de 200 mi homens, mulheres e crianças pelo planeta. No Brasil, a estimativa é que hoje cerca de 15 milhões de cidadãos estão em condições de insegurança alimentar. A afirmação é do diretor do IBASE, Chico Menezes, em entrevista concedida ao Informe Ensp, da Escola de Saúde Pública da Fiocruz, neste mês. Esses dados escondem histórias de vida, valores e ideais submersos no modelo de desenvolvimento impiedoso em que vivemos, que não tem fronteiras.

Isso tudo quer dizer que seres humanos definham em todos os continentes pela escassez de quantidade e qualidade dos alimentos. Cerca de 25 mil pessoas morrem todos os dias de fome. É extremamente angustiante ver crianças privadas do crescimento, magérrimas, com o olhar perdido e as energias se esvaindo. Adultos sem sentidos, esqualidos ao chão, muitas vezes, esquecidos pela sociedade, pelos governos...na verdade, por todos nós.
Enquanto esse panorama só se acentua, com o passar dos anos, vemos em contrapartida, países que se armam cada vez mais e gastos homéricos em obras faraônicas a título da ganância. De acordo com o relatório anual do Instituto Internacional de Pesquisas de Paz de Estocolmo, os gastos militares no mundo, no ano passado, chegaram a US$ 1.464 bilhão. Ainda soma-se políticas agrícolas e de geração de renda desastrosas, desperdícios que chegam até a 30% da produção mundial, crise econômica e mudanças climáticas.

Com a estimativa de que em 2050, a população planetária passará a 9,1 bi de pessoas, não há tempo a perder. Segundo a FAO, países pobres precisam de ajuda de pelo o menos US$ 44 bi. Hoje o valor é de cerca de US$ 7,6 bi.

Com todas essas discrepâncias, fica difícil vislumbrar o cumprimento de uma das metas dos Objetivos do Milênio, da Organização das Nações Unidas, que é: erradicar a extrema pobreza e a fome. Segundo a instituição, o total de pessoas em países em desenvolvimento que vivem com menos de um dólar ao dia caiu para 980 milhões em 2004, contra 1,25 bilhão em 1990. As desigualdades regionais, por sua vez, continuam latentes.

América Latina, Caribe e África Subsaariana são as regiões que mais pendem negativamente nesta balança, com dois pesos e medidas. O prognóstico da ONU é que se este modelo de progresso permanecer, em 2015 ainda haverá 30 milhões de crianças abaixo do peso no sul da Ásia e na África.

Quando se trata de personificar a pobreza, daí o mundo lembra do continente africano, que agrupa os países com menor índice de desenvolvimento humano (IDH) mundial. As economias mais ricas, no entanto, pouco se importam com as pessoas que padecem no Níger, Afeganistão ou em Serra Leoa, entre outras dezenas de países, como nações-irmãs brasileiras de Língua Portuguesa. Aliás, vale destacar que houve um Acordo Ortográfico, mas que, no entanto, não incorpora um sentido mais amplo de cooperação socioeconômica e cultural.

Tantos senões e poréns, que esgotam vidas. Quem sabe, o mundo queira se mudar para a Noruega ou para Austrália, que estão no topo da qualidade de vida? Como é possível, historicamente se passar séculos, e a situação geopolítica pouco avançar?

Quando voltamos nossos olhos para o Brasil, observamos que os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD 2008), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que houve a diminuição dos extremamentes pobres no país, do percentual de 22,1% em 1980 para 8,8% em 2008, em gráficos analisados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Do ponto de vista matemático é positivo, mas no aspecto humano lamentável.

O abismo entre ricos e pobres ainda é enorme. Em 2008, a parcela 10% mais rica da população concentrava 42,7% dos rendimentos do trabalho. Já os 10% mais pobres com 1,2%. Os direitos mais básicos como saneamento são vergonhosos. Um em cada quatro lares brasileiros não possui rede de esgoto.

Esse é o retrato da fome humanitária, de humanidade, de alimentos e de ética planetária, ao qual não podemos nos habituar, somente porque não bateu à nossa porta.
Sucena Shkrada Resk

19/10/2009 11:54
Economia da biomassa x combustíveis fósseis, por Sucena Shkrada Resk

Um dia acaba. Essa máxima provada cientificamente sobre a finitude dos combustíveis fósseis ainda é uma informação trabalhada com 'pouco' rigor nos planos de longo prazo no modelo capitalista mundial. Fala-se muito em tecnologias limpas, energia renovável, mas as ações neste sentido, não acompanham a velocidade das necessidades e alertas da pegada ecológica. Consumimos, na verdade, a energia vital, ao manter o atual modelo civilizatório. Com isso, a 'economia da biomassa' tem o papel de reverter esse paradigma, segundo o doutor em Física, José Goldemberg.

A biomassa se trata de todo recurso renovável oriundo de matéria orgânica (de origem animal ou vegetal) que pode ser utilizada na produção de energia. Assim como a energia hidráulica e outras fontes renováveis, é uma forma indireta de energia solar, que se converte em energia química, por meio da fotossíntese, base dos processos biológicos de todos os seres vivos (Fonte: ANEEL).

Mas para que o conhecimento seja de acesso à toda sociedade, o ex-secretário de estado do Meio Ambiente de São Paulo e atual co-Presidente do Global Energy Assessment defende que as informações da área enérgica sejam esclarecidas, de forma didática à população.

Segundo o pesquisador, atualmente o quadro de toda energia produzida mundialmente é o seguinte:
33% (petróleo)
27% (carvão)
20% (gás natural)
O restante se divide em 7,9% (biomassa tradicional), 6% (energia nuclear), 2,96% (novas renováveis) e 1,83% (biomassa moderna -a madeira na forma de briquetes, como carvão e licor negro.).

"Os combustíveis fósseis não durarão para sempre. Estima-se que a duração média das reservas de petróleo seja de 41 anos, e do gás natural, de 63 anos. O problema não é esse período, mas a perturbação causada no mercado suprido por esses combustíveis. O Pré-Sal pode ajudar, mas só por alguns anos", analisa Goldemberg. Diante desse contexto, está a importância do estímulo à produção de biomassa.

Como argumento, o especialista cita o etanol ou o bioetanol, proveniente da cana-de-açúcar, que é o caso brasileiro. "É mais atraente, porque a energia solar é liquefeita pelo processo de fotossíntese. Já na experiência norte-americana, com o milho, há o processo de sacarização", diz.

Goldemberg explica que essa afirmação significa o seguinte. Para se entender o benefício, se deve fazer o cálculo do balanço energético, que é a divisão da energia contida em 1l de álcool pela energia fóssil para produzi-la.

"Para o etanol de cana-de-açúcar, são utilizados 20% de fóssil, diferentemente do milho, em que há a predominância do uso do combustível fóssil", afirma.

Quanto ao biodiesel, segundo o físico, o melhor desempenho se dá com a matriz oriunda do óleo de palma. "Já os piores, são provenientes da soja e da colza", fala.

Goldemberg também tece críticas a afirmações de que o aumento de áreas de cultivo de cana-de-açúcar, pode prejudicar a alimentação. No âmbito do Estado de São Paulo, ele afirma que a maior parte se encontra em antigos pastos degradados. "Os dados sobre que o aumento do etanol pode aumentar a fome no mundo é uma informação intelectual estranha e infundada", defende. São Paulo, de acordo com o Sistema de Acompanhamento da Produção Canavieira, do Governo Federal, responde por 61,1% da produção etanol nacional.

Segundo o físico, o Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo (Biota), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), iniciado em 1999, mapeou as áreas críticas quanto à biodiversidade, e as incorporou ao zoneamento agroambiental para o setor sucroalcooleiro do estado, lançado neste ano. "Há 6,7 mi hectares inadequados e 5,5 mil adequados, com limitações", explica. Isso quer dizer que são áreas nas quais não deve haver o cultivo.

Humanização não pode ser esquecida

Mais um aspecto que envolve o tema é quanto à substituição gradativa do corte manual da cana pelo motorizado, a partir de 2003. "Os canavieiros tinham condições de vida difíceis, além do problema das queimadas. Hoje metade da colheita é realizada com máquinas. A geração de bioeletricidade com bagaço da cana se tornou uma atividade importante para a redução das emissões de carbono", diz.

Goldemberg desenvolveu a palestra sobre a Economia da Biomassa, durante o evento Diálogos Capitais, realizado no último dia 13, pela Revista Carta Capital e o site Envolverde, em São Paulo.

No âmbito nacional, é preciso destacar que recentemente foi aprovado o Compromisso Nacional - Aperfeiçoar as condições de trabalho da cana-de-açúcar. Os atores envolvidos nesses processo são: Fórum Nacional Sucroenergético, União da Agroindústria Canavieira do Estado de São Paulo (UNICA), Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG) e Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo (FERAESP).
Na esfera ministerial: Casa Civil; Agricul tura, Pecuária e Abastecimento (MAPA); Trabalho e Emprego (MTE); Educação (MEC); Desenvolvimento Agrário (MDA); Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS); Turismo e Secretaria-Geral da Presidência da República.

O interessante é ainda observar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em declaração divulgada pela Agência Brasil, em 1º de junho deste ano, disse - "O Brasil há 35 anos produz etanol, que é um combustível que emite 90% menos gases do efeito estufa do que os combustíveis fósseis. Só por essa razão, já era preciso a gente mudar a nossa matriz energética para os biocombustíveis". (reportagem Lula destaca o etanol como combustível limpo, de Daniel Mello, editada por Aécio Amado).

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, por meio da Secretaria de Produção e Agroenergia, também produziu o Plano Nacional de Agroenergia 2006-2011 (http://www.agricultura.gov.br/pls/portal/docs/PAGE/MAPA/PLANOS/PNA_2006_2011/PLANO%20NACIONAL%20DE%20AGROENERGIA%202006%20-%202011-%20PORTUGUES.PDF).
Sucena Shkrada Resk

18/10/2009 19:40
Os muros ambientais brasileiros, por Sucena Shkrada Resk

A cada dia, os muros simbólicos ambientais estabelecem a dicotomia da pauta das mudanças climáticas. Ao se fazer o cruzamento de dados sobre o Pré-Sal com o Plano Decenal de Expansão de Energia Brasileira 2008/2017 e com o Plano Nacional sobre a Mudança do Clima, do final do ano passado, se gera, no mínimo, rupturas de propostas quanto à política de adoção de energia limpa, em vigor no Brasil.

Para aumentar a polêmica quanto aos rumos da redução de gases de efeito estufa (GEEs) nacional - que incorporam prioritariamente a questão do desmatamento - surge o conflito quanto aos percentuais discutidos atualmente entre o Ministério do Meio Ambiente e demais ministérios estratégicos do governo, capitaneados pela Casa Civil: 40% x 20% até 2020 com relação aos níveis atuais. O pivô da discórdia, em tese, se pauta no percentual de crescimento do país e no desafio do cumprimento x credibilidade brasileira no cenário internacional.

Segundo Sérgio Serra, embaixador extraordinário do Brasil para a mudança do clima do Ministério das Relações Exteriores (MRE), o Brasil não discutirá o Pré-Sal em Copenhague. "É um desafio para 2020, que será um problema a ser resolvido por futuros governantes", diz. A afirmação foi feita, ao ser perguntado sobre o tema pelo Blog Cidadãos do Mundo, durante o intervalo do evento Diálogos Capitais, realizado no último dia 13, em São Paulo. O encontro foi promovido pela Revista Carta Capital com correalização da Envolverde.

Serra analisa que o desafio hoje é 'não se cair na tentação de reverter os avanços em energia limpa e sucatear programas, como ocorreu com o Pró-Alcool. "E de não haver investimento no potencial eólico e solar", diz.

Segundo o Ministério de Minas e Energia, hoje 85% de nossa matriz energética são limpas, oriundas das hidrelétricas, e 15% são provenientes de térmicas de carvão, gás, diesel, em períodos de pico de consumo. O parque eólico do país ainda é 'tímido', mas o governo já anunciou, que a política no setor será de investir mais nesse potencial, por meio dos leilões, que foram reiterados na Carta dos Ventos aprovada, em junho deste ano, após o I Fórum Nacional Eólico. Por outro lado, os projetos do governo com relação a grandes hidrelétricas e termelétricas causam polêmica.

No campo da redução das GEEs, o fato de o desmatamento da Amazônia brasileira contribuir para 2,5% das emissões globais, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), requer uma posição mais enfática do país no cenário geopolítico. O presidente Lula já descartou a possibilidade de se assumir o desmatamento zero. O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, propôs redução de 80%. Até agora, no entanto, não se sabe o que será levado à mesa de discussão, na Dinamarca.

O que emperra consensos, pelo o visto, gira em torno do Produto Interno Bruto (PIB). A ministra Dilma Rousseff pediu estudo de novos cenários de redução de emissões gerais do país, que estabeleçam a possibilidade de crescimento de até 6% até 2020. Os dados apresentados pelo ministro do Meio Ambiente Carlos Minc, se pautam em 4%, tendo como premissa os 80% de redução de desmatamento e o restante, com relação aos demais biomas, além da ampliação da matriz energética limpa. Agora, o governo tem como grande desafio estabelecer uma meta, antes da COP-15, que quebre esses 'muros'.

Bater o martelo para parâmetros também esbarra na atualização do inventário de emissão de GEE, que está sendo produzido pelo Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT), com dados estimados até 2005. O anterior correspondeu ao período de 90-94. "A COP-15 não exige a apresentação do inventário, que deverá ser concluído no primeiro semestre do ano que vem", argumentou Serra, ao ser questionado pelo Blog Cidadãos do Mundo.

Quanto a intervenções de adaptação e, inclusive de mitigação, o embaixador afirma que o principal documento, que deverá ser concluído a tempo, para a COP-15, é o Estudo Econômico das Mudanças Climáticas no Brasil, sob conselho consultivo da Academia Brasileira de Ciências (http://www.economiadoclima.org.br). "O que já é certo são cenários relativos ao aumento do nível do mar que algumas culturas da agricultura terão de migrar até 2050 e o fim do século, por causa da falta de água". Entre elas, Serra cita a soja.
Sucena Shkrada Resk

12/10/2009 11:38
Brasil: Estamos preparados para envelhecer?, por Sucena Shkrada Resk

A partir de 2030, o Brasil deve ter um decréscimo no número absoluto de cidadãos. Segundo dados divulgados recentemente pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), há uma tendência da aceleração do perfil de envelhecimento da população ao analisar as informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD-2008/IBGE). Atualmente a média de filhos por uma mulher é de 1,8, abaixo da estabelecida para a reposição populacional, que seria de 2,8. Com esse prognóstico, o importante é interpretar o que tudo isso significa no aspecto da gestão pública e de implicações na qualidade de vida.

A média de vida do brasileiro prevista para 2010 é de 73,4 anos. Será que a expectativa também aumentará tal qual o Japão, que já registra mais de 40 mil idosos com idade superior a 100 anos? Acho um pouco improvável, se o modelo econômico continuar priorizando a insustentabilidade. Um questionamento que começa a se difundir é se, por outro lado, a Previdência Social também não será uma bolha prestes a explodir. Afinal, quem pagará a conta?

Hoje o salário mínimo é aquém do custo de vida e representa o provento da maioria dos idosos do país, cerca de 18 mi benefícios, ou seja, 66,80% do total, segundo a Previdência Social. Aproximadamente 1% vive em abrigos públicos e privados, com condições dignas a desejar, conforme relatado na 2ª Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa (CNDPI), que foi realizada neste ano. Isso infere desde condições sanitárias à violência.

Com R$ 465,00, para garantir a sobrevivência mensal, os malabarismos são quase pirotécnicos. Milhares de idosos não têm imóvel próprio, tomam medicamentos de uso contínuo, que por muitas vezes, não estão à disposição nas farmácias das unidades básicas de saúde (UBS), têm de pagar contas de água, de luz e, quando dá, de telefone. E obviamente, não podemos esquecer, precisam se alimentar dignamente e ter o mínimo de lazer.

Quando observamos que o valor da cesta básica no município de São Paulo (em 8 de outubro), é de R$ 281,70, segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e de Estudos Socioeconômicos (Dieese) e da Fundação Procon SP, o quadro se torna mais alarmante. Diante disso, não é preciso ser matemático, para verificar que sobreviver é difícil.

Outro aspecto a salientar é que, apesar da aposentadoria, muitos idosos se veem obrigados a continuar a trabalhar, para complementar o orçamento. Nem sempre podem contar com a ajuda da família. E em inúmeros casos, são o arrimo de família.

Há mercado de trabalho para absorver essa clientela cada vez mais numerosa? O que é possível detectar hoje são os empregos informais, que vão desde serviços domésticos e de limpeza em geral, de empacotamento em hipermercados a atendimento ao público. Enfim, precisamos exercitar esse olhar holístico para o presente e futuro em andamento. E indagarmos se estamos preparados para envelhecer e o que podemos fazer para que nós, nossos filhos e netos tenhamos qualidade de vida.
Sucena Shkrada Resk

11/10/2009 18:16
Experiência mexicana x mudanças climáticas, por Sucena Shkrada Resk

O México hoje mantém uma Estratégia Nacional de Mudança Climática, que estabelece reduções da emissão de Gases de Efeito Estufa (GEEs) até 2015, entre outros cenários. Segundo Marco Antonio Herrera García, da Rede Estatal de Monitoramento Atmosférico, um dos eixos está sendo trabalhado de forma articulada, com as indústrias automobilísticas. Vale lembrar que o país tem uma população estimada superior a 106 mi habitantes e é um dos maiores produtores de petróleo no mundo, de onde provém uma parte significativa da receita do país. Isso faz com que suas iniciativas requeiram principalmente mudanças de modelo econômico, o que não é uma tarefa fácil.

"O grande gargalo, aqui no México, entretanto, é a fuga de especialistas", afirma. Por isso, segundo ele, uma das propostas que ganha mais fôlego no país é a construção de um Sistema de Inteligência da Informação da Mudança Climática, que envolva outras nações latino-americanas. "Assim será possível constituir um modelo de inovação, com linguagem acessível ao técnico, ao gestor e à população. Se quem toma a decisão não entende o dado científico, não há sentido para tudo que fazemos", analisa.

Para isso, começou a implementação um portal de informação na WEB, que é uma das primeiras plataformas orientadas de mudanças climáticas em andamento, de acordo com García. "A meta é que seja um meio de comparação entre os países e que produza informações em tempo real, com rede de cadeiras produtivas sustentáveis", diz.

"O conteúdo da plataforma é um meio de se traduzir inventários de GEE, por exemplo, para que gestores tomem decisões corretas por meio de georreferência", diz o mexicano. As comunidades de rede podem quebrar dificuldades do universo do tecnólogo. É interessante criar um 'climapedia' multimídia", como se fosse um orkut", diz.

Panorama de Puebla

Combustíveis fósseis, vulnerabilidade a novos tipos de furacões e desmatamento. Aí estão alguns eixos monitorados pelo estado de Puebla, no México, segundo García, que é um dos mais importantes do país. São feitas triagens por setor, desde o agrícola até o energético, com a construção de cenários até 2030.

Estabelecer a mitigação é um ponto prioritário do plano desenvolvido pelo Estado. "Envolve ações de reflorestamento, utilização de biodigestores, implementações de fornos que funcionam com infra-vermelho para a fabricação de tijolos e estufas próprias rurais, entre outros", explica. No campo da adaptação, de acordo com García, são seguidos os mesmos princípios.

Cárpio concorda com a importância estratégica da transversalidade na política, também destacada pelo o equatoriano Paúl Carrasco Carpio, presidente da Organização Latinoamericana de Governos Regionais (OLAGI). "Se não forem incorporadas as diferenças socioeconômicas, será difícil incorporar mudanças. Aqui, foi elaborado um programa de gestão de qualidade, com 39 linhas, Entre eles, se destaca o aspecto da educação (cultura local/informação educacional formal e não-formal) multissetorial", diz.

Com essa proposta, é planejada a construção de um Planetário de Mudanças Climáticas e da 24ª estação de monitoramento climático global, próximo a um vulcão de 4,5 mil, que é considerado um dos pontos mais altos do mundo.


García foi um dos convidados do Seminário Internacional sobre Mudanças Climáticas nos Estados e Regiões, promovido pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) com colaboração da OLAGI.
Sucena Shkrada Resk

11/10/2009 14:26
A América Latina e as Mudanças Climáticas, por Sucena Shkrada Resk

Muito se fala em Mudanças Climáticas, mas pouco se expõe sobre as discussões que ocorrem na América Latina. Ao ouvir, em setembro, a exposição do governador da Província equatoriana de Azuay, o engenheiro agropecuário, Pául Carrasco Carpio, atual presidente da Organização Latinoamericana de Governos Regionais (OLAGI), comecei a refletir como a cobertura da mídia segrega as fontes. Isso, na verdade, é um problema crônico cultural, que envolve a pirâmide do status de desenvolvimento no modelo Capitalista. O gestor se apresentou, durante o Seminário Internacional sobre Mudanças Climáticas nos Estados e Regiões, promovido pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e pela instituição regional.

"Defendemos a ideia de se formar uma rede latinoamericana, para que tenhamos propostas conjuntas e uma só posição para poder apresentar na 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro da Organização das Nações Unidas em Mudanças Climáticas (COP-15)", diz Carpio. Segundo ele, uma das principais dificuldades é justamente tecer a articulação com a Globalização.

Em sua análise, os produtores de alta tecnologia serão os mais afetados pelas Mudanças Climáticas, na AL. "Segundo o Banco Mundial (BIRD), a economia da América do Sul também deverá sofrer uma queda de 12 a 50%. Doenças antigas, como malária e dengue já começam a migrar para outros locais", contextualiza.

As calamidade enfrentadas pela AL, Caribe e América do sul são responsáveis, hoje, por 12% das emissões de carbono. "Mas quando se fala do tema, só se menciona, por exemplo, o Brasil, México e Chile. Uruguai, Bolívia e Peru ficam de fora. Ninguém toca na situação desses países", critica.

Para que não haja essa fragmentação, o presidente da OLAGI acredita que a saída está na gestão integrada, por meio de importantes redes sociais, acordos públicos e políticos. "É fundamental que os cidadãos tenham controle social sobre as propostas na área ambiental", considera.

Mais ações necessárias, segundo Carpio, são a adaptação do marco jurídico nacional para um adequado manejo ambiental e a implementação do sistema territorial de gestão ambiental, que permita as alianças público-privadas. "Mas na grande maioria dos países, os modelos são centralizados", afirma. Isso, na visão do presidente da OLAGI, enfraquece a mobilização. "Sem haver o envolvimento de todos os atores, é impossível se reconhecer as realidades locais", diz.


Sucena Shkrada Resk

09/10/2009 18:40
Transversalidade é aspecto indispensável à discussão das mudanças climáticas, por Sucena S.Resk

Nem oito, nem oitenta. A transversalidade é o caminho do meio para a discussão do tema mudanças climáticas. Com essa tônica, a secretária-executiva do Fórum Paranaense de Mudanças Climáticas Globais, Manyu Chang, explica a importância de se estabelecer a plataforma de discussão, que reúne sociedade civil, academia e terceiro setor, além do governo. O grupo hoje se soma a mais 13 em atividade no país.

"O nosso fórum foi o segundo no Brasil, formado em 2005. Até 2008, podemos dizer que a composição era 'chapa branca'. Daí houve a reestruturação, chegando a 64 instituições. Agora, nunca fica fechada a entrada de novos membros. Basta encaminhar o ofício à Secretaria de Estado do Meio Ambiente", explica.

Para conseguir contemplar o máximo de pautas da agenda climática, Manyu explica que foram criadas câmaras temáticas similares ao Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Entre os assuntos, estão: adaptação, mitigação, educação ambiental e comunicação social, neutralização de CO2 e pesquisa. O principal objetivo hoje é subsidiar o projeto de elaboração da Política Estadual de Mudanças Climáticas. A expectativa é que até o final do ano seja aprovada.

Não perder de vista os desafios é algo importante, segundo Manyu. "Como há interesses diversos, temos de constituir grupos com afinidades", diz. Atualmente o trabalho de ampliação do alcance do fórum é um dos principais enfoques do grupo paranaense. "Estamos saindo do âmbito de Curitiba, ao capacitar outros municípios", diz. Em outra ponta, a atenção está voltada à confecção do inventário do setor de resíduos, que teve como parâmetro, os dados disponibilizados pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB), com a Rede Nacional de Inventários do Setor de Resíduos. O mais complexo, entretanto, é fazer o mapeamento das vulnerabilidades do estado, de acordo com a secretária-executiva do Fórum.

Segundo ela, a desmotivação não pode predominar, por isso, se estrutura a governança com a participação da população. A comunicação tem um papel importante neste processo, em sua opinião. "Criamos um folder com 101 dicas para reduzir as mudanças climáticas, como também um boletim sobre possibilidade de ações municipais, que estão sendo distribuídos nas cidades do Estado".

No município de Lapa, começou a ser realizado um projeto-piloto em escolas, com o objetivo de que façam seus inventários e multipliquem a discussão sobre consumo consciente. "Também estão sendo construídos aquecedores solares nas unidades escolares e em creches", diz.

O Fórum acompanha ainda o Projeto Carbono Florestal, que tem como meta incentivar pequenas propriedades a recuperar o passivo ambiental. "Com isso, também incentivamos que as empresas façam seus inventários corporativos", afirma.

"Transversalidade é trabalhar em conjunto para o mesmo fim", define a secretária-executiva do Fórum Paranaense de Mudanças Climáticas Globais. A estrutura da organização ganhou mais força, pois legalmente foi instituído por lei. "Independente de gestão não pode ser interrompido", afirma.

Manyu foi uma das participantes do Seminário Internacional sobre Mudanças Climáticas nos Estados e Regiões, promovido pela CETESB, em São Paulo, no mês de setembro, com a cooperação da Organização Latinoamericana de Governos Regionais (OLAGI).
Sucena Shkrada Resk

06/10/2009 19:20
Lixo como fonte de energia e investimento em mitigação, por Sucena Shkrada Resk

No mês passado, tive a oportunidade de conhecer a Usina Termelétrica Biogás, em funcionamento desde 2003, no antigo Aterro (público) Sanitário Bandeirantes, na região de Perus, em São Paulo - unidade desativada pela Prefeitura em 2007. A tecnologia, que é adotada como uma forma de 'mitigar' a emissão dos gases de Efeito Estufa na atmosfera (GEE) - em especial, o metano (CH4)- também representa uma importante fonte de entrada de recursos para a Prefeitura de São Paulo, que o cidadão tem o direito e dever de acompanhar a destinação. A aplicação deve ser feita na recuperação da área e do em torno, que vai além de construção de praças (http://www.prefeitura.sp.gov.br/portal/a_cidade/noticias/index.php?p=28461). O interessante seria haver um canal de comunicação com a sociedade, com informações atualizadas sobre esses investimentos e discussão em audiências sobre ações de benfeitorias na comunidade.

Com a implementação do mercado de carbono, metade dos créditos fica com a empresa Biogás, que detém a concessão da geração de energia, e a outra metade com o poder público. A implementação do projeto ocorre por meio do dispositivo de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), aprovado pelo Protocolo de Kyoto, sob a fiscalização da Organização das Nações Unidas (ONU). De acordo com o engenheiro Antônio Carlos Delbin, diretor técnico da Biogás, a instalação da empresa teve um custo aproximado de US$ 200 mil. Esse custo foi recuperado em pouco tempo, o que demonstra que é um mercado rentável, tanto ambientalmente como financeiramente.

"Junto com a outra usina mantida pela empresa no Aterro Público Sanitário São João, desde 2005, já houve a arrecadação de cerca de R$ 71 mi em créditos de carbono (para a Biogás, e mais R$ 71 mi para a Prefeitura) em leilões na bolsa de valores, a partir de 2007", explicou Delbin. A informação foi prestada a um grupo, no qual eu estava, integrante do Seminário Internacional Sobre Mudanças Climáticas nos Estados e Regiões, promovido pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). A visita monitorada à usina ocorreu, no último dia 24.

Cada tonelada de metano que deixa de ser jogada na atmosfera vale um “crédito de carbono”, que pode ser comprado por países desenvolvidos para atingir suas metas de redução de emissões. Apesar de ser uma 'lógica' ainda polêmica, a ser revisada durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP-15), é hoje um dos caminhos efetivos adotados para reduzir os danos da poluição em países em desenvolvimento. Em São Paulo, as negociações ocorrem na BM&F Bovespa.

No caso das duas usinas, a energia gerada segue para a Estação da AES Eletropaulo. Com isso, uma instituição financeira, cliente da Biogás, abate a remessa na conta de energia de suas agências, contraída com a concessionária.

"A expectativa é que a usina no Aterro Bandeirantes permaneça durante quinze anos por aqui, que é o período estimado de vida útil para a extração dos gases, apesar de a concessão ser de 30", diz Delbin. Atualmente a unidade capta 6,5 mil m3 de gás diariamente, abaixo de sua capacidade de 12 mil m3, e passa por manutenção de suas redes de captação de drenagem, para aumentar novamente o volume de produção.

Com esse desempenho, 780 ton de CO2e deixam de ir para a atmosfera, mas esse número já chegou a ser superior a 1 mil ton de CO2e, segundo o engenheiro. Somente quando há excesso de produção, há a queima dos gases, e segue para a atmosfera, somente o CO2.


Sucena Shkrada Resk

04/10/2009 11:12
Poluição: a importância da pesquisa, por Sucena Shkrada Resk

Inferir externalidades é algo crucial para a constituição das políticas públicas. A análise é do patologista Paulo Saldiva, coordenador do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) . "Com essa concepção, atualmente está sendo realizada uma pesquisa que envolve cerca de 90 pesquisadores, nos estados de MG, MS, MT, PA, PE, PR, RN, RJ, RS e SP, que tem como tema - "Qual é o risco de adoecimento face à nova política energética?". A iniciativa tem apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp), entre outras instituições.

O aspecto interessante do trabalho, de acordo com Saldiva, é que respeita as características regionais. "Em São Paulo, por exemplo, estamos verificando o dia a dia de pessoas que passam muito tempo na rua e no tráfego, como motoristas de táxi e gestantes. Em Ribeirão Preto, a situação do trabalhador dos canaviais, durante e fora da colheita. No RN, são avaliados trabalhadores envolvidos na produção do caju. Já no Pará, no município de Barcarena, o impacto da exposição ao carvão", explica. A ação integra os projetos do Instituto Nacional de Análise Integrada do Risco Ambiental (www.inaira.org).

O patologista analisa que quando se trata de regiões metropolitanas, principalmente no caso da Grande São Paulo, a utilização do combustível fóssil (gasolina e diesel) é um fator comprometedor, que não pode ser 'banalizado'.

"Quanto à gasolina, os motores permitem um pós-tratamento com o catalisador. Mesmo assim, a quantidade de componentes cancerígenos, que não é retida, está numa proporção de menos de 1/3 comparado ao diesel, o que não pode ser desprezado. Essa proporção ao ser multiplicada por cerca de 16 mi pessoas (Grande São Paulo) se torna um caso de saúde pública", diz.

Mais uma questão relevante, em sua opinião, é o fato de modelos antigos de caminhões com vida média útil de 15 anos circularem ainda com quantidade de enxofre signicativa no diesel. "Somente o modelo de motor Euro-5 adianta (adotado já na Europa e que deve ser implementado no país a partir de 2013), que permitirá a adoção de 10 partes por milhão (ppm) de enxofre na composição do diesel. Mas os modelos antigos poderão circular até 2020. Com isso, o coeficiente de mortalidade crônica aumenta. Em São Paulo, a estimativa é que 14 mil pessoas a mais terão sua vida encurtada em pelo o menos um ano", afirma.


Sucena Shkrada Resk

27/09/2009 11:52
Quem está disposto a mudar hábitos?, por Sucena Shkrada Resk

A Semana do Dia Mundial Sem Carro (22 de setembro) refletiu o quanto ainda a sociedade de consumo e nossos gestores públicos engatinham no quesito do consumo consciente. Ao me deslocar de São Caetano do Sul a São Paulo, para participar de eventos, que tratavam do tema, observei o que intitulo de 'esquizofrenia urbana', na Grande São Paulo. Eu me sinto à vontade para falar do tema, porque sou usuária diária do transporte público, seja ele, ônibus, trem ou metrô. Não possuo carro, e não pretendo adquirir um.

Enquanto integrantes do Movimento Tic Tac Tic Tac chamavam a atenção dos pedestres na avenida Paulista, para a questão das Mudanças Climáticas e sobre o encontro da COP-15 (Copenhague, dezembro); os faróis estavam abarrotados de veículos somente com a presença do motorista. Será que alguém pensava em carona solidária? A mesma situação contrastante ao frenético movimento de nossas ruas se configurava no auditório da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com evento coordenado pelo Movimento Nossa São Paulo. Especialistas discutiam "O Impacto da poluição sobre a saúde pública" e a fumaça dos veículos penetravam nos nossos poros, na avenida Doutor Arnaldo e imediações.

Percebi o quanto a política de transporte equivocada por décadas compromete nossa qualidade de vida. A extensão do metrô em São Paulo chega a ser pífia, quando comparada a grandes metrópoles. Tem 61,3 km e 20 km em construção. O metrô de Nova York, por exemplo, tem mais de mil km, com 468 estações distribuídas em 26 linhas e está crescendo, porque já não comporta a população.

Planejamento urbano, políticas públicas, planos diretores conscientes do crescimento populacional a longo prazo...São discussões tão prementes, mas tão ausentes na pauta fixa de nossas cidades. Não me restrinjo a São Paulo, mas amplio o escopo ao Brasil. E ainda estou em uma situação cômoda como usuária frente a pessoas que moram em bairros nos extremos da Zona Leste e Zona Sul paulistanas, que padecem horas em ônibus lotados, e se veem humilhadas todo dia, quando chegam em casa literalmente amassadas, suadas e desgastadas por essa sequência de empurra-empurra, constrangimento, atrasos...Não é a mesma coisa de você estar próximo ao centro, em que apesar de também adensado, oferece mais alternativas.

Sinceramente gostaria de ver todos os nossos políticos, gestores, cabeças pensantes, catedráticos exercitarem o que a grande parte da população vive. Não apenas fazerem lindos discursos. Sentir medo de ser empurrado na hora de entrar ou sair de um trem ou então, nem conseguir sair na estação que deveria, devido ao paredão de pessoas que impedem a locomoção. Isso é trabalho de campo, sensibilização. Uma das cenas mais tristes é ver uma pessoa com os olhos arregalados, dando cotoveladas, xingando, porque quer sair ou entrar de um meio de transporte. A que ponto chegamos...Se fosse feito um estudo, com certeza, a psicologia social e a saúde ambiental teriam muito a se aprofundar nesse contexto.

Quando vejo cidades, como São Caetano do Sul, que tem o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, circunscrita a 15 km 2 se verticalizando de forma assustadora, minha reflexão segue para os anos 2020, 2030...Hoje são cerca de 300 edifícios sendo erguidos. Será que há um planejamento, que infira o impacto desse acréscimo de população, veículos, tráfego, rotas de desvio...e vou mais longe, da sobrecarga na rede de esgoto, lixo...Alguém pensa que tudo isso pode contribuir para o volume de cheias?

Para onde as nossas cidades caminham? O Rodoanel foi propagado como a grande cartada para o desafogamento da Grande São Paulo. Hoje - fora as polêmicas em torno do projeto - já é considerado insuficiente para tanto. Agora, a tônica é ampliar marginais e...o que tudo isso significa? Subestimamos os cenários? Falta preparo técnico e humanístico, quando se trata também da questão da densidade demográfica? Mais solos impermeáveis contribuirão para a situação sistêmica da melhoria de nossas cidades?

A Semana do Dia Mundial Sem Carro é apenas um aquecimento para expandir nossas reflexões de que somos agentes e vítimas desse processo esquizofrênico. Com certeza, é importante haver mobilizações, mas ainda são insuficientes para o universo que temos de sensibilizar. E acima de tudo, não é possível que nossos governantes propaguem um discurso a cada momento, como no caso da matriz energética e do modelo de desenvolvimento. Essas informações de que a 'gasolina' praticamente não polui chega a ser uma aberração contra o cidadão, e propagada pela mídia, sem aprofundamento de contextos. Se descuidarmos, o discurso se tornará uma 'verdade' conveniente. Resta saber para quem?

A mudança de hábitos está relacionada a que tipo de vida queremos para nós e para as futuras gerações, como está implícito no conceito de sustentabilidade:
Podemos falar que não andamos de transporte público, por causa do conforto e eficiência. Mas o que fazemos como cidadãos para exigir tudo isso?
Olhamos para o nosso próximo e compartilhamos nosso veículo, ao adotar a carona solidária? O que nos impede tal prática? É tão difícil compartilhar o banco do carona e os bancos traseiros, dividir despesas...?
É impossível deixar de uma a duas vezes o carro na garagem?
É difícil se manifestar contra a emissão de gases poluentes, que tornam a nossa saúde refém de doenças invasivas e letais?
Que tipo de modelo de consumo queremos adotar - o do carro do ano, com combustíveis fósseis ou com fontes limpas? Ou do transporte coletivo eficiente?

Enfim, essa tempestade de ideias se faz urgente e não pode acabar como um modelo da moda do ambientalmente correto.


Sucena Shkrada Resk

26/09/2009 22:48
A ótica refratária sobre o risco, por Sucena Shkrada Resk

A "Psicologia do Risco" é uma expressão que ganha projeção nos dias de hoje. Paul Slovic, professor de Psicologia da Universidade do Oregon e da Sociedade para Análise de Riscos, nos EUA, explica que o aspecto controvertido permeia o sentido da interpretação do termo, pelo o fato de provocar visões polarizadas. "Inventamos o conceito para tentar entender as incertezas da vida", analisa o especialista. Entretanto, a busca de respostas é uma constante no mundo moderno.

"O terrorismo, os vírus emergentes, a proliferação de armas e resíduos nucleares, as medicações perigosas, a obesidade, o seguro-saúde e a contaminação dos alimentos são os temas que mais preocupam os norte-americanos", diz. Paradoxalmente, segundo ele, o Aquecimento Global e outras pautas que envolvem o meio ambiente, como o Tsunami e os furacões, ficam em segundo plano. "Só nos preocupamos, depois que acontece", constata. A memória posterior fica fragmentada, diante outras prioridades da sociedade de consumo. Isso infere, que o princípio da precaução é colocado de lado em muitas situações, que sofrem ou não intervenções antrópicas.

Slovic cita que a História revela que os conflitos do pensamento humano se reproduzem há décadas e não podem ser vistos como algo inusitado. "Uma manifestação em 1970, por exemplo, reuniu nos EUA, 2,5 mil pessoas contra o depósito de lixo nuclear. Aí paramos de construir reatores, porque não temos onde colocar os resíduos", diz.

Diante da exposição do psicólogo, é possível fazer uma analogia, ao nos remeter à realidade brasileira. Assim é possível identificar que o poder público e a mídia, de uma forma geral, têm um papel relevante para a construção da psicologia do risco. Basta observarmos como se dá a estrutura de políticas públicas, além da cobertura e a contextualização das informações veiculadas sobre assuntos planetários, como Mudanças Climáticas, argumentos para o exercício do consumo consciente x injeção de recursos para manter o padrão da economia industrial, para a adoção do Pré-Sal, construção de Angra III, destinação de resíduos, e por aí vai. Com isso, não é difícil compreender como a sociedade moderna sofre com a sua dicotomia e apresenta uma leitura distorcida de mundo.

Paul Slovic esteve em São Paulo, no último dia 21, e apresentou sua conferência, durante seminário promovido pelo Instituto de Estudos Avançados e a Faculdade de Saúde Pública, da Universidade de São Paulo (USP).
Sucena Shkrada Resk

23/09/2009 02:33
IMAGENS DO DIA - 21/09 - Eventos discutem poluição e mudanças climáticas, por Sucena Shkrada Resk


Confira na Rede Social - posts 21/09: Cidadãos do Mundo - Sustentabilidade Sem Fronteiras
http://cidadaosdomundo.ning.com/profiles/blogs/imagens-do-dia-2109-eventos

http://www.peabirus.com.br/redes/form/post?topico_id=19970

Sucena Shkrada Resk

18/09/2009 18:16
Uma corrente de mobilizações, por Sucena Shkrada Resk

A próxima semana reserva uma quantidade expressiva de manifestações e lançamentos relacionados ao Dia Mundial Sem Carro (22) e à pauta ambiental, de uma maneira geral. O que mais chama a atenção é que são ações, em sua maioria, fruto da mobilização da sociedade. Isso revela que a alienação não toma conta do nosso cotidiano.

obs: Confira mais atividades do Dia Mundial Sem Carro, no site: http://diamundialsemcarro.ning.com/

Seguem algumas programações da agenda ambiental:

21/09 - Movimento Tic Tac Tic Tac - na contagem regressiva para a COP-15: manifestação Hora de Acordar Global- entre 12 e 14h, nas proximidades do MASP, Conjunto Nacional /Center 3 e prédio da Gazeta.
Mais informações da programação completa: www.tictactictac.org.br
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21/09, a partir das 9h Debate: O impacto da poluição sobre a saúde pública (Movimento Nossa São Paulo)

Conferência Psicologia do Risco/percepções e teorias sociais do risco no contexto da saúde ambiental (FSP-USP)

(a primeira na Faculdade de Medicina e a segunda, na Faculdade de Saúde Pública da USP). obs: atualização do local do debate em 21-09, feito pelo Mov. Nossa São Paulo. Altura do Metrô Clínicas

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21/09, das 19h30 às 21h30
Encontro: “Mobilidade urbana - A importância de um Plano Municipal de Transportes em São Paulo”
Local:Tucarena (PUC/SP), Rua Monte Alegre, 1.024, Perdizes (entrada pela Rua Bartira, s/nº)
Mais informações: www.nossasaopaulo.org.br

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21/09 - Lançamento da a publicação "Contribuição dos Estados Brasileiros para a Conservação da Biodiversidade: diagnóstico financeiro das Unidades de Conservação Estaduais". Organizado por Analuce Freitas, coordenadora de Áreas Protegidas da TNC, e por Ana Lucia Camphora, especialista em Economia da Conservação. Segundo as organizadoras, o relatório apresenta os resultados alcançados ao longo do processo iniciado em 2008 da parceria com os estados de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul para fornecer apoio técnico, logístico e financeiro para o fortalecimento e aprimoramento institucional e administrativo da gestão financeira das Unidades de Conservação.

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22/09, a partir das 13h; 23/09, a partir das 14h e 24/09 (visita ao Aterro Bandeirantes)
Seminário Internacional sobre Mudanças Climáticas nos Estados e Regiões - na Cetesb.
Local: Anfiteatro Augusto Ruschi - Av. Professor Frederico Hermann Junior, 345
Alto de Pinheiros - São Paulo – SP. Inscrições: www.cetesb.sp.gov.br/eventos

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30/09, a partir das 9h
4º Congresso Mercosul de Sustentabilidade (Câmara Brasil-Alemanha)
Local: Club Transatlântico - Rua José Guerra, 130 – Chácara Sto. Antonio – São Paulo - SP
Mais informações: http://www.ahkbrasil.com
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Sucena Shkrada Resk

15/09/2009 20:44
Um pensador além de seu tempo, por Sucena Shkrada Resk

O geógrafo e presidente de Honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, professor Aziz Ab`Saber, aos 85 anos, revela a mesma sagacidade de décadas passadas, sem titubear em expor suas opiniões - "Temos de gostar das pessoas, mas criticá-las naquilo que estão erradas", diz. Permanece um contestador convicto das desigualdades regionais.

Define Ciência como a capacidade de fazer observar o que nos rodeia, o que parte da natureza, da vida urbana e rural e dos setores de circulação (transporte). "O que o homem faz é sob a herança da natureza...Em alguns setores do mundo, a humanidade é 'pequena, devido às desigualdades regionais", reflete.

Ontem, dia 14, durante palestra, que ministrou sobre o tema Darwin no contexto científico e social, no evento Leituras de Darwin, uma parceria entre a Universidade Municipal de São Caetano do Sul, SP (USCS) e o SESC SP, levou o público a viajar com ele em sua profusão de conhecimentos. O bem-humorado cidadão da região de São Luís de Paraitinga reiterou que é um acadêmico que 'abole" o confinamento na sala de aula, e que tem clareza de que o 'saber' vai além das letras e dos livros.

Aliás, uma convicção que é sua marca atemporal. "Devemos tratar do nacional, do regional e do setorial, que significa tratar das áreas da saúde, educação, indústria, comércio e artesanato..."

Ab`Saber ainda nos convidou a viajar com Darwin em Cambridge, no Beagle e a colocar os pés no chão, e nos sujar de barro, se for preciso, e ir de encontro às raízes. E fez um apelo, para que a educação universitária tenha outro paradigma, se dirigindo aos estudantes... "Não fiquem entre quatro paredes. Durante meio ano, estudem nas salas de aula e na outra metade, partam para excursões por esse imenso país". Afinal, essa foi uma prática constante em sua vida.

Narrou os primórdios de suas expedições, pelo Brasil e de sua 'indignação' com os coronéis e políticas no sertão, que dificultavam a vida das comunidades..."Quando era quase doutor em Geografia, ainda tive dificuldade para ir à Amazônia. Surgiu a oportunidade de viajar para Manaus, em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB). Fui em companhia de um professor russo, num avião recebido pelo país após a Segunda Guerra...Em Salvador, quebrou todo o sistema elétrico...Também segui sobre caminhão de sal e feijão, em Minas Gerais, até voltar a São Paulo, por Uberlândia e Rio de Janeiro...".

Nessa hora, o público já estava rindo com as peripécias de Ab` Saber, e ele prosseguiu - "Essas viagens do passado (no entanto) não podem mais ocorrer (precisam de incentivo)...Dividi a Amazônia em 29 áreas. Algumas equipes de alunos deveriam ir a algumas dessas localidades...Ainda há coisas horríveis em pequenas cidades da Amazônia com relação ao saneamento básico", disse.

Sobre Darwin, o geógrafo falou de algumas das passagens do naturalista, em especial, em Galápagos. "Ele percebeu por meio das tartarugas, que cada uma tinha uma estrutura biológica diferente, em determinada ilha - descoberta de grande valor quanto à origem das espécies...Mas a indagação era como poderiam ter essas características, já que há 10 mil anos era uma única espécie?

Em uma colônia humilde, o naturalista ouviu de um morador o seguinte - 'Professor, se o senhor me disser como é a tartaruga que encontrou, nós dizemos qual é o nome da ilha de onde ela veio..." A moral da história, na análise de Ab`Saber, é que devemos ter a capacidade de diálogo com todas as pessoas, por mais simples que sejam, pois nessa experiência está a riqueza das descobertas da Ciência.

Segundo o geógrafo, houve flutuações do nível do mar até 100m e as transformações geológicas glaciais, que fizeram esse nível baixar, na região de Galápagos. Com isso, as regiões costeiras ficaram mais prolongadas..."Agora temos o dever de continuar as pesquisas que Darwin não conseguiu fazer", diz.

Numa fala praticamente metafórica, disse que no retorno de Darwin, após quatro anos e 9 meses de viagem no Beagle, o cientista estava enfermo e resolveu se isolar com a esposa no litoral inglês. Em sua casa, fez a biblioteca pessoal crescer...Assim, derrubou paredes..."Deixou todos os entulhos da quebra do muro e conseguiu ainda que o vizinho cedesse parte de seu terreno. Darwin observava que as formigas colocavam a terra sobre esses entulhos..."

"...E isso tem ligação com o Brasil...Aqui encontramos linhas de pedras quebradas contínuas acima do solo vermelho poroso. Primeiramente, no século XIX, o franco-suiço Luiz de Agassiz pensou que eram fruto da glaciação...Há anos atrás, eu acompanhei uma equipe de cientistas franceses à mesma região...Da análise, a descoberta foi de que as herbáceas conseguem retirar a água nos vãos da caatinga e que pequenos animais fazem também esse processo. A floresta atlântica está se expandido sobre os remanescentes da caatinga... E Ab`Saber fez a seguinte analogia - "Darwin observou o entulho, enquanto nós, a paisagem..."
Sucena Shkrada Resk

13/09/2009 21:07
Qual 'casa' podemos construir para nós?, por Sucena Shkrada Resk

Ver as imagens de destruição de cidades brasileiras, como Guaraciaba, em Santa Catarina, por onde passou um tornado capaz de colocar casas abaixo, fazer voar tudo que estava por terra, e abreviar vidas, choca, mas ao mesmo tempo, demonstra que o ser humano é capaz de reverter muitas situações, quando observamos a capacidade de solidariedade dos vizinhos dos camponeses, que perderam tudo. Essas pessoas dividiram o teto, o alimento, transmitiram palavras de incentivo, além de força nos braços para reconstruir os lares dos desabrigados. Tudo isso me fez recordar de duas situações recentes, que me fizeram rever a leitura de mundo.

Uma delas foi assistir à coletânea das imagens e ouvir a narração do filme Home - Nosso Planeta, Nossa Casa (http://www.home-2009.com), que estreou mundialmente, neste ano. O documentário francês, produzido por Luc-Besson e dirigido Yann Arthus-Bertrand, flagra a situação de flagelo e mudanças climáticas em cerca de 60 localidades no mundo, mas ao mesmo tempo, aponta que há esperança. Uma frase que me levou à reflexão, durante a exibição, é - "Nós moldamos a Terra à nossa imagem..."

Ao mesmo tempo, me lembrei do relato recente da mineira Marineide, de 28 anos, que vive na cidade de Osasco. Ela narrou sua experiência em uma cooperativa de catadores. O que mais me chamou a atenção, em seu depoimento, é que as iniciativas ocorrem, quando nos abrimos ao diálogo e ao aprendizado em todos os sentidos. No caso do grupo de catadores, por exemplo, criou uma horta comunitária, que é dividida entre as famílias dos cooperados. Transformou pneus em vasos, além de agregar valor ao material reciclável, ao buscar em artesãos locais, o aprendizado da transformação da sucata em produto vendável, capaz de gerar renda...

Essas experiências de vida me permitem analisar que o relógio do tempo nos remete ao sinal amarelo a todo momento, mas como uma dica de que podemos mudar nossos traçados de vida. Quando em Home, ouvimos informações de que a falta de água potável pode atingir cerca de 2 bi de pessoas até 2025 e o processo já começou, será que isso é algo irremediável? Porque nos sentíriamos bem em constatar que a populosa Índia, país onde nos últimos 50 anos, já foram construídos mais de 20 mi poços e que hoje estão secando... ou que 1 bi de pessoas passam fome no mundo, 5 mil pessoas morrem por dia, por causa da água poluída...

Ou, então, ficarmos acomodados ao saber que 20% da população mundial consome 80% dos recursos do planeta? E que aceitemos, de forma 'cordial', que possa haver cerca de 20 mi refugiados climáticos em 2050?

O que devemos valorizar? Basta olharmos com atenção para a Nigéria, por exemplo, em que o contraste gritante se acentua. Do que adianta o país ser um dos maiores exportadores de petróleo e registrar 60% de sua população abaixo da linha da pobreza?...

Quando se trata de recursos naturais, a mensagem de Home nos leva à situações-limite... Todos os anos 13 mi hectares de florestas desaparecem; como se encontram os pantanais, que representam 6% da superfície do planeta, ou de uma Amazônia reduzida a 20%...

Aí os prognósticos decorrentes da ação antrópica ficam cada vez mais desoladores. Como o de que a camada polar perdeu 50% de sua espessura em 4 décadas ou que algumas localidades praticamente estão extintas, como a Floresta de Bornéu, no Sudeste Asiático, destruída por causa da produção de óleo de dendê.

...Em 50 anos, o consumo de papel no planeta aumentou 5 vezes, e com isso se ampliou as florestas de eucalipto. E o desflorestamento das matas nativas cresce de maneira exponencial, o que retrata uma situação gritante, de quase 2 bi de habitantes dependendentes do carvão vegetal.

Talvez falte fôlego para muitos de nós em achar que ainda há jeito. Mas, em contrapartida, o homem é capaz de mudar a rota, como sugere o documentário. Entre os exemplos, está a iniciativa em Bangladesh, onde um banco foi criado para ajudar as pessoas de baixa renda ou sobre a decisão de Costa Rica de não manter mais exército, enquanto o mundo gasta 12 vezes mais em despesas militares do que para a ajuda a países em desenvolvimento.

...No Gabão, há derrubada seletiva das florestas e em Friburgo, na Alemanha, foi criado o primeiro distrito Eco-amigável, em que vivem 5 mil pessoas...Ou que na Dinamarca, há fazendas de vento, que produzem 20% da energia...

...Agora, relembro novamente de Guaraciaba. Então, ainda há esperança.
Sucena Shkrada Resk

08/09/2009 09:54
Como interagem o Pré-Sal e as fontes de energia limpa?, por Sucena Shkrada Resk

Em horário nobre, no último domingo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um pronunciamento em rede nacional sobre o Pré-Sal e sua importância para o avanço do país e frisou a prioridade de ser resguardado, devido ao aspecto de segurança nacional. Convocou a população a acompanhar os projetos de lei do Executivo, que tramitam no Congresso Nacional, para a instituição da Petro-Sal, a fim de que haja a 'soberania' brasileira sobre essa riqueza. Citou ainda a proposta do governo sobre a criação de um fundo para a educação e a pobreza, resultante da exploração das reservas. Em nenhum momento, entretanto, mencionou em que ponto a adoção dessa política converge com o Plano e a Política Nacional sobre a Mudança do Clima (PNMC), plataforma de medidas que serão apresentadas pelo país na 15ª edição da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15), em dezembro.

Por um lado, o PNMC evoca a redução da emissão dos gases de efeito estufa (GEE) e a predominância de fontes de energia limpa. Já o Pré-Sal representa a extração e uso de combustível fóssil. O seu valor estratégico, segundo o governo federal, é motivado por sua extensão em mar territorial brasileiro. A faixa se estende por cerca de 800 quilômetros entre os Estados do Espírito Santo e Santa Catarina, abaixo do leito do mar. Ao todo, são três bacias sedimentares (Espírito Santo, Campos e Santos). O petróleo está em águas profundas, que vai além de 7 mil metros da superíficie do mar, abaixo de cerca de 2 km da camada de sal.

O que não se ignora é que independente de onde o petróleo e gás natural extraídos dessas bacias sejam usados no planeta, interferirão nas mudanças climáticas e no Aquecimento Global, apesar de poder colocar hipoteticamente o Brasil 'economicamente' entre os países mais ricos do mundo, que também são os mais poluidores.

Ao seguir essa linha de raciocínio, mais uma pergunta pode ser levantada. Como o Brasil fará com que o Pré-Sal não contribua ainda mais com a desestabilização climática? O 'pacote' Pré-Sal estabelece algum avanço científico, que modifique os padrões de emissões dos combustíveis e derivados, de uma forma significativa e eficaz? O Ministério do Meio Ambiente defende que os royalties venham para o setor, ou seja, mitigar os efeitos danosos que serão ampliados. Sendo assim, qual será o discurso do pais em Copenhague, que tem como ponto central a redução em 70% do desmatamento na Amazônia até 2017, sem entrar em maior detalhamento em outras fontes de emissões, que até então, não eram a preocupação nacional (com exceção das grandes metrópoles)?

É preciso destacar ainda que o investimento a longo prazo no Pré-Sal é de ordem bilionária. Segundo a Agência Brasil, estimativas da Petrobras indicam que a estatal investirá cerca de US$ 111,4 bilhões até 2020, pois promover a tecnologia de extração é de longo prazo. Isso deverá corresponder à produção de 1,8 milhão de barris diários de petróleo e gás natural.

Além desse investimento, há outros tão significativos. Em pronunciamento, nas comemorações de 7 de Setembro, em Brasília, o presidente Lula ao lado do líder francês, Nicolas Sarkozy, divulgou que o país adquirirá 5 submarinos (sendo um nuclear), helicópteros e aeronaves de combate da França, que deverá selar um acordo militar. Em contrapartida, o país europeu deverá comprar 'pelo o menos' 10 aviões da Embraer... O mote deste acordo comercial, na fala do presidente, visa a segurança do país, para resguardar o Pré-Sal.

O montante também é bilionário (neste caso, em euros) e deverá ser pago pelo Brasil em até 20 anos. No caso dos submarinos, ainda infere transferência de tecnologia ao Brasil. A expectativa é que as unidades sejam concluídas até 2021, conforme notícia veiculada também pela Agência Brasil, em 6 de setembro (http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2009/09/06/materia.2009-09-06.8185255962/view). O que se pode indagar é quanto será investido para a produção de energia limpa e renovável no país, neste mesmo período, e em que proporção? Uma política consegue ter sintonia com a outra? As indústrias automotivas construirão modelos a partir de qual matriz energética?

Afinal, o status do Brasil neste segmento é de 'lider mundial'. De acordo com o relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o país é o maior mercado mundial de energias renováveis. Cerca de 46% de toda a energia consumida no país são provenientes de fontes limpas. E 90% dos carros produzidos hoje no Brasil são flex, podendo rodar com gasolina ou álcool. A informação foi veiculada pela Rádio ONU, em junho deste ano. Mas até quando?(http://www.unmultimedia.org/radio/portuguese/detail/164989.html).
Sucena Shkrada Resk

04/09/2009 09:43
Mídia Ambiental - Os desafios de ser diferente, por Sucena Shkrada Resk

Os desafios da mídia ambiental são inúmeros, e não se restringem ao aspecto financeiro, apesar de ter um peso significativo na sobrevida das publicações. É difícil quebrar o estereótipo de que jornalista ambiental é voluntário. Aí as questões se ampliam no aspecto qualitativo, que pressupõe manter o diferencial com a grande imprensa, ao aprofundar as pautas.

A pergunta que não pode se perder de vista é - O que é relevante ao leitor? Afinal, as máscaras verdes proliferam de forma descontrolada, já que o ambientalmente correto rende créditos. Então, como não cair nas armadilhas do chamado 'green wash" e do marketing verde apelativo. É aí que o exercício da profissão se torna uma grande maratona, porque entra a importância do jornalismo investigativo. Esses assuntos permeiam as discussões levantadas, durante o encontro Diálogos EcoMídias - Jornalismo e Publicidade Sustentável, realizado nesta quinta-feira, 3, em São Paulo, uma realização do Instituto Envolverde e da Ruschel & Associados.

A mesa Um debate sobre o papel dos jornalista e da mídia socioambiental avalia que a qualificação contínua é indispensável para a manutenção do segmento. Na opinião de Adalberto Marcondes, da Envolverde, é necessário haver uma visão mais sistêmica dos problemas ambientais no mundo, para que não se tornem temas de pico, como nas principais mídias.

'A exigência de ética é feroz pelo público da Ecomídia, sem paralelo em outra", avalia. "Qualquer um de nós que for acusado de fazer green wash - uma vez - ficará marcado como não ser de uma publicação séria. E como não virar vidraça, quando noticiar ações de empresas (que têm histórico de degradação)?", diz. Para isso, em sua análise, cada vez mais, os jornalistas ambientais devem ter conhecimentos múltiplos. Enfim, não comprar 'gato por lebre'. Vilmar Berna, editor da Revista do Meio Ambiente, defende a criação de um Código de Ética da EcoMídia.

Luciano Martins, editor do Observatório da Imprensa, reforça a constatação de que a EcoMídia também ajuda na construção e dinâmica da agenda pública. "A grande imprensa carece de transversalidade. Nossos editores de Economia, por exemplo, continuam a utilizar o Produto Interno Bruto (PIB), como padrão de crescimento", argumenta. O jornalista se recorda da experiência que teve com outros colaboradores, na publicação O Estado de Alerta, nos anos 80, que teve um papel fundamental para levantar e apurar casos como, o de Cubatão, da Vila Socó.

Para Carlos Fioravanti, editor da Revista Pesquisa Fapesp, a imersão da EcoMídia, no que tange ao meio ambiente e à ciência, pode ter como pressuposto a Teoria Ator-Rede, uma vertente da Sociologia sobre a Ciência, que começou há 20 anos, na França. "Valoriza a interação e movimento, além da produção do conhecimento como processo coletivo...É preciso fazer conexões, para que não fique na linearidade", diz. De acordo com o editor, os jornalistas (de uma forma geral) ainda não dão a devida atenção a quem pensa diferente.

Para Ricardo Voltolini, editor da Ideia Socioambiental, a saída para o jornalismo ambiental é pensar como rede. "O desafio é ocupar o espaço fora do 'm2' a que fomos designados", analisa. A visão é compartilhada por Vilmar Berna, editor da Revista do Meio Ambiente. Segundo ele, mais que concorrentes por fatias de anúncios, as mídias ambientais agregam forças, que podem ser somadas.

"Hoje a Ecomídia não sobrevive se não tiver um segundo negócio de sustentação", diz Peter Milko, editor da Horizonte Geográfico. Segundo ele, também é preciso que haja uma reeducação corporativa quanto ao tema socioambiental. "Nos últimos quatro anos, recebemos releases de todos os tipos por parte de assessorias de imprensa das empresas, como uma forma de pressão. O questionamento é até onde colocar ou não tais informações, tendo em vista o que é relevante ao leitor", considera.

Todos os pontos destacados no encontro só demonstram o quanto é essencial enxergar, no sentido mais amplo da palavra, o público-alvo ao qual nos dirigimos. Afinal, ao produzirmos matérias, construímos e possibilitamos novos significados. Interferimos, de alguma forma, em reflexões e ações. Não há espaço para leviandade ou 'um mesmismo' acomodado, ou competições predatórias de mercado. É praticamente um exercício de renovação diária a que nos impomos, para que metaforicamente, consigamos aplicar os 3Rs em nós mesmos. Ao reduzir as arestas desagregadoras, ao reutilizarmos sempre os bons princípios morais e ao reciclarmos nossas ideias, com o propósito de contribuirmos de forma consistente ao nosso leitor.
Sucena Shkrada Resk

31/08/2009 10:46
O momento de repensar, por Sucena Shkrada Resk

Nada melhor do que a experiência de ouvir os discursos de muitas de nossas autoridades, empresariado, líderes religiosos, sindicais - enfim, pessoas públicas - , por esse Brasil, em dezenas de eventos, por anos a fio, para que tenhamos a noção do que falava Platão sobre os sofistas. Quando chega o momento pré-eleitoral, nossos ouvidos e raciocínio têm de estar mais atentos, visto que a técnica do 'pão e circo' começa a ter proporções inimagináveis, com banda, música eletrônica, algodão doce, cesta básica, bolsa de estudo e muito mais. É um tal de conchavo para cá, para lá, conversinhas de canto. As inaugurações se tornam palanques e os adjetivos ganham proporções superlativas. Em algumas ocasiões, não se poupa, sequer, a figura de Deus nessa história, como se endossasse todos os feitos da administração pública, do legislativo, e assim por diante.

Autores consagrados, como Euclides da Cunha, também devem se contorcer na tumba, quando é feita a apologia com seus pensamentos. É o invólucro do sujeito culto...Quanta verborragia, que nos obriga engolir goela abaixo um discurso vazio, e que desvia nossa atenção do que realmente tem de ser percebido, criticado, repensado...

E quando o discurso é o mesmo em todos os lugares, sem mudar uma vírgula!!! Parece um replay. Muitos políticos e homens públicos, em geral, sequer têm o trabalho de alterar uma palavra ou um episódio. Será que estou sendo tão exigente ou impaciente?

Aí vem aquele prólogo - bom dia a todos e a todas - para ser politicamente correto - , e o cumprimento ao ilustríssimo presidente, deputado, governador, juiz, secretário, doutor. O status quo vai se repetindo nesses cerimoniais, o que parece um 'mar sem fim'. E os cumprimentos, risadinhas de canto e o bater nas costas. Quer algo mais peculiar? Um repete, dois repetem...Lá se vão minutos e horas preciosas. E ninguém se dá conta de que as pessoas estão em um determinado cargo e não são o cargo...Por isso, têm um compromisso de honrar a 'tarja bonita' que o nome da função ou formação acadêmica lhes concedem no universo social.

Nossas publicações de mídia também, em muitas situações, são tão superficiais e contraditórias, repetitivas ou ausentes, que desgastam qualquer leitor. Quando vejo uma manchete de primeira página com "Desemprego caiu...", sendo que há milhares de pessoas abaixo da linha da pobreza, ou "Bolsa despenca..." e "Fulano ficou em primeiro lugar na Fórmula I...", "Parceria melhora vida de..." etc, dá até desgosto. O mais decepcionante é quando os veículos ostentam seriedade, tradição, se intitulam 'cult' e emplacam o nariz de cera no lead, no sublead, como se tivéssemos a obrigação de ler o calhau. Pior - em um dia dizem uma coisa e no outro, refutam, como se não houvesse banco de dados, história, satisfação à sociedade...

O desabafo se deve a alguns anos de experiência como repórter "que cobre rua e gosta", pois não vejo nenhum desmerecimento nisso, e não fica só sentada em frente ao computador, dentro de um aquário, que literalmente é algo desgastante. E obviamente, como cidadã, que tenta participar da vida em sociedade, na medida do possível. Até hoje não consigo entender como muitos jornalistas em cargos de chefia não conseguem sequer ter um diálogo com o leitor, telespectador, ou que nunca pisaram em uma favela, em uma unidade básica de saúde... Esqueceram que as pessoas existem e não são meras personagens para preencher as páginas, horários e atender ao apelo do fechamento.

Nunca me esqueço de matérias que fiz sobre falta de leitos hospitalares públicos e de crianças que não tinham ainda certidão de nascimento... Para conseguir emplacar as pautas, parecia que estava falando o esperanto ou fábulas. A sensação é de que a gente é um ET, porque não compra os discursos redondos ou que interessam a determinada corrente. Daí é taxado de 'chato' ou inconveniente - melhor - não é amigo de fulano ou ciclano.

Diante de todas essas experiências, que envolvem as diversas facetas dos discursos explícitos e implícitos em nossas vidas, chega uma hora em que é necessário repensar a que viemos e com quem convivemos ou nos subordinamos, para que não nos desestimulemos em nossas jornadas.

Já tive a triste experiência de trabalhar com pessoas que diziam - gente feia ou pobre não sai na capa, ou você ouviu fulano X - é preciso, porque é anunciante; ou não pode falar de tal coisa, porque a chefia é de dada religião. Certamente não deixei de incluir o cidadão carente no texto ou nas entrelinhas, deixar claro que existem dados discursos. Caso contrário, estaria me violentando. E olhe, como é difícil defender essas convicções. Inclusive, pesa no bolso.

É claro que essas escolhas, às vezes, não são bem-vistas por quem defende o discurso calcado na ideia de mercadoria rentável. E claro, que volta e meia, me sinto aquele ET, que comentei acima. Não me vejo poliana por acreditar ainda em algumas coisas...Por isso, ao fazer um balanço, não me arrependo de minhas escolhas profissionais, que não me garantem status, riqueza material, mas com certeza, respeito. E faço a seguinte pergunta - Gostaria de saber como anda a consciência dos profissionais, que na hora de escrever, aprovar a pauta ou editar a notícia, ou fazer um discurso político etc deixa sobressair interesses mil acima do que é importante para o cidadão?


Sucena Shkrada Resk

27/08/2009 20:26
Tic Tac Tic Tac na contagem regressiva para a COP-15, por Sucena Shkrada Resk

Hoje a coordenação da campanha mundial Tic Tac Tic Tac, no Brasil (www.tictactictac.org.br), divulgou à imprensa as principais diretrizes do movimento, que pretende mobilizar a sociedade na cobrança de uma postura mais incisiva dos governantes, quanto a metas e ações de mitigação e adaptação, com relação às mudanças climáticas no planeta. O lançamento oficial ocorre, no próximo dia 29 de agosto, que corresponde aos 100 dias que antecedem à 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que ocorrerá em Copenhague. Os documentos produzidos estarão disponíveis para download, na página na WEB.

Segundo Rubens Born, diretor-adjunto do Vitae Civilis Desenvolvimento, Meio Ambiente e Paz, e representante do Brasil na articulação mundial da Campanha, um aspecto importante dessa iniciativa é que vem 'debaixo para cima'. "Está sendo discutida, desde 2006, antes de Bali e Poznan, passou sob consultas no Fórum Social Mundial, e apresenta o esforço de muitos voluntários e apoio financeiro. A campanha começou com cerca de US$ 150 mil, principalmente oriundos de uma fundação canadense, além de apoios pro bono", afirma. Independente dos resultados da COP-15, Born diz que a mobilização continuará.

Durante a coletiva, o Blog Cidadãos do Mundo perguntou a Born qual é a articulação do movimento com relação à esferal federal, no que diz respeito ao Plano Nacional sobre a Mudança do Clima e a tramitação da Política Nacional, no Congresso. Segundo ele, são várias frentes. "Há canais individuais (de interlocução) das entidades participantes. Os representantes da Campanha mantiveram reunião no Itamaraty, e as plataformas mínimas da campanha já foram passadas para Luiz Pinguelli Rosa, secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas", disse. Ainda está em aberto um agendamento no Congresso Nacional, que foi adiado pela Casa.

"Agora, se o governo vai assumir os compromissos é outra questão. Também estamos fazendo a tentativa de marcar uma audiência com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com os ministros 'linha dura do governo', que detêm a coordenação da maior fatia do orçamento (Dilma Rousseff e Celso Amorim...), além do representante do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Programação de sábado

No Brasil, a programação inaugural, neste sábado, ocorrerá em 10 cidades (Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo, Teresina).

Especialmente, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, por volta do horário do almoço; em Manaus, Porto Alegre e em Salvador, deverão ser colocados em funcionamento relógios solares de 3m de altura, criados com o apoio do Greenpeace, que contabilizarão os dias que faltam para a conferência.

A versão nacional do Tic Tac Tic Tac está representada por vários segmentos da sociedade. Há entidades do terceiro setor, sindicais, religiosas, como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), entre outras.

Segundo dom Pedro Luiz Stringhini, que representou a entidade na coletiva, um dos principais desafios é que a campanha atinja as periferias. Para isso, de acordo com o religioso, a linguagem deve ser acessível e a interlocução se estender a outras religiões e doutrinas, de forma ecumênica. A Igreja Católica criou a Pastoral da Ecologia, que neste mês realizou pela quarta vez um seminário, em São Paulo, para discutir a pauta ambiental.

Um abaixo-assinado virtual, na página da campanha, que também pode ser impresso convoca os cidadãos a apoiarem uma plataforma mínima das nações, com base em dados disponibilizados pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Entre as reivindicações, estão:
-A garantia de que o aquecimento global fique abaixo de 2º C em relação à média histórica, para que antes de 2020, possa começar a redução das emissões globais de gases do efeito estufa;
-Reduzir as emissões dos países desenvolvidos em pelo o menos 45% até 2020, com relação a 1990;
-...Promover a sustentabilidade e dignidade do desenvolvimento humano e a integridade dos processos ecológicos, mediante a transformação da economia e o fortalecimento da democracia.

"A meta é que em todo o mundo, esse documento consiga atingir 6 mi assinaturas", diz Aron Belinky, coordenador-executivo da campanha no Brasil. Segundo ele, a pauta é uma emergência, mas não é um motivo de desespero. "Não se trata só da natureza, mas de gente. É hora de agir pelo clima e promover a justiça climática".

No calendário do Tic Tac Tic Tac brasileiro, ainda é previsto um evento em Brasília, no próximo dia 14 de setembro, que deverá contar com a participação de representantes do MCT, de Copenhague, da UE e dos EUA, de acordo com Born. No dia 21, haverá a manifestação "A Hora de Acordar Global", um dia antes do Dia Mundial Sem Carro. Já em 24 de outubro, o mote da campanha será Pensar bem e agir rápido.
Sucena Shkrada Resk

23/08/2009 22:46
Mudanças Climáticas - Muito ainda a se fazer, por Sucena Shkrada Resk

O Plano Nacional sobre a Mudança do Clima deverá ser revisado no primeiro semestre do ano que vem, com a participação do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, e ainda tem muitos itens a se aprofundar. Em entrevista ao Blog Cidadãos do Mundo, no último dia 13, a bióloga Andrea Souza Santos, coordenadora de Mudança do Clima e Sustentabilidade da Secretaria de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (MMA), esclareceu alguns dos pontos do documento, que deverão ser reforçados.

O Brasil necessita de um empenho redobrado, pois está na contagem regressiva para sua participação na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP-15), em Copenhague, em dezembro. As explicações foram prestadas, no intervalo, de um dos painéis do I Congresso da Associação Brasileira de Entidades Estaduais do Meio Ambiente (ABEMA), em São Paulo, que reuniu várias autoridades e técnicos do setor.

Segundo Andrea, para que haja um diagnóstico mais atualizado, o Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) está preparando um inventário sobre a emissão dos gases de efeito estufa no país, que substituirá o anterior com dados sobre 1990/1994. A conclusão do documento está prevista para o final deste ano. Os dados deverão ser referentes até o período de 2005.

"O esforço por parte do MMA é identificar o perfil das emissões nos municípios e estados brasileiros, para se trabalhar a mitigação e adaptação, além de verificar quais ações já estão em andamento. Para isso, é preciso haver um esforço conjunto de comunicação para se conhecer as iniciativas de políticas públicas pelo Brasil, e haver a padronização dos inventários municipais e estaduais com o nacional e com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC)", explica.

De acordo com a coordenadora, já foi detectado também que há poucas menções no plano sobre áreas importantes, como as zonas costeiras (cidades litorâneas). "É necessário ainda haver mais detalhamento de emissões com relação ao setor de transporte, além de determinar quais são as ações e atividades econômicas, que são fontes dos GEEs", diz.

Enquanto isso, tramita na Câmara dos Deputados, o projeto de lei da Política Nacional sobre a Mudança do Clima, nº 3.535/08. Um dos principais dispositivos da legislação é a criação do Fundo Nacional sobre a Mudança do Clima, que deverá ser o mecanismo econômico para sua implementação no país.

Sucena Shkrada Resk

23/08/2009 20:32
Esp-VI Fórum EA-Colocar em prática a justiça ambiental requer mais do que intenções,por Sucena Resk

O conceito de justiça ambiental começou a ser lapidado, desde os anos 60. “Naquela época, se debatia o modelo fordista de produção e consumo. Ao mesmo tempo, em 1968, o Clube de Roma tratava de novos paradigmas, que resultou no relatório Limites para o Crescimento”, diz o especialista em Economia e em Planejamento Urbano e Regional, Henri Acselrad, da Rede Brasileira de Justiça Ambiental, criada em 2001. Segundo ele, o grupo de notáveis desencadeou uma discussão sobre as primeiras noções de sustentabilidade, que se destacaram na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, em 1972.

Mas é nos anos 80, que o conceito começa a ganhar forma. Os movimentos ambientalistas nos EUA introduziram as comunidades negras nas discussões, aprofundando a crítica ao Capitalismo. “Aos sociólogos, dados sociodemográficos demonstravam que havia fortes riscos com lixos tóxicos e perigosos relacionados a populações negras de baixa renda. A noção de justiça ambiental nasce na lógica dessa denúncia”, explica Acselrad. Dessa forma, o governo norte-americano cria um departamento de Justiça Ambiental para averiguar essa situação.

O alcance do sentido de justiça socioambiental é ampliado com denúncias por parte dos movimentos sociais, que apontavam a discriminação existente nas políticas de mercado interno. “No ano de 1991, um memorando do Banco Mundial (BIRD) acaba impulsionando, que indústrias poluidoras se instalem em países subdesenvolvidos”, considera o especialista.

A Rede Brasileira de Justiça Ambiental nasce em 2001, com a crítica ao modelo de gestão brasileiro baseado na produção de divisas a qualquer custo. “Como objetivo, combatemos a grilagem o desmatamento e a poluição, em apoio a vítimas da contaminação por grandes empreendimentos, da atividade interna industrial e agrícola e das expansões das atividades mercantis, que expropriam populações tradicionais”, afirma Acselrad.

A noção de justiça ambiental, na opinião do especialista em Economia e em Planejamento Urbano e Regional, ajuda a politizar o tema. “A ideia de proteção ambiental é de direito de todos. Hoje a modernização ecológica apresenta uma versão sofisticada de venda de serviços populares comunitários aos grandes empreendimentos”, diz.

Para Alcselrad, existem tecnologias sociais de desmobilização da sociedade, que apresentam promessa de investimento de emprego e renda, em substituição do Estado, sob forma de favor empresarial. “Mina a capacidade crítica da população. Assim, a desigualdade social se reproduz no país. A educação ambiental começa na diferenciação do poder e da responsabilidade”, considera.

O professor de Direito Ambiental da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e procurador do Estado, Fernando Walcacer, da PUC-RJ, há necessidade de uma repaginação dos direitos e justiça. “Um exemplo é a questão do saneamento, em relação à taxa de mortalidade de crianças com diarréia na periferia. O provedor investe muito menos do que precisa, porque é um tema que não tem ‘charme’, que aparece politicamente”, fala.

O procurador defende que as informações devem ser popularizadas. “É preciso tirar as leis ambientais do papel, as tornando acessíveis, para que a população não se sinta distante da administração pública”, diz. Segundo eles, os órgãos públicos não podem reter dados que são de interesse coletivo. “Para isso, é preciso participação a fim de se construir um novo paradigma. Mas não adiantará nada, se não houver o entendimento da importância, que é construída pela educação”, analisa.

A justiça social está atrelada à educação ambiental, na opinião de Walcacer. “Mas só há sentido em falar em educação ambiental, se nosso horizonte for mais amplo, com a proposta de ajudar na formação de cidadãos. O desafio é que ninguém segue a questão da mudança climática (com mais ênfase”, diz.

Para Walcacer é preciso se quebrar o paradigma de que as soluções são externas. “Não vai ser da Europa, da índia ou da China que elas chegarão. Ao Brasil cabe um papel de liderança nesse processo”, considera.

Segundo o procurador, o direito ambiental brasileiro tem como único compromisso a manutenção da vida no planeta. “Agora, é visto como um ramo do Direito como os outros, em que processos não andam por causa da burocracia”, constata.

Walcacer afirma que é importante que haja uma leitura mais holística e se verifique que iniciativas de países do Cone Sul, como o Equador e Bolívia, vão de encontro à justiça social. “Assinaram Constituições comprometidas com as gerações futuras”, afirma. De acordo com o procurador, há um discurso implícito na agenda política dessas nações, de se atender a uma população “pobre” explorada.

A discussão sobre Justiça Ambiental integrou o VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, realizado em julho, no campus Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sob organização da Rede Brasileira de Educação Ambiental (REBEA).

E mais Especial VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, no Blog Cidadãos do Mundo:
05/08 – O foco nas mudanças climáticas
05/08 – Ecologias cognitivas
04/08 - Muito mais do que 10 anos
04/08 - A importância do empoderamento
31/07 - Questionamentos e propostas
31/07 - Uma política compartilhada
31/07 - Um diagnóstico para o PNEA
31/07 - Nem tudo é dinheiro
30/07 - O combate à inércia
29/07 - Personagens do Brasil: O povo da floresta

Sucena Shkrada Resk

19/08/2009 10:03
Pensata-Quando a gente se deixa levar pelos sons, por Sucena Shkrada Resk

Buzinaço, gritos e os sons mais turbulentos já fazem parte do cotidiano de nossas metrópoles, e às vezes, não nos damos conta que o universo ainda conspira a nosso favor, com os cantos dos pássaros. Nesta semana, ao ir a UMAPAZ, no Parque do Ibirapuera, eu me detive em algumas publicações da biblioteca local, e uma, em especial, me chamou a atenção - o "Guia das Aves do Parque", produzido pela Secretaria do Verde e do Meio Ambiente. Aí agucei os meus ouvidos ao folhear a obra e me deixei levar pelos sons dos bem-te-vis, rolinhas, quero-queros...

Fui ao lado externo e observei a copa das árvores, que são o refúgio de muitas espécies. Já são 135 catalogadas!!! Eu me dei o direito de integrar a minha mente a essa natureza, que ainda resiste no meio da poluição em São Paulo.

Com a leitura mais atenta do guia, descobri que algumas espécies em extinção sobrevivem no parque, como o Maracanã-nobre e o Mocho-Diabo. Até tirei a foto da ilustração dessas aves, para colocar na rede social que mantenho no www.cidadaosdomundo.ning, onde replico o blog. Afinal, é um apelo para que próximas gerações possam compartilhar a presença delas.

Outra curiosidade, na qual me detive, foi que há reprodução no próprio parque, como do Socozinho , do Caracará e do Quero-quero. Daí fiquei imaginando, o quanto podemos contribuir para que essa harmonia orquestrada em nosso meio ambiente ganhe asas, numa bonita metáfora. Basta conservarmos o verde de nossas praças, parques, jardins residenciais e andarmos menos de carro, evitando que nosso ar fique insustentável para toda a vida no planeta...
Sucena Shkrada Resk

18/08/2009 18:21
Literatura - Um olhar além do senso comum, por Sucena Shkrada Resk

Há algumas pessoas que têm a capacidade de nos fazer renovar a esperança no ser humano. O mais empolgante é saber que estão na fase do apogeu da maturidade irradiando a energia de uma mente aberta para o mundo. Assim eu me senti ontem, ao participar do evento na UMAPAZ, no Ibirapuera, SP, em homenagem à escritora de literatura infanto-juvenil, Tatiana Belinky, 90 anos.

Com seus olhos curiosos e ouvidos atentos, como se estivesse prestes a registrar mais material para a sua extensa produção literária - entre contos, adaptações, traduções -, que passa de 120 títulos, ela ouvia contadores de história, cantores e poetas a narrar as histórias de seus livros. À sua frente, uma plateia formada por educadores e simpatizantes de todas as idades, além de pequenos estudantes da região (que são seus leitores mais jovens), também se contagiavam nessa atmosfera.

Em dado momento, a emoção pairou no ar. David José e Edy Cerri, os primeiros atores, que interpretaram os personagens Pedrinho e Narizinho, na TV, com roteiro do Sítio do Picapau Amarelo (Monteiro Lobato), adaptado por Tatiana, nas décadas de 50 e 60, estavam à sua frente, para homenageá-la. Esses senhores que, hoje, são avós, pareciam voltar no tempo. Um saudosismo gostoso de presenciar...

De repente, um peão (pião) gigante, que fazia parte do cenário montado para o evento, chamou a atenção de Tatiana, e ela disse - "Quando tinha 70 anos, entrei em uma loja de brinquedo, que qualquer criança gosta...Vi um peão, então me lembrei de 60 anos atrás e pensei - Será que sou capaz de soltá-lo? Enrolei-o e sai num zummmmmm. - Consegui, eu disse...Precisavam ver as expressões dos rostos dos rapazes da loja..."

A risada gostosa ecoou no salão e, lá estava Tatiana encantando com mais um lance de suas memórias. Diga-se de passagem, memória prodigiosa, capaz de trazer do seu dia a dia no Brasil e da Rússia, seu país de origem, e de todos os cantos do mundo, muitas obras que encantam gerações até hoje, por meio de traduções para o português.

Quando consegui uma brechinha para entrevistá-la para uma matéria, fui arrebatada por mais uma frase...Enquanto atendia seus leitores mirins, que com seus minúsculos papeis a procuravam, para conseguir um autógrafo, ouvi de sua boca o seguinte: "Quero que sorriam com os olhos, porque só com a boca, é como se estivessem fazendo X...". Diante desse pensamento, fiquei literalmente encantada. Essa bisavó das Letras, com cabelos brancos, e um olhar atento, me transmitiu como é possível fluir além do senso comum.
Sucena Shkrada Resk

16/08/2009 09:30
H1N1 - A importância da orientação, por Sucena Shkrada Resk

Há algumas semanas, uma situação começou a me causar indagações. Ao passar sob consulta médica e quando fui viajar, vi várias pessoas com o protetor (máscara) andarem pelos corredores das unidades básicas de saúde, como também nos aeroportos de Congonhas e Guarulhos (além dos funcionários). Pensei - Será que isso protege, de fato, contra a transmissão dos vírus, e quanto tempo se deve usar uma mesma unidade? Bem, não tive dúvidas de perguntar a um especialista, na primeira oportunidade. O diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FSM/USP), o infectologista Marcos Boulos, concedeu as informações ao Blog Cidadãos do Mundo, ao ser entrevistado, no intervalo do Fórum de Discussão sobre as Doenças Cardiovasculares e o Meio Ambiente, realizado no dia 14.

Segundo Boulos, essas máscaras, que a gente compra nas farmácias, geralmente têm um período de proteção curto, em torno de duas horas. "Só é útil (nesse tempo de validade), se a pessoa está em contato com pessoas doentes, ou se usada por profissional de saúde", esclarece. Mas orienta - "Pode se transformar em um ambiente propício para disseminar vírus, dependendo da umidade que tiver, ao se tossir ou quando a pessoa fala demais em contato com o material", diz.

O infectologista explica, entretanto, que simplesmente aspirar o vírus não significa que a pessoa ficará doente, pois o agravamento do quadro depende de outros fatores agregados. Ao se apresentar os sintomas (já esclarecidos por campanhas do Ministério da Saúde), a pessoa deve recorrer ao atendimento médico. "Como só se tem divulgado mortes, as pessoas ficam apavoradas", avalia.

Outra explicação do infectologista se refere à via de transmissão. "A principal via é aérea, e em menor proporção pelas mãos". Obviamente a importância da higienização cotidiana, de lavá-las, independe do H1N1. Deve ser uma prática normal e indispensável do dia a dia.

De acordo com Boulos, há registros de incidência de casos mais graves em vítimas jovens, primeiramente, porque essa versão do 'vírus H1N1" ainda é nova no mundo, o que infere que as pessoas não adquiriram imunidade. "Geralmente o organismo dos mais jovens 'saudáveis' (chamados de imunocompetentes) ao entrar em contato com esses vírus, inicia uma guerra, como instrumento de defesa. Esse combate, em alguns casos, pode matar", afirma. No caso de gestantes e obesos, um dos fatores que também é agravante, é a compressão sobre a área pulmonar.
Sucena Shkrada Resk

16/08/2009 08:15
Saúde Ambiental: A poluição que nos consome, por Sucena Shkrada Resk

O senso comum já estabelece que a poluição de São Paulo não faz bem a ninguém, entretanto, pouco avanço há no sentido de mitigação da emissão dos gases de efeito estufa na cidade e, na região metropolitana, no recorte da saúde ambiental. E quando a gente ouve os esclarecimentos por parte do patologista e coordenador do Laboratório de Poluição Ambiental Experimental da Universidade de São Paulo (FSM/USP), Paulo Saldiva, é sempre um 'chacoalhão' naquela acomodação que persiste em se fixar em nossa sociedade.

De forma coloquial, fala tanto à dona de casa como ao PH.D, os argumentos científicos, para que o conhecimento seja inteligível, e é coerente em seus argumentos, ao utilizar a bicicleta como meio de locomoção, o que não acontece com muitos propagadores ambientais, que andam com seus veículos altamente poluidores pelas vias da cidade. É justamente essa coerência no discurso, que falta em nossas escolas e, inclusive, nas políticas públicas. Há tantos ruídos nas informações e práticas, que chega uma hora, que a palavra poluição se torna banal.

No último dia 14, Saldiva ministrou uma palestra, no Fórum de Discussão sobre as Doenças Cardiovasculares e o Meio Ambiente, promovido pela Sociedade Brasileira de Cargiologia (SBC), em São Paulo. Por meio da 'dissecação" de nossos vasos sanguíneos e pulmões, mostrou o quanto as nossas vidas são comprometidas com a incidência massiva das partículas finas poluentes. Só para se ter uma ideia, o recomendável pela Organização Mundial de Saúde (OMS), é o parâmetro de 25 microgramas de emissões por m3 (24h). "No corredor 9 de Julho, esse número sobe para 140", exemplifica Saldiva.

Segundo ele, a sua própria experiência do cotidiano revela o quanto a poluição é invasiva. Esclarece que se ficar 24h, dentro de sua sala, na FSMUSP, o efeito é como tivesse fumado 2 cigarros. "Quando aumenta o nível de poluente na avenida Dr. Arnaldo, aumenta também no HC (complexo do Hospital das Clínicas)", diz.

A época do inverno se torna mais complexa, porque há a presença dos chamados veranicos, que funcionam como um tampa de poluição sobre a cidade. "Os corredores de ônibus acabam sendo um laboratório toxicológico, enquanto não melhorar as medidas em nossos combustíveis (teor de enxofre)".

O enxofre é um dos componentes mais prejudiciais à saúde. A definição do fornecimento do diesel menos poluente para as frotas de ônibusdo Rio e de São Paulo foi definido em acordo com o Ministério Público Federal (MPF), no dia 30 de outubro de 2008. Mas só começou a ser fornecido a partir de abril deste ano, em SP, pela Petrobras. Passou do S-500 para o S-50, que significa 50 partes por milhão (ppm) de enxofre. Demais regiões metropolitanas do país, estão recebendo gradativamente o novo combustível. Entretanto, até 2013, a empresa deverá produzir o diesel S-10, com 10 ppm de enxofre, que segue o que hoje já é adotado internacionalmente. É importante destacar, que ainda não está se tratando do abastecimento dos milhares de caminhões que rodam pela Grande São Paulo e por todo o país.

O patologista desenvolve a tese de que isso provoca a desigualdade ambiental. "Quem mora a menos de 100m desses corredores, sofre mais impactos dos poluentes", explica.

Os primeiros estudos promovidos pelo Laboratório de Poluição Ambiental datam do início da década de 90. "Levantamos que há 32 mortes, por dia, nos meses frios, sendo 60% cardiovasculares e o restante de fundo respiratório. "Quando o Mirante de Santana acusa temperatura abaixo de 8 graus, mais oito pessoas morrem...", diz.

O fator socioeconômico é mais um complicador para a causa da mortalidade. "Quando um ônibus velho não anda, por exemplo, na 9 de Julho, vai para a periferia. A isso eu chamo de racismo ambiental", afirma Saldiva.

De acordo com o especialista, quando nós inalamos os poluentes, há uma descompensação que impacta os brônquios, que pode levar a morte. Já nos casos cardiovasculares, o processo é mais rápido.

Em pesquisas feitas com animais no laboratório, Saldiva também esclarece que os que são expostos à poluição nascem com peso menor e sofrem mais oxidação. "Os pulmões são menores e as artérias mais finas".

A situação é tão 'surreal', que inclusive o laboratório de exposição móvel da USP, que é um sistema de análise em parceria com a Univesidade Harvard, teve de sofrer uma adaptação aqui, para que o equipamento não entupisse com o excesso dos poluentes.

"Há o problema do ufanismo com o petróleo. As regras têm de incorporar a saúde humana (seres vivos em geral). Não se percebe que existe a poluição da pobreza, com o custo-efetividade. Ninguém se impressiona com os quilos de corpos mortos, se não inferir um valor", critica Saldiva. O Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da USP com a colaboração de universidades federais das regiões metropolitanas de Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Recife e Rio de Janeiro já promovem pesquisas nessas localidades. Um dos resultados divulgados, no primeiro semestre deste ano, é que a poluição do ar mata 11 mil pessoas de mais de 40 anos, por ano, nas seis maiores capitais do País.

Sucena Shkrada Resk

09/08/2009 17:50
Mudanças climáticas: revisão do transporte em SP, sem visões isoladas, por Sucena Shkrada Resk

São Paulo instituiu há dois meses, a Política Municipal de Mudanças Climáticas - PMMC (Lei nº 14.933, de 05/06/2009), e assim, deu a largada no Brasil em uma proposta municipal, que tem como um dos principais desafios, reestruturar o sistema de transporte, que é o maior causador das emissões dos gases de efeito estufa na cidade e região, e componente importante para doenças cardiovasculares. No entanto, as metas estabelecidas no documento precisam ser implementadas ou ampliadas, por meio de regulamentação de cada dispositivo, sendo que alguns incorporam os âmbitos estadual e federal.

É presumível que as possíveis conquistas serão efêmeras ou não sairão do campo das intenções, se não houver uma política que englobe a região metropolitana, o interior, o litoral e outros estados... Não existe mitigação e adaptação, sem visão sistêmica. O enfrentamento das mudanças climáticas exige que as ações quebrem o isolamento, porque não há fronteiras quando se trata deste tema.

Segundo o sociólogo Volf Steinbaum, responsável pela condução do Programa de Mudanças Climáticas da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA), os desafios são inúmeros. "Muitos cidadãos saem da Cidade Tiradentes, às 5h, para conseguir chegar ao Parque Dom Pedro, às 8h. São filas enormes, porque os transportes estão lotados...", exemplifica. As ruas ficam engarrafadas na cidade, que já ultrapassou há muito a marca dos 6 mi veículos. A proposta na Política para reverter esse quadro caótico de São Paulo, infere educação socioambiental e incentivo à mudança de hábitos de consumo.

"Em São Paulo o crescimento do número de carros ocorre de forma irracional", diz Steinbaum. O sociólogo explica que 127 carros são capazes de transportar 190 pessoas, o mesmo número de passageiros que um ônibus tri-articulado ou dois ônibus comuns. "Por isso, é necessário a ampliação do transporte público, com prioridade aos trólebus e com outros combustíveis alternativos, além da rede metroviária e ferroviária", afirma.

Mais um ponto, segundo o especialista, é estimular o transporte alternativo não-motorizado, como as bicicletas. "Hoje 29,5 km de ciclovias estão concluídos, 18,1 km em obras e 70 km sendo projetadas, o que totaliza a extensão de 120 km", diz.

Por outro lado, incentivar com campanhas, a carona solidária em escolas, empresas etc, como também a importância de caminhar. Nesse caso, é necessário fazer um parênteses, já que ao andarmos pelas ruas e avenidas da cidade, inalamos os materiais particulados e CO2 justamente por causa desse excesso de veículos.

Então, o que fazer? O sociólogo da SVMA explica que a nova política propõe a racionalização do espaço viário. "Uma das ideias é implantar faixa exclusiva para veículos ocupados por mais de dois passageiros, mais faixas exclusivas para trólebus e estimular a criação de espaços terminais multimodais de carga no em torno da região metropolitana". Já no caso de veículos com um passageiro, se estuda a proposta de sistema de tráfego tarifado. "Na Grande Londres, por exemplo, não entra, se não pagar pedágio", compara. Steinbaum expôs os objetivos da PMMC, durante um encontro realizado na Biblioteca Temática de Meio Ambiente Raul Bopp, em São Paulo, no dia 8 de agosto.

Diante dessa gama de diretrizes, o que cabe ao cidadão paulista e paulistano é acompanhar as discussões dessa política, a efetivação de suas metas, sem perder o foco de que uma parte substancial depende de cada um de nós, ao abolirmos o consumo desenfreado e repensarmos as prioridades em nosso modo de vida.
Sucena Shkrada Resk

09/08/2009 10:26
Literatura ambiental ao acesso de todos, por Sucena Shkrada Resk

Mais um espaço de literatura ambiental está à disposição pública na capital, o que é importante para a acessibilidade gratuita a produções mais atualizadas e de qualidade, o que ainda é uma carência no setor. É a Biblioteca Temática Municipal de Meio Ambiente Raul Bopp, instalada no Parque da Aclimação, em São Paulo. O acervo tem um total de 1.000 itens e 500 títulos, com obras sobre biomas, ciências ambientais, ecologia e sustentabilidade, entre outros, que vão de autores, como Marx a títulos do Ministério do Meio Ambiente.

A unidade, inaugurada em maio deste ano, é a única neste segmento, pertencente à rede da Secretaria de Cultura e se soma à biblioteca da UMAPAZ, da Secretaria do Verde e Meio Ambiente (SVMA), localizada no Parque do Ibirapuera. A escolha das obras teve a consultoria do ambientalista Fábio Feldman.

Apesar de ser um espaço pequeno, a qualidade das publicações na Raul Bopp é o que chama a atenção. Pude conhecê-la, neste sábado, quando fui assistir à palestra do sociólogo Volf Steinbaum, responsável pela condução do Programa de Mudanças Climáticas da SVMA. Os encontros e exposições também são mais um atrativo na unidade, e as programações podem ser acompanhadas pela internet. E o que é importante destacar - com entrada franca.

As publicações podem ser retiradas para leitura, com tempo de permanência de 14 dias. É permitido no máximo 4 títulos por vez. Para se associar, é necessário levar um documento de identificação oficial e comprovante de residência atual. A filiação é aberta a usuários de outros municípios. O cartão tem validade de um ano.

Biblioteca Temática de Meio Ambiente Raul Bopp: Rua Muniz de Souza, 1.155, Parque da Aclimação, São Paulo, SP. Mais informações no tel: 011 - 3208-1895 e no site www.bibliotecas.sp.gov.br.

Sucena Shkrada Resk

07/08/2009 15:19
Reforma em casa: direito de consumidor é para ser exercido, por Sucena Shkrada Resk

Há momentos em que a paciência chega ao limite. Uma das áreas mais difíceis de se lidar é a de serviços de construção civil, principalmente quando chega o momento da reforma em casa. É aí que os problemas começam. Ainda hoje há dificuldade de se encontrar bons profissionais no mercado, que cumpram prazos, orçamentos, trabalhos de qualidade etc. Depois de alguns episódios domésticos, em que me deparo ainda com problemas de infiltração na laje, rachaduras no estuque, e excesso de tinta e falhas na porta, devido a pinturas mal feitas..., descobri que o correto é fazer contrato, que estabeleça compromisso entre as partes, independente do porte da obra. Aí a gente exerce o direito do consumidor e de cidadão. A pior coisa é se sentir lesado ou feito literalmente de bobo.

Compilei a síntese de dicas do Procon (são orientações de várias unidades pelo Brasil, que podem ser úteis a todos):
- Referências são imprescindíveis para a contratação de profissionais para pequenas reformas. Mas nem sempre são suficientes para garantir um trabalho impecável;
- Contratos têm de ser escritos, com descrição dos serviços que serão prestados, material a ser usado e prazos para início e término da obra. Só assim é possível cobrar do profissional, no Procon ou na Justiça, em caso de serviço malfeito. O Código de Defesa do Consumidor prevê que o profissional contratado é responsável por falhas em seu próprio trabalho. Isso significa que o cliente que ficar insatisfeito pode pedir que refaça o serviço, sem custos; a restituição do valor pago ou desconto no preço total, com abatimento proporcional ao problema causado (Procon- Santos Dumont-MG).
-O fornecedor de serviços está obrigado a entregar ao consumidor orçamento prévio, com prazo de validade de dez dias, salvo estipulação em contrário, contendo informações sobre o valor da mão de obra, dos materiais e equipamentos a serem empregados, condições de pagamento e data de início e término dos serviços a serem realizados. Uma vez aprovado, obriga os contraentes e somente poderá ser alterado mediante livre negociação entre as partes. O orçamento poderá ser cobrado, mas o consumidor precisa ser informado com antecedência. (Procon-SP)
-A garantia legal é de noventa dias, mas esse prazo poderá ser ampliado mediante negociação das partes, desde que o novo prazo conste, por escrito, no contrato ou orçamento. (Procon-SP)
-O Código de Defesa do Consumidor estabelece como sendo direito do consumidor:
exigir cumprimento forçado da obrigação, nos termos da oferta, apresentação ou publicidade;
aceitar prestação de serviço equivalente;
rescindir o contrato, com direito à restituição de quantia eventualmente antecipada, monetariamente atualizada, e a perdas e danos.
O consumidor deverá protocolar, por escrito, a solicitação do cumprimento do contrato ou o seu cancelamento. Se o pedido formulado não for suficiente para resolver a questão, essa poderá ser encaminhada para apreciação dos órgãos de defesa do consumidor de sua cidade, Juizados Especiais Cíveis ou Justiça Comum.
Se houver índicios de prática delituosa é recomendável procurar a Delegacia de Polícia do bairro para elaboração de um boletim de ocorrência, visando preservação de direitos.
O simples fato de sustar os cheques emitidos para o pagamento do serviço não isenta das obrigações assumidas, podendo inclusive ocorrer o protesto. (Procon-SP).

Enfim, devemos entender a reforma como uma prestação de serviço igual a qualquer outra, com todas as disposições legais. E mais, seguem algumas dicas empíricas, resultantes de experiências do dia a dia:
-Desconfiem, quando o profissional começar a falar mal de outro;
-Se vangloriar que faz melhor o serviço do que qualquer um;
-Fala uma coisa em uma hora e em outra dá outro argumento para ausência na empreitada;
-Não apresenta recibos de compra dos materiais utilizados para o serviço;
-Não confunda amizade com a qualificação profissional;
-Preste atenção no acabamento, ele diz muito do que pode ser o resto da obra;
-Desconfie, se o profissional começar a fazer várias exceções quanto ao cumprimento das tarefas, sendo que foi acordado e selado em contrato. -E nunca pague o total do serviço, mesmo que falte um item ínfimo a ser cumprido.

Exerça seus direitos e evite dor de cabeça!

Sucena Shkrada Resk

05/08/2009 13:54
Especial-VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental-O foco nas mudanças climáticas, por Sucena S.Resk

O discurso de consenso na área de educação ambiental brasileira hoje é estabelecer como prioridade a pauta das mudanças climáticas. A tônica da política do Ministério do Meio Ambiente (MMA) é afinar o conteúdo ao Plano Nacional para a Mudança do Clima e, consequentemente, à futura participação do país na 15ª edição da Conferência das Partes das Nações Unidas sobre o Clima (COP-15). O encontro está programado para dezembro, em Copenhagen.

Segundo o ministro Minc, os principais pontos serão o combate ao desmatamento, a difusão da energia eólica, a recuperação das matas ciliares no país, o monitoramento de todos os biomas até 2010, reciclagem e a difusão de prédios inteligentes, entre outros aspectos.

Para a Rede Brasileira de Educadores Ambientais (REBEA), ainda é preciso colocar na agenda da EA a educação continuada e o questionamento ao modelo de desenvolvimento brasileiro frente às mudanças climáticas.

Agora, nos resta acompanhar o processo e nos engajar individualmente e coletivamente para adquirir conhecimento, difundi-lo e, acima de tudo, atualizá-lo, de forma contextualizada, para que não se torne uma simples reprodução de informações. Não podemos também nos esquecer de que a linguagem precisa ser adaptada ao público-alvo, o que obviamente, dá trabalho, mas configura uma experiência de troca.

A minha reflexão sobre tudo isso é que não é mais possível se difundir dados tão destoantes, que num dia tratam da diminuição do desmatamento da Amazônia, e no outro, do aumento de hectares de terras desmatadas. Ou se falar do arroto do gado, do metano e não aprofundar os argumentos e as ações efetivas, neste sentido. Mais do que isso, é necessário restabelecer a coerência da EA, por meio da importância da saúde ambiental, que fica relegada a segundo plano. E dissecar o que é mitigação e adaptação, em práticas de nosso dia a dia, fazer com que enxerguemos os refugiados climáticos do hoje e do amanhã e tenhamos a sensibilidade do socioambientalismo, que estão intrinsicamente ligados às mudanças climáticas.

O que percebo é que há uma fragmentação que compromete o entendimento holístico do tema, tanto no ensino formal, como no não-formal. Qualquer cidadão precisa compreender que é um ator nesse processo, ao tomar iniciativas básicas como a redução do consumo. Enquanto não houver essas conexões, o ciclo vicioso "do problema é do outro" não será alterado.
Sucena Shkrada Resk

05/08/2009 13:15
Especial-VI Fórum Educ.Ambiental-Ecologias cognitivas, por Sucena Shkrada Resk

O campo da educação ambiental formal não precisa ficar circunscrito à redoma de dogmas e conceitos. "É no chão e nos corredores da escola que as coisas estão acontecendo, é o espaço onde ocorrem as ecologias cognitivas", diz a bióloga e doutora em Educação, Marta Tristão, da Rede Capixaba de Educação Ambiental (RECEA). Esse contexto, segundo ela, justifica o motivo de não ser possível padronizar as unidades de ensino. "É preciso se respeitar as diferenças individuais", afirma.

A educadora constata que hoje se sabe muito pouco sobre a educação ambiental no cotidiano, de uma forma roteirizada. "Existem educações ambientais, além das propostas oficiais. Há aquela desenvolvida em escolas de baixa renda e outra para a elite". Martha tece uma crítica a conteúdos extra-curriculares. "Atualmente boa parte é confundida com recreação e passeio...São necessárias aplicações direcionadas às realidades locais e o diálogo dos saberes populares com os científicos", considera.
Sucena Shkrada Resk

04/08/2009 16:36
Especial-VI Fórum Educ.Ambiental-Muito mais do que 10 anos, por Sucena Shkrada Resk

"Ações cotidianas realizadas por educadores em todo o país, há mais de 30 anos, antecederam a Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA), de 2003", afirma o coordenador do Laboratório de Educação e Política Ambiental (Oca), da Esalq/USP, biólogo e doutor em Educação, Marcos Sorrentino. Segundo ele, que também dirigiu a EA, no Ministério do Meio Ambiente (2003-2008), essa historicidade demonstra que o programa de EA deve ser entendido como algo em constante construção. A afirmação foi feita, durante o VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, realizado no Rio de Janeiro, no mês de julho.

Segundo Sorrentino, nessa leitura, é necessário não se perder de vista a importância da manutenção da ligação com as bases. "Isso significa ouvir a juventude, os coletivos educadores, os profissionais que atuam nas salas verdes, os educadores ambientais populares e as Comissões de Meio Ambiente e Qualidade de Vida na Escola (Com-Vidas) versus ações pulverizadas", diz.

Em sua opinião, o movimento de educação ambiental também precisa de bandeiras. "Os fóruns devem ocorrer (se possível), de dois em dois anos. A peridiocidade é importante para que 'vejam' que não estamos sozinhos". O anterior, em GO, ocorreu em 2004. A falta de verba foi um dos principais entraves, segundo a Rede Brasileira de Educação Ambiental (Rebea), organizadora do evento.

De acordo com o educador, a Rebea teve seu início durante a Rio-92. "Naquela época, se formaram a rede paulista, baiana e capixaba...Sofreram muitas resistências, porque muitos falavam que era coisa de anarquista. Até hoje não conseguiram formar a Federação. A militância é uma profissão de fé", afirma.

Para Sorrentino, o contexto da EA no país, exige ainda que se estabeleça uma política unificada 'pública' incentivada pela Rebea, em que o Estado contribua com a politização, além do aprimoramento pedagógico. "É preciso ainda se trabalhar a articulação internacional, com nações da América Latina e de Língua Portuguesa. Queremos a governança na Organização das Nações Unidas (ONU)...", diz.

Sucena Shkrada Resk

04/08/2009 15:37
Especial-VI Fórum Educ.Ambiental-A importância do empoderamento, por Sucena S.Resk

Um total de 20 jovens, entre 13 e 22 anos, da EE Doutor Telêmaco Paioli Melges, de Campinas, SP, se destacou entre os participantes do VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, realizado no Rio de Janeiro, no mês passado, ao ser o único grupo escolar a exercitar o trabalho de Educomunicação (Coletivo Educador Ambiental de Campinas - coeducanasemeia.blogspot.com), durante o evento. Cobriram o encontro, se pautaram, redigiram textos, desenvolveram análise crítica, participaram de oficinas de Educom coordenadas pela jornalista Debora Menezes. Enfim, demonstraram que tudo é possível, quando há harmonia de objetivos e quebra de resistências nas coordenações pedagógicas de nossas escolas.

Não pensem que foi fácil fazer com que muitos, pela primeira vez, conseguissem participar dessa viagem de integração. Isso mobilizou a participação de pais, da escola, de inúmeros pedidos de parcerias...

Para Matheus, 14 anos, a experiência de ser um integrante importante no grupo, ao postar e debater todas as informações de seus colegas, permitiu que aguçasse o seu senso de responsabilidade. "Já gosto de EA, há um bom tempo. Em 2003, ajudei a criar uma história de combate ao vilão do lixo, em um projeto. Devo também o incentivo, ao meu primo, Alexander, que é educador ambiental, e sempre me levou aos eventos da área", diz.

Uma das coordenadoras do projeto na escola, a pedagoga e professora Rosenilze Aparecida Degrossole, conta que a iniciativa de implementar a Educomunicação na unidade (http://ea-telemaco.blogspot.com/), começou, com mais ênfase, neste ano, em oficinas realizadas nas aulas de Matemática, Português e Ciências, Geografia...com o objetivo de explicar o processo de compostagem e a questão do consumismo, entre outras pautas da agenda ambiental. A garotada tomou gosto e começou a compartilhar mais conhecimentos. Aí ocorreu o empoderamento por parte dos alunos, que se mobilizaram para participar do fórum. "Por muitos anos, fui educadora popular, isso me motivou a desenvolver o projeto com a professora Cassiana Domingos, entre outros colegas".

Para a diretora da unidade, Mara Silvia Nigro Esteves, a experiência está sendo importante e desafiadora, porque ainda demonstra qual a potencialidade de promover a educação ambiental no ambiente escolar, e fazer com que transcenda aos muros da escola. Agora, o que se espera, é que esses estudantes compartilhem seus aprendizados com seus colegas, suas famílias e multipliquem essa rede por Campinas, São Paulo...tornando o blog um instrumento de difusão dessas experiências...

Sucena Shkrada Resk

31/07/2009 17:45
Especial-VI Fórum Educ.Ambiental - Questionamentos e propostas, por Sucena Shkrada Resk

Ideologias à parte, o VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, que ocorreu de 22 a 25 de julho, no Rio de Janeiro, foi um celeiro de questionamentos, reflexões e propostas. Seguem algumas frases, que destaquei durante as apresentações:

"...O que estamos dispostos a abrir mão?..." - Antônio Fernando Guerra, secretário-executivo da Rede Sul-Brasileira de Educação Ambiental

"...A nova consciência planetária está emergindo, apesar de estar fragmentada..." - Thaís Corral, coordenadora-executiva da Rede de Desenvolvimento Humano (REDEH)

"...O ser humano é capaz de lidar com políticas públicas, gestões, para praticar a fé na mudança..." - Rubens Born, diretor-adjunto do Instituto Vitae Civilis

"...Enquanto políticas públicas não mudarem, não adianta tecnologias vazias..." - engenheiro Adacto Ottoni, do CREA-RJ

"...A substituição do Estado, sob forma de favor empresarial, mina a capacidade crítica da população..." - Henry Acselrad, da Rede de Justiça Ambiental

"...Com relação à questão de saneamento, em que há a mortalidade de crianças com diarréia na periferia brasileira, o provedor investe menos, porque é um tema que não tem o charme que aparece politicamente..." - Fernando Walaccer, professor de Direito Ambiental da PUC-RJ

"...O desafio é a formação em casa quanto à construção de valores...", David Barros, presidente do Conselho Nacional da Juventude

"...As redes surgiram da questão de como reconhecer o outro, mas senão se pensar no crescer coletivo, não vai para frente..." - Aluísio Oliveira, do RMEA

"...Na escola ocorrem ecologias cognitivas...Não é possível padronizá-las..." - Martha Tristão, da RECEA/UFES

"...Educação ambiental não é só decoreba no quadro negro..." - ministro Carlos Minc

"...Não é admissível que o MMA fique fora da Política de Saneamento. Hoje coordena com o Ministério das Cidades a preparação do plano decenal...que levanta os problemas de saúde causados pela poluição..." - ministro Carlos Minc
Sucena Shkrada Resk

31/07/2009 17:18
Especial-VI Fórum Educ.Ambiental -Uma política compartilhada, por Sucena Shkrada Resk

O ponto de consenso no VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental foi de que a política nacional do setor deve ter sintonia entre os Ministérios da Educação (MEC) e do Meio Ambiente.

A cientista social Samyra Crespo, secretária de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental do MMA, afirmou, que a educação ambiental está sendo inserida dentro da própria estrutura do governo, entre os agentes públicos e privados.

"Já mantemos o programa de eficiência energética, da coleta seletiva solidária e iniciamos reformas nos prédios, para coletar as águas da chuva", diz.

Segundo a secretária, a agenda ambiental dos três poderes conta com cerca de 400 organizações na rede, além da Câmara dos Deputados e ministérios. "Até para os licenciamentos ambientais analisados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO), há exigência do quesito de educação ambiental", afirmou.

"Cada conselho gestor das unidades de conservação (UCs) será também gestor de educação ambiental. A meta é de que até dezembro, haja um total de 50", disse. Outra proposta é que as atuais 399 salas verdes possam chegar até 1000, com parcerias que estão sendo firmadas com o Rotary Club e o Senac, por meio de recursos compartilhados.

Na área tecnológica, o objetivo é instalar 200 telecentros nas UCs, com apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e parceria com o terceiro setor, principalmente na Amazônia. E a permanência do programa dos Coletivos Educadores, que foi um projeto gestado em parceria com a Unesco, agora está em fase de avaliação.

De acordo com Samyra Crespo, hoje a educomunicação é um dos principais instrumentos de EA incentivado pelo MMA. "A comunicação e a educação à distância, a internet, o rádio (entre outras mídias), são fundamentais não só para ampliar, mas para formar massas de jovens que tenham oportunidade no mercado de trabalho", disse.

A antropóloga Rachel Trajber, coordenadora geral de Educação Ambiental do MEC, informou que cerca de 12 mil professores participam de formação à distância semi-presencial, como capacitação. Segundo ela, um dos principais mecanismos para introduzir, de fato, a EA na transversalidade, são as Comissões de Meio Ambiente e Qualidade de Vida na Escola (Com-Vidas), que fazem o elo da Agenda 21 com a comunidade.

Neste ano, o foco da EA no MEC, está concentrado na pauta das mudanças climáticas, com temas como mitigação e adaptação.
Sucena Shkrada Resk

31/07/2009 16:40
Especial-VI Fórum Educ.Ambiental-Um diagnóstico para o PNEA, por Sucena Shkrada Resk

Uma das participações mais reflexivas no VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, na semana passada, foi do biólogo e doutor em Ciências Sociais, Philippe Pomier Layrargues, da Universidade de Brasília (UNB). Ele propôs que seja elaborado um "um índice de institucionalização de educação ambiental no Brasil", que tenha como um dos principais objetivos responder à questão do porquê de o Programa Nacional de Educação Ambiental (PNEA), que completa 10 anos, não estar sendo aplicado.

"O PNEA traz direitos e acesso à educação ambiental. O questionamento é se está presente, de fato, no país. A proposta é levantar o que existe e verificar novos rumos e ações", diz. Com o índice de mensuração, que exemplificou durante sua exposição, é possível se estabelecer metas. Dessa forma, levantar dados regionais, dos Estados e da situação de todas as ações da política, para que possam caminhar por conta própria. A ideia é estabelecer como parâmetros, instrumentos legais, instâncias de coordenação executiva, mecanismos de fomento, estruturas coletivas ou colegiadas e de redes educadoras. "Poderia ser um trabalho conjunto com as câmaras técnicas do Conama", afirma.

Segundo Layrargues, hoje não se sabe qual é o número real de educadores ambientais no país. "No Sistema Brasileiro de Informação em Educação Ambiental (Sibea), há uma pequena fração de educadores. (Nesse recorte), o que se observa é que a menor proporção fica no Maranhão, o que reflete o conjunto de desigualdades", explica.
Sucena Shkrada Resk

31/07/2009 12:58
Especial-VI Fórum Educ.Ambiental-Nem tudo é dinheiro, por Sucena Shkrada Resk

Quando o tema é educação ambiental, um dos discursos mais presentes na esfera governamental é o da falta de verbas para o setor. Há um híato na gestão pública, quanto à prioridade da área na agenda. Durante o VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, o ministro Carlos Minc chegou a anunciar o descontingenciamento de R$ 2 mi para a área, mas sem precisar a aplicação. Enquanto isso, o Departamento de Educação Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (DEA/MMA), por meio de seu recente coordenador, Claudison Vasconcelos, informou que o apoio possível é o 'institucional".

A tecnologia, a ajuda de custo para transporte, a alimentação e pagamento pelos serviços são necessários e um direito do educador ambiental. Afinal, é um trabalhador que atua diretamente com a população e enfrenta ainda o desafio de ser gestor. Com certeza, recursos financeiros são necessários para suprir a retaguarda de infra-estrutura dos projetos de EA no país, e cabe a mobilização para pressionar o poder público quanto à importância deste trabalho. Há muitos instrumentos: abaixo-assinados, conselhos, redes, o portfólio de projetos bem-sucedidos, parcerias que envolvam o terceiro setor e a iniciativa privada...

Mas a questão não é só essa. Eu me recordo da expressão utilizada por um colega, o dentista Dácio. Ele contou que em uma unidade básica de saúde, na periferia de São Paulo, consegue orientar preventivamente sobre saúde bucal, no velho e simples conceito do "cuspe e giz", já que não tem outro tipo de retaguarda. Isso quer dizer que a falta de verba não o impede de exercer todo o seu potencial como educador popular, e atingir a comunidade com uma linguagem acessível.
Posso dizer, com certeza, que sua estratégia tem sentido. Ao dar uma "aula" na disciplina de didática de ensino superior, na Pós de Meio Ambiente e Sociedade, na FESPSP, como se estivesse entre os usuários do posto, eu e meus colegas nos sentimos contemplados. A sua exposição gerou indagações, troca, compartilhamento. As palavras ganharam significado. Não precisou de nada, além de sua voz, experiência, pesquisa e de escrever no quadro negro.

É neste ponto que eu quero chegar. O que não pode ocorrer é a paralisação e o desestímulo dos educadores ambientais, no que é mais precioso, o poder de transmitir conhecimento e possibilitar escolhas conscientes por parte dos cidadãos. Isso ninguém pode tirar deles. É algo que está ligado ao livre arbítrio, à garra e, porque não, ao que podemos chamar de solidariedade.

Um papel-rascunho, uma cartolina, uma lousa e giz ou apenas um bate-papo aliados a uma atividade prática podem ser suficientes para desenvolver um projeto com qualidade. Não podemos esperar que os computadores e os data-shows cheguem, como se fossem a única forma de se exercitar a educomunicação. Enfim, nem tudo é dinheiro.


Sucena Shkrada Resk

30/07/2009 15:08
Especial-VI Fórum Educ.Ambiental - O combate à inércia, por Sucena Shkrada Resk

As soluções estão aqui. Essa frase me soou coerente, quando a ouvi, durante a fala do professor de Direito Ambiental da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), Fernando Walcacer. Ele discutiu a importância do papel pró-ativo do Brasil, na mesa "Educação Ambiental, Governança Mundial e Justiça Ambiental", realizada no VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental. O encontro ocorreu entre 22 e 25 de julho, no Rio de Janeiro, sob coordenação da Rebea, e reuniu cerca de 3 mil pessoas de todo o Brasil.

A construção do raciocínio transcendeu o escopo acadêmico e partiu para o exercício de reflexão sobre o mundo real, com o princípio de que não podemos esperar que os países mais desenvolvidos, os mais populosos e que ostentam ao mesmo tempo, os primeiros lugares no ranking da emissão dos gases do Efeito Estufa no planeta, sejam os únicos atores a promover o trabalho de conscientização e mitigação ambiental. Nenhuma nação pode se dar ao luxo de ficar sob o discurso da alienação ou de que "esse papel não é meu". Muito menos o Brasil.

A educação ambiental é, acima de tudo, participação e compromisso. Não é uma tábua rasa de informações, e se for, deixará de ter significado para sua permanência. Por isso, nada é mais legítimo, de que as soluções comecem dentro de nossas casas, com os pequenos atos do cotidiano, na nossa vizinhança, no ambiente escolar e se projetem no município, no estado, no país e no mundo. Aí está o sentido da cidadania planetária, que não se pauta no egoísmo. Como também, a gênese do conceito da Agenda 21, em minha opinião.

O princípio básico nessa proposta ganha sentido somente com a redução do consumo. E isso não é um discurso de uma nota só. Enquanto não mudarmos nosso padrão, nenhum projeto poderá ser alavancado e, consequentemente, não haverá justiça socioambiental.

As cartas já foram colocadas à mesa, agora é a hora de assumirmos as responsabilidades aqui, porque no futuro, com certeza, as tentativas de remediação serão cada vez mais difíceis de serem concretizadas.
Sucena Shkrada Resk

29/07/2009 18:38
Personagens do Brasil - O povo da floresta, por Sucena Shkrada Resk

O VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, realizado no Rio de Janeiro, de 22 a 25 de julho, contou com as representações indígena e quilombola, que levaram ao campus da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um pouco dos traços culturais e das tradições dessas comunidades, para serem compartilhados pelas cerca de 3 mil pessoas que participaram do encontro. A manifestação do líder indígena, Davi Kopenawa Yanomami, presidente da Hutukara Associação Yanomami-HAY, foi um dos destaques no encerramento do evento. Simples na fala, mas objetivo no conteúdo, reinvindicou respeito aos povos indígenas e ao meio ambiente por parte do governo e da sociedade.

"Os novos não podem deixar que aconteça o desmatamento. Agora estão vendo que os igarapés estão sujos, mas tinham de pensar nisso antes. Os peixes estão sumindo. Antes (nossas terras) eram cheias de araras, papagaios, mas os brancos fizeram as grandes cidades, os estados e o país foi destruído...O que vai ficar para nossos netos?...", disse.

"...Estou aqui para defender nossos direitos. Não adianta que só vejam os mapas (das reservas), é preciso conhecer a realidade dos índios. O Governo Federal tem de ir a nossas terras, para nos escutar. A autoridade 'vai e volta', mas tem de preservar realmente, porque nós que temos de enfrentar os garimpeiros desmatando...", afirmou.

Em sua fala, com a voz entrecortada, Davi fez um desabafo - "...O índio não é isolado, não. Está na floresta, que é sua casa. Já o branco mora na cidade de pedra, escondido e parece um rato. Se acabarem com o índio, não vai mais ter a floresta. Vou deixar as minhas palavras em seu coração e em seu pensamento. Vamos lutar juntos. Não vamos deixar nosso povo morrer de doenças. Índio é gente, sabe falar, lutar..."

Ao ser indagado se o fato de vestirem roupas não fazia com que perdessem os laços com suas raízes, respondeu - "...Vestimos roupa para virar caboclo e para que não falem mal da gente. Vocês brancos tiram ouro da natureza, para enfeitar a mulher e os dentes, e nós usamos a roupa do branco para respeitar vocês. Se o índio andar nu, vocês não vão gostar. Nós, indígenas, sabemos respeitar, quando entramos em sua casa. Queremos também aprender a ler e escrever para falar com a autoridade. O costume de vocês é como a gripe suína, mata nossos costumes. A gente fica com vergonha..."

Durante toda sua exposição, o líder indígena demonstrou que a sensação de uma luta solitária é presente na vida de seu povo, e fez com que pudéssemos refletir o quanto é importante construirmos discursos de sustentabilidade, que ganhem corpo e não se percam em lindas palavras carentes de ação.

Os Yanomami vivem no Amazonas, em Roraima e em um trecho da Venezuela, em uma área homologada em 1992, de 96,6 mil km2. Segundo o site Povos Indígenas do Brasil, do Instituto Socioambiental (ISA), há estimativa que sejam mais de 15 mil, de acordo com levantamento da Fundação Nacional da Saúde (Funasa). É um dos povos indígenas mais combativos no país.
Sucena Shkrada Resk

16/07/2009 14:28
Personagens do Brasil - Os guardiães do Pico da Pedra Selada, por Sucena Shkrada Resk

Visconde de Mauá, no RJ, é uma daquelas localidades brasileiras, que reservam o melhor da topografia de nossas serras, com a Área de Preservação Ambiental da Serra da Mantiqueira e o Parque Nacional de Itatiaia. No meio dessa paisagem, está o Pico da Pedra Selada, a cerca de 1,7 mil m de altitude, que mais parece um dedo apontado em direção ao céu, de onde se avista o Vale do Paraíba e do rio Preto. Para chegar lá, é necessário passar pelas terras do sitiante Alcebíades Moreira Diniz, 75 anos, um personagem de nossa terra, que como um bom proseador, conta um pouco da história daquela região.

Falante, o caboclo revela que a sua família, descendente de ingleses e portugueses, é pioneira e está lá, há muitas décadas. Foi nesse pedaço do Brasil, que ele nasceu e fincou sua morada e compartilha seu dia a dia, com seu cavalo Mineiro, apreciando o convívio com jacus, entre outras espécies, que chegam tão próximo, como se fossem vizinhos.

Com um jeito próprio de conceber o que é preservação ambiental, senhor Diniz fala que decidiu há mais de 40 anos, plantar árvores frutíferas, como ameixeiras, no caminho ao Pico, pois estava desmatado. As ameixeiras cresceram e hoje estão robustas. Alimentam pacas, porcos do mato e várias aves, que antes não migravam para aquela localidade. "Não posso parar de cuidar dessas árvores, porque senão os pássaros ficarão sem comida e irão embora", diz preocupado. Para isso, ele faz caminhadas íngrimes, para cuidar de seu imenso jardim, o que dá uma pontinha de inveja a sedentários, como eu.

O sitiante afirma que, por conta de determinações de órgãos ambientais, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis (IBAMA), às vezes, leva multa, por fazer um roçado ou plantar espécies inadequadas. Mas com seu jeito simples de interpretar a vida, diz que tem amor pela terra, da qual cuida 'de seu jeito" todos os dias. .

Para a geração de renda e auxílio na conservação local, Diniz investe no ecoturismo, de uma forma "caseira". Turistas desfrutam da paisagem pagando (hoje) R$ 5,00 de estacionamento e R$ 3,00 para fazer a trilha, e se quiserem sua monitoria, desembolsam mais R$ 10,00. Segundo ele, rotineiramente verifica se alguém deixou lixo na trilha, para que possa conservar o trecho limpo.

Numa pequena lanchonete, que construiu na entrada da propriedade, aos finais de semana, mais uma personagem surge. É a dona de casa Rosângela, que faz uns quitutes, farofa com pinhão e salgadinhos saborosos ao tradicional estilo caseiro, que ajudam na renda familiar. Utiliza moenda e até forno a lenha, se necessário, apesar de ter um fogão de quatro bocas à disposição. Para chegar lá, leva pelo o menos um hora a pé, nas sinuosas estradas de terra, mas um percurso, que já faz parte de sua rotina. Sua filha Mayara, 10 anos, a acompanha e diz que não troca aquela paisagem por nada. A menina já sabe fazer horta, plantar flores e reconhece os pássaros, pelos sons. Algo difícil de se ver na cidade grande.

Ao encontrar Diniz, Rosângela e Mayara, a simplicidade do atendimento é o que mais encanta. A região onde vivem é tão representativa ambientalmente, que desde o ano passado, a comunidade local e órgãos municipais já discutem transformá-la em um Parque Municipal. Entretanto, é bom frisar, que eles são os guardiões de hoje desse pedaço do Brasil, e devem ser valorizados no processo de modernização das legislações ambientais.

Sucena Shkrada Resk

16/07/2009 11:59
Trabalho não é favor, por Sucena Shkrada Resk

A mentalidade do mercado de trabalho nos moldes capitalistas corrói cada vez mais a auto-estima, de nós, trabalhadores e, lógico, cidadãos. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no mês de abril, já havia o número de 2 milhões de desempregados no país. O diretor de Política Econômica do Banco Central, Mario Mesquita, informou que o mês de julho sinaliza o maior pico de desemprego no Brasil, no percentual de 9,8%. No cenário global, a Organização das Nações Unidas (ONU) anuncia que 17% dos 6,8 bi habitantes do planeta estão em condições de extrema pobreza. Só em 2009, cerca de 90 mi se somam a esse contingente de famintos, desnutridos.

Estar em condições de extrema pobreza significa receber ou não menos de US$ 1,25, segundo a ONU. Explicações para esse quadro desestruturador da sociedade passam por argumentos, como a crise econômica, o avanço das mudanças climáticas, o aumento dos preços dos alimentos X desemprego e o subemprego. Como é possível levantar bandeiras pela qualidade de vida, se não vamos a fundo nas principais causas do desequilíbrio socioeconômico e ambiental neste planeta?

Não importa hoje ter um diploma na mão ou não. A impressão é que ter um emprego, seja ele, no formato de subemprego, carteira, autônomo ou por meio da pessoa jurídica é como receber um favor. As pessoas se sentem oprimidas e receosas, de no dia seguinte, não terem mais nada, se não se submeterem ao jogo do mercado e a humilhações na entrelinhas.

Para quem não está classificado na hipótese anterior e sobrevive de restos e da caridade alheia, quando é possível, submerge no caos mais cruel do sistema capitalista. Não há mais nada destrutivo para um ser vivo. Não ter alimento, teto, roupa, opção de empregabilidade. A dignidade é destroçada sob todos esses pesos. O corpo e a mente padecem. E as pessoas literalmente morrem em todos os sentidos. De acordo com a FAO, organização da ONU para a Agricultura e Alimentação, a cada minuto, 12 crianças morrem de fome no mundo. Isso não é literatura ficcional, é realidade.

A pergunta é a seguinte: o que falta mais para se mudar o sistema de trabalho no país e no planeta? Não sei se a via do cooperativismo, associativismo é a única, mas com certeza, representa um caminho. Transformar pessoas físicas em pessoas jurídicas - como eu me enquadro - é um processo desagregador, porque a carga tributária que incide sobre nós, profissionais liberais, é extremamente alta. Chega o momento, em que pagamos literalmente para trabalhar. Em outras situações, as pessoas se submetem a salários mais baixos, porque não há outra escolha.

E aí vou mais fundo. É preciso desconstruir o novo paradigma que surgiu pós Revolução Industrial, que trabalho é praticamente favor. Quem diz que a escravidão e a servidão acabou não consegue fazer a leitura das entrelinhas das novas formas de empregabilidade. Trabalho é força, empenho, preparo e troca. Mas para que tudo isso se agregue, é preciso que empregado, profissional, empregador, governos tenham consciência dessa relação de parceria e respeito.

Não é possível mais se viver na sociedade do lucro desenfreado. O raciocínio é o seguinte: quanto mais pessoas desempregadas, menos consumo, e menos lucro. Afinal, todas as partes têm de sair ganhando. E o ganho não se traduz somente em moedas. O ganho é a dignidade, a soma de metas, esforços, o equilíbrio, a racionalidade que não destroce nossa saúde mental e física, nos levando à fome holística.

Governos, empresários, profissionais liberais e a sociedade como um todo precisam repensar os valores nesse mercado. Do que adianta, pequenas parcelas ganharem muito e a grande parcela da população padecer. E incluo aí - a grande parcela da classe média do século XXI.

Nessa reflexão, acabam tarjas de países desenvolvidos, em desenvolvimento e subdesenvolvidos. Quando todos nós percebermos que vivemos numa relação simbiótica, talvez haja mudanças significativas no trajeto da humanidade.
Sucena Shkrada Resk

29/06/2009 18:46
A quem interessa?, por Sucena Shkrada Resk

Na minha trajetória profissional, eu já me deparei com muita demagogia dentro e fora das redações, mas o que mais me aborrece até hoje é detectar que o jornalismo está carente de repaginação. Não é possível suportar a excessiva cobertura sobre a morte do cantor Michael Jackson, desde o anúncio feito por seus familiares, na última quinta-feira. Uma hora é o ídolo, a aberração, o maior cantor pop de todos os tempos, o suspeito disso, daquilo, ... As notícias chegam ao requinte de tratar da paternidade de seus filhos. A quem interessa com quem vai ficar sua fortuna, ou quem são seus herdeiros? Afinal, enquanto horas de matérias tratam destes temas, pessoas morrem de fome, de AIDS, os ribeirinhos padecem sob as cheias, o cenário político brasileiro está em franca deterioração...

Quando estava vivo, Michael Jackson viveu quase no ostracismo nos últimos doze anos em que esteve fora do circuito dos shows, exceto quando foi manchete sobre "escândalos" e denúncias que envolviam seu nome. Agora, seus CDs estão até esgotados. Fãs se dizem órfãos.

A mídia apaga qualquer outra pauta em favor de horas a fio de um tema "rentável". Não é possível se calcar no argumento de que é um personagem público. A dissecação da vida privada superou, nos últimos dias, qualquer limite.

Essa febre por ibope a qualquer custo acaba empobrecendo o jornalismo e deixa a escanteio milhares de personagens anônimos por esse planeta, que têm muito a dizer e expressar nas páginas da Internet, dos jornais, das revistas e nas TVs e rádios. Algo que nos acrescente repertório à trajetória de seres humanos.
Sucena Shkrada Resk

21/06/2009 11:23
Por quê?, por Sucena Shkrada Resk

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) pela não-obrigatoriedade do diploma de jornalismo para exercer a profissão, nesta semana, me deixou literalmente perplexa. A única indagação que vem à minha mente é - Por quê? E não se trata de um questionamento corporativista, pelo o fato de ter cursado uma faculdade de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, há 17 anos. Mas de compreender o argumento para tal decisão e quais serão as verdadeiras repercussões dessa mudança...Afinal, com isso, também terá de haver mudanças na Consolidação das Leis do Trabalho, no que tange à profissão. E para quem cursa uma faculdade da área atualmente? E a sobrevida dos cursos de Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo? Quais são as efetivas respostas?

De acordo com matérias divulgadas na mídia, o presidente do STF, Gilmar Mendes, e os demais ministros que foram a favor da decisão, alegaram a inconstitucionalidade. Mendes teria dito - "A exigência do diploma do curso superior para a prática de jornalismo não está autorizada pela ordem constitucional, pois constitui uma restrição a efetivo exercício da liberdade jornalística. O Estado não está legitimado a estabelecer condicionamento e restrição ao acesso à profissão e ao respectivo exercício profissional". (trecho extraído da matéria STF acaba com obrigatoriedade do diploma para jornalismo - OAB-Rio de Janeiro-18/06/2009 - O Globo)

Mas afinal o que é o jornalismo? Ao consultarmos nossos dicionários, segue a definição - a imprensa periódica, profissão de jornalista, conhecimentos relativos ao jornalismo. Já jornalista - pessoa, que por profissão, escreve em jornal; pessoa que dirige um jornal.

O decreto-lei nº 972, de 1969, que instituiu a obrigatoriedade da formação acadêmica em Jornalismo, foi forjada na época da Ditadura Militar, entretanto, de alguma forma 'antagonicamente' aos princípios do regime, disciplinou o que desde a descoberta do Brasil era traduzido pela tônica dos interesses políticos e das grandes famílias. Um interessante material de consulta está disponível no site da Associação Nacional de Jornais (ANJ) - http://www.anj.org.br/a-industria-jornalistica/historianobrasil/arquivos-em-pdf/Cronologia.pdf. Outra fonte de consulta é o livro História do Jornalismo no Brasil, de Richard Romancini e Cláudia Lago, de 2007.

Eu, particularmente, cursei Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), durante quatro anos de minha vida, e acredito que absorvi tanto conhecimentos teóricos e éticos, como os técnicos. Entretanto, a base humanista do papel profissional a que me deveria dedicar pesou mais em minha formação.

Posso me questionar que se tivesse cursado História, Sociologia, Biologia, talvez a minha liberdade de expressão tivesse sido diferente. Será? Afinal, em todos os tablóides, revistas, mídia televisiva e radiofônica, além da mídia on line, principalmente após o período da Ditadura, há espaço de expressão. O leitor mais humilde também tem direito de se expressar. Por isso, há as figuras de colunistas, articuladores, comentaristas e, obviamente, fontes das matérias.

Questionar a qualidade das escolas de Comunicação Social e a necessidade de revisão em seu conteúdo curricular é plausível e é importante, sem dúvida alguma. Uma questão que também é avaliada em outros cursos no Brasil.

Também é racional questionar, no meu ponto de vista, as linhas editoriais. Entretanto, é importante lembrar que o jornalista é o profissional com embasamento técnico e humanista e, não, simplesmente o tecnicista. É o profissional, que pauta, reporta e traduz em várias linguagens a informação, para que a mesma chegue ao público-alvo. Creio que esse preparo não foi colocado como premissa, na decisão tomada nesta semana. Enfim, foi constituída a Ciência da Comunicação ou tudo isso não vale de nada?

Enfim, ainda me falta uma compreensão maior de entender o porquê. Afinal, isso poderá ter implicações futuras, que eventualmente facilitarão o ingresso de pessoas oportunistas (como já existem) para utilizar o instrumento da mídia, agora com respaldo legal. Espero que todo esse processo seja acompanhado de perto pelo STF, que se verificar a necessidade de uma nova tomada de decisões, não tenha o acanhamento de também defender por sete votos a um ou a oito, uma nova postura.
Sucena Shkrada Resk

21/06/2009 10:45
A capacidade de indignar-se, por Sucena Shkrada Resk

Os pensamentos retilíneos e complacentes ainda me causam desconforto, pois refletem alienação e até comodismo diante das controvérsias que a humanidade é responsável e, ao mesmo tempo, vítima. E essa certeza ganha mais argumentos, com a leitura da obra "Pedagogia da Indignação", de 2000, pela UNESP, que reúne cartas do educador Paulo Freire, escritas pouco antes de sua morte em 1997.

A sua maneira de expressar o quanto é importante refletir e não ser passivo é direta, simples e objetiva. E comovente...São sentimentos que extravasam e conseguem ser conciliados com a racionalidade. Ao ler cada frase é como se pudéssemos ouvir sua voz calma e persuasiva, que ouvia e transmitia confiança a milhares de jovens e adultos por esse Brasil, que buscavam o saber das primeiras letras...

Separei algumas reflexões do educador, que considero atemporais e, que independente de sua linha político-ideológica, permitem a qualquer um de nós parar e repensar valores e caminhos em nossas trajetórias.

"...É preciso testemunhar a nossos filhos que é possível ser coerente, mais ainda, que ser coerente é um final de inteireza de nosso ser. Afinal, a coerência não é um favor que fazemos aos outros, mas uma forma ética de nos comportar. Por isso, não sou coerente para ser compensado, elogiado, aplaudido..." (Paulo Freire)

"...Não creio na amorosidade entre mulheres e homens, entre os seres humanos, se não nos tornamos capazes de amar o mundo. A ecologia ganha uma importância fundamental neste fim de século. Ela tem de estar presente em qualquer prática educativa de caráter radical, crítico ou libertador..." (Paulo Freire)

"...Uma educação progressista jamais pode em casa ou na escola, em nome da ordem e da disciplina, castrar a altivez do educando, sua capacidade de opor-se e impor-lhe um quietismo negador do seu ser. É por isso, que devo trabalhar a unidade entre meu discurso, minha ação e a utopia que me move..." (Paulo Freire)

"...A necessária formação técnico-científica dos educandos porque se bate a pedagogia crítica não tem nada que ver com a estreiteza tecnicista e cientificista, que caracteriza o mero treinamento..." (Paulo Freire)

"...Na visão pragmático-tecnicista, contida em discursos reacionariamente pós-modernos, o que vale é a transferência de saberes técnicos, instrumentais, com que se assegure boa produtividade ao processo produtivo..." (Paulo Freire)

Todas as ideias acima expostas pelo educador Paulo Freire nos permitem rever posturas mecanicistas e perceber que não somos robôs. Creio que ainda é tempo de fazer imersões na releitura de nossas posições e mudar os rumos da educação em nosso país, incentivando cidadãos participativos, que tenham sua auto-estima construída em alicerces sólidos. Afinal, a capacidade de nos indignar, nada mais é, do que uma prova latente que estamos vivos, pulsando...

Sucena Shkrada Resk

14/06/2009 11:50
Quantas Estamiras há por este Brasil?, por Sucena Shkrada Resk

Nunca é tarde para se ouvir o relato da cidadã Estamira, no filme-documentário dirigido e produzido por Marcos Prado (2006), que oscila entre seus devaneios e revolta, e a impecável lucidez, sobre o que é direito e dever, e a salubridade do planeta numa sociedade democrática. Há momentos em que a gente prende a respiração, porque as palavras tão 'sinceras' dessa senhora, que passou mais de 20 anos no 'chamado' Aterro Sanitário de Gramacho, no Rio de Janeiro, revela a angústia de milhares de brasileiros por esse Brasil, vítimas do descaso, esquecidas sob os números de tão imensa população.

Na verdade, se trata de um grande lixão, em que homens e mulheres disputam espaço com os urubus, em busca de alimentação, roupas, ou seja, da sobrevivência em meio ao quadro da miserabilidade. Ao odor fétido estão praticamente imunes 'mentalmente', mas seus corpos já traduzem os efeitos pérfidos desse contato.

Por que estão lá? Esta pode ser uma pergunta inocente. Estão nesse caos proveniente do excesso de nosso consumo e de nosso 'desperdício', e por outras inúmeras razões. Desilusão da vida, falta de oportunidade de emprego, baixa escolaridade - ou melhor - falta de justiça social, renda e um meio ambiente ecologicamente correto...Bem, aí surge a palavra mágica: sustentabilidade.

É difícil dizer se o lixão provoca os distúrbios mentais ou esses levam, em muitos casos, para essa situação deprimente. O certo é que ninguém merece viver desta forma, pegando produtos vencidos, no meio do lixo, para fazer uma bela macarronada. Andar sobre o chorume, que penetra na pele, e no organismo, como um veneno que mata aos poucos...Ninguém merece carregar pesos excedentes nas costas, para ter como sobreviver mais um dia, como se fosse o último. E ter que a cada momento, tirar das entranhas, uma fórmula, quase mágica, para reconstruir a dignidade.

São homens, mulheres e crianças que têm suas existências afetadas para sempre. Sequelas que seguem por gerações. Como não se sentir humilhado? Ninguém sai o mesmo, após viver nesse mundo underground e literalmente triste.

Tristeza, revolta e uma imensa vontade de transformar... Eis os sentimentos que emergem, ao assistir Estamira. Quase profética, em sua aparente insanidade, diz muitas verdades, que nós, por muitas vezes, não queremos ouvir. Essa linguagem, que beira a espiritualidade, traduz a perturbação e a clareza, que é preciso mudar posturas no planeta Terra.
Trata de valores morais, de respeito ao próximo.

Sem dúvida, é um alerta direto ao modelo capitalista. Em algumas partes do filme de 116 minutos, a emoção toma conta de forma avassaladora. Realidade...Temos plena convicção que ainda existe essa situação aterradora, nas cidades grandes, nas pequenas...É o choque do desenvolvimento reverso de nossa civilização.

Como contribuir para que isso um dia mude? Ao mudar a forma de consumo, as relações humanas, compartilhando conhecimentos, afeto... Quem sabe, chegar em um nível de existência, com as melhores qualidades da humanização. Talvez, assim, as Estamiras e a versão masculina delas ainda permaneçam, mas com uma diferença gritante, felizes por terem lutado e conseguido transformar o mundo de seus filhos, netos, bisnetos...

Uma expressão maravilhosa, que traduz a sabedoria por trás da simplicidade dessa mulher, diz muito - "...Trabalhar não é sacrifício...".
Sucena Shkrada Resk

08/06/2009 16:40
A sutileza das metáforas, por Sucena Shkrada Resk

O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini, é um daqueles raros romances que consegue, por meio de metáforas, fazer a gente refletir sobre perdão e superação. Nesta semana, resolvi assistir ao filme, dirigido por Marc Forster, apesar de ainda estar imersa nas páginas do livro. Tive a sensação de ser convidada a entrar no enredo da obra. A produção não exagera em afetações e trata dos momentos de 'violência', de uma forma subliminar.

Durante o making off, Hosseini conta, que um dos momentos mais comoventes do filme, na verdade, é uma metáfora do "estupro", pelo qual passa o povo afegão. Uma cena, que apesar do revestimento de crueldade, consegue expressar sensibilidade. O pequeno ator Ahmad Khan Mahmidzada, que interpreta Hassan, externaliza em sua interpretação, a doçura e resignação, que antagoniza, com o então jovem Amir (Ahmad Khan Mahmidzada), interpretado na fase adulta, por Khalid Abdalla.

As pipas nos ares de Cabul ganham sentido de liberdade, uma liberdade que sofreu grande impacto com a chegada dos soviéticos, em 1979, que permaneceram por lá, durante nove anos. E nos ares...dos EUA, transmite o quanto é possível se rever posições e remediar atitudes mesquinhas, por meio da revolução interna, que podemos realizar a cada momento de nossas vidas...


Sucena Shkrada Resk

29/05/2009 16:27
Empresas têm chance de mostrar responsabilidade social, por Sucena S.Resk

A Cruz Vermelha, em São Paulo, está recebendo donativos (alimentos não-perecíveis, itens de higiene e roupas) para os atingidos pelas cheias, principalmente no Norte e Nordeste do país. O grande desafio, entretanto, é a logística deste material para os municípios atingidos. O transporte depende prioritariamente da cooperação da Força Aérea Brasileira (FAB), de transportadoras e de empresas aéreas comerciais, devido às distâncias e condições irregulares das vias terrestres, em muitas regiões.

Não há melhor momento para que os setores de responsabilidade social mostrem a que vieram. E cada um de nós pode contribuir com o desprendimento e solidariedade. São toneladas de donativos que precisam ser remetidos às unidades da Cruz Vermelha Regionais, para serem entregues a quem, de fato, precisa. Esse esforço também pode ser aplicado ao trabalho desenvolvido pelas Defesas Civis e por entidades de terceiro setor idôneas, que participam das campanhas...

As mais recentes vítimas, que necessitam de apoio, são moradores do município de Cocal e região, no PI. Quarta-feira marcou um episódio triste e lamentável, do ponto de vista social e ambiental, com o rompimento da barragem de Algodões I, no rio Pirangi - que tinha apenas 10 anos de funcionamento.

Até as 16h deste sábado, 30 (atualizado), havia sido contabilizado o número de sete mortos, três desaparecidos, mais de 80 pessoas feridas e de 3 mil moradores desabrigados e desalojados, que integram uma população estimada de 26,2 mil pessoas. Com o passar dos dias, esses dados, com certeza, deverão ser modificados, podendo revelar um quadro ainda mais complexo, visto que afetou o abastecimento de água, energia, logística, enfim, toda a condição de infra-estrutura.

Para ampliar o contexto crítico que envolve Cocal, a maioria dos moradores vive da agricultura de subsistência. A cidade, que ocupa uma área de 918,6 km, apresenta um período seco, que dura praticamente metade do ano, e uma vegetação de caatinga . Além das vidas humanas comprometidas, é necessário lembrar que a fauna e flora local também foram afetadas. Entre as espécies catalogadas por lá, estão desde répteis a veados.

As apurações de responsabilidade civil e criminal já foram iniciadas - o que é fundamental -, mas antes disso ainda há muito a fazer, pois é um verdadeiro caso de calamidade pública. Afinal, muitos desses cidadãos ribeirinhos ainda estão isolados e houve o isolamento do litoral do Estado, devido a comprometimentos na BR-343, o que multiplica os efeitos da tragédia.

Serviços: Cruz Vermelha (SP) - avenida Moreira Guimarães, 699, bairro Indianópolis, próximo ao Aeroporto de Congonhas. O atendimento é de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, e aos sábados, das 8h às 14h. Informações pelos telefones: (11) 5056-8667/8665/8664.

Sucena Shkrada Resk

22/05/2009 13:54
Florestas tropicais em Copenhagen, por Sucena Shkrada Resk

Prever quais serão os resultados da Convenção das Partes Sobre o Clima (COP 15) de Copenhagen, a ser realizada, no final deste ano, é um exercício literalmente futurístico. O que já é presumível, segundo o ex-diretor-geral do Serviço Florestal Brasileiro e atual assessor especial para Clima e Floresta do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Tasso Rezende de Azevedo, é que o Redução de Emissões para o Desmatamento e Degradação (REDD) funcionará somente nas florestas tropicais. Com isso, a responsabilidade do Brasil é cada vez maior neste cenário. "Mas é fundamental que haja o reconhecimento de ações preliminares contra o desmatamento, para que isso estimule os países a tomarem medidas efetivas", diz. Da totalidade de florestas no planeta, 25% são tropicais, onde ficam concentrados 50% do estoque de carbono.

Segundo Azevedo, a COP hoje ainda não reconhece as ações antecedentes de mitigação. "No caso do Brasil, temos como exemplo o álcool. Quanto ao desmatamento, o estoque continua, e talvez a Convenção comece a estabelecer como parâmetro medidas a partir de 2005", analisa.

Uma das posições brasileiras mais recentes é a proposta de que seja estipulada como meta no 'protocolo pós-Kyoto', o trabalho conjunto para a manutenção do aumento médio de temperatura no planeta, abaixo de 2º C. E que seja feito o monitoramento de 0,2 º C por década. "Quanto ao desmatamento, o nosso objetivo de reduções das emissões de desmatamento é de 80% até 2020. Inclui, além da Amazônia, os demais biomas, que até janeiro de 2011, começam a fazer parte do cálculo de emissões do país", afirma.

O Fundo Amazônia tem um papel fundamental nesse processo, de acordo com o assessor. O primeiro investidor foi a Noruega. "Agora, estamos discutindo o contrato com a Alemanha e a abertura para empresas privadas", explica.

A participação dos EUA, sob a batuta de Barack Obama, na COP 15 é uma das posições mais esperadas em todo o mundo. "O fato de o país não ter entrado no 'jogo' nos últimos anos, torna difícil que assuma metas de redução de até 40% com relação a 1990. Não conseguem fazer nada próximo a 25%, mas hoje a proposta mais aventada, é com base em 2000", diz Azevedo. Reduções de emissões significativas por parte dos EUA só devem acontecer por volta de 2050.

Um aspecto que não deve ser menosprezado, segundo ele, é que o presidente norte-americano depende estritamente do Congresso, para chegar com proposições significativas em Copenhagen. Tasso discutiu o tema, durante apresentação realizada na Editora Abril, nesta semana, a convite do site Planeta Sustentável.
Sucena Shkrada Resk

19/05/2009 11:25
O questionamento nosso de cada dia, por Sucena Shkrada Resk

O filme francês "Entre os Muros da Escola", dirigido por Laurent Cantet, é uma das produções mais fiéis sobre os bastidores das escolas públicas, por conseguir a proeza de fundir a realidade de não-atores de uma instituição de ensino da periferia francesa à sétima arte, sem ficar com os ares carregados de documentário.

Ver a relação conflitante entre um professor de Francês, interpretado pelo próprio autor, François Bégaudeau, com seus alunos da 7ª série, é como se fundir no meio daquelas cenas. Poderia ser São Paulo, Rio de Janeiro ou qualquer cidade por esse mundo afora, na periferia ou não. Essa sensação de pertencimento é o que chama mais a atenção para a história, que nos faz repensar como é importante amadurecer como educador e aprendiz. O que seremos, afinal, até o resto de nossas vidas.

A sociedade está refletida entre as paredes das salas de aula e o concreto cinza, que apesar da aparência gélida, se confronta com a vida 'quente', que traduz futilidades, intrigas, complexidades, incertezas, diferenças culturais e raciais, violência, mágoa, superação, conflitos de gerações, amadurecimento, desrespeito, mas doçura, sabedoria e 'pedido de colo' no meio desse caos...

Pode-se dizer que nos transmite o recado de que, por muita vezes, colocamos uma redoma para aparentar 'força' diante daquilo que não entendemos. Isso se dá entre pais e filhos, irmãos, colegas, patrão e empregado, educadores e alunos, amigos, parceiros... E esse paredão não nos permite enxergar realidades que, na verdade, estão tão claras e latentes...

Menosprezamos a existência da sabedoria, por trás das palavras ásperas e atitudes secas de uma adolescência massacrada pela discriminação, que só espera um olhar de ternura e a quebra dessa parede, para desabrochar o que tem de mais rico, que por muitas vezes, desconhece. Até então, ninguém esteve lá para lhe dar essa chance. Por outro lado, esses adolescentes em ebulição não conseguem enxergar que o 'mestre' também é um poço de incertezas como eles, que quer encontrar um código de acesso para compartilhar seu mundo com esses jovens.

Alguns diálogos pesados em que a ofensa descarrega o que há de pior nessa relação, choca, mas traduz o que vemos no dia a dia no Brasil, por exemplo, não só em escolas de periferia, mas nas que estão em bairros de classe média e alta. Para muitos, o choque leva ao entorpecimento, mas para outros conduz à mudança. Tão necessária e urgente.

Mais um aspecto interessante de "Entre os Muros da Escola" é observar as reuniões de conselho de classe e dos professores com os pais de alunos. Aí, literalmente 'cai a ficha' de que o sistema hermético do ensino público precisa quebrar as barreiras comunicacionais. As informações não são decodificadas, porque seguem apenas regras, sem que se perceba que relações humanas transcendem exatamente os muros da escola.

Vale a pena ver esse filme. Recebi a sugestão de minha professora de didática de ensino, Marize Carvalho Vilela, da Pós Graduação de Meio e Ambiente e Sociedade, na FESPSP. O que mais me contagiou nos seus argumentos, foi justamente falar que repensou seu papel como educadora, apesar de mais de 40 anos na carreira, ao assistir essa história "real". A doutora em História da Educação, que lecionou também por muitos anos na escola pública, se colocou no lugar dos estudantes e viu o quanto é importante mantermos o respeito recíproco, para que a palavra educação ganhe um sentido holístico, seja no ensino fundamental, no universitário e na vida.

O roteiro é baseado no livro homônimo de Bégaudeau, lançado pela Martins Editora. O filme é vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 2008, entre outras premiações.
Sucena Shkrada Resk

19/05/2009 10:00
Especial II FCS - 4 - Reconhecer as origens, por Sucena Shkrada Resk

Um dos relatos que mais me impressionou, durante o II Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade, foi do índio André Fernando Baniwa, que é vice-prefeito de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. A sua autenticidade e perfeita noção do que é nesse planeta foi um exemplo e tanto para todos os presentes no evento, como também aos internautas, que acompanharam on line, o encontro realizado em São Paulo, nos últimos dias 6 e 7 de maio.

"Primeiro sou indígena baniwa, amazonense e brasileiro. Tem de ser assim. Valorizar o povo, estado e país", disse. Segundo André, a Ciência é de cada povo e os conhecimentos tradicionais devem ter o seu espaço reconhecido, sem fronteiras. Mas reflete - "Viver interculturalmente é difícil. Alguém precisa traduzir isso", afirma. Esse papel pertence a cada um de nós.

O vice- prefeito, que também compõe a diretoria da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro, tem plena consciência da responsabilidade do papel da administração pública em comunhão com a sociedade, na promoção desse respeito entre os povos. "Em nossa região, vivem cerca de 90 mil pessoas, de 23 povos e quatro tronco linguísticos. E já existem mais de 500 comunidades, originadas em pequenas associações, para fortalecer essa política", conta.

A terra é o espaço da comunicação, segundo André. "Os povos indígenas respeitam essa natureza. Isso vem desde os desenhos milenares nas pedras, que ensinam a respeitar o outro", afirma.

Segundo ele, um exemplo de que conviver com a diferença é possível é a parceria de 10 anos, que o município mantém com a Aústria, a fim de manter a floresta em pé. "Lá transformaram as fábricas, em tecnologia limpa. Aqui, 90% da área está preservada", diz.

Sucena Shkrada Resk

18/05/2009 21:02
Especial II FCS - 3 - Um jornalismo mais comprometido, por Sucena Shkrada Resk

Os jornalistas André Trigueiro e Washington Novaes expuseram a necessidade de maior comprometimento dos jornalistas com relação às questões ambientais, durante o II Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade.

"A comunicação brasileira está moldada no modelo hollywoodiano, com dramas e tragédias. Passado isso, 'esquece' das notícias", disse Novaes. Segundo o supervisor geral do Repórter Eco, na TV Cultura, a mudança de paradigmas pode até ser considerada ameaçadora do ponto de vista financeiro. "Estabelece-se conflitos com a publicidade...mas os jornalistas têm de mudar a visão de mundo. Hoje é exigida uma nova ética...É preciso ter pressa", afirmou. Por trás de sua fala, deu o recado de que não dá para fazer marketing sobre o aquecimento global, os refugiados climáticos e tudo que envolve os desafios do século XXI.

Trigueiro alertou que as faculdades de jornalismo devem ficar atentas para não replicar o analfabetismo ambiental. O jornalista mencionou a importância de que profissionais de comunicação se mantenham informados, para poderem exercer uma postura responsável sobre os fatos, sem 'achismos'.

Como mediador da Mesa "Integridade Ecológica", ainda criticou as políticas governamentais de curto prazo. "Existe um movimento em curso no Congresso que tenta desmontar o Código Florestal Brasileiro. E Santa Catarina tomou a dianteira (mudando seu código estadual)", provocou.

O âncora na GloboNews também afirmou que a mídia e a sociedade não podem ficar alienadas quanto à realidade nacional, e ter uma visão reducionista. "Atualmente 650 mil brasileiros foram atingidos pelas chuvas no N e NE", disse. Isso quer dizer, não são apenas números, que lotam as manchetes.

E Novaes bombardeou - "É preciso parar a retórica indignada passiva da sociedade".

Sucena Shkrada Resk

13/05/2009 23:08
Especial II FCS - 2 - Sustentabilidade dos gabinetes aos bancos, por Sucena Shkrada Resk

O II Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade, em São Paulo, foi palco de discussões sobre o que, de fato, é educar para a sustentabilidade. Algumas das tônicas do encontro foram a importância da ética nas ações do poder público, e a retomada de modelos de financiamento para a inovação.

Para Danilo Miranda, diretor Regional do SESC, no estado de São Paulo, é possível transformar a realidade urbana por meio de projetos que potencializem talentos. “A obrigação dos órgãos públicos e privados é de se vincular a propostas educativas. Ainda temos de melhorar muito nesse sentido para que haja o empoderamento da sociedade, evitando a segregação em partes isoladas das cidades”, afirmou. O sociólogo defende que para isso, uma das mudanças necessárias é no aparelho do Estado. “É preciso que tenha o interesse público e, não, partidário”.

Quanto ao tema Justiça Social e Econômica, o Prêmio Nobel de Economia, em 2006, e professor de política econômica norte-americano da Universidade de Columbia, Edmund Phelps, constata que sustentabilidade não é um assunto discutido nas salas de aula. Segundo ele, o modelo de economia atual não vai muito longe. “Sou a favor de que se recriem as propostas dos bancos antigos do século XIX, voltados a empréstimos para a inovação no setor privado, que poderá recuperar a alta do emprego. Hoje os governos subsidiam agricultura, casas próprias, e isso também leva à distorção das linhas de crédito”, afirma.

Sucena Shkrada Resk

12/05/2009 16:35
Especial II FCS - O homem não é o centro do mundo, por Sucena Shkrada Resk

As palavras da monja Coen, no II Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade, realizado, neste mês, em São Paulo, são simples, mas profundas em conteúdo. E com certeza, são de valia para qualquer um de nós, para o exercício de reflexão.

Seguem algumas frases que ela disse, ao tratar da Carta da Terra, que nada mais é, que um apelo pela sustentabilidade.

"O ser humano não é o centro do universo...".

"O que falamos e pensamos interfere na vida do outro..."

"No final da Carta da Terra, continuamos lutando pela paz e justiça..."

"Devemos praticar o princípio ético de mudança do modelo mental..."

"Responsabilidade é atuar para transformar..."

"Cuidamos e seremos ser cuidados..."

"O eu é feito do não-eu..."

"Somos planta, sistema de saúde, educacional..."

"Evitemos ficar ensimesmados..."

"A minha felicidade depende da felicidade de todos os seres".

Creio que não é preciso distender muito sobre esses pensamentos da Monja Coen, que não agridem credos ou outras doutrinas...Às vezes, ser sintético e objetivo vale muito mais que se expressar em textos prolixos, que nos desviam das verdadeiras reavaliações de nossas condutas nesse mundo tão diferente, mas ao mesmo tempo, tão igual...
Sucena Shkrada Resk

29/04/2009 19:15
Pensata: Respeito virtual, por Sucena Shkrada Resk

Volta e meia reflito como o e-mail ou o msn se tornam cada vez mais indispensáveis no nosso dia-a-dia, como ferramenta de trabalho, de estudo e da vida social, que exigem um código muito simples - o respeito virtual. A complexidade para esse exercício começa por situações que fazem com que essas ferramentas sejam em diversas situações um dispositivo de uma rede insana de bombardeios de mensagens. Diante da gama de triagem que temos de fazer (para dispensar os spams que não nos interessam), antes de começar nossas atividades, lá se vão bons minutos preciosos de nossas vidas. No meu caso, são por volta de 40 mensagens por dia, extra os supostos vírus.

Por outro lado, no meio dessa artilharia, há informações importantes. Num pequeno desviar dos olhos, lá se vai uma boa oportunidade de pauta, encontro, bate-papo... Haja atenção!!!! E ainda temos de nos preocupar com mais um detalhe: não deixar o interlocutor de nossas relações sem respostas. Afinal, nada é mais descortês do que deixar "alguém escrevendo sozinho" com o alter ego. O correio eletrônico nada mais é do que uma versão tecnológica das conversas ao telefone, das cartas e até (uma versão mais simplificada) do contato ao vivo e a cores. Mas ainda estamos longe de explorar em 100% as potencialidades desse meio de comunicação.

Sucena Shkrada Resk

27/04/2009 14:51
Cadê o transporte ferroviário de passageiros neste país?, por Sucena Shkrada Resk

A política de transporte ferroviário de passageiros no Brasil é inconsistente e chega a representar um escárnio aos cidadãos. Ao pesquisar o site das principais ferrovias brasileiras, no Ministério dos transportes (http://www.transportes.gov.br/bit/mapas/mapclick/ferro/mapferr.htm) , é possível verificar que são registradas duas estradas de ferro de âmbito federal/regional - a de Carajás, PA, e a de Vitória a Minas, operadas pela Vale. Na esfera estadual, existe a malha da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), em São Paulo, e no Rio de Janeiro, a Cia. Fluminense de Trens Urbanos. Já a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) gerencia linhas em João Pessoa, Maceió e Natal. O restante da malha ferroviária é destinada a transporte de cargas (28,5 mil km de extensão), e à modalidade turística.

Tendo em vista a dimensão continental do país, isso é infimamente pouco, quando se trata de pessoas desempregadas e assalariadas, que dependem estritamente de transporte coletivo. O 'vazio ferroviário' na região Norte chega até a causar um certo desconforto. Não estou entrando sequer ainda no mérito da qualidade.

O próprio ministro das Cidades, Márcio Fortes, em matéria veiculada pela Agência Estado, em 29/03/07, cita que, 35% da população brasileira anda a pé por não ter outro meio de transporte para se locomover. Segundo ele, dos que utilizam transporte público, somente 10% usam o sistema de trilhos como metrô e trens de superfície.

Dessa forma, o que vemos rotineiramente é que, nós, brasileiros, temos de nos defrontar com sistemas rodoviários inchados, em alguns locais, ausentes ou carentes de infra-estrutura, em outros. Além disso, com a adoção da modalidade rodoviária como forma predominante significa o estímulo ao aumento da frota de veículos automotores, o que gera mais adensamento principalmente nas regiões metropolitanas, e poluição. Nunca é demais lembrar que São Paulo, há muito tempo, já ultrapassou a frota de 6 mi veículos. E que a redução de enxofre no diesel em ônibus e em alguns tipos de trens ainda é uma adoção que demorará - sabe-se lá quantos anos ou décadas - a ser colocada 100% na prática, no Brasil.

E quando me deparo com notícias recentes da implementação do Trem Turístico da Luz a Jundiaí, e que em maio, vai ser retomado 'um trecho' do Trem do Pantanal, me surge a seguinte reflexão. Do ponto de vista turístico, são iniciativas interessantes (ainda a ser analisadas também quanto ao aspecto de retorno socioeconômico e ambiental . Entretanto, são passeios, que não saem barato, para quem precisa trabalhar todo dia e é descontado, se chega atrasado ou até não chega no serviço. Afinal, quanto tempo mais vai demorar para que nossos governantes e empresários percebam que é preciso mudar a mentalidade logística neste país, tirando a 'sustentabilidade' dos discursos e a colocando na prática administrativa?
Sucena Shkrada Resk

20/04/2009 15:56
A mensagem socioambiental é atemporal, por Sucena Shkrada Resk

Pequenas ações do cotidiano são muito mais representativas do que possamos imaginar, quando se trata de iniciativa socioambiental. "Só a sociedade pode ajudar no descolamento da política com relação à ação administrativa. Aos professores cabe levar aos alunos, a mensagem para tentar mudar o mundo, como uma idéia que não se esgota em nosso tempo de vida...As crianças e jovens devem compreender que são a natureza. Portanto, tudo que acontecer com a natureza, acontecerá com o corpo deles", diz o jornalista Washington Novaes, 74 anos. A afirmação foi dirigida a uma platéia predominantemente formada por educadores do ensino público, no último dia 17, no Espaço Sabina, em Santo André, SP - oportunidade, em que o jornalista contou que é filho também de professor.

O especialista em Meio Ambiente transmitiu a mensagem de que os obstáculos têm de ser encarados de uma forma 'desafiadora' pela sociedade civil. "Sou uma pessoa experiente em derrotas. Mas não desista (m). Porque não há outra alternativa. A desistência é mais deprimente", disse em resposta a uma moradora da região, que narrou a dificuldade da mobilização social para se manter uma área verde na cidade.

Durante sua exposição, alertou que o Aquecimento Global já está acontecendo e não pode ser encarado como algo ligado a um futuro longínguo e descontextualizado de realidades contemporâneas, como o fato de 1 bilhão de pessoas passarem fome todos os dias. Ele citou que um argumento a ser levado em conta é o estudo do ex-economista-chefe do Banco Mundial (Bird), Nicholas Stern, feito em 2006. "Na época, ele disse que temos uma década para superar a questão do aquecimento global e isso custaria 1% do Produto Interno Bruto (PIB ao ano). E se não enfrentarmos isso, teremos a mais grave recessão da humanidade". E recentemente, Novaes afirmou que ao falar com o economista, recebeu a seguinte informação - "Ele me disse que foi muito otimista, e que o custo deverá ser até 3% do PIB".

Na contabilidade dos prejuízos ambientais já existentes, estão o processo de desertificação de 60 mil km de terra anualmente, a falta de acesso à água potável por mais de 1 bi de pessoas, o desaparecimento de 55% das espécies tropicais nas últimas décadas. "Os manguezais estão duas vezes mais degradados que as florestas, por causa principalmente da exportação de camarão, na América do Sul. E um quarto dos estoques pesqueiros no mundo desapareceram, e eles representam 40% das proteínas que a humanidade recebe principalmente nas zonas costeiras", disse.

O desmatamento na Amazônia e Cerrado - que são as principais causas da emissão do Brasil - não são atacados de forma incisiva pelo país. "Mesmo o Brasil sendo o 4º maior emissor, se recusa a assumir compromissos obrigatórios na Convenção do Clima".

Um ponto pouco discutido e de suma importância para a pauta das Mudanças Climáticas e Aquecimento Global, de acordo com Novaes, é das emissões de metano proveniente da pecuária brasileira. "É 23 mais agressivo que o gás carbônico, apesar de permanecer menos tempo na atmosfera. E é decorrente em sua maioria, do processo de ruminação do gado bovino", explicou.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), de Jaguariúna, segundo o jornalista, fez a medição de que cada boi emite 58 kg de metano por ano. "O Brasil tem 205 mi bois. Isso dá 10 mi ton por ano, o que equivale a 250 mi de ton de CO2 equivalentes. Essa quantidade é o que toda a indústria e transporte produz por ano", disse.


Ele informou que outros países já se mobilizam para encontrar opções para reverter esse quadro. "A Nova Zelândia vai impor uma taxa sobre emissão de bois e ovelhas. Na Alemanha, conseguiram reduzir em 25% o metano na pecuária, adicionando óleo de peixe na ração. Tomara que essa solução se confirme, pois poderá ser um caminho", disse.

Segundo o jornalista, hoje vivemos a crise do padrão civilizatório. "Temos de mudar tudo nos modos de consumo. Senão só íremos nos deparar com guerras e mais guerras para a disputa de recursos". Nesse contexto, citou estudos científicos do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) que apontam a possibilidade do aumento superior a 4º na temperatura Média do Planeta.

O jornalista teceu críticas à política econômica brasileira x as prioridades socioambientais. "Está voltada ao crescimento a qualquer preço". Segundo ele, o país tem possibilidade de ter uma matriz eficientemente renovável. "Hoje é predominantemente hidrelétrica. Não há necessidade de se construir mais usinas. Só a energia eólica seria capaz de abastercer o consumo, junto com outras fontes, como a solar, das marés, o etanol. Precisamos de eficiência energética", afirmou.

O tema desperdício de água foi também tratado de forma enfática pelo jornalista. "As maiores cidades brasileiras desperdiçam 45% de água", disse. "As grandes empreiteiras só querem fazer as grandes obras, em vez das pequenas manutenções necessárias", disse. Ainda sugeriu que seja elaborada uma legislação para que cada imóvel retenha água de chuva. "Teria utilidade para não agravar o problema das enchentes", argumenta. Outra medida simples e com resultados rápidos, segundo ele, seria a mudança efetiva de equipamentos de descarga sanitária no país. "Modelos novos gastam somente 3 l contra 20 l. O Japão, por exemplo, já usa tecnologia a vácuo", explicou.

Novaes ainda destacou que a questão do saneamento ambiental é grave. Segundo dados oficiais (de difentes fontes), 10% da população brasileira não tem acesso a saneamento e praticamente 50% está sem esgoto. E no contexto mundial, 23% da população defeca nas ruas - o que pode ser considerada uma das situações mais humilhantes a um ser humano.

Dentro dessa complexa rede de problemas, está a questão do lixo. "Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Brasil são produzidas 230 mil toneladas de lixo (1 kg por pessoa/dia) e a maioria segue para lixões a céu aberto, produzindo chorume, que contamina o solo e os lençóis freáticos", diz. Por outro lado, todas as cidades que mantêm aterros, estão com o período de utilização praticamente esgotado. E a tendência está sendo levar cada vez mais o lixo para mais longe, de uma forma global, de acordo com o jornalista. Ele citou que Nova York manda 12 mil toneladas/dia de lixo a 500 km de distância.

"Já Toronto, no Canadá, chegou a criar um expresso ferroviário para encaminhar sua produção a 800 km, em uma antiga mina de ferro", explica. No Brasil, um exemplo é da cidade de Curitiba, que apesar de ser considerada modelo, abriga 190 m de altura de lixo em seu aterro, com perigo iminente de desmoronar.

Novaes acredita que uma das soluções para o lixo é gerar um custo para o gerador. "Na Alemanha é assim", explicou.
Sucena Shkrada Resk

20/04/2009 10:57
Especial - Amazonas-Tapajós/PA 4 - A sensação de pertencimento, por Sucena Shkrada Resk

Vivenciar o encontro dos rios Amazonas e Tapajós, na altura de Santarém, PA, foi uma experiência única para mim. Pude observar que, com seu tom ocre barrento, o maior rio do mundo não se mistura às águas do lindo Tapajós esverdeado. Cada um segue seu rumo, solitário, pela Amazônia. Assim demarcam a presença geográfica e ficam guardados nas retinas e nas objetivas de máquinas de visitantes, que chegam às dezenas, nos navios de linha e embarcações fluviais que percorrem o trecho. Essa sensação me marcou, no último dia 25 de janeiro, quando cheguei lá, no navio Nélio Corrêa, em uma viagem que durou cerca de 61 horas, a partir de Belém.

Estava ao lado de índios mundurukus e boraris, que haviam participado do Fórum Social Mundial, de parteiras de Alenquer, de ribeirinhos do Tapajós, de migrantes que estavam tentando a sorte em Manaus, de amazônidas de Parintins, de Rondônia, que aindam teriam mais boas horas de viagem até seus destinos. Nesse caldeirão, ainda havia espaço para turistas alemães, espanhóis, paulistas...Descobri que fronteiras inexistem quando queremos, e me envolvi em uma atmosfera de 'pertencimento'. Pois no meio de quase 300 pessoas, colocaram a minha rede (que comprei no Ver-o Peso), no segundo piso da embarcação, onde tinha como companheiros de conversa e sono, essas pessoas provenientes dos mais variados locais.

Nessa hora, a gente perde qualquer frescura. Pois as malas se amontoam sobre os estrados abaixo das redes, numa bagunça - diríamos - organizada. Mas cada um sabe o seu limite e respeita essa falta completa de espaço. Formam-se filas para a hora da refeição feita no navio - uma comida simples e caseira, ao custo do tradicional prato feito. Na hora do banho, aprendi que é preciso saber a hora estratégica de conseguir a vez, sempre afastado das paradas, porque a água vem do rio. Assim, se evita contato com água contaminada.

Entre um bate-papo cá e acolá, uma entrevista jornalística e a êxtase de observar o Amazonas e toda a paisagem que o circunda, que mescla florestas densas, pastagens, pequenos povoados e cidades, como Almeirin e Prainha, consegui me desligar totalmente de minhas 'preocupações urbanas'. E aí, minhas preocupações começaram a se expandir para o planeta.

Enxergar as margens desses rios, em certos momentos, foi quase impossível, pois por muitas vezes chegam a cerca de 20 km de largura. Nesse momento, percebi o quanto somos ínfimos diante à natureza. Com a grandeza de mar, se perdem de vista. Volta e meia, pequenas canoas ou barcos a motor passam com os povos da terra, gente humilde, que vive, em sua maioria, da roça e da pesca. Que sensação boa!!!! Brasileiros que se confundem com a floresta, pois estão lá, fincados em palafitas, ou pequenas casas cobertas de sapé, muitas vezes, sem janela...

Mas janela, para quê??? Afinal, quer paisagem mais linda do que ver a maior floresta tropical do mundo, em seus mais diferentes contextos. Ora com as águas ribeirinhas, ora com árvores frutíferas, como do açai, cajá, árvores centenárias com seus troncos robustos...Mas ao mesmo tempo, o excesso de simplicidade esconde problemas de saneamento básico, o fantasma das cheias e outras pecualiaridades, que também fazem parte da realidade das populações locais.

Até agora, não consigo me esquecer da cena que flagrei no rio Pará (afluente do Amazonas), no trecho do Estreito de Breves, em que várias canoas lotadas de crianças se aproximavam do navio, em busca de donativos - como roupas, calçados e até alimentos. Em um primeiro momento, fiquei chocada e emocionada, em ver aqueles pequenos cidadãos remando com uma força, que exige demais de seus corpos franzinos...Davam gritos uníssonos, como um código universal de contato com os turistas. Daí, sacos eram jogados da embarcação, e lá iam os amazônidas coletar os donativos do dia. Quando percebi, também já havia retirado algumas peças de minha mala e jogado na direção deles.

Da emoção, parti para a reflexão. O rio substituiu os faróis nas grandes cidades. Percebi que poucos adultos se aventuravam a fazer o pedido. Então, me veio à mente - Será que os pais ou responsáveis por essas crianças as colocam nesse contato, para sensibilizar...? Isso é justo e honesto? Esse pensamento até hoje me perturba e faz com que eu queira ter maior profundidade sobre esse "cotidiano" triste, que revela as carências que assolam esse pedaço do país. Será que o Conselho Tutelar atua nessa região? Mais um impacto...Madeireiras, fumaça e o som de motoserra...

De repente, outro impacto. Uma dessas canoas capitaneada pelo garoto José Cleberson, 11 anos, se atracou ao navio. Ele fez um esforço imenso para amarrá-la à embarcação em movimento. E nesse confronto, engoliu muita água. E seus produtos de venda (castanhas-do-pará abrigadas em pequenos saquinhos), cacau e pupunha estavam ensopados. Mesmo assim, a clientela começou a adquirir um e outro, a R$ 0,50 cada. Comprei dois saquinhos e puxei papo com ele, para saber um pouco de sua vida.

"Mamãe coloca para mim e eu venho vender nas férias. Eu estou, agora, na 4ª série", disse. E espontaneamente, completou - "Mas gosto mais de estudar". Isso calou fundo para mim. Não é preciso dizer mais nada, diante dessa afirmação. Daí, senti tristeza em ver como a situação de José é 'rotineira' para dezenas de crianças...

E foi assim que tive o choque dos diversos brasis em que vivemos, em que há a distância do Estado. O Estado que não supre as necessidades da retaguarda da saúde, da educação, de mecanismos sustentáveis de geração de renda, o Estado que não consegue ter uma ação fiscalizatória eficiente para coibir o desmatamento, a extração de minerais...O Estado que não tem uma política eficiente para facilitar os planos de manejo e de baratear o transporte dos ribeirinhos.

Isso não exime a iniciativa privada - tantas vezes predatória e 'quase escravista', que utiliza a mão-de-obra dessas pessoas, de forma desumana. E, nós, enquanto sociedade, somos omissos e 'alienados', preocupados somente com os problemas que aparentemente só nos circudam.

Afinal, depois de anos de embate, não há mais contestação de que os povos tradicionais têm o direito de viver nas unidades de conservação. Mas para isso, é preciso mais que legislação, mas a aplicação de uma nova cultura e política administrativa inclusiva.


Sucena Shkrada Resk

20/04/2009 08:50
Especial - Tapajós/PA 3 - Dedicação ao próximo, por Sucena Shkrada Resk

Mais um personagem da região do Tapajós, PA, que conheci em fevereiro deste ano, é Rosivaldo Lopes Santos, 53 anos, que exerce a função de chefe de máquinas do navio-hospital Abaré, do PSA, desde 2006. Ele contou que por 35 anos atuou nesta área, entre AM e PA, sendo a maior parte do tempo com derivados de petróleo. "Agora, com a saúde, tenho mais cuidado e posso me dedicar ao próximo. É um peso maior de responsabilidade", disse.

Uma das boas recordações dessa nova fase de sua vida, segundo ele, se refere a um dia que foi transportar uma ribeirinha que ia dar a luz, e o bebê acabou nascendo na própria canoa. "Foi em 2007, na região de Caratinga. Nunca tinha feito antes um parto em minha vida. Nessa hora, esqueci o medo e nasceu uma menina robusta...", se recorda.

No dia-a-dia de trabalho, se deparar também com a possibilidade da morte é uma constante para o chefe de máquinas. "Levamos acidentados. São cenas que, muitas vezes, chocam, porque há casos de esfaqueados e pessoas que levaram tiros. Mas o fato de poder ajudar essa gente é uma diferença que nos faz sentir bem", contou.
Sucena Shkrada Resk

16/04/2009 13:40
Especial - Tapajós/PA 2- Os valores das raízes, por Sucena Shkrada Resk


crédito: Sucena S.Resk
Dizem que não devemos viver de saudosismos, mas me permito a esses arroubos, quando me lembro dos ribeirinhos que tive oportunidade de conhecer, quando acompanhei o trabalho da equipe do navio-hospital do Projeto Saúde e Alegria, ao longo do rio Tapajós, durante uma semana, em fevereiro deste ano. Um dos personagens que mais me chamaram a atenção, foi Waimberg Braga, 81 anos, que há 30 anos vive na comunidade de Prainha.

Com seu cajado, subiu no navio Abaré, para ser assistido. Praticamente cego e com passos lentos, o aposentado, pai de 10 filhos, não se sente desanimado. De conversa fácil e amistosa, me contou que os filhos hoje o auxiliam na produção da farinha artesanal e no 'rancho'. "Aqui, a vida é saudável. Todo mundo tem conduta exemplar. Fico 'sentadinho' dentro de casa e meus filhos vão conversar comigo, para eu poder orientar o trabalho na lavoura", disse.

O "senhor" Braga afirma que se sente feliz em viver em sua casa de madeira, coberta por palha. "Os meus filhos também estão aclimatados por aqui, mas acho que os netos vão acabar indo para a cidade grande. Como eu sempre fui abelhudo, cheguei a conhecer também São Paulo e Rio de Janeiro", conta bem-humorado e reflexivo. Mas as metrópoles, segundo ele, não foram suficientemente atraentes, para que permanecesse por lá.

"No município de Portel, onde nasci, as casas de pedra que os índios caiapós e mundurukus moram são lindas. Dessa paisagem, eu nunca me esqueci", disse também o saudoso ribeirinho, que fez um pacto com suas raízes. E lá foi ele para sua consulta, tranquilo e com o sorriso de quem tem ainda muita história para contar.

05/03/2009 21:25 Início - Especial Tapajós/PA 1- Pensata - A distância do poder público com os povos da floresta, por Sucena Shkrada Resk

Ao acompanhar a viagem de trabalho do navio-hospital Abaré, do Projeto Saúde e Alegria (PSA), no mês de fevereiro, percebi o quanto a saúde pública precisa ter novos parâmetros neste país. Vi ribeirinhos do rio Tapajós, no Pará, aguardando ansiosos pelo atendimento, já que são desprovidos de efetiva assistência local em suas comunidades. A unidade fluvial coordenada pela organização não-governamental (ONG), em funcionamento desde 2006, mantém uma equipe própria, que divide o atendimento, com equipes do Programa Saúde da Família (PSF) dos municípios de Santarém, Belterra e Aveiro. Na prática, entretanto, nem sempre o staff público está completo, o que mostra a carência de profissionais neste pedaço do país.

As poucas vilas, que têm "postos de saúde", enfrentam inimigos poderosos, que são a escassez de energia, já que a geração só ocorre à noite, geralmente, das 18h às 21h; a falta de material humano efetivo e, obviamente, condições dignas de trabalho.

A logística é mais um fator preponderante, que pode definir a vida ou morte desses cidadãos ribeirinhos. Afinal, praticamente o único meio de transporte na região, é fluvial. Em alguns casos, as pessoas perdem mais da metade de um dia para chegar a Santarém - maior município, onde há retaguarda hospitalar.

Diante desse estado de carência, em que o terceiro setor tem de agir, devido à ausência da ação permanente do Estado, me senti indignada ao ver as campanhas partidárias na TV; uma certa revolta diante de tanta verborragia - em que a retórica fala mais alto, sem profundidade em ações, já que sai governo e entra governo, e a reestruturação das políticas de saúde não avançam nos confins do Brasil.
Sucena Shkrada Resk

26/03/2009 12:16
Os efeitos do crescimento desordenado, por Sucena Shkrada Resk

O mosaico da cidade de São Paulo se transforma diariamente e não nos damos conta desses movimentos, que em muitas situações acarretam em transformações bruscas em nossa qualidade de vida. Segundo a arquiteta Marta Dora Grostein, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), é preciso rever as opções de políticas públicas, para que erros não sejam repetidos, e um aspecto relevante está na importância do uso e parcelamento sustentável do solo. A especialista foi uma das participantes do Seminário "As relações entre psicologia ambiental, ecologia, antropologia e política", realizado pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP).

Apesar de o Plano Diretor de São Paulo de 2002 apresentar enfrentamentos da informalidade, com Zonas Especiais de Interesse Social, ainda enfrenta um inimigo perverso - os mecanismos do mercado imobiliário. "(Em tese), a legislação combate os loteamentos ilegais e propicia a facilidade para regularização fundiária e cria possibilidades de empreendimentos populares, mas isso depende também de facilidades de sistemas de financiamento", diz.

Marta destacou que é preciso se ter em mente que o mundo é mais urbano e que os países em desenvolvimento devem apresentar os maiores crescimentos das grandes metrópoles. A constatação é de um documento produzido pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 2006. "Por isso, é preciso a transdicisplinaridade, principalmente nas dimensões políticas, para se entender as ações públicas", disse. A arquiteta defende que a gestão pública seja pensada de forma a unir ações das principais regiões metropolitanas, que no caso de São Paulo, ainda agrega as de Campinas e da Baixada Santista.

Entretanto, crescimento não significa desenvolvimento. De acordo com a arquiteta, um exemplo significativo é da própria região metropolitana de São Paulo, onde vivem 17,9 mi pessoas, sendo 10,4 mi só na capital. "Desde os anos 40, há um crescimento desordenado que reflete em impactos no clima, nas condições de impermeabilização do solo e em desaparecimentos de coberturas vegetais, entre outros", afirmou.

Para a especialista, a gestão política regional é uma alternativa satisfatória para a região metropolitana, que não é efetivada. "Os subcomitês de Bacias Hidrográficas não 'funciona', quando se trata do parcelamento e ocupação dos solos (o que deveria ocorrer)", avalia.
Os reflexos são as enchentes, a dificuldade de abastecimento de água e produção de ilhas de calor. "Aspectos regionais têm de ser equacionados. A Região Metropolitana hoje recorre à Bacia do Piracicaba, a quilômetros de distância, que também atende à região de Campinas", exemplifica.

Há também os impactos nos ambientes construídos, segundo a professora da FAU, decorrentes do consumo indiscriminado e desperdício de solo urbano, atividades urbanas inadequadas. "As regiões da Sé, da República e Cambuci, por exemplo, sofreram um esvaziamento, a partir dos anos 80. O mesmo aconteceu no centro expandido, entre os rios Tietê e Pinheiros, em que áreas residenciais passaram a absorver o comércio e o crescimento do setor terciário".

Até os anos 30, houve a consolidação dos bairros centrais, se passou dos tempos dos trens e bondes. Nessa época, na gestão de Prestes Maia, foi elaborado o único plano viário estruturante da cidade de São Paulo. "Tinha forma concêntrica e se baseava na estratégia de canalizar córregos, colocando avenidas em cima (causando impermeabilização), o que foi implementado até os anos 70, quando começaram as construções das avenidas marginais", explica. As populações, que viviam às margens desses córregos, por muitas vezes se deslocaram para os mananciais.

Já na década de 40, houve a expansão da mancha urbana. "Das vilas operárias e cortiços, aconteceu um segundo momento, para a construção das periferias, que prosseguiu até os anos 80", disse.
"Só na Cidade Tiradentes vivem cerca de 200 mil pessoas em conjuntos habitacionais, sendo 500 mil na Zona Leste. Para a implementação, ocorreu um desmatamento indiscriminado à época, que não pode mais se repetir", diz.
Dos anos 80 em diante, ocorreu a diminuição do loteamento popular como moradia. "Resultou na crise do valor da terra e no crescimento das favelas, além da ocupação em áreas de proteção de mananciais, permitindo o descontrole dentro de nossa caixa d`água - a represa Billings (além da Guarapiranga e Cantareira), que afetam diretamente a nossa qualidade de vida", considera.

Nas áreas de mananciais, a precariedade de assentamentos resulta na desconexão dos moradores com o resto da cidade. As dificuldades de transporte, segundo ela, é um dos pontos nevrálgicos ainda.

"A construção de represas, como a Henry Borden, fez com que houvesse um maior volume de água da Billings. A reversão do Pinheiros foi necessária para garantir esse volume. Por um outro lado, a Lei de Proteção dos Mananciais, nos anos 70, propicioi que o preço das áreas baixassem e (de certa forma), facilitou a ilegalidade", analisa. Hoje, Marta considera que o Programa sobre os Mananciais desenvolvido entre o município e o Estado já é uma ação importante, mas não basta.

Hoje, dos 96 distritos da cidade, 53 deles estão perdendo população, enquanto os 43 periféricos estão tendo um acréscimo significativo de moradores. "Nos bairros da Liberdade, Mooca, Cambuci, entre outros, está ocorrendo um movimento imobiliário de grandes condomínios, sem retorno de área pública", alerta.

Com isso, está se criando uma cidade murada, onde a vida comunitária sofreu um impacto. "Na zona Sul de São Paulo, por exemplo, existe um condomínio que ocupa 98 mil m2 de área, onde antes havia uma indústria", diz. Em alguns casos, o perigo de contaminação do solo (de origem industrial) é mais um ponto preocupante a se destacar. "Vide casos, como o que ocorreu com o Condomínio Barão de Mauá, na cidade de Mauá", ilustra.
Sucena Shkrada Resk

26/03/2009 11:12
Pensata - São Paulo: a caminho da insustentabilidade, por Sucena Shkrada Resk

O inchaço da região metropolitana de São Paulo é uma construção que se consolida através dos séculos, especialmente pós revolução industrial. A idéia de progresso trouxe nas entrelinhas a diretriz de ganhar a qualquer custo. O custo da qualidade de vida, do respeito ao homem e à natureza que nos circunda - enfim, ao meio ambiente. Então, questiono - viver na área urbana é sinal de modernidade? Se modernidade é viver sob a pressão da carga de poluição de mais de 6 mi veículos, produzir individualmente um kilo de lixo por dia, se deparar com enchentes porque o solo está impermeável e as redes não comportam o crescimento demográfico e de edificações, então não quero ser moderna. Quero desconstruir o que aprendi na escola, nos ditames da sociedade de consumo. Mas será que ainda há tempo, pelo o menos, para as próximas gerações?

Todas essas indagações me perseguem diariamente, quando ando a pé ou por qualquer meio de transporte, do Grande ABC a São Paulo - terra onde nasci e me criei. Olhar o Ribeirão dos Meninos, o rio Tamanduateí, o Tietê e o Pinheiros causa literalmente depressão. Ao me deparar com a quantidade considerável de entulho na calçada próxima à Estação de Tratamento de Esgoto do Grande ABC, na avenida Almirante Delamare é mais um paradoxo rotineiro. Um pequeno exemplo, que se repete exaustivamente, por toda a região.

Daí penso - será que os moradores de Heliópolis e de outras regiões que sofrem os mesmos problemas se acostumaram com isso? Em que carrinheiros e caminhões, sem cerimônias, despejam toneladas de resíduos da construção junto a resíduos orgânicos, atraindo todo tipo de animal e insetos? E a coisa não pára por aí. O mau exemplo se estende, agora, mais adiante, em outras esquinas. Um efeito multiplicador que é registrado em poucos meses. Imagine, daqui a alguns anos, se nada for feito...Cadê a bendita cidadania e as ações mais presentes do poder público?

Outro impacto dessa urbanidade é ver boa parte do bairro do Ipiranga, na parte baixa, Mooca, ou da Lapa, por exemplo, todo pichado. A região central, então, um mosaico do conflito do antigo com o moderno, em que a poluição visual, atmosférica agridem em paralelo com a degradação socioeconômica.

Paredes recém-pintadas já têm a marca preta das fuligens dos veículos que trafegam freneticamente por todas as vias. Essas mesmas fuligens e gases entram em nossos pulmões e olhos causando um mal-estar, que em muitos casos, se transformam em doenças.

Ser urbano é isso...Ver debaixo do Elevado Costa e Silva, moradores em situação de rua, sobre papelões e comendo restos de comida, ou então, perto do Mercado Municipal, lavando suas roupas na água, que sai de ligações clandestinas, que desembocam na rede pluvial.

Ser urbano é encontrar perto do Teatro Municipal e da Estação Julio Prestes jovens cheirando cola, cambaleantes, sem perspectivas de vida.

Ser urbano é ver centenas de favelas e pessoas desempregadas que perderam sua auto-estima, vivendo em casas de tapumes ou sobre o esgoto, convivendo com os ratos e baratas.

Ser urbano é ver jovens sairem com seus carros possantes, desrespeitando os pedestres e pessoas se matando, por motivos passionais.

Ser urbano é ver que um parque Ibirapuera, um Horto Florestal ou um Parque da Cantareira são pequenos pulmões ameaçados diariamente pelo crescimento desordenado da cidade e pela falta de educação, de nós, seres humanos.

Ser urbano é consumir, consumir, consumir e produzir lixo e mais lixo, achando que sua destinação é evaporar simplesmente, sem se dar conta sobre a questão de lixões e aterros que não aguentam mais toda essa produção descontrolada.

Ser urbano é ter medo de sair nas ruas e até ficar dentro de casa refém da insegurança. Olhar desconfiado para o outrém, sem saber o que poderá acontecer daqui a um segundo.

Enfim, que urbanidade é essa, que exala dialeticamente um pseudo quê de superioridade, com a riqueza de cultura, diversão, educação? ...Já que é um verniz de uma realidade bem diferente.
Sucena Shkrada Resk

19/03/2009 11:16
Madeira: protocolo pela certificação, por Sucena Shkrada Resk

Alterar os padrões de consumo de madeira tropical no país, proveniente principalmente da Amazônia, é um dos desafios mais importantes que o Brasil começa a enfrentar. Nesse contexto, o estado de São Paulo tem um papel relevante na cadeia produtiva, já que consome cerca de 15% da produção dirigida ao mercado nacional (dados Imazon). E desse total, 70% são destinados à utilização somente na construção civil. Esses são argumentos fortes, que revelam que o combate ao aquecimento global, provocado pelo desmatamento, não pode ser visto como uma ação isolada no país.

Essas premissas nortearam o acordo de cooperação técnica, assinado ontem, dia 18, entre as secretarias municipal do Verde e Meio Ambiente e estadual do Meio Ambiente de São Paulo, a Prefeitura Municipal, o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP) e a Associação dos Produtores Florestais Certificados na Amazônia (PFCA). O protocolo ainda conta com a parceria do WWF-Brasil e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), com a expertise de pesquisa, entre outras instituições.

Durante o evento, realizado no Centro Cultural São Paulo, houve o lançamento da 2ª edição do manual "Madeira - Uso Sustentável na Construção Civil", elaborado inicialmente em 2004, que está disponível em versão digital, nos sites (www.ipt.br, www.prefeitura.sp.gov.br/svma, www.sindusconsp.com.br), responsáveis pela produção do material. Já o WWF-Brasil lançou o manual "Seja Legal" - boas práticas para manter a madeira ilegal fora de seus negócios, também em versão para download no sítio www.wwf.org.br/sim.

Geraldo José Zenid, do IPT, explica que a madeira é classificada em ilegal (em torno de 80%), legal (quando tem procedência de manejo e desmate regularizadas pelos órgãos oficiais) e certificada. "Nesse último caso, hoje as certificações são expedidas por meio do Conselho de Manejo Florestal do Programa Brasileiro de Certificação (FSC), e pelo Inmetro, com o Cerflor", diz.

"As desvatangens neste mercado é a exploração irracional, o desconhecimento das características básicas das madeiras por parte dos consumidores e a deterioração biológica e a suscetibilidade ao fogo", explica Zenid. Segundo ele, o mercado concentra uma tradição (que pode ser mudada) em peróba-rosa para estruturas e coberturas, e pinho paraná para usos temporários e leves, por exemplo. "O manual aponta opções de madeiras em substituição de espécies nativas e tradicionais, de forma racional", afirma.

O engenheiro florestal do WWF-Brasil, Estevão Braga, esclarece que o manual da entidade tem o objetivo maior de apoiar o uso da madeira certificada. "Não basta ser legal. Para o mercado consumidor o desafio é saber se está comprando um produto de área reflorestadas ou de manejo sustentável (de fato). Nos últimos 20 anos, 1 mi hectares de florestas naturais foram perdidos na Amazônia, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)", fala.

Segundo o presidente do Sinduscon-SP, Sérgio Watanabe, é necessário se tornar uma prática constante que os departamentos comerciais de compras no setor da construção exijam os documentos de origem florestal. "Para isso, estão sendo promovidos processos de capacitação", disse. Ao mesmo tempo, a iniciativa da parceria visa que os consumidores possam conhecer as alternativas de aquisição de madeiras legalizadas e certificadas.

"É difícil ver inúmeros casos de ilegalidade de empresas do setor de madeira no N do país tomando a maior parte dos noticiários. Queremos mostrar que existe um setor produtivo sustentável, que tem um forte impacto social. Apesar de depender de políticas públicas, planos de manejo, temos a capacidade de trabalhar na legalidade", diz Leandro Guerra, presidente da PFCA.

O secretário municipal de Verde e Meio Ambiente, Eduardo Jorge, afirma, que a gestão municipal está contribuindo à iniciativa, desde 2005. "A Prefeitura assumiu a compra de madeira legalizada, por meio do decreto nº 46.380 e, agora estamos dando um salto, com a união com o Estado e demais entidades", diz.

Medidas mais recentes se referem ao bloqueio de gás metano nos dois grandes aterros, que atendem ao município - sendo o principal, o Aterro São João, cuja usina foi inaugurada no ano passado. "Com isso, neutralizamos 20% dos gases de efeito estufa da cidade".

Para o secretário, a partir de agora, o principal empenho da Prefeitura será o de viabilizar a aprovação no legislativo, do projeto do Executivo nº 530/08, que é o Plano Municipal de Combate Às Mudanças Climáticas. "O documento é semelhante ao de Londres, com 50 artigos, que trata de áreas verdes e compras sustentáveis, entre outros temas. A madeira certificada não consta no texto, mas podem ser apresentadas emendas", fala.

No âmbito estadual, o secretário Xico Graziano, garante que haverá um cerco maior na fiscalização dos caminhões que entram no Estado, transportando madeira. "São cerca de 150 por dia. Estamos parando muitos e começamos a observar que muitos podem estar com certificações "esquentadas" de origem. Estamos estudando formas de proibir a entrada de madeiras nativas em extinção, como jacarandá e massaranduba. Se os dados oficiais apontam que 90% da produção é ilegal na Amazônia, onde está este material?", diz. Para o secretário, é necessário o empenho na produção de florestas plantadas, como pinus, para suprir o mercado.

O projeto Municípios Verdes, em que o Estado incentiva as práticas sustentáveis, é mais um mecanismo para combater o desmatamento ilegal, segundo ele. "E uma das ações mais recentes da pasta é a implementação co CadMadeira. É um instrumento de cadastro voluntário (via internet) de comerciantes de produtos e subprodutos da flora nativa nos registros do Estado. Esses dados serão utilizados a partir de junho, para a seleção de fornecedores do governo de São Paulo.

Helena Carrascoza, coordenadora de Biodiversidade e Recursos Naturais (CBRN) da Secretaria, explica que as empresas deverão respeitar o processo de inscrição, em que há exigência de apresentação de documentações regulares. "Não pode ter nenhum auto de infração pendente. Ainda poderão pleitear o Selo Madeira Legal (emitido pela pasta), que tem como requisitos ainda a organização dos pátios, por tipo de madeira e espécie, que serão fiscalizados pelo Instituto Florestal (IF) e CBRN. "Semestralmente deverão apresentar relatórios de registros de controle de estoques desses pátios", explica. A iniciativa integra o projeto São Paulo Amigo da Amazônia, em parceria com o Greenpeace, entre outros.

Sucena Shkrada Resk

18/03/2009 18:40
Ilhas urbanas, por Sucena Shkrada Resk

Impotência. Essa foi a sensação de milhares de pessoas (contexto no qual me incluo), nesta terça-feira, dia 17, quando uma chuva torrencial transformou a Grande São Paulo em um reduto de ilhas urbanas. As águas não deram trégua e tragaram carros, invadiram casas, impediram o direito de ir e vir dos habitantes e, em alguns casos, resultaram em mortes. Enfim, um caos da selva de pedra, que me lembrou o ano de 2002, um dos piores com relação às enchentes na região.

Quatro horas dentro de ônibus foi o tempo que levei dentro de São Caetano do Sul - uma cidade de apenas 15 km2, na tentativa de ir a São Paulo, e ao mesmo tempo, de retornar para casa, após perceber que era impossível seguir adiante por qualquer meio de locomoção terrestre. Carros, ônibus, trens - tudo parado. O trânsito na avenida Goiás e na Estrada das Lágrimas atingiu quilômetros, e os pontos visíveis de alagamento, na avenida Guido Aliberti e na avenida dos Estados foram algumas das amostras de uma tarde, em que foi possível detectar que não estamos preparados mais uma vez para a incidência de chuvas em março.

O Ribeirão dos Meninos, em São Caetano do Sul, que recebe as águas do Ribeirão dos Couros, em São Bernardo, não suportou a avalanche. Nessa altura, os piscinões construídos ao longo da Guido Aliberti, simplesmente foram inócuos.

Ao ouvir as informações sobre as condições do trânsito em São Paulo, enquanto lia um livro dentro do ônibus no Grande ABC, me dei conta que a situação era de perfeito caos. Nossas cidades tem suas vias impermeáveis, rede de águas pluviais aquém do crescimento da população, lixo que enche as bocas-de-lobo...Um ciclo vicioso em que há tanto a responsabilidade do poder público, como da sociedade. E não é possível mais "culparmos" a natureza pelos resultados das intempéries climáticas.
Sucena Shkrada Resk

17/03/2009 11:37
O preço de uma Amazônia sustentável, por Sucena Shkrada Resk

Estudo da consultoria Mckinsey - Caminhos para uma Economia de Baixa Emissão de Carbono no Brasil, lançado neste mês, em parceria com o site Planeta Sustentável, da Editora Abril, mensura quanto é o custo para tornar a Amazônia Sustentável, num prognóstico até 2030, tendo em vista uma perspectiva de aumento médio global de temperatura de 2 graus Celsius. A conta é R$ 17 bi por ano, o que equivale ao gasto anual do Bolsa Família. Parte significativa desse valor pode ser custeado pelo mercado internacional de créditos de carbono, de acordo com a pesquisa. A avaliação foi feita em mais 19 países de 21 regiões do mundo.

O protagonismo do Brasil, nesse contexto, se deve ao fato de ser o quarto maior emissor dos gases de efeito estufa do planeta, em decorrência principalmente do desmatamento. De acordo com o levantamento, as queimadas na Amazônia representam mais da metade dos 2,1 bi toneladas de CO2, que o Brasil lança anualmente à atmosfera. No cálculo total, o país é responsável por 5% das emissões dos gases de efeito estufa (GEE) no mundo. Somente as implementações sugeridas nas florestas teriam o potencial de reduzir as emissões em 1,36 GtCO2e anuais em 2030. Já no setor agrícola, a redução seria de 262 MTCO2 anuais.

Dentre as duas centenas de propostas de ações em 10 grandes atividades econômicas constantes no documento, os focos principais são as regulações fundiárias, aumento de retaguarda de fiscalização e das ações do poder judiciário, monitoramento ambiental e garantia de origem. Nesse bojo, um aspecto considerado importante é a participação efetiva e incentivos aos povos da floresta para serem guardiões e terem condições de realizar o uso sustentável da floresta, além da recuperação das áreas degradadas. Há também propostas como a diminuição do ciclo de vida do gado e vacinas antimetano.

Os custos mais altos de investimento nos cálculos feitos pela McKinsey são na área de desenvolvimento econômico em regiões rurais e urbanas, com a finalidade de geração de emprego para pessoas que não estão envolvidas nas cadeias sustentáveis, além do desenvolvimento social (saúde e educação), seguidos da regularização fundiária e da contratação de efetivo de policiamento.

Ações que têm relação intrínseca com o consumidor final, como edificações e tratamento de resíduos, não ficam fora do cálculo, apesar de ser percentualmente menores, hoje, gerando 5% das emissões no Brasil.

A conta da dívida do Brasil com o planeta está nas queimadas, na utilização de fertilizantes nitrogenados, na pecuária extensiva - com cerca de 200 mi cabeças. O setor florestal supera o uso de combustíveis fósseis - que é a chaga dos países desenvolvidos. Nessa conjuntura, o grande desafio é eliminar o desmatamento até 2030, o que representaria 72% das oportunidades brasileiras de mitigação. A efetivação do Plano Nacional de Mudanças Climáticas é considerado um ponto importante para que haja a redução das emissões de carbono. Com isso, o Bioma Amazônia, que produz 55% das emissões, passaria a 43% em 2030.

O ministro do Meio Ambiente Carlos Minc, no último dia 16, foi conhecer o estudo e destacou quais são as medidas atuais, que o Governo está tomando, e os desafios de implementação de uma política mais efetiva.

Uma das ações já implementada é o corte de crédito aos desmatadores. "Isso obriga a que regularizem a situação, ponto de vista fundiário e ambiental", afirma. Outro, segundo o ministro, é o decreto sobre crimes ambientais, de julho do ano passado. "Com isso, há possibilidade do perdimento, que significa que antes do processo judicial, é possível confiscar os produtos de origem de crime ambiental para leilão, como já foi feito com bois e madeiras piratas", diz.

Com a medida provisória da Regularização Fundiária, aprovada há cerca de um mês, Minc considera que dois artigos são muito importantes para inibir o desmatamento. "Quem ganhar a terra e desmatar, perde o título. E se quiser vender a terra, só poderá se zerar o passivo ambiental", explica.

Mais um instrumento de pressão, de acordo com Minc, são as ações efetivas de embargos, inclusive, ocorridas com empreendimentos de assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), no MT. "A partir de agora, os novos assentamentos devem ter reserva legal com corredor contínuo, e os povos da floresta terão direito para uso sustentável da terra", afirma.

Entre os conjuntos de ações, o ministro citou ainda a medida tomada quanto ao pacto produtivo da moratória da soja, que prevê o comprometimento de que não se compre de área desmatada, desde 2006. Em contrapartida, o governo se compromete a melhorar mecanismos de licenciamentos, que já começaram a ser desburocratizados. O segundo pacto é quanto à exportação de madeira de Belém.

"Também fizemos pacto com a Vale, no setor de minério, com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), com relação ao comprometimento de compra de madeira certificada. Já com os bancos públicos, de financiar somente empreendimentos sustentáveis", diz.

Os próximos até abril serão com a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), para intensificar as negociações, e com a associação de exportadores de carne. "Hoje há 15 mi cabeças fora das regras da vigilância sanitária", afirma.

Minc diz que os desafios são maiores, visto que, o ministério descobriu, inclusive, planos de manejo piratas na Amazônia. "Caminhões de carvões escondiam na proporção de 2/3, produto de mata nativa do cerrado do Espírito Santo, enquanto em cima estavam na conformidade", conta. A partir de abril, qualquer empreendimento que utilizar carvão, deverá compensar, como quesito de licenciamento.

Para dar conta da parte repressiva, o MMA irá contratar mais 1000 fiscais neste ano. "Também chamamos os 36 prefeitos dos municípios que mais desmatam na Amazônia para mostrar as imagens de satélite das áreas degradadas, para que haja uma ação conjunta", fala o ministro.

O Fundo Amazônia - que já tem como principais investidores a Noruega e Alemanha - deverá ser aplicado em empreendimentos sustentáveis a partir de maio. O montante chega a cerca de 18 mi euros. "O acompanhamento poderá ser feito em tempo real, por meio do site. Como é um fundo privado, dentro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), é isento de imposto", afirma.

A destinação das verbas deverá priorizar a implementação de unidades de conservação, melhoria dos produtos florestais, pagamento de serviços ambientais, regulação fundiária, Zoneamento Econômico e Ecológico da Amazônia (ZEE) - que deverá ser concluído até o fim deste ano - e apoio ao manejo florestal.

Minc esclarece que somente o Brasil tem assento na decisão da aplicação do dinheiro. "Esse ponto foi esclarecido, porque chegou a ser questionado antes da aprovação, se o Fundo poderia possibilitar a perda de soberania", diz.
Sucena Shkrada Resk

17/03/2009 11:10
Bombaim é aqui, por Sucena Shkrada Resk

O filme norte-americano "Quem Quer Ser Um Milionário?", dirigido por Danny Boyle, baseado no livro do diplomata indiano Vikas Swarup, tem um roteiro digno de nota, que justifica os oito óscares recebidos, além de globos de ouro, entre outras premiações. Envolvente, emociona, pois mexe nas feridas dos países subdesenvolvidos e em "desenvolvimento", como o Brasil se define. Bombaim se torna São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador ou qualquer megalópole inchada pelo crescimento desordenado. O que chamamos de periferia bate de frente aos nossos olhos. Dá um norte para entender como é ser pobre socialmente falando em um mundo com medidas tão desiguais.

A favela com centenas de casebres, o lixo por todos os lados, esgoto a céu aberto, a violência pelo poder, num universo onde falta tudo, é como um choque sem tempo de recuperação. É um golpe na pretensão das camadas A, B e C de se julgar superior aos que vivem na miserabilidade. A viagem nas memórias do personagem central, o jovem Jamal Malik, interpretado por Dev Patel (na fase adolescente), é um primor. Afinal, é por esse caminho, que a personagem justifica a sua "verdade" ao ter um desempenho acima da média em um concurso televisivo, que vale milhares de rúpias.

O roteiro me fez lembrar de Paraisópolis, Heliópolis, em São Paulo, do extinto lixão do Alvarenga, no Grande ABC, do lixão de Salvador, dos bairros periféricos de Belém, PA. Enfim, recompôs cenas tristes e cruelmente reais, que estão todos os dias nos avisando que é preciso mudar os paradigmas da sociedade capitalista.

Mostra as desgastantes relações familiares de irmãos que se perdem no mundo, pois trilham caminhos diferentes, e de amores que superam as barreiras da humilhação e do medo.

O filme, ao mesmo tempo, revela um submundo em que a falta de respeito à infância é algo que aflige qualquer discurso. Há cenas, que machucam a gente, pelo requinte da maldade a que o ser humano chega. Ao mesmo tempo, mostra a delicadeza que um ser maltratado em sua tenra idade pode fluir.

Enfim, Quem Quer Ser Um Milionário? é uma produção sensível, que quebra qualquer barreira, pois cada um se sente personagem, querendo ganhar um game show, com o olhar ávido, pela resposta certa.


Sucena Shkrada Resk

05/03/2009 21:25
Pensata - A distância do poder público com os povos da floresta, por Sucena Shkrada Resk

Ao acompanhar a viagem de trabalho do navio-hospital Abaré, do Projeto Saúde e Alegria (PSA), no mês de fevereiro, percebi o quanto a saúde pública precisa ter novos parâmetros neste país. Vi ribeirinhos do rio Tapajós, no Pará, aguardando ansiosos pelo atendimento, já que são desprovidos de efetiva assistência local em suas comunidades. A unidade fluvial coordenada pela organização não-governamental (ONG), em funcionamento desde 2006, mantém uma equipe própria, que divide o atendimento, com equipes do Programa Saúde da Família (PSF) dos municípios de Santarém, Belterra e Aveiro. Na prática, entretanto, nem sempre o staff público está completo, o que mostra a carência de profissionais neste pedaço do país.

As poucas vilas, que têm "postos de saúde", enfrentam inimigos poderosos, que são a escassez de energia, já que a geração só ocorre à noite, geralmente, das 18h às 21h; a falta de material humano efetivo e, obviamente, condições dignas de trabalho.

A logística é mais um fator preponderante, que pode definir a vida ou morte desses cidadãos ribeirinhos. Afinal, praticamente o único meio de transporte na região, é fluvial. Em alguns casos, as pessoas perdem mais da metade de um dia para chegar a Santarém - maior município, onde há retaguarda hospitalar.

Diante desse estado de carência, em que o terceiro setor tem de agir, devido à ausência da ação permanente do Estado, me senti indignada ao ver as campanhas partidárias na TV; uma certa revolta diante de tanta verborragia - em que a retórica fala mais alto, sem profundidade em ações, já que sai governo e entra governo, e a reestruturação das políticas de saúde não avançam nos confins do Brasil.

Sucena Shkrada Resk

24/02/2009 13:19
Especial FSM 2009 - Encerramento leva à reflexão sobre a exclusão, por Sucena Shkrada Resk

O encerramento do Fórum Social Mundial (FSM) 2009, em 1º de fevereiro, levou o público à reflexão sobre a temática dos excluídos. Os sem-paz, teto, terra, emprego, saúde... E nesse hall, estão cidadãos em zonas de conflito, indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais, refugiados ambientais, os sem-certidão de nascimento etc. Enfim, colocou à tona, um espelho da imagem contrária ao Fórum Econômico de Davos, que ocorreu no mesmo período e a preocupação cada vez maior sobre o destino da Amazônia. As deliberações que aconteceram durante a chamada Assembléia das Assembléias revelaram o quanto o mundo aponta um sinal vermelho com relação às ações do próprio ser humano.

Convocações mundiais foram realizadas, para o calendário 2009:
- 28-03 - Mobilização contra a crise mundial
- 30/03 - Dia da Terra Palestina - ação global contra o apartheid
- 04/04 - Mobilização Mundial pela Dissolução da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e desarmamento das bases militares em todo o mundo
-12/10 - Dia Mundial pela Mãe Natureza
-09/12 - Dia Mundial contra a corrupção

Durante a exposição das comissões organizadoras do evento, foi reivindicado o desaparecimento de todos os muros que impedem a locomoção das pessoas pelo mundo, e que o Tribunal Internacional atue no conflito Israel X Hamas (Palestina). Na pauta, também se manifestaram contra as políticas imigratórias repressivas, processos de xenofobia e pediram uma atenção maior aos refugiados ambientais e climáticos, além da suspensão das pesquisas com fins militares.

A Amazônia passou a ser vista como uma questão plurinacional, discutida no fórum pan-amazônico, que inclui, além do Brasil, os demais países que integram a região. A comissão formada para tratar do ecossistema tem como bandeira o estudo minucioso de implementações de hidrelétricas na região, o reforço das unidades de conservação, a fiscalização mais severa contra crimes ambientais que afetem ribeirinhos, o respeito aos saberes das populações tradicionais e o combate mais intensivo contra os processos de grilagem, da pecuária extensiva e da agricultura de grande escala.

À mídia livre foi proposto um papel relevante, neste processo, para que cada comunidade seja protagonista de denúncias e também trate do controle dos recursos naturais, discuta com o poder público os impactos ambientais nas políticas setoriais.

A tônica da crise financeira mundial permeou os seis dias do FSM. O consenso foi de que é preciso estabelecer o combate à cultura consumista e a necessidade do desmantelamento dos paraísos fiscais e da corrupção. Apontou-se ainda a necessidade de rever a hegemonia do G-20.

Para as próximas edições, os temas ambientais ganharão cada vez mais destaque, como a questão do lixo e da agricultura familiar, tendo como ponto central a importância da difusão da economia e finança solidárias.

O mote de que é possível um mundo melhor ganhou voz em decisões de se incentivar cada vez mais programas de educação ambiental com crianças e jovens e com a proposta da quebra de regimes nacionalistas, que impedem a globalização da cidadania planetária.

Em Belém, de 27 de janeiro a 1º de fevereiro, aproximadamente 133 mil pessoas, segundo a organização, participaram do evento. Pessoas que representaram 142 países e suas respectivas culturas e políticas. Foi um celeiro das mais variadas manifestações - desde cidadãos que jogavam lixo nas ruas a aqueles que recolhiam, como resposta à falta de consciência ambiental. Pessoas que se desdobravam para ouvir sobre os quilombolas e as questões amazônicas, ou que se detinham na programação sobre a questão da Faixa de Gaza e da história dos 50 Anos da Revolução Cubana.

Enfim, um cenário rico para expor e ouvir e, acima de tudo, propiciar ações posteriores, como efeito multiplicador. Uma experiência ímpar que é importante para qualquer cidadão, do gari ao intelectual. O maior atributo do FSM, na minha opinião, foi justamente a possibilidade de quebrar as fronteiras reais, mentais, discursivas e preconceituosas para se edificar mudanças de paradigmas em busca de um mundo inclusivo.
FSM Edição 2009 - Blog Cidadãos do Mundo, por Sucena Shkrada Resk 24/2 - Encerramento leva à reflexão sobre a exclusão
24/2 - Ministro declara que biomas serão monitorados
24/2 - O manifesto da Ciência na Amazônia
20/2 - A constituição dos Estados Plurinacionais
20/2 - A palavra quilombola
08/2 - Reflorestamento em pauta
08/2 - Experiências da Agenda 21
08/2 - Os caminhos da mídia livre
02/2 - Índios nas ondas digitais
01/2 - Mídia livre discute a necessidade de mais poder de articulação
31/1 - Protesto contra hidrelétricas marca dia 30
31/1 - Fitoterapia chega aos usuários da saúde pública
30/1 - A realidade a olho nu para refletir
30/1 - Pensata - Caldeirão de diversidades
28/1 - O clamor dos povos indígenas
27/1 - Pela ótica da simplicidade
22/1 - Contagem regressiva
Fonte: Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk

Sucena Shkrada Resk

24/02/2009 12:18
Especial FSM 2009 - Ministro declara que biomas serão monitorados, por Sucena Shkrada Resk

O ministro Carlos Minc, durante o Fórum Social Mundial (FSM) 2009, em Belém, PA, declarou que será instituído um monitoramento federal da maioria dos biomas do Brasil. "O único que monitorávamos, até agora, era a Amazônia. Em fevereiro de 2010, incluíremos o Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica", afirmou. O perigo da desertificação na Caatinga foi sinalizada por ele. "O Nordeste, com isso, pode perder 40% da economia nacional", disse.

De acordo com Minc, um dos principais desafios da pasta é combater o plano de manejo pirata na Amazônia. Para isso, está sendo viabilizado o plano de manejo comunitário e familiar. E o zoneamento econômico ecológico da Amazônia deverá ser concluído neste ano.

O investimento em energia eólica foi mais um dos anúncios feitos pelo ministro. "Vamos ter pelo o menos um leilão por ano. Reduziremos impostos do setor, como forma de incentivo", afirmou.


Sucena Shkrada Resk

24/02/2009 12:06
Especial FSM 2009 - O manifesto da ciência na Amazônia, por Sucena Shkrada Resk

"Não adianta falar em soberania nacional, sem conhecer as riquezas...É preciso se obter informações sobre a Amazônia, os imensos segredos que a floresta encerra e as populações tradicionais, que guardam tesouros". Esse foi o manifesto do físico Ênio Candotti, presidente de Honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), durante o Seminário Amazônia - Soberania e Desenvolvimento Sustentável, no último dia 30 de janeiro, no FSM 2009, em Belém, PA. O cientista dividiu a mesa com o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, entre outros debatedores.

"Neste fórum, faltam ciência, fatos e conhecimento. A ciência é aliada ou inimiga. Com a legislação nacional de hoje, os brasileiros não conhecem a Amazônia, mas, sim, os estrangeiros", criticou. Segundo Candotti, o Ibama do PA havia autuado um museu local por ter levado alguns visitantes para observarem pássaros. "Isso é ditadura, obriga a se fechar os olhos, como se fosse expropriação estratégica da Amazônia", diz.

Segundo o cientista, os conhecimentos que a floresta esconde são um patrimônio. "Mas crianças e jovens devem poder estudar a natureza. Uma árvore em pé é muito mais importante que metros cúbicos de madeira. A nossa ignorância sobre botânica é imensa", afirma. Em sua opinião, é necessário ser convocada uma constituinte da legislação ambiental. "Não se pode conservar tudo, mas seletivamente e, para isso, se precisa estudar", justifica.
Sucena Shkrada Resk

20/02/2009 15:53
Especial -FSM 2009-Belém-PA - A constituição de estados plurinacionais, por Sucena Shkrada Resk

O coordenador Andino das Organizações Indígenas, Miguel Palacin, informa que no continente existem atualmente cerca de 30 milhões de indígenas. "O que reivindicamos é que sejam constituídos estados plurinacionais e, que os Estados não entreguem cada vez mais concessões às multinacionais. Muitas empresas contaminam o meio ambiente".

"Somos parte da natureza e, por isso, queremos promover o uso sustentável dos recursos, para podermos ter um modelo de desenvolvimento participativo", diz. O líder indígena peruano se manifestou, no último dia 28 de janeiro, durante o FSM 2009, em Belém, PA.
Sucena Shkrada Resk

20/02/2009 15:42
Especial -FSM 2009 -Belém-PA - A palavra quilombola, por Sucena Shkrada Resk

Estima-se que existam cerca de 8 mil quilombolas só no Baixo Amazonas. Ao todo são 320 comunidades paraenses, que representam na faixa de 100 mil pessoas. A afirmação foi feita pelo o coordenador das Associações das Comunidades Quilombolas do PA, Daniel de Sousa, durante o Fórum Social Mundial (FSM) 2009, em Belém, no dia 28 de janeiro. "Depois dos índios, somos os preservadores das florestas", disse.

Segundo ele, o desmatamento no noroeste do PA está aumentando, nos últimos 30 anos. "Queremos que o governo ajude a preservar, também nos auxiliando nas titulações de nossas terras. A maioria ainda está na clandestinidade, sofrendo, porque tem dificuldade de acessar recursos públicos, por causa da falta de conhecimento para compreender as determinações impostas pelos editais", afirmou.
Sucena Shkrada Resk

08/02/2009 19:33
08-02 - Nota sobre breve ausência

Pessoal, ainda estou em viagem pelo Pará, conforme narrei para vocês, o que me impede de estar plugada diariamente na Internet. Já estou em Santarém, e amanhã farei a viagem pelo Tapajós, para visitar as comunidades ribeirinhas, no navio do Saúde e Alegria. Portanto, ainda terei muita coisa para escrever no blog, desde o encerramento do Fórum Social Mundial e minhas impressões, além da viagem fluvial de três dias pelo Amazonas e afluentes, entre Belém e Santarém, uma das imagens mais inesquecíveis de minha vida, tanto, no aspecto ambiental, como social - e com direito a dormir em rede coladinha com os meus vizinhos rs - e, lógico, essa experiência que iniciarei amanhã.

Enfim, a sopinha de letras deverá preencher muitas páginas. Terei mais calma, para redigir esses relatos, a partir do dia 17, quando deverei estar retornando para casa e ao mundo insistentemente urbano, que cada vez me incomoda mais...
Sucena Shkrada Resk

08/02/2009 18:43
Especial-FSM 2009-Belém-PA-Reflorestamento em pauta, por Sucena Shkrada Resk

Os participantes do Fórum Social Mundial (FSM) 2009, realizado em Belém, PA, de 27 de janeiro a 1º de fevereiro deste ano, puderam passar pela experiência de colocar a mão-na-massa, num viveiro criado na Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), dentro do Projeto Um Bilhão de Árvores, promovido pelo governo estadual. Uma equipe da Associação das Indústrias Exportadoras de Madeira do Estado do Pará (Aimex) foi responsável pela realização. Afinal, a iniciativa é, na verdade, praticamente uma obrigação, tendo em vista, que o Pará figura como um dos estados com maior desmatamento na Amazônia Legal. Vale ainda registrar, que mundialmente uma campanha com mesmo propósito foi capitaneada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), em 2007.

A estimativa é que tenham sido semeadas 110 mil mudas, durante o encontro, de 10 espécies nativas, segundo o técnico agrícola da Aimex, Carlos Quaresma. São açaís, freijós, ipês, jatobás, mognos, orelhas-de-macacos, paricás, tamboris, entre outras. "A germinação de algumas espécies leva de 3 a 15 dias. Vão ser plantadas em áreas de reflorestamento determinadas pela secretaria estadual do meio ambiente", explicou.
Sucena Shkrada Resk

08/02/2009 18:06
Especial-FSM 2009-Belém-PA-Experiências de Agenda 21, por Sucena Shkrada Resk

O Seminário Internacional Mudança Climática - Agendas 21, que ocorreu durante o Fórum Social Mundial (FSM) 2009, em Belém, PA, no mês de janeiro, apresentou experiências francesas e norte-americanas, que segundo as palestrantes, dependem fundamentalmente do protagonismo cidadão.

A francesa Marie Stutz, representante da Agenda 21 no país, expôs que atualmente são desenvolvidas 350 ações nacionalmente, com temáticas quase que exclusivamente ambientais.

"As prioridades são controle de gastos energéticos, prioridade social, legalidade das comunidades e governança participativa", contou. A participação da sociedade civil é constante nesse processo, de acordo com Marie. "Mas ainda é preciso mais intercâmbios entre as Agendas 21, inclusive, internacionalmente", disse.

Kath Ryn Kintzele, do projeto Ética Biosfera, dos EUA, afirmou que a Rio 92 foi um impulso significativo. "Em 94, a entidade criou um código de ética para a conservação (com o mote da natureza viva), disse. Com isso, foram surgindo alianças, entre a cidade norte-americana de Chicago e cidades da África do Sul.

"Chicago é uma das 25 maiores áreas urbanas mundiais, e tem organizações governamentais e não-governamentais que recebem o apoio da Prefeitura para efetivar o projeto da cidade verde. Pautas sociais e de saúde são discutidas na mesma mesa (da agenda 21 local)", afirmou. E um dos aspectos importantes entre as metas é trazer a criança para o contato com a natureza. Já na África do Sul os esforços convergem para os parques que cobrem grandes áreas territoriais.

Kath explicou que para que haja o cumprimento da Agenda 21, é preciso o reconhecimento das espécies locais, ou seja, o estudo do ecossistema. Isso representa um processo vivo para a restauração, de fato, das espécies nativas. O alerta foi dado, tendo em vista, inúmeras ações antrópicas, que devastam cotidianamente o planeta.

Sucena Shkrada Resk

08/02/2009 17:38
Especial-FSM 2009-Belém-PA-Os caminhos da mídia livre, por Sucena Shkrada Resk

Mais uma destaque, durante o Fórum Mundial de Mídia Livre, no dia 26 de janeiro, em Belém, PA, foi a manifestação do Fórum de Defesa das Rádios Comunitárias, na fala de Júlio Araújo. Ele fez uma afirmação contudente, de que hoje os radialistas comunitários no Brasil sofrem um tratamento similar aos dos narcotraficantes. "Reivindicamos que haja a reabertura de processos arquivados, como também, o fim da criminalização, a anistia aos condenados e expedição de licenças provisórias, entre outras", disse.

Araújo narrou a história de um paraíbano, que passou pela situação de trabalho escravo, e ao ouvir em uma "rádio comunitária", uma campanha que vinha de encontro à experiência sofrida pela qual passava, resolveu fugir e denunciar o caso à Polícia Federal. "No final, o latifundiário não foi condenado e a rádio comunitária foi fechada...", contou. Essa história, segundo ele, se repete muitas vezes, pelo o Brasil, e exige reflexão da sociedade, dos órgãos públicos e de todas as esferas envolvidas, para que o país sofra uma repaginação.
Sucena Shkrada Resk

02/02/2009 15:58
Especial FSM 2009-Belém-PA -Índios nas ondas digitais, por Sucena Shkrada Resk

O Fórum Mundial de Mídia Livre, que antecedeu o Fórum Social Mundial (FSM) 2009, em Belém, PA, no último dia 26, apresentou um case interessante da globalização, com a narrativa do índio Alex Pankararu, 34 anos, da região de São Francisco, no sertão de Pernambuco, sobre o projeto Índios on Line (www.indiosonline.org), criado em 2004. O site na internet já possui um acervo com cerca de 4.000 histórias e 2.000 acessos, segundo ele.

Em entrevista ao Blog Cidadãos do Mundo, Alex contou que a iniciativa partiu de mais seis povos indígenas nordestinos – Kariri-xocó, Xucuru-Kariri, Kiriri, Tumbalala, Pataxó-hã-hã-hã e Tupinambá. “A idéia surgiu quando os índios perceberam que os livros onde escreviam suas histórias eram limitados e o portal na Web possibilitaria que houvesse maior participação. Queríamos também quebrar a visão exótica que as pessoas têm sobre nós”, diz.

Com o passar dos anos, a comunidade percebeu que não podia mais se restringir aos seus povos. “Hoje procuramos parentes de indígenas que querem participar da rede, de diferentes nações. O interessante é que no começo, havia um misticismo muito grande, de que isso seria uma loucura. Mas o conhecimento tecnológico faz com que o jovem pesquise sobre suas raízes. É mais uma fonte de aprendizagem”, considera.

Os índios mais velhos, segundo Alex, não colocam “a mão no computador”, mas gostam de ver sua imagem reproduzida. “Por meio desses relatos e imagens, queremos mostrar que o índio não é só o que a mídia tradicional mostra, que é a dança. Somos seres alegres, com uma cultura própria, e machuca a gente ver só notícias de índios assassinados ou que machucam alguém em confrontos”, diz.

Sucena Shkrada Resk

01/02/2009 10:52
Especial-FSM– Mídia livre discute a necessidade de mais poder de articulação, por Sucena S.Resk

Como aquecimento à programação do Fórum Mundial Social (FSM) 2009, em Belém, foi realizado o Fórum Mundial de Mídia Livre, que ocorreu, no último dia 26. O encontro reuniu jornalistas e comunicadores de diferentes partes do mundo, com o propósito de buscar respostas para mobilizar a autonomia dos meios de comunicação e comunicadores de blogs, sites de entidades do terceiro setor, jornais, rádios e TVs alternativas.

Durante a primeira etapa do evento, o professor Marcos Dantas, da Pontifícia Universidade do Rio de Janeiro (PUC-RJ) enfatizou que é preciso encarar a realidade de que a mídia alternativa também não se sustenta sem dinheiro, para que se quebrem paradigmas baseados somente em idealismo. “A fonte é da própria sociedade, pois recolhemos impostos. Precisamos de política pública para financiar espaços de vozes brasileiras no mundo midiático”, defende.

Joaquim Constâncio, da IPS do Uruguai, destaca a necessidade de maior investimento na profissionalização do meio. “Com isso, se usa as ferramentas com as propriedades necessárias para se criar uma agenda alternativa de conteúdo”, argumenta.

Na opinião de Altamiro Borges, do Vermelho, grandes corporações midiáticas contribuem hoje para o desmonte do Estado e à crise sobre os povos. “Por isso, o movimento de mídia livre precisa ser fortalecido, com as brechas oferecidas com a tecnologia, por meio de blogs, sites e de iniciativas de comunidades, que devem atingir cada vez mais audiências maiores”, afirma. Segundo o jornalista, o caminho é proporcionar sinergia, respeitando os pontos de vistas de uma forma pluralista.

O desafio na atualidade, segundo o jornalista Luiz Fernando Navarro, do La Jornada, é recuperar a desvalorização pela qual passa a profissão. “A questão é como contar, por exemplo, as dezenas de mortes ocorridas no Iraque”. Isso quer dizer – tratar a informação, como bem público – caracterizando que a mídia alternativa não é sinônimo de marginal. Ele propõe a formação de uma rede latino-americana que compartilhe conteúdos, experiências e ainda promova encontros e debates. “Pautas sobre crise econômica, energética e ambiental devem ser cobertas de forma concreta”, diz.

Mais informações sobre o Fórum Mundial de Mídia Livre podem ser encontradas no site www.ciranda.net.

Sucena Shkrada Resk

31/01/2009 12:12
FSM-2009 - Protesto contra hidrelétricas marca dia 30, por Sucena Shkrada Resk

Manifestantes ocuparam saguão do prédio de veterinária da Universidade Federal do Pará (UFPA), no último dia 30, durante o Fórum Social Mundial (FSM) 2009, para se manifestar contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte. Índios da região do Xingu, o bispo do Xingu, Dom Erwin Krautler e o procurador da República, Felício Ponta, compuseram o grupo, que pede revisão do projeto.

O procurador fez um discurso inflamado dirigido aos urbanitários da Eletronorte. "Há quatro anos, eles faziam parte do Fórum de Defesa de Moradia de Belém, quando não haviam conseguido pagar o saldo devedor do financiamento de suas casas com a Caixa. Nós interviemos e hoje todos são donos de suas casas. Como agora, querem dispensar os índios de suas casas e servir de massa de manobra para três empreiteiras do país", afirmou diante de uma platéia formada pelo público do fórum e jornalistas. Segundo o bispo, há necessidade de haver a sensibilização para que os povos indígenas sejam ouvidos.

Desde a década de 80, a discussão sobre o tema preocupa a comunidade xinguana. Veja mais no site do Instituto Socioambiental - http://www.socioambiental.org/esp/bm/index.asp.

Em contrapartida, os funcionários da empresa montaram uma grande maquete do projeto, em defesa da hidrelétrica, na Universidade Federal do Pará (UFPA). A pauta é uma das mais acaloradas do fórum.
Sucena Shkrada Resk

31/01/2009 11:49
FSM 2009- Fitoterapia chega aos usuários de saúde pública, por Sucena S.Resk

O Fórum Social Mundial (FSM) 2009 apresenta algumas iniciativas interessantes, como a do projeto Farmácia Nativa, da Prefeitura de Belém, que produz medicamentos e cosméticos fitoterápicos, desde 2006. Segundo o consultor Guilherme Araújo, programas similares já são desenvolvidos nos municípios paraenses de Altamira, Mãe do Rio e Porto de Moz. O objetivo, segundo ele, é aproveitar as qualidades das ervas amazônicas, de forma sustentável, ao mesmo tempo, que proporciona geração de renda a 40 famílias de produtores.

Ao todo, são produzidos 42 itens no laboratório do município, em Belém. “Realizamos também oficinas para capacitar a comunidade utilizar os benefícios das ervas para consumo próprio”, explica. Os produtos são comercializados na farmácia municipal, no bairro do Marco. “Também são distribuídos gratuitamente sob prescrição médica na unidade básica de saúde Paraíso. A meta é que atinja mais 10 em 2009”, explica Araújo. Para isso, alguns médicos e enfermeiros foram capacitados.

De acordo com o consultor, o custo total da implementação do projeto foi de R$ 356 mil, e está sob gestão do Fundo Ver o Sol, criado pela Prefeitura. Entre os itens que têm mais saída são o gel de centelha asiática, para ajudar no tratamento de gordura localizada, além do xarope contra verminose, à base de hortelã e o de guaco utilizado no combate à asma. Como base de produção, uma das bibliografias estudadas é o livro Plantas Medicinais do cultivo, manipulação e uso à recomendação popular, de Christian Lameira, gerente administrativo do projeto, at al.

Sucena Shkrada Resk

30/01/2009 13:32
Especial-FSM-Belém 2009(bastidores)– A realidade a olho nu para se refletir, por Sucena Shkrada Resk



Passeata reuniu mais de 70 mil pessoas créd.foto - Sucena S. Resk

Os primeiros dias do Fórum Social Mundial 2009, em Belém, PA, estão servindo como um interessante estudo de caso sobre os paradoxos entre o discurso e a realidade. Enquanto, o evento propõe a mudança de paradigmas e reflexões com o mote – “Um outro mundo possível” – o mundo em preto-e-branco nos remete a um cenário de extremos contrates. A capital paraense tem apenas 6% de seu esgoto tratado, e o bairro onde está sediado o encontro – Terra Firme – é um dos mais pobres do município, ao mesmo tempo, que abriga uma área importante de proteção de mananciais, no Parque Ambiental de Utinga, sob a coordenação da companhia de saneamento.

Ao seguir para a Universidade Federal do Pará (UFPA) e para Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), que são campi gigantescos às margens do rio Guamá, vemos casebres sobre palafitas e esgoto a céu aberto correndo nas marginais das vias. Uma imagem que entristece e causa indignação, pois habitação, saúde ambiental, segurança e planejamento urbano são temas intrinsecamente relacionados ao fórum e aos direitos mínimos de cidadania. A UFRA, por sua vez, é uma das áreas mais belíssimas da cidade, com uma densa vegetação, que abriga a rica biodiversidade amazônica.

Quando o assunto é comportamento humano, a atitude de alguns participantes, que, inclusive, percorreram quilômetros para chegar ao evento, demonstram o quanto há um confronto entre respeito com a falta de limites. Não é difícil encontrar nas ruas e calçadas, garrafas plásticas, latinhas de refrigerante e bebida alcoólica, além de sacos deixados como uma amostra de que os paradoxos existem. Entretanto, há pessoas que se incomodam com isso, volta e meia, e recolhem o lixo que encontram pelo caminho. Isso revela que tudo é uma questão de livre arbítrio e educação para a sustentabilidade.

A falta de diálogo em situações corriqueiras também é mais um aspecto a destacar, que deve ser avaliado, já que se trata de um evento voltado à paz. Hoje à noite, por exemplo, na saída da UFRA, houve um clima tenso entre participantes do fórum do lado de fora do portão, que queriam entrar na unidade, e guardas da instituição.

Começou um empurra-empurra, gritos, e quem queria sair teve de se dirigir para outro portão. No final, veio o reforço policial, para conter a possibilidade de situações mais graves, pois a grade foi quase arrebentada. Esse flagrante demonstrou como o ser humano tem dificuldade de se comunicar. Talvez, um diálogo mais aberto de ambas as partes tivesse dado outro rumo a esse choque. O que é um alento é o fato de que a maioria das pessoas demonstra um afã por um mundo melhor.

Esse incidente me fez lembrar que guerras e conflitos pelo o mundo também acontecem por motivos difíceis de entender, e, por muitas vezes, considerados banais. Ao se ater às devidas proporções, os pequenos exemplos urbanos não deixam de ser um alerta que não deve ser menosprezado.

Renda extra à comunidade
Mas é óbvio que os incidentes narrados não desconstroem as situações positivas dignas de nota flagradas durante o FSM. Por exemplo, com a presença de milhares de turistas, muitos moradores estão aumentando sua renda, ao vender água e refrigerante em isopores– que, por sinal, são disputados, devido às altas temperaturas e ao receio de não se ter acesso à água potável. E com um detalhe importante – essas pessoas não cobram preços extorsivos. Só para comparação – um vendedor ambulante cobra de R$ 1,00 a R$ 1,50 pela garrafa média. Em instalações dentro dos campi é possível encontrar o mesmo produto por R$ 2,50.

Nesse clima de economia solidária, mais um segmento beneficiado com o fórum são os barqueiros, que têm a permissão de fazer a travessia entre as duas unidades. Cobram R$ 2,00 dos passageiros (enquanto a passagem de ônibus é R$ 1,70). E na era do ambientalismo, quem tem bicicleta também está em alta. O vai-vem de ciclistas devidamente uniformizados, que fazem o transporte sobre a magrela dentro do campus, com a ”tarifa” de R$ 2 a R$ 3, dependendo da distância, já se tornou uma cena comum de se ver. E literalmente o que não falta são clientes, pois nem todo mundo, afinal, tem perna para andar quilômetros por dia nessas verdadeiras cidades universitárias, sob sol escaldante e chuvas intermitentes de verão comuns na Amazônia.

E para completar esse cenário do FSM, a diversidade de etnias, culturas é o que enriquece o encontro, justamente pela pluralidade. Encontrar índios, estrangeiros do cone Sul à África, flagrar no meio de uma tenda cubana homenagens ao Chico Mendes, e no outro lado, ver uma manifestação em favor dos palestinos, demonstra realmente que outro mundo é possível. Basta quebrarmos barreiras e paradigmas.

Sucena Shkrada Resk

30/01/2009 13:25
Especial-FSM-Belém 2009 Pensata – Caldeirão de diversidades, por Sucena Shkrada Resk

Belém, PA, se tornou a capital do mundo. O caldeirão de diversidades étnicas, religiosas, culturais presentes no Fórum Social Mundial (FSM) 2009 proporciona um mosaico interessante de ser ver. Num mesmo local, é possível se deparar com mulheres quenianas, índios dos Andes, dos EUA, do Mato Grosso, do Pará, além de se ouvir sotaques regionais, do sulista, do nordestino e do estrangeiro dos países árabes aos do cone Sul. Os diferentes estilos e cores das vestimentas são mais uma característica que chama atenção. Uma experiência antropológica e tanto.

A passeata da abertura oficial do evento, no último dia 27, que saiu da altura do mercado tradicional do Ver-o-Peso para o de São Braz, foi um exemplo marcante desse cenário globalizado. Afinal, reuniu cerca de 70 mil pessoas dos mais variados lugares do planeta. Todo mundo literalmente misturado. No meu inglês mediano troquei, pouco antes, algumas palavras com duas representantes do Quênia, e, em questão de minutos lá estava Namunyak, 26, e Eunice, 28, passando seus e-mails para mantermos contato.

Com certeza, essa troca de repertórios está sendo enriquecedora em todos os sentidos, o que significa que o evento pode ser um bom momento para qualquer um de nós repensarmos nossas trajetórias de cidadãos planetários.


Sucena Shkrada Resk

28/01/2009 21:00
Especial-FSM-Belém-PA - O clamor dos povos indígenas, por Sucena Shkrada Resk

O primeiro dia do lançamento oficial do Fórum Social Mundial (FSM), em Belém, PA, no último dia 27, reservou uma imagem inesquecível de centenas de índios de vários estados brasileiros e das Américas, que se manifestaram em defesa da Amazônia e da natureza. Na nona edição do evento, pela primeira vez, há uma representação tão significativa - 1,2 mil participantes - que revelam a multiplicidade de culturas dos povos índigenas no país.

Os representantes do Vale do Javari, que é uma região extremamente carente de recursos, vieram em uma delegação de 30 pessoas (Marubos, Mayrunas, Matis, Kolina e Kanamary) com a reivindicação de um olhar mais atento aos problemas locais principalmente na área de saúde, por causa da hepatite.

"Desde a década de 70, a Fundação Nacional do Índio (Funai) já registrava casos da doença. Hoje, a Funasa levantou que há 80% de casos; 3, 7 mil pessoas foram contaminadas e dezenas morrem por ano", disse o indígena Jorge Marubo.

Segundo ele, a estrutura é de assistência à saúde é precária na região. "É preciso uma ação preventiva com mais qualidade. Temos de capacitar agentes de saúde indígenas. Se não forem tomadas providências, em 30 anos, não haverá mais ninguém lá", alerta.

A região é a segunda maior área índigena brasileira, com 8,544 mi hectares, depois da reserva yanomani. "Nossa preocupação também é com os índios que estão isolados e ninguém sabe como estão. Eles vivem nas cabeceiras dos rios e igarapés. A nossa manifestação é para mostrar ao mundo que nós existimos e devemos ser valorizados", disse.

Marilza de Santos Santiago, 63 anos, da etnia Maytapu, da região de Aveio, no PA, com seu caderno em mãos, disse que estava no encontro para pedir mais atenção à saúde e educação. "Não temos professores indígenas e estamos lutando pelo ensino médio e praticamente está difícil que nossos descendentes falem nossa língua. Também l falta transporte para casos de emergência de saúde e o número de medicamentos é limitado", contou.

Para o xerente Levi Srê Zasu, as construções das grandes barragens e o desmatamento, principalmente com a soja prejudica a reserva, que fica no estado de Tocantins.

Da Guatemala, o índio Daniel Pascual apresentou a pauta da delegação da América Latina. "Viemos em defesa dos território, da natureza (rios, bosques...) e a nossa proposta é que haja uma mobilização mundial em 12 de outubro, pela mãe natureza. Feliciana Amado Chaves, do Peru, clamou pelo conceito dos povos plurinacionais, sem discriminação.

Tom Galdtooth, dos EUA, das nações Dakota e Dive (Canadá e EUA) falou que a luta de seu povo é contra o colonialismo. "Com o presidente Obama, temos um pouco de esperança. Na região de Montana, onde vive, os índios reconheceram o presidente como amigo", afirmou.
Sucena Shkrada Resk

27/01/2009 14:41
Especial-FSM-Belém-PA – pela ótica da simplicidade, por Sucena Shkrada Resk

A iniciativa de ir ao Fórum Social Mundial, em Belém, PA, de ônibus, foi decisivamente uma opção que recompensou todos os sacrifícios de viajar por 58 horas, a partir de São Paulo, cortando o Brasil, pelos os estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Maranhão e Pará – principalmente pela BR 153 – onde pude observar uma das paisagens mais reveladoras da dicotomia do agronegócio com a “natureza intocada”, que é a marca do Brasil. E flagrar cenas inesquecíveis, como ver o rio Tocantins, com sua imponência devastadora.

Campos de soja, milho, cana-de-açúcar e pastagens dividiam espaço com cenários belíssimos do cerrado e da Amazônia, quebrados volta e meia pela marca de áreas desmatadas, devido principalmente à extração da madeira e pastagens. Pequenos arbustos, extensas planícies a perder de vista, grandes cupinzeiros, buritis, áreas de reflorestamento, aquela terra vermelha característica do planalto central e a pobreza exibida por pequenas choupanas no caminho, entre outros elementos, foram se sucedendo nesse travelling de cenas.

Ao mesmo tempo, me deparei com estradas em boas condições em boa parte do trecho. Entretanto, após a cidade de Anápolis, começou a apresentar problemas de conservação em alguns pontos, quando a rodovia não é duplicada. O tráfego intenso de caminhões nessa parte do Brasil, com certeza exige que o PAC seja mais incisivo para evitar acidentes graves, multiplicados pela imprudência das ultrapassagens. Chegamos a ver, pelo o menos dois caminhões tombados.

Bem, deixei até o relógio de lado, para exorcizar o meu biorritmo urbano. Apesar de um acréscimo de 7 horas às 51 previstas, porque por duas vezes o ônibus em que estava quebrou durante a viagem, não perdi o “prazer” de fazer uma imersão nessa viagem. Em uma das situações, ficamos 3h parados em Porangatu, sem saber se iriam conseguir a peça ou teríamos de mudar para um veículos convencional – que não é semi-leito e a “gente” come literalmente poeira.

Continuamos no executivo – depois de uma certa pressão de “direito do consumidor”, mas depois, no meio da madrugada, em um trecho isolado da rodovia, no Tocantins, novamente tivemos de esperar o reparo. Mas nem esse contratempo foi suficiente para encobrir a gostosa experiência de tecer relações com pessoas humildes e amistosas de diversas partes do Brasil e criar uma atmosfera agradável, que proporcionou o enriquecimento de minha bagagem de vida. Depois dessa aventura, finalmente, por volta das 2h30 da manhã do dia 26, chegamos sãos e salvos ao nosso destino.

Tive a oportunidade de conhecer o maranhense Manuel dos Anjos, 79 anos, radicado no Pará, que narrou sua longa história de vida, que teve também passagens por Brasília, como em São Paulo, no seu ofício principal na empreitada da construção. Com uma ponta de orgulho, contou que foi um dos primeiros a participar da construção do Aeroporto de Guarulhos.

Esse homem de sorriso fácil estava acompanhado por suas três netas, que foram morar com ele, sua esposa e familiares, na pequena cidade de Marituba, PA. Entre uma fala e outra, contou o quanto era grato a sua mulher Lourença pelos mais de 50 anos de casamento – algo raro nos dias de hoje, destacando que pelo incentivo da esposa (que era professora) se aprofundou no campo das letras. Em dada hora, lá estava ele, dizendo que já estava sentindo saudades, que se apegava facilmente às pessoas.

A funcionária pública paraense, Maria de Fátima, acompanhada por uma de suas filhas, também me fez sentir em casa. A prosa começou logo no embarque, na plataforma 55, da rodoviária Tietê, onde na fila da pesagem das bagagens – que diga-se de passagem – é uma boa pauta para matéria – foi o ambiente propício para a prosa, que se consolidou durante a viagem. Com aquele jeito de mãe – me adotou por algumas horas – me dando dicas úteis de sobrevivência em Belém. Nem preciso falar, que sabia até o que dizer ao taxista para chegar ao local da minha hospedagem.

Já com a enfermeira aposentada Benedita, moradora da cidade de Benevides, PA, (acompanhada por suas duas netas gêmeas) e a dona de casa Abadia, de Nova Rodalândia, e sua pequena filha Jaqueline, conheci um pouco dos atrativos que a natureza paraense proporciona. Descobri que há vários tipos de “coquinhos”, é isso mesmo, no norte do país. Da bacaba, que lembra o buriti, por exemplo, se extrai um gostoso “leite”. No Para, há ainda outra modalidade de coco, que é o buritirama, que é comestível, ao se colocar em água morna.

Nesse deleite da gastronomia, ainda aprendi que é imperdível tomar o sorvete de bacuri ou experimentar a tapereba, que é uma fruta amarela, de sabor levemente azedo, que lembra a carambola. E na lista, ainda destacaram que não pode faltar o murici, que por sua vez, tem sabor doce. Nesse caldeirão de curiosidades, ainda lembraram do “turu”, que é um tipo de larva comestível, encontrada na madeira... Diante dessa gama de informações, decididamente só podia anotar, para não perder nenhum detalhe.

Ainda pude obter uma aula de cidadania, quando Benedita falou com seu jeito simples e direto sobre a necessidade de consciência ambiental no PA. “Não é correto que as pessoas joguem os copos nas ruas (como vimos uma jogando pela janela de um ônibus). Não adianta culpar só os governos. É preciso colocar a cabeça no travesseiro e não jogar tanto lixo – como sofás, garrafas nas ruas”. Ela ainda frisou que algo que também a entristece é ver que existe o perigo da prostituição infantil – “É uma coisa dolorida e grave”, afirma.

Ah, e com o Sr. Fernando, que mora em Santarém, há doze anos, tive dicas importantes do meu próximo destino, como conhecer a Flona (Floresta Nacional) local e ficar atenta para comprar água potável, para evitar contratempos, devido às condições de saneamento. Enfim, uma perfeita aula de brasilidade, com quem conhece essa terra.

E vale destacar que a rede de contatos foi bem maior, pois pude conhecer outras pessoas, que como eu, estavam indo ao evento, cada um com um propósito e mais histórias interessantes para contribuir a essa viagem de trabalho. Nesse ônibus, ainda conheci os professores Jorge e Vagner, que estavam coletando imagens e informações para promover um trabalho mais interativo com seus alunos; o jornalista Danilo, que estava aberto a enveredar em novas pautas; a representante do MST, Ana Paula, que iria trabalhar em um estande do movimento, além de um livreiro que iria vender títulos ambientais no evento e outro viajante, como nós, prático da economia solidária, que estava indo com o propósito de obter mais conhecimento.

No final das contas, foi uma conversa enriquecedora, que gerou troca de endereços, telefones, convite para ir a casa deles – algo, que em cidades grandes, como São Paulo, é praticamente impensável. Só posso dizer que ter o contato com esses cidadãos de carne-e-osso como eu só me fez bem e começou a delinear o sentido do que me impulsionou a cobrir o Fórum Social Mundial – se é que me entendem...Pois, sem se humanizar, a gente perde o time desse momento histórico.


Sucena Shkrada Resk

22/01/2009 15:30
Especial - Fórum Social Mundial (Belém-PA), por Sucena Shkrada Resk

Já foi dada a contagem regressiva ao Fórum Social Mundial, em Belém, PA, que ocorrerá entre o próximo dia 27 e 1 de fevereiro. Segundo a organização, é estimado um número superior a 80 mil pessoas, e já constam no cronograma, cerca de 2000 mil atividades (oficinas, mesas de debate e seminários) -http://www.fsm2009amazonia.org.br/programacao/geral-fsm-2009/tabela-de-atividades-fsm-2009-19-01, o que deixa qualquer um abismado com essa gama de temas. A Amazônia, até por uma questão óbvia, terá um peso importante no evento, que também discutirá pautas voltadas à educação ambiental, economia solidária, desenvolvimento sustentável, reciclagem, saúde ambiental, além de temas polêmicos, como aquecimento global e combustíveis fósseis. No campo da saúde, a Aids será um dos temas de destaque.

Pela primeira vez, irei cobrir o evento a trabalho para dois veículos de imprensa, e também para gerar conteúdo ao meu blog. Amanhã parto - de ônibus - em uma viagem que deverá durar 51 horas até lá. Com certeza, uma experiência ímpar e cansativa, do ponto de vista físico, mas que para um repórter, tem um gosto todo especial, que aos poucos compatilharei com vocês. Afinal, estou economizando na logística, já que juntei recursos próprios para ter essa autonomia na viagem. Um sacrifício que vale a pena.
O cenário com o qual deverei me deparar será formado por delegações nacionais e internacionais, como a da Palestina (vide guerra), da UE e do Cone Sul, que estarão presentes ao fórum. Um caldeirão étnico, com certeza, instigante. A concentração da maioria dos encontros será na Universidade Federal do Pará (UFPA) e na Universidade Federal Rural da Amazônia. Paralelamente, organizações do terceiro setor também se apresentarão em tendas especiais, que servirão como mais um local de encontro dos participantes.

A riqueza desse tipo de encontro é dar voz à sociedade civil de uma forma desburocratizada, o que enriquece as relações com o poder público e privado. A exposição de cases, como a de catadores pelo mundo, ou de 60 anos da Palestina revelam a multiplicidade de informações a que teremos acesso. Com isso, a cidadania planetária terá espaço para ganhar fôlego para clamar por ações pró-ativas no contexto da globalização.

Numa segunda etapa, após o Fórum, partirei para mais uma experiência ímpar, ao visitar comunidades ribeirinhas do Tapajós, no barco-hospital do Projeto Saúde e Alegria. É um "sonho" como cidadã e jornalista, que estou colocando na prática, após mais de um ano, após ter conhecimento desse projeto. Com certeza, será significativo para o amadurecimento de minha carreira, e dos meus objetivos de vida. Agora, é partir para a concretização!

Então, até breve, com novas notícias.
Sucena Shkrada Resk

22/01/2009 15:06
Continuação - A rota da humilhação na saúde pública, por Sucena S.Resk

Como cidadania é ação, não poderia deixar de relatar o desenrolar da narrativa sobre a experiência pela qual passei referente ao atendimento na saúde pública. Depois de enviar a carta à presidência da gestora do hospital e à ouvidoria, ainda liguei novamente à direção clínica da unidade, no último dia 14, onde o funcionário (ao qual havia entregado a primeira carta de reclamação em dezembro), conseguiu falar com o cirurgião responsável pela intervenção cirúrgica em minha tia, e o mesmo deu o ok para me atender no dia 15, afim de prestar todos os esclarecimentos do procedimento e orientações do pós-operatório.

Aí, foi uma correria só. Pois mais uma vez, teria de agendar a ambulância (sendo que ainda estava em minha casa e teria de me deslocar ao litoral, onde a minha tia estava acompanhada de uma amiga). Liguei para o setor e - graças a Deus - consegui o agendamento com facilidade. Daí, fui para lá e o atendimento aconteceu no dia seguinte.

É claro, que não deixou de haver um certo estresse, porque até nos levarem ao encontro do médico, aconteceram alguns desencontros de informações no setor de atendimento. No intervalo de uma cirurgia, o médico explicou que a minha tia havia operado o platô da tíbia (e não, a patela, como constava na ficha inicial dela), e deveria ficar sem apoiar a perna no chão, por mais dois meses).

Entretanto, recomendou que já começasse a fazer exercícios gradativos (para a recuperação do joelho). Para isso, indicou que eu comprasse um imobilizador com velcro - que substituiu o gesso. Também liberou que ela fosse transportada em carro de passeio.

Sendo assim, ontem, ela finalmente chegou em casa e está sendo assistida por sua família nesse período de recuperação. É claro, que algumas dúvidas ainda continuam, mas o médico deu o seu celular - para esclarecê-las, se necessário.

Agora, temos de marcar o retorno com ele, para o final de fevereiro. Até lá, esperamos que transcorra tudo dentro da normalidade do bom atendimento.

Enfim, ao narrar essa experiência, cheguei até a ser prolixa - mas fui muito objetiva e sincera no relato. Afinal, quem de vocês não passou em algum momento da vida por situação similar e se viu - de certa forma - impotente e desafiado a correr atrás dos direitos mínimos de usuário (familiar) do sistema de saúde pública. Acredito que não podemos ter vergonha ou temer descrever a realidade, e tirar as dúvidas. Afinal, somos leigos e cabe aos especialistas nos orientarem para que a recuperação dos pacientes seja satisfatória...

Sucena Shkrada Resk

10/01/2009 15:55
A rota da humilhação na saúde pública, por Sucena Shkrada Resk

Hoje narro uma experiência em primeira pessoa sobre a humilhação no atendimento em saúde pública, que tantas vezes, reportei como jornalista durante a minha carreira. Do dia 19 a 29 de dezembro vivenciei como a desorganização e a burocracia desconstróem a humanização do sistema, que deveria ser um alento ao usuário. O episódio ocorreu ao auxiliar uma tia, que sofreu um trauma no litoral paulista.

Quando cheguei ao pronto-socorro local depois de três horas de viagem, lá estava ela sobre uma maca na enfermaria geral, com uma tala na perna, sem saber o que iria acontecer daqui um minuto, se sentindo solitária, apesar de dividir o espaço com outros pacientes tão apreensivos quanto se encontrava. O máximo que ela sabia é “que havia quebrado o joelho” e deveria sofrer uma cirurgia. Poderia até voltar para casa – informaram - mas correria o risco de perder a vaga. O medo foi tanto, que lá permaneceu à espera.

Bem, aí a peregrinação começou. Falei com uma enfermeira e ela explicou que não sabia se teria vaga – mas que o processo já estava em andamento. Daí descobri que minha parente queria ir ao banheiro há horas, mas estava impossibilitada, porque não podia mover a perna e não havia cadeira de rodas. Daí, novamente, fui lá perguntar – e a resposta é que deveria usar fralda. E perguntei – se o pronto-socorro não tinha o material. A resposta: não, é preciso comprar. Respondi: então, porque não informam aos familiares (imagine aquelas pessoas que não têm alguém próximo). Lá fui eu à drogaria comprar o pacote.

Nesse ínterim, a dor começou a aumentar e o desconforto com o gesso vivenciado pela minha tia me levou novamente a interpelar a enfermeira a respeito. Depois de certo impasse, lá fomos nós para que fosse refeito o gesso. Depois de um tempo, um alívio: tinha aberto vaga de um leito no repouso do pronto-socorro, em que havia cama hospitalar, lençol e mais higiene, é claro.

Uma etapa superada, e voltei no outro dia ao PS para visitá-la e mais uma nova descoberta – já que não havia sido informada com antecedência. Era necessário levar toalha e sabonete, pois a unidade não tinha o material para dar banho de leito. Não preciso nem falar... Também tive – como demais familiares de outros pacientes - de levar ainda garrafa d`água, pois o acesso também não era tão prático na hora da sede do paciente.

E a cirurgia? – Bem, dependia do plantão do médico e da abertura de vaga no hospital municipal ao lado. As vésperas do feriado também contribuíam para esse quadro de incerteza. E assim foi, até o dia 22, quando a vaga tão esperada surgiu. E, lá vai mais um quadro de correria, pois um familiar tem de assinar a autorização da internação. Corri para o hospital para assinar a autorização.

Depois de algumas horas à espera, em que fui informada que minha tia se recuperava na sala do efeito da anestesia – chegou a hora da visita, e subi ao leito designado pós-cirurgia. Entretanto, chego lá e estava vazio. Um gelo na barriga e interpelo a enfermeira sobre a ausência. Sem saber o que falar, pergunta para mais uma, mais uma. E ah – a “fulana” foi pegar uma paciente, que é essa..... Aguardo cerca de 20 minutos e vejo minha tia chegar de maca.

Ao mesmo tempo, que tive um alívio de vê-la aparentemente bem e falando –, me deparo com o seu lençol encharcado de água do lado direito. Ouvi a enfermeira dizer que era em decorrência do ar condicionado onde estava anteriormente. Pergunto se vão trocá-lo, para que não seque no corpo dela. Daí, a resposta: estamos aguardando o material (da lavanderia), mas vamos trocá-lo.

Fiquei confiante, conversei com a minha tia, deixei uma toalha, sabonete, e acabou a hora da visita, para retornar no dia seguinte. Quis saber o que realmente ela havia operado, daí me mostraram um raio-X com dois pinos, posterior ao anterior, com o trauma. Mas que osso? Bem, só vim a saber dias depois, pois não consegui falar com o médico...

Dia 23, novamente horário de visita – Primeira abordagem – “a paciente teve alta”. Fiquei atônita e perguntei, é claro, quais providências a tomar. Para resumir a questão – ocorreu o seguinte. Ainda demorou horas para que colocassem o gesso para imobilizar a perna do joelho fraturado e operado, o lençol do dia anterior era o mesmo até quase a noite, das 11h até por volta das 21h ficamos na incerteza de contar com uma ambulância para levá-la à sua casa, já que o edifício onde minha tia mora, não tem elevador.

Pedi para a assistência social o empréstimo de uma cadeira de rodas – mas a resposta é que o hospital não dispunha. Então, fui pedir informação à enfermagem, sobre qual deveria comprar – e ninguém sabia explicar.

Lá fui eu ver preço em duas lojas próximas. A cadeira com apoio de pernas – com um preço assustador mínimo de cerca de R$ 600. Então, fui ver a cadeira de banho. Chorei, chorei para o dono da loja, e paguei R$ 140.00. Entretanto, vale lembrar, que a minha tia é aposentada e mora sozinha. Como poderia arcar com toda essa sequência de despesas? Ninguém está interessado em saber a condição do usuário. Isso foi me dando uma revolta por dentro. Mais um agravante, depois descobri que não podia ir de cadeira de rodas, devido ao procedimento cirúrgico.

No momento da saída, recebi um receituário sem data e tempo de adoção dos medicamentos a que a minha tia tinha de se submeter (antibiótico e anti-inflamatório). Ninguém sabia explicar quanto tempo deveria tomar e não havia um médico responsável para completar os dados. Saímos sem saber qual era a cirurgia. Uma mínima explicação para um leigo e instruções pós-operatória...

Nesse vai-e-vem, descobri que minha tia não poderia usar uma cadeira de rodas tão cedo e, mas ficar deitada e sentar-se na cama...e não teríamos condições de levá-la à nossa casa, em outra cidade – o que era a pretensão inicial, até sair dessa condição de acamada.

Apesar da educação da chefe de enfermagem do turno da noite e os profissionais da ambulância, nos sentimos como peixes fora d`água. E com um agravante. Desde as 11h (outro turno de funcionários do hospital), o receituário poderia ter sido entregue à familiar do paciente, para que fosse retirado de graça na unidade básica de saúde, o que é um direito de todo cidadão brasileiro. Devido ao horário, obviamente tive de comprar, porque senão perderia o ciclo de horário.

No sábado, fui ao hospital, para ver se um médico poderia me falar quanto tempo deveriam ser adotados os medicamentos. Então, me mandaram para o PS. Esperei uma brecha do plantonista do trauma, mostrei a receita sem os dados e recebi a seguinte resposta. “Normalmente são 10 dias”. Bem, mais uma vez fiquei preocupada pela forma que foi dada a informação.

Aí mais um calvário começou. Numa outra prescrição, o médico que deu alta determinou que fossem retirados os pontos da cirurgia no dia 5. E aí surge um problema – como faríamos para levá-la ao PS, já que havia o lance das escadas e não poderia ir de cadeira de rodas. Tinha de pleitear a assistência de uma ambulância.

Então, no dia 29, lá estava eu novamente no hospital, falei com a atendente do SAC, expliquei a situação e aí fui descobrir na tela que puxou do prontuário – que a minha tia tinha fraturado a patela (conhecida por rótula, é um dos ossos que compõem a articulação do joelho ativamente).

Depois a assistente social chegou e ela providenciou uma cartinha para eu levar à Secretaria de Promoção Social próxima do hospital. Vale lembrar – que também havia tentado falar com o médico – e nada. Fui orientada, então, para falar com a secretária do médico. Quase duas horas de espera, consigo conversar com ela, mostro a receita sem data e tempo de adoção, e a mesma diz que devem ser tomados por 14 dias. Faz um receituário para os sete restantes, que é submetido à médica plantonista do trauma, que assina.

A secretária disse que estava ok o retorno de minha tia para o dia 5, e que nesta data o cirurgião responsável estaria (o que não ocorreu). Consegui pegar um raio-X, para que pudesse apresentar no retorno (já que não haviam dado nada na alta). O outro consegui depois, pois não estava no mesmo arquivo. Na sequência, vou à promoção social, a assistente social olha o encaminhamento e escreve um bilhetinho à colega do hospital – que a secretaria de saúde teria de providenciar a ambulância, pois a promoção só tinha uma com um motorista. Não tinha como fazer a remoção.

Voltei ao hospital e a assistente estava em reunião. O que fazer??? Ainda precisava de um relatório do prontuário da minha tia, já que não haviam providenciado nada até então para o acompanhamento posterior e informação a ela e nós, familiares. Novo código de burocracia surge – fale com fulano da administração, para solicitar o documento. Fui até o depto, aguardei um tempo e ele me ouve e diz. É preciso preencher um formulário e que a paciente dê uma procuração para que seja retirado (depois de alguns dias a cópia).

Então, questionei o porquê de ela não ter sido informada a respeito e não ter recebido o documento ou um relatório na alta. Não adiantou muito – o rapaz falou que o procedimento era por força de lei. Então, pedi a ele um formulário de reclamação para relatar todos os problemas vivenciados até então. Já que é de lei também, o direito de bom atendimento ao usuário. O rapaz ficou atônito e informou que não havia formulário. Demorou um pouco e voltou com duas folhas de sulfite e carbono.

Descrevi o ocorrido endereçado à diretora técnica da unidade, desde o lençol úmido à confusão do pedido da ambulância. Após ele assinar o protocolo e falar que haveria retorno (até hoje estou esperando). Fui tentar achar a assistente social. Ela já me esperava e narrou que a confusão havia sido feita pela a colega da Promoção Social. Confesso – eu já estava me sentindo uma “barata-tonta”. Aí ela liga para a outra e fala que o procedimento da requisição da ambulância deve ser encaminhado pela promoção mesmo. E mais uma vez vou lá, para pegar a tal cartinha.

Esperem. Só que a tal cartinha eu tinha de entregar na Secretária de Saúde, que fica a cerca de 35 minutos de ônibus do local. Antes disso, ainda fui ao ambulatório da UBS próxima, para pegar os medicamentos gratuitos restantes, a que minha tia tinha direito (mas não imaginem que fui orientada para isso. é que sei desse direito, como qualquer um de nós deveríamos estar cientes). Nesse vai-e-vem, já havia passado aproximadamente cinco horas.

Cheguei à Secretaria, consegui encontrar a funcionária responsável, entreguei o encaminhamento, ela olhou na agenda e diz. Tudo bem – está marcado. Acho que nessa hora a minha carga de stress desabou, porque comecei a chorar. Aí veio aquela “neura” e perguntei. Mas está tudo ok mesmo, né? A moça confirmou que sim.

A carga de preocupação era maior, pois tinha de voltar para minha casa, que fica em outra cidade, e no dia 5, minha mãe iria acompanhar minha tia no retorno. Não queria deixar nada em aberto.

Na segunda, a ambulância chegou na hora marcada. Só que para o retorno, elas tiveram de esperar quase por cinco horas. Ah, não conseguiram o relatório sobre o procedimento cirúrgico (pois o cirurgião responsável não se encontrava, e não há data correta para falar com ele). Já o plantonista mandou trocar o gesso, houve a retirada dos pontos e determinou que minha tia fique imobilizada – pelo o menos por mais um mês. Até lá, talvez, tenhamos de passar por mais esse processo desgastante.

Moral da história - Saber em quanto tempo estimado ela poderá sentar, tomar banho na cadeira de rodas, poder ser transportada em um carro de passeio e fazer fisioterapia – só Deus sabe, porque até hoje temos essas dúvidas a esclarecer. E qual é o comprometimento real do seu trauma para a sua qualidade de vida? Não é preciso falar o quanto tudo isso é humilhante, e quantas milhares de pessoas passam todos os dias por esse descaso.

Aí fica uma reivindicação – Faculdades de Medicina, Enfermagem, Serviço Social e profissionais revejam o conteúdo curricular e ético, e incluam o indispensável quesito da humanização. E senhores, gestores públicos, lembrem que não basta desembolsar dinheiro público para construir um caixote de alvenaria – sendo que esse tinha até mármore - e abrigar pacientes com descaso, literalmente como um número de leito. É preciso respeitá-los com toda dignidade que qualquer ser humano merece.

Sucena Shkrada Resk

30/12/2008 07:50
Mudanças Climáticas: correndo atrás do prejuízo, por Sucena Shkrada Resk


A 14ª Conferência do Clima das Nações Unidas (COP-14) só atestou que o período após o Protocolo de Kyoto de 1997 (ratificado pelo o Brasil, em 2002), emite um sinal vermelho aos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Os maiores poluidores do mundo são os mesmos da década passada - Estados Unidos, China, Indonésia, Rússia, Brasil, Japão, Índia, Alemanha, Canadá e Inglaterra. O prazo acordado de em 2012 se diminuir em aproximadamente 5% as emissões dos gases de efeito estufa em relação aos níveis de 1990 se tornou um verdadeiro engodo mundial. Mas o mais surreal é que estamos querendo enganar a nós mesmos, pois perdemos o time da história e corremos atrás do prejuízo causado pela adoção dos combustíveis fósseis (nos países desenvolvidos) e da chaga dos desmatamentos nas nações em desenvolvimento.

A indústria do petróleo ainda detém um poder grande na pauta de negociações. Chegar a um método eficaz sobre a captura e estocagem de carbono é o grande x da questão, que não se chegou ao consenso. Em contrapartida o Redd (Redução de Emissões por Desflorestamento e Degradação) – que não fazia parte da versão do Protocolo de Kyoto – entrou agora na agenda ambiental mundial. Com isso, entende-se que o Brasil tem de expor uma postura oficial a respeito.

Em Poznan, foram relatadas mais metas, como da União Européia de diminuir em até 30%, as emissões dos gases, implementando um sistema de compensação de emissões.

Já os países em desenvolvimento, no hall em que se inclui o Brasil, deverão receber fundos internacionais originários do Banco Mundial (BIRD), que totalizará a cifra de US$ 40 bi anualmente. E os projetos de envergadura a longo prazo?

Agora começa uma nova rodada de conjecturas. Talvez o anúncio feito pelo o presidente eleito dos EUA, Barack Obama, sobre alguns dos nomes que estarão à frente dos postos de Energia e Clima, sinalize uma revisão da conduta até agora intransigente do país, que não ratificou o protocolo. Afinal, o Nobel de Física (1997) e especialista em mudanças climáticas, Steven Chu ocupará o cargo se secretário de Estado da Energia. O cientista é conhecido por ser um defensor das fontes de energia renovável.

Já Carol Browner, que será responsável por “clima”, tem em seu histórico a atuação como líder da agência de proteção ao Meio Ambiente, durante o mandato do presidente Bill Clinton (1993-2001) e é colaboradora do ex-vice-presidente e prêmio Nobel da Paz Al Gore. Será que “Uma Verdade Inconveniente” pesará sobre a nova política de sustentabilidade norte-americana? Tendo em vista, que na fase Clinton não houve avanço, como na gestão Bush, quanto à diminuição da matriz fóssil.

Ao voltar os olhos para o Cone Sul, e em especial para o Brasil, resta saber como o país vai fazer valer todas as propostas que levou ao encontro de Poznan, presentes no Plano Nacional sobre Mudança do Clima (http://www.mma.gov.br/estruturas/imprensa/_arquivos/96_01122008060233.pdf ), que tem metas ambiciosas, como reduzir até 2018, em 70% o desmatamento na Amazônia Legal, que não foram detalhadas. A mesma Amazônia, que a todo mês é devastada. Neste ano, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), foram 11.968 km2 desmatados, contra 11.532 km 2, em 2007 – predominantemente nos estados de Mato Grosso, Pará e Rondônia.

Vale recordar, que em 2007, pesquisadores do Instituto já sinalizavam a possibilidade de o – “pulmão verde do mundo” se transformar em Cerrado. E quando vemos a situação do “verdadeiro” cerrado brasileiro, a perspectiva é simplesmente virar agreste. Não existe bioma algum no país que não esteja sendo afetado. A progressão do aumento desse cenário desolador é gigantesca, proporcional à dimensão continental do Brasil.

Para isso, o governo brasileiro está criando o Fundo Amazônia – que deverá receber recursos nacionais e estrangeiros – para viabilizar os projetos que revigorem a Amazônia. Fala-se na cifra de US$ 21 bi. E conforme disposto no plano, essas iniciativas deverão estar voltadas à gestão de florestas públicas e áreas protegidas; controle, monitoramento e fiscalização ambiental; manejo florestal sustentável; atividades econômicas desenvolvidas a partir do uso sustentável da floresta; zoneamento ecológico-econômico, ordenamento territorial e regularização fundiária; conservação e uso sustentável da biodiversidade; recuperação de áreas desmatadas; e pagamentos por serviços ambientais.

Os efeitos de uma Amazônia destruída preocupam o mundo ainda por uma questão financeira. Estima-se que possa gerar um prejuízo de US$ 1 trilhão. De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) em parceria com outras 29 instituições de pesquisas, as chuvas geradas no Centro-Oeste brasileiro e nos países do Cone Sul vêm em grande parte da evaporação de água da região.

As linhas genéricas do Plano Nacional sobre Mudança do Clima foram delineadas pelo Governo Brasileiro e agora vem o maior desafio – implementá-las – independentemente de gestões. De acordo com o resumo do texto divulgado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), no que tange à matriz energética, (hoje predominantemente hídrica), deverá haver investimento em mais hidrelétricas, matrizes eólicas e de energia fotovoltaica. O Plano ainda destaca investimento em carvão de origem vegetal. A proposta é trocar 1 mi de geladeiras antigas por ano, num período de uma década.

Por outro lado, em outra frente se apoiará a eficiência energética, por meio da redução do consumo (principalmente industrial). A meta é chegar à 10% de economia até 2030, o que representa 30 milhões de toneladas de CO2 naquele ano.

A meta governamental prevê ainda o aumento de reciclagem no Brasil em 20% até 2015 e a diminuição gradual do emprego do fogo no corte da cana-de-açúcar, que é a principal fonte da política de co-geração de combustível do país. Segundo o governo, deverá haver o aumento médio de consumo de etanol e biodiesel de 11% nos próximos 10 anos.
Outra proposta no documento é recuperar grande parte dos atuais 100 mil há de pastos degradados no país e reduzir o desmatamento em 40%, no período compreendido entre 2006 e 2010. Uma das principais tarefas, tendo em vista os percentuais anunciados mensalmente que afligem todos os biomas brasileiros.

E outras metas que deverão ser efetivadas, de acordo com o Plano, é o incentivo a estudos e pesquisas sobre impactos da mudança do clima sobre a saúde, fortalecimento das medidas de saneamento ambiental e de educação ambiental. Ainda há a meta de se realizar capacitação técnica dos profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS) em saúde e mudança do clima, além da inserção da temática nos programas curriculares e materiais didáticos.

Pode-se dizer que é um exercício que exige vontade política e pulso firme – já que hoje ainda nos debatemos com problemas cotidianos dos mais elementares, que é a falta de humanização no sistema – de entender que o semelhante merece respeito e não é mais um número de protocolo nas filas de atendimento.

Sucena Shkrada Resk

12/12/2008 21:58
Representação cidadã é reduzida no perfil da gestão ambiental brasileira, por Sucena S. Resk


Hoje o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou a sétima edição do Perfil dos Municípios Brasileiros, e entre os diversos dados ambientais levantados, o que mais me chamou atenção foi a constatação de que menos da metade – 2.650 ou 47,6% - mantêm conselho municipal de meio ambiente, sendo que 11,6% apresentam composição paritária (governo e sociedade), com caráter consultivo a fiscalizador. Já na região Sudeste, um terço está inativo. Esses dados revelam que há muito a melhorar no sentido de participação cidadã e quanto à falta de mobilização.

Mais uma lacuna na gestão ambiental diz respeito à retaguarda de prefeituras para enfrentar os problemas ambientais. De acordo com a pesquisa, 18,7% dos municípios brasileiros possuem simultaneamente secretaria ou assessoria de meio ambiente, recursos específicos para a área e o conselho. Quando o dado é regionalizado, a situação mais crítica é revelada no Nordeste, com 9% de cobertura.

Esses déficits estão intrinsecamente relacionados à “lei de causa e efeito”. O contexto é justamente a confirmação de que 90% dos municípios brasileiros, ou seja, 5.040 revelam que sofrem a ocorrência constante de impactos ambientais. Os líderes do ranking são queimadas, desmatamento e assoreamento de corpos d`água. Esse recorte obscuro do Brasil – que se repete ano-a-ano - faz com que figure como um dos maiores emissores dos gases do efeito estufa do planeta, entre os países em desenvolvimento. Com certeza, é um título do qual não podemos nos orgulhar e nos omitir, por meio da alienação.

Sucena Shkrada Resk

11/12/2008 17:12
O sinal vermelho do lixo, por Sucena Shkrada Resk

Achar normal que a média brasileira de produção diária de resíduos sólidos seja de 900gr por pessoa, no mínimo, é uma insanidade. Basta ver os pequenos sinais de alerta diários com os quais nos defrontamos em nossas ruas, calçadas, rios – ainda lixões!!!! – e aterros. Só para se ter idéia, no estado de São Paulo, são produzidas cerca de 28 mil toneladas diárias de resíduos sólidos domiciliares, segundo a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb). No Brasil, estima-se que sejam 240 mil ton.

A situação chega a ser tão complexa, que até revisões de normas para instalação de aterros são pautas recentes do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). Em novembro deste ano, foi instituída a resolução nº 404/2008, que estabelece critérios e diretrizes para o licenciamento ambiental de aterro sanitário de pequeno porte (disposição diária de até 20 t), para que possam ser implementados, possibilitando a dispensa do EIA-Rima (http://www.mma.gov.br/port/conama/legiabre.cfm?codlegi=592)

Provavelmente poucas pessoas se detiveram, por exemplo, em uma notícia recente de que o período de vida útil dos aterros do litoral Norte paulista está expirando e algumas prefeituras se viram obrigadas a buscar alternativas em municípios mais distantes. Uma das possíveis soluções a médio prazo encontrada é a criação de um aterro regional, por meio de um Consórcio Intermunicipal.

Quando trazemos essa realidade para São Paulo capital e aos municípios do entorno, aí as prospecções são mais assustadoras. O sinal vermelho já foi dado há muito tempo. Em novembro, realizei, em companhia de alguns colegas de pós-graduação lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade, uma visita monitorada ao Aterro particular Essencis, em Caieiras, que recebe grande parte do lixo da capital, para ter uma noção real de qual é a destinação de cerca de 8 mil ton/diárias (domésticos).

As minhas conclusões parciais são de que os gestores públicos, as empresas e, nós, enquanto sociedade, precisamos literalmente de educação e consciência ambiental. Em outras palavras, reduzir o consumo, antes da reciclagem.

A primeira impressão que tive ao chegar lá me remeteu àquelas imagens das crateras profundas a perder de vista do cenário de Carajás, no PA. São 3, 5 mi m2 de área de fundo de vale, onde são formadas montanhas (aterradas) de lixos que podem atingir a 45 m de altura, destinadas a abrigar resíduos doméstico e industrial (classes 2 e 1).

Os caminhões não páram de chegar. Aí é necessário abrir um parênteses, que infere a emissão de CO2 no trajeto – que tem de ser contabilizado na poluição. Esse ciclo constante é resultado do modo de vida que temos na sociedade de consumo – pois no meio de todo lixo doméstico (que em grande parte não tem separação seletiva), se encontra de tudo – do orgânico ao potencialmente reciclável.

De acordo com dados da Secretaria de Serviços da Prefeitura de São Paulo, das cerca de 15 mil toneladas de lixo geradas diariamente, 9 mil são de resíduos domiciliares, que vão para aterros sanitários, e somente 0,6% do montante de lixo segue para a coleta seletiva, que atende a 74 distritos.

Destinação do chorume
O chorume (substância líquida resultante do processo de apodrecimento de matérias orgânicas) produzido no lixo – por força de lei e de saúde ambiental, é recolhido em enormes bacias de acumulação para ser tratado pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), conforme informa o educador ambiental da Essencis e mestre em Botânica, Giovano Candiani. “Saem de 20 a 30 carretas/dia, com 30 mil m3 cada. É diluído no esgoto urbano e passa por tratamento físico, se transformando em lodo e a água é descartada para o rio Tietê”, explica. Entretanto, nós cidadãos comuns, sabemos o que acontece com dezenas de outros aterros espalhados por este país?

Outro aspecto a observar é que o adensamento urbano no entorno é uma preocupação constante, seja perto do Essencis ou de qualquer outro aterro. No caso do Aterro de Caieiras, a olho nu é possível ver uma comunidade de Caieiras a alguns quilômetros de distância do Aterro. Aí mais um alerta – os gestores públicos têm de fiscalizar essas distâncias e as possíveis construções desordenadas, para que não chegue ao ponto de ultrapassar a limites que sejam perigosos à saúde ambiental.

Para compreender a emergência disso tudo, temos de partir do princípio que, em média, um aterro tem previsão de vida útil de 10 anos, mas a realidade mostra que o adensamento leva, com que posterguem esse teto até 30 anos. Vide o Bandeirantes, que recebia até 6 mil ton/dia, que fechou em 2007, e em tese, deveria ter encerrado suas atividades nos anos 80.

Só o Essencis não dá conta de todo o resíduo de SP. Afinal são cerca de 12 mi habitantes. Aí, a destinação também é dividida para outro aterro particular, em Pedreira, Guarulhos, e ao Aterro público São João, no bairro de São Matheus, em São Paulo, que tem previsão para ter sua vida útil expirada no ano que vem. A criticidade que envolve o tema é tão relevante, que em agosto passado, parte dos 150 m de altura de lixo do São João chegaram a desmoronar.

Monitoramento contínuo
As regras para se estabelecer a segurança dos lençóis freáticos nos aterros também são exigências legais prioritárias para seu funcionamento, que prevêem camadas de proteção (argila, polietileno, gel têxtil, pedras brutas, entre outras), canalizações hídrica, de águas pluviais, de chorume e monitoramento constante. “O controle quanto a contaminações tem de ser feito após o fechamento dos aterros, pelo o menos, por 50 anos (período estimado para estabilizar a matéria orgânica”, explica. Mas a minha pergunta é a seguinte – esse controle realmente é feito de forma sistemática em todo o nosso país?

A compensação ambiental também faz parte desse processo de licenciamento, que deve se dar por meio de reflorestamento. “No Essencis, já foram viabilizados 50 hectares de reflorestamento e o controle da fauna e flora, com o apoio de pesquisadores da USP e ESALQ. Foram catalogadas 175 aves e 15 mamíferos. Observou-se que começou a aparecer onça-pintada”, diz Candiani. O difícil é ter certeza de como está a situação dos demais no país, já que vemos rotineiramente ações por meio do Ministério Público exigindo reparações.

Lixo: produção de energia, redução de metano e créditos de carbono
A experiência de captação de metano e geração de biogás e “créditos de carbono” (cada crédito de carbono equivale a uma tonelada de dióxido de carbono (CO2) que deixa de ser lançada na atmosfera pela instalação de equipamentos de controle de emissão de gases) é mais uma etapa do potencial de um aterro, que ainda não representa o universo das unidades pelo Brasil. O Bandeirantes foi um dos pioneiros em geração de energia elétrica. Obviamente isso requer investimento e tecnologia.

Em notícia publicada pela Secretaria Municipal de Finanças de São Paulo, no mês de setembro, a Prefeitura de São Paulo arrecadou cerca de R$ 37 milhões no segundo leilão de créditos de carbono, obtidos com a captação de gás metano, tando do Bandeirantes, como do São João. Foram comercializados em leilão na Bolsa BM&F Bovespa 713 mil créditos de carbono.

É importante destacar que o dinheiro advindo da transação deve ser destinado ao Fundo Municipal de Meio Ambiente. A destinação da verba obrigatoriamente tem de passar por consulta pública. É aí que os cidadãos precisam ficar bem atentos para as prioridades e aplicações de ordem socioambiental.

De acordo com Candiani, a prática já é desenvolvida no Essencis, onde há uma pequena usina de biogás, que pude observar na visita monitorada. “Hoje a energia consumida aqui é proveniente dela”, afirma. Mas o potencial é bem maior, segundo ele, equivalente ao atendimento de uma população de 400 mil habitantes.

Algumas mitigações, como a produção de energia, são interessantes de ponto de vista de compensação, mas com certeza não se sobrepõem à questão dos riscos ambientais, que envolvem o ciclo do lixo. Tendo em vista as dicotomias da sociedade de consumo, que nos remetem à filosofia do ter e ao status aparente dessa projeção, vemos que se não mudarmos nossos hábitos, talvez tenhamos de disputar o espaço com o lixo que produzimos. E o mais grave, como evitar que não haja contaminações e risco à saúde pública? Por isso, a iniciativa mais eficaz é introduzir a cultura da redução e repensar nossos valores de vida.

Sucena Shkrada Resk

10/12/2008 20:04
DHs: começam pelo princípio de dar dignidade à vida, por Sucena Shkrada Resk

Celebrar os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos requer que a memória não seja apagada num daqueles lapsos temporais, que permitem passar a borracha na história. E, com a precisão que cabe ao termo, se pode dizer que o princípio fundamental incontestável é que todos têm o direito à vida – mas com um detalhe a considerar – uma vida envolvida com qualidade e dignidade, em que qualquer cidadão encontre opções de escolha para alcançar a felicidade.

No entanto, os focos de crise que assolam nossos bairros, cidades, países e o planeta pelas décadas a fora provocam uma série de reticências sobre quais são as premissas para se estabelecer esse direito universal. O sociólogo e presidente da Cátedra UNESCO de Educação para a Paz, Direitos Humanos, Tolerância e Democracia, Sérgio Adorno, afirma que ainda há muitos desafios a vencer no Brasil, quanto a equívocos que levam muitas pessoas a identificar o DH, por exemplo, “como direito para bandido”. “É preciso reduzir as resistências e solidificar o significado”, afirma.

Em palestra proferida, no último dia 8, na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP), Adorno fez uma retrospectiva do cenário que envolveu a formação da declaração, em 1948, em paralelo com o que diz a Constituição Federal Brasileira de 1988. Nessa trajetória, o sociólogo apontou as conquistas e arestas a se superar.

Segundo o sociólogo, o mundo das primeiras décadas do século XX tentava se erguer do advento da 1ª Guerra Mundial e da 2ª, que trouxeram uma carga pesada envolvida pelo totalitarismo, genocídios, anti-semitismo, entre outros tipos de violência. “A Declaração teve como princípio básico o direito à vida e como ponto fundamental, as Revoluções Americana e Francesa, quanto ao direito do homem e do cidadão”, explica.

O ideário francês permaneceu como referência, pelo o menos, por dois séculos O mundo pós-holocausto era o símbolo de tudo que a sociedade ocidental queria repudiar. “O objetivo era evitar que os povos estivessem sujeitos à pobreza extrema e serem manipulados; evitar os armamentos bélicos. O que se queria era o bem-estar, justiça e liberdade, além da restrição ao totalitarismo e ao terrorismo do Estado”, diz o sociólogo.

A construção do texto da DUDH também contou com fundamentos já estabelecidos pelo então presidente norte-americano Franklin Roosevelt, quanto à liberdade de expressão, adorar a Deus em qualquer lugar do mundo e de viver salvo da necessidade e do medo. A DH passou por um processo de quatro gerações.

Segundo Adorno, na primeira, o enfoque foram os direitos civis (liberdade de expressão) e político (votar e ser votado); a segunda incluiu os direitos econômicos e sociais (trabalho, habitação, saúde, escolarização e segurança). Já a terceira e quarta se preocuparam em proteger grupos vulneráveis (mulheres, adolescentes, minorias étnicas e, também, o meio ambiente (fauna e flora). “Houve uma perspectiva cada vez mais transversal, mas apesar dos avanços, ainda nos deparamos com situações de mutilações físicas e mortes”, explica.

Algumas iniciativas positivas pós-implementação da DUDH no mundo:

1950 – Estatuto dos Refugiados e Apátridas
1959 – Declaração dos Direitos das Crianças
1960 – Independência aos países e povos coloniais
1963 – Declaração sobre a Eliminação de todas as formas de discriminação racial
1992 – Rio 92 – Convenção sobre a Biodiversidade
1994 – Declaração sobre Medidas para Eliminar o Terrorismo Internacional
1998 – Declaração sobre os Princípios Fundamentais e Direitos no Trabalho da OIT
2003 – Convenção da ONU sobre corrupção

Algumas iniciativas negativas que prevaleceram no período:
Campos de trabalho forçado na ex-URSS
Intervenção americana na Guatemala (1954)
Violações do DH – na Argélia, África do Sul, Angola, Burundi, Moçambique, Ruanda, Zimbábue, ex-Croácia etc
Neonazistas na Alemanha
Narcotráfico, tráfico de seres humanos, turismo sexual, prostituição infantil, torturas e maus tratos
Terrorismo nos EUA (2001)
Guerra do Iraque, entre outras

Segundo Adorno, no Brasil, a Constituição Federal promoveu a ampliação do reconhecimento dos direitos civis, culturais e políticos. “Nomeou-se os direitos, mas sem indicar mecanismos de proteção”, considera. Já com relação a mobilizações importantes, ele cita a luta pela Anistia ampla, geral e irrestrita (1978-79) e a Campanha das Diretas Já (1984).

“Houve ações de resistência, desde 64, que se intensificaram com o Ato Institucional nº 5 em 68, de forma dispersa, em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Belo Horizonte”, fala. Como frutos dessas iniciativas, se instituíram o habbeas corpus e o habbeas data, houve o fim à censura. “É um período muito importante, porque setores que haviam aderido ao Golpe, começaram a engrossar as fileiras pelas lutas de estado de direito”, diz.

Ao mesmo tempo, ao longo das lutas, se descobriu um lado obscuro. “O fim do regime militar não significaria o fim da tortura dos cidadãos comuns e das perseguições”, afirma Adorno. Mais um ponto de embate ficou por conta de estabelecer o significado do conceito. “Forças conservadoras defendiam a idéia de que os DH eram direitos para bandidos. Essa política por muito tempo constrangeu os defensores, porque eram considerados porta-vozes do crime e da delinqüência”, analisa.

Hoje, de acordo com Adorno, apesar das resistências não serem tão fortes, ainda são presentes. “Volta e meia há momentos de comoção pública a esse respeito”. E a Cátedra UNESCO de Educação para a Paz, Direitos Humanos, Tolerância e Democracia, segundo ele, tem como papel vencer essas barreiras, com o mote de que os direitos sociais, econômicos, políticos individuais são indivisíveis.

O texto da Constituição Federal, por sua vez, traz pontos convergentes com o DH, segundo o sociólogo. “O direito à vida impede a pena de morte no Brasil”, diz. Outros aspectos se referem aos direitos alienáveis ao bem-estar social, progresso cultural, econômico e direito de imputação de crime, além da dignidade da pessoa humana (contra o racismo e a favor da paz), pluralismo político, liberdade de expressão, religiosa, acesso à informação, direito ao trabalho e de greve, entre outros.

Sérgio Adorno enumera os seguintes desafios a se superar, apesar do instrumental legal já existente:

-Abuso sexual contra crianças e adolescentes
-Conflitos por posse de terras (com mortes)
- Diferença de tratamento entre mulheres e homens, e entre brancos e negros no mercado de trabalho
-Efetivação do direito à memória e verdade
-Efetivar a proteção ao meio ambiente e a políticas urbanas (uso e ocupação do solo, acesso a saneamento...)
-Hesitações para o encaminhamento da reforma política
-Misogenia e homofobia
-Persistências de graves desigualdades socioeconômicas
-Persistência de situações de tortura
-Sub-registro civil
-Violações no controle da ordem pública e no enfrentamento da criminalidade urbana

“Em nenhum lugar do mundo, os DHs estão de forma acabada. O caminho é pelas lutas sociais. Quanto a educar, a questão é como formar os ‘formadores’. Aí se estabelece o desafio da comunicação de convencer os não convencidos. É preciso problematizar o direito à cidade... Os DHs são uma cultura do pluralismo x o monolítico em culturas radicais”, afirma.

Obs: uma das bases para a exposição de Adorno foi a obra “A Constituição de 1988 na Vida Brasileira, SP, Hucitec, 2008, PP 191 a 224.

Sucena Shkrada Resk

10/12/2008 12:49
Ignacy Sachs: o valor de um pensador, por Sucena Shkrada Resk

Grandes pensadores são ímpares, e, por isso mesmo, devem ser valorizados. Recentemente pude conhecer alguns pensamentos e textos do economista e sociólogo polonês, naturalizado francês, Ignacy Sachs, criador na década de 80, do Centre de Recherches sur le Brésil Contemporain (Centro de Pesquisas sobre o Brasil Contemporâneo) e da alcunha ecodesenvolvimento, um embrião do conceito do desenvolvimento sustentável.

Sua leitura de mundo me despertou para o sabor "doce" de discorrer sobre sustentabilidade, sem as retóricas viciadas de marketing. A minha iniciação foi com o pequeno livro pocket chamado "Caminhos para o desenvolvimento sustentável", pela Garamond, no qual é descrita a tese do economista sobre a Moderna Civilização Baseada em Biomassa. Para isso, ele infere como premissa - a biodiversidade, a biomassa e a biotecnologia, para que a civilização consiga cancelar a dívida social acumulada com o passar dos anos, como também a dívida ecológica. Ainda há muita leitura a fazer sobre sua extensa obra, com mais de 20 títulos.

A interdisciplinaridade faz parte do paradigma de Sachs, que tem como alicerce a otimização do uso da biomassa em cinco pilares: alimento, fertilizante, ração industrializada, combustível e suprimentos. Para alcançar isso, em sua opinião, nada há de errado em implementar a biotecnologia - a chamada revolução verde.

"A agricultura familiar para se desenvolver, precisa de políticas públicas articuladas entre si, acesso à terra e aos conhecimentos. Hoje podemos pensar num sistema de extensão rural que usa o computador. A Índia está com projeto de centros de inovação tecnológica nas aldeias", disse hoje (10), Sachs, durante conferência sobre "A Grande Transição - As Biocivilizações do Futuro", no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP), do qual é pesquisador visitante.

Segundo o economista, o empreendedorismo coletivo é capaz de restaurar o individual. "Por isso, a importância do sistema cooperativo na visão da agricultura familiar", afirma. Nesse raciocínio, se pensa na inscrição da agricultura familiar no bioma, de uma forma holística. "Não há razão para que os membros da família do agricultor não participem de atividades não-agrícolas, no meio rural", considera.

Isso quer dizer, de acordo com Sachs, que a "pluratividade" é fundamental para a organização desses sistemas de produção. "Não é só a transformação local dos produtos dos agricultores, mas dos serviços sociais e técnicos do transporte e comércio", diz.

A tônica de Sachs é o ecodesenvolvimento, em que as comunidades locais fazem parte do processo de preservação x o conceito da natureza intocada. Esse exercício, no entanto, tem de reunir os cidadãos ao poder público, cientistas e agentes econômicos públicos e privados, integrando o conhecimento tradicional com a ciência moderna.

O pensador concluiu a conferência com a seguinte provocação - "A ecologia profunda está num impasse profundo", tendo em vista o contexto do Aquecimento Global e a crise de paradigmas da sociedade capitalista.

Sucena Shkrada Resk

10/12/2008 10:52
A polêmica do enxofre (continuação), por Sucena Shkrada Resk

Saúde em segundo plano
Henry Joseph Júnior, da Anfavea, reitera a observação de Saldiva de que o tema saúde não está inscrito nas resoluções sobre poluição ambiental, o que é uma lacuna considerável . O Proconve começou em 86, como uma resolução da Conama, e teve legislação complementar nº 8.723, de 1993, além de resoluções Conama, em 1993, 95, 97, 98, 2001 e 2002. “Apesar de bons resultados já obtidos em reduções de emissões, nunca vi resoluções baseadas em questões de saúde pública. Outro aspecto é o econômico. Não se faz estudo de viabilidade. Com incentivos tributários se conseguiria ganhos ambientais violentos”, diz.

Quanto à resolução nº 315, de 2002, Júnior tece as seguintes críticas. “A resolução não cita a quantidade de enxofre, mas determina limite máximo de poluentes e quais as datas para serem implementados e não especifica determinado combustível”, afirma. Somente em 2007 a ANP definiu o óleo diesel.

Já segundo a Lei nº 8.723, de 1993, os órgãos responsáveis pela política energética e controle são obrigados a fornecer combustíveis comerciais, a partir da data de implantação dos limites fixados por esta lei e de referência para testes de homologação, certificação e desenvolvimento, com antecedência mínima de trinta e seis meses do início de sua comercialização.

“Um erro não foi especificar o combustível de início...É na etapa P6 (baseado no modelo europeu), que é necessário um combustível com qualidade muito boa e com durabilidade, que deveria começar em 2009”, considera Júnior.

O representante da Anfavea diz que “não houve tempo” da indústria cumprir o prazo, porque a definição do óleo diesel foi feita no final de 2007. “Visto que os veículos modelo 2009 são comercializados a partir do segundo semestre de 2008, o tempo não foi suficiente. A indústria automobilística é demorada mesmo (processo tecnológico)”, afirma. Outros fatores agregados, segundo ele, é a indisponibilidade do combustível com redução e tempo para desenvolvimento e logística de distribuição e adição de uréia (que faz parte do processo).

TAC de novembro
Com todo esse imbróglio, no dia 6 de novembro de 2008 foi firmado um Termo de Ajustamento de Conduta, homologado pela 19ª Vara Cível da Justiça Federal. O acordo foi feito entre o Ministério Público Federal (MPF), o Ibama, a ANP, a Petrobras, os fabricantes de veículos motores e a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), estabelecendo medidas de mitigação. Com isso, a Fase P7/veículos Euro 5, da resolução só deverá entrar em vigor em 2012 (redução para 10 ppm).

“Decorrente do TAC, o Instituto de Energia e Meio Ambiente fez um inventário sobre qual é o impacto ambiental do não cumprimento da resolução nº 315. Com a entrada dos veículos Euro 5, em 2012, com certeza haverá redução”, diz Júnior.

Conforme gráfico apresentado pelo especialista da Anfavea, o prejuízo ambiental é de 51 mil toneladas no período de 2009 a 2040, quanto ao material particulado. Já com relação a NOx, o prejuízo ambiental previsto é de 155 mil toneladas no período de 2009 a 2013, e o ganho ambiental de 9 milhões de toneladas no período de 2014 a 2040.

Para se compensar o prejuízo ambiental, a substituição será gradual a partir de 2009, por diesel S1800 (ppm) até chegar em 100% em 2014. E em especial ao diesel metropolitano, deverá passar de 500 a 50 ppm de enxofre, para frotas de ônibus urbanos. A mitigação também deverá incluir programas de avaliação e de regulagem gratuita para frotas de veículos a diesel, patrocínio do programa de fiscalização da fumaça preta da Cetesb no estado de São Paulo, entre outros.

Políticas equivocadas
O promotor José Eduardo Ismael Lutti considera que no Brasil há algumas políticas públicas equivocadas, que levaram ao inchamento dos centros urbanos e ao crescimento desordenado, substituição do transporte ferroviário para o rodoviário. “O Proconve foi criado em um período em que há a concepção do trólebus e metrô com energia renovável X transporte individualista movido a óleo diesel”.

Com isso, o lucro se sobrepõe à preservação da saúde e economia, além do interesse da coletividade. “A vida, saúde, dignidade humana e meio ambiente ecologicamente equilibrado não podem ser abdicados. Isso tudo está na Constituição Federal e não é discurso de ecochatos”, afirma.

Já no seu artigo 1ª, a dignidade humana pressupõe respeito à vida e meio ambiente. “A Constituição traz a possibilidade da intervenção estatal, no artigo 170, quando trata dos princípios da atividade econômica - assegurar a todos, indistintamente, uma existência digna, a defesa do consumidor e do meio ambiente”, explica.

Em outros artigos, saúde é dever de todos e do Estado, e todos têm direito ao meio ambiente equilibrado, e deve ser feito o controle da produção e comercialização de produtos e substâncias que comprometam o meio ambiente. Já a iniciativa privada cabe a obrigatoriedade de respeitar todos esses princípios. “A boa gestão corporativa requer a capacidade do administrador do lucro com os princípios fundamentais da Constituição”.

Lutti esclarece que o Conama pode estabelecer normas, que têm força de lei. O Proconve foi concebido com a premissa de que as indústrias tinham de se adaptar a certas exigências. “Houve uma drástica diminuição, cerca de 15 mil pessoas deixaram de morrer num prazo de 10 anos. Diferentemente do que vem ocorrendo nos últimos anos, com relação à resolução nº 315, de 2002”, afirma.

A Constituição determina sanções administrativas e penais, que pessoas físicas e jurídicas responderão cível e criminalmente. “O TAC, a princípio, pretende revogar a resolução 315, o que não é possível. É isso que as partes envolvidas não estão entendendo. Um acordo judicial não pode afastar a imposição de lei, como o crime de poluição atmosférica”, considera o promotor.

Leituras enganadas
No parecer de Frederico kremer, da Petrobras, ocorreram leituras enganadas de regulamentações. “O TAC não nos leva a um descumprimento da regulamentação, mas a um acordo. Nossa indústria leva um tempo grande para implementação de unidades, como licenciamento e estrutura de engenharia”, argumenta.

Segundo o gerente, desde o início, a Petrobras participou da implementação do Proconve. “Temos dois laboratórios de veículos leves e pesados, para verificar nossas emissões, inclusive, quanto à resolução Conama nº 315”, diz.

Como a Anfavea, a Petrobras alega que a resolução não definiu – em princípio - o teor do enxofre do óleo diesel. “Também na Europa a característica é diferente dos EUA. Conforme a especificação do diesel, é necessário haver diferenciada rota de tecnologia”, diz.

Kremer afirma que a empresa já investiu um montante bilionário para a qualidade do diesel. “Testes realizados pela Petrobras e Anfavea mostraram que o efeito positivo do diesel S-50 em veículos antigos é pequeno. Com a ação do MPF, a Petrobras manifestou determinação de fornecer diesel 50 para os novos veículos P-6, a partir de janeiro de 2009. Mas daí o MMA assume a coordenação do assunto, e a Anfavea confirma que a fase P-6 não seria cumprida, embora com amparo legal, propõe uma série de ações alternativas, inclusive a antecipação da fase P-7”, fala o gerente. Segundo ele, a empresa petrolífera se compromete a reduzir o teor do enxofre em 10 ppm em janeiro de 2013. “Já temos 10 unidades para 50 ppm, a de 10 ppm teremos de construir”, explica.

O executivo ainda informa que até maio de 2009, Fortaleza, Recife e Belém receberão o S-50 diesel metropolitano. Também haverá a substituição de todo o diesel usado pelas frotas de SP, RJ, BH para S-50. “Mas não podemos esquecer que há também outros responsáveis na cadeia, como distribuidores e revendas. Outro aspecto é a colocação da uréia. Somente em 2008, foi publicada no Diário Oficial da União (DOU), pela MMA, a consulta pública sobre a especificação da solução”, diz.

“Ao meu ver, se em 2009, não cumprirem os prazos, serão incluídos nos crimes ambientais, desde os conselhos administrativos que votaram contra o cumprimento da lei. Lá está estabelecido 50 ppm. Na impossibilidade, permitia-se importação do combustível. Essas grandes corporações, todas elas detêm há anos essa tecnologia. Acho arriscado inveredarem por esse caminho, porque trará prejuízo a todos. Solicito a revisão desse TAC”, diz José Eduardo Ismael Lutti, promotor de Justiça e Meio Ambiente do Ministério Público do Estado de São Paulo.

Sucena Shkrada Resk

10/12/2008 10:42
A polêmica do enxofre, por Sucena Shkrada Resk

Compreender o fogo cruzado que emerge sobre a anunciada falta de cumprimento da redução do teor do enxofre no diesel, determinada pela Resolução Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) nº 315, a partir de janeiro do ano que vem, é praticamente tarefa de xadrezistas, visto que, as informações ao público leigo chegam com tantas nuances, difíceis de decifrar. Afinal, há muitos atores e discursos envolvidos. Por um lado, há órgãos oficiais e reguladores, como o Conama e Agência Nacional do Petróleo (ANP). Por outro, a indústria – cujos principais representantes são a Petrobras e as empresas automotivas e de motores. Numa outra tangente, o Ministério Público e a Justiça. E no contexto dos bastidores, pesquisadores que analisam o aspecto do comprometimento da saúde.

Para tratar do tema, foi realizado no último dia 9, o debate “Enxofre no Diesel”, na Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP). Para falar sobre as implicações de saúde, esteve presente o médico e coordenador do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Saldiva. A promotoria de Justiça e Meio Ambiente do Ministério Público Federal foi representada por José Eduardo Ismael Lutti. O porta-voz da Associação Nacional dos Fabricantes dos Veículos Automotores (Anfavea) foi o presidente da Comissão de Energia e Meio Ambiente da instituição, Henry Joseph Júnior. A Petrobras foi representada pelo gerente de Soluções Comerciais, Frederico Kremer. A mediação ficou por conta do professor da FEA e do Núcleo de Economia Socioambiental (Nesa), Ricardo Abramovay.

Por que reduzir?
Uma primeira elucidação – que por muitas vezes os documentos oficiais não tratam – foi feita pelo médico Paulo Saldiva. Ele respondeu por qual motivo afinal é importante reduzir as ppm (partículas por parte de milhão) do enxofre presente no diesel, do ponto de vista da qualidade de vida. Segundo o especialista, é para facilitar que os catalisadores dos veículos (ônibus/caminhões) possam ser eficazes para reduzir a emissão das partículas finas e de ozônio na atmosfera, que são os principais vilões da poluição atmosférica nos centros adensados. Por incrível que pareça, o ozônio, quando está até 11 km acima do solo se torna prejudicial à vida, ao contrário de quando se encontra na estratosfera, com o papel de “filtro solar’ da Terra.

Saldiva afirma que o ideal seria que houvesse a redução para 10 microgramas particulados. “Isso representaria o equivalente a 7 meses de vida por ano”, compara. Já pela resolução, inspirada no modelo europeu, a meta é primeiramente 50 ppm. A Anfavea e Petrobrás expuseram que não conseguem cumprir esse prazo em 2009, e por meio de um TAC estabelecido em novembro, está programado para 2012.

O parênteses é que a empresa petrolífera anunciou ontem, por meio de seu representante Frederico Kremer, que já está produzindo diesel 50 ppm, que será distribuído para São Paulo e Rio de Janeiro, a partir de janeiro. Todas essas questões já causam reação do MP, de entidades ambientais e da sociedade civil, e é a discussão do momento presente na mídia.

De acordo com Henry Joseph Júnior, da Anfavea, o Brasil consome 42 bi de litros de óleo diesel por ano (dados 2006), dos quais 31 bi são para uso rodoviário. Tem um teor máximo de enxofre permitido de 2000 ppm, que é comercializado em todo o país, exceto em 14 regiões metropolitanas, que tem permissão de 500 ppm. Saldiva afirma “que a morte não espera”. Segundo o pesquisador, até 2040 cerca de 30 mil pessoas podem morrer devido à emissão desses poluentes.

Qualidade de vida
“A polêmica sobre enxofre e diesel trouxe uma perspectiva positiva, quanto à prospecção da qualidade do ar. A atual legislação ambiental preconiza que a qualidade do ar em floresta tem de ser maior do que na cidade. Mas o ar deveria ser, pelo o menos igual”, analisa o pesquisador. Na região metropolitana de São Paulo, de acordo com o médico, de 110 pessoas que morrem de morte natural, 10% têm a vida “encurtada”, por causa da poluição. No mundo, o número é assustador – cerca de 2 milhões de pessoas morrem anualmente.

“Nosso sistema ambiental é ultrapassado para tratar a área urbana. Não adianta falar que vai compensar em 2012, pois é uma questão diferente de obra de engenharia. A pessoa vai morrer antes”, alerta.

Na análise do médico, nos anos 90, o conhecimento sobre qualidade do ar e saúde não tinha a mesma densidade do que tem hoje. “Houve um avanço com a legislação, por meio da adoção de técnicas de séries temporais (mortes e internações) e flutuações. Quando há flutuações de poluição, acarreta agravos à saúde (que repercutirão em milhares de pessoas)”, explica. Por volta de 2002, segundo ele, começaram a surgir resultados de que os efeitos de longa exposição são mais “devastadores” à saúde.

Saldiva avalia que a qualidade do ar no Brasil está melhorando, devido à adoção de normas industriais mais limpas. “As grandes indústrias migraram dos centros urbanos, e com a adoção do Programa de Controle de Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), pôde ser evitada até 2005 a morte precoce de 1,5 mil pessoas ao ano”.

Mas ainda há muito a fazer, pois já é possível realizar medidas da poluição nos grandes centros urbanos. “Já temos medidas da poluição de Recife, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Cutitiba e Porto Alegre. Os níveis estão acima da recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS)”, diz Saldiva.

Como meios de mitigação, há algumas iniciativas isoladas, como transporte integrado e ciclovias. No entanto, os pesquisadores observam que não são suficientes. “(De experiências de fora, já se avaliou que o sucesso ocorre com a parada da queima do carvão, e com a redução do enxofre do diesel”, afirma.

De acordo com Saldiva, em São Paulo, por exemplo, o diesel é “responsável” por 45% das 14 mortes que ocorrem por dia correspondente à poluição atmosférica. “Por isso, a discussão é quem paga essa conta. A redução das emissões diesel vai trazer um benefício significativo para a qualidade de vida”, considera.

(continua)
Sucena Shkrada Resk

10/12/2008 09:44
Um apelo real, por Sucena Shkrada Resk

Texto: créd.foto-Sucena S.Resk






De uma maneira informal, em uma pequena roda de conversas do evento Prêmio Culturas Indígenas 2007 - Edição Xicão Xukuru, o índio Francisco, da etnia Arara-Shawãdawa, localizada na região do Acre, prestou um depoimento sentido pela preservação das florestas, a uma platéia formada por índios de outras localidades do país e alguns brancos urbanos "como eu", que estavam no Sesc Pompéia, em São Paulo, no último dia 4. Com sua voz suave e pausada, manifestou a ânsia por mudanças e respeito, que muitas vezes, a gente não tem coragem de expressar.

"O Acre é bastante impactado em suas florestas quase virgens...Por conta de tanta floresta retirada, a água vai secando e pouco vai sobrar para beber. Espero que a nova geração se sensibilize...", disse Francisco, que com seu rosto pintado com cores quentes, que destacam um dos traços marcantes da arte secular de seu povo.

Segundo ele, mais uma preocupação que envolve a sua tribo é quanto a preservação de suas raízes. “De 2003 a 2006, tivemos a iniciativa local de gravar as principais festas da etnia. Foi uma luta sem parar, para ter um filme e CD com músicas tradicionais", conta.

Francisco acredita que por esse meio as crianças aprenderão a respeitar sua cultura. "Têm a mente mais limpa e são ligeiras para aprender o que gravamos com os mais velhos", diz.

De acordo com o site Povos Indígenas no Brasil (PIB), do Instituto Socioambiental (ISA), estima-se que hoje existam cerca de 370 índios Arara-Shawãdawa no Brasil, distribuídos em três aldeias na terra indígena Arara do Igarapé Humaitá, no vale do Juruá (que ainda espera homologação), e em outras localidades.

O levantamento de pesquisadores constata que o ciclo de expansão da borracha influenciou negativamente a preservação das características tradicionais da cultura e língua desse povo. Já a partir dos anos 90, houve mobilização interna para reverter a situação, com o incentivo à educação bilíngüe. O vídeo e o CD fazem parte deste resgate concentrado na memória oral.

Ao ouvir Francisco, como representantes de outros povos, que participaram do encontro, a reflexão é quase que uma exigência. Afinal, a política indigenista brasileira é controversa, porque "ao diferenciar o índio e estabelecer proteção" ao mesmo tempo atesta a intervenção devastadora da presença branca destrutiva - tanto do ponto de vista da cultura, saúde e direito à terra, que já deixou suas marcas definitivas e, continua influenciando.

O Prêmio Cultura Indígenas está em sua segunda edição e totalizou a inscrição de 697 propostas, sendo que 102 foram selecionadas. Segundo a organização, cada comunidade premiada recebeu o valor de R$ 24 mil para investir nos projetos vencedores. A iniciativa é uma promoção do Ministério da Cultura em parceria com o SESC SP e a Associação Guarani Tenonde Porã, com patrocínio da Petrobras, por meio da Lei Rouanet. Leva o nome de Xicão Xukuru, em homenagem a um líder índigena assassinado a tiros, em Pernambuco, no ano de 1998.

Sucena Shkrada Resk

06/12/2008 18:41
Os desafios da regionalização, por Sucena Shkrada Resk

As discrepâncias entre os Índices de Desenvolvimento Humano municipais (IDH-M) na região metropolitana de São Paulo - uma das 33 existentes no país -, entre outros municípios do sudoeste paulista são um indício de que a política de regionalização ainda tem muitas barreiras a derrubar no Estado de São Paulo, para se alcançar a tão almejada "sustentabilidade". Apesar da existência de figuras jurídicas de consórcios intermunicipais, ainda falta coesão de políticas mais efetivas nas gestões compartilhadas, para atender de forma isonômica os mais de 41,3 mi habitantes do Estado (projeção Fundação Seade).

"Principalmente o Vale do Ribeira, o Pontal do Paranapanema, acima de Votuporanga, e o Vale do Paraíba concentram os mais baixos IDHM (parâmetros de longevidade, educação e renda)", afirma o coordenador de Desenvolvimento Econômico da Secretaria de Desenvolvimento do Estado de São Paulo, José Luiz Ricca. Em contrapartida, no quadrilátero envolvido por Sorocaba, Campinas, São José dos Campos e Santos, onde também fica o Grande ABC, se concentram 75% do Produto Interno Bruto (PIB) paulista. Os paradoxos ficam entre cidades como Itapirapuã Paulista (0,645 IDH-M), no Vale do Ribeira, e São Caetano do Sul (0,919), que apresenta o maior índice no Brasil.

Ricca fez a exposição, durante o Seminário 18 anos de Cooperação Regional, realizado na Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), no último dia 4 de dezembro. O evento foi promovido em celebração ao aniversário do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, que reúne sete municípios - Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.

Vale destacar que as diferenças entre essas cidades, tanto no aspecto geográfico, demográfico e socioeconômico também revelam as diferenças gritantes que envolvem o estado, de uma maneira geral. São Caetano, por exemplo, é uma das menores cidades do país, com 15 km2, enquanto as duas últimas ainda enfrentam um complexo problema, pois estão localizadas em áreas de proteção de mananciais.

De acordo com João Avamileno, atual presidente do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, entre as ações com maior empenho da entidade, está o apoio à consolidação dos Hospitais Estaduais, localizados em Diadema (Serraria) e Santo André (Mario Covas), ao projeto da Lei Específica da Billings e a implementação da Universidade Federal do ABC (UFABC), além das mobilizações e debates com relação aos impactos do Rodoanel - trecho Sul, que passa pela região, entre outras.

Governanças mais pró-ativas
Numa visão mais geral quanto às articulações entre os 645 municípios do Estado, Ricca constata que é preciso haver um olhar mais criterioso para a ocupação do solo e aos aspectos culturais e históricos das regiões "mais carentes", além da necessidade de governanças regionais mais pró-ativas. No aspecto de desenvolvimento econômico, segundo ele, iniciativas que vêm dando certo, são as dos Arranjos Produtivos Locais (APLs) - hoje há 24 oficializados. Dentro dessa concepção, ele afirma que se insere incentivo a incubadoras e à capacitação de mão-de-obra qualificada.

Mas obviamente, faço uma observação - que esse é apenas um recorte do desenvolvimento, para alcançar o tripé da sustentabilidade (ambiental, econômico e social). Pois se trata de um leque bem maior, que requer ações contundentes nas áreas da saúde, educação, geração de renda, saneamento básico, que desemboca em um quesito indispensável - qualidade de vida. Outro ponto importante é a questão dos conflitos políticos partidários, que cronicamente entravam pautas em muitos consórcios, além da desconexão de muitos com relação às abrangências dos comitês de bacias hidrográficas, que é mais um imbróglio.

"Os planos plurianuais devem prever diretrizes, objetos e metas de forma regionalizada, com orçamentos que tenham objetivos de interesse em comum, mas isso ainda não existe de fato", constata a diretora de Planejamento da Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa), Eloísa Raymundo Holanda Rolin.

A especialista destaca que o histórico da regionalização começou nos anos 70 e sofreu várias interrupções na agenda administrativa e política, que perdura até os dias atuais. "Nos anos 70, apesar de haver a a eclosão das questões metropolitanas, o contexto era o governo centralizador (Ditadura), por isso os debates mais (consistentes) foram posteriores", explica. Na década seguinte, houve um retrocesso nas discussões, pois os temas que detinham o interesse dos gestores era das estratégias nacionais.

Um marco institucional no Brasil, que coloca a preocupação regional na pauta dos gestores, só vem com a Constituição Federal de 1988, que faculta aos Estados a competência para criação de unidades regionais. "Em 1989, a Constituição Estadual de São Paulo institui a região metropolitana, a aglomeração urbana e a microrregião. "Mas até hoje não foram instituídas as aglomerações urbanas, de fato. O Vale do Paraíba e a região de Rio Preto, por exemplo, pleiteiam essas implementações, pois se ressentem por não ter o aparato de gestão", diz Eloísa.

Mais uma conquista jurídica ocorreu em 1994, com a lei complementar estadual nº 760, que aprovou a criação do Sistema de Gestão Regional. O processo de efetivação é lento, entretanto, de acordo com a diretora da Emplasa, pois não há ainda integração dos orçamentos municipais de forma cooperativa.

Os processos de regionalização ocorrem, de forma concentrada, como a instituição da Baixada Santista em 1996, e da região metropolitana de Campinas, em 2000. "O governo do Estado encaminhou à Assembléia a reorganização da região Metropolitana de São Paulo", explica.

Segundo Ricca, alguns dos principais desafios da região metropolitana de São Paulo se referem hoje a efetivar a implementação de três parques tecnológicos em São Paulo e em Campinas e à questão ambiental dos impactos do Rodoanel, do novo aeroporto, da rede paulista de dutos, além do projeto do Ferroanel, que também envolve a Baixa Santista.
Sucena Shkrada Resk

01/12/2008 18:59
Santa Catarina: um desastre a refletir, por Sucena Shkrada Resk

A cada dia que vejo as sucessivas notícias sobre a tragédia em Santa Catarina, reflito o quanto nós, seres humanos, somos vulneráveis às intempéries climáticas e, ao mesmo tempo, responsáveis por muitas situações, quando observamos que o desmatamento fragilizava o solo em muitas áreas atingidas, não havia planejamento urbano ordenado de cidades próximas a encostas de morros ou no nível do mar, além de planos mais concretos para prevenção a período de chuvas.

Chover dois meses consecutivamente ou em um dia ter uma quantidade pluviométrica equivalente a 15 obviamente é algo "incomum", mas deve fazer parte das probabilidades que não podem ser deixadas de lado em nenhum lugar do mundo, principalmente no Brasil. Ainda se estuda o motivo do fenômeno. Seria resultado de efeitos do Aquecimento Global, quem sabe? Mas é preciso ir fundo nisso.

E segundo a meteorologia - até devido ao período do verão nos próximos meses - muita água ainda deve cair no estado, como em outras regiões do país. A Secretaria Nacional da Defesa Civil já alertou que chuvas fortes estão previstas, nos próximos dias, no Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Minas, Goiás, Mato Grosso, Maranhão, Bahia, Piauí, Amazonas, Tocantins, Acre, Rondônia, Pará e Distrito Federal. Outras "Santa Catarinas" podem surgir, se nada for feito. Não podemos esquecer que cidades no RJ, já estão em estado de emergência e calamidade pública, na região de Campos.

A questão assume um aspecto humanitário, que excede à visão macroeconômica de um baque superior a R$ 300 mi na Economia (noticiado hoje), por causa da destruição do porto de Itajaí. Estamos falando de centenas e milhares de vidas que precisam ser reconstruídas. Está justamente aí a necessidade da eficiência dos gestores públicos, dos técnicos, empresários e voluntários em otimizar a aplicação dos donativos (que só em dinheiro, mais de R$ 5,7 mi até agora), segundo o governo de Santa Catarina, para a aplicação em soluções de curto e longo prazo, no que se trata de aquisição de mantimentos.

Por outro lado, os atos concretos de solidariedade, que estão sendo multiplicados por cidadãos em todo o Brasil e até no exterior, demonstram o quanto podemos reverter o quadro predatório do cenário contemporâneo mundial. Mas há muito ainda o que fazer a médio e longo prazo, em SC, que não se pode perder de vista. As manchetes, daqui a pouco vão diminuir, mas os problemas estarão lá para serem resolvidos.

Estão apenas no começo. Além dos dados atuais já oficializados de 78.707 desabrigados e desalojados, 116 óbitos e 31 desaparecidos oficialmente (até as 20h20 de hoje), há um novo cenário sendo construído de possíveis epidemias - como de leptospirose de hepatite, em decorrência de contato com a água contaminada ; 10 casos suspeitos já foram notificados. Essas pessoas estão com suas vidas em suspenso, sem casa, roupa, documentos, emprego e, muitas, tiveram suas vidas interrompidas ou estão doentes, feridas e deprimidas, em decorrência da tragédia. É um híato em suas vidas, sem tempo e sem hora para ser extinto.

A maioria das vítimas fatais está concentrada em Ilhota (37), Blumenau (24), Gaspar (16) e Jaraguá do Sul (13). Já os desabrigados estão distribuídos, além desses municípios, em cerca de 35 outras cidades.
Os planos de reconstrução habitacional (com campanhas em parceria com iniciativa privada ou não) têm de ter como premissa, que as novas áreas de ocupação devem ser estudadas tecnicamente contra riscos iminentes de enchentes e deslizamentos.

Hoje ao ler com mais atenção um link para "recados" no site oficial sobre o desastre (www.desastre.sc.gov.br), do Governo de Santa Catarina, vi relatos que traduzem um pouco da sensação de tristeza e de fraternidade que os brasileiros assumiram diante do ocorrido, e pude observar o quanto é importante o exercício de cidadania.

Até há pouco eram 135 mensagens provenientes de pessoas dos locais mais diferentes do país. Algumas desejam força, outras querem ser voluntárias, outras procuram parentes...É uma corrente que expressa um pequeno exemplo da atmosfera que envolve uma grande parcela dos 190 milhões de brasileiros.

Para quem quer ajudar, acredito que este site oficial é uma boa fonte, pois, às vezes, o excesso de informações confunde. Grandes hipermercados, defesas civis municipais e postos das polícias militares estão recebendo donativos também por todo o Brasil.

Reproduzo abaixo algumas informações constantes na página, que são de utilidade pública:

ORIENTAÇÃO PARA DOAÇÕES EM DINHEIRO

A Defesa Civil catarinense disponibiliza contas bancárias para receber doações em dinheiro para ajudar as pessoas atingidas pelos desastres naturais. O dinheiro servirá o Fundo Estadual da Defesa Civil para compra de mantimentos aos desalojados. Os dados estão constantes no site.

obs: Defesa Civil de SC alerta sobre ação de golpistas pela Internet. A Defesa Civil não envia mensagens eletrônicas com pedidos de auxílio.

ITENS NECESSÁRIOS ÀS FAMÍLIAS:
PRODUTOS DE HIGIENE PESSOAL
SABONETES
ESCOVAS DE DENTE
CREMES DENTAL
ROLOS PAPEL HIGIÊNICO
CAIXAS DE COTONETES
SHAMPOO´S
PENTES
TOALHAS DE ROSTO
PACOTES DE ABSORVENTE
FRALDAS ADULTO

PRODUTOS PARA LIMPEZA
VASSOURAS
RODOS
PANOS DE CHÃO
BALDES
SABÃO EM PÓ
ÁGUA SANITÁRIA
SACOS DE LIXO (50 E 100 LITROS)

PRODUTOS INFANTIS
FRALDAS
MAMADEIRA COM BICO
BRINQUEDOS
PRODUTOS DIVERSOS
VELAS/FÓSFORO
TRAVESSEIROS
COBERTORES
PRATOS DE PLÁSTICO (DURÁVEIS)
COPOS PLÁSTICO (DURÁVEIS)
TALHERES
COLCHÕES
SACOS DE PLÁSTICO DE 3 E 5 LITROS, SEM SER DE LIXO, PARA CONDICIONAR KITS DE HIGIENE PESSOAL.
LONAS PLÁSTICA

ALIMENTOS
- Os alimentos devem estar dentro do prazo de validade;
- Todos os alimentos arrecadados devem ser não perecíveis;
- Observar a integridade da embalagem

ROUPAS E CALÇADOS
- As roupas/calçados devem estar limpas e em condições de uso;
- Não podem estar rasgadas ou danificadas;
- Os calçados devem estar completos, amarrados juntos;
- A numeração dever ser marcada com caneta.

Fonte: Defesa Civil do Governo de SC.

Sucena Shkrada Resk

01/12/2008 15:04
Mais que percentuais e números, por Sucena Shkrada Resk

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou hoje a Tábua de Vida -2007, que aponta que a esperança de vida ao nascer do brasileiro se amplia de forma ascendente, desde o levantamento em 1991. À época era de 67 anos (ambos os sexos) e em 2007, de 72,57 anos. A aparente melhoria quanto à longevidade, entretanto, revela contextos preocupantes, quando se trata de mortalidade de jovens na faixa dos 20 aos 24 anos, que passou da média de 3,34 em 1991 para 4,20, no ano passado. As mortes por causas violentas são consideradas os principais fatores para haver essa alteração, o que demonstra a fragilidade dos rumos da sociedade contemporânea.

Já a mortalidade infantil passou de 45,19% para 24,32%, no mesmo período, entretanto, falta 'muito chão" para chegar a 15% em 2015, que é uma das Metas do Objetivos do Milênio, da Organização das Nações Unidas (ODM/ONU), cujo tratado tem o Brasil como signatário.

Diante desses dados, é possível perceber que os desafios para se estabelecer a dignidade da qualidade de vida se torna cada vez maior para os governos e sociedade. Isso infere, que a Previdência Social deverá ter uma estrutura mais sólida para absorver esse novo perfil de aposentado, além do Sistema Único de Saúde (SUS), uma retaguarda mais realista, com geriatras e gerontólogos, por exemplo. No que tange aos governos municipais e estaduais, requer iniciativas que ampliem as ações de cunho ambiental, de educação, saúde e de empregabilidade. Ao mesmo tempo, cada um de nós temos o dever e obrigação de rever nossos valores, princípios, direitos e deveres, já que os, números são ainda muto díspares, quando são regionalizados no país.

O chamado cosmopolitismo de cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e outras grandes capitais refletem um cenário predador e inseguro, e inchado em todos os sentidos, e as diversas facetas dos "guetos", que não aparecem nas estatísticas. Ao mesmo tempo, os pequenos e médios municípios - principalmente do Norte e Nordeste - sofrem crônicas agruras, que refletem políticas públicas insípidas, quando se trata de igualdade de direitos dos cidadãos.

Quando são analisados os estados, de uma maneira geral, se observa, por exemplo, que Alagoas é um dos que estão em uma situação menos confortável. Para atingir os ODM, no que se refere à diminuição de mortalidade infantil, falta 32,7%. E as menores expectativas de vida (ambos os sexos) no país, se encontram novamente em Alagoas (66,77), seguido do Maranhão (67,64), Pernambuco (68,30) e Piauí (68,94). Por outro lado, o Sudeste - que concentra alguns dos estados mais ricos do país - é o mais violento.

Para não nos perdermos nos índices, é importante lembrarmos que atrás deles há pessoas, que necessitam de atenção individualmente e coletivamente, apesar de estarem anônimas nessa somatória e cruzamento de números. E vale lembrar, que cabe aos novos gestores municipais, a partir de janeiro, nos 5.564 municípios brasileiros, assumirem os compromissos de campanha, que fizeram com que fossem eleitos, para cumprirem metas sustentáveis. A tábua de vida é mais um instrumento que dispõem para poder formular e agir na contramão dos baixos desempenhos. Mas para muitos é mais "um monte de dados" que pode ser descartado pela lei do mínimo esforço.
Sucena Shkrada Resk

27/11/2008 13:27
Não verás país nenhum: a ficção que virou realidade, por Sucena S. Resk

No final dos anos 70, o escritor e jornalista Ignácio de Loyola Brandão dava corpo ao livro ficcional Não verás país nenhum, que numa daquelas tiradas de mestre, retrata uma realidade condizente aos cenários que envolvem os dias atuais marcados pelo sinal vermelho do aquecimento global. Para contar um pouco do laboratório, que gerou a obra, o autor narrou a trajetória de criação, durante o lançamento do Projeto Municípios Verdes, promovido pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente, no Memorial da América Latina, em São Paulo, no último dia 26.

“Um romance violento como esse, nasceu de um ipê amarelo, que existia numa rua em Perdizes, com cerca de 80 anos. Era uma árvore-simbolo, que num dado momento começou a secar até morrer. O questionamento era o que teria acontecido para ela terminar o ciclo?”, conta.

Ao conversar com um padeiro do bairro, Brandão comenta que havia uma senhora que regava diariamente essa árvore, inclusive em dias de chuva. “...Fiquei acabrunhado e pedi para um amigo técnico ambiental verificar o que tinha acontecido, e constatou que o ipê tinha sido envenenado...”.

A notícia fez com que Brandão mais uma comissão de moradores seguissem ao encontro da senhora e questioná-la. E a resposta, segundo ele, até hoje o espanta. “...Ela respondeu – claro que fui eu, porque essa maldita árvore sujou minha rua com essas flores desgraçadas....Essa frase me levou a escrever o livro”, diz o escritor.

A construção do enredo foi enriquecida com a passagem da vida de Brandão, desde sua infância. “Aos 10 anos (em 1946), eu fui afetado pelo problema ambiental, na cidade onde nasci, Araraquara...Naquela época, brincávamos na rua, nos rios e nos córregos; nos transformávamos em piratas, fazíamos represas...”. Em dado momento desse período “harmonioso”, o pai do autor começou a sentir um cheiro desagradável que exalava do rio e falou que não podiam mais ficar por lá, porque começava a descarga de esgotos in natura. “O rio do Ouro se tornou o rio da ‘bostas’. Isso impediu nosso divertimento, por causa do perigo à saúde da gente...”

Na fase adulta, o bloquinho na mão se tornou um inseparável companheiro do escritor, no seu processo de observação dessas mudanças do planeta. “Olhava para os jornais, e via notícias de devastação, poluição, petroleiros que vazam petróleo no mar, histórias estranhas sobre doenças provocadas por mercúrio, ocorrência de neve no deserto do Saara. Também fui recortando tudo isso. Descobri que a realidade é mais absurda que o próprio absurdo. Daí começou a nascer o livro...”.

Não verás país nenhum retrata um universo em extinção, que tem como personagem central, Souza – um morador da megalópole, que se vê à procura de uma solução, para “um furo na mão”, numa cidade apocalíptica.

“São Paulo, com seus bairros fechados em guetos, de onde as pessoas só saem com autorização, tem zonas que o sol mata. E não existe mais água no Brasil. Esta cidade é toda vigiada e a violência é enorme. O governo coloca uma muralha eletrônica para que a favela não invada a cidade. Não há mais combustível e os carros ficam paralisados nas ruas. Passados 30 anos, tudo que imaginei, passou a existir”, diz Ignácio de Loyola Brandão.

Esse cenário de destruição conta ainda com o Dia do Consumo Obrigatório. “E hoje todos compram o tempo todo...”. Nessa cidade ficcional também não há mais cheiros naturais, e tudo passa a ser sintetizado. O homem vai se afastando da natureza. A turbulência resulta em um final em que o leitor, de certa forma, decide com sua interpretação. “Reescrevi o final duas vezes até conseguir o tempo dessa ambigüidade”.

Segundo o autor, hoje os congestionamentos são angustiantes, o problema da água iminente. “Tenho (atualmente mais conhecimento) do Aqüífero Guarani e é preciso que se tome cuidado para que multinacionais e empresas não o explorem, como o petróleo do futuro...É preciso dizer não – eu não quero viver esse futuro – e cada um fazer a sua parte...”.

Na sua opinião, a São Paulo de hoje também é dividida em guetos, e no interior paulista há cada vez mais condomínios fechados. “Jamais imaginei que a vida real imitasse a ficção...Temos de gritar a cada ato de agressão. Quero ver (o sentido) da minha obra desmentida”, afirma. Uma saída, segundo ele, está no investimento na educação ambiental desde a infância que é um dos temas de mais um título do autor, a cartilha Manifesto Verde.

Sucena Shkrada Resk

27/11/2008 12:21
Jovem protagonismo cidadão, por Sucena Shkrada Resk

Rafael, 16 anos; Gabriel, 12, Ana Carolina, 17 e Natacha Cristina, 17, têm em comum o fato de serem moradores da cidade do interior paulista de Bebedouro e, em especial, já exercerem o papel de ativistas ambientais. A oportunidade de conhecê-los surgiu naquelas gratas conversas de bastidores, durante o lançamento do Ranking Ambiental dos Municípios Paulistas 2008 do Projeto Municípios Verdes, promovido pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente, no último dia 26, no Memorial da América Latina, na capital. O que me chamou a atenção é que eram praticamente os únicos representantes jovens entre centenas de adultos presentes ao evento.

Segundo o educador ambiental João Antônio dos Reis, 42, os adolescentes integram um grupo aproximado de 120 pessoas que compõem o projeto Patrulha Ecológica de Bebedouro, conduzida por poucos voluntários do município, há quatro anos, com apoio da iniciativa privada (uniformes) e da Prefeitura. As atividades são desenvolvidas principalmente aos sábados e têm, como pré-requisito, que os participantes freqüentem a escola com regularidade.

“Os estudantes atuam em ações desenvolvidas em seus bairros e no Horto Florestal e Parque Ecológico de Bebedouro. Uma das atividades, sob orientação de engenheiro agrônomo do município, é a plantação de mudas de árvores (dos viveiros públicos), para recuperar matas ciliares, principalmente aos sábados”, explica Reis. A região apresenta tanto vegetação de cerrado, como de mata atlântica e sofre, com situações, como queimadas.

A desenvoltura com que esses adolescentes se apropriam do reconhecimento da importância da educação ambiental demonstra, na prática, o que é o protagonismo cidadão. Por outro lado, revelam a influência positiva da música, por meio do aprendizado do manejo de instrumentos de sopro e percussão, ao participar com outros colegas, do Projeto Guri (estadual). Ao executarem canções, como a Aquarela do Brasil, no lado externo do complexo do Memorial, emocionaram alguns participantes do evento, que aguardavam o início das atividades.

Rafael contou que se preocupar com o meio ambiente já é algo natural para ele. “Quando participei da limpeza de córrego, onde encontrei, desde pneus de trator até sofás, percebi que o mais importante é a redução, só reciclar não adianta muito”, considera. Ao plantar mudas na beira do Córrego de Bebedouro também reconhece que, com que essa pequena ação, pode ajudar antecipadamente aos seus futuros filhos.

Para Gabriel, seus sábados deixaram de ser monótonos, desde junho deste ano, quando começou a participar do grupo. “Já plantei muda de árvore no bairro Centenário, onde havia desmatamento. Agora quero aprender mais sobre as plantas medicinais de minha região e ver a minha cidade mais verde e bonita”, diz.

Natacha e Ana Carolina garantem que querem ser cada vez mais atuantes, e se sentem à vontade em orientar, inclusive os adultos. Elas contam que um dos incentivos que tiveram, foi a oportunidade de participar do curso de coletivos educadores, que tem orientação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR).

“Percebo que ainda falta consciência da população. Outro dia vários animais estavam pastando em uma área que tínhamos plantado as mudas de reflorestamento”, afirma Natacha. Segundo Ana, é preciso que a sociedade perceba que as atitudes mais corriqueiras têm um peso muito grande. “Outro dia, vi um professor jogar um chiclete no chão e chamei sua atenção pela atitude, falando dos seus efeitos, até que recolhesse ao lixo”, conta.

A descrição de alguns fragmentos do dia-a-dia desses jovens revela que a união da sociedade, poder público e iniciativa privada pode resultar em lucros acima dos cifrões. Entretanto, como João Antônio dos Reis mencionou, este projeto para ter sobrevida garantida precisa de mais voluntários assíduos. Enfim, é algo a se pensar. Acredito que, não só voluntários, mas pensar mais além. Profissionalizar o serviço de educação ambiental, para geração de renda aos próprios moradores locais. Aí a universidade, a prefeitura, o governo do Estado, as empresas locais podem efetivamente ser decisivas nesse processo junto com o terceiro setor.

Sucena Shkrada Resk

27/11/2008 10:43
Planos Municipais de política ambiental levam "selo" verde, por Sucena Shkrada Resk

Os municípios de Santa Fé do Sul, Angatuba, Gabriel Monteiro, Santa Rosa de Viterbo e Piraju são os primeiros colocados do Ranking Ambiental de Municípios Paulistas 2008, do Projeto Municípios Verdes, lançado pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente em junho de 2007. O anúncio foi feito ontem (26), no Memorial da América Latina, na capital. De um total de 332 adesões completas, 44 municípios receberam a certificação, ao obter nota superior a 8, que tem como premissa o estabelecimento de um plano de ação de Política Ambiental baseado em 10 eixos de ação.

Os temas propostos e resultados para o desenvolvimento de agendas 21 locais, são os seguintes (por ordem alfabética):
Arborização urbana
-Plano ou programa de arborização urbana: 150
-Viveiros municipais: 216

Conselho ambiental
-Instrumento legal que criou o Conselho: 254
-Ata com parecer sobre o panorama do município nas 10 diretivas do projeto: 102

Educação ambiental:
-Instrumento legal instituindo Educação Ambiental como matéria transversal nas escolas públicas municipais: 120
-Ações de capacitação de dirigentes e agentes multiplicadores municipais: 176

Esgoto tratado:
-ICTEM maior que 6,0: 202

Estrutura ambiental:
-Instrumento legal que estabeleça a estrutura ambiental da Prefeitura: 222
-Ações de capacitação de dirigentes e agentes multiplicadores municipais: 176

Habitação sustentável:
-Instrumento legal que favoreça à expedição de alvarás para construções civis que utilizem madeiras legalizadas e de origem comprovada: 108
-Ações visando à diminuição na utilização de recursos naturais: 143

Lixo mínimo:
-IQR maior que 6,0: 299 (índice de qualidade*)

Poluição do ar:
-Instrumento legal que institua a inspeção veicular da frota municipal própria e terceirizada: 111
-Ações voltadas à reducação de emissão de gases de efeito estufa: 130

Recuperação de mata ciliar:
-Projeto de conservação e recuperação de matas ciliares realizados ou em andamento: 280
-Ações de recuperação e/ou proteção de nascentes: 130

Uso da água:
-Programa municipal de combate ao desperdício de água: 281
-Instrumento legal voltada à proteção das águas para abastecimento público (mananciais): 66

Fonte: Secretaria de Estado do Meio Ambiente
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Dos 645 municípios paulistas, 332 apresentaram um plano de ação completo, 282 incompletos e 31 não aderiram ao projeto. Agora, resta saber se os projetos serão continuados nas novas gestões, já que a renovação do quadro político ocorre em 2009, em vários municípios. Aí entra a questão da efetivação de políticas de estado e a inserção da participação cidadã no processo.

Ao observar o ranking, também não é difícil compreender que municípios pequenos do Estado tenham conseguido ficar nas primeiras colocações, mas isso mostra como é necessário, que tanto grandes cidades, como as que estão localizadas em áreas de proteção de mananciais, tripliquem seus esforços para efetivar suas políticas ambientais.

Segundo o secretário de estado do Meio Ambiente, Xico Graziano, além das 10 notas objetivas, também é avaliada a pró-atividade dos projetos em andamento, para se chegar à medial final. Os critérios de avaliação deverão ser aprimorados para as próximas edições, já que o ranking é anual.

“Alguns dos desafios do nosso corpo técnico é dar uma nota adequada, por exemplo, ao funcionamento de um Conselho Municipal de Meio Ambiente, já que hoje a forma de mensuração é sobre as atas. Quanto à educação ambiental, é preciso ir além do conceito teórico, mas avaliar se está dando resultado”, diz. A interface com as prefeituras são os “interlocutores” técnicos, de acordo com o secretário, o que dá mais credibilidade ao projeto.

Prioridades para 2009
Na agenda ambiental do estado de São Paulo prevista para o ano que vem, as prioridades da Secretaria serão córregos urbanos, implementação do projeto Criança Ecológica, de coleta seletiva, ciclovias e proteção de nascentes.

O estímulo aos melhores colocados, de acordo com Graziano, no quesito água – principalmente quanto à revitalização de córregos urbanos - será a obtenção de apoio do Fundo Estadual de Recursos Hídricos (Fehidro). “Se faltar dinheiro, o governo estadual irá colocar verba adicional e se não houver recursos necessários, vamos buscar auxílio com o governo federal”, afirma. A extinção dos lixões é mais um desafio a se superar. “Hoje ainda existem 42 lixões no estado. Todos deverão ser extintos até o ano que vem”, afirma o secretário.

Em 2009, em função da comemoração do Ano da Educação Ambiental, está programada a implementação do Projeto Criança Ecológica. “Serão produzidos materiais didáticos, filmes e promovidas excursões (ecológicas), que terão como público-alvo, crianças dos 8 aos 10 anos”, informa Graziano. A escolha da faixa-etária, de acordo com o secretário, se deve à “sensibilização” presente na fase infantil.

A política de apoio aos transportes alternativos no estado também deverá ser reforçada, de acordo com as metas propostas para o ano que vem. “Daqui 20 anos, não vai mais para todos terem carros no mundo. Precisamos favorecer os transportes alternativos. No estado, temos exemplos de Sorocaba e Ubatuba, que fizeram ciclovia em toda a cidade”.

Em tese, todas as propostas são louváveis, mas cabe, a nós cidadãos, tanto acompanharmos, como sermos integrantes ativos dessas implementações, para que não sejam daqui um tempo, meras retóricas políticas. Mais informações sobre o Projeto Municípios Verdes podem ser encontradas no site da Secretaria (www.ambiente.sp.gov.br).


Sucena Shkrada Resk

25/11/2008 18:49
Percepção sobre os serviços públicos e privados em São Paulo, por Sucena S.Resk

Segurança, saúde, educação e transporte público são consideradas as quatro primeiras áreas prioritárias para a melhoria da qualidade nos bairros e na cidade de São Paulo como um todo, segundo 6.503 trabalhadoras, que foram entrevistadas na pesquisa “São Paulo sob o olhar das consultoras da Natura”. O levantamento é resultado de uma parceria firmada entre o Movimento Nossa São Paulo, Natura e Ibope. A divulgação ocorreu hoje (25), em evento realizado no Sesc Vila Mariana.

De acordo com o coordenador do Movimento, Oded Grajew, o objetivo é que o material sirva de subsídio para a implementação de políticas públicas, ao ser cruzado com dados oficiais dos indicadores municipais. “Solicitaremos que o orçamento da cidade seja regionalizado”, diz.

O diretor-presidente da Natura, Alessandro Giuseppe Carlucci, afirmou, durante o evento, que a empresa se compromete a colaborar com uma próxima pesquisa, para que as consultoras possam avaliar o desempenho de um ano dos setores sobre os quais responderam à atual.

A amostragem reuniu moradoras de bairros localizados em todas as 31 subprefeituras de São Paulo, com idade média de 43 anos, segundo a diretora-executiva do Ibope Inteligência, Márcia Cavallari. A maioria são profissionais autônomas e com ensino médio completo. Elas responderam, em setembro deste ano, a um questionário de múltipla escolha, em que apontaram quais os serviços públicos e privados existentes ou não nas regiões onde residem. A mobilização para que participassem da pesquisa teve como incentivo um vídeo gravado pelo ex-jogador de futebol Raí, um dos criadores da Fundação Gol de Letra, que também compareceu ao evento.

Na tabulação dos dados apresentados, alguns dos destaques foram os seguintes (itens mais e menos votados):

Serviços e equipamentos públicos existentes no bairro: água encanada (94%) e coleta seletiva de lixo (60%)

Serviços e equipamentos públicos que fazem falta no dia-a-dia: água encanada (28%) e ponto de ônibus (6%)

Serviços e equipamentos públicos mais importantes do bairro: água encanada (15%) e praça (2%) obs: 64% sem resposta

Onde vai quando precisa de algum item que não tem no bairro: no bairro vizinho mais próximo (53%) e na região do seu local de trabalho (7%).

Serviços e equipamentos privados que existem no seu bairro: farmácias (91%) e teatros (45%).

Serviços e equipamentos privados que fazem falta no dia-a-dia: agências bancárias (46%) e escolas particulares (7%)

Serviços e equipamentos privados mais importantes: agências bancárias (22%) e escolas particulares (3%).

A tabulação resultou em um mapeamento da percepção sobre as áreas de cobertura das 31 subprefeituras. Os destaques negativos se concentraram nas zonas Sul e Leste do município, compreendendo as regiões de Campo Limpo, M`Boi Mirim, Capela do Socorro e Parelheiros, além de Ermelino Matarazzo, São Miguel e Itaim Paulista.

Já os que apresentaram melhores resultados, no que diz respeito a serviços públicos, são Pirituba, Freguesia do Ó, Casa Verde, entre outros. E com desempenho abaixo da média, Perus, Santo Amaro, M`Boi Mirim e Capela do Socorro.

A pesquisa na íntegra pode ser consultada no site www.nossasaopaulo.org.br.

Sucena Shkrada Resk

02/11/2008 19:33
40 anos se passaram, por Sucena Shkrada Resk

Memorial da Resistência - na antiga sede do DOPs em São Paulo - exposição descreve a trajetória dos 40 anos do histórico Congresso da UNE, em Ibiúna, SP. Painéis com 20 fotos de estudantes mortos durante o período da Ditadura Militar, e com os nomes de mais de 700 estudantes presos, que participavam do evento, foram inaugurados em 10 de outubro de 2008. (à frente, secretário nacional de Direitos Humanos, Paulo Vanucci)


Sucena Shkrada Resk

12/10/2008 15:15
Pensata: 10 anos da Lei do Voluntariado, por Sucena Shkrada Resk

O ano de 2008 se tornou referência de comemorações importantes, como a do aniversário de 20 anos da Constituição Brasileira, dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e dos 10 anos da Lei do Voluntariado (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9608.htm). Essas legislações e princípios de ética de convívio em sociedade são reconhecidamente avançados, mas quando confrontados com a realidade, se transformam em grandes desafios.

Hoje se observa que ainda há falta de percepção sobre o que infere ser voluntário e, ao mesmo tempo, quais são os compromissos de uma entidade que tem a tarja de não-governamental e/ou filantrópica. Tudo gira em torno de um único conceito - a percepção das responsabilidades.

Obviamente, o princípio básico para o ato voluntário é o querer consciente de contribuir a determinada causa, para o bem comum. Mas essa consciência requer análise da entidade, reconhecimento de sua lisura, mas também de suas deficiências. Afinal, se um voluntário enxerga "só o pragmatismo da ação" e deixa de lado o conjunto da obra, que envolve outros atores, poderá cair facilmente na alienação e, consequentemente, no desestímulo. Quantas vezes não nos deparamos com entidades que são uma fachada de interesses políticos e, em vez de líderes, se mobilizam por meio de interesses escusos.

Por outro lado, a sazonalidade do ato voluntário é um problema que aflige ainda algumas instituições na atualidade. O que é comum perceber infelizmente é um certo desprendimento das responsabilidades, por não se configurar um contrato formal que implica obrigatoriedade. O compromisso é uma adesão entre as partes, entretanto, envolve muito mais que isso - a responsabilidade e o reconhecimento das pessoas afetadas pelo o trabalho.

Seja filantrópico, ambiental ou educacional, o efeito multiplicador da ação voluntária é, às vezes, imenso. Ledo engano de quem acha que o conhecimento e o repertório de vida, profissional e/ou acadêmico não interage com o aspecto afetivo. Por isso, há necessidade de um maior aprofundamento neste tema, no terceiro setor.

Não bastam boas intenções, mas uma reavaliação contínua dos propósitos dos trabalhos, da forma de condução das ações e do público-alvo. Senão, é possível cair no enraízado problema do "assistencialismo" ou em atividades inócuas e equivocadas.

Um bom instrumento de reflexão são "as dez dicas sobre o voluntariado", que são difundidas de forma consensual:

1. Todos podem ser voluntários
Não é só quem é especialista em alguma coisa que pode ser voluntário. Todas as pessoas têm capacidades, habilidades e dons. O que cada um faz bem pode fazer bem a alguém.

2. Voluntariado é uma relação humana, rica e solidária
Não é uma atividade fria, racional e impessoal. É relação de pessoa a pessoa, oportunidade de se fazer amigos, viver novas experiências, conhecer outras realidades.

3. Trabalho voluntário é uma via de mão dupla
O voluntário doa sua energia e criatividade mas ganha em troca contato humano, convivência com pessoas diferentes, oportunidade de aprender coisas novas, satisfação de se sentir útil.

4. Voluntariado é ação
Não é preciso pedir licença a ninguém antes de começar a agir. Quem quer, vai e faz.

5. Voluntariado é escolha
Não há hierarquia de prioridades. As formas de ação são tão variadas quanto as necessidades da comunidade e a criatividade do voluntário.

6. Cada um é voluntário a seu modo
Não há fórmulas nem modelos a serem seguidos. Alguns voluntários são capazes, por si mesmos, de olhar em volta, arregaçar as mangas e agir. Outros preferem atuar em grupo, juntando os vizinhos, amigos ou colegas de trabalho. Por vezes ,é uma instituição inteira que se mobiliza, seja ela um clube de serviços, uma igreja, uma entidade beneficente ou uma empresa

7. Voluntariado é compromisso
Cada um contribui na medida de suas possibilidades mas cada compromisso assumido é para ser cumprido. Uns têm mais tempo livre, outros só dispõem de algumas poucas horas por semana. Alguns sabem exatamente onde ou com quem querem trabalhar. Outros estão prontos a ajudar no que for preciso, onde a necessidade é mais urgente.

8. Voluntariado é uma ação duradoura e com qualidade
Sua função não é de tapar buracos e compensar carências. A ação voluntária contribui para ajudar pessoas em dificuldade, resolver problemas, melhorar a qualidade de vida da comunidade.

9. Voluntariado é uma ferramenta de inclusão social
Todos têm o direito de ser voluntários. As energias, recursos e competências de crianças, jovens, pessoas portadoras de deficiência, idosos e aposentados podem e devem ser mobilizadas.

10. Voluntariado é um hábito do coração e uma virtude cívica
É algo que vem de dentro da gente e faz bem aos outros. No voluntariado todos ganham: o voluntário, aquele com quem o voluntário trabalha, a comunidade.

Para refletir sobre esse assunto, há alguns sites interessantes que podem ser consultados:
www.filantropia.org
www.portaldovoluntario.org.br
www.rits.org.br
www.saci.org.br
www.voluntarios.com.br
www.voluntariado.org.br


Sucena Shkrada Resk

08/10/2008 19:03
Viva o direito do consumidor..., por Sucena Shkrada Resk

A notícia de que foi sancionada, no último dia 7, a Lei estadual paulista nº 13.226, representa aparentemente um avanço quanto ao direito do consumidor. A nova legislação cria o Cadastro para Bloqueio do Recebimento de Ligações de Telemarketing no Estado de São Paulo. De acordo com o texto, o objetivo é proteger os cidadãos que não desejam receber ligações de empresas de telemarketing ou de estabelecimentos que se utilizem deste serviço, com exceção de entidades filantrópicas. Com isso, serão beneficiados usuários de telefonia fixa e celular com DDD estadual. Após 30 dias da efetivação do cadastro, os cidadãos - em tese - deverão ficar livres "da insistência" de abordagens de mercado, que são massivas hoje em dia. Uma perfeita invasão de privacidade.

Obviamente há ainda uma próxima etapa extremamente importante, que é a regulamentação.
Segundo a Fundação Procon-SP, o que já se pode adiantar, é que para requerer o cadastramento, o titular da linha deverá fazer uma solicitação formal à autarquia. Uma das expectativas para facilitar o acesso é a criação de um formulário digital.

Caso haja reincidência de ligações, a situação irregular deverá ser comunicada ao Procon-SP, num limite de até um mês após a ocorrência. A empresa que desrespeitar o cadastro poderá ser penalizada, conforme determina o Código de Defesa do Consumidor. Para acompanhar o tema, o site para consulta é http://www.procon.sp.gov.br.

Sucena Shkrada Resk

04/10/2008 18:14
Parte 2 - A Idade da Sabedoria, por Sucena Shkrada Resk

Maria é o seu nome. Essa pequena senhora, franzina e delicada, com lindos olhos azuis que brilham por causa da saudade de uma visita, esbanja lucidez, aos 96 anos. Sobre o seu leito, figura o ano de seu nascimento - 1912. Eu a conheci hoje, ao fazer uma visita em um lar de idosas. A comoção me tomou devido ao seu apelo sentido, quando falou que praticamente ninguém a visita. Nesse momento, as gotas rolaram sobre sua face - e com um lencinho branco na mão - enxugou as lágrimas que brotavam sem parar. Ao mesmo tempo, segurou minhas mãos num gesto terno, com uma força interior, que transparecia a energia de seus sentimentos.

A lembrança do neto que criou e da nora que um dia a ajudou, ainda é muito viva. Mas o apelo por um afago de seus parentes queridos ou de amigos "constantes" é seu maior desejo. Ao me deparar com sua "sensação" de solidão, senti o quanto preciso melhorar como ser humano e o quanto os meus aparentes problemas são pequenos.

Quantas horas eu ou você perdemos em ações desnecessárias, consumistas e desgastantes, com assuntos pueris ou consolidados em desentendimentos, enquanto dona Maria só pede um pouco de atenção e carinho, algo que qualquer um de nós pode dar e quer receber. Apesar de ela estar em um quarto com outras senhoras "caçulas" ao seu lado, que mesclam saúde e bom humor, como Maria Alice, uma baiana simpática, que ficou cega por causa de um glaucoma, Maria também se entristece ao ver outras amigas mais enfermas, que em seus leitos descansam seus corpos cansados. A praticamente centenária cidadã brasileira exala pelos seus poros a ânsia por fraternidade.

Não sai de minha mente, a cena em que dona Maria aconchegou sua cabeça no ombro de uma estagiária de fisioterapia, que conversava com ela, como nesse momento, se transformasse em filha. Parecia uma criança, no afã de ser amada e aquecida no calor de um abraço. Uma cena comovente e sensivelmente humana, real e que atinge a gente de uma maneira certeira.

Dona Maria representa outras Marias, Joãos, Josefas...cidadãos planetários que têm um repertório de vida ímpar, em que passaram por duas guerras mundiais, Ditaduras e integram o processo democrático. Sim, uma democracia, um tanto desconexa de seu conceito... Uma democracia que tem pesos e medidas diferentes, que a machuca na fase mais linda de sua existência, na maturidade.
Sucena Shkrada Resk

03/10/2008 14:58
A idade da sabedoria, por Sucena Shkrada Resk

No Brasil, o contigente de cidadãos maiores de 60 anos representa, nada mais, nada menos, que 10,5% da população total de mais de 180 mi habitantes. Cada um com um nome, um rosto, uma história de vida e um repertório rico para multiplicar ensinamentos. Um sorriso largo, uma gargalhada e um olhar maroto. Os jovens da maturidade têm esse talento inato de persuadir todas as gerações com suas bagagens de vida e sabedoria na arte de viver. As dores que começam a afetar as articulações e até o humor não são suficientes para derrubar esse pelotão de avôs e avós, bisavôs e bisavós ou somente tios, pais e mãe, que resistem, como em um front. Driblam o avanço da matéria, as mazelas sociais com o aprendizado contínuo, que durante várias gerações aprimoram.

Por outro lado, outros homens e mulheres da "maior idade" não resistem à dor física e, muitas vezes, emocional, ocasionada pelo relógio natural da vida e pelo descaso de um filho, de um neto ou simplesmente do semelhante. Quantas vezes, esse descaso se transforma em violência, que é o último estágio da falta de solidariedade de um ser humano. Uma tragédia humana presente todos os dias na realidade de muitas pessoas.

A Semana do Idoso geralmente gera esse tipo de reflexão, mas que com certeza não deve se limitar ao condicionamento de datas especiais no nosso calendário. Nessa altura, só é possível pedir que tenhamos o amor incondicional. E que nos pautemos em exemplos de desprendimento, como flagrei ontem - no Dia do Idoso -, durante uma confraternização realizada por fisioterapeutas e estagiários com pacientes (entre eles, minha mãe) atendidos na clínica da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) (confira as fotos).

As crianças maduras se distraíram, aprenderam, ensinaram e se sentiram queridas, o que é a coisa mais sublime nas relações entre os seres vivos. Essa experiência simples, sem pirotecnias desnecessárias, suscita um mar de bons pensamentos e ações. Como dar um beijo, abraçar, falar eu te amo e ver olhos brilhantes e rugas "lindas" de expressão salientes e vibrantes numa feição de ternura...Dá para "valorar" uma iniciativa dessas? Com certeza, não tem preço.




Sucena Shkrada Resk

29/09/2008 09:58
Saúde: quais os entraves da comunicação?, por Sucena Shkrada Resk

A linguagem técnica e a coloquial se interagem, se estranham e traduzem o que hoje podemos definir como o universo comunicacional na área de saúde. E é aí que nos permitimos questionar se, de fato, realmente exercemos o papel social e comunitário implícito na temática. Afinal, ao falar sobre as mazelas e situações bem-sucedidas do Sistema Único de Saúde (SUS), que completa 20 anos em 2008; discorrer sobre planos de saúde, medicina preventiva e medicina diagnóstica, entre outros temas, a qual público nos dirigimos, ou melhor, conseguimos atingir, e com qual propósito? Temos consciência disso ou já ingressamos no fisiologismo mecanicista de não nos aprofundar e não chegar à cerne das problemáticas que envolvem as pautas?

Essa profusão de questionamentos integraram as reflexões discutidas no debate "A Mídia em Questão - Notíciários sobre Saúde na Ótica de Jornalistas e Médicos", realizado no último dia 27 de setembro, pelo o Instituto do Câncer de São Paulo - Octavio Frias de Oliveira em parceria com o InRad, do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) e pelo Centro de Telemedicina da USP. O encontro integra o Fórum Comunicação e Saúde (www.jornalismoemsaude.com.br). O jornalista Gilberto Dimenstein e o médico sanitarista e coordenador do site http://redehumanizasus.net, Ricardo Teixeira, foram os convidados do painel.

Por um lado, a apreensão intuitiva e a busca pelo furo e descoberta de conflitos, por outro, o raciocínio acadêmico, baseado em processos sofisticados. Segundo Dimenstein, o dilema está em adotar a dose certa de ambos os lados, e em não se reconhecer os avanços positivos na saúde, na ânsia de "farejar" os problemas. Com isso, prevalece a dicotomia de o jornalista ser cobrado por não se aprofundar no assunto, enquanto os profissionais da saúde apresentam dificuldade de sintetizar as informações.

"Por isso, o interessante é a fusão do comunicador com o educador", considera. Mas muitos definem essa adoção como "vulgarização". Mas segundo ele, essa é saída para chegar na "ponta", e não se restringir as informações, por exemplo, somente ao leitor que pode pagar uma assinatura de jornal. A mudança de atitude só é possível, quando o repórter vai às ruas, ou seja, não fica preso à redoma das redações e longe da realidade da maioria dos leitores, ouvintes ou telespectadores.

Dimenstein defendeu a tese que não podemos restringir a comunicação à imprensa formal, e que esse papel é muito mais amplo. O jornalista e um dos idealizadores do projeto Cidade Aprendiz (http://www.cidadeescolaaprendiz.org.br/cidadeescola/content/spuclugesw.mmp) expôs alguns casos, em que a mídia pode ser simplesmente o muro de vielas e as próprias escolas. A experiência envolve a comunidade como protagonista do processo.

Ao apresentar algumas imagens do "antes e depois", na Vila Madalena, na capital, demonstrou que, seja na saúde, na cultura ou na rede de socialização, podemos transformar cenários e situações decadentes em exemplos de sucesso. "Só a comunidade consegue fazer o 'cateterismo social'. O poder público, muitas vezes, não consegue atingir a ponta", diz.

Segundo o jornalista, as pequenas intervenções podem influenciar de "maneira positiva" as ações públicas. "O papel da mídia é fazer com que esses temas virem consenso", considera. Mas, obviamente, na prática as coisas não são bem assim.

Um dos casos expostos por Dimenstein foi o de uma escola que sofria com infiltrações e mantinha brinquedos quebrados, que causavam acidentes e doenças. A comunidade 'abraçou' a causa e recuperou a unidade. Moral da história, a saúde em seu sentido mais amplo voltou ao ambiente.

Outros exemplos que fizeram parte de sua exposição foram a recuperação da Escola Max, na Vila Madalena, por meio da ação conjunta da comunidade e de parceiros institucionais do em torno, além da repaginação promovida por moradores em um muro da rua Cardeal Arcoverde, com intervenções artísticas com "bolas de gude", e do muro de um cemitério do bairro, que anteriormente era alvo constante de pichadores.

Na opinião dele, ao seguir a linha de raciocínio da gestão participativa, projetos como o Aprendendo com a Saúde, desenvolvido pela Prefeitura, e o Saúde na Escola, do Governo Federal, traduzem a proposta de comunicação comunitária.

O olhar da academia e da medicina sobre a comunicação em saúde

Ricardo Teixeira iniciou sua fala, ao observar que a produção do setor de saúde na área de comunicação ainda é muito escassa. O médico expôs que exceções neste sentido partem de ações como a da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que mantém um Observatório da Mídia sobre Saúde.

"Os temas epidemias tem um destaque grande na mídia, de acordo com o Observatório, além dos patológicos e preventivos", diz. Quanto a epidemias em especial, o sanitarista afirma que há uma fronteira tênue com relação à responsabilidade das informações. "A cobertura recente sobre a febre amarela foi desastrosa...A prevenção deve ser trabalhada entre médico e jornalista, sem a imposição do terror", diz, com relação à conseqüência da corrida de usuários para tomar a vacina. "Não foi colocado que o número de casos se mantinha na série histórica e causou pânico, desabastecimento de estoques em locais prioritários e, inclusive, pessoas morreram por tomar a vacina indevidamente". Um jornalista na platéia lembrou que também cabe aos órgãos públicos desempenharem um bom processo de comunicação, para não facilitar ruídos e distorções de dados.

Por outro lado, Teixeira analisa que ainda há "incompetência" por parte de profissionais da saúde em se comunicar com os próprios meios de comunicação. "Não vivemos em um país em que a comunicação é considerada patrimônio coletivo, e a saúde, um bem público...A saúde é tratada como um bem privado, como se não houvessem dimensões coletivas do tema", analisa. As próprias ferramentas de comunicação do poder público, como as do Ministério da Saúde, precisam ser 'aprimoradas', como a pesquisa da Fiocruz levantou, segundo ele.

O caminho da humanização

Com o objetivo de discutir a idéia de cidadania na saúde, Ricardo Teixeira citou a experiência de cinco anos da Política Nacional de Humanização no SUS (http://portal.saude.gov.br/saude/area.cfm?id_area=1342), que de acordo com o especialista, tem de ser vista como um processo de comunicação. "Propõe a radicalização (no bom sentido) da idéia da saúde como um bem público, quanto ao acolhimento, a gestão, o direito dos usuários, a saúde do trabalhador da área - pois é um dos setores em que mais se adoece. E outro dispositivo é fazer a rede, no sentido das pessoas conversarem sobre o tema", diz.
Há seis meses, foi criado o site http://redehumanizasus.net, por uma iniciativa independente do poder público, que visa discutir o tema entre profissionais da área, como também dar espaço a usuários. "A participação do cidadão ainda é lenta, mas já representa um índicio de enriquecimento", diz Teixeira, que coordena o projeto.

De acordo com o médico, a discussão em rede é positiva na mudança de paradigmas. "A comunidade valida o que vai para a página principal, além da clippagem das notícias. A idéia é também sugerir pautas que permanecem no campo da invisibilidade", diz. Um dos links da página é da mostra da Política Nacional de Humanização, que está percorrendo o país. Lá, algumas das intervenções interessantes foram da população que freqüenta a rodoviária de Belo Horizonte, com a exposição de reivindicações a depoimentos "comoventes". Um cidadão em especial, de nome Vagner, começou a colocar diariamente frases de pensadores como incentivo - entre elas - "...Uma boa coletânea de pensamentos é como uma faxina moral...(Voltaire)". A intervenção (aparentemente simples) foi importante para quebrar preconceitos, segundo o médico.
Sucena Shkrada Resk

27/09/2008 20:01
Parte 2 - Plano Nacional de Mudanças Climáticas vai à consulta pública, por Sucena Shkrada Resk

Depois de cogitações de adiamento, o projeto do Plano Nacional de Mudanças Climáticas foi apresentado à imprensa, no último dia 25, e deverá ser disponibilizado para consulta pública, de segunda-feira (29) a 31 de outubro. A decisão foi tomada pelos ministros da Ciência e Tecnologia (MCT), Sergio Rezende, e do Meio Ambiente (MMA), Carlos Minc, por um motivo estratégicamente político e diplomático. O Brasil tem um prazo enxuto para consolidar a versão definitiva, já que deverá apresentá-la na Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), em dezembro deste ano. O encontro acontecerá na Polônia e tem um forte peso quanto ao estabelecimento de compromissos mais factíveis, dos países que mais poluem no mundo.

Mais informações podem ser obtidas e acompanhadas no site do MCT (http://www.mct.gov.br) e do MMA (http://www.mma.gov.br) Este é o momento em que a sociedade civil, representada pelas Organizações Não Governamentais (ONGs), universidades e pelo empresariado - e todos nós, como cidadãos, devemos ler atentamente as propostas, discuti-las, sugerir adendos, se necessário, e acima de tudo, reivindicar clareza quanto às responsabilidades da condução das ações de mitigação.
Confira alguns links de repercussão de notícias a respeito do Plano:

http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2008/09/25/materia.2008-09-25.0207263774/view

http://www.inesc.org.br/biblioteca/textos-e-manifestos/plano-nacional-del-mudancas-climaticas-falta-preparo-governamental

http://www.socioambiental.org/nsa/detalhe?id=2760
Sucena Shkrada Resk

24/09/2008 17:33
A saga do Plano Nacional de Mudanças Climáticas, por Sucena Shkrada Resk

O Plano Nacional de Mudanças Climáticas brasileiro se torna cada vez mais um quebra-cabeças difícil de decifrar. Nesta semana, foi noticiado que a apresentação à consulta pública, do projeto básico elaborado pelo o Governo Federal foi adiada, porque sua versão preliminar foi considerada "muito genérica". Em 149 páginas, segundo matéria veiculada pela FSP, não apresenta números de redução de gases de efeito estufa em diferentes setores da Economia e se limita a listar programas já existentes potencialmente redutores, sem expor novas alternativas. Quanto ao desmatamento, que é o principal problema no país, estipula a meta de zerar a ilegalidade, mas sem propor prazos. Enfim, a situação, no mínimo, é desesperadora, tanto do ponto de vista político, como socioambiental.

Ao fazer um resgate histórico, é importante destacar que o Brasil tem um compromisso firmado de estabelecer diretrizes, ao ratificar o Protocolo de Kyoto (2008-2012). Tanto que, em 2007, foi sancionado o decreto presencial nº 6.263/2007 (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2007/Decreto/D6263.htm), que criou o Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM), que tinha o prazo de até 30 de abril definir propostas preliminares para o documento. A pauta complexa e desafiadora prova que a tarefa não é tão simples.

Por sua vez, a sociedade se mobiliza e quer ser ouvida. No final do ano passado, o Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS) - http://www.fboms.org.br - e a Vitae Civilis elaboraram uma cartilha com propostas para o Plano (http://www.fboms.org.br/files/governanca_ambientalFBOMSVC.pdf). Neste mês, um grupo de ONGs capitaneadas pelo Observatório do Clima (OC), pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da Eaesp-FGV, e pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, também divulgaram um documento com sugestões. As propostas foram abertas para consultas e novas contribuições, por meio do site do OC - http://www.oc.org.br.

Segundo Rachel Biderman, da OC e do GVces-Easesp/FGV, essas "contribuições" deverão ser entregues à apreciação do Congresso Nacional, no mês de novembro. "A aprovação deste plano não pode acontecer de uma forma estritamente política, sem o aporte criterioso da sociedade", diz.

A advogada e pesquisadora afirma que é preciso estar claro quem serão os responsáveis pelas ações, no que estiver descrito na política de mudanças climáticas. "Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o processo climático atual é praticamente irreversível, mas o que se preconiza é a estabilização, por intervenções...e que o Brasil faça a sua parte, sem normas genéricas, que dificultem a regulamentação", disse no último dia 1º de setembro, durante evento, realizado no auditório da FGV, em São Paulo.

A especialista cita que algumas das arestas que podem ser observadas são a desatualização do inventário nacional do clima. "Apesar de o país ser signatário, só fez um documento até hoje, depois da Convenção do Clima. Há necessidade de instrumentos econômicos e fiscais mais contundentes com relação ao tema", afirma. Nesse aspecto, um dos segmentos importantes é o transporte. "...Deveríamos descarbonizar nossa matriz energética, mas estamos indo no caminho contrário", diz.

O secretário-executivo do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas e Biodiversidade, o consultor ambiental e ex-deputado federal, Fábio Feldman, alertou que o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) ainda é insuficiente na realidade brasileira e criticou o modelo de educação adotado. "Existe uma lei de Política Nacional de Educação Ambiental, só que desde o ensino fundamental, o conteúdo é voltado à quantidade", diz. O desafio, segundo ele, é como preparar os educadores para contemplar essa dimensão da mudança climática. "O risco é que esse tema é tão grande e que as pessoas tenham receio dessa escala, e de não ter capacidade de interferir". Feldman afirma que é a favor da política de precaução e de se estipular a regra do poluidor-pagador, como preconiza o documento elaborado pelas ONGs.

Para Rachel, do OC, é preciso ainda haver uma maior sensibilização de atores vulneráveis, como pequenos produtores rurais afetados pela seca na Amazônia. "Também se deve preparar as defesas civis, para não se repetir casos , como o de Nova Orleans, nos EUA, e Bangladesh, que é mais vulnerável, do ponto de vista climático", analisa.

"A proposição do documento que elaboramos é mais construtiva, do que punitiva, porque a legislação atual é suficiente. "Uma das proposta é que a licença ambiental tenha o condicionante da emissão de gases do efeito estufa. No Brasil, apesar de 70% das emissões serem provenientes do desmatamento, em centros urbanos, como São Paulo, são os combustíveis fósseis", fala.

A ânsia por ações mais efetivas também se destaca na “Pesquisa com Lideranças sobre Mudanças Climáticas no Brasil”, realizada pelo ISER – Instituto de Estudos da Religião com o apoio da Embaixada Britânica no Brasil. O levantamento foi realizado de janeiro a maio deste ano com 210 líderes em todas as regiões do país (http://www.iser.org.br/RELATORIODIVULGACAOISERPESQUISAMUDCLIMATICAS.pdf), sob coordenação da especialista Samyra Crespo.

De acordo com os resultados do relatório, o tema das mudanças climáticas está na agenda dos atores sociais e governamentais. Nenhum setor dos sete selecionados (cientistas, empresários, ONGs e sociedade civil, mídia, governo e congressistas) negou a alta relevância do tema ou avalia que o fenômeno das mudanças climáticas não deve ser tratado como uma das questões mais importantes e estratégicas do nosso tempo.

Seguem abaixo algumas conclusões do documento:

"...a problemática entrou com força a partir dos anos 90’ e com mais consistência nos últimos 5 anos. A consciência recente de que o então “aquecimento global” e os “gases do efeito estufa” (terminologia da época) estavam indicando mudanças drásticas no regime climático do Planeta começou com a Rio-92.

Para a maioria, foi a Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU, realizada no Rio de Janeiro, que pautou o Brasil, signatário da Convenção do Clima e do Protocolo de Kyoto desde a primeira hora. Entretanto, admitem que foram, na seqüência, o Relatório Stern (2007), o Relatório do IPCC (2008) e o documentário de Al Gore – Uma Verdade Inconveniente – amplamente divulgado no Brasil, que chamaram a atenção para um fato que poucos contestam: o fenômeno das mudanças climáticas já se faz sentir, não é um problema distante de nós (a geração atual). Por conseguinte, todas as sociedades têm que cooperar e encontrar um modelo de governabilidade para lidar com a questão...."
Sucena Shkrada Resk

10/09/2008 21:59
Humildade é sinal de liderança, por Sucena Shkrada Resk

O trabalho de campo é a melhor forma de resgatar nossos laços com a realidade e um instrumento importante, que nos facilita jogar os velhos pensamentos ultrapassados no baú das memórias e revigorar novas perspectivas. E foi essa gratificante sensação que tive no último dia 6 de setembro, ao conhecer a empreendedora Delza Maria, 58 anos, do bairro Jardim Olinda, na zona Sul de São Paulo.

Depois de percorrer um bom trecho da favela, acompanhada pelos meus amigos da Pós-Graduação em Meio Ambiente e Sociedade, Fabiano, Jacienne, Juliana e Roberto, em busca de material para um projeto acadêmico de revitalização local relacionada ao lixo, me deparei com uma situação, no mínimo inusitada.

Meus olhos já haviam se habituado a ver a dicotomia do processo de urbanização local, onde conjuntos habitacionais contrastam com simples moradias em vielas e escombros de outras misturadas ao lixo e esgoto. Entretanto, algo diferente me chamou a atenção. Em um pequeno galpão com portas de aço, lá estava "dona Delza em seu ambiente de trabalho, arrumando as sucatas armazenadas de um lado, enquanto no outro divide a multiplicidade de seus negócios, desde revenda de cosméticos, potes plásticos, produtos de limpeza e uma infinidade de objetos.

Detalhe - nessa aparente miscelânia - ainda mantém um pequeno brechó - com calçados oriundos do "lixo". Nem pensem em achar que são peças sujas e com aspecto ruim. Nada disso. Os sapatos femininos pendurados e em exposição estão lá, perfeitos e sem manchas, convidativos aos olhos do consumidor.

Bem, aí a curiosidade me deu a oportunidade de conhecer um pouco da trajetória desta mulher, que acorda todos os dias 5h30 da manhã, e parte em busca de plásticos, papelões, madeira, garrafas e tudo mais que possa servir para vender a um ferro-velho localizado nas imediações. Essa rotina já completa 3 anos e, segundo ela, deve continuar por muito tempo. "Depois que comecei, surgiu um monte de concorrentes - afirma bem-humorada - e complementa - "Mas o Sol nasceu para todos".

"Via as pessoas catando as coisas nas ruas e observei que dava dinheiro. Então, também comecei a separar tudo que pudesse ser reciclável, até três vezes por semana. "Com a sucata consigo mensalmente de R$ 150 a R$ 180. Isso paga praticamente o aluguel do galpão", conta.

Daí perguntei a ela se só se importava com o lucro tirado do lixo. Então, a dona-de-casa e empreendedora me deu mais uma lição de vida. "Quando cato as coisas, estou limpando as ruas, que estão tão sujas por falta da consciência das pessoas. Fico feliz por isso", diz.

Para completar a renda do mês, dona Delza não faz corpo mole e se vira ainda em muitas "Delzas". Assim surge a executiva de cosméticos de duas empresas - função que a enche de orgulho - , que dá emprego a outros revendedores. Com humildade, continua sua jornada e parte para as suas vendas de porta em porta, sacolejando dentro dos ônibus, sem reclamar.

"Quando dá, no caminho, também vou fazendo crochê", conta. Algo que a distrai e é mais uma fonte de recursos para pagar suas contas no fim do mês. Tudo isso, para não depender dos outros e poder garantir sua aposentadoria e uma velhice digna e segura.

Sucena Shkrada Resk

04/08/2008 14:33
Pensata: Como dar sentido à educação..., por Sucena Shkrada Resk

Nos últimos tempos, o tema educação tem sido uma pauta à qual tenho dedicado um pouco de atenção, devido a um trabalho voluntário que estou desenvolvendo. E a reflexão sobre o que é prioritário na formação do cidadão, com certeza, vem na linha de frente de uma infinidade de incertezas com as quais estou me deparando. Afinal, o quadro que se apresenta é o de uma infância e adolescência carentes de valores morais, dos saberes das letras, da matemática, das ciências e reticente no prazer do aprender, por falta de estímulo psicossocial e, inclusive, de nutrientes básicos na formação física. Em miúdos, carente de alimentação em todos os sentidos!

Nesse processo de observação e troca de experiências, conceitos caem por terra. Como não rever o que até então eram hipotéticas verdades, quando no dia-a-dia desses estudantes, há a falta de conforto mínimo, já que muitos vivem em cubículos de poucos cômodos, onde têm de dividir o espaço até com dez pessoas. Nessa ciranda de ausências, falta diálogo entre pais e filhos, existe a cruel depressão socioeconômica, além dos perigos nas ruas.

Esses jovens cidadãos brasileiros, muitas vezes, expressam com todas as letras que se sentem marginalizados por morarem em vielas, onde o perigo mora ao lado. E nesse confronto, a vontade de seguir adiante, vislumbrar o futuro sofre um bloqueio impiedoso, que precisa ser quebrado. E heróicamente é quebrado por alguns representantes desses estudantes, que são os multiplicadores anônimos dessa esperança.

Para completar essa situação que causa inquietude, vem mais uma avalanche da problemática do sistema educacional. Aí, a questão é a seguinte: como solucionar o problema crônico de instituições de ensino, que com "receio" de ter suas bibliotecas destruídas, simplesmente dificultam o acesso ao acervo. Aqui está parte de um cenário real coberto de paradoxos que se contrapõem à esperança em um futuro com mínimo de dignidade, que qualquer ser humano merece.

Nesse círculo vicioso, professores desmotivados, afrontados por seus alunos vêem o seu papel de educador descontruído por uma formação fisiológica ou por regras bonitas no papel, mas que no dia-a-dia, simplesmente não funcionam. Mais que respeito a um "superior", falta o respeito ao semelhante. Agressões verbais e até físicas começam cruelmente a ser banalizadas nesse cotidiano.

Essa desconstrução da educação vai mais além do que x trocado por ch, ou "erres" que fogem das palavras ou de concordâncias discordantes. O implacável é a contaminação travestida de desestímulo. Crianças hipoteticamente alfabetizadas sentem um terrível desconforto ao ler enunciados simples e se sentem cansadas ao escrever mais do que cinco linhas, em que haja necessidade de expressar seus próprios pensamentos. Desconhecem o nome de suas ruas, de seus irmãos, a origem de suas famílias e, até, que o Brasil é um país. Isso tudo está acontecendo na maior e mais rica cidade do Brasil - São Paulo, que na verdade, é uma colcha de retalhos de vários pesos e medidas.

Mas o simples fato de que uma situação dessas causa indignação, sinaliza que nem tudo está perdido. Essa injeção de estímulo vem por meio de palavras, como da pedagoga Maria Dolores Fortes Alves, na obra "De Professor a Educador". No livro, a autora permeia o exercício de ensinar em suas diversas formas e chega à conclusão, após realizar uma pesquisa com professores e ter o aparato de uma bibliografia, com nomes como o filósofo francês Edgar Morin e o respeitado educador Paulo Freire (1921-1997), que o caminho é ressignificar os valores e despertar a autoria dessa juventude.

Com essa premissa, o educador substitui a figura institucionalizada do professor. Nessa relação com o educando, Maria Dolores cita a importância da confiança. É uma troca de colheita a acolhimento. Nessa trajetória, segue o respeito, a solidariedade, confraternização, compreensão e amor. Não é mais possível manter a ditadura cega para mudar o sentido desequilibrado, que aflige a educação nos dias de hoje. E para isso, o desafio é cativar! E nada mais próprio para expor essa idéia, do que a frase de Saint-Exupéry, em O Pequeno Príncipe, citada pela autora - ...'Os homens não têm de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!"...
Sucena Shkrada Resk

22/07/2008 13:26
Não pode cair no esquecimento, por Sucena Shkrada Resk

A história mundial nos reserva fatos hediondos que não podem ser esquecidos, por uma questão de respeito a milhares de pessoas que morreram em decorrência dessas atrocidades, às suas famílias que convivem com esse martírio, que atravessa gerações, e à própria humanidade. Isso não quer dizer que valia a "lei de talião" nesses casos, mas com certeza, líderes genocidas devem responder por seus atos, por meio da Justiça, e não podem ficar impunes, como se nada tivesse acontecido.

Nesta semana, me chamou a atenção a notícia sobre o anúncio da prisão do ex-líder sérvio-bósnio, o médico psiquiatra e poeta Radovan Karadzic. O então presidente "democrata" é acusado de ser responsável pelo comando do massacre que resultou na morte de cerca de 8 mil muçulmanos bósnios e croatas em Srebrenica, na antiga Iugoslávia, além de mais 10 mil pessoas, em Sarajevo, no ano de 1995. Ele deverá ser encaminhado ao Tribunal Penal Internacional para a ex-Ioguslávia (TPII), que foi criado para tratar esse crime de guerra. Agora, espera-se que o senhor transfigurado, que exibe hoje cabelos e barbas brancas, seja julgado e cumpra a pena devida.

Há 13 anos, está foragido, apesar de ter sido indiciado por duas vezes pelo tribunal de crimes de guerra da Organização das Nações Unidas (ONU). E o mais incrível é que, neste período, estava clinicando sob outro nome em Belgrado, e ainda colaborava para uma revista de vida saudável. A situação surreal mostra como o homem político e com uma mente desequilibrada pode se travestir com várias roupagens, de acordo com as circunstâncias.

O híato da memória da humanidade foi quebrado em 2005, quando os holofotes da mídia e da comunidade internacional se voltaram novamente à Karadzic, porque veio à tona vídeos de execuções, que revelaram as atrocidades praticadas por soldados sérvios, em 1995. O ex-presidente sérvio nega as acusações e se diz "injustiçado". Entretanto, foram seus subordinados que destruíram tantas vidas, por causa de um conflito étnico e religioso, sem precedentes.

Sucena Shkrada Resk

16/07/2008 18:08
O melhor sentido da luta, por Sucena Shkrada Resk

O mineiro Gleison Fernandes de Faria, 30 anos, da cidade de Itaúna, é um dos milhares de brasileiros deste país, a quem podemos chamar de herói, sem cair no piegas. Gleisinho, como gosta de ser chamado, é portador de necessidades especiais desde o nascimento, quando quatro segundos sem respiração mudaram o trajeto de sua vida. Todas as limitações impostas por isso não foram suficientes para exterminar o que tem de mais contagiante - a vontade de viver e de contribuir para uma sociedade mais solidária.

Recentemente Gleisinho, que é formado em Ciência da Computação, pela Universidade de Itaúna, ganhou o Prêmio Nacional do Senai, ao projetar um teclado adaptado a Portadores de Necessidades Especiais (PNE). Com este equipamento, o usuário tem mais mobilidade para poder teclar, de acordo com os recursos físicos, que disponha. Seja com os pés, ou com um instrumento manipulado com a boca.

O fato, é claro, chamou a atenção da mídia. Mas muito mais que uma notícia que "comove" e rende ibope, prova que ainda temos muito a aprender sobre o exercício de viver. O jovem, que trabalha hoje na mesma universidade em que se formou, também tornou-se palestrante, há algum tempo. O ofício é mais uma fonte de renda para ele, segundo declara, no site que criou (www.gleisinho.palestras.nom.br). Afinal, é um homem independente, e batalha honradamente por seu ganha-pão e seu espaço como cidadão, como cada um de nós.

Suas palestras, pode-se dizer, são extremamente cognitivas e sensoriais. Apesar da dificuldade na fala, de depender de uma cadeira de rodas, Gleisinho conta que transmite sua experiência a variadas platéias, com a ajuda de um intérprete, que facilita a comunicação. Esse elo prova que é possível superar qualquer barreira, quando não temos vergonha de pedir auxílio e o outro tem o prazer de ajudar.

Enfim, consegue, através da sensibilidade, gesto e energia, contribuir, de fato, para uma sociedade mais justa, e comprova que os diversos obstáculos que a vida nos impõe, estão aí, para serem superados. Depressão e limites físicos, de acordo com sua experiência, podem ser coisa do passado, a partir do momento que acreditamos em nosso potencial e corremos atrás de um futuro sem rótulos.

Para isso, somente muito empenho e luta, no sentido mais positivo da palavra, ao contrário do exemplo de tanta gente que se julga inquebrantável e à prova de qualquer erro. O mineiro de Itaúna erra, corrige, compartilha suas descobertas, e não tem medo de recomeçar, se necessário. É um ser humano de carne-e-osso, que domina suas limitações com garra, sem se melindrar com as imposições de uma sociedade ainda tão preconceituosa.

Sucena Shkrada Resk

11/07/2008 13:59
Uma acessibilidade longe ainda do dia-a-dia, por Sucena Shkrada Resk

Quando se trata de legislação, o Brasil é um dos países mais ricos em leis no mundo. A questão é a implementação de todo este arcabouço de artigos e mais artigos na realidade do cidadão. Nesta semana, o país politicamente, obteve mais uma conquista, ao consolidar a ratificação da Convenção de Direitos do Deficiente. O Senado aprovou por 56 votos, o projeto de decreto do legislativo (PDS 90/08), que prevê o cumprimento das diretrizes dos textos da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da Organização das Nações Unidas (ONU), do ano passado. O documento encaminhado para sanção ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, agora, é mais um instrumento legal. A incógnita é saber o que, de fato, vai ser colocado em prática.

É importante destacar que os países que adotam a convenção são obrigados a eliminar costumes, leis e práticas discriminatórias. Isso reflete em ações com relação à inclusão social, educação, saúde, emprego e proteção social.
Vale lembrar que, desde 2000, já vigoram as leis nacionais voltadas à Acessibilidade - nº 10.048 de 8/11/2000 e 10.098, de 19/12/2000, que foram regulamentadas quatro anos depois, pelo decreto nº 5.296 - 2/12/2004, mas que na realidade, ainda estão longe do cumprimento efetivo.

Para compreender um pouco desse complexo tema, basta ver o que diz alguns trechos, quanto à quebra de barreiras aos portadores de deficiências:
" ...acessibilidade: possibilidade e condição de alcance para utilização, com segurança e autonomia, dos espaços, mobiliários e equipamentos urbanos, das edificações, dos transportes e dos sistemas e meios de comunicação, por pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida;
II – barreiras: qualquer entrave ou obstáculo que limite ou impeça o acesso, a liberdade de movimento e a circulação com segurança das pessoas, classificadas em:
a) barreiras arquitetônicas urbanísticas: as existentes nas vias públicas e nos espaços de uso público;
b) barreiras arquitetônicas na edificação: as existentes no interior dos edifícios públicos e privados;
c) barreiras arquitetônicas nos transportes: as existentes nos meios de transportes;
d) barreiras nas comunicações: qualquer entrave ou obstáculo que dificulte ou impossibilite a expressão ou o recebimento de mensagens por intermédio dos meios ou sistemas de comunicação, sejam ou não de massa;

Quando se define que pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida é aquela que temporária ou permanentemente tem limitada sua capacidade de relacionar-se com o meio e de utilizá-lo, tratamos de um público estimado de 27 milhões de pessoas portadoras de deficiência e mais de 20 milhões de idosos. E eu e você, que a qualquer momento podemos também integrar esta estatística. Afinal, o direito de acessibilidade é para todos.

Todos os itens dispostos na legislação vigente são conscienciosos, mas o que vemos todos os dias ainda é muito pouco que corrobore neste sentido. Como exemplo, temos a quantidade infindável de buracos e calçadas "cheias de armadilhas" nos grandes centros urbanos, passeios reformados que ainda têm algum tipo de problema, como pedras soltas.

Muitas administrações públicas não dão conta de tamanha responsabilidade - para tornar viável essas adequações. Por sua vez, milhares de "cidadãos" e instituições privadas não mantêm em boas condições os patrimônios ou não os adeqüam às normas técnicas.
Ainda vemos aos poucos, iniciativas em construções e edificações novas, com os requisitos técnicos corretos e outras, incrivelmente, ainda inadequadas. Como compreender esta dicotomia?

O prazo de junho de 2007 para que todos os prédios públicos se adequassem à Lei de Acessibilidade no país, já foi cumprida nos municípios brasileiros? Se alguém puder me responder.... E as construções particulares estão se adequando às normas?

Os Planos Diretores Municipais e Planos Diretores de Transporte e Trânsito já estão em conformidade com a Lei de Acessibilidade?

Não é preciso ir muito longe. Como é possível compreender que sejam construídas rampas tão íngrimes, que praticamente impedem que o portador tenha segurança de caminhar. Ou portas tão estreitas, que inviabilizam a passagem de cadeiras de rodas? E mais, milhares de calçadas sem o dispositivo para sinalização a deficientes visuais.

Na área de transporte público, apesar de muitos ônibus estarem adaptados às normas técnicas, outros são praticamente uma grande armadilha. Sequer é possível dobrar a perna, pois a distância entre um banco e outro é ínfima. Sem dizer, corrimões soltos, portas com defeitos etc.

Os ônibus adaptados com pisos diferenciados também são, no mínimo, um exemplo de antagonismo. Enquanto facilitam o ingresso de cadeira de rodas, dificultam a mobilidade interna com escadas. A cada solavanco, qualquer pessoa está sujeita a se machucar, devido a esses desníveis.

Só nos resta acompanhar e fiscalizar o cumprimento dessas legislações, cobrar dos órgãos públicos, de engenharia e de regulamentação técnica uma participação maior da população, que sente na pele todas as dificuldades e, acima de tudo, sermos contribuintes efetivos na manutenção e desenvolvimento dessas adeqüações. Afinal, não dá para ser eternamente passivo diante do que aparentemente não nos afeta de perto. Um dia nós, nossos familiares e amigos também podemos ser vítimas do descaso. E aí - a quem vamos remeter a culpa?
Sucena Shkrada Resk

09/07/2008 16:35
É hora de refletir, por Sucena Shkrada Resk

Mais um ano de eleições, e a máquina política começa a funcionar a todo vapor. Esse período me lembra - em algumas circunstâncias - o termo "ingênuo útil", que infelizmente cabe a uma massa, que desconhece o poder e a importância do voto consciente. E especialmente me remete ao enredo da peça descrita no livro Um Inimigo do Povo, do escritor nórdico Henrik Ibsen, pela L&PM Pocket, que estou lendo nesta semana. A obra do século XIX é incrivelmente atual, quando se trata de penetrar nos meandros de alguns exemplos negativos que podem ocorrer com a máquina administrativa e com os jogos de interesses, nesta ciranda, que envolve ainda iniciativa privada, mídia e os próprios cidadãos.

Demonstra o quanto o regime dito democrático pode sofrer uma extenuante deturpação, quando se trata de poder e lucro. Neste caso, envereda para um anulação da consciência individual, diante da retórica da mesquinhez. E nesse universo, surge, volta e meia, algum personagem quixotesco, que no livro, é representado pelo o médico Thomas Stockmann.

Com a ingenuidade e boa intenção de querer divulgar a contaminação da água no balneário da cidade - que é o grande chamariz da administração pública- sofre retaliações de todo o tipo. Tudo porque, depois de receber um laudo técnico, decide divulgar o problema, por meio do jornal local, para que haja uma ação contundente da Prefeitura (cujo gestor é o seu próprio irmão, Peter). Diante de sua certeza das graves consequências de saúde pública, se vê sozinho, nesta empreitada, porque outros interesses estão em questão.

O prefeito quer se reeleger a todo custo, o dono jornal e o dirigente da associação de empresários não pensam duas vezes em voltar atrás em ajudar o médico, quando em conluio com o gestor público, percebem que podem perder dinheiro com isso. Por sua vez, o dono de um dos maiores curtumes - de onde vem o problema - não quer, de maneira alguma, ver seu estabelecimento tradicional denegrido. Afinal, as obras de recuperação exigirão um gasto considerável, que afetará o bolso de todos, revelará uma falta de ação efetiva de governabilidade, e ao mesmo tempo, fechará por algum tempo, a maior fonte de renda da cidade, que é o balneário.

E uma massa contaminada por esse discurso, que desacredita o dr. Thomas, nem sequer, dá voto de confiança ao médico, que simplesmente quer ajudar a população.

O prefeito não quer ver sua gestão aniquilada por ineficiência e usa de todo o poder de pressão - para minimizar o problema. Diz que a obra sairia muito cara e do bolso da população e não é tão grave, como o médico afirma. O argumento cai como uma luva para influenciar o jornal local, os empresários e os contribuintes.

Dr. Thomas - desiludido - discursa para essa platéia "massificada", destacando de forma incisiva, essa falta de consciência dos cidadãos - e acaba sendo taxado de inimigo do povo. Ainda, por cima, é demitido e execrado pela comunidade.

Moral da história. Esse conto se repete na vida real, muitas vezes, ainda no século XXI, com outros personagens, por esse mundo afora. E cabe a nós, "eleitores", termos discernimento em avaliar as informações e ações executadas pela mídia, pelos governos e pelas entidades, e não servirmos de massa de manobra para interesses escusos. Com isso, percebemos, que muitas vezes a opinião pública não representa a suprema verdade, justamente devido à ignorância.

E dá o seguinte recado...não devemos ter medo de sermos solitários, em alguns momentos de nossas vidas, quando temos consciência sobre a importância e retidão de nossas iniciativas. Afinal, como o próprio dr. Thomas fala no livro - "...o homem mais poderoso que há no mundo é o que está mais só...". E não é que muitas vezes isso é verdade?

Sucena Shkrada Resk

02/07/2008 21:15
De volta à vida, por Sucena Shkrada Resk

Legenda: reprodução de imagens de libertação da ex-senadora e candidata à presidência da Colômbia, Ingrid Betancourt, e outros reféns das Farc, que chegaram a ficar por nove e dez anos em cativeiro (exibição televisionada pela Rede CNN e reproduzida pela Record News, em 02/07/2008






"Vou seguir lutando pela liberdade e rodar o mundo em prol de quem está no cativeiro. Penso hoje em todos os seqüestrados mortos pela guerrilha...", disse hoje a ex-senadora e candidata à presidência colombiana em 2002, Ingrid Betancourt, em declaração pública, após ser resgatada pela Inteligência do Exército Colombiano, do poder das Forças Armadas Revolucionárias Colombianas. Por seis longos anos, a política de origem franco-colombiana viveu "humilhações e privações" nas selvas do país, onde ficou com a saúde debilitada, ao contrair hepatite e leishmaniose, entre outras doenças - uma fronteira entre a vida e a morte, pela qual muitos outros reféns passaram e ainda passam.

Segundo Ingrid, foi um período em que se sentiu na pré-história. "Na selva, qualquer coisa é luxo, porque tudo é escasso. Não havia luz elétrica ou água corrente. Há muito tempo não sei o que é um banho quente", declarou à imprensa internacional presente no Aeroporto de Bogotá, onde desembarcou com mais 11 reféns colombianos libertados, além dos dois norte-americanos, que seguiram diretamente aos EUA. A entrevista ao vivo foi exibida pela CNN e reproduzida pela Record News.

Um desconforto político internacional
A possibilidade de sua libertação, nos últimos meses, era considerada incerta, devido a sucessivas tentativas frustradas, que gerou mal-estar diplomático no Cone Sul, principalmente entre o presidente colombiano Álvaro Uribe e o venezuelano, Hugo Chaves, por esse último querer intervir nas "negociações" com as Farc, que ainda mantém muitos prisioneiros civis e militares. Nem a intervenção do líder francês Nicolas Sarkozy foi suficiente para haver êxito anterior de uma operação de resgate.

O semblante sereno da ex-senadora e candidata à presidência colombiana, ao sair hoje com os demais reféns, do avião que a trouxe a ambiente seguro em Bogotá, representou um sucesso de ordem humanitária e, inclusive, política do governo do presidente Álvaro Uribe, que trava uma batalha com a justiça do país, que questiona sua eleição. O resgate - sem feridos, executado pela inteligência militar colombiana, repercutiu mundialmente.

Ingrid conta que pensou que o grupo que estava entrando em contato com ela e outros reféns pertencesse a alguma comissão humanitária. Já os guerrilheiros achavam que eram companheiros de causa. No entanto, a abordagem estava sendo feita pelos militares disfarçados do governo colombiano. "Quando entramos no helicóptero e descobrimos que estávamos sendo salvos, saltamos de alegria. Foi um milagre de Deus. Não há antecedentes históricos de uma operação tão perfeita", conta a ex-senadora, que agradeceu ao exército e ao presidente Uribe, pela coragem de se arriscar nesta empreitada, que poderia ter outro desfecho.

Ingrid Betancourt narrou, que há um ano, a situação de infra-estrutura da guerrilha está cada vez mais precária. "Já dá sinal das dificuldades de logística do grupo. A comida é escassa, há problemas para conseguir botas e roupas...".

Esse convívio da ex-senadora com os guerrilheiros é considerado útil pelo governo colombiano com relação à luta travada com as Farc, que também são acusadas de narcotráfico. "Percebo que tinha de ter passado por tudo isso, até para conhecer como são as Farc . Espero que possam ser úteis esses momentos da vida que estive em uma encruzilhada", disse.
Sucena Shkrada Resk

26/06/2008 09:41
Sem medo de defender convicções, por Sucena Shkrada Resk

Quando percorremos a história republicana brasileira, sobram poucas referências às "primeiras-damas", ou por extrema falta de crédito que a mídia concede às esposas dos presidentes ou pela falta de exemplos de ação mesmo, que compete ao seu papel e status, que não se restringe a cerimoniais. No caso da antropóloga Ruth Corrêa Leite Cardoso (1930-2008), a sua postura merece menção, pois extra a sua carreira acadêmica e de consultora internacional, foi uma primeira-dama (termo que abolia) que colocou as suas convicções intelectuais à disposição da massa, com o Programa Comunidade Solidária.

Estima-se que, de 1995 a 2002 (período da gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso), tenham sido alfabetizadas mais de 3 mi pessoas e capacitadas 114 mil para o mercado de trabalho. O empenho da antropóloga em promover a autonomia de mulheres artesãs por esse Brasil também é algo digno de nota.

O que enriquece essa atitude é o fato de condizer a uma postura que sempre defendeu como cientista política e conselheira do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) sobre Mulher e Desenvolvimento. Empregou a intelectualidade a algo concreto - repassou conhecimento, fazendo com que milhares de cidadãos pudessem ter acesso à educação e ao desenvolvimento de suas habilidades. Implementou uma nova mentalidade de política social. Mesmo após o término do mandato de FHC continuou a sua mobilização como conselheira da Oscip Comunitas, que dá continuidade ao projeto.

E o que é preciso destacar, é que apesar de sua morte, nesta semana, aos 77 anos, o seu legado já está multiplicado. Uma postura que transcende partidarismos de esquerda, direita ou centro, e que nasceu de uma cidadã - que não gostava de estar sob os holofotes da mídia -, que foi e continuará a ser respeitada por sua contribuição à sociedade, sem ter se preocupado em vida em receber os "louros" por isso.


Sucena Shkrada Resk

24/06/2008 11:27
Será que as novas gerações sabem o que representa Mandela?, por Sucena S.Resk


Legenda: Nelson Mandela, na década de 60 - reprodução no livro Nelson Mandela - A Luta é a Minha Vida, pela Editora Globo

A caminho dos 90 anos em 18 de julho de 2008, o sul-africano Nelson Rolihlahla Mandela é o que podemos chamar de um ícone da paz, que excede a uma simples designação nos livros de história e à credencial de ter recebido o prêmio nobel. Muitos jovens das novas gerações nem sabem quem é este homem, que ficou por 27 anos preso, por acreditar em uma causa - a democracia na África do Sul, contra o regime do Apartheid.

Apesar dos anos atrás das grades, não esmoreceu o vigor por seus ideais, quando foi libertado em 1990, sob forte comoção da população e do "mundo". Quatro anos depois, lá estava ele, no posto mais alto de seu país - o de presidente - mas sem deixar de lado uma característica ímpar - de ouvir, refletir e multiplicar a proposta de isonomia, numa ciranda de desigualdades impostas por décadas de segregação racial. Esse homem já septuagenário ainda teve fôlego para levantar mais uma bandeira - a do combate a Aids, que dizima milhares de cidadãos pelo continente africano.

Até hoje, guardo com carinho o livro "Nelson Mandela - A Luta é a Minha Vida", organizado pelo Fundo Internacional de Defesa e Auxílio para a África Austral (Idaf), tradução de Celso Nogueira publicada pela Editora Globo, que adquiri exatamente em 26 de fevereiro de 1990, quando cursava a faculdade de Comunicação Social - Jornalismo, na PUC-SP. Com certeza, não é mais um título na estante. Foi o meu primeiro contato com a trajetória desse líder negro e sua aspiração libertária, que foi marcada por manifestações inesquecíveis.

O nome da obra refere-se justamente a um trecho de uma das centenas de manuscritos que Mandela escreveu. Especificamente, em seu período de clandestinidade, em 26 de junho de 1961, três anos antes de ser condenado à prisão perpétua.

E nesta sexta, haverá um grande show em Londres em sua homenagem - em vida - o que é importante frisar. Espero que signifique muito mais que um momento de "alegria", mas de lembrança de uma luta que não pode ficar confinada no tempo. Uma bandeira sem cor, sem credo. Uma bandeira de um cidadão que soube e sabe valorizar a solidariedade e irradiou essa energia pelo planeta.


Sucena Shkrada Resk

16/06/2008 09:17
A cidadania pela música, por Sucena Shkrada Resk


Legenda: reprodução de imagem de TV - exibição_15-06_08_apresentação Orquestra Criança Cidadã, de Recife, no Domingão do Faustão

Finalmente, os programas televisivos começam a acordar aos poucos para a cidadania, ao exibir trabalhos dignos de mobilização. Ontem pude ver um desses exercícios de jornalismo social, ao assistir ao case brasileiro, aparentemente bem-sucedido, do projeto Orquestra Criança Cidadã, de Recife, PE. Há um ano e meio, cerca de 150 crianças e adolescentes, moradores da comunidade carente do Coque - uma das mais violentas da capital pernambucana - fazem uma imersão no aprendizado musical, sob a batuta do regente Cussy D`Almeida. Pequenos artistas, a partir de seis anos de idade, aprendem a tocar instrumentos de corda, de onde tiram sons belíssimos de violinos, violoncelos... São clássicos de Vivaldi, Villa-Lobos...

O maestro -que um dia foi assaltado quando passava por esta comunidade - é isso mesmo - resolveu retribuir, doando um pouco de sua vivência e experiência de mestre ao incentivar os jovens desse bairro pernambucano. Levou uma didática diferenciada do padrão tradicional das escolas, porque parte do lúdico para depois ingressar nas notas musicais. "Dificilmente conseguiríamos em tão pouco tempo, que esses alunos tivessem a performance que têm", diz. A subversão da ordem, segundo ele, teve inspiração no modelo japonês Suzuki. E o resultado é realmente emocionante. A cadência e o ritmo impresso por esses meninos e meninas, que têm a ausência de condições de vida mais digna, revelam um bem maior, que é o potencial e sensibilidade expressos pela dedicação desses jovens brasileiros.

A iniciativa só consegue sustentação porque recebe o apoio de empresas patrocinadoras da região. Inclui refeições e apoio escolar aos alunos, porque são itens prioritários para a vida de qualquer ser humano e, que muitas vezes, são escassos nas mesas das famílias desses estudantes.

Segundo o coordenador da entidade, o juiz corregedor João Targino, em entrevista concedida ontem no programa Domingo do Faustão, na TV Globo, o paradigma de inserção social é o seguinte. "Enquanto um detento custa mensalmente cerca de R$ 2,6 mil no sistema prisional pernambucano, o per capita do trabalho com essas crianças não chega a R$ 1 mil. Então, o que vale mais a pena?".

Realmente é algo a se pensar. Afinal, "valorar" investimentos é importante, pois é preciso aflorar o que cada um de nós temos de melhor. Não é mais possível, vermos cenas cotidianas de infâncias destruídas pelo crime, pelas drogas, pela falta de perspectiva, de dignidade e humilhadas por um sistema que privilegia a desigualdade. Há outros exemplos por esse Brasil, como o projeto Orquestra Jovem Baccarelli, em Heliópolis, entre outras, em São Paulo. São sementes plantadas e semeadas por pessoas idealistas que podem, de fato, mudar o caminho de muitas vidas.

Sucena Shkrada Resk

26/05/2008 23:16
Especial Brasil/Japão - Peru antecedeu Brasil, por Sucena Shkrada Resk

O Peru recebeu os imigrantes japoneses, em 1899, antecendo 9 anos ao Brasil. A psicóloga e museóloga peruana Amélia Morimoto, da Universidad Mayor de San Marcos, traduziu essa trajetória por meio de fotos históricas, que expôs durante o Simpósio Internacional Presença Japonesa na América Latina, no último dia 20, realizado no Memorial da América Latina, em São Paulo.

"No início, os camponeses iam principalmente para as áreas de cultivo de cana-de-açúcar, mas dos 790 japoneses, desse primeiro grupo, 150 faleceram por causa do paludismo", conta. Os imigrantes sobreviventes e seus descendentes começaram a formar comunidades de serviços e promover a urbanização, com o passar do tempo.

Na década de 30, 80% dos japoneses deportados, segundo ela, seguiam ao Peru. "Na década de 60, o destaque foi a construção do Centro Cultural Peruano Japonês", diz. Os japoneses começaram a marcar presença na indústria e na educação, ao abrir escolas. Nos anos 70, a cozinha nikkei, principalmente com pescados e mariscos, foram marcas deixadas de sua contribuição. Nas artes, um dos expoentes foi o poeta José Watanabe (já falecido), que foi reconhecido, inclusive, na Espanha.

"Na política, houve a figura controvertida de Alberto Fujimori. Durante o seu governo, muitos pequenos negócios desapareceram. Mas muitos nikkeis votaram nele, o associando à colônia japonesa. E a partir de 1988, começa o fenômeno de fluxo inverso, com os dekasseguis, que seguiram em maior número para Okinawa", afirma a museóloga.

Segundo ela, os filhos dos dekasseguis que nascem no Japão já não querem mais voltar ao Peru. "Em contrapartida o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) está incentivando a criação de empresas no Peru, o que está sendo um incentivo aos nipo-peruanos retornarem ao país", fala.

Como no Brasil, o período pós 2ª Guerra Mundial começou a refletir um outro retrato da imigração japonesa no Peru. "Somos peruanos descendentes de japoneses. As feições vão se perdendo, mas nossa preocupação é com a transmissão dos valores de respeito e honestidade", diz Amélia Morimoto.

"....Perdemos a língua, apelidos e ganhamos outros, com a fusão da cultura. Com essa mescla, surge uma nova cultura de tolerância, de ser parte dessa existência da sociedade latino-americana...Mas hoje é um incógnita as propostas dos jovens nisseis quanto ao tema imigração", afirma.


Sucena Shkrada Resk

25/05/2008 20:02
Especial Brasil-Japão - O fenômeno dekassegui (continuação), por Sucena Shkrada Resk

O debate sobre a situação dos dekasseguis acalora opiniões. Segundo Reimei Yoshioka, da Associação para Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, é preciso ter uma atenção ao futuro das crianças, no processo de idas e vindas. "É uma questão muito séria, pois não estão preparadas para enfrentar a escola japonesa e o retorno ao Brasil, ao mesmo tempo", avalia.

Segundo Yoshioka, os jovens dekasseguis cometem mais infrações no Japão, do que aqui no Brasil. "É uma situação anômala, que reflete na aceitação da presença dos brasileiros lá. No Japão, já existem projetos de lei para cobrar que os dekasseguis saibam ler e escrever japonês", diz. Diante dessa nova realidade, a Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa criou uma comissão especial sobre o tema. "A pauta já se estende a cobranças políticas entre os países", afirma.

"Há mais de 90 escolas brasileiras no Japão. E algumas são até credenciadas pelo Ministério da Educação (MEC), mas têm mensalidades caras. Os dekasseguis desempregados passam seus filhos para as escolas gratuitas japonesas. Essa mudança causa um problema sério de adaptação", constata. Com a interrupção da formação das crianças, a educação fica postergada. "Por outro lado, as que ficam no Brasil, também sofrem a ausência dos pais".

Em outro aspecto, está a questão da aposentadoria. "O brasileiro no afã de ganhar mais, evita pagar a contribuição à Previdência Social, assim, fica sem direito à assistência médica, seguro-desemprego etc. "Portadores de Aids, por exemplo, nessa situação, são obrigados a voltar ao Brasil, porque não recebem tratamento lá", diz. E o dekassegui, ao envelhecer e retornar ao Brasil, se depara com mais um problema, segundo Yoshioka - a falta de chance no mercado de trabalho.

Diante de todos esses percalços, muitos dekasseguis partem para a naturalização japonesa, como estratégia de sobrevivência. "A legislação brasileira não obriga que renuncie à nacionalidade brasileira", explica.

Sucena Shkrada Resk

25/05/2008 19:59
Especial Brasil/Japão - O fenômeno dekassegui, por Sucena Shkrada Resk

Estudos mais aprofundados sobre o processo emigratório de dekasseguis ao Japão foram iniciados na década de 90. "Hoje os políticos já colocam o tema na pauta - como "gravíssimo"", diz a professora colaboradora da Unicamp, a socióloga Lili Kawamura. Estima-se que até hoje 310 mil pessoas tenham feito o caminho do Brasil ao arqupélago. "A trajetória faz parte do processo de globalização, que infere novas tecnologias, e possibilita que possam ir e vir continuamente. Isso se chama movimento internacional circular", explica.

De acordo com o levantamento elaborado pela especialista, de 1993 a 2003, o princípio dos chamados 3 ks (pesado, sujo e perigoso) norteou o trabalho desenvolvido pelos brasileiros no Japão. "Mas eles introduziram mais uma definição - muito exigente - situação que detestavam", comenta.

No contexto econômico, a década de 90 representou um desenvolvimento galopante, segundo ela. "Mas faltava mão-de-obra para chão-de-fábrica. O envelhecimento da população, a alta escolaridade e ausência da participação das mulheres no trabalho fazia com que houvesse dificuldade para preencher cargos de baixa escolarização", diz a pesquisadora.

Então, surgiu "uma visão equivocada" de que os nikkeis e nisseis seriam semelhantes aos japoneses. "O projeto do governo japonês facilitou a entrada, com a emenda de lei da emigração, favorecendo até a terceira geração de descendentes. Daí foi um boom emigratório", conta Lili Kawamura.

Como a economia brasileira passava por uma fase crítica à época, com inflação e desemprego, isso facilitou a ida ao Japão. "Nas fábricas, exerciam funções repetitivas e tinham de seguir as regras e normas expostas em letreiros e luminosos. Não havia o requisito básico de se saber japonês. A função era semelhante ao do peão no Brasil", explica.

A pesquisadora faz um parênteses e explica que a expressão dekassegui originalmente surgiu do processo migratório japonês de pessoas do Norte e Sul, que seguiam ao centro do país, sazonalmente. "Como o objetivo dos brasileiros originalmente era o mesmo, de ganhar dinheiro, e voltar ao local de origem, também receberam o codinome", diz.

Com o passar do tempo, os problemas de adaptação apareceram. "Apesar de o brasileiro ser flexível, não combina com as regras japonesas", afirma a professora da Unicamp. O resultado é que hoje há uma complexidade da posição dos brasileiros no Japão. "Existem algumas exceções, em que saem da condição de operário, para serviços intermediários, como intérpretes em escolas", diz.

O fenômeno dekassegui também contribui para a presença de produtos nacionais vendidos em redutos brasileiros, devido ao crescimento desse mercado próprio. São restaurantes, lojas..."Tem até shopping center, pequenas fábricas alimentícias, clube de futebol infanto-juvenil. De Minas Gerais, por exemplo, há várias filiais de uma escola que se instalou no Japão", explica a pesquisadora.

Na ponta oposta, há os sem-teto, que desempregados e sem possibilidade de voltar com recursos próprios, ainda enfrentam a falta de visto de permanência. "Vivem debaixo da ponte, local que limpam durante o dia. Organizações japonesas os ajudam para alimentação. Alguns dormem de favor em carros de japoneses, enquanto procuram emprego. Daí surge um sentimento de vergonha de voltar ao Brasil", afirma Lili Kawamura. O conjunto dessas situações reflete também condições de desigualdade social, que também são presenciadas no Brasil.

O mapa dos dekasseguis
A primeira cidade japonesa, com presença brasileira marcante, é Oizumi. Lá existe a "Brazilian City". Outras são Homi Danchi, Ota, Hamamatsu e Toyota. "A expansão da imigração também atinge Tayohashi, Komaki, Nagoya, Shojiri, Nagano e Matsumoto. Mas é possível encontrar brasileiros em todo Japão", afirma a professora.

"Há a preocupação de formação de guetos, por causa deste aspecto predominante de transitoriedade. Os próprios japoneses apresentam uma reação de "medo" a esse fenômeno. E os dekasseguis, quando voltam ao Brasil, também se defrontam com dificuldades".

Um ponto que exige maior atenção, segundo ela, é o destino dos filhos desses imigrantes, nesse processo de transitoriedade. "Não existe uma política própria para a formação desses jovens. Isso acarreta, em muitos casos, a marginalização. Somente as que são japonesas (nasceram lá) têm melhores chances", diz.


Questionamentos

A socióloga começa a analisar um novo fenômeno. "Há uma tendência de brasileiros, que conseguiram subir na escala de emprego, querer permanecer no Japão. Ao mesmo tempo, os dekasseguis contribuem à transformação dos padrões culturais , que afetam os grupos com os quais convivem. "Isso se percebe nos mangás, na cultura pop, nos brinquedos e tecnologia", resume.

Sucena Shkrada Resk

25/05/2008 14:31
Especial Brasil/Japão - A democracia das relações, por Sucena Shkrada Resk

A historiadora da Universidade de São Paulo, Célia Sakurai, autora do livro "Os Japoneses", afirma que uma das maiores contribuições da imigração ao Brasil foi a da relação entre japoneses de províncias diferentes, que antes não tinham chance de manter contato, por causa da rigidez cultural no Oriente. Com isso, as diferenças regionais começaram a se dissipar. "O nikkei carrega em si esse lado de cunho racial. É importante amadurecer essa relação inter-étnica", analisa.

O desembargador aposentado Kazuo Watanabe, da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, analisa que por causa dessa abertura de relações, a comunidade japonesa está comemorando o centenário da imigração, mais do que o próprio governo japonês. "O que importa para nós é o fato de ter sido estabelecido um vínculo humano, por isso, a mídia brasileira dá ampla cobertura, enquanto que a japonesa, não", afirma.

Mas Watanabe considera que os japoneses, apesar dessa assimilação cultural, poderiam se expressar mais e passar seus conhecimentos aos brasileiros, como no caso da soja. "São envergonhados. Não transmitem, por exemplo, tudo das técnicas de alimentação, que seria muito útil à população mais humilde. O país é uma dos maiores exportadores e não consome a soja direito. Além da proteína vegetal, é rica em outros nutrientes", fala.

O fantasma da segregação
Para a socióloga da Universidade de Campinas (Unicamp) Priscila Nucci, o Brasil, apesar do status democrático, ainda mantém um projeto integracionista excludente. "No caso dos japoneses, foi de uma forma sofisticada", diz.

Segundo Watanabe, embora haja esse critério de exclusão, hoje os descedentes de japoneses são mais aceitos do que outras etnias do Oriente. "Mesmo nos EUA, a discriminação é mais aberta, os japoneses são colocados na categoria de asiáticos", fala.

Watanabe conta que Durante a 2ª Guerra Mundial e pós seu término, realmente havia um movimento anti-nipônico no país. "Já em 62, quando prestei concurso para juiz de Direito, por exemplo, muitos diziam que eu não iria entrar, e consegui na segunda tentativa. Já o preconceito se dava quanto à mulher na magistratura, que só veio a ingressar nos quadros, 19 anos depois", afirma.

Mas nos anos 70, um novo "surto" de movimento anti-nipônico começou a surgir, segundo ele. "Havia alguns casos de empresas japonesas, que não aceitavam os dekasseguis Cheguei a me reunir com um grupo de amigos para combater esta postura", conta.

Sucena Shkrada Resk

25/05/2008 10:13
Especial Brasil/Japão - O que é a colônia hoje?, por Sucena Shkrada Resk

"Desde a década de 70, a colônia japonesa não existe como tem sido conceituada". Essa análise é do desembargador aposentado e professor de Direito, Kazuo Watanabe, da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa. O magistrado, que tem em seu currículo, participação importante na revisão do Código do Processo Civil e no ante-projeto do Código de Defesa do Consumidor, entre outros trabalhos, é defensor de que a comunidade nipo-brasileira é, acima de tudo, brasileira, apesar de elementos culturais diferentes. Recentemente colaborou na produção do livro "O Nikkei no Brasil", coordenada pelo professor Kiyoshi Harada.

Segundo ele, o primeiro passo é compreender a história da imigração. "Em 18 de junho de 1908 chegaram 781 imigrantes e, antes da 2ª Guerra Mundial, já eram 197 mil. Posteriormente, de 52 a 88, vieram mais 53.555 japoneses, totalizando cerca de 250 mil pessoas", diz. Watanabe fez um levantamento baseado em dados colhidos pela professora da USP, Célia Sakurai, que é uma das maiores especialistas no tema nikkei, no país, entre outras fontes.

No período antes da 2ª Guerra, o cenário era predominantemente rural, principalmente na lavoura de café, entre outras. "Havia uma grande dificuldade quanto ao idioma, usos e costumes, condições precárias de habitação e salários ínfimos. Na segunda fase, os japoneses e descendentes começaram a arrendar terras e adquirir pequenas propriedades", conta.

O magistrado se recorda de sua própria origem, na cidade de Bastos, no interior Paulista. "Lá a sociedade colonizadora japonesa adquiriu terras, as transformando em um núcleo urbano, e a minha família estava entre eles", diz.

Cem anos se passaram e a transformação dos traços étnicos e culturais vieram com os nikkeis. "No primeiro período havia uma existência sociológica concreta da colônia, uma maior identidade e redes de associações. Mantinham-se escolas, ligas esportivas e espaços de lazer próprios. Com o término da 2ª Guerra e a derrota do Japão, houve uma transformação e a assimilação dos hábitos da comunidade brasileira", diz.

O chamado "abrasileiramento" dos imigrantes japoneses ocorreu, apesar do vínculo sentimental com origem nas décadas de 40 e 50. "Com isso, veio a tarefa de educar nisseis e sanseis (netos), que foram às universidades e, em muitos casos, atuando com sucesso na sociedade brasileira", afirma Watanabe. Dentro desse contexto, seu parecer leva à seguinte conclusão - de que todos hoje são brasileiros.

"Em 1944, 41% da comunidade nikkei eram de sanseis e o casamento inter-étnico representava cerca de 50% das relações. E esse índice aumentou de geração para geração", fala.

De acordo com o desembargador, os filhos mestiços atualmente são aproximadamente 400 mil pessoas. "Devem ser considerados nikkeis. Não dá para ter só o critério racial, mas cultural de valor assimilado. Até mesmo os cônjuges brasileiros, nesse aspecto, podem ser considerados da colônia", considera. Com isso, a população, em sua análise, passaria de 1,5 mil a 1,8 mi pessoas.

Em sua opinião, existe uma força "centrípeta" no Brasil, tendo como exemplo os bairros orientais - com cunho principalmente comercial. "Mas não são para auto-defesa da comunidade", diz. Watanabe afirma que o processo de mestiçagem é natural e cita como exemplo a trajetória dos próprios portugueses. "Em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda já trata deste tema, sobre o início da colonização do país. O mesmo faz Caio Prado Júnior, que escreveu a História do Brasil Contemporâneo".
Watanabe conta que em 1997, estimava-se que havia 1,4 mi imigrantes e descendentes no país. "Hoje, devem ser 1,5 mi", afirma. Segundo o desembargador, o esforço dos "velhos" imigrantes não foi em vão. "Investiram na educação de seus filhos, que trouxeram frutos", afirma.

Como exemplo, Watanabe cita os seguintes números da presença da comunidade nipo-brasileira, no estado de São Paulo:

Professores em universidades...
Universidade de São Paulo (USP) - 324 (incluindo aposentados)
Universidade de Campinas (Unicamp)- 65
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) - 40
Universidade Federal de São Carlos - 23
Universidade Federal do ABC - 8
Universidade Estadual Paulista (Unesp) - 143

Área militar:
181 tenentes p/patentes acima
Reserva - 119
Aeronáutica - 119
Exército - 152
Magistratura - 50 juízes
" no Trabalho - 21
Ministério Público - 63
na Área Federal - 14
Procuradores do município de São Paulo - 20
Procuradores do Estado - 61
Fazenda Nacional - 23

Em efeito reverso, hoje, no Japão, existem 310 mil nipo-brasileiros. "Já mandamos para lá muito mais do que em 100 anos de imigração no Brasil E esse processo deve ser analisado com mais atenção", alerta.

Sucena Shkrada Resk

24/05/2008 16:29
Especial Brasil/Japão - Os japoneses na literatura brasileira, por Sucena Shkrada Resk

"Amar, Verbo Intransitivo", de Carlos Drummond de Andrade (1927); "Marco Zero - 1 e 2", de Oswald de Andrade (1943 e 1945) e o "Sol se põe em São Paulo", de Bernardo Carvalho (2007), são as três obras, que a conferencista Berta Waldman, especialista em Teoria Literária da USP, triou para representar a inserção japonesa em um período de 80 anos de literatura brasileira. Nessa análise, ela destaca a importância da mudança significativa da valorização dos personagens, do Modernismo à fase contemporânea. O romance quebra paradigmas com o passar das décadas.

No clássico de Drummond (1902-1987), o serviçal japonês Tanaka contracena com sua antagonista, a governanta alemã, estando numa posição hierárquica submissa, em que divide o trabalho e a obediência. "São inimigos de dia e companheiros à noite, quando falam mal dos patrões", resume Berta. Segundo a professora, neste romance, cada um dos personagens se considerava dono dos patrões a quem trabalhava - os Souza Costa. Numa forma metafórica, define as duas personagens como tigres japonês e alemão, em conotação ao tigre, presente no poema de Castro Alves.

Em "Marco Zero - A Revolução Melancólica", os japoneses são inseridos por Oswald de Andrade (1890-1954) no contexto rural junto a outros imigrantes, no período da crise da monocultura cafeeira, em 1929, quando há a quebra da Bolsa de Nova York. "Nesta obra, são expressos sentimentos ambíguos, de que o japonês consegue na terra mais resultados do que outras nacionalidades. Ao mesmo tempo mostra o encontro de um homem negro com uma japonesa, que é indício da miscigenação", explica a especialista. Já na versão 2 - "O Chão", o pano de fundo é o período do Estado Novo e da repressão aos comunistas.

Os caminhos da narrativa dão uma guinada de 180º, no romance contemporâneo, de Bernardo Carvalho, em que há uma outra ótica mais inclusiva sobre a presença japonesa. "Todos os personagens são japoneses e a história central é de Setsuko, uma senhora japonesa da Liberdade, que precisa descobrir a história de sua vida...".

O narrador, que é um publicitário desempregado, se esforça em desvendar o mistério, e acaba virando personagem. E toda a narrativa ocorre em São Paulo, Promissão e Tóquio, destacando a cultura japonesa.

"O que percebemos nesta trajetória de 80 anos é que o padrão xenófobo das primeiras décadas é quebrado com O Sol se põe em São Paulo. Nessa nova leitura, Bernardo Carvalho passa a idéia de que o Japão também é aqui", fala Berta Waldman.
Sucena Shkrada Resk

24/05/2008 09:10
Especial Brasil/Japão - Rosa de Hiroshima...os japoneses na lit.brasileira, por Sucena ShkradaResk

O silêncio respeitoso "disse" tudo. Assim cerca de 50 isseis e descendentes brasileiros e de outros países do cone Sul reagiram ao fim da execução da música "Rosa de Hiroshima", na voz de Ney Matogrosso, no Centro de Convenções do Memorial da América Latina. A cena foi um dos momentos marcantes do Simpósio Internacional Presença Japonesa na América Latina, no último dia 20.

Com os ouvidos atentos e olhos fixos e marejados na letra de autoria de Vinícius de Moraes (1913-1980), estampada no telão, a maioria da platéia, formada por respeitados representantes da comunidade japonesa, manifestou um dos momentos mais emocionantes, que flagrei como cidadã e jornalista, nos últimos tempos. As expressões de seus rostos demonstravam uma viagem no tempo e a quilômetros de distância, até 6 agosto de 1945, quando uma bomba lançada pelos EUA destruiu 150 mil vidas e deixou seqüelas sem precedentes à população da cidade japonesa de Hiroshima. Três dias depois era a vez de mais um crime contra a humanidade, em Nagasaki. Deflagrava-se o fim trágico da Segunda Guerra Mundial.

A reprodução desse clássico da Música Popular Brasileira (MPB) - um poema de Vinícius de Moraes, musicalizado por Gérson Conrad, dos Secos & Molhados - ,com certeza, deve ser eternizado para as próximas gerações.

Rosa de Hiroshima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume

A escolha dessa música de 1973, que encerrou o painel "Terra à Vista: anotações sobre a presença japonesa na literatura brasileira", foi do professor Francisco Assis de Queiroz, da Universidade de São Paulo (USP). O historiador relativizou à composição ao processo imigratório. "Alguns sobreviventes de Hiroshima/Nagasaki vieram para o Brasil nas décadas de 50 a 70. Em 1984, foi formada a Associação de Vítimas da Bomba Atômica do Brasil, com 17 associados. Hoje são 135, que ainda lutam pelos seus direitos com auxílio do governo japonês", conta.

Ainda destacou a presença da cultura e de "personagens" japoneses em obras do autor concretista Haroldo de Campos (1929-2003), com traduções de haikais ou haikus (poesias curtas de origem japonesa), desde a década de 50, quando começou a aprender o idioma, do qual foi um importante tradutor. E de Paulo Leminski Filho (1944-1989). Esse último traduziu o escritor Yukio Mishima e em 1983 publicou a biografia de Bashô, poeta budista do século XVII, entre outras obras.
Sucena Shkrada Resk

23/05/2008 17:06
Especial Brasil/Japão -O orgulho de ser imigrante, por Sucena Shkrada Resk

"Eu sou imigrante japonês (a afirmação é feita com um tom todo especial...). Vim em 1936, com nove anos para o Brasil, e fui puxador de enxada, como meus pais. Não me esqueço das dificuldades dos primeiros tempos em ir para escola. A gente andava muito e precisava procurar onde tinha capim para não queimar a sola dos pés", recorda emocionado, o engenheiro hidráulico da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Associação para Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, Kokei Uehara, 80 anos.

Segundo ele, essa trajetória de sacrifícios foi importante para a sua formação como cidadão. "A contribuição dos isseis e nikkeis à educação foi primordial na formação das novas gerações. Se conseguimos estudar, devemos tudo isso a eles e aos nossos primeiros professores, que nos apoiaram a seguir, desde a educação básica até o ensino universitário na USP (única universidade gratuita) na época. E o grande problema do Brasil hoje é justamente a educação básica", considera o professor, que é um dos maiores especialistas em hidrelétricas e barragens no Brasil.

Com fala mansa, esse senhor de cabelos grisalhos, e de convicção inabalável, confessa não se arrepender de um único minuto de sua história de vida. "Graças ao esforço dos velhos imigrantes, estamos aqui. Usávamos camisas feitas com saco de farinha, que era a melhor roupa que tínhamos. Tínhamos cheiro de roça com muito orgulho. Por causa disso, hoje muitos descendentes têm sucesso e andam engravatados", afirma.

Nesse período difícil de assimilação de uma nova vida, Uehara conta que o principal legado, como o de outras comunidades japonesas, foi no campo da agricultura (cultivo de hortaliças, legumes, cereais e frutas). "Mudou os hábitos de alimentação brasileira para melhor. Antes da imigração, geralmente as pessoas ganhavam maçã, por exemplo, quando ficavam doentes. Hoje se consome em qualquer lugar de São Paulo e do país", diz.

Sucena Shkrada Resk

23/05/2008 11:13
Especial - Brasil/Japão - Quem pensa na antropologia cultural?, por Sucena Shkrada Resk

O cientista social e político, especialista em Línguas Modernas na Universidade de São Paulo (USP), Koichi Mori, cobra uma posição acadêmica mais incisiva entre os pesquisadores sobre os nikkeis. "Falta um projeto internacional na América Latina", afirma. Segundo o especialista, que também é pesquisador do Ministério da Educação e Ciência do Japão, é preciso que a Ciência abra os horizontes de atuação. "É importante saber como cada nação contribui para a modernização de cada país. Só assim, é possível pensar como é o seu papel", diz.

De acordo com o especialista, as primeiras iniciativas de pesquisa no Brasil quanto à contribuição japonesa e de seus descendentes ocorreram na década de 40, com a Escola de Sociologia. "Posteriormente foram realizadas outras pesquisas no Amazonas e sobre São Paulo, com o foco na aculturação, mas não houve troca de informações", afirma.

A partir da década de 70, Mori conta que a atenção foi voltada ao ponto de vista da etnicidade, das religiões e da questão dos dekasseguis. "Na USP, há 15 teses de mestrado e doutorado a respeito. Mas é preciso mais projetos, incluindo outros países", considera.

O especialista, a partir de 1995, iniciou uma pesquisa sobre a culinária japonesa no Brasil. "Sobre o sushi, sashimi e a presença dos "sushi-bar", que já são mais de 600 em São Paulo. Mas é importante destacar que já sofrem a influência da aculturação brasileira".

Para o professor Mori, na atualidade, no entanto, não se pode restringir o tema somente à preservação da cultura japonesa. "Outro ponto importante é estudar o fato de muitos dekasseguis estarem entrando em processo de naturalização, e que enfrentam problemas de adaptação de seus filhos, entre outros. Falta uma visão transnacional. Os dois governos precisam criar uma política, para que nikkeis e dekasseguis vivam melhor", considera.

Sucena Shkrada Resk

23/05/2008 10:19
Especial- Brasil/Japão - A contribuição dos filhos da Terra do Sol Nascente, por Sucena Shkrada Resk

Daqui a 50 anos, o Brasil irá comemorar os 150 anos da Imigração Japonesa, como acontece hoje aos "100 anos"? Esse é um questionamento que paira entre representantes da comunidade que vive no país, e norteou as principais indagações presentes nos dois dias do Simpósio Internacional Presença Japonesa na América Latina, realizado neste mês, no Centro de Convenções do Memorial da América Latina, em São Paulo. A dúvida é pertinente, já que os últimos representantes dos isseis (primeira geração de imigrantes) e nikkeis vêem que a partir das atuais gerações de nikkeis, sanseis (netos) e yonseis (bisnetos), os vínculos com as raízes de seus ancestrais se diluem com o tempo. Um processo que não se restringe somente aos nipônicos, mas é reincidente também em outras etnias mundiais, presentes no Brasil, e em outros países do mundo.

Alguns especialistas denominam esse fenômeno, de aculturação, tendo em vista que houve a fusão de duas culturas, surgindo em tese, uma terceira. Valorar esse processo como "bom" ou "ruim" não é a questão principal. "O desafio é identificar diversidades e prioridades e difundir realidades históricas às novas gerações", fala o presidente da Associação Pan-Americana Nikkei, Felix Kasamatsu. A entidade foi criada em 1981, no Peru, e é regida pela Convenção Pan-Americana Nikkei, constituída por 11 países, entre eles, o Brasil.

Segundo ele, estima-se que hoje há mais de 3 milhões de nikkeis espalhados pelo mundo, sendo que 2,5 mi no continente americano. "Mais da metade está no Brasil, seguido pelos os EUA, Peru e Canadá, entre outros países", diz. Apesar dessa cifra considerável, é uma minoria comparada a outras etnias.

De acordo com a análise de Kasamatsu, a partir do momento em que os nisseis começaram a ter uma educação mais local, os sunseis cresceram num mundo "mais interdependente". "Por isso, no campo da educação, é importante revalorizar os atributos nikkeis, que envolvem disciplina e educação ao trabalho. Na AL, principalmente, houve uma contribuição ímpar à agricultura e pecuária, e ao setor de maquinários etc. Foram pioneiros no cultivo da soja, das hortaliças, na área da floricultura. A antiga Cooperativa Agrícola de Cotia foi um exemplo de cooperativismo regional", relata.

A entidade criada por 83 lavradores em 1927 chegou a reunir 16 mil associados e mais de 10 mil funcionários, e atravessar décadas até 1988, quando quando encerrou suas atividades, devido à falência. Mas esse fato não desmereceu sua história de pioneirismo no país. Na América do Norte, a principal contribuição dos japoneses e de seus descendentes foi no setor automotivo.

O Peru foi um caso ímpar, no campo político, com o engenheiro agrônomo especialista em Física nipo-peruano Alberto Fujimori, que ficou no poder (1990-2000). Independente de sua origem, dividiu opiniões no mundo positivas e negativas, desde o campo macroeconômico à forma de regime autoritário. Depois de asilar-se no Chile e ser extraditado ao Peru, hoje o ex-presidente está na sede da Divisão de Operações Especiais da Polícia Peruana, sob acusação de violação dos direitos humanos.

"No campo empresarial, vemos na atualidade, que existem questões de nacionalismos e preconceitos que afetam os asiáticos, de uma maneira geral", afirma Kasamatsu.
E na cultura, arte, esportes e religião, o legado dos "filhos da Terra do Sol Nascente" - como são identificados os japoneses, é incalculável. Trouxeram, acima de tudo, o hábito alimentar de se comer frutas, verduras e legumes ao cardápio brasileiro, muito além do sushi e sashimi. Com a sutileza do bonsai, da ikebana e demais artes orientais mostraram como é possível proporcionar harmonia pelas mãos. No campo dos esportes, as artes marciais, o beisebol e as práticas de relaxamento foram introduzidas no modo de vida nacional. E muitos brasileiros e nippônicos se identificaram com a filosofia do Budismo e Sintoísmo.

Uma viagem pela história...
Segundo o presidente da Associação Pan-Americana Nikkei, o percurso histórico da imigração japonesa nas Américas teve início em 1878, no Havaí. "Depois seguiu à Costa Oeste dos EUA e ao Canadá. Na AL, os primeiros 34 imigrantes chegaram a Chiapas, no México, em 1897. No ano seguinte, já havia a presença deles em Cuba", diz.

No ano de 1904, é a vez do Peru receber os imigrantes principalmente em suas lavouras de cana-de-açúcar. E em 1908, chegam oficialmente ao Brasil 781 no navio Kasato-Maru (apesar de que em 1906, já terem vindo alguns japoneses morar no país). "Esses trabalhadores formaram colônias agrícolas no Paraná e em São Paulo até 1941. Depois da 2ª Guerra Mundial, a imigração cresceu consideravelmente. Nos anos 50/60, o governo japonês incentivou imigração organizada às colônias agrícolas. Nessa fase, os destinos do Pará e Amazonas tiveram destaque, além da zona de Santa Cruz, na Bolívia e Paraguai. No Chile, o processo foi mais contido, pois o país tinha mais restrições à entrada de estrangeiros.

As formas de imigração se dividiam em contratos de trabalho com grandes proprietários agro-industriais, empresas colonizadoras, de "modo voluntário" e trabalhos temporários, como funcionários de governo, consultores, cientistas e investigadores.
Sucena Shkrada Resk

11/05/2008 20:01
Ética, acima de tudo, por Sucena Shkrada Resk



crédito: Sucena S.Resk

A jornalista chilena Mónica González Mújica, do Centro de Investigação e Informação Periodista, deu uma lição de cidadania, nesta semana, ao discorrer com autoridade sobre a importância da ética, do estudo e da seriedade ao exercício da profissão, independente de regimes, durante o Fórum Liberdade de Imprensa e Democracia, realizado em São Paulo, pela Revista Imprensa. Sem se intimidar, questionou o poder econômico sobre a mídia.

"Podemos fiscalizar - como o quarto poder - e observar o funcionamento de muitas áreas da economia, sem ter conhecimento especializado? - Não. Apesar do término da Ditadura, existe um mecanismo mais sofisticado e complexo. Houve somente a transformação "do rosto da miséria...Apesar do crescimento e da democracia, há um poço profundo de violência social hoje".

Na sua opinião, o prazer da investigação é imenso, desde que o profissional não pense em seu ego, mas no leitor, para que sejam quebradas as barreiras da informação. E nesse exercício, a palavra-chave é "checar". "Quando vejo o rosto agradecido de um cidadão, sei que trabalhei direito", afirma a jornalista veterana, que traz uma bagagem respeitável de décadas, desde o período conturbado da ditadura Pinochet.

Segundo Mónica, não há mais espaço para o jornalista que se coloca em um pedestal - quando acha que é o porta-voz da verdade. "Se não há publicidade, os veículos não têm como subsistir. Mas isso não exime que eu investigue as pressões subterrâneas sobre a informação. A questão é persistir na veracidade", afirma.

"O modo de vida da sociedade cada dia tem menos liberdade para o amor. Não é um problema menor. Quando falo de amor, estou tratando de comunhão. O jornalismo está ajudando para isso? Creio que não", afirma.

Na análise de Mónica, as desigualdades impostas por um sistema econômico perverso exigem do profissional, acima de tudo, persistência. "Fazer bom jornalismo hoje não requer somente valentia, mas conhecimento e gana de ter dignidade". A jornalista considera que o poder político está mais debilitado no "chamado" regime democrático, por causa da corrupção. "E por que não se denuncia quem entrega milhões? Isso revela que algumas empresas continuam com a mesma liberdade para corromper", critica.

Essa postura, segundo ela, é extremamente perigosa. "Ao omitir, estamos contribuindo para a desinformação da população". De acordo com Mónica, o desafio da atualidade é três vezes maior que na época da Ditadura. "É muito pior investigar a rede de narcotráfico. Os métodos de tortura são mais sofisticados e, ao mesmo tempo, primitivos", constata.

Mas nada justifica a alienação, em sua opinião. "O que ocorre todos os dias com a sociedade civil atenta contra nossa dignidade. E o que mais importa é nos indignarmos e termos espírito de equipe. É o motor real dos jornalistas. A experiência e a ânsia de conhecer ajuda a enfrentar os muitos poderes e a não sermos ferramentas do mercado", diz Mónica.

Uma história de luta

A vivência combativa contra a ditadura Pinochet reuniu passagens penosas à jornalista investigativa Mónica González, desde torturas à prisão. Após o Golpe Militar no Chile, em 1973, exilou-se em Paris. Lá não se deu por vencida, trabalhando como operária, ao mesmo tempo em que que fazia uma imersão em programas de comunicação para o Chile e pesquisas sobre Forças Armadas e direitos humanos. Essa trajetória lhe rendeu um Prêmio Novo Jornalismo, na categoria homenagem, entregue pelo escritor colombiano Gabriel García Márquez, em 2006.

Incansável e com uma postura humilde, pleiteou recentemente uma bolsa da instituição Avina, para realizar mais um trabalho incansável - o de contar a história de mulheres do Chile (camponesas, empresárias e ministras... Enfim, um exemplo para as novas gerações de jornalistas.

Sucena Shkrada Resk

04/05/2008 14:54
O glossário do trabalho, por Sucena Shkrada Resk

Você sabe que tipo de trabalho exerce, segundo a Consolidação das Leis de Trabalho (CLT), de 1939, e regulamentações e legislações federais posteriores? Para a maioria dos brasileiros, esse é um assunto que foge da pauta cotidiana, entretanto, é um ponto determinante do exercício dos direitos humanos. Vide a situação da exploração ilegal do trabalho infantil, que arrebata milhares de crianças e adolescentes no país, apesar de a legislação em vigor determinar que o ingresso ao trabalho deve ser a partir dos 16 anos. Nem campanhas e ratificações de acordos internacionais com a Organização Internacional do Trabalho (OIT) dão conta para exterminar essa chaga socioeconômica.

Segundo o secretário de Políticas Públicas da União Geral dos Trabalhadores (UGT), Valdir Vicente, é importante que a população tenha a noção básica trabalhista, que nada mais é, que um princípio de cidadania. Ou paradoxalmente, de reconhecimento do desrespeito aos direitos...

Quem nunca ouviu falar, por exemplo, da situação insalubre de bóias-frias por esse Brasil? Esse é um exemplo clássico de trabalho forçado, que pode ser considerado uma versão modernizada da escravidão (trabalho análogo). Aquela, em tese, abolida pela princesa Isabel...É difícil compreender que, em pleno século XXI, pessoas são humilhadas e maltratadas, e praticamente trabalham pela comida e um copo d`água. Mas é importante destacar que o trabalho rural tem regulamentação e deve ser exercido de forma digna na relação entre empregador e empregado.

Na nomenclatura e na vida real, ainda há espaço para o trabalho penoso, geralmente manual, que atinge principalmente o público jovem, gerando doenças profissionais. "Isso acontece com quem exerce atividades em pedreiras ou em minas, por exemplo. Muitos morrem antes dos 40 anos", fala Vicente. Apesar de haver punições legais pelo descumprimento das legislações a respeito (como segurança do trabalho etc), ainda há alto índice de fatalidade, segundo ele.

Para completar o quadro das ocupações de risco, está o trabalho perigoso. Nesta categoria, são incluídos os eletricitários, profissionais que lidam com explosivos e transporte de produtos inflamáveis. Segundo o Ministério do Trabalho, esses profissionais têm o direito ao acréscimo de 30% sobre o salário, além de gratificações, prêmios ou participação nos lucros da empresa.

Quando partimos para a urbanidade, muitas pessoas confundem o significado de trabalhador doméstico. Não se restringe somente às funções da empregada doméstica ou ao sexo feminino, como equivocadamente aparenta. Neste grupo, ainda há acompanhantes de idosos, babás, caseiros, cozinheiros, faxineiros, governantas, jardineiros, lavadeiras, motoristas particulares e vigias.

Por outro lado, existe o trabalho em domicílio, que é exercido fora do estabelecimento da empresa contratante. E nesse pelotão, estão principalmente profissionais liberais, que fazem o seu trabalho em casa ou em oficina de família. O importante a destacar é que a CLT não estabelece diferença entre o trabalho realizado no estabelecimento do empregador e o executado no domicílio do empregado. O que precisa estar caracterizada é a relação de emprego entre ambos.

E no aspecto de jornada, há a tempo parcial, que não exceda a 25 horas semanais. E a jornada normal de trabalho é de 44 horas semanais. Bem, aí é uma outra história, já que muitas categorias excedem a esse período, com horas extras - devidamente remuneradas ou não...
Enfim, aqui está uma pequena descrição de um universo que ainda temos muito a aprender...

*informações baseadas em resumo de explicações dadas por Valdir Vicente, no último dia 28 de abril, durante o curso O Trabalho e Suas Relações, promovido pelo Sindeepres/SJSP e colhidas no site do MTE*

Sucena Shkrada Resk

04/05/2008 13:51
Está mais do que na hora de substituir a sociedade do ter pelo ser, por Sucena Shkrada Resk

A hegemonia do "ter" na sociedade capitalista pode estar com os dias contados - Será? Essa é uma indagação permanente feita por cada um de nós nos dias de hoje. Afinal, nos últimos séculos, a ditadura do poder de consumo domina o cenário mundial, que resulta na balança desigual socioeconômica, em que 75% da produção mundial está concentrada nas mãos de 25% da população. "Mas estamos vivendo o limite do padrão "material". Há um esgotamento dessa base de bem-estar social", considera o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Márcio Pochmann.

Na atualidade, a prática de mimetismo dos países pobres e em desenvolvimento sobre o padrão dos países ricos já se configura em "mito", de acordo com o economista. "Há uma profunda concentração de renda. No Brasil, por exemplo, existem bairros que representam o padrão de riqueza x outros sob carência", diz. E não é possível passar uma borracha sobre o fato de 8 milhões de pessoas estarem desempregadas, outras trabalharem 60% a mais em horas extras, enquanto 5 mi crianças são vítimas do trabalho infantil.

Segundo Pochmann, dos anos 80 para cá, a idéia de planejamento no país foi abandonada. O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro per capita é o 85º no mundo. "O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) ainda é um começo", diz.

O economista discute a possibilidade de redução de jornada para 4h diárias e até 12h semanais, para que se possa abrir mais postos de emprego. De acordo com Pochmann, apesar de a jornada de trabalho ter passado de 16h para 8h, no séc XX, a inserção da tecnologia não se traduziu em aumento de sensibilidade. "Com a inovação (celular, e-mail, internet), as pessoas estão trabalhando cada vez mais, fora de seu local de trabalho. Há uma dependência de produtividade. Trabalhar em casa se torna uma arapuca", diz.

Segundo ele, para atender à clientela mais rica, o mercado de trabalho também sofreu transformação, com a figura dos prestadores de serviços. "São os trabalhadores domésticos, seguranças, cortadores de gramas, personal trainer. São cerca de 25 milhões de pessoas".

Com essa demanda por produtividade, surgem novas doenças profissionais. "Principalmente mentais. Surge uma profunda crise da socialidade, com a solidão e o individualismo. O próprio computador é um instrumento que nos basta", alerta Pochmann.

Nessa sociedade do ter, as pessoas não têm mais tempo de falar com os filhos, amigos e olhar "olho-no-olho". Há a reformatação das famílias, que se tornam monoparentais (um adulto mais uma criança). "Daqui três décadas, a estimativa de vida estimada é de 100 anos e as mulheres deixarão de ter filhos", afirma. Por essas razões, é preciso se pensar em uma nova agenda de trabalho. "Não dá para dizer que um país é uma república, com desigualdades de direitos".

Para diminuir as diferenças, o presidente do Ipea acredita que uma alternativa é a criação de um fundo público para a acessibilidade à educação. "Escola e educação não são uma fábrica de salsichas. Temos possibilidade de dar um salto, que não pode ser a educação de hoje, que não ensina para a vida", fala o presidente do Ipea.

Com a atual estrutura do modelo capitalista, não é possível difundir o padrão de consumo universalmente. "Atualmente circulam 25 mi veículos no Brasil, enquanto a população é na faixa de 200 mi pessoas. Nos países ricos, essa relação seria de 140 mi veículos para a mesma população", compara.

O caos do transporte, por sua vez, obriga o poder público a ações na área de infra-estrutura. "Os recursos saem de um orçamento contido, das áreas como educação e saúde", diz.

Outro aspecto que contribui para a crise da sociedade do "ter", segundo ele, é a questão climática. "Em todo o mundo, circulam 1 bi de veículos. Ainda há probabilidade de se inundar os países pobres, com automóveis a custo menor de US$ 2,5 mil", diz.

Caso a temperatura da Terra aumentar em 2,5º, a Amazônia poderá em 2050 virar uma savana e a Sibéria, um pântano.

"Todas essas transformações ainda têm um impacto sobre a empregabilidade, pois produz com menos pessoas. Dessa forma, se economiza mão-de-obra. Esse é o efeito perverso", constata o presidente do Ipea.

*Pochmann tratou do tema, no último dia 29 de abril, durante o curso O Trabalho e suas Relações, promovido pelo Sindeepres/SJSP*
Sucena Shkrada Resk

01/05/2008 16:30
Pressão democrática é mais do que retórica, por Sucena Shkrada Resk

"É possível sair do lirismo para o plano prático". A frase é do ex-secretário Nacional de Direitos Humanos e atual presidente da Comissão Municipal de Direitos Humanos de São Paulo, o advogado José Gregori. O contexto de sua afirmação são as nuances apresentadas pelo processo democrático, e em especial, o anúncio feito pela China, no mês passado, de se dispor a dialogar com representantes do líder budista Dalai Lama sobre uma maior autonomia para a região do Tibete.

A mudança de rumos e de revisão de conceitos de regimes é uma das premissas dos Direitos Humanos, segundo Gregori. "Uma decisão pessoal e de um grupo restrito pode se espalhar como meta. Nunca me conformei que o DH ficasse só no âmbito das declarações", afirmou, no último dia 26, ao se apresentar em um painel do Fórum Cultura de Paz e Pedagogia da Convivência, em São Paulo.

O ex-secretário, que em 1998, foi o primeiro brasileiro a ser premiado pela ONU, pelas suas iniciativas em prol aos Direitos Humanos (DH), se diz um "constante inconformado" com as desigualdades. Hoje no âmbito municipal afirma não se desestimular. "Fizemos um levantamento bairro-a-bairro sobre como 32 itens do DH estão sendo vividos em cada um desses locais, que pode ser acessado no site da Prefeitura de São Paulo. É o SIM - Direitos Humanos (http://ww2.prefeitura.sp.gov.br/sim_dh/index.html).

Segundo Gregori, a iniciativa visa facilitar aos gestores promoverem os planos de desenvolvimento locais. "É um elemento concreto e objetivo, que não pode ser contestado nem pelos economistas. Agora tenho uma planilha também com números matemáticos", diz.

O levantamento é dividido em indicadores socioeconômicos, de violência, sobre criança e adolescente e mulher e negro. Há desde percentual de pessoas com baixa renda até a comparação entre as taxas de desemprego de negros e brancos por local de moradia. Os bairros são classificados de alta até precária garantia de DH.

Nos extremos constam Pinheiros, Vila Mariana e Santana/Tucuruvi (alta garantia), que se contrapõem a Itaim Paulista, São Miguel, Socorro, São Mateus, M´Boi Mirim, Cidade Ademar e Guaianases (precária garantia).

O que, de fato, se espera, é que os indicadores sejam instrumento de cobrança da população e utilizados, de forma consciente, pelos atuais e próximos administradores, independentemente de partidos ou correntes políticas. Afinal, não é possível mais sustentar governanças com falta de planejamento a médio e longo prazo. E a olho nu vemos essas desigualdades, que são um impacto ao exercício de cidadania.

Sucena Shkrada Resk

01/05/2008 12:40
É possível superar a alienação, por Sucena Shkrada Resk

Legenda: David Adams, em apresentação no Fórum Cultura da Paz e Pedagogia da Convivência
créd.foto -Sucena S.Resk


A vida é muito mais do que ter o poder de consumo e uma conta bancária polpuda, do que se dedicar somente ao prazer estético, fazer compras no shopping, tomar um choppinho, assistir ao filme "cult" ou filosofar e aplicar o "sociologuês" eternamente, sem colocar em prática os conceitos mínimos de respeito à convivência.

Que bom que ainda há aqueles seres humanos -e muitas vezes, sem os canudos das universidades - que se preocupam com a humanidade e o meio ambiente, e agem muito além do argumento de seu bem-estar pessoal. Vão mais longe - têm noção sobre qual mundo vivem e quais são os problemas a serem superados. Deixam de se colocar como "ingênuos úteis" (cada um de nós já exerceu esse papel, pelo o menos, uma vez na vida) e se comportam como protagonistas. Só a tentativa já é louvável, pois quebra aquela alienação, que se tornou hoje a maior inimiga de nós, seres humanos, no Planeta Terra.

Segundo David Adams (especialista em Mecanismos Cerebrais do Comportamento de Agressão, Cultura de Paz e Psicologia para Pacifistas, e um dos mobilizadores da Unesco, da Década da Cultura de Paz e Não-violência para as Crianças no Mundo), o efeito multiplicador da união entre sociedade, estudantes e educadores, em especial, com órgãos públicos tem um poder, que não pode ser subestimado. E a América Latina pode servir de exemplo a outras nações, nesse processo. O pano de fundo potencial é a mudança de contextos geopolíticos, nesta década, que pode figurar em uma nova ordem mundial.

Para isso, é preciso reflexão, segundo o especialista. E foi justamente essa oportunidade que Adams concedeu aos presentes, durante o Fórum Cultura de Paz e Pedagogia da Convivência, no último dia 26, no Masp, em São Paulo. Num bate-papo interativo, criou uma hipotética carta de propostas à Organização das Nações Unidas (ONU), baseada nas reflexões da platéia. O exercício resultou na seguinte análise conjunta, partindo do reconhecimento dos problemas e possíveis soluções aos antagonismos mundiais.

Cultura de Guerrra x Cultura de Paz
Dominação x Cooperação, convivência, democracia participativa
Intolerância x Tolerância, fraternidade, respeito, solidariedade
Armas x Desarmamento
Inimigos x Amigos e comunidade
Interesses x Desenvolvimento sustentável e equitativo
Propaganda x Livre circulação de informações, compartilhadas livremente
Estratégia do Caos x Estratégia da cultura de paz
Prisioneiros x Sem prisão
Dinheiro x Dinheiro com aplicação positiva
Crença na violência x Educação para não-violência
Segredos x Liberdade
Dominação do mal x Igualdade

Ao supor que a ONU adotasse, no mínimo 8 propostas, em consenso com os 192 países-membros...Iria partir para o desenvolvimento desse novo alinhamento.

E aí, haveria o reconhecimento do fundamento dos problemas. Confira trechos da exposição de Adams sobre essa análise:
- Cultura de guerra faz parte da natureza humana?
- É uma invenção cultural de uma mesma espécie, que pode também inventar a paz...

- Por que dura mais de cinco mil anos?
- Porque tem o mecanismo do Estado para ações destinadas a manter o próprio poder (ex. na ONU, o estado falido é o que perdeu o monopólio sobre a violência - Ex: Iraque, Somália...

-Também não se deve esquecer o advento da Guerra Fria - Império Americano depois da queda do Império Soviético. E que geralmente há um período de tempo, que pode haver a ausência de poder. O colapso da URSS já havia sido previsto 10 anos antes. O dos EUA é previsto para até 2020, por especialistas.

-Então, qual é a estratégia para a preparação dessa provável transição (em andamento)?
-Não teremos mais navios atravessando os mares. Isso significa que não haverá petróleo e os caminhões não poderão circular com os produtos. Os tratores não terão combustíveis nas lavouras. As lojas e supermercados das cidades estarão desabastecidos e as pessoas migrarão ao campo.

-Se o Estado não detém poder, no nível da ONU, vai haver dependência local. Haverá muito sofrimento, mas poderemos obter algo novo, novas fontes de energia, de economia solidária, de poder local com maior participação da sociedade...

-Temos de treinar e capacitar pessoas nesse processo (menção ao processo que Paulo Freire descreveu)
-As pessoas se tornam protagonistas na tomada de decisão
-Surgem novas formas de diálogo e comunicação
-O processo se torna horizontal com bases na tradição da democracia local
-E isso traz o resto do mundo para participar. Querem ver o que está acontecendo na América Latina...
-Um incentivo baseado na coragem e criatividade.

-"Quero voltar daqui 10 anos para ver esse novo modelo de cultura de paz criado na região", finalizou David Adams.

Sucena Shkrada Resk

01/05/2008 11:07
A educação para o convívio entre diferenças, por Sucena Shkrada Resk

"Tudo que nós sonhamos pode se tornar realidade, desde que haja a união de nossas idéias. Isso significa que há esperança". Esse conceito norteou a palestra proferida pelo historiador da Educação e criador da Etnomatemática (pioneira em dar valor a culturas tradicionais não-européias ), o professor Ubiratan D`Ambrósio, no último dia 26, no Masp, durante o Fórum Cultura de Paz e Pedagogia da Convivência. O educador narrou momentos importantes da linha histórica desde a segunda metade do século XX, que segundo ele, proporcionam até hoje, um sentimento de angústia da humanidade, pelo exercício da guerra, que, por sua vez, são enfrentados por movimentos que fazem frente à política da violência.

"Com o período da Guerra Fria (EUA xURSS), surgiu o Manifesto Pugwash (1955). O apelo era que houvesse progresso contínuo em caminho à felicidade, conhecimento e sabedoria", diz. O grande questionamento era sobre o porquê de se apelar à morte para a resolução de conflitos. "E apesar da Guerra Fria não ter sido totalmente resolvida, foi ouvido o apelo", afirma.

D`Ambrósio explica que os paradoxos da civilização moderna remontam a séculos e têm sua origem - na chamada sociedade do conhecimento, desde o século XVII, que sempre teve como pivô, o fato de a Ciência evocar uma certeza de resultados e ações. "Julga-se quase infalível, substituindo e criando. De certo modo, a vida pode continuar por esses sistemas. Entretanto, significa ao mesmo tempo, a incapacidade de sustentabilidade da vida em sociedade", analisa. Diante da dicotomia, a analogia é a seguinte - "Não há vida, sem paz", afirma o professor de Pós-Graduação em História da Ciência, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Segundo ele, a ameaça da peste há 500 anos, quase dizimou a civilização européia, mas não foi uma ameaça tão grande à sobrevivência, como existe agora, com a má utilização da Ciência Moderna. "Os instrumentos intelectuais e materiais (filosofias, idéias, e partidarismos) são utilizados para promover o extermínio, embora sejam mecanismos formidáveis, se forem bem aplicados. O que falta é uma ética maior, de respeito e solidariedade da humanidade com a natureza", diz.

Nesse confronto, bombas destróem vidas, grupos destróem outros, e há uma certa aceitação disso. "Ouvimos frases como esta - O sujeito mereceu ser executado. Tal grupo mereceu ser eliminado. Existe uma racionalidade que justifica essa cultura, por isso, é urgente que se passe para a cultura de paz (que representa a união de idéias nesse sentido)", diz categoricamente Ubiratan D`Ambrósio.

A paz, segundo o educador, começa internamente em cada indivíduo. "Ele não vai precisar recorrer a drogas para sair de uma realidade interna. A paz individual é ligada à social. Não podemos viver em conflito constante com o ambiente, que seja o princípio do confronto. Por isso, educar para a paz é educar para a sobrevivência com dignidade".

"Em todas as relações humanas, há conflitos de interesses. Isso é normal, mas não pode chegar ao objetivo de se eliminar as partes envolvidas. Temos como exemplo, o clássico Laranja Mecânica (romance de Anthony Burgess, que virou filme sob direção de Stanley Kubrick)", afirma.

A educação para paz - apesar de parecer uma definição redudante para muitos - é a aceitação do convívio entre as diferenças. "Do outro time, do outro sexo, cor, língua e religião. Neste sentido, está a importância do ensino de História, no que diz respeito à humanidade X se deter a cronologias", alerta o professor.

Isso significa respeito a raízes, relações históricas emocionais, religião e sistemas de conhecimento. "Um indivíduo é diferente do outro. Preservar essa diferença é fundamental", considera. D`Ambrósio define a violência como resultado da ignorância. "Todos nós somos educadores e temos a responsabilidade de passar algo (positivo) ao outro", afirma.

"Muitas vezes os tratados mundiais são inócuos, pois justamente não solucionaram a base dos confrontos - com suas tensões, desconfiança e medo, memórias de destruição e morte....", diz. O educador cita como exemplo o Tratado de Versalhes, em 1919, o confronto entre palestinos e israelenses, entre ETA e governo da Espanha, e nacionalidades que compunham a ex-Iugoslávia.
Sucena Shkrada Resk

29/04/2008 17:14
Os alicerces da pedagogia da convivência são inerentes ao homem, por Sucena Shkrada Resk

créd.foto-Sucena S.Resk


Saber conviver com os conflitos e as diferenças é uma das máximas da pedagogia da convivência, segundo o escritor Xesús Jares, coordenador do Coletivo Educadores pela Paz da Nova Escola Galega, na Espanha. O especialista resume na palavra respeito, o sentido de comunidade, implícito no tema. Segundo o conferencista internacional, os marcos reguladores estão concentrados na família, nos contextos sociais de vivência, nos códigos de normas das escolas e dos meios de comunicação, além da política. "E esse aprendizado começa desde a infância", afirma.

Nesse paradigma, de acordo com o especialista, está inserido o conceito de cidadania planetária. A extensão deixa de ser somente o ser humano, para abranger os seres vivos e o meio ambiente, ou seja, o Planeta Terra. Com isso, deixamos um universo isolado para transcender. E nesse caminho, uma das ferramentas essenciais é o diálogo.

"Conviver com os outros é um contínuo exercício de diálogo, que gera a resolução de conflitos entre as partes e por meio de mediadores. Para isso, é necessário haver o desenvolvimento da solidariedade (talvez uma palavra em desuso para muitos), desde os primeiros anos de vida. Significa humanização, além da instrução para melhorar a qualidade da integração", diz.

Por meio da pedagogia da convivência, Jares destaca que é importante conhecer a origem da violência, para, dessa forma, poder combatê-la. "O lacismo é uma forma de não-violência, pois permite a liberdade jurídica e de consciência, sem impor crenças. Com esse mesmo raciocínio, também atinge as interações entre as culturas. "O ser humano é fundamentalmente cultural e mestiço", afirma.

Nesse processo de transformação de comportamento tem de haver espaço para a ternura. "A afetividade é uma necessidade fundamental dos seres humanos. E a alfabetização nesses sentimentos faz parte do processo educacional", considera. De acordo com Jares, certos problemas de disciplina têm sua origem justamente pela falta de afeto.

O perdão. Eis uma palavra indispensável à pedagogia da convivência, segundo o autor espanhol. "Não quer dizer o esquecimento da falta ou desculpa. É o reconhecimento da falta e o compromisso de não repetir a mesma ação", diz.

Sendo assim, respeito, diálogo, solidariedade, não-violência, lacismo e perdão levam à aceitação da diversidade e ao compromisso com os necessitados, segundo a tese defendida pelo coordenador do Coletivo Educadores pela Paz da Nova Escola Galega. É uma imersão que leva àquele estado tão "almejado" pelo ser humano: F E L I C I D A D E.

Mas para atingir essa plenitude, os padrões consumistas da sociedade moderna têm de ser revistos. Com isso, o imaterial se torna mais importante que o material. Nessa filosofia de vida, há espaço para a revisão de conceitos. "Por isso, o papel dos pais, das famílias e dos professores é o de educar para a esperança, que leva ao otimismo. O sistema educacional movido pela alegria e pelo descobrimento do conhecer consegue enxergar avanços nos estudantes e nos trabalhos bem feitos - que muitas vezes, passam desapercebidos no cotidiano", afirma Jares.

*resumo sobre a mensagem de Xesús Jares traduzida pela jornalista Elisabete Santana, durante o Fórum Cultura de Paz e Pedagogia da Convivência, realizado no último dia 26, no Masp, em São Paulo*


Sucena Shkrada Resk

28/04/2008 21:55
Pedagogia da Paz: os frutos da mobilização, por Sucena Shkrada Resk

´Grupo Movimento pela Paz no Grajaú' narrou sua experiência de luta, durante o Fórum Cultura de Paz e Pedagogia da Convivência


crédito da foto: Sucena S.Resk



O relato de jovens multiplicadores do bairro do Grajaú, em São Paulo, comoveu a platéia formada por cerca de 300 educadores, estudantes, gestores e cidadãos comuns, que participaram do Fórum Cultura de Paz e Pedagogia da Convivência, realizado no último dia 26, no auditório do Museu de Arte de São Paulo (Masp). Os seis moradores da zona Sul da capital se expressaram de uma maneira incisiva - como é própria à fase do amadurecimento - e descreveram uma história de nove anos de luta contra a violência na comunidade, revelando o quanto pode ser gratificante o empenho e perseverança das novas gerações.

Os estudantes destacaram a importância do incentivo para se promover mudanças. No caso deles, a força partiu do padre italiano Paolo Parise, da paróquia local (que está atualmente em fase de estudo na Itália). E com uma seriedade - talvez imposta precocemente pelas circunstâncias da guerra urbana -, fizeram um desabafo profundo e honesto, que calou fundo entre os presentes.

"Os moradores sofriam com a violência local. Vivíamos numa situação em que não podíamos nos conformar com a realidade. Então, há 9 anos, começamos com um movimento tímido. Pedimos que uma luz nos guiasse no caminho, que nos indicasse resultados. Conseguimos reunir 7 bairros pequenos em prol de uma causa...".

"Não fazíamos barulho pela violência, mas pela paz. Pois ouvíamos barulho de tiros, agressão a crianças, mulheres. Achamos uma maneira de manifestar de forma cultural, para falar de paz, e não cruzamos os braços...."

"...Desde a pré-escola à juventude, a reflexão é importante sobre esse tema. Acrescentamos festivais de música, poesias, teatro, rap (que é a manifestação cultural mais presente no bairro). Daí, as escolas e ONGs começaram a participar. Chegou a ter 3 mil pessoas em eventos em praças públicas..."

"...Queríamos fazer um barulho que não incomodasse, porque a violência já incomodava demais. Nossa preocupação era que o movimento não fosse banalizado. Usamos flores e correntes como forma de expressão..."

"....Em 2006, deixou de ser um movimento sozinho, em uma região em que as pessoas têm medo até de falar de paz..."

"...Tivemos o apoio do Instituto Sou da Paz, e participamos do Grajaú em Rede. É um trabalho de formigas, que vale a pena. Fizemos concursos de desenhos para falar da paz. O tema deste ano é ´Paz: O movimento é da hora!'- Não é conquista permanente, mas movimento constante. Não é isolado, se faz necessário sempre. Não há idade para ser vivida e para repousar. - entonaram os jovens, ecoando a sua mensagem no auditório, em que olhares e ouvidos atentos representavam um daqueles momentos propícios para reflexão".

O grupo "Movimento pela Paz no Grajaú" representou milhares de jovens da capital, que anônimos batalham por uma sociedade mais justa, e constituíram um momento de humanização do Fórum, em que cada participante se sentiu, "em parte", representado. O evento foi uma iniciativa das Secretarias de Relações Internacionais e do Verde e do Meio Ambiente da Prefeitura de São Paulo e da Universidade Livre do Meio Ambiente e Cultura de Paz (UmaPaz) em parceria com a instituição Palas Athena, o Instituto Pólis, a Embaixada da Espanha, a Aecid Centro Cultural São Paulo e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura no Brasil (Unesco).

Sucena Shkrada Resk

27/04/2008 21:37
Parte 3-Urbanização: o exercício do questionamento, por Sucena Shkrada Resk

O exercício do questionamento faz com que sejamos consumidores mais conscientes dentro do processo da urbanização. Algumas perguntas que devem ser recorrentes são - Que cidade queremos construir? O que está ao meu alcance como cidadão? E como profissional? Segundo a especialista em Arquitetura Sustentável, Daniela Corcuera, esse é um princípio básico, que deveria nortear cada um de nós na concepção da sustentabilidade.

A representante da Associação Nacional de Arquitetura Biológica define que hoje é preciso haver uma visão holística. "As diretrizes para cidades sustentáveis se norteiam pela preservação do meio ambiente, economia financeira e aumento de qualidade de vida urbana", diz. Nesse escopo, é necessário, de acordo com Daniela, priorizar os seguintes eixos:
-Preservação de áreas naturais com compactação urbana
-Quesitos como proximidade, diversidade e uso misto
-Maior eficiência energética, com sistemas limpos
-Consumo consciente hídrico, de energia
-Pensar na questão dos microclimas
-Desenvolvimento de edifícios sustentáveis
-Reúso e reciclagem

"Hoje vemos ocupações desordenadas, nos vazios urbanos, e a formação de anéis intermediários, que favorecem a ocupação clandestina, com condições insalubres e áreas contaminadas", alerta.

De acordo com a arquiteta, a área central de São Paulo, por exemplo, passa hoje por um processo de desocupação acelerado. "É preciso pensar em novamente adensá-lo, com a diversidade de uso, e ter mais respiros como a Praça da República", diz.

Para isso, não adianta haver ações isoladas, em sua opinião. Os agentes são o poder público, a mídia, a sociedade, os escritórios de projetos, incorporadoras, empresas e empresários.

"O modelo de cidade sustentável é circular, com nascimento e renascimento de recursos. Não adianta ouvir discursos como 'o córrego trouxe problemas'. O problema, de fato, são as casas que estão em locais errados", afirma. E a premissa dos 4 R(s) - repensar, reduzir, reutilizar e reciclar deve ser um fio condutor nesse modelo.

A arquiteta Daniela Corcuera alerta que não é mais possível pensar nas cidades da mesma forma. "Um por cento da superfície da Terra é ocupada por cidades, que representam 75% do consumo de energia do mundo, e são responsáveis por 80% dos gases de efeito estufa", diz. E as projeções para o futuro revelam que, se algo não for feito agora, não haverá reversão. "Em 2007, 50% da ocupação está concentrada nas cidades. Em 2050, a perspectiva é que esse percentual passe para 75%". Temos de nos preparar para esse adensamento, que será um impacto para as próximas gerações", afirma.

Os desafios, nessa trajetória, são a mobilidade, a qualidade do ar, a segurança e a qualidade de vida e da paisagem. "Considero deprimente o mecanismo de adaptabilidade do ser humano em não se indignar com essa situação. Isso não é normal, e quem faz a cidade somos nós!", diz.

*A palestra de Daniela Corcuera integrou o Encontro Desafios da Urbanidade Sustentável, promovido pela Mais Projetos, no último dia 24 de abril, em São Paulo*

Sucena Shkrada Resk

26/04/2008 21:40
Parte 2 - Urbanização: percepções sociais, ambientais e econômicas, por Sucena Shkrada Resk


Quando a gente vê os espigões e os mais diversos tipos de edificações espalhados pelas metrópoles, não tem noção de como é a rotina de muitos trabalhadores que são responsáveis pela construção. A arquiteta, urbanista e especialista em sáude ambiental, Rosana Navarro conta que o aspecto social é uma linha tênue, que está sempre na pauta dos problemas enfrentados no setor.

"Hoje é fundamental que haja a capacitação contínua das equipes nas obras. A deficiência de treinamento se tornou um ponto crônico relacionado ao segmento", afirma. Segundo ela, a falta de preparo de pessoal constatada em muitos empreendimentos acarreta problemas, que vão desde o desperdício de material, e conseqüentemente danos à natureza, até conflitos de relacionamento entre colegas e com a comunidade, fazendo o ambiente "adoecer".

Rosana diz que não são raras as vezes em que o barulho e sujeira provocados por obras espalhadas pelas cidades geram o descontentamento dos moradores do entorno. "A população involuntariamente participa da obra, por isso, é necessário que sejam diminuídos os ruídos, poeiras e efluentes. Tudo isso depende de conscientização", avalia. De acordo com a arquiteta, o mais preocupante, que geralmente fica nos bastidores dos canteiros - é a sucessão rotineira de atritos entre colegas nas obras, que em muitos casos, chegam a agressões físicas.

Para reverter a situação, a urbanista só vê uma saída: treinamento contínuo. "A proposta é que as empresas promovam um exercício de percepção entre os trabalhadores, desde o boy e operário até os engenheiros, sobre o projeto que estão construindo. Muitos trabalhadores não sabem compreender uma planta. Quando as pessoas têm consciência de seu papel e fazem o trabalho com o coração, o resultado é uma obra melhor, que por sua vez, traz felicidade", analisa. Dessa forma, diminui a necessidade de correções e alterações de cronogramas, que geralmente são conseqüências dessas deficiências de planejamento e gestão.

A partir do momento, que o sentimento de equipe aflora, com a cooperação, mudam-se os paradigmas - com o respeito interpessoal. "Como se fosse uma orquestra", diz. E essa orquestra pode atuar ainda melhor se for incentivada a contratação de pessoal que resida nas proximidades do empreendimento. "Isso evita o desgaste do transporte entre longas distâncias", observa a arquiteta.

Percepções ambientais

Ao se manter novos valores, Rosana afirma que é destacada a percepção cultural. "A equipe pode ter, a partir daí, a noção da importância de se usar eco-produtos, materiais reciclados e reaproveitados. Ainda há o restauro, que é pouco falado, mas eficiente", diz a urbanista. Outro ponto da visão sustentável é a utilização de produtos adquiridos na região. "Assim, alavanca o desenvolvimento local", conclui.

*a palestra de Rosana Navarro ocorreu, no último dia 24 de abril, durante o Encontro Desafios da Urbanidade Sustentável, promovido pela Mais Projetos, em São Paulo*
Sucena Shkrada Resk

25/04/2008 15:55
Parte 1 - Contaminação: um entrave para a urbanização sustentável, por Sucena Shkrada Resk

O principal desafio de gestores, legisladores, empresários e da sociedade é promover a sustentabilidade nos grandes centros urbanos, que cada vez mais adensados, crescem desordenadamente, sem planejamentos a curto e longo prazo, pós Revolução Industrial. Planos diretores são exaustivamente debatidos, entretanto, em muitas situações, se tornam elefantes brancos, por faltar justamente regulamentação. E nessa ciranda, surgem conflitos de competências entre os âmbitos municipais, estaduais e federal quanto à legislação ambiental, e os passivos ultrapassam décadas. Dessa forma, provocam um impacto grave para a manutenção da qualidade de vida da população.

O engenheiro civil e mestre em Tecnologia Ambiental, Marcos Moliterno, atual coordenador da Divisão Técnica de Meio Ambiente do Instituto de Engenharia, afirma que a existência de áreas contaminadas é um dos principais problemas enfrentados para se efetivar a viabilização da sustentabilidade urbana, que não pode ser tratada de forma corriqueira. O especialista apresentou um painel sobre o tema, durante o encontro Desafios da Urbanidade Sustentável, promovido pela Mais Projetos, no último dia 24, em São Paulo.

Segundo Moliterno, o registro de maior número de casos de áreas contaminadas em São Paulo, de acordo com levantamento da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) 2005, está localizado em postos de combustíveis (73%), indústrias (16%), comércio (6%), resíduos (4%), acidentes (1%) e de origem desconhecida (1%).

O engenheiro destacou que há, no Brasil, 27 mil postos de gasolina. "Todos lidam com hidrocarbonetos, benzeno, tolueno e xileno, entre outras substâncias químicas, que exigem um acompanhamento contínuo, devido ao perigo de vazamentos. E atualmente há tratamento de recuperação de áreas afetadas por contaminação, o que não havia há tempos atrás", diz.

No segmento industrial, as ocorrências estão distribuídas entre as áreas química, petrolífera, farmacêutica, de metais pesados, de indústrias têxtil, plástica e de metalurgia. "Também há casos em loteamentos, que foram fazendas e enterraram resíduos no solo", diz.

A contaminação química ainda pode partir de outros setores, como lavanderias, tinturarias e serviços de revelação fotográfica. "E um problema que pode ser grave mais para frente é o dos laboratórios clandestinos de drogas ilícitas", alerta.

Em uma outra vertente, estão os resíduos produzidos pela construção civil. "Muitas vezes, não se é levado em conta o consumo de recursos naturais, de insumos, e da logística que acarreta problemas com poluentes", afirma.

Nesse grupo de fatores, há inúmeros produtos, atividades e práticas que exigem extremo cuidado na produção, manipulação e descarte, como é o caso das baterias, adubos, plásticos, limpeza química, agroquímicos, ferros velhos, madeireiras, beneficiamento de metais, óleos combustíveis, papéis e têxteis.

Mudanças de paradigmas

O que mais pode causar espanto à maioria dos cidadãos é que, em grande parte dos casos, é possível recuperação, segundo o coordenador da Divisão Técnica de Meio Ambiente do Instituto de Engenharia. É o mais importante, prevenção - com projetos sustentáveis. Para isso, no entanto, é preciso efetivamente responsabilidade empresarial e administrativa pública. Afinal, as contaminações são caracterizadas como crimes ambientais e afetam a saúde de inúmeras maneiras e, podem, inclusive, ser letais. Isso pode ocorrer por via respiratória e pelo consumo d`água oriunda da contaminação da água pluvial, do solo da água subterrânea, de rios e de córregos. "Em São Paulo (capital), por exemplo, há muitos poços clandestinos no subsolo, que abastecem residências", diz.

"Hoje a cidade ainda tem muitos galpões industriais abandonados, porque São Paulo se tornou um município predominantemente de serviços. E as grandes incorporadoras já incluem uma cláusula, em que pagam 80% ao proprietário na aquisão do imóvel, sendo 20% destinados para possíveis remediações, se houver contaminação", explica. Aparentemente, isso é um bom sinal. Ao mesmo tempo, as empresas já se preocupam em efetivamente fazer estudos de passivos ambientais.

E quando se fala em contaminação, não se pode esquecer das que são provocadas por meio dos gases e fumaças e pelo visual agressivo. Enfim, há muito o que fazer. Empresários mais conscientes de seu papel e respeito à legislação; gestores com retaguarda mais eficaz de fiscalização; leis mais objetivas, que não gerem jurisprudências; e cidadãos mobilizados em defender uma urbanização sustentável.

Sucena Shkrada Resk

21/04/2008 16:25
Parte 3 - A riqueza de histórias de vida, por Sucena Shkrada Resk

Um novo paradigma para a Agenda 21 - Pensar de forma local e agir globalmente. Essa foi uma das propostas discutidas na Roda de Conversa Histórias de Vida e Desenvolvimento Local, do I Festival Histórias em Movimento, promovido em São Paulo, no domingo (20).

Rui Mesquita, associado de programação da W.K. Kellogg Foundation, destacou a necessidade da intervenção da sociedade em decisões internacionais. "Além do desenvolvimento local é preciso ser ampliado ao âmbito regional e global", diz. Participantes do encontro citaram a importância de se voltar as atenções a eventos como a 5ª Cúpula dos Chefes de Estado e de Governo da América Latina e União Européia, que reunirá governantes, de 16 a 18 de maio, em Lima, Peru.

O coordenador de projetos também ressaltou que é preciso rever o conceito do jovem, como um eterno educando. "Apesar da boa fé por trás dessa definição, ela se choca com outro lado da moeda. A juventude está aqui para realizar seus sonhos e seus projetos políticos. Não é só um agente local", diz. E para exercer essa agenda utiliza o empoderamento, o associativismo e as redes juvenis. "Isso não é educação, mas uma ação política". Em sua opinião, as histórias de vida não podem ficar restritas ao ciclo juvenil. "O próximo passo é contar a história dessas redes", considera Mesquita.

O secretário de Programas e Projetos Culturais do Ministério da Cultura (MinC), o historiador Célio Turino, alerta que o desenvolvimento local não pode ser tratado isoladamente. "Senão, se transforma em guetos", diz. Turino propõe que cada vez mais, tanto os jovens, como qualquer cidadão, exercitem a expressão em primeira pessoa - (eu e nós). "É uma maneira de romper o quadro de alienação em relação ao outro, ao planeta e se perceber no mundo", afirma. Segundo ele, um case que ilustra essa proposta é o de Olinda Nova, MA, onde crianças e jovens são gestores de rádios e TVs comunitárias.

De acordo com o secretário, o MinC contribui para essa filosofia de participação, com o apoio aos projetos batizados de pontos culturais. Nos últimos 4 anos foram implementados 800 espaços no país, segundo ele. "Estamos lançando editais para mais 1,2 mil. O proponente apresenta o projeto, que tem como elemento comum, o estudo multimídia. Ao ser aprovado, recebe o valor de R$ 180 mil/anual, dividido em três parcelas", explica.
Sucena Shkrada Resk

21/04/2008 15:18
Parte 2 - A riqueza de histórias de vida, por Sucena Shkrada Resk

"Existem convergências entre as diversidades regionais, que por meio das histórias de jovens potencializam os projetos, que podem ser integrados. Conhecer a realidade é um ponto de partida". Essa é a constatação de Patrícia Cucio, representante do Coletivo Jovem de Meio Ambiente da Cidade de São Paulo, ao ouvir os cases da pernambucana Rejane e da maranhense Mirchelândia, durante o I Festival Histórias em Movimento, realizado em São Paulo, no último dia 20. A ambientalista considera que a sua geração defende hoje uma pauta muito mais ampla, que extrapola as políticas dirigidas somente à juventude. Com isso, atinge a transversalidade.

O princípio, de acordo com Patrícia, é o desenvolvimento local a partir do desenvolvimento integral do cidadão, unindo arte, cultura, saúde, educação e trabalho. Um conceito que a maranhense Micherlândia Freitas, 19 anos, leva à risca. "Faço parte do grupo de jovens comunicadores do Fórum Jovem. Mantemos uma rádio comunitária, uma revista que publica nossas atividades e estamos divulgando o CD Diga Não ao Trabalho Escravo, nos 11 municípios que integram a rede. A mobilização ainda reúne articulações nas áreas de arte e cultura, esporte e lazer e manutenção de diálogo com o poder público.

Para Isaque Menezes, 26, do Fórum da Juventude de Recife, PE, os exemplos das jovens nordestinas revelam que, apesar de todos os problemas enfrentados na região, existe uma efervescência das recentes gerações . "Demonstram outras formas de fazer política", diz. Segundo o mobilizador social, quando o case de Rejane, PE, traz a história da monocultura (ex: cana-de-açúcar), que é muito forte na região, o questionamento é o seguinte: "Como transcender esse parâmetro de desenvolvimento? Também temos de salientar os preconceitos regionais e a concentração de renda. E a pergunta seguinte é qual é o modelo de desenvolvimento viável?", diz.

Patrícia Cucio lembra que também há a prática de monocultura extensiva, em algumas regiões do estado de São Paulo. "E enfrentamos também preconceitos - quanto à própria regionalidade local - na maneira de falar, por exemplo, dos caipiras e caiçaras", afirma. As comunidades, segundo ela, também já se mobilizam contra grandes intervenções, como é o caso do projeto de construção da Usina Hidrelétrica de Tijuco Alto.

Segundo Germano Barros Ferreira, diretor do Serta (entidade localizada em Ibirimirim, no sertão do Moxotó, em PE, a 400 quilômetros de Recife), é preciso incluir a família em todo o processo de desenvolvimento. Também é necessário ver como é a participação da escola, se é regionalizada, incluindo tópicos, como animais, plantio e geografia regional. "E não pode ser esquecido o elemento da subjetividade - que congrega valores, crenças e religiosidade, que fazem parte do desenvolvimento local, que poucas vezes, a Ciência ocidental inclui", diz.

A profissionalização das associações é imperativa, de acordo com o gestor. "Precisamos pensar no apoio neste sentido, tendo como proposta a manutenção de Arranjos Produtivos Locais (APLs), como estrutura para geração de renda", afirma Ferreira.

Sucena Shkrada Resk

21/04/2008 14:04
A riqueza de histórias de vida, por Sucena Shkrada Resk

Rejane vive em Bacia do Goitá, na zona da mata pernambucana. Micherlândia é uma mobilizadora comunitária de Olinda Nova, a 350 km de São Luís, MA. Em comum, essas duas jovens têm como bastidor, um Brasil de dezenas de sotaques e cores, com tons rurais e urbanos, em que cidadãos buscam a dignidade por meio da sobrevivência com a agricultura familiar. Ao mesmo tempo, se unem contra o trabalho escravo, uma chaga que invade os rincões, e é umas das marcas do processo de emigração no país. Seus exemplos e de outros brasileiros são um alerta aos formuladores de políticas públicas e gestores, que se acomodam na confinação de seus gabinetes e universo de protocolos, deixando de lado seu principal papel: ouvir, conhecer e representar a população.

Sem medo de recomeçar
Na zona rural pernambucana da Bacia de Goitá, estima-se que vivam cerca de 90 mil habitantes, em quatro municípios. Nessa região, a fonte de renda e sobrevivência de grande parte da população é rural. Uma dessas famílias é a do agricultor Luís, pai de Rejane, que com quase 80 anos, dá uma belo exemplo de cidadania, pois não teve medo de aprender a tornar sustentável seu principal ofício - o cultivo da terra. "Eu plantava cana e fazia queimadas. Era um modo errado de trabalhar", conta o camponês. O resultado eram safras fracas, que não davam para o sustento de 15 filhos. Assim, muitos deles partiram para São Paulo, para procurar melhorar de vida.

Segundo Rejane, o ciclo vicioso da pobreza foi quebrado com o apoio do terceiro setor, por meio de instituições locais e do Instituto Aliança. Assim a família aprendeu a fazer adubo orgânico e técnicas de desenvolvimento local. "Agora usamos esse adubo em nossas plantações, são produtos naturais, que conservam nossa saúde. Até paramos de necessitar do uso de medicamentos", fala seu pai.

Além do consumo para a subsistência, os produtos começaram a aumentar a renda familiar, ao serem vendidos em feiras orgânicas do Recife. E a maior satisfação, segundo o "sr. Luís", foi bem maior, já que possibilitou que seus filhos voltassem ao poucos de São Paulo.

As narrativas de "sr. Luís" e Rejane foram expostas em um vídeo-documentário da W.K. Kellogg Foundation, e revelam em poucos minutos, que quando a comunidade se mobiliza, pode ser responsável por grandes transformações. Mas isso só é um indício para um processo bem maior, que não pode eximir a responsabilidade do poder público e das empresas.

A quilômetros de distância de PE, outra história de vida enriquece a pauta pública, no MA. Uma das imagens que estão marcadas na memória da jovem maranhense
Micherlândia, de 19 anos, é o dia em que seu tio partiu para tentar a sorte em Mato Grosso, para conseguir alcançar seu sonho: comprar uma moto. "Lá , ele foi vítima do trabalho escravo e perdeu a vida, quando o caminhão em que o transportava com outros trabalhadores, caiu numa ribanceira. Ele foi o único que não sobreviveu...", conta ela. Seu relato compõe o CD "Um milhão de Histórias de Vida de Jovens - Maranhão" com mais 38 histórias de cidadãos anônimos, produzido pela ONG Formação.

A estudante, que integra o Fórum da Juventude do municipio e de mais 10 cidades vizinhas, constata que a história de seu tio se assemelha a de inúmeros conterrâneos de seu município e no entorno. "Por semana, saem de dois a três ônibus, com jovens e adultos, que vão em busca de trabalho, pela carência de oportunidades na cidade", contou no último domingo, dia 20, durante uma roda de conversa no 1º Festival Histórias em Movimento, realizado no Centro Cultural de Juventude, na Vila Nova Cachoeirinha em São Paulo. O evento reuniu jovens de vários estados e foi uma iniciativa da Aracati Agência de Mobilização Social, Projeto Um Milhão de Histórias de Vida de Jovens e do Museu da Pessoa, em parceria com com W.K. Kellogg Foundation.

Mas isso não é motivo de desânimo. Segundo Micherlândia, uma de suas bandeiras e de inúmeras pessoas e instituições no MA é a luta contra o trabalho escravo no Brasil, principalmente no estado, que tem grande incidência de casos. "Muitas pessoas têm o pedaço de chão aqui, e precisa conhecer mais a realidade e ir atrás de políticas públicas para a população", considera. Ao mesmo tempo, a jovem revela esperança, ao citar o caso de Richardson, que tem perspectivas positivas de permanecer em Olinda Nova, pois persistiu nos estudos e agora está iniciando um empreendimento - uma pequena pousada, por meio de uma incubadora de empresas.

Ao ouvir os dois relatos, a gente faz uma reflexão além de nossos repertórios tão automatizados pelo mundo moderno. Poucos minutos de suas narrativas são suficientes para nutrir um mosaico de mais histórias e leituras- de personagens anônimos, que compõem o Brasil. É um momento de quebra de fronteiras de regionalidade, e dos paradoxos entre pobreza e riqueza. Afinal, cidadãos simples, que não usam o artifício da arquitetura da retórica, conseguem ser tão eficazes em seus discursos, passando seu recado em poucas palavras. Percebemos, que pobreza é não conseguir transcender e crescer diante das adversidades. Ou resumir uma ação diante da falta de um prato de comida ou de quilômetros de distância aos serviços básicos, à cesta básica e a promessas de palanque. Pobre é aquele que considera o discurso político, sinônimo de sabedoria, ou que o avanço tecnológico anda em sentido contrário à humanização e inclusão. Na verdade, pobre somos nós, que nos enebriamos na sociedade de consumo e esquecemos conceitos básicos de companheirismo e solidariedade.

Sucena Shkrada Resk

13/04/2008 21:44
Responsabilidade socioambiental só existe se a comunidade é ouvida, por Sucena Shkrada Resk

Discursos vazios que se repetem toda vez em que se fala sobre o universo da responsabilidade socioambiental não mais são aceitos pelo cidadão comum. Afinal os "chamados" pilares dos stakeholders querem assumir o protagonismo. Na análise de Daniela Reis, gerente de Comunicação da Vale (para a área de licenciamento ambiental), os exemplos se repetem cada vez mais em projetos nacionais e internacionais da empresa. É um processo que não tem volta. "Não dá mais para pensar que o público é somente a comunidade diretamente impactada. A pergunta que se faz hoje é - quem realmente é afetado? A resposta vem à reboque - toda a sociedade. Por isso, promover discussões pode antecipar até em 20 anos os riscos", diz a analista. Para isso, os mecanismos não precisam ser sofisticados e mirabolantes. Vale a velha e boa democracia, por meio de reuniões e audiências públicas.

Daniela afirma que as empresas não podem queimar etapas. É preciso esgotar os motivos que levam cidadãos a não querer determinado empreendimento. "Podem ser manifestações ideológicas, referentes à história da comunidade. Em Moçambique, por exemplo, uma comunidade não queria que uma árvore sagrada fosse tirada do local", conta. Já em outro projeto no Peru, a resistência era por causa da principal fonte de água de uma população. "Como existia uma preocupação com esse meio de subsistência, a empresa decidiu inserir na planta a dessalinização da água". De acordo com a gerente de comunicação da Vale, essas formas compensatórias, além das imposições das leis, são satisfatórias para ambos os lados.

No exercício de aproximação entre comunidade e empresa, a analista constata que até "o formato da linguagem, como um sotaque diferente" pode ser um fator de ruído. A experiência mostra que a "boa comunicação" não pode ficar restrita a departamentos. "Todo mundo, inclusive os engenheiros, têm de fazer esse contato fluir. O interlocutor tem de ser aceito pelos cidadãos. Caso contrário terá de ser trocado. Já tivemos essa experiência", conta.

Dentro da concepção de responsabilidade socioambiental, os embates e posições contrárias não podem ser vistas pela empresa como algo negativo, segundo Daniela. "Recentemente uma professora de Minas Gerais passou aos seus alunos do ensino fundamental informações sobre uma barragem que ia ser construída próximo à comunidade. Isso teve um efeito de multiplicação aos seus pais. Isso é sustentabilidade", afirma.

Todas essas iniciativas propiciam ajustes nas soluções e acordos, para que se evitem situações de litígios e até inviabilizações de empreendimentos. "A consciência sobre impactos (nessa leitura) vai além de empregos e impostos", constata a gerente de comunicação da Vale. A exposição foi feita pela analista, nesta semana, durante o debate Comunicação em Dois Tempos, promovido pela Fundamento Comunicação Empresarial, na Bovespa, em São Paulo.

Sucena Shkrada Resk

10/04/2008 11:36
O Cerrado e a sustentabilidade

Crédito das fotos: Sucena Shkrada Resk - 03/2008


Imagens tiradas do Cerrado- da área e entorno do sítio Cachoeira do Rosário, a 35 km de Pirenópolis, GO




Sucena Shkrada Resk

10/04/2008 11:28
Cerrado: Algumas imagens valem mais que mil palavras, por Sucena Shkrada Resk

Quem não se indagou em algum momento, se está sendo politicamente correto em pagar, para poder usufruir de belezas naturais? Com certeza, esse conflito cultural sobre os limites do direito público e privado, dá um nó em nossas cabeças constantemente. Mas ao fazermos uma imersão no tripé da sustentabilidade - que tem o viés econômico, humano e ambiental, algumas iniciativas, no mínimo, nos fazem refletir. E a sabedoria da máxima - uma boa imagem vale por mil palavras - , em alguns casos, tem pleno sentido. Neste artigo, o objeto de reflexão é um passeio ecoturístico a 35 km da cidade goiana de Pirenópolis, no meio do coração do Cerrado.

Lá, o empreendedor Demócrito Pereira montou um pacote, que agrega translado, visita à Cachoeira do Rosário, com 42 m de queda, caminhadas pela vegetação nativa de Cerrado, na área da várzea do Lobo (cujos guias são moradores locais), além de um almoço típico de fazenda. O turista não paga barato - aos padrões convencionais - dos chamados passeios de um dia, entretanto, a experiência local nos conduz a um case típico de uma tentativa de turismo sustentável, que segundo ele, só é rentável, no período de alta temporada. Algo que se repete em outros locais do Brasil.

Segundo Pereira, não é fácil financeiramente manter o empreendimento, sem agredir a natureza, e ao mesmo tempo, torná-lo sustentável, já que enfrenta as burocracias legais. Está quebrando a cabeça para impor a limitação de pessoas - a chamada capacidade de carga. A sua iniciativa e desafios se repetem com modelos diferenciados de planejamento e estrutura - em outros destinos no entorno. É interessante observar, que há muitas propriedades privadas, que integram hoje o roteiro turístico local, já que a única área pública oficializada, é o Parque do Pireneus, a 18 km de Pirenópolis, que é uma unidade de conservação com 2.833,23 ha.

Dentro das limitações, o que chama atenção ao se chegar à estrutura do receptivo da Cachoeira do Rosário, é a casa do turista. Construída com madeiras reaproveitadas, no sopé da área, apresenta um detalhe importante - não tem paredes. Por quê? Demócrito explica - "Para que o visitante veja um quadro vivo de cânions, montanhas e vegetação do Cerrado". E não é que o impacto visual é esse mesmo?...É uma imagem inesquecível...

O empreendedor goiano confessa que esse aprendizado veio com a experiência adotada por seu pai - o artesão moveleiro "Roque Pereira", que ganhou tradição pelo Brasil, com a fabricação dos móveis moldados em madeiras descartadas, que seguem o design criado pela própria natureza.

A preocupação com a preservação ecológica segue nos trajetos à Cachoeira e a outras caminhadas em meio à paisagem local. Somos guiados por moradores que nasceram na região - pessoas simples e com o repertório de conhecimento da terra, que não se aprende na academia. Batendo um papo com os jovens monitores, descobrimos que alguns deles viviam antes do trabalho braçal da retirada de pedras na região - que é uma questão muito polêmica socioambiental e, inclusive, do respeito à dignidade. Nessa nova empreitada, se sentem felizes em serem remunerados, para poder mostrar o habitat onde nasceram e cresceram.

E nessa atual oportunidade de empregabilidade, colocam ao turista, de uma forma coloquial, o quanto é importante a preservação ambiental, já que lidavam há pouco, com a dicotomia de retirar bens naturais, para a indústria e comércio de pedras. O impacto ambiental dessas intervenções é possível de ser visto no caminho das estradas de terra, que leva à região. O solo desgastado e o pretume deixado, no resto da extração, é uma cena desoladora.

Enfim, quem sabe, se este empreendedor, como tantos outros, tivessem uma assistência maior das autoridades oficiais e dos especialistas, não poderia tornar essa atividade econômica socioambiental mais profissionalizada, possibilitando que os trabalhadores tivessem acesso à continuidade da educação formal e aprendizado sobre as espécimes nativas (extra à sua sabedoria autodidata), que não pode - de forma alguma - ser descartada. Aí está uma riqueza insubstituível de brasilidade.
Assim gerando mais renda, qualidade de vida e, porque não, felicidade. Afinal, nada melhor do que poder ganhar o sustento respeitando o meio ambiente, sem ter necessidade de migrar, para tentar a sorte.

Sucena Shkrada Resk

09/04/2008 15:25
Ciência e Cidadania

Crédito da foto: Sucena S. Resk
"Como cientistas e cidadãos estamos preocupados com a epidemia que atinge principalmente o Rio de Janeiro. Mas não podemos queimar etapas na pesquisa da vacina contra a dengue. Agora iniciaremos a fase de pesquisa clínica. O tempo da Ciência é mais prolongado, e temos de avaliar todos os aspectos de segurança à saúde, antes que seja distribuída em escala para a proteção da população. O importante a alertar é que, independente da vacina, a melhor prevenção é o combate contínuo aos criadouros do mosquito Aedes aegypti".

Dr. Otávio Azevedo Mercadante, diretor do Instituto Butantan
Sucena Shkrada Resk

09/04/2008 14:47
Otávio Azevedo Mercadante, diretor do Butantan, fala sobre o papel cidadão da ciência


Apesar de estarmos na chamada sociedade do conhecimento, ainda existe um longo percurso para aproximar cada vez mais o cidadão comum do universo da Ciência. Em entrevista ao Blog Cidadãos do Mundo, o diretor do Instituto Butantan, Otávio Azevedo Mercadante, conta como a instituição centenária reconhecida pelo seu know-how em produções de vacinas e pesquisas busca, desde a época do pioneiro cientista Vital Brazil, estreitar este laço - por meio do contato mais próximo à comunidade. O pesquisador destaca ainda o empenho da unidade pública estadual paulista em uma das principais pesquisas em andamento hoje no Brasil: a vacina contra dengue, alertando que, tão importante quanto essa possibilidade de combate à doença, é a ação contínua de prevenção.

Por Sucena Shkrada Resk

Cidadãos do Mundo - Quais são as principais ações do Instituto Butantan hoje, no âmbito da inserção e cidadania?

Dr. Mercadante - O principal trabalho é junto às escolas, promovendo orientação em educação e saúde, a estudantes das redes pública e privada, desde a pré-escola ao ensino médio. Por ano, são atendidos aqui cerca de 80 mil alunos em visitas monitoradas, extra as visitações individuais. Desde a fundação do Butantan, com Vital Brazil, mantemos essa filosofia. Naquela época, o foco principal era a população que trabalhava no campo, e sofria com freqüência, acidentes com animais peçonhentos.

O que chama até hoje a atenção, principalmente das crianças, são as cobras, muito mais que as vacinas (rs..). E por meio dessa curiosidade, aproveitamos para promover a educação ambiental, destacando que os répteis (como outros animais), pertencem ao meio ambiente e precisam ser preservados, para a manutenção das espécies, das pesquisas em saúde, e para a sustentabilidade do ecossistema. Passamos assim informações sobre a importância da natureza e respeito ao meio social - como a importância de jogar o lixo no lixo, manter silêncio para ouvir as orientações, e não estressar os animais. Essas pequenas dicas de convivência também fazem parte do nosso papel como cientistas.Outro enfoque de nosso trabalho são as dicas de prevenção a acidentes e primeiros-socorros.

Com o passar dos anos, nós - como pesquisadores - também fomos mudando nossos paradigmas, tanto que readaptamos os espaços físicos do Butantan para alojar as cobras, reproduzindo o mais fielmente possível seus habitats naturais, com espécies compatíveis e com poucos exemplares em cada ambiente. Isso é uma forma de respeito aos animais.
Dentro deste conceito, também deixamos de realizar as demonstrações públicas de extração de veneno (das espécies peçonhentas), porque estressa muito o animal. Afinal, não há necessidade dessa exposição, já que a finalidade é a pesquisa sorológica. E para haver o melhor aproveitamento por parte dos estudantes, são formados grupos máximos com 20 pessoas, que têm uma imersão de cerca de 2h, no Instituto.

Estamos fechando convênio com a Secretaria de Estado da Educação, para atender um total de 160 estudantes semanalmente, além de nossa demanda, que vai integrar a partir de agora, uma atividade curricular da escola pública, que envolve visitas a outros museus na cidade de São Paulo.

Tudo isso é gratificante. Toda vez que recebemos uma pessoa aqui, não é difícil ouvir - "quando eu era criança...eu vim aqui no Butantan". E hoje, essas pessoas também trazem seus filhos, netos ou alunos. A população - principalmente paulistana - tem essa experiência, que integra nossa história. Até se perguntarmos aos biólogos ou zoólogos, entre outros profissionais, que trabalham conosco, fazem alguma referência semelhante. Isso tudo nos impulsiona a qualificar cada vez mais o nosso ambiente, para atender aos visitantes.

Cidadãos do Mundo - Dr. Mercadante, em sua opinião, quais são os principais desafios da Ciência para se aproximar cada vez mais da sociedade?

Dr. Mercadante - Um ponto importante é questionar o mito do conhecimento mágico atribuído aos cientistas, que acabou acarretando esse distanciamento. Por isso, é essencial incentivar as vocações a partir da infância e juventude. Aqui no Butantan, realizamos anualmente, uma Semana da Ciência e Tecnologia, quando é organizada uma série de atividades para colocar o pesquisador em contato direto com os alunos do ensino médio. Neste momento, os profissionais mostram para que servem as aparelhagens de pesquisa, o que estão pesquisando etc. Ainda mantemos visitas agendadas ao Museu de Microbiologia, que aproxima o cidadão comum do universo científico.

Mais um aspecto que pode causar o distanciamento é a desvalorização do pesquisador, que ainda existe no país, por uma questão cultural e, até, salarial. E a ciência precisa estar mais atrelada à tecnologia e inovação. Desde os bancos das salas das universidades, o futuro cientista tem de se questionar sobre o que representa esse caminho para ele, e saber da responsabilidade social, que existe em seu papel.

Por todas essas questões, muitas vezes, a sociedade questiona por que tanto do orçamento dos Estados vai para as universidades públicas. E para que é necessário o avanço do conhecimento. Muitas pessoas não conseguem relacionar o papel do cientista com a melhoria da qualidade de vida, das condições de moradia, do ar, do transporte e no combate às doenças...

Dessa forma, a sociedade começa a cobrar mais respostas. E ao mesmo tempo, as novas gerações de cientistas também começam a se questionar sobre a importância do novo paradigma da ciência. E isso é muito positivo.

Cidadãos do Mundo - As pesquisas sobre vacinas e novos medicamentos geralmente levam anos até que os resultados possam ser usufruídos pela sociedade. Como é o caso da pesquisa da vacina contra a dengue, que está sendo realizada no Butantan. Gostaria que o senhor falasse sobre o andamento deste projeto e sobre a epidemia que hoje é um problema grave de saúde pública no país, em especial no Rio de Janeiro.

Dr. Mercadante - O essencial é que haja o controle sobre a proliferação da fêmea do mosquito Aedes aegypti, que é a transmissora da doença. Na minha avaliação, perdemos a batalha hoje, por questões ambientais e de prevenção. Durante décadas, no Brasil, criou-se uma expectativa de erradicação da doença, algo não realista, sem haver um controle maior sobre o vetor. E em 2002, houve uma grande número de casos. Diante dessas situações, o controle tem de ser imediato e contínuo.

Por parte dos cidadãos, o ideal é que o controle dos focos sejam feitos semanalmente em suas casas, e ao poder público cabe a orientação, fiscalização e ações mais efetivas para diagnóstico e tratamento de sintomas. O que a gente percebe é que o sistema de saúde e muitos profissionais não estavam preparados, principalmente no RJ.

É importante se ter em mente que um caso pode se transformar em 40 em um curto espaço de tempo. O mais grave hoje é o fato de muitos casos serem com crianças (mais sensíveis) e de dengue hemorrágica. Houve uma falha na assistência. No aspecto científico, a tendência é que se diminuam os casos, num prazo de dois meses, por causa das condições climáticas, com a chegada do inverno, quando há menos incidência de chuvas. Também muitas pessoas podem ser picadas pelo mosquito infectado, mas não contrair a doença.

A principal mensagem que posso passar é que ninguém pode se acomodar. A vacina que estamos pesquisando é contra os quatro tipos de dengue hoje conhecidos. Ela é um elemento a mais aos hábitos de prevenção, que devem ser permanentes, contra os criadouros do mosquito. A estimativa é que as pesquisas estejam concluídas em cinco anos.
Sucena Shkrada Resk

07/04/2008 10:16
Pirenópolis: sob um olhar de fora, por Sucena Shkrada Resk








Crédito das fotos: Sucena S.Resk


De Ouro Preto, MG, diretamente para Pirenópolis, GO. Esse é o trajeto escolhido pelo artista plástico Mirim Santos, 33 anos, que já é uma personagem conhecida na cidade histórica goiana. Em frente à Igreja do Carmo, ele pinta aquarelas que retratam a paisagem com seus detalhes arquitetônicos e naturais das cercanias, envolta pelo Cerrado. Autodidata, ele conta que essa relação mais próxima começou, quando foi executar um trabalho de restauro, em 1997, na mesma igreja. "Depois deste primeiro contato, quis ficar aqui, porque me sinto muito bem", afirma.

Mas o mineiro, que vestiu a roupagem goiana, sem perder as raízes (quem conhece Ouro Preto compreende essa afirmação...) não se limita às pinceladas e matizes de suas obras. "Desenvolvo voluntariamente com crianças carentes, aulas de capoeira. Esse é um outro lado da situação socioeconômica da cidade, que enxergo, e tento colaborar", diz. Santos faz uma leitura sobre essa dicotomia entre a beleza e a realidade. "Deveria haver um olhar mais atento por parte dos gestores e, inclusive, turistas, para essas questões", analisa.

O artista ainda se desdobra em mais uma faceta nas noites de Pirenópolis, e toca percussão. Segundo ele, todas essas atividades o completam. E para iniciar mais um dia - revela qual é o seu segredo - "Medito às 4h da manhã", diz.

Bem, não é difícil entender o porquê de tanta inspiração. Basta abrir a janela e ver o verde que desponta no alto das chapadas e nas planícies, sob o céu de brigadeiro - que é comum no Cerrado - e ver aquelas construções centenárias - em sua maioria, bem preservadas - que dão uma sensação, que mistura satisfação e paz.
Sucena Shkrada Resk

06/04/2008 20:48
Pirenópolis (GO) - A tradição das máscaras pulsa na Festa do Divino, por Sucena Shkrada Resk

Texto:Legenda: A arte da confecção das máscaras é tradição da Festa do Divino, em Pirenópolis, GO (obra de Maria de Lourdes Oliveira Leite)


crédito das fotos: Sucena S. Resk

Papel e grude (polvilho e água) mais uma boa dose de criatividade na escolha das cores e expressões. Aí estão os ingredientes que a artesã Maria de Lourdes Oliveira Leite, de Pirenópolis (GO), usa e abusa para criar seus personagens estilizados no formato de bois, rostos e onças, destinados a compor os adereços da Festa do Divino, realizada no município, há 189 anos. A tradição portuguesa é comemorada entre maio e junho, 50 dias depois da Páscoa, e tem outros elementos folclóricos agregados, como as Cavalhadas (remete a um embate entre mouros e cristãos a cavalo), que já surtiu frutos - com a "Cavalhadinha". A versão infantil é realizada dez dias após o evento, que reúne os adultos, e perpetua a manifestação folclórica no município e redondezas.

Como na produção de peças de cerâmica, os moldes das máscaras vão ao forno, só que a uma temperatura média de 150º, para que possam ser pintadas, o que resultará no acabamento. É a união do prazer da arte com a geração de emprego, não só a Maria de Lourdes, como a outros artesãos anônimos do município.

"No meu caso, o trabalho é uma fonte de renda adicional importante ao meu comércio e já ganha reconhecimento fora do país, como EUA, Itália e Alemanha. A gente fica contente, porque os turistas estrangeiros também valorizam nossa cultura", diz.

"Eu aprendi a fazer os bonecos com uma artesã daqui mesmo, quando tinha sete anos, e não parei mais. Apesar de usar moldes, nenhuma peça sai igual a outra, porque tiro uma foto antes, para fazer algo novo na próxima", conta. Segundo Maria de Lourdes, aí está a riqueza da arte, que já está sofrendo os impactos do mercado global.

"Iniciamos uma campanha contra as máscaras de borracha, que começaram a tirar o sentido da tradição, nos últimos tempos ", diz.

Sucena Shkrada Resk

06/04/2008 19:03
Pirenópolis (GO) - um olhar sobre a preservação, por Sucena Shkrada Resk


Legenda: Moradora de Pirenópolis tem suas raízes fincadas no município goiano.

Legenda: Município em dias de feriado lota e é um contraste à tranquilidade na baixa temporada

Crédito das fotos: Sucena S. Resk_03/2008

Uma história de cumplicidade...
Já se contabilizam algumas décadas...E a cena se repete rotineiramente pelas primeiras horas da manhã, na cidade histórica de Pirenópolis, GO. "Dona Clarice" conserva a vitalidade da juventude, no apogeu de seus 85 anos, ao sentar-se sobre a calçada de pedras de quartzito, próximo à sua casa centenária, e iniciar um dedinho de prosa com os vizinhos. A cena chama a atenção - pela simplicidade da atmosfera interioriana. É inevitável não retribuir "um bom dia" e, de repente, puxar papo, para degustar histórias, que contam um pouco da tradição local.

"O dia dos velhos é comprido, por isso, todo dia, mais ou menos às 7h da manhã, venho para cá, e assim o tempo vai passando e sou feliz", diz a tradicional moradora, que tem suas raízes fincadas no município goiano. "Meus avós nasceram aqui. Naquela época tinha muitos coronéis e fazendas, e tudo se fazia à cavalo...", relembra.

Ao recobrar suas memórias de infância, "dona Clarice", afirma orgulhosa, que Pirenópolis também foi arrojada na história do Estado. "Um dos primeiros jornais de Goiás nasceu aqui. Foi a Gazeta (Matutina Meyapontense)', conta.

A bisavó goiana construiu no município, uma longa história de vida com o seu falecido marido, criando 4 filhos com muito esforço. E, hoje, ela se diz realizada, por poder presenciar a perpetuação de sua família, que já conta com 8 netos e quatro bisnetos.

Viúva há 20 anos, ela garante que não nunca pensou em mudar de lá, em todos esses anos. "Só nesta casa, moro há 50 anos. Gosto daqui e da minhas coisas, e tento deixar tudo arrumado. O Patrimônio Histórico exige que seja assim, com janelas e portas de madeira e quadro de força escondido. Eu concordo. A minha casa tem mais ou menos 200 anos", fala.

A consciência sobre a importância da preservação é algo latente no discurso da tradicional moradora, que chegou a ser "enfermeira prática", na cidade de Anápolis, professora rural em Pirenópolis, e por mais de 50 anos, costureira - ofício do qual confessa mais se orgulhar. "Já fiz muita roupa de casamento e de mortalha...", fala.

E nesse vaivém da memória, o saudosimo bate. "As coisas estão mudando com o tempo. Tem tanta gente que veio morar na cidade, que nem conheço. O crescimento trouxe bons e maus benefícios. É importante a chegada de pousadas e restaurantes, mas o barulho é demais à noite, e ao mesmo tempo, começou a ter assaltos", afirma a moradora.

Segundo ela, com isso, hoje já não dá mais para ficar com a porta de casa aberta, como era possível há décadas passadas. "Temos guardas na rua, e há tempos atrás nem sonhávamos com essas mudanças. O progresso melhora num ponto e piora no outro", analisa a moradora.

O delicado convívio entre o antigo e moderno

"Dona Clarice" vive no centro histórico de Pirenópolis, que é formado por construções preservadas dos idos dos séculos XVIII e XIX - e conserva detalhes arquitetônicos e históricos, que resultaram em 1989, em seu tombamento, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Encravada sob a Serra dos Pireneus e distante apenas 120 quilômetros de Goiânia e a 150 km de Brasília, o munícipio goiano faz com que se viaje no tempo, quando ainda era o vilarejo de Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meya Ponte. Esse perfil só é quebrado com a leva de turistas aos feriados e finais de semana, que lotam a cidadezinha à procura de história, diversão, gastronomia típica - com os famosos empadões goianos e arroz com pequi - e o turismo ecológico, já que fica em uma área rica em biodiversidade do Cerrado. Nessa hora, a constatação da antiga moradora se materializa, sendo um bom indicador para se repensar o planejamento de um turismo com bases mais sustentáveis.

Sucena Shkrada Resk

01/04/2008 13:47
Parte 4 - No caminho da Política Nacional de Mudanças Climáticas, por Sucena S. Resk

Reflexões ambientais no século XXI

O deputado federal Antônio Carlos Mendes Thame - autor do projeto substitutivo para a adoção do Plano Nacional de Mudanças Climáticas, define o documentário “Uma Verdade Inconveniente”, do ex-vice-presidente norte-americano, Al Gore, e o relatório de Nicholas Stern, ex-chefe do Banco Mundial (Bird) e atual assessor do primeiro-ministro da Inglaterra, como alertas para que a comunidade mundial “aja” e saia do comodismo. “Stern sugere o investimento de 1% do PIB mundial na redução dos gases do efeito estufa, para evitar de 5 a 20% de emissão nos próximos 20 anos”, explica.

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), coordenado pela Organização das Nações Unidas (ONU), que reúne 2,5 mil cientistas, concluiu que o Aquecimento Global decorre de ações antrópicas (humanas). Thame questiona a atribuição da prevalência do homem como principal causador. “A questão não é ser antrópico ou não, mas agir com medidas efetivas de precaução”, afirma.

Os cenários previstos pelos pesquisadores vão desde o mais pessimista ao mais otimista, dependendo das ações de mitigação. “Para que a temperatura suba menos de dois graus, precisa haver até 2020, a redução em 25% da produção dos gases de efeito estufa, com base em 1990. Os impactos previstos nos oceanos, se a temperatura aumentar em 1,8º C, é de 30 a 60 cm, nos próximos 100 anos. “Mas nesses 18 anos já aumentaram muito as emissões”, rebate o autor do projeto substitutivo que preconiza as diretrizes do Plano Nacional de Mudanças Climáticas.

A ameaça da desertificação no Brasil, principalmente na região do Vale do Jequitinhonha, e em contrapartida, a presença de grandes inundações no país, é mais uma das prospecções ameaçadoras.

“Um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), por exemplo, prevê que se a elevação do mar for de 6m (como destacado por Al Gore), pode cobrir toda a região do Corcovado, Leblon, Ipanema, no Rio de Janeiro”, diz Thame, referindo-se a uma matéria veiculada na Revista Veja, em 2005. Outros pontos do território nacional, como a Ilha do Marajó, Santos e Atafona, este último, no RJ, também poderiam ser afetados.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) também estudam os efeitos de perda na área agrícola, segundo Thame. “Se subir a temperatura em 1ºC, a perda de produção de café pode ser na ordem de 23% e da soja 10%, entre outras”. E se a visão pessimista de cerca de 2º de aumento ocorrer, o processo de fotossíntese será prejudicado. “A Amazônia, dessa forma, virará cerrado ou savana”.

* O deputado federal Antônio Carlos Mendes Thame realizou a palestra sobre Aquecimento Global, na última segunda-feira (31 de março), na secção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP)

Sucena Shkrada Resk

01/04/2008 13:43
Parte 3 - No caminho da Política Nacional de Mudanças Climáticas, por Sucena S. Resk


Uma longa história de negligência ambiental


Desde a década de 70, se fala do problema do desmatamento das florestas, da erosão dos solos agricultáveis, da agricultura predatória, da diminuição da produção pesqueira (maior fonte protéica da população costeira) e da escassez de água. “Só não se discutia a agroenergia – que é uma pauta mais recente”, afirma o deputado federal Antônio Carlos Mendes Thame.

Segundo o advogado e também engenheiro agrônomo, com o advento da Eco 92, houve a canalização de esforços no sentido de se fazer um mapeamento da situação “real” do planeta, praticamente dois séculos pós Revolução Industrial, e se começou a estudar sistematicamente o efeito estufa. “A espessura da atmosfera é de 100 km, mas 75% dos gases se concentram em menos de 12 km da superfície da Terra. Com isso, existe um efeito estufa positivo e negativo, quando os raios solares penetram nessa camada e voltam à atmosfera”, explica o especialista.

O lado negativo é provocado pelas emissões excedentes de CO2, decorrentes principalmente da queima de combustíveis fósseis; da produção de gás metano, da queima de material orgânico e do óxido nitroso dos sprays, entre outros. “Esse material forma uma camada que impede que os raios retornem à atmosfera, provocando o aquecimento. O resultado é que a temperatura média da Terra, que era de 14º C passou para 15º C”, diz Thame.

O que toda comunidade científica já constatou é que a diminuição crescente do fluxo normal desses gases pode ser desastrosa para a manutenção da vida. “Se não fosse esse fluxo, a Terra poderia ser como Marte, que não tem CO2 e mantém uma temperatura média de menos 50º C ou igual a Vênus, com cerca de 420º C”, compara. Enfim, é uma incógnita para onde caminha o futuro do planeta.

Mas nada aconteceu de um dia para o outro, como afirma Thame. “A produção desses gases começou a crescer após a primeira fase da Revolução Industrial, em 1760, com o advento da máquina a vapor. Surgiram as marias-fumaças, que precisavam de carvão e madeira – principalmente na Inglaterra e Austrália”, explica.

Na segunda fase, em 1850, o motor à combustão interna, introduz os combustíveis à petróleo e diesel. “Surge a eletricidade, que precisa de gás, carvão, madeira e petróleo. Com isso, a produção de CO2, que era de 280 partes por milhão na primeira fase, passa para 310 partes por milhão. E no século XX, depois dos anos 60 até o ano 2000, com a curva ascendente de intensa industrialização, essa proporção subiu em 17%”, alerta.

Efeitos em cascata
Nesse ciclo histórico, o que a comunidade de pesquisadores já avaliou, é que a temperatura média da Terra aumentou 0,6 º C nos últimos 100 anos e, especificamente nos pólos, a quase 2º C. “A conseqüência é o derretimento das geleiras, como na Patagônia, no Glacial Pasterze, nos Alpes, e no Monte Kilimanjaro”, exemplifica Thame. Ao mesmo tempo, outras regiões sofrem o processo de desertificação, como a Tanzânia e a África.

“Na minha opinião, é uma das piores situações. E as regiões semi-áridas dos países tropicais – como o Brasil – tendem a ficar áridas. Cada vez mais as pessoas têm de andar quilômetros. A humanidade não pode ficar indiferente a isso”, alerta.

O autor do projeto substitutivo da Política Nacional de Mudanças Climáticas lembra que em 2005, houve o reflexo da seca no rio Amazonas, depois de 100 anos. “Foi algo inesperado. Tudo isso se deve a essa variação de 0,6 º C”, considera.

O planeta começou a conviver com um número maior de ciclones e furacões, que passaram das categoria 1 e 2, para 3 e 4. “Em 2004, por exemplo, houve o fenômeno do furação Catarina”, diz o parlamentar. As mudanças também afetam os ecossistemas. “Ocorreu o desaparecimento de corais, o aparecimento de fungos resistentes e, inclusive, redução das abelhas, que já afetam a produtividade agrícola”. E o ser humano começou a padecer de doenças, que pareciam extintas. “Os vetores passaram a ter condição de multiplicação, com o aumento da temperatura”, explica.

* O deputado federal Antônio Carlos Mendes Thame realizou a palestra sobre Aquecimento Global, na última segunda-feira (31 de março), na secção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP)
Sucena Shkrada Resk

01/04/2008 13:40
Parte 2 - No caminho da Política Nacional de Mudanças Climáticas, por Sucena S.Resk

Mecanismos de indução

Hoje a grande indagação em todos os cantos do planeta é como induzir as ações para reverter o processo do aquecimento global. De acordo com o parlamentar Antônio Carlos Mendes Thame - autor do projeto substitutivo para a implementação das diretrizes do Plano Nacional de Mudanças Climáticas, isso acontece, por meio de legislação eficiente, investimentos em infra-estrutura e fiscalização, e com a conscientização da sociedade.

“As leis têm tanto o aspecto estático e dinâmico. Esse último induz o comportamento do cidadão, que faz ou deixa de fazer algo que a sociedade considere deletério. Nós somos condenados em função dos princípios, mas o comportamento é conseqüência também de nossos valores”, avalia Thame.

Segundo o autor do projeto substitutivo sobre as diretrizes da Política Nacional de Mudança Climática, essa mudança pode ser traduzida de diferentes formas, tendo como base a mudança dos padrões de consumo estabelecidos pelo mote da publicidade. “A consciência ambiental não influencia somente o indivíduo. Esse, por sua vez, começa a cobrar que as empresas sejam ecológicas e a exigir mais ações do governo. A sustentabilidade é esse valor agregado, que une meio ambiente, trabalho e marketing, entre outras áreas”.

Mas na análise do parlamentar, a soma de todas essas ações ainda são insuficientes para remediar os efeitos destrutivos do aquecimento global. “Como diz o ex-chefe do Banco Mundial (Bird), Nicholas Stern, essa situação é resultado de uma falha de mercado, em que não se pensou nos efeitos colaterais, mas somente se levou em conta a produção e os insumos nesses últimos 240 anos”, afirma.

A mitigação, segundo Thame, só poderá ocorrer por meio de medidas mandatórias – legais – e administrativas. “Isso quer dizer ações como, incluir a desoneração na taxa de carbono, quando houver remediações positivas e investir principalmente em pesquisa. É preciso ficar claro, que um país sozinho não consegue reverter um problema global”.

* O deputado federal Antônio Carlos Mendes Thame realizou a palestra sobre Aquecimento Global, na última segunda-feira (31 de março), na secção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP)
Sucena Shkrada Resk

01/04/2008 13:32
Parte 1 - No caminho da Política Nacional de Mudanças Climáticas, por Sucena S.Resk


Nunca se falou tanto em mudanças climáticas, como hoje. Entretanto, desde 1972, com a instituição da Declaração de Estocolmo, pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) – que é considerada um dos princípios do Direito Ambiental -, esse tema tem sido discutido mundialmente com mais regularidade. “Agora, 35 anos depois, o que melhorou? – quase nada. Hoje enfrentamos dois graves problemas ambientais – a escassez de água generalizada no planeta e o aquecimento global”, diz o advogado e engenheiro agrônomo Antônio Carlos Mendes Thame, deputado federal responsável pelo projeto substitutivo sobre as diretrizes da Política Nacional de Mudanças Climáticas, que tramita no Congresso Nacional, desde 2007*.

O efeito mais grave dessas conseqüências anunciadas é o de caráter humanitário, que ele define como o risco dos “refugiados ambientais”. “Cerca de 200 mi pessoas das áreas costeiras serão vítimas das inundações, e de 30 a 200 mi correm o risco da fome, se o cenário mais pessimista ocorrer, do aumento de 2 a 3º sobre a temperatura dos anos 90”, afirma.

A conseqüência reversa dessa situação catastrófica só pode ocorrer sob o tripé da vontade política, que envolva executivo, legislativo e sociedade, segundo Thame. “Precisamos reduzir em 50% os gases do Efeito Estufa”. Para isso, tanto as nações industrializadas e desenvolvidas – que são as maiores emissoras – e os países em desenvolvimento, sem exceção – têm de diminuir o uso de combustíveis fósseis e a devastação das florestas e, ao mesmo tempo, promover a maior eficiência energética e aumentar a utilização de combustíveis renováveis.

Nesse hall dos países mais poluidores do planeta estão EUA, União Européia, Rússia, Japão, Canadá e Austrália ao lado da China, Brasil, Índia, Indonésia, México e África do Sul.

Segundo Thame, o Brasil, nesse contexto, tem a obrigação de desenvolver as tecnologias limpas. “Não precisa crescer como a China. O país tem uma matriz energética limpa, com as hidrelétricas e o biocombustível. No meio deste ano, o consumo do Etanol deverá superar o gasolina”, diz o especialista.

Por outro lado, ele afirma que não pode ser esquecido o grande passivo ambiental brasileiro – com a devastação das florestas. “Destruímos 18% da Amazônia e 4% já viraram deserto. Existe uma posição acomodada. É preciso a pressão popular sobre os dirigentes e a implementação da reforma tributária, para que seja viabilizado o investimento em energia renovável”, defende.

* O deputado federal Antônio Carlos Mendes Thame realizou a palestra sobre Aquecimento Global, na última segunda-feira (31 de março), na secção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP)
Sucena Shkrada Resk

01/04/2008 00:03
Rodada Financiamento Sustentável




Crédito da foto: Sucena S. Resk




Frases:

"Não podemos nos iludir. Os conceitos ainda são marginais de que a sustentabilidade entrou na indústria financeira. O que tem de variar são as ferramentas. É preciso aproveitar, por exemplo, as tecnologias sociais, em parcerias com Organizações não governamentais (ONGs) para promover soluções inovadoras... E se fosse aplicado meio por cento do dinheiro dos fundos de pensão, por exemplo, dobrariam os investimentos socialmente responsáveis".

Mario Monzoni, coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV)


Sucena Shkrada Resk

31/03/2008 13:29
O financiamento sustentável além do discurso, por Sucena Shkrada Resk

O compromisso das instituições financeiras na área socioambiental é um máxima de mercado, que não tem como voltar atrás. Esse foi o eixo central da rodada Finanças Sustentáveis do evento Sustentabilidade em Pauta Internacional, promovido pelo Instituto Cultural Itaú e parceiros, em São Paulo, no último dia 28 de março.

A diretora da instituição internacional SustainAbility, Jodie Thorpe, constata que as empresas estão sendo "muito lentas" para agir e reagir na área de sustentabilidade. "Tantas ações poderiam ter evitado tragédias humanas e prejuízos econômicos, como na África", afirma. Segundo a consultora, hoje os investidores internacionais buscam mudanças a longo prazo, que envolvam ações de empresas emergentes sobre os desafios climáticos.

"O United Financial da Organização das Nações Unidas (ONU), que trata de alguns indicadores de responsabilidade e governança socioambiental corporativa são importantes. No setor energético, por exemplo, avanços em questões ambientais e governamentais podem tornar as empresas mais lucrativas e de interesse de investimento futuro", diz.

Segundo Jodie, atualmente são aplicados US$ 13 tri para aumentar a qualidade de análise em investimentos sociais e para agregar valor às empresas. "No setor financeiro, os bancos também estão mudando os conceitos. No passado, viam suas responsabilidades sociais somente voltadas ao papel reciclável e à redução de gastos de energia. Atualmente avaliam que a agenda é muito mais que isso - é a responsabilidade no empréstimo", afirma.

A consultora internacional cita como exemplos a iniciativa da Morgan Stanley, ao estabelecer o critério do risco de carbono em investimentos em usinas elétricas e da adoção de um novo índice de empresas com contribuição às mudanças climáticas, pelo HSBC.

Cidadãos não querem saber de discurso de marketing
Essas transformações se devem em grande parte à cobrança da própria sociedade. Paulo Itacarambi, diretor-executivo do Instituto Ethos, diz que essa avaliação pode ser constatada nos resultados da publicação recente da 6ª edição da Pesquisa do Intituto Akatu em parceria com o Ethos - Responsabilidade Social das Empresas - Percepção do Consumidor Brasileiro. "Continua alta a expectativa das pessoas quanto ao impacto dos processos operacionais. Os cidadãos cobram a eliminação de impactos negativos e uma participação efetiva na agenda pública do bem comum", diz.

As questões levantadas, segundo ele, são o desequilíbrio social, apesar do crescimento da Economia e os valores de coesão da sociedade. "Os valores de coesão da sociedade, como integridade, respeito, honestidade estão sendo perdidos. E as pessoas têm a expectativa de que as empresas contribuam contra esse processo. Ao mesmo tempo está caindo o nível de crédito da sociedade de que as empresas vão agir", resume Itacarambi.

De acordo com o diretor do Instituto Ethos, em 2000, 39% dos entrevistados buscavam premiar as empresas. "Agora, esse percentual foi reduzido a 24%. Também caiu o número de pessoas que pensam em punir, de 35% para 27%. Está diminuindo a boa vontade da sociedade para com as empresas. O questionamento é que as divulgações são marketing puro", afirma.

Diante dessas cobranças, Itacarambi questiona os discursos socialmente responsáveis. "Muitas empresas dizem que são 60 anos socialmente responsáveis, mas a mensagem implícita é de que não vai mudar nada", diz.

No campo da administração pública, cresceu o número de pessoas, de acordo com a pesquisa, que querem que o governo regule a responsabilidade social empresarial (64%). "As pessoas acham que têm pouca possibilidade de interferir. Estamos diante de uma ameaça. No início dos anos 90, a discussão do comportamento das empresas estava na política e elas eram consideradas a fonte do mal. Veio a responsabilidade social e hoje, levam "pedrada", sem receio. Mas o perigo é se direcionar às mudanças só ao campo da política, daí fica difícil fazer as mudanças reais", considera.

Itacarambi defende que haja a reversão do fluxo de capital. "Temos de mudar o critério do financiamento das construções. Se olharmos a edificação em todo o período de vida útil (consumo de água, energia etc), os critérios serão diferentes. O mesmo princípio vale para os outros setores da economia. O mote é fazer uma atividade com retorno positivo para todos", finaliza.

O alerta do diretor-executivo do Instituto Ethos é que Os Princípios do Equador, elaborado em 2003, como um parâmetro para o setor das instituições financeiras sobre determinação, avaliação e gerenciamento de risco ambiental e social em financiamento de projetos, ainda é limitado.

O vice-presidente do Itaú, Roberto Matias, constata que há necessidade de haver atitudes mais pró-ativas no setor. "A sociedade não quer só discurso. Quem não faz seu papel deve ter algum tipo de punição. A política não deve tutelar a sociedade com relação às finanças sustentáveis", diz.

Segundo o executivo, os bancos não vão perder o atributo de fomento de investimentos, se agir dentro do equilíbrio ecológico e da responsabilidade social. "Os próprios bancos são emissores indiretos do gás de efeito estufa, com as suas inúmeras frotas de carros, viagens. Não se concebe a idéia de uma corporação eco-eficiente, sem ações básicas desde o consumo de água ao material de escritório", afirma. E sua responsabilidade vai mais adiante, ao liberar financiamentos a atividades ilegais. "Ao financiar empresas, por exemplo, que contribuem com o assassinato do rio Tietê, estamos sendo co-responsáveis".

O desgaste imposto por essa co-responsabilidade tem efeitos devastadores, de acordo com Matias. "Na área de construção, por exemplo, acho que não há quem se importe em pagar 10% a a mais para ter um imóvel melhor, do ponto de vista de sustentabilidade', diz.

Mas o caminho das mudanças é longo, na opinião de Matias. "O Itaú Cultural existe há 20 anos e não pertence mais aos acionistas e às empresas, é da sociedade. Rompeu a idéia de filantropia pura e simples e partiu para o protagonismo. Com isso, surgiu em 2003, o Fundo Itaú Social. Temos a preocupação com campanhas de consciência de crédito, de orientação contra fraudes nas transações pela Internet etc. "Esse é um pequeno pedaço da responsabilidade do serviço de crédito. Agora, em 2008, criamos o Fundo Itaú de Excelência Social, em que 50% do lucro vai para projetos de educação e, no ano passado, o Fundo Itaú Eco-Mudança, que repassa 30% da taxa administrativa a projetos", resume.

E a pressão da sociedade é um grande termômetro, de acordo com o vice-presidente do Itaú. "Por isso, estamos lançando agora um prêmio de Finanças Responsáveis, incentivando matérias jornalísticas e projetos acadêmicos nesta área", afirma.

O papel da mídia na sustentabilidade

O diretor de conteúdo do Grupo Estado, Ricardo Gandour, observa que é complexa a relação da sociedade brasileira com o processo do lucro e progresso ascendente dos negócios. "Não é de todo absurdo, dada as mazelas e dificuldades sociais no país".

De acordo com o jornalista, já se pode verificar efeitos positivos dessa mobilização, como no caso de leis municipais em São Paulo - Cidade Limpa e Psiu Ante Ruído nos Bairros. "Quem faz a lei pegar são os cidadãos, e a imprensa serve como trombone e tribunal da sociedade, e acaba fazendo parte da cadeia de marketing também. Mas o seu papel é contar tanto histórias boas, como más. E do ponto de vista interno, a empresa de mídia deixará de ser sustentável, se a crença do todo não respeitar as partes ou se obrigar o repórter a não escrever o que ouve", afirma.
Sucena Shkrada Resk

30/03/2008 22:53
Parte7-A aclamada interoperabilidade, por Sucena S. Resk


Interoperabilidade é um termo que vem ganhando projeção no universo da Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Segundo o professor Phillipe Navaux, do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o conceito é simples: significa a habilidade do sistema ou produto em trabalhar com outros sistemas e produtos. Por isso, transmite, em tese, a idéia de cidadania sem fronteiras no mundo globalizado, composto pelo critério da síntese, da funcionalidade, da execução e dos protocolos e regras de ambiente.

A Organização das Nações Unidas para a Ciência, a Educação e a Cultura (Unesco), no documento Rumo a Uma Sociedade do Conhecimento, já preconiza a interoperabilidade, que representa o acesso livre a documentos digitalizados, redes de gerenciamento coletivos e a geração de plataformas sustentáveis. "É importante destacar que a base do conhecimento da sociedade global dobra a cada três anos. São 7 mil trabalhos científicos produzidos por dia no mundo. Estudantes de escolas secundárias em países industrializados são expostos a informações mais que seus avós em todas suas vidas", destaca Navaux. De acordo com o especialista, nas próximas três décadas haverá mais conhecimentos disseminados do que nos últimos três séculos.

A atual plataforma de comunicação prevê conteúdo e serviços, inclusão digital e cidadania, TI como chave de desenvolvimento industrial e interação. Como exemplo dessa iniciativa no Brasil, cita o governo eletrônico, entre outros.

Mas atingir a pluralidade depende estritamente da definição de protocolos individuais e de corporações. "Se o protocolo é muito restritivo e imperialista passa a ter risco de exigir uniformização que elimina a interação", explica o professor do Departamento da Ciência da Computação da Universidade de São Paulo (USP), Flávio Soares Corrêa. O especialista em inteligência artificial é a favor da co-existência de protocolos para atender a nichos específicos. "Hoje verificamos, que neste sentido, o governo eletrônico se beneficiia. Do ponto de vista internacional, é positivo para o comércio e questões diplomáticas. Já internamente, cria a possibilidade de transparência", diz.

Nesse universo da globosfera, ganha força o projeto da certificação digital, como afirma o gerente de Certificação do Serasa, Igor Rocha. "O objetivo é de que os documentos eletrônicos digitalizados tenham a mesma validade jurídica dos assinados em papel, desmaterializando os processo", explica.

Rocha recorda que o governo brasileiro iniciou em 1998 o trabalho na infra-estrutura das chamadas chaves públicas. "Em 2001, nasceu o ICP-Brasil, em co-existência com a iniciativa privada. O benefício proposto ao usuário é que esse certificado se baseia em padrões internacionais da ONU. O processo do mensalão, por exemplo, foi digitalizado. Tanto ministros, como advogados tiveram acesso simultâneo aos documentos", conta.

"Mas a interoperabilidade sofre entraves jurídicos", afirma Marcelo Zuffo Filho, engenheiro de Sistemas Eletrônicos da Poli/USP. De acordo com o acadêmico, historicamente o Brasil ainda não superou a onda da Revolução Industrial. "Há ausência de brasileiros nos fóruns internacionais. Como exemplo, temos a discussão da implementação da TV Digital. O Banco Mundial também tem um estudo, que menciona que a engenharia brasileira é "world class", mas há timidez e constrangimento dos profissionais em participar desses fóruns", diz. Essa ausência, de acordo com Filho, acaba resultando na aceitação de royalties implícitos.

Agora, a discussão é sobre a adoção oficial do padrão ODF no Brasil x XML. "O governo brasileiro é favorável ao ODF. Aí vem a questão da harmonização e extensabilidade. Sou favorável ao conceito de "padrões únicos", já que o Open XML é difundido na educação, saúde e finanças", afirma o diretor nacional de Tecnologia da Microsoft, Raimundo Costa.


Sucena Shkrada Resk

30/03/2008 20:37
Parte 6 - De idéias se faz a inovação, por Sucena Shkrada Resk

O celeiro de idéias que resulta em processos de inovação geralmente tem um percurso extenso. "Um sucesso pode ter partido de uma seleção entre 3 mil idéias. Existe um custo embutido nessa perda do cancelamento. Por isso, inovação é risco", diz o sócio-diretor do Monitor Group, Gustavo Zevallos.

Segundo ele, o licenciamento da propriedade intelectual é uma fonte de retorno que não pode ser minimizada. "Essa é a lógica econômica da viabilidade da implementação da inovação, e a perda que ocorre nesse processo não é vista pela sociedade", explica. Esperar ganhos imediatos é um equívoco, de acordo com o especialista. Leva-se um tempo para que o investimento se torne rentável.

"Não se deve ter uma posição extremista, quando se trata de propriedade intelectual. Em alguns casos é procedente, em outros não. A proteção é uma maneira de haver a transformação em riqueza, mas exige custos", observa o diretor de mercado da Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro (Softex), Djalma Petit.

O executivo concorda que a maior dificuldade é exigir da micro e pequena empresa arcar com os custos de acordos internacionais de propriedade intelectual. Mas existe um sinal no fim do túnel quanto ao acesso à promoção das inovações. "Em novembro passado, o Programa Nacional de Ciência e Tecnologia anunciou o volume de recursos de mais de R$ 300 mi da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), pelo Governo, às pesquisas e inovação, a fundo perdido, que devem ser muito bem aproveitados", diz.

Formas de proteção
A presidente da Associação Brasileira da Propriedade Intelectual (Abpi), Juliana Viegas, explica que a propriedade industrial é uma das partes da propriedade intelectual. "A patente não é a única proteção possível. O governo outorga uma espécie de monopólio legal com a patente, que pode impedir que terceiros usem a mesma, apesar de ter chegado a igual resultado". E a contrapartida é que o inventor revele à sociedade sua criação. "é uma forma de proporcionar mais inovações", diz.

Outra forma de proteção, segundo Juliana, é o segredo industrial/empresarial. "Neste caso, não impede que terceiros cheguem à mesma conclusão e tenham o reconhecimento do invento". A vantagem que tem sobre a patente, segundo ela, é que esta última é cara e inviável para pequenas e médias empresas. "O segredo não depende de gastos e burocracia. Uma vez tornado público, no entanto, perde toda a proteção. Jà a patente publicada, a mantém e deve ser usada pelo titular, que deve retornar os benefícios à sociedade".

A presidente da Abpi explica que hoje a legislação brasileira é "praticamente avançada" nesta área e cumpre o Tratado Tríplice da Organização Mundial do Comércio. "O que precisa é ter mais eficácia, principalmente do reconhecimento do juízo, do ponto de vista de proteção das fronteiras e questões alfandegárias", afirma.

O papel da universidade
Para o pró-reitor de Inovação da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Jorge Luís Nicolas Audy, os parques tecnológicos, a exemplo do TecnoPUC, onde hoje trabalham cerca de 1,5 mil pessoas, principalmente na área de TIC, é uma saída positiva para o avanço no setor.

"O ambiente da sociedade do conhecimento nas universidades deve assumir um papel diferente de tempos atrás. Em meados do século XIX surgem os centros de pesquisa, mas é no século XX, que se destaca Stanford, e o Vale do Silício, além de Harvard", explica.

Audy define que as instituições universitárias assumem uma vocação empreendedora como agente de desenvolvimento econômico. "Requer cooperação em rede, mas com atores da sociedade. Com isso, gera mais resultados. O que se discute hoje é o caminho de volta dos conhecimentos gerados pelos recursos aplicados na pesquisa, que não podem se deter só no desenvolvimento científico", diz.

Todo o processo, de acordo com o pró-reitor, envolve mudanças culturais fortes. "É um erro ter exclusividades. Exemplos positivos que geram riqueza e melhoria de qualidade de vida são iniciativas, como o Porto Digital, da Universidade Federal de Pernambuco e o Sistema Mineiro de Parque Tecnológico", afirma Audy.

Na análise do diretor geral da Agência USP de Inovação, Osvaldo Massambani, a missão central da universidade é a formação de RH bem preparado. "Entretanto, o potencial de conhecimento transborda para o setor industrial. Na USP, por exemplo, estamos patenteando 120 projetos anualmente. Mas isso se estende à ótica técnica e de mercado, e parceria com as empresas", diz.

Sucena Shkrada Resk

30/03/2008 18:58
Parte 5 - Brasil precisa acelerar na inovação, por Sucena Shkrada Resk

Existe hoje uma dicotomia entre o momento macroeconômico favorável e a "lentidão" no avanço digital no Brasil. Esse foi o consenso entre os debatedores do painel Capital de Risco na Inovação, do Fórum Inovação Brasil 2008, realizado no dia 27, na sede da Fiesp, em São Paulo.

"O país tem a geração de muito conhecimento, empreendedores e capital (fundos brasileiros nacionais e internacionais), mas a qual velocidade segue esse ciclo? Esse é o questionamento do diretor de investimentos da Intel, Fábio de Paula. Segundo ele, existe uma "miopia" ao se rotular que o DNA nacional é somente o agronegócio. "Tudo depende de TI e, com o setor avançando, as empresas se tornam mais competitivas", diz.

O economista da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Danilo Igliori, concorda que atualmente é um momento favorável do risco-país. "Mas isso não que dizer que não se deva fazer nada. "Olhar para o desenvolvimento local é muito importante e, para isso, têm de estar envolvidos todos os atores para promover a inovação e a adoção de políticas públicas do setor", diz. O especialista acredita no potencial das chamadas indústrias criativas - nas áreas de design, moda, software, games, cinema e publicidade.

Na opinião do diretor de marketing da Associação Brasileira das Empresas de Software e Serviços para Exportação (Brasscom), Ricardo Asser, a estratégia de desenvolvimento está na promoção da exportação, na convergência digital, na capacitação de RH e nas questões marco-regulatórias. "O Brasil não pode perder essa onda. A perspectiva é que nos próximos 5 anos sejam realizados 5 bi em exportações", diz.

Segundo ele, são importantes iniciativas de se instalar clusters nas proximidades dos grandes centros, como é o caso do projeto de Arranjo Produtivo Local (APL) de TIC de São Caetano do Sul. "Pela proximidade a São Paulo e com uma ação concreta na área de educação, promove o potencial do setor", considera.

Um ponto nevrálgico, de acordo com Roberto Mayer, presidente da Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação, Software e Internet (Assespro-SP), são as altas taxas de juros de títulos do governo federal. "São algumas das maiores do mundo, o que causa um problema ao investimento. Dessa forma, os fundos de investimentos estrangeiros são beneficiados", analisa.

Por outro lado, o empresário enfatiza a necessidade de se ampliar a internacionalização. "A entidade está assinando vários acordos com outros países. O mais recente foi com a Câmara Internacional da Argentina", diz. Com essas iniciativas, Mayer considera que o Brasil se coloca de forma mais assertiva no mercado globalizado.

O presidente da Assespro-SP afirma que existe um vácuo de liderança no setor de TIC no Brasil. "O Chile e o México saíram na frente, nesse processo. A TIC tem de ser tratada como política de estado", afirma.


Sucena Shkrada Resk

30/03/2008 17:37
Parte-4 O risco e o crescimento, por Sucena S.Resk (Fór.Inovação)

O capital de risco tem uma relação intrínseca com o estímulo do crescimento da economia global, segundo Dan`L Lewin, vice-presidente da Microsoft para Estratégias e Desenvolvimento de Negócios Emergentes. O executivo, com um know-how de 32 anos no Vale do Silício, acredita que o setor de TIC está atingindo uma curva ascendente, desde os anos 1970 e, mais recentemente, com a definição W3C de conversões de aplicativos. "Nos últimos 7 anos, essas conversões acontecem de maneira simples e padronizada, para a integração de famílias, amigos e nas relações de consumo, trabalho e governamentais", disse, durante sua palestra, no Fórum Inovação Brasil 2008, realizado no último dia 27, na sede da Fiesp, em São Paulo.

Um elemento importante para auferir credibilidade no processo, segundo ele, é o Interop Vendor Alliance (IVA). "Essa chave de segurança representa uma evolução no sistema bancário, tanto que foi criada a Alliance Securet", diz.

No campo da inovação e acessibilidade, a Microsoft aposta as fichas nos últimos anos nos centros de desenvolvimento tecnológicos. "Já criamos cerca de 100 mundialmente, sendo 20 no Brasil. As unidades respondem à cultural local e têm o objetivo de promover a inclusão digital e criar oportunidades comerciais", afirma.

Mas Lewin diz que um dos principais entraves na ampliação do mercado é a burocracia. "O combustível para o empresário é focar sua atenção no produto e, para isso, precisa assumir riscos. E não pode temer o aparecimento de problemas. Ao identificá-los, tem de aprender com o fracasso e o que deve fazer de diferente".
Sucena Shkrada Resk

30/03/2008 16:39
Parte 3 - Os gargalos da TIC no Brasil, por Sucena S.Resk

Os grandes gargalos do Brasil na área de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) são a falta de mão-de-obra qualificada, pouco fomento de parcerias e a baixa cultura de patentear inovações. "É preciso valorizar o capital intangível desta área, que propicia o surgimento de novas empresas e novos negócios", afirmou Pierângelo Rossetti, vice-presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e diretor titular adjunto do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp, no último dia 27, no Fórum Inovação Brasil 2008, realizado em São Paulo. Isso representa, segundo ele, agregar valores adicionais, como os distritos digitais e centros de serviços digitais regionais.

"Hoje a liderança da China e da Índia se baseia na formação de melhores técnicos. Temos de seguir essa experiência e não podemos perder tempo", afirma. Rossetti considera que o crescimento econômico sustentável do Brasil, no patamar dos US$ 40 bi, é um cenário positivo para esse fortalecimento. "O país é o quinto consumidor mundial de computadores e não temos medo de aumentar esse consumo", analisa.

Vahan Agopyan, coordenador de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Desenvolvolvimento do Estado de São Paulo, defende a quebra do ciclo vicioso, em que o Brasil produz quase 2% do conhecimento mundialm e ao mesmo tempo, não consegue produzir no mesmo patamar para a sociedade.

"O estado de São Paulo responde por 1% desse conhecimento, principalmente com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp). Mantém ainda duas das 100 melhores universidades, além das escolas técnicas. Com isso, é possível dar guarida a empresas do setor, mas isso não está acontecendo", diz.

Na opinião do presidente da Microsoft Brasil, Michel Levy, é preciso haver maior empenho para derrubar as dificuldades de acessibilidade. "Vinte por cento dos 6 bi de habitantes no mundo têm conexão com a informação na internet. Temos responsabilidade para diminuir esse fosso".

Segundo ele, a multinacional já mantém no país 20 centros de inovação com parceiros locais para fomentar soluções de software e de aquecimento da economia local. "A Microsoft também promove a Copa de Computação há 5 anos, onde o Brasil se destaca no número de inscritos. Foram 36 mil em 2007 e mais de 50 mil, neste ano. Esse é um sinal de que esse potencial deve ser aproveitado", diz.

Levy analisa que há uma projeção favorável nos próximos três anos no cenário de TIC. "De acordo com o IDC, é esperado que a importação de softwares na América Latina duplique neste período, o que significa 600 mil empregos na área, sendo que 50% deles no Brasil", afirma. E para isso acontecer, o presidente da Microsoft Brasil afirma que é vital a formação de mão-de-obra jovem, alavancada por meio do ensino de Ciências e de Matemática.
Sucena Shkrada Resk

30/03/2008 16:02
Parte 2 - A educação no caminho da inovação, por Sucena Shkrada Resk

O secretário de Política de Informática do Ministério da Ciência e Tecnologia, Augusto César Gadelha Vieira, afirma que o Brasil deve quebrar o estigma de ser inferior à Índia e China, mas precisa fazer um investimento significativo na educação. "Fui à Índia e verifiquei que temos chances maiores na área de TI. Mas lá eles acertaram na questão do estímulo à educação na área tecnológica, diferentemente do Brasil". A sua análise sobre o setor foi feita, no último dia 27, durante o debate sobre educação e inovação para a sustentabilidade, promovido no Fórum Inovação 2008, realizado pela Microsoft Brasil, na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Vieira considera que a saída não é copiar os modelos estrangeiros. "Mas temos de investir na Ciência da Computação, pois está em 15ª lugar nas áreas de ensino universitário. Essa é uma discussão que já estamos mantendo com a Frente Parlamentar da Ciência e Tecnologia", afirma.

Mas ao mesmo tempo, o secretário elogia o empenho dos outros países. "Na Índia, a pobreza é impressionante, mas o contraste é verificar a construção de institutos técnicos que almejam a qualidade. E o sonho dos indianos é ver seus filhos estudarem nestas escolas, para ascenderem socialmente". Já na China, também observou a ânsia dos estudantes em aprenderem o inglês para se inserirem no mundo globalizado.

A escola, de um modo geral, tem deprimido o ímpeto da inovação. Essa é a principal crítica de Fernando Fonseca Júnior, da Fundação Padre Anchieta, ao modelo pedagógico adotado atualmente no Brasil. "Nossas metologias atuais levam à passividade e não atacam problemas reais, para fazer com que o aluno produza", afirma. E o especialista vai mais além. "O fundamento ético não está colocado na escola. Vivemos num mundo com recursos finitos", questiona.

Para o presidente do Compromisso Todos pela Educação, Mozart Neves Ramos, a formação dos educadores tem de ser avaliada de forma mais rígida. "Somente 9% dos professores que ensinam física, tiveram formação nesta área", diz. E o mais grave, segundo ele, pode ocorrer em um prazo de cinco a 10 anos. "Os atuais professores de educação básica vão se aposentar e não teremos como suprir esta demanda", afirma.

Mais um dado de impacto apresentado pelo especialista em educação é a estatística de jovens no ensino médio. "Um total de 43% de jovens está, de fato, no ensino médio, o restante se encontra no fundamental ou fora da escola. Já o ensino superior apresenta um currículo pouco flexível, como produção em série", analisa.

Para combater essas deficiências, Ramos sugere a adoção de modelos europeus, que enfatizam de uma forma mais regular a presença de incubadoras nas universidades. "Isso não significa privatização", afirma.

Em sua opinião, a produção de paper científico não é suficiente. "Hoje são formados 10 mil doutores no Brasil anualmente, mas podemos dizer que 100 representam a grande maioria da produção científica. O país está hoje na 15ª colocação", diz.

E Ramos se posiciona a favor do patenteamento ser uma ação predominante da indústria. "Existe uma barreira financeira considerável. Para tirar a patente nos EUA, o custo é na faixa de US$ 100 mil. Os nossos pesquisadores ainda enfrentam o exército de chineses e indianos", afirma.

Roberto Lotufo, diretor-executivo da Agência de Inovação Inova -Unicamp, por experiência própria, é a favor do investimento em incubadoras na universidade, e acredita que a academia deve buscar as patentes. A experiência é bem-sucedida, segundo ele, desde a implementação do projeto em 2003. De acordo com o gestor, atualmente mais de 200 empresas foram criadas, neste modelo, dentro da agência. "A universidade deve ser toda empreendedora. E no Brasil, é preciso mais investimento na qualidade da educação e inovação", defende.

Lotufo acredita que é preciso iniciativas no país arrojadas, como a de Casimiro Montenegro Filho, ao implementar o ITA, em São José dos Campos. "Foi uma idéia totalmente diferente, em que professores e alunos moravam na instituição e criavam um entrosamento", diz. E na esfera internacional, citou o case da Coréia, que apesar de ter criado sua Lei de Inovação somente há dois anos, já tem um desempenho surpreendente. "E a China manda os seus alunos estudar fora, mas ao mesmo tempo traz professores gabaritados para formar as melhores universidades no país", compara.

Quebra de barreiras

O vice-diretor superintendente do Centro Paula Souza defende a quebra de fronteiras entre escola, iniciativa privada e sociedade. "A preocupação da instituição é atender à necessidade do mercado e das empresas. Outro ponto importante é a questão das parcerias, segundo o executivo. Saímos da sala-de-aula para ouvir as empresas e criar novos currículos. E dessa forma, conseguimos algumas inovações", diz. Essa tendência de gestão na área educacional, de acordo com Silva, leva a instituição acadêmica à regionalidade e aos Arranjos Produtivos Locais (APLs).



Sucena Shkrada Resk

29/03/2008 15:07
Parte 1 - A educação no caminho da inovação, por Sucena Shkrada Resk

"Hoje não temos consciência que estamos desnacionalizados e que os concorrentes não estão mais dentro das fronteiras". A afirmação é do engenheiro aeronáutico e atual reitor da Universidade de Santo Amaro (Unisa), Ozires Silva, que em 50 anos, ocupou posições estratégicas no cenário nacional, como ex-presidente da Embraer, da Petrobras e da Varig, além de ministro da Infra-Estrutura. O empreendedor prendeu a atenção de empresários e acadêmicos presentes no Fórum Inovação Brasil 2008, realizado no último dia 27, na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na capital. Ele defendeu a tese de que se não forem quebrados os abismos na preparação educacional dos cidadãos, o Brasil não conseguirá se projetar no caminho para a sustentabilidade.

Em uma breve viagem no tempo, recortou os principais eixos históricos do século XX, mostrando a mudança de conceitos que gerou a globalização da Economia em relação direta com as comunicações internacionais. Segundo ele, um período em que imperou a dicotomia da visão da ameaça x oportunidades.

Partiu do advento da 2ª Guerra Mundial, e o Plano Marshall (de apoio aos países da Europa Ocidental), seguindo para a ascensão dos Tigres Asiáticos (década de 70), a posição estratégica da Coréia e Irlanda (anos 80) e da China e Índia (anos 90). E apresentou a seguinte provocação - E o Brasil, quando passará a ser ator de si mesmo?

De acordo com Silva, um dos entraves para a projeção brasileira é manter uma legislação extensa. "Temos mais de 105 mil decretos, 12 mil leis e isso é ineficiente. Precisamos gerar mais facilidades aos empreendedores e ganhar na área da educação, a corrida contra o atraso na educação básica, humanidades e exatas", diz.

Ozires Silva considera que desenvolvimento é projeto de produção intencional. "Para isso, é preciso vontade política da sociedade em se manifestar (além do poder público e legislativo), unindo inovação com empreendedorismo", afirma. Os números, segundo ele, são prova de que é preciso mudanças. Enquanto no Brasil se formam 20 mil engenheiros por ano, na Coréia são 80 mil, na Índia, 200 mil e na China 300 mil. "Nesse cenário global, o Oriente Médio e a África também estão investindo muito na educação. Em Oxford, por exemplo, 60% dos ingressantes em 2007 são alunos chineses. E o governo chinês matriculou 200 mi estudantes fora do país", diz.

Com o investimento maciço de outras nações no aprimoramento do ensino, o reitor da Unisa conclui que sem educação continuada, não há inovação. E afirma que decisões arrojadas são importantes, citando o case nacional da Embraer, da qual é um dos fundadores. "A empresa nasceu de um processo vitorioso educacional com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), nos anos 70 (idealizado por Casimiro Montenegro Filho). Hoje a Embraer vende em mais de 70 países, e tem uma carteira de US$ 33 bi", diz.

A união da educação com a identificação com o mercado, por meio da fabricação de produtos próprios, é mais um ponto importante nesta jornada, de acordo com Silva. "Com isso, há um processo contínuo de aperfeiçoamento, complementação internacional de tecnologia e autonomia de vendas no exterior".

Uma data ficou marcada em sua mente - 22/10/68. Neste dia, voou o primeiro avião da Embraer. "Não tínhamos capital, usamos equipamentos de várias origens e conseguimos fazer com que voasse. Depois disso, transformou-se no Bandeirante, com 18 lugares, que vendeu bastante nos EUA. E hoje, a empresa fabrica o EMB-190, para até 110 passageiros e vende para a Europa e Ásia, além dos EUA".

Ozires Silva defende que é preciso incentivar a visão de futuro. Sem medo de arriscar, o acadêmico e aviador confessa que está em mais uma nova empreitada, agora, na área de biotecnologia. "Temos de acelerar o estímulo empreendedor", diz. E para isso, há um arsenal à disposição, em sua opinião, formado pela robótica, nanotecnologia, biotecnologia, TIC, serviços e acumulação de conhecimento.

"O risco do empreendedor nunca é zero, mas temos de fazer que seja o menor possível", considera. A pesquisa é fundamental nessa meta para se chegar à inovação. "Noventa por cento das inovações no mundo estão saindo das empresas. E as universidades oferecem garantia de competência no processo. Nos novos cenários de produção, os ciclos dos produtos são menores e há a concorrência global. Por isso, há necessidade do desenvolvimento de técnicas gerenciais de inovação", fala.

O pulo do gato para que as coisas funcionem é não haver medo do questionamento, na opinião do empresário e acadêmico. "As perguntas que devemos fazer são as seguintes - Somos eficientes?
A educação como está?(principalmente com relação à deficiência na educação básica)
E o poder público local até o federal estão envolvidos no processo?"

Ozires Silva encerra sua imersão sobre os caminhos para a sustentabilidade, com a citação da frase de Albert Einstein. "Nenhuma mente que se abre para uma nova idéia jamais voltará a ter o tamanho original".

Sucena Shkrada Resk

18/03/2008 10:30
O embate sobre o etanol, por Sucena Shkrada Resk


crédito foto: Sucena S. Resk
A viabilidade dos Biocombustíveis é um assunto que ainda vai render muitos capítulos. E no último dia 14 de março, a palestra - "Etanol e Mudanças Climáticas", ministrada em São Paulo, por José Roberto Moreira, presidente do Centro Nacional de Referência em Biomassa (Cenbio) e autor no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), trouxe o tema novamente para o centro das atenções. O especialista resumiu uma série histórica que envolve o assunto, destacando que, apesar de o questionamento sobre a produção do etanol ser presente, essa fonte ainda é a mais sustentável do ponto de vista ambiental. A afirmação foi feita na fase final do III Encontro Latino-Americano e Caribenho da Rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável. A posição do especialista, entretanto, não é unanimidade entre outros pesquisadores sobre a pauta de bioenergia e agronegócios.

"Até dois anos atrás, o uso do etanol era considerado positivo para a mitigação dos problemas ambientais. Daí houve um boom de produção, puxado pelos EUA (que já ultrapassa o Brasil), e aí veio a "preocupação" da indústria petroleira - quanto à disputa das áreas de cultivo para combustível x alimentos", diz.

A Organização das Nações Unidas (ONU), segundo Moreira, também se posicionou contrária ao etanol no Brasil, com o argumento de que confrontaria o combate à fome. "Então, surgiu a problemática do uso de fertilizantes. Mas verificou-se que o uso de inseticidas é da proporção de 0,12", afirma.

Hoje o questionamento é quanto ao consumo de água para a produção", explica o presidente do Cenbio. Segundo o especialista, uma preocupação sem fundamento. "Uma tonelada de cana-de-açúcar é igual a 100 litros de álcool; e para um litro de etanol são utilizados 50L de água", diz.

Esse é um ponto ainda discutível, já que não há um consenso sobre a quantidade de água utilizada entre os especialistas.

E a polêmica não pára por aí. Outro aspecto que ainda provoca dúvidas, de acordo com Moreira, é se há área suficiente para o cultivo da cana, que não prejudique a produção de alimentos, em uma projeção até o ano de 2030. E nesse ponto, é enfático - "O pobre morre de fome por falta de poder aquisitivo e não de comida", afirma, tecendo crítica também ao desperdício de toneladas de alimentos, que ocorre no Brasil e no mundo. Entretanto, uma outra corrente é mais cética, prevendo que se as metas do uso de etanol forem praticadas à risca em substituição aos combustíveis fósseis, ocuparão a área destinada à agricultura.

O especialista diz que o biocombustível ocupa hoje 1% da terra disponível. "As críticas são infundadas e distorcidas, esquecendo o problema do aquecimento global. Uma tonelada de carbono fóssil é correspondente a 10 ton de combustível renovável. E se emite CO2, tem também como resultado (compensatório) o álcool", afirma.

Um caminho longo a percorrer
O presidente do Cenbio constata, entretanto, que o Brasil, durante a história de 32 anos do PróAlcool, poderia ter sido muito mais eficaz quanto à sua contribuição ao meio ambiente. "A cada um hectare de terra seriam evitadas 700 toneladas de CO2, mas só foram 0,75 GT, em vez de 2,25 GT, neste período", diz.

Nesse ponto, Moreira faz uma análise, que tem como base "as sete cunhas", metodologia de projeção de mitigação de 1 gigatonelada de CO2 (por cunha) elaborada pelos professores da Universidade de Princeton, Pacala e Socolow, em que cada uma representa uma ação bem-sucedida. "Seria importante que o Brasil atingisse 14 GTC/ano de redução de emissão de CO2. Hoje faz 1/7 de uma cunha, mas está realizando uma ação", diz.


Sucena Shkrada Resk

17/03/2008 14:38
Parte 5-A busca da mitigação na área ambiental, por Sucena Shkrada Resk


Crédito da foto: Sucena S. Resk
O terceiro e último painel do III Encontro Latino-Americano e Caribenho da Rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável discutiu o tema "Mudanças Globais: Cinco Continentes e um só Regime Internacional", no último dia 14, em São Paulo. Tasneem Essop, ministra do Meio Ambiente, Planejamento e Desenvolvimento Econômico da Província de Wertern Cape/África do Sul e co-presidenta da Rede nrg4SD, enfatizou que todas as finalidades pós Protocolo de Kyoto convergem na superação da vulnerabilidade, que vai desde os aspectos da saúde ao controle da poluição urbana.

Segundo ela, as ações em Western Cape, na África do Sul, priorizam planos na área de energia renovável, fundos de mecanismo de desenvolvimento dos créditos de carbono e programas de energia limpa e de água integrados.

A presidente da Agência de Gerenciamento de Impacto Ambiental, da Província Norte de Sumatra, na Indonésia, e vice-presidente da Rede nrg4SD na Ásia, Syamsul Arifin, explicou que após os efeitos do Tsunami, a região onde vivem 11,9 mi pessoas teve a intervenção de várias frentes de ações. "Foram desenvolvidos workshops de geração de trabalho e negócios, sobre impactos das mudanças climáticas, de sustentabilidade na área de pesca e reconstruções das cidades com o apoio do Un-Habitat", diz. Um dos conceitos introduzidos foi o de projetos de edificações mais resistentes, com ajuda técnica da União Européia e o da bio-arquitetura.

Marco Betti, ministro de Água, Proteção do Solo, Biodiversidade e Desenvolvimento de Regiões de Montanhas - Toscana, na Itália, informou que as medidas tomadas na região para reverter os processos de erosões e de inundações passam por um conjunto de ações. Entre elas, renovação de energia, retirada gradativa do tráfego de veículos nos grandes centros e a implementação da bio-arquitetura. "Para 2020, a meta é reduzir 14,4 mil ton de CO2", diz.

Já o representante do governo basco afirma que a meta até 2010 no país, é introduzir políticas de colaboração com relação ao etanol e ter um desenvolvimento econômico menos dependente dos combustíveis fósseis. "Não podemos esquecer o social e precisamos assumir mais as nossas responsabilidades", diz.

Sucena Shkrada Resk

17/03/2008 14:14
Parte 4 - A busca da mitigação na área ambiental, por Sucena S. Resk


Crédito foto: Sucena S.Resk
"A América Latina: Os esforços e os Impactos da Governança" foi o destaque do segundo painel do III Encontro Latino-Americano e Caribenho da Rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável, promovido, no último dia 14, em São Paulo. Ricardo Sánchez Sosa, diretor regional do Pnuma para a América Latina e o Caribe, frisou que só crescimento econômico não significa sustentabilidade. "Apesar de o crescimento regional ser de 20%, não diminuiu nem a pobreza e a desigualdade na mesma proporção", afirma. Como gargalos, ele citou a questão dos resíduos sólidos, contaminação das águas, emissões de CO2, e da necessidade iminente de diminuição do número de pessoas vulneráveis e da implementação de programas de eficiência energética. Daí, sim, se pode chegar ao seguinte binômio: melhora da economia e da qualidade de vida.

Os expositores internacionais apresentaram cases de suas regiões para diminuir o quadro de vulnerabilidade. O representante do governo da Província de Santa Fé, Argentina, Cesar Mackler, contou que está sendo necessário um conjunto de ações para se chegar à mitigação de uma região, que sofre mais nas zonas costeiras, onde 2003 houve inundação, que resultou em 14 mortes e três anos depois vitimou a população, por causa de chuvas de granizo de 9cm de diâmetro, que ocasionaram muitos estragos. E no ano passado, as cenas de tragédia climática se repetiram, o que exigiu intervenções imediatas.

"Uma das iniciativas é a readaptação dos assentamentos e canalização das áreas afetadas. O governo também está providenciando o tratamento dos gases dos aterros sanitários, para que no futuro possam produzir energia paralelamente ao plano de eficiência energética", explica. As mudanças atingem até os semáforos das vias locais.

Ao mesmo tempo, começaram os estudos de impacto ambiental de empresas, para haver a racionalização da energia. E no aspecto humanístico, Mackler disse que foi criado um sistema de alarme, que pode anteceder ao desastre climáticos em até 8h. "Pode salvar vidas. Em 2003, não houve tempo. A água subiu 2m, sem aviso prévio", compara.

Sosa, do Pnuma, ressaltou que os créditos de carbono devem ser comprados pelos países desenvolvidos, para que as nações pouco desenvolvidas e em desenvolvimento possam fazer investimentos em educação e saúde, que são decisivas para o desenvolvimento humano. "Catorze vidas humanas são impagáveis (case da Argentina), além dos milhões de U$ em patrimônios perdidos. Hoje o Equador e o Peru, entre outros países, sofrem com fenômenos, como o La Niña, precisam de auxílio. E para isso, também é importante o incentivo da participação cidadã", afirma.

Cidadania Global

O conceito de participação cidadão foi o centro da apresentação da diretora de Acordos e Participação Cidadã, da Secretaria do Meio Ambiente do Estado do México, Laura Mitzi Barrientos. Segundo a especialista, já foram capacitadas mais de 560 mil pessoas em matéria ambiental, dentro dos preceitos de Cidadania Global, trabalho desenvolvido em parceria com o Pnuma.

"Foram formados 63 conselhos municipais de proteção e biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável, e criado um telefone verde para denúncia feita pela própria sociedade. Nas escolas, as crianças assistem a palestras e aprendem a separar os resíduos urbanos, a consumir com economia a água, entre outras ações", conta.

E Laura diz que as mudanças também atingem a esfera administrativa, como parte do Plano de Manejo Ambiental. "Com o reúso d`água e a criação de hábitos, como apagar a luz, desligar o computador, porque por mais pequenas possam parecer essas iniciativas, são capazes de modificar o entorno", afirma.

Para sintetizar a idéia de cidadania ambiental, Ricardo Sánchez Rosa, do Pnuma, falou da importância do envolvimento neste processo, de líderes religiosos, municipais e de rádios comunitárias, entre outras, para multiplicar a educação ambiental. "As pessoas aprendem quais as funções de áreas protegidas, o porquê da necessidade do reflorestamento etc", diz.


Sucena Shkrada Resk

17/03/2008 13:30
Parte 3 - A busca da mitigação na área ambiental, por Sucena S. Resk

O secretário de Estado do Meio Ambiente de São Paulo, Francisco Graziano Neto, expôs, no último dia 14, as principais frentes de atuação do executivo paulista na revitalização ambiental, e destacou que a pasta está prestes a divulgar o resultado de um levantamento sobre as 100 principais empresas emissoras de carbono fóssil no estado. "Mas posso adiantar que as líderes no ranking são uma siderúrgica, 3 refinarias e uma petroquímica", disse a uma platéia que lotou o auditório no Ibirapuera, durante o III Encontro Latino-Americano e Caribenho da Rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável.

De acordo com o secretário e também vice-presidente para a América Latina e Caribe, da Rede, a emissão de CO2 pela queima de combustível total da indústria, se divide nas seguintes fontes:
-Fóssil - 18,5 mt (23%) - principalmente originária dos segmentos industriais de cimento, cal e ferro
-Renovável - 60,9 mt (77%) (bagaço, etanol, biogás, biodiesel, lixívia, lenha de reflorestamento)

"Os setores que mais emitem CO2 em sua produção, são o de aço e ferro, de minerais não-metálicos, químico, petroquímico, de papel celulose, de ferro-ligas, alimentício e têxtil. Embora a situação ainda seja difícil, estamos caminhando para o controle em São Paulo, no combate ao efeito estufa. Se houvesse a substituição dos fósseis, seriam evitadas 50 mt de CO2 (dados de 2006)", diz Neto.

Segundo o secretário, uma das propostas do executivo paulista para reverter esse quadro é a de uma lei estadual com metas de reduções. "Essa iniciativa será um diferencial no Brasil", afirma. Para o fechamento do projeto da lei estadual de mudanças climáticas, o Fórum Estadual de São Paulo mantém uma minuta na Internet, para receber sugestões da opinião pública.

"E estamos operacionalizando o Projeto São Paulo Amigo da Amazônia, que fiscaliza nas rodovias paulistas, caminhões procedentes de RO/PA e MT, para verificar se há transporte de madeira ilegal. As ações também se estendem ao comércio atacadista de Sorocaba, Araçatuba e São José do Rio Preto, entre outros, com a verificação dos estoques", informa.

De acordo com Graziano, São Paulo também deverá implementar brevemente um cadastro voluntário de madeireiras, com a adoção de selos verdes. "E as compras públicas só poderão ser feitas desses estabelecimentos", diz.

Sucena Shkrada Resk

17/03/2008 13:04
Parte 2 - A busca da mitigação na área ambiental, por Sucena S. Resk

O primeiro painel do III Encontro Latino-Americano e Caribenho da Rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável, realizado no último dia 14 de março, em São Paulo, discutiu - A Contribuição dos Estados Brasileiros no Combate às Mudanças Climáticas. Eugênio Marcos Soares Cunha, presidente da Associação Brasileira de Entidades Estaduais do Meio Ambiente (Abema) e diretor geral do Instituto de Defesa do Meio Ambiente (Idema) fez um diagnóstico sobre as ações do grupo no país.

Hoje a entidade conta com a participação de 48 entidades e órgãos públicos, em 11 fóruns estaduais. "Mas alguns funcionam e outros não, com menos intensidade, por isso pretendemos reforçar mais as discussões no NE", diz. Segundo Cunha, os processos mais avançados estão nos estados de SP/PR/BA/SC/MG/ES/TO/AM/RJ/PI e RS. "No PR, a diferenciação é que mantém também a participação do setor privado", diz o presidente da Abema.

Segundo Cunha, desde 2000, quando os fóruns começaram a ser planejados, foram instituídos alguns grupos de trabalho, que se dividem em Desmatamento, Vulnerabilidade (principalmente na regiões do semi-árido, cerrado e costeira), Mecanismos de Desenvolvimento Limpo, Energia e Estado da Arte (emissões e causas). A tônica das discussões é se afinar com os objetivos do Plano Nacional de Mudança do Clima e com o Programa Nacional de Mitigação de Gases de Efeito Estufa, de 2000, que foram amadurecidos desde 1992, com a ECO 92.

Uma das implementações mais recentes, de acordo com o presidente da Abema, ocorreu no estado do AM. "Em 2007, criou a política estadual, com o Fundo Estadual de Mudança do Clima, que prevê incentivos fiscais, selos de certificação etc", afirma. Já no PR, foi instituída a Coordenadoria de Mudanças Climáticas, com ações que vão desde seminários até uma publicação sobre o tema, que deverá ser lançada neste ano.

"O Rio de Janeiro está concluindo o inventário do estudo de vulnerabilidade ambiental, para ficar de acordo com a implementação do biodiesel. E tem a proposta da criação de um fundo de compensação energética", afirma Cunha. E no NE, um dos destaques, é o lançamento de um plano de Mitigação, Avaliação de Impacto e Vulnerabilidade de Mudanças Climáticas do RN, até 2017. "Lá também foi produzido o inventário do plano de gases do efeito estufa", acrescenta.

Diante de todas as incursões pelo Brasil, o presidente da Abema reforça a necessidade de uma maior participação do setor privado nos fóruns. "Nossa recomendação é que haja a elaboração de leis estaduais e de incentivo a ações integradas e consolidação de parcerias", diz.

Sucena Shkrada Resk

17/03/2008 11:10
Parte 1 - A busca da mitigação na área ambiental, por Sucena S. Resk


crédito foto: Sucena S. Resk
A palavra mitigação ganha força nos países em desenvolvimento, que buscam atenuar os efeitos das mudanças climáticas, provocadas pelo próprio homem. Líderes, políticos, governantes e especialistas tentam encontrar saídas a ações malsucedidas ou ausência de gestão de problemas, que se perpetuam por décadas. O motivo é um só: sem intervenções concretas, o futuro do planeta será uma grande incógnita. Essa tônica guiou o III Encontro Latino-Americano e Caribenho da Rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável, realizado na última sexta-feira (14), no auditório Ibirapuera, em São Paulo.

O evento promovido pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente de São Paulo em parceria com a Rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável (nrg4SD) e com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente para a América Latina e o Caribe (Pnuma) reuniu representantes da gestão pública estadual e federal brasileira, dos governos africano, argentino, basco, italiano, indonésio e mexicano, que puderam expor cases locais sobre programas desenvolvidos em suas áreas de atuação, dentro do conceito da importância da regionalidade.

O diretor regional do Pnuma para a América Latina e Caribe, Ricardo Sánchez Sosa, foi enfático quanto ao caráter humanitário das decisões. "Não podemos deixar que as forças cegas do mercado comandem. As organizações políticas e governos regionais têm problemas com nomes e sobrenomes. Não são mais estatísticas", afirmou. Sosa não mediu as palavras ao falar de situações que afligem o mundo. "Em alguns países na América Latina, de 10 a 70% das pessoas não têm lugar onde viver, não têm acesso à água potável e rede de esgoto e à eletricidade. Isso revela a importância da solidariedade, que envolve o universo de colaboração também do intercâmbio tecnológico", disse. A cadeia de cooperação, de acordo com o diretor deve se multiplicar - por meio de todas as esferas do governos e sociedade.

A quebra de fronteiras do conceito de humanização das relações foi exposta pela ministra do Meio Ambiente, Planejamento e Desenvolvimento Econômico - Província de Western Cape/África do Sul e co-presidenta da Rede nrg4SD, Tasneem Essop. "Quando as ações são realizadas por governos regionais já existem respostas práticas às mudanças climáticas, com o planejamento urbano, uso da terra, administração de desastres e inundações. O grande desafio na África do Sul, como na América Latina e Caribe é quanto à erradicação da pobreza. As ações dos governantes não podem estar separadas dos Objetivos do Milênio da Organização das Nações Unidas (ONU)", disse.

De acordo com a ministra, o aquecimento global pode ser hoje "o problema mais sério". "Mas não é hora de pessimismo, mas de ações", concluiu.

Sucena Shkrada Resk

16/03/2008 18:55
Ricardo Seitenfus (1º esquerda para a direita)-créd.foto Sucena Resk


Sucena Shkrada Resk

16/03/2008 18:37
Onde está o Haiti?, por Sucena Shkrada Resk

"Os problemas do Haiti começam aqui. Não temos a mínima noção do que acontece no país". A afirmação é do especialista em Relações Internacionais, professor Ricardo Seitenfus, durante o debate "O Gigante Vizinho: o Brasil na América do Sul", no último dia 12 de março. O evento foi promovido em São Paulo, pela BBC Brasil, em comeração aos 70 anos do serviço noticioso.

Segundo o docente da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM e consultor na Organização dos Estados Americanos (OEA), são graves as questões socioeconômicas - de fundo humanitário - no Haiti, localizado no mar do Caribe, na América Central. "São 200 anos de solidão, parafraseando o escritor Gabriel Garcia Marquez", diz.

A intervenção brasileira e da América Latina militarmente não consegue dar conta dos problemas crônicos, que se avolumam nesta nação, desde 1492, quando os espanhóis ocuparam a ilha e praticamente todos os aborígenes foram dizimados.

Já em 1967, os franceses receberam a cessão da parte oeste da Ilha, onde cultivaram cana-de-açúcar com a força de trabalho dos escravos africanos. E a independência só foi conquistada em 1804. Assim nascia a primeira nação negra das Américas. Mas a conquista não foi total, porque em 1814, o lado oeste foi tomado pela Espanha. E de 1915 a 1934, houve a ocupação dos EUA.

Todo o processo revela a história conturbada da nação, que teve mais um momento crítico, quando em 1957 foi eleito como presidente, François “Papa Doc.” Duvalier, que manteve um governo ditatorial. Após sua morte em 1971, foi sucedido por seu filho Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, que perpetuou a linhagem de gestão. Somente em 1986, ele fugiu para a França, diante do aumento da oposição no país. E mais um golpe sofreu a população haitiana, quando subiu ao poder os militares, depois de uma breve passagem do padre Aristide.

Diante desse caos político, a Organização das Nações Unidas (ONU) e os Estados Unidos começaram a ter uma ação mais presente, para que voltasse o regime democrático. E isso, em tese, aconteceu, em 1994, quando uma força multinacional possibilitou a volta de Aristides ao poder. E 10 anos depois, com eleições, o presidente continuou no cargo, mas teve oposição armada de grupos rebeldes. E ressurge o caos: Aristide renuncia. Daí a ONU envia tropas armadas para o Haiti, sendo que a maioria é de soldados brasileiros, que permanecem no território.

"Hoje os principais problemas no Haiti são o lixo, as crianças abandonadas e uma sociedade complexa sem Estado. Mesmo assim, se mata em Porto Príncipe (capital do Haiti), menos que São Paulo", diz Seitenfus.

De acordo com o analista internacional, para se vislumbrar uma mudança real, há necessidade da entrada de recursos internacionais principalmente do Norte (países desenvolvidos). " Não é possível se recuperar a paz, sem perspectiva de desenvolvimento", afirma.

obs: fonte histórica consultada: site Brasil Escola
Sucena Shkrada Resk

15/03/2008 17:35
Créd. foto - Sucena S. Resk


Sucena Shkrada Resk

15/03/2008 17:01
O exercício da liberdade de imprensa, por Sucena Shkrada Resk

A liberdade de imprensa é um tema que ressurge como a alegoria da fênix, de tempos em tempos, e resulta em discussões que envolvem principalmente a categoria, os personagens políticos e as autoridades públicas e judiciárias, sem que se dê voz em muitas ocasiões, à sociedade como um todo. Assim deixa-se de lado, quem é, ao mesmo tempo, consumidora, objeto e parceira no desenvolvimento do jornalismo.

Esse tema foi o centro da discussão promovida no debate "Jornalismo no Século XXI: Objetividade X Subjetividade", promovido pela BBC Brasil, em comemoração aos 70 anos do serviço noticioso, no último dia 13 de março, no Centro Brasileiro Britânico, em São Paulo. Os convidados dessa rodada foram o sociólogo e jornalista, professor da Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo (ECA/USP) e da Faculdade Cásper Líbero, Laurindo Leal Filho; Mário Magalhães, ombudsman da Folha de São Paulo e Ricardo Boechat, editor-chefe do Jornal da Band. A mediação ficou sob responsabilidade do diretor da BBC Brasil, Rogério Simões.

Durante o encontro, houve o destaque à prática do respeito e integração mais próxima aos leitores, ouvintes e telespectadores, ao papel das TV públicas - em especial à criada recentemente pelo Governo Federal - e privadas, e sobre os limites impostos pelo controle da liberdade de expressão. O assunto ganhou mais fôlego, devido à polêmica recente que envolve ações contra jornalistas e publicações por representantes da sociedade civil e da liminar concedida em fevereiro, pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Carlos Ayres Britto, que suspende os efeitos de alguns artigos da Lei de Imprensa, como a pena por calúnia, injúria e difamação (que já são contempladas no Código Penal).

Público quer participar mais

A BBC de Londres realizou em novembro de 2007, uma pesquisa mundial sobre o tema - Liberdade de Imprensa -, em 14 países (África do Sul, Alemanha, Brasil, Cingapura, Egito, Emirados Árabes, EUA, Índia, México, Nigéria, Quênia, Reino Unido, Rússia e Venezuela), em que foram ouvidos cerca de 11.350 entrevistados, que puderam emitir sua leitura sobre os limites que envolvem a comunicação de massa. Apesar de culturas e linguagens diferentes, 56% afirmaram que a liberdade de imprensa é muito importante, sendo que 40% disseram que a harmonia social e a paz são ainda mais importantes e podem justificar o controle sobre o que é publicado.

Isso demonstra o papel estratégico exercido pelo chamado quarto poder e as implicações dos empresários e profissionais de comunicação, na tarefa de vender em todos os sentidos o produto - informação. Os cidadãos entrevistados, neste quesito, foram enfáticos em revelar sua preocupação com a concentração da mídia, cuja propriedade dos veículos de comunicação está em mãos de poucos. No Brasil, México, EUA e Reino Unidos, os percentuais de pessoas que responderam afirmativamente a essa questão foram 80%, 76%, 74% e 71%.

E um item muito importante desse levantamento foi a constatação de que a maioria (56%) quer ter sua voz ouvida sobre temas que estarão no noticiário, sendo que especificamente no Brasil e México, esse índice sobe para 74%. Por sua vez, 39% do total de entrevistados preferem deixar a decisão do que estará no noticiário às organizações jornalísticas. Esses dados mais uma vez revelam o quanto é imprescindível a ética.

O editor-chefe do Jornal da Band, Ricardo Boechat, afirmou que a intervenção do público é cada vez maior nas pautas da emissora. "Isso acontece, com gravações de imagens e encaminhamento de mensagens pela internet", disse. Segundo o jornalista, é uma integração positiva, pois a informação se caracteriza como bem da sociedade e, com isso, a eficácia de se tentar cercear a liberdade de imprensa se torna cada vez menor.

Para o editor, o ibope, entretanto, é uma escravidão. "O desafio da captura da notícia é abordar o assunto de forma atrativa. O público se ressente da mesmice. Por isso, em vez de ficar na visão macroeconômica do Produto Interno Bruto (PIB), optamos por ir ao varejo da população, para despertar o interesse do público sobre os temas", conta.

Com relação à avalanche de ações que vieram à tona recentemente contra uma jornalista e veículo da grande imprensa, movidas por fiéis de uma seita religiosa, Boechat disse que é necessário haver maior reflexão sobre o caso. "A forma de conduzir esse tipo de crítica de rebate às notícias não é um caso clássico de cerceamento, como na época da Ditadura, mas é uma manobra que não facilita a liberdade de imprensa", afirmou. O grande desafio, no seu ponto de vista, não é temer o "grande cerceador", mas como os jornais tratarão de se retificar para que exerça mais a isenção.

Defesa da prestação de contas

Na ótica do público, o progresso da imprensa hoje obriga que o jornalismo tenha de prestar contas", disse o ombusdman da Folha de São Paulo, Mário Magalhães. O jornalista ilustrou casos de fraudes, nos últimos dois anos, que envolveram profissionais e veículos respeitados nos EUA e, inclusive, de um case brasileiro de um jornalista envolvido com caça-níqueis.

"A concentração de mídia no Brasil é algo obsceno. Inexiste democracia plena, se não há informação contraditória. É preciso equilíbrio de direitos - o de informar, ser informado, no âmbito individual e da sociedade", afirmou.

Segundo Magalhães, hoje, diferentemente do século XIX, a imprensa é fiscalizada também pela sociedade. " Isso é bom, inclusive, por meio de blogs. Como ombudsman, verifico que para os leitores não basta falar, mas participar. Querem uma relação honesta. Não estão satisfeitos com um papel passivo", disse.

No aspecto do profissional jornalista, Magalhães observa que muitos profissionais ainda sofrem constrangimentos físicos e de ordem econômica no exercício de suas atividades. "Em localidades menores, aumenta essa intensidade. Segundo o Consultor Jurídico, em 2007, houve mais de 3,1 mil ações por dano moral, sem considerar juizados de pequenas causas", disse.

O ombudsman da Folha de SP aponta a necessidade de equilíbrio. "Boa parte das empresas rés não têm condições de arcar com as custas dos processos. Já a vida do repórter virar um inferno", disse.

A ditadura do mercado

O sociólogo e jornalista Laurindo Leal fez uma análise histórica, desde o período da Revolução Industrial na Europa Ocidental até o século XXI. Segundo ele, a partir do século XVIII, as esferas públicas das classes trabalhadoras começam a ser protagonistas, para depois cair na atrofia do discurso, e ocorre o surgimento da consolidação dos oligopólios comunicacionais. "No século XX, surge a lógica capitalista de maior ibope. Os cidadãos de determinados países saem de cena, para as transnacionais tomarem seu lugar", disse.

Na década de 70, de acordo com o sociólogo, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) cria a Comissão - "Um Mundo e Múltiplas Vozes", com o propósito de democratizar o processo de comunicação. "Mas pressões sobre a organização, nos anos 90, acabou podando esse processo. A informação e seus meios passam a ser um bem econômico em vez de ser cultural, passando à discussão na Organização Mundial de Comércio", conta. Leal define essa situação como a ditadura do mercado.

Daí volta à discussão, os preceitos da Comissão da Unesco, que são o conceito do serviço de comunicação como um bem não comercial. E nesse contexto, surge a radiodifusão pública e estatal.

"A TV Pública brasileira está sendo implantada, provocando um debate de como efetivamente ser pública, já que tem forte presença do Estado. O distanciamento com o cidadão poderá torná-la inócua", considera.
Sucena Shkrada Resk

11/03/2008 09:36
Resiliência às adversidades, por Sucena Shkrada Resk

Encontrar ícones, que sejam exemplos através das gerações, não é uma tarefa muito fácil. Mas quando encontramos histórias de vida que, no mínimo, nos fazem sair daquela inércia que chega a incomodar - já é um bom começo. Uma dessas histórias é a do pianista e regente brasileiro, João Carlos Martins, 68 anos. Com uma carreira brilhante - em que se destacou mundialmente como um dos melhores intérpretes de Bach - teve sua carreira musical abreviada e interrompida por várias vezes, após os 26 anos, depois de uma partida de futebol entre amigos, aparentemente inofensiva em Nova York. E hoje, é um regente que encanta multidões, capaz de também dedilhar ao piano, o Hino Nacional brasileiro em uma expressão muita própria, quase que numa súplica, que verte lágrimas de seus ouvintes.

Um incidente lhe rendeu o comprometimento dos nervos de sua mão direita - instrumento mais precioso de seu ofício. Daí por diante, cirurgias, intervalos, retornos, LER, comprometimentos físicos após sofrer um assalto na Bulgária, um tumor dianosticado na outra mão foram se somando às fatalidades que acometeram sua vida. Mas num gesto de resiliência, insistiu bravamente até onde pôde, a tocar os teclados, com o que restava de forças, apesar da dor.

Mas não se sentiu derrotado em sua arte e não teve medo de recomeçar, ao ingressar já na chamada terceira idade, em uma escola de regência. Voltou a ser aluno e adaptou suas dificuldades a decorar milhares de partituras, como conta. Esse processo de reconhecimento de como conduzir suas limitações abriu novas possibilidades. Compartilhar seu aprendizado na formação da Orquestra Bachiana Jovem - que atua com comunidades carentes ou narrar sua experiência em palestras motivacionais. Em reconhecer o potencial de pessoas portadoras de deficiência e incentivá-las. Enfim, multiplicar suas dores em gestos solidários
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Sucena Shkrada Resk

06/03/2008 08:11
Células-tronco embrionárias, por Sucena Shkrada Resk

Fazer pesquisas com células-tronco embrionárias fere o princípio da vida na Constituição Brasileira? Esse é o grande debate que teve mais um round ontem (dia 05/3), no Supremo Tribunal Federal (STF). A pauta deve voltar à votação no prazo de um mês, devido ao pedido de vistas pelo ministro Carlos Alberto Menezes Direito, mas teve um posicionamento - no mínimo - corajoso da ministra Ellen Gracie, que antecedeu seu voto e se manifestou a favor das pesquisas. O mesmo parecer foi expresso pelo relator Carlos Ayres Britto.

Acompanho esse tema há algum tempo, e já tive oportunidade de falar com cientistas, especialistas jurídicos e representantes de religiões, além de pacientes com doenças crônicas degenerativas. Diante de todos os relatos, confesso que a "esperança da melhoria de qualidade de vida" e, inclusive, de possíveis reversões de doenças como diabetes, cânceres, neurológicas, cardíacas e lupus, entre outras tem um peso muito forte sobre os dilemas éticos e religiosos, que permeiam a pauta.

Pela Lei de Biossegurança brasileira, aprovada em 2005, é autorizada a utilização de embriões inviáveis ou congelados há mais de três anos em clínicas de fertilização, com o consentimento expresso dos genitores. A questão é se podem ser considerados seres vivos ou não. Uma corrente expressiva de especialistas, diz que não, outros, sim. O certo é que no Brasil, considera-se que um indivíduo está morto, quando há a paralisação definitiva encefálica. E no caso dessas células-embrionárias não existe o encéfalo.

Por um outro lado, a Ciência tem um longo caminho pela frente para os estudos dessa área, tendo em vista, que já se sabe que as embrionárias podem se transformar em qualquer tecido de nosso organismo, mas ao mesmo tempo, têm a possibilidade de ocasionar tumores. O grande desafio dos pesquisadores é encontrar a chave da reprodução das células condicionada à sua finalidade - por exemplo, de substituir neurônios lesados etc. Alguns pesquisadores falam em cinco anos ou décadas para haver a resposta. Mas esse é o "tempo da ciência", diferente do imediatismo das necessidades que permeiam as grandes doenças do século XXI.

Sucena Shkrada Resk

06/03/2008 07:37
A superação refletida pela objetiva, por Sucena Shkrada Resk

Ao ler hoje essa notícia publicada pela BR Press, por Juliana Resende, senti um misto de perplexidade e literalmente tristeza. Em Angola, está sendo realizado o concurso Miss Mina Terrestre, que tem sua votação pela web, por meio do site www.miss-landmine.org . As participantes são mulheres que foram mutiladas pelas minas terrestres que lotam o país. A princípio, pode parecer uma exposição excessiva, entretanto, ao refletir sobre todos os contextos, podemos perceber que é uma forma de superação de seqüelas incalculáveis e um alerta ao mundo.

O idealizador desse projeto é o norueguês Morten Traavik, que contou com o financiamento da iniciativa pelo governo de Angola e pela União Européia. E o que mais me causa espanto é que a ciranda de números sobre o número de mutilados é cada vez maior e, na verdade, o mundo não sabe a real extensão de vítimas, visto que, cada fonte relata um número totalmente diferente de pessoas. De acordo com a reportagem, são 70 mil, nos últimos 40 anos, em decorrência da guerra civil, que´envolveu os Movimento Popular de Libertação de Angola e a União Nacional para Independência Total de Angola (Unita) até o ano de 2002, mas que ainda deixou milhares de artefatos espalhados pelo território.

Sucena Shkrada Resk

26/02/2008 17:21
O desafio da desigualdade, por Sucena Shkrada Resk

A Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou, nesta semana, uma análise sobre o Brasil, quanto às ações para a defesa dos direitos humanos, em que o país revela um mau desempenho. Problemas crônicos, como desigualdade social, superlotação carcerária, tortura e violência urbana fazem parte da lista de desafios que governo e sociedade têm de superar.

O mapeamento teve o cruzamento de dados fornecidos pela Unicef, que aponta um número alarmante: 50 milhões de pessoas no Brasil ainda vivem na pobreza. Tendo em vista que somos cerca de 186,3 mi, o número de excluídos representa aproximadamente 27% do total dos cidadãos.

Essa exclusão se dá de várias formas, com crianças que não chegam a concluir o curso primário, jovens que são vítimas de homicídio, por causa do tráfico, do vício, dos acidentes de trânsito...Ou detentos que disputam centímetros quadrados nas delegacias e penitenciárias e reincidem no crime, já que falta uma política penal reeducativa.

Enfim, o Brasil está entre os cinco países considerados mais desiguais no mundo, segundo o Banco Mundial (Bird), ficando atrás apenas de nações africanas, apesar de estar sob um regime democrático.

Dessa forma, é preciso se rever os conceitos do regime, já que na prática, ainda a balança pende mais para um lado. Há necessidade de maior empenho nas políticas públicas de educação e segurança, para que as crianças de hoje possam vislumbrar um futuro mais promissor do que seus pais e avós.

Sucena Shkrada Resk

25/02/2008 09:25
Os fantamas bem vivos das guerras, por Sucena Shkrada Resk

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha emitiu um relatório sobre o mapeamento das chamadas bombas clusters pelos países em situação de guerra. O saldo desse tipo de intervenção bélica, que já é utilizado há mais de 4 décadas, é catastrófico. De acordo com a organização, mais de 13 mil pessoas (e quem sabe, muito mais...) morreram ou ficaram mutiladas em decorrência desse armamento, que resulta em vítimas, ainda anos após os conflitos. E o Brasil é um dos cerca de 40 países, que fabricam o armamento.

Homens, mulheres e crianças de todas as idades sofrem com o que podemos denominar de estratégias de barbáries resultantes dos efeitos desses pequenos equipamentos letais. Cada um pode se multiplicar em vários, por isso, recebe a identificação de cluster. Com isso, países como Afeganistão, Camboja, Etiópia, Líbano, Sudão e Kosovo, entre outros, sofrem a todo momento, baixas principalmente em sua população civil, por causa das explosões.

Estima-se que ainda haja milhares desses artefatos espalhados pelos solos desses países. São perfeitas armadilhas prestes a explodir. Assim, famílias são destruídas, sonhos de vida dizimados e os estados não conseguem dar conta da reabilitação dos mutilados - tanto no aspecto físico, como psicológico.

Diante desse quadro em que o aspecto humanitário parece não ter nenhum significado para líderes e extremistas,tramita o Tratado internacional de Oslo, que tem como objetivo, proibir a fabricação, uso e transferência desses dispositivos. No entanto, há pouco avanço neste sentido. Uma próxima rodada de negociação está programada para maio deste ano.

Mesmo que haja o acordo, ainda demorará, quem sabe, décadas, para que essas bombas sejam dissipadas. O mais importante é que as atuais gerações e as próximas tenham conhecimento disso e não fiquem alienadas quanto a isso. Não é possível esperar que o problema chegue ao quintal de nossas casas, para que tomemos consciência de que o homem precisa assumir seus atos.

Sucena Shkrada Resk

22/02/2008 11:15
Tragédia Palace 2 completa 10 anos, por Sucena Shkrada Resk

Indignação. Acredito que essa palavra sintetiza o episódio do Palace 2, que completa 10 anos e devastou a vida de centenas de moradores e deixou oito mortas. Como a morosidade é algo reincidente nos meandros da justiça brasileira, a maioria das famílias aguarda até hoje indenizações. Segundo matéria da jornalista Luisa Belchior para a Folha Online, no Rio, somente 15% foram indenizadas e 15 delas ainda vivem a rotina de um hotel - que pelo o menos - é bancado por meio dos leilões dos bens do empresário Sérgio Naya (que foi absolvido na esfera criminal pela Justiça), dono da construtora Sersan, responsável pela obra.
O desabamento do edifício ficou nos anais da história do ramo de construção e imobiliário, como prova da necessidade de maior empenho do setor e das áreas de fiscalização, no quesito qualidade. Com certeza, as vidas desses condôminos - hoje representados pela Associação das Vítimas do Palace 2 - viraram de cabeça para baixo. Oito já morreram durante essa década e não puderam ver o caso totalmente resolvido (pelo o menos, no que tange à parte dos danos)
De acordo com entrevista concedida por Naya (que responde hoje somente pela parte civil do processo), à Folha, a tragédia se deu por erro de cálculo na distribuição dos pilares. "Uma fatalidade, vez que o calculista era tido como competente. Por isso fui absolvido em todas instâncias e tribunais. Não tive culpa pela tragédia", afirmou.

Mas a questão é a seguinte: imaginem se a todo momento ocorressem erros de cálculos nas edificações ou fossem usados materiais de baixíssima qualidade? Se um dia você ou eu estivéssemos confortavelmente em nossos imóveis e, de repente, ficássemos sob o pó dos escombros. Quantas pessoas não utilizaram recursos reunidos por anos para adquirir o imóvel próprio (mesmo que ainda estivessem pagando as prestações)...São vários ângulos que devem ser analisados. Afinal, recuperar esse histórico é importante, para que não fique perdido no tempo. Assim serve de exemplo para que algo dessa monta não se repita.

Sucena Shkrada Resk

20/02/2008 09:21
A intolerância ao diferente, por Sucena Shkrada Resk

A Record News exibiu na última terça-feira, 19 de fevereiro, um documentário internacional da BBC sobre portadores de uma patologia rara congênita chamada neurofibroma, que desfigura principalmente o rosto dos pacientes, e pode apresentar os primeiros sintomas na infância. Ao ouvir as narrativas sobre a luta para enfrentar preconceitos, depressões, inúmeras cirurgias e, acima de tudo, conviver com que os padrões estéticos podem intitular de feio, observei o quanto a humanidade ainda precisa saber para conviver com o diferente.

Ter um queixo mais longo e saliente ou uma palpebra caída e caroços na testa nos faz ser melhor ou pior que o outro? A embalagem que nos reveste - se assim podemos chamar - é mais importante que o conteúdo, que representa nossos sentimentos, personalidade, valor espiritual?

A mensagem que consegui retirar de todos os depoimentos é que precisamos ser mais tolerantes e menos materialistas. Basta ver a alegria de um portador de neurofibroma ao olhar no fundo do olho de seu semelhante e verificar que ele o vê como um igual, com respeito e ternura.

Sucena Shkrada Resk

19/02/2008 11:16
Acaba o ciclo cinquentenário de Fidel em Cuba, por Sucena Shkrada Resk

Após 49 anos, Fidel Castro renuncia ao poder. É incontestável que essa decisão do presidente cubano marca um ciclo da história geopolítica mundial. O líder comunista manteve até agora um dos últimos resquícios do regime no planeta.

Em sua carta de desistência, citou o arquiteto brasileiro centenário Oscar Niemeyer, com a seguinte observação - "Penso como Niemeyer que é preciso ser conseqüente até o final". A frase tem um sentido bem eloqüente, para o ditador, que aos 81 anos e com a sua saúde debilitada, acredita que deve passar o bastão a um sucessor. Agora, a questão é - será que o seu irmão Raúl, que já governa o país, será realmente o seu sucessor e terá a mesma mão-de-ferro e personalidade, que perpetuou o ditador no poder, por décadas. A experiência dos últimos anos, revela que não. Afinal, é possível o regime comunista subsistir no século XXI?

O que o povo cubano quer, depois de tanto tempo, sob um mesmo comando? Sabemos que não é fácil a vida no país, sem a democracia no strictu sensu e uma política que enfrenta entraves nas relações internacionais, que têm forte impacto na economia local. Entretanto, não é possível desmerecer o mérito do governo cubano com relação ao desenvolvimento de áreas importantes, como a educação e ciência. Qual é o anseio do povo cubano, como ele irá se expressar a partir de agora? É uma questão crucial a se analisar. Libertar - se do período de Fulgêncio Batista, mas ficar sob o comando de Fidel, por tanto tempo...com as portas fechadas para o regime capitalista, que domina o mundo globalizado...Mas que peitou de frente a potência dos Estados Unidos.

Agora, começa a ser escrita uma nova história. Quem sabe o êxodo de milhares de cubanos, que todos os anos seguem em sua maioria clandestinos a outros países, para tentar a sorte, se reverterá... E que o país vai abrir suas portas a partir de agora à nova ordem mundial e reverterá o isolamento. No próximo dia 24, começará a se desenhar uma nova etapa do maior arquipélago das Antilhas, no Caribe.

Sucena Shkrada Resk

11/02/2008 09:47
Falta de cidadania, por Sucena Shkrada Resk

O endereço é avenida Almirante Dellamare, bairro Heliópolis, São Paulo. Até aí, nada de inusitado, a não ser o descaso da população e do poder público quanto à questão do entulho e lixo orgânico. As calçadas próximas à Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) do Grande ABC estão sendo tomadas literalmente pelo despejo desenfreado de resto de construções, lixos de todos os tipos. Carrinheiros sem cerimônias jogam à luz do dia o que não serve mais para as obras e, assim, até a rua já começa a ser tomada por essa avalanche, bem em frente a um terreno baldio.
Mais adiante, sentido São Caetano do Sul - SP, na mesma calçada, casebres de madeiras foram construídos sobre o passeio e o esgoto clandestino transborda ao meio fio.
Essa cena se repete há vários meses e, o mais gritante, é que só se altera para pior. Aí está um problema de saúde pública e vigilância sanitária- por causa da incidência de ratos - de limpeza urbana, de educação ambiental e de cidadania. Não é possível, em pleno século XXI, esse cenário de descaso ser notório na maior capital do Brasil e da América Latina. Que progresso é esse? Aí está um bom tema bem urbano para ser discutido na Cúpula das Cidades, que vai acontecer no Sul, que tem como um dos pilares, o Saneamento, como parte dos Objetivos do Milênio...

Sucena Shkrada Resk

08/02/2008 14:37
Um defensor de quatro patas, por Sucena Shkrada Resk

Gravem bem este nome - York Von Golderberg. Eis aí o primeiro cão contratado da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, na Suiça. O servidor de quadro patas tem como principal função rastrear explosivos e cuidar da segurança do escritório. O pastor alemão já carrega o crachá em seu pescoço e é mais um cidadão - por que não? - que literalmente corre risco de vida, como milhares de profissionais que trabalham na instituição e, em especial, em guerras e operações humanitárias.
Sob o comando de seu instrutor, o cão policial acaba sendo um exemplo de companheirismo, como tantos outros que fazem seu trabalho anonimamente em vários locais do planeta. Não é só pela ração ou um afago, que esses animais se mobilizam. Eles criam uma empatia pelo ser humano, que muitas vezes, é esquecida pelo próprio homem em suas relações sociais.

Sucena Shkrada Resk

06/02/2008 08:34
A alienação ao quadrado, por Sucena Shkrada Resk

Toda vez, que vejo na TV alguma menção ao BBB, me questiono qual é o papel dos meios de comunicação na atualidade. A nítida sensação de que o pueril supera o premente faz com que uma revolta se ascenda sobre o ritmo da alienação.
Fulano brigou com ciclano, ou ciclano ficou com fulano...Ah, mas um terceiro armou contra o x ou o y, e nesse ritmo, do insosso, lá seguem os discursos, as narrativas, apelos teatrais, sensuais e tudo o que se possa imaginar - com direito à chamada e ao horário nobre, e o que mais assusta - ibope.
O brasileiro precisa de distração? Claro, afinal a vida não pode ser fundida somente em função do trabalho e da resolução de problemas, evocando uma seriedade absoluta. Agora traduzir o sentido do que podemos chamar de distração é que são elas.
Sem entrar nos meandros da filosofia, poderíamos dizer que a distração deve produzir felicidade e acrescentar algo positivo em nossas vidas. E aí vai a pergunta - você, eu, nós somos felizes ao sermos bombardeados por essa programação de massa?

Sucena Shkrada Resk

12/01/2008 18:33
Realidade à flor da pele, por Sucena Shkrada Resk

Andar de trem está acima de um simples meio de transporte. Pode-se dizer que é um retrato, por muitas vezes, da carência que assola o país. Passam-se os anos e as cenas pouco mudam. Vendedores ambulantes em sua clandestinidade às avessas vendem de tudo um pouco - é o chocolate por R$ 0,50 ou a cartilha matemática, que é intitulada de solução para os problemas na escola e, quem sabe, um cortador de unha. No mesmo corredor, outro grupo discursa sobre o "desemprego" e pede, nem que seja R$ 0,05, para que possa comer, tomar um café ou comprar o leite do filho. "Se não tiver - que Deus te abençoe do mesmo jeito...", muitos dizem.

Ver essas personagens de carne e osso - para muitos - se transformou em uma situação corriqueira, praticamente banalizada. Mas não é. Com a devida ponderação, quanto àqueles que fraudam um estado de extrema pobreza - com direito a pedido datilografado e tudo, esses cidadãos atingem praticamente o extremo da humilhação. É um ir e vir desnorteado, em que a mão se estende para pegar moedas e que os ouvidos dezenas e centenas de vezes ouvem um não ou os olhos decifram um aceno de cabeça negativo. Ninguém escapa a essa fragilidade. Homens e mulheres jovens e idosos, portadores de deficiência. Um pelotão que há muito não sabe o que é um salário ou uma renda. As palavras saem quase que automaticamente, como se fossem fundamentadas em uma palestra autodidata sobre a balança desigual socioeconômica brasileira.

Então, a parada da estação chega, a porta se abre, e para trás fica essa realidade à flor da pele. Mas no outro dia, tudo se repete, para que a gente lembre que há muito a melhorar nesse país, quando o tema é o binômio - direito à educação e empregabilidade.

Sucena Shkrada Resk

07/01/2008 14:43
Armadilha da acessibilidade, por Sucena Shkrada Resk

Andar de ônibus na cidade de São Paulo tornou-se uma perfeita aventura, com direito a salto em altura, e tudo. O que deveria significar um design arrojado e funcional, facilitando a acessibilidade, é, na verdade, uma verdadeira armadilha.

Lá está o aviso. "Cuidado com a escada". E que escadas...Qualquer usuário pode ter, com certeza, dificuldade de subir e descer os degraus, com risco de cair ou torcer o pé. Imagine, quando o coletivo está em movimento. A situação fica mais perigosa.

Afinal, houve uma regressão nos padrões técnicos? Essas escadas estão em conformidade com a ABNT, ou a intenção do poder público é aumentar a fila do Sistema Único de Saúde (SUS)? Sinceramente chega a ser surreal, no dia-a-dia, presenciar a dificuldade que esses desníveis provocam. Gostaria de saber o argumento para o novo modelo das composições do transporte público. Quem sabe alguém me convence que é a melhor solução para o usuário...Talvez, seja uma ferramenta para fazer exercício de estepe, não é verdade? Ou para o lema dos escoteiros - "sempre em alerta"...

Sucena Shkrada Resk

05/01/2008 16:04
Intolerância sem rédeas, por Sucena S. Resk

O assassinato da ex-premiê paquistanesa Benazir Bhutto, em dezembro do ano passado, revela um estado de intolerância, que pode culminar numa total dissolução do que podemos chamar de democracia naquele país, que passa por grave crise política. Após oito anos, em auto-exílio, voltou aos 54 anos, para morrer sob os disparos de um extremista. Por quê? Esse é um questionamento feito por milhares de cidadãos comovidos dentro e fora das fronteiras. Poder, cobiça, convicções idealistas...qualquer nome que se dê a essa ação de violência só denota um estado enfraquecido por uma política sem freios, em que não há controle sobre os atos fundamentalistas, que levantam pseudo-bandeiras libertárias.

Benazir foi a primeira chefe de estado de uma nação islâmica, representante do Partido Popular do Paquistão, em dois períodos entre 1988 a 1996, entre tumultuadas acusações de corrupção, que culminaram em condenação, anistia e, por último, em auto-exílio. O seu pai, que também foi o primeiro premiê eleito do país, teve um fim trágico, ao ser assassinado, quando houve um golpe militar em 79. A história se repetiu praticamente 30 anos depois.

O líder da oposição paquistanesa, Nawaz Sharif, garantiu que dará prosseguimento à bandeira defendida por Benazir - que era da defesa dos pobres, apesar de ser oriunda de uma família rica e ter uma formação universitária sólida em Oxford. Seus correligionários estão abalados com sua morte, que pode ser estopim de mais violência, em uma nação que sofre com a ditadura e o terrorismo, por décadas, e que volta e meia, retorna à cena mundial, por causa das ameaças nucleares, em entraves com a Índia quanto ao domínio da região da Caxemira. Agora, que o país está prestes a novas eleições, tornou-se foco das atenções do Ocidente e do Oriente. A delicada situação geopolítica pode influenciar o mercado global, que sofre os impactos da instabilidade que rege o século XXI.


Sucena Shkrada Resk

03/01/2008 18:38
Créd. Sucena S. Resk - Ilha Grande - 12/2007


Sucena Shkrada Resk

03/01/2008 18:34
Créd. Sucena S. Resk - Ilha Grande - 12/2007


Sucena Shkrada Resk

03/01/2008 18:29
Um paraíso em perigo, por Sucena Shkrada Resk

Ilha Grande, no RJ, pode ser definida como um dos mais belos destinos brasileiros. O turismo cresce ano-a-ano, no arquipélago fluminense, mas retrata o que a falta de controle pode ocasionar a médio prazo. A pequena vila de Abraão, que concentra o receptivo, não suporta mais o fluxo de turistas, em período de alta temporada. Pela segunda vez, fui para lá, e pude observar, que num prazo de quatro anos, muita coisa mudou...

A produção de lixo, esgoto e todo o tipo de resíduos, nessas épocas, transforma o cenário de cartão-postal em um retrato do conflito entre o homem e o meio-ambiente. O desrespeito segue nas trilhas fechadas, que levam a cenários escondidos entre as matas. Uma garrafa PET aqui, outra acolá, ou um saquinho no chão, ...contrastam de forma cruel, com os contornos perfeitos da natureza.

Mas nem tudo está perdido. Ainda é possível flagrar pequenos pássaros cantando nas primeiras horas da manhã, micos e saguis brincando nas copas das árvores das trilhas fechadas na mata e os caranguejos que aparecem e desaparecem sorrateiros nas praias - como Lopes Mendes e Dois Rios. Este último, um patrimônio histórico, onde ficam os escombros do presídio de Ilha Grande, que marcou uma fase importante da história brasileira.

Essa dicotomia nada mais é que um apelo para que haja o turismo sustentável. Que os moradores e os barqueiros sejam conscientizados de sua importância nesse processo de preservação. Que o poder público exerça, de fato, um papel de educador e fiscalizador. E que, acima de tudo, nós - turistas - sejamos agentes dessa transformação, para que futuras gerações possam apreciar o que o Brasil tem de melhor.

Sucena Shkrada Resk

05/12/2007 17:45
Muito mais do que lucro financeiro, por Sucena S. Resk

A tão aclamada sustentabilidade vai muito além das cifras bilionárias. O termo usado desde 1987, às vezes, se transforma meramente em uma fachada...Isso acontece, porque as ações necessárias para implementá-la são múltiplas e, simplemente, são ignoradas. Envolvem a gestão de pessoas, o meio ambiente, a chamada inter-relacionalidade com a cadeia produtiva, ou seja, expressam uma visão polissêmica, como define o consultor do UniEthos, Homero Santos.

O que vemos hoje no mundo é uma balança desigual que vai na contramão da sustentabilidade. "Se a população mundial fosse reduzida a um vilarejo com 100 habitantes, 6 pessoas dos EUA deteriam 50% das riquezas, 80% viveriam em condições de habitação sub-humana, 70% seriam analfabetos, 50% sofreriam de subnutrição crônica e somente 1% teria nível universitário", diz o analista.

Santos questiona se vale a pena um PIB mundial de US$ 30 tri (ano 2000) para uma população de 6,6 bi de habitantes, contra US$ 600 bi/600 mi respectivamente em 1820, se ao crescer 5 x, se chegou a essa desigualdade.

Sucena Shkrada Resk

23/11/2007 18:45
Se tudo isso fosse realidade...Créd: Sucena S. Resk-12/2007


Sucena Shkrada Resk

23/11/2007 18:29
O Natal nórdico na Terra Brasilis, por Sucena Shkrada Resk


O cenário é bonito e atraente, mas nada mais é que o retrato da cultura nórdica que povoa o nosso caldeirão de diversidades. Ao me deter com mais cuidado nessa expressiva decoração natalina, nesta semana, comecei a refletir como um morador em situação de rua e uma criança abandonada se sentem ao passar em frente destes personagens coloridos e cultuados desde a infância, tão perto, em uma das avenidas mais famosas de São Paulo. Na verdade, é um universo encantador que foge drasticamente às suas realidades, em que a poeira se acumula sobre a pele, barbas e cabelos estão crescendo em desalinho e que corpos magros se contrastam com a robustez dos bonecos de neve e do velho conhecido papai-noel.

Nesse exercício, pensei nas inúmeras possibilidades que o dinheiro investido neste ornamento poderia ter. Por exemplo, cursos de capacitação, geração de emprego, cestas básicas...Talvez, com isso, esse universo lúdico tivesse mais sentido - o sentido da solidariedade, da isonomia de direitos, como integrar o que é considerado bonito e "alegre" aos olhos. Com isso, o faz-de-conta seria substituído por situações reais, que dariam a mesma sensação prazerosa, com bens tangíveis e intangíveis.

Sucena Shkrada Resk

16/11/2007 17:59
Como deter a criminalidade infanto-juvenil?, por Sucena S. Resk

Hoje o poder público e a sociedade enfrentam um grande dilema. Como deter a criminalidade infanto-juvenil? O tema é latente, já que as chamadas medidas socioeducativas, em boa parte das vezes, foi equivocada no passar das décadas e resultou num problema que ninguém quer assumir, de fato. Em São Paulo, a antiga Febem se transformou no Casa e mudou o modelo de gestão recentemente, adotando unidades menores, para evitar as inúmeras superlotações e rebeliões que marcaram negativamente a instituição.

Daí surge mais um questionamento: deve ser mudado também o limite da maioridade penal? Uma corrente diz que sim, que aos 16 anos, o adolescente já tem condições de assumir penalmente suas infrações. Outros afirmam que não, com o argumento de que o sistema prisional, do jeito que é hoje, vai piorar a situação, já que a reincidência chega a 70%.

Diante de tantas dúvidas, o que de fato é mais coerente é o investimento numa educação básica de qualidade e promover o aumento de empregabilidade neste país. Mas os números são preocupantes. Das 13 milhões de crianças na faixa de 0 a três anos, somente um milhão tem acesso à creche.

Com a instituição do Estatuto da Criança e Adolescente (ECA), em 1990, pode-se dizer que houve um avanço no sentido de estabelecer os direitos legais, mas na prática a realidade é outra. Basta verificar os números. Hoje existem 15 mil adolescentes em sistema de privação no Brasil. Eles representam 0,2% da população nessa faixa de idade no país, segundo o representante do Conselho Nacional das Crianças e Adolescentes e presidente do Movimento Nacional de Direitos Humanos, o advogado Ariel de Castro Alves. Ele foi o convidado do curso de Jornalismo Social da Escola de Comunicação e Arte/Universidade de São Paulo (ECA/USP), desta semana.

Alves apresenta mais números, que pesam negativamente no quesito direitos humanos, resultado de levantamentos da Unicef, entre outras instituições. "Diariamente 16 crianças e adolescentes morrem vítimas de armas de fogo, 18 mil crianças são espancadas mensalmente e estima-se que 6 milhões de crianças são submetidas ao trabalho infantil, enquanto 500 mil sofrem exploração sexual", afirma.

"Mas é preciso ficar claro que quem tem direito também tem o dever de respeitar os direitos dos outros", diz. Segundo o especialista, um case interessante de condução de atendimento ao adolescente infrator é praticado no município de São Carlos, SP. "Lá existe uma articulação entre várias esferas no sistema do Núcleo de Atendimento Integrado (NAI). Os casos de reincidência chegam a 4%, enquanto no CASA, coordenado pelo governo do Estado de São Paulo, é de 22%. A estatística de homicídios praticados por adolescentes também teve um grande impacto na cidade do interior paulista, de acordo com o advogado. "Em 98 foram 15 e no ano passado não houve o registro de nenhum caso", diz.

Determinar que um modelo de gestão é pior ou melhor que o outro ainda é prematuro. O certo é que efetivamente algo tem de ser feito para que conduções de casos, como o de Champinha, sejam evitadas. Que adolescentes com desvios de comportamento, problemas mentais ou não sejam realmente diagnosticados corretamente e, que sejam reabilitados, para que não se somem ao pelotão de criminosos, quando atingirem a idade adulta.

Sucena Shkrada Resk

11/11/2007 19:16
Aquecimento global, por Sucena Shkrada Resk

A sorte está lançada. Um aumento de 1,9 º C ou 6,4º C na temperatura média da Terra, que hoje é de 15º. A discussão acalorada faz parte da agenda do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que chegou finalmente ao consenso, de que a principal causa da instabilidade no planeta é de origem antrópica. Agora, a questão é saber quais nações, governos e sociedades, de fato, vão correr atrás do prejuízo, e reverter essas projeções estimadas até 2.100. Atualmente sabe-se que a temperatura já aumentou na faixa de 0,76º e ainda há poucas iniciativas consistentes para reverter esse problema. Se o quadro mais pessimista acontecer, o nível do mar pode ainda aumentar em 7m, e com isso, a sobrevivência será uma incógnita.

"O aquecimento global é acumulativo e não há exceção de que alguém escape das conseqüências", afirma o integrante do corpo técnico do IPCC, o engenheiro agrônomo Carlos Cerri, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena/USP). O especialista foi um dos convidados do curso sobre Aquecimento Global promovido pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo em parceria com o Instituto Ecoar, entre outubro e novembro deste ano.

Cerri explica que as intervenções do homem começaram principalmente na fase da Revolução Industrial. E os fenômenos climáticos se restringem à distância de 12 km da exosfera, que é chamada de troposfera. Os grande vilões, como todo mundo sabe, são o CO2, o metano e o áxido nitroso, oriundos da indústria e queima de combustíveis fósseis, da agricultura e das mudanças no uso da terra.

O Brasil junto à China, Índia e EUA - esse último responde por 30% das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) mundiais - figura como o 4º grande contribuintes da desestabilização climática, quando apontamos como causa principalmente o desmatamento, a agricultura, o transporte e o lixo.

Os números são assustadores. São mais de 240 mil ton de lixo produzidas diariamente no país e cerca de 88% desse total vai para aterros sanitários. Com isso, favorece a produção de gás metano, que é mais impactante que o de CO2. Outro dado alarmante é que o Brasil destruiu 70 mil km2 de florestas, só entre 2002 e 2005 e o desmatamento representa hoje 75% das emissões de GEE no país.

O Brasil só tem seu papel abrandado, quando se trata da matriz energética, que é predominantemente hídrica, ficando entre os 20 primeiros colocados no ranking global de produção de CO2, cujos os primeiros colocados têm como vilão, os combustíveis fósseis. Mas em qualquer uma das circunstâncias, o país está numa situação desconfortável. Pois ratificou o Protocolo de Kyoto, em 2002, e ainda pouco avançou em diminuir a emissão.

Agora, não dá mais para adiar o cumprimento da lição de casa. E cada um de nós faz parte desse processo. Já se foi o tempo da desculpa da alienação. As atitudes pró-positivas vão desde o não-desmatamento, o reflorestamento, a proteção dos recursos naturais, como os nossos mananciais, o manejo adequado do solo, a colaboração com a coleta seletiva e reciclagem até a alteração dos hábitos alimentares.

Seguem alguns cálculos interessantes. Segundo Luciano Araújo, do Instituto Ecoar, se uma pessoa diminuir em 30% o consumo de carne, durante um ano, deixará de emitir 40 kg de CO2 equivalente na atmofera, que é igual à emissão de um veículo à gasolina, após 570 km rodados. Esse raciocínio leva em conta todo o processamento da carne, desde a criação do boi na pastagem...Já ao deixar uma árvore sobreviver, ela conseguirá sequestrar num prazo de 30 anos, 1 tonelada de GEE.

"No setor de agronegócio, a integração lavoura-pecuária é o que há de mais moderno e eficiente para diminuir as emissões. Os plantis diretos, com mínimo de sulcos, evitam a degradação do solo, e uma solução para diminuir o impacto das criações de gado (227 milhões de cabeças) é o semi-confinamento", diz Carlos Cerri.

E as mudanças têm de ir mais longe. Atualmente o mecanismo de Reduções Certificadas de Emissões (RCEs), que são comercializadas na Bolsa, também são tímidas no Brasil. Estima-se que mais de 200 projetos para crédito de carbono tenham sido apresentados até hoje. Entretanto, houve a aprovação de poucos, como o do Aterro Bandeirantes, em SP, de Nova Iguaçu, no RJ e um projeto de substituição de carvão mineral por vegetal de uma empresa mineira. Apesar de um número irrisório comparado ao universo, já é um começo. O importante é que as empresas e os governos se capacitem para tornar esses projetos com sustentabilidade.

A coordenadora do Instituto Ecoar, Miriam Duailibi, ainda analisa que se não houver um esforço conjunto, os resultados de reversão não acontecerão. Basta lembrar que EUA e Austrália não ratificaram o Protocolo de Kyoto. Nessa redução da emissão de GEE, as ações devem ser incisivas quanto à eficiência energética, à utilização de energia renovável, à descarbonização de combustíveis fósseis (por meio de sequestro) - que já é uma tecnologia adotada pela Petrobras - , entre outros.

"É previsto que o Etanol da cana ocupe até 10% da matriz energética nos transportes brasileiros até 2030. Isso representa 1,5 bi ton anuais a menos de gás carbônico", afirma Miriam. "No campo das políticas públicas, as ações que podem contribuir positivamente são a permeabilização do solo, a adoção do reuso da água, de manutenção de contenção de encostas e recuperação de matas ciliares, além da coleta de água da chuva e adoção de aquecedores solares", diz.

E a sociedade tem de se mobilizar, segundo a jornalista. Aí está implícita a necessidade de mudança de atitude, que pode começar com ações domésticas, como a economia de energia. As pessoas ao não utilizarem o modo stand by dos eletroeletrônicos, por exemplo, estarão economizando 9% de energia. Ao substituírem o carro pela carona solidária ou pelo transporte público ou pela bicicleta, ajudarão a emitir menos CO2. Essas são algumas posturas que podem fazer a diferença, se tornarem uma prática efetiva.


Sucena Shkrada Resk

03/11/2007 14:29
Os bastidores do IDH, por Sucena Shkrada Resk

Quando se fala em inclusão social, inúmeras teorias e projetos vêm à tona, como se fossem a solução de todas as mazelas mundiais. Mas nenhuma sociedade e governo conseguiram até hoje colocar a dosagem certa dos ingredientes, para que haja, de fato, a tão almejada isonomia de direitos. A prova está aí, com a desigualdade que ultrapassa décadas, não só, nos países subdesenvolvidos, como também, nos de "primeiro mundo". Quando Amartya Sen, na década de 90, estruturou os conceitos de IDH, permitiu ao menos, que houvesse uma visão mais ampla do que é, de fato, prioritário na política pública.

"Toda a concepção de pobreza está ligada às necessidades básicas, e a boa ação pública não é só distribuir bens, mas ampliar as possibilidades e capacidade de escolha das pessoas, desenvolvendo seu lado crítico", considera o pesquisador Jorge Kaiano, do Instituto Polis, convidado do ciclo de palestras do curso de extensão de Jornalismo Social, da ECA/USP, no mês de outubro deste ano.

Segundo o estudioso do Mapa da Exclusão de São Paulo, não existe cidadania sem informação adequada. Em sua opinião, o problema na sociedade morderna, principalmente brasileira, é o choque de competências entre as esferas municipais, estaduais e federal. "Com isso, têm dificuldade de saber qual é a responsabilidade de cada um diante as dificuldades de gestão. E fica o jogo do empurra-empurra", diz.

Kaiano considera que a própria mídia não traduz o que é realmente eficaz na políticas sociais. "O papel da comunicação é fugir de discursos de intenções. O sistema capitalista produz exclusão o tempo todo. A cidadania não é concedida pelo Estado, mas é uma conquista. Mas o Estado pode ajudar ao indivíduo, mas não faz praticamente nada neste sentido", afirma.

O IDH, de acordo com o pesquisador, tem como objetivo melhorar as condições de vida dos seres humanos. "As pessoas têm de se alimentar adequadamente, falar em público sem se envergonhar. Muitas pessoas não fazem o uso do direito de se expressar. A efetivação é difícil de conquistar, se está em condição de extrema pobreza e sem acesso à educação", analisa. E é justamente aí, que o Estado tem de ser atuante.

Para Kaiano, cidadania significa ter o direito de ter direitos, por isso, pobreza, analfabetismo, injustiça social e degradação ambiental se contrapõem a essa proposta. Apesar de ser uma conclusão óbvia, é o retrato que vemos diariamente em várias localidades do planeta, ou a poucos metros de nossas casas. "Não existe desenvolvimento sustentável, sem desenvolvimento humano. Quando a gente fala, por exemplo, de humanização na área da sáude, isso quer dizer que cada um tem necessidade específica própria. Essa concepção é contrária ao clientelismo e assistencialismo", afirma.

Diante desses recortes, o que se verifica é que desenvolvimento humano não se reflete no Produto Interno Bruto (PIB). "Nos anos 90, quando o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) instituiu o IDH, o Brasil estava numa lista de 130 países e configurava com um índice relativo de riqueza alto, mas com taxas sociais abaixo do que esse nível expressava. Portanto, o PIB percapita, mais esperança de vida e analfabetismo resultam em um país que não é pobre, mas injusto. Pode ser considerado um indicador perverso", diz.


O Brasil está entre os países de desenvolvimento médio, na faixa de 0,792, sendo que os de desenvolvimento alto apresentam o índice acima de 0,800. "O sistema ONU teve a perspicácia de criar um ranking, mas que não traduz a realidade. Entretanto, é um meio interessante de despertar interesse das pessoas para o que está por trás dos indicadores", considera o pesquisador do Instituto Polis.

Sucena Shkrada Resk

23/10/2007 17:25
Crônica - Onde está o olho no olho?, por Sucena Shkrada Resk

Por onde andam as pessoas que olham a gente de frente e bem no fundo dos olhos? Como está difícil encontrar esse tipo ímpar de ser humano, que não sofre do mal da dissimulação e da máscara imposta por uma sociedade competitiva e, até certo ponto, doente, no quesito ética.

Bem diziam nossas avós, que os olhos não mentem. E com essa premissa, posso afirmar com convicção, que percebo no dia-a-dia, a ausência dessa qualidade em muitos seres humanos. Ditos intelectuais, colegas de profissão, políticos e outros títulos mais. Com o sorriso nos lábios e palavras doces, não disfarçam a falta de sinceridade, e ainda acham que enganam. Julgam-se superiores, espertos, inteligentes, mas nada mais são que sabedores de nada...

E, por mais incrível que pareça, esse quê de decepção com essa sociedade contaminada pela hipocrisia, pode ser atenuado, com um simples bate-papo casual em um ônibus travado com uma senhora dos seus 80 anos. E esse foi o motivo que me levou a escrever esse relato.

Hoje de manhã, ela seguia junto com seu filho ao hospital Beneficência Portuguesa, para acompanhá-lo em uma consulta. Essa senhora, com olhos claros, apesar de estar dentro de um microônibus, onde o ar condicionado estava congelante e havia pouco espaço entre as poltronas, conservava o semblante sereno e resignado.

Em poucos minutos, ela puxou conversa comigo e narrou os principais momentos que viveu com seu filho, desde o seu nascimento, há algumas décadas, quando o recém-nascido teve de se submeter a uma cirurgia inédita no país, relacionada ao intestino. E quem diz que essa mãe perdeu as esperanças? Que nada! Outros sustos a levaram ao hospital, quando o seu filho era garoto e adulto. Em uma dessas ocasiões, um diagnóstico errado quase foi fatal, mas ela não se deu por vencida. Liderou a busca por especialistas e encontrou uma equipe que deu esperança de vida ao seu filho.
A tristeza foi substituída por uma fé incontida. Da última vez, foram quase dois meses de UTI, aquela fronteira entre a vida e a morte. Mas no semblante desta senhora, a esperança de que veria novamente seu filho bem foi muito maior. E lá, estava ele, prestes a descer no ponto da avenida Paulista, acompanhado por sua mãe - ou melhor - anjo da guarda. Sem dissimulações, feliz, com sua fala mansa e sem medo de olhar lá dentro do olho da gente.
Esse flagrante da vida real demonstra que nem tudo está perdido. Há espíritos de luz por esse nosso mundo. Basta a gente se permitir a ouvi-los e deixar que irradiem essa energia positiva sobre nós. São guerreiros com almas doces, que resistem à dor e procuram o bem do próximo.

Sucena Shkrada Resk

16/10/2007 20:46
Lá se vão 4 décadas, por Sucena Shkrada Resk

O Brasil ditatorial, de certa forma, forjou as primeiras manifestações de Organizações Não Governamentais (ONGs) no Brasil. Com a bandeira de resistência à opressão, surgiram nos anos 70, as primeiras entidades com essa proposta democrática. Entre elas, o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), o antigo Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi) e o Instituto de Estudos da Religião (Iser). As recordações ainda são presentes na memória do historiador Maurício Broinizi, que divide a tarefa de acadêmico na PUC-SP e de representante do Movimento Nossa São Paulo.

Durante palestra no curso de extensão em Jornalismo Social, na (Universidade de São Paulo (USP), na última segunda-feira (15), o especialista tratou de alguns aspectos importantes da trajetória do que chamamos hoje de terceiro setor. "As igrejas protestantes (metodista, prebisteriana e anglicana) tiveram um papel significativo neste período. Buscaram constituir novas lideranças contra o processo ditatorial. Representavam um guarda-chuva ecumênico e democrático. A Igreja Católica, com as pastorais operárias, também tiveram uma forte participação neste processo", diz.

Como pano de fundo, o país passava por um momento de opressão, com o fechamento de sindicatos e qualquer manifestação da massa. "Era emergencial haver novos sujeitos políticos. O próprio universo acadêmico começou a interagir com essas novas organizações sociais", narra Broinizi.

As manifestações começaram a se difundir de forma espontânea, segundo o historiador. Nessa corrente, vieram os panelaços, a luta pela Anistia, o processo de redemocratização, o Movimento Diretas Já... "O impeachment do Collor foi o ápice do movimento das ONGs, como também a demarcação das terras indígenas, em 88. No meio jornalístico, alguns expoentes, como Cláudio Abramo e Antonio Resk também se destacaram neste período

Nos anos 90, houve uma proliferação de entidades. "Daí surgiu o questionamento sobre a identidade desses movimentos, pois apareceram muitos oportunistas, que serviam como um tampão para destinar recursos públicos e privados", afirma o historiador. Mas em contrapartida, houve a consolidação de ONGs "sérias", que se tornaram, em alguns casos, as melhores fontes de pesquisa para retratar a realidade brasileira. "O que se espera dessas instituições são informações qualificadas, porque por muitas vezes, a fonte do Estado é limitada, por causa da fragmentação dos dados", considera Broinizi.

A sobrevivência das ONGs foi outro ponto discutido pelo professor de História da PUC. Segundo ele, a maioria das instituições recorre a recursos nacionais e internacionais, por meio de programas de cooperação. "São formas transparentes. Em muitas situações, as ONGs acabam assumindo as tarefas que deveriam ser executadas pelo Estado. Entretanto, se não tivessem essa iniciativa, muitas coisas não aconteceriam", constata.

A atual legislação (de 1999), que criou as Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscips), contribui para dar mais rigor às constituições das entidades, segundo Broinizi. O historiador lembra que cabe ao Estado fiscalizar, e o próprio legislativo está mais atento, em sua opinião, com a abertura de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) em casos de suspeita de fraude.

Moral da história
Praticamente 40 anos depois, o país ainda necessita de uma sociedade crítica e atuante. "De um lado, tem a presença de ONGs pró-ativas e de outro o desgaste de uma guerra de todos contra todos. Com essa expressão, Broinizi alerta para a fragmentação do conhecido qualificado por motivo de disputas. "Muitas entidades escondem dados com receio de serem utilizados por outras", diz.

Sucena Shkrada Resk

11/10/2007 23:15
Pach Adams, um exemplo de humanização, por Sucena S. Resk

Assistir mais de uma vez, o filme Pach Adams - O Amor é Contagioso, é um daqueles momentos em que vale a pena interagir com o enredo, sem precisar cair no piegas. Nesta semana, tive a oportunidade de rever a produção norte-americana, de 1998, que tem como protagonista o ator Robin Williams, e foi impossível não parar e fazer uma reflexão.
Afinal trata-se de uma história verídica de um homem, que na década de 60, após tentar o suicídio e ficar por um período no sanatório voluntariamente, descobre a importância da humanização na área da saúde. Ele leva esse aprendizado no dia-a-dia como estudante de Medicina e contagia, a duras penas, colegas, pacientes e, inclusive, médicos veteranos, que até então não tinham revisto sua maneira de conduzir a carreira. Com isso, derruba aos poucos, preconceitos enraizados nos distanciamentos, que até hoje, são uma chaga que envolve em muitos casos, a área médica.

Com nariz de palhaço ou com o sorriso estampado no rosto, esse homem que foge do "padrão chamado aceitável" se dedica a pacientes debilitados, com um único propósito: fazer com que riam saborosamente e ainda tenham a oportunidade de expressarem seus sonhos e desejos contidos. A ferramenta lúdica e o calor humano servem como um antídoto, nem que seja temporário, para fazer com que essas pessoas esqueçam por alguns momentos a dor. Essa atitude transforma o conceito impregnado de comportamento sisudo e quase matemático adotado até então pela classe médica. E Pach vai mais além. Se for possível, realiza os sonhos dessas pessoas. Representa uma nova leitura do que, de fato, é necessário nessa relação de mão dupla: o respeito e fraternidade.

Quando se forma, leva essa filosofia para o hospital que manterá por muitos anos. E faz escola pelo o mundo afora. Patch Adams , na verdade, simboliza que tudo é possível de ser revisto. De que somente técnica não é suficiente para um profissional, que lida diretamente com pessoas em seus momentos de fragilidade. Enfim, sua história possibilita reflexão. Um momento de parar e redescobrir como é importante deixar as máscaras de lado e impregnar sentimentos em cada ação de nosso trabalho, seja ele qual for.

Sucena Shkrada Resk

10/10/2007 20:31
Questionamento sobre política de telemarketing, por Sucena S. Resk

Os chamados mailings corporativos viraram a coqueluche dos serviços de telemarketing distribuídos pelo Brasil. Sem cerimônias, nossos telefones, celulares e endereços são invadidos por propagandas, propostas de vendas de cartões, financiamentos, e tudo o que se possa pensar. Entretanto, a questão é uma só: nós autorizamos que nossos dados fossem passados para essas empresas? Obviamente, não.

E mais surreal que possa parecer, para exercermos nossos direitos de cidadania, temos de solicitar formalmente que nossos dados sejam tirados dessas listas, para que não sejamos mais importunados com essa forma de marketing massivo. Aí, começamos a acumular números de protocolos de reclamações, e-mails para ouvidorias, ombudsman, serviços de atendimento ao consumidor...

A pergunta que fica no ar é: quem nos defende dessa falta de código de ética dessas empresas que passam nossas informações a terceiros, em troca de moeda corrente? Apesar de termos um código de defesa do consumidor e direitos de privacidade, nada disso vale para esse comércio, principalmente no ramo de serviços e produtos financeiros.

Se acaso receberem uma ligação de um tal tel. 2136-5250, por exemplo, vão descobrir que é de uma financeira, que nem sequer coloca o número na apresentação da sua página, para que quando se ligue para o tal número, não haja resposta. Aliás, outra falta de respeito ao consumidor. Um telefone que aborrece e não recebe reclamações.

Aí, quando entramos na página da internet da tal empresa, tem um link de serviço de ouvidoria, mas que só atende das 10h as 16h, e exige CPF para que façamos a reclamação, como forma obrigatória de enviar a mensagem. Quem garante o sigilo dessa comunicação, já que não há chave de proteção? O disque 0800 repete sucessivamente um jingle, mas nem tudo está perdido, há um e-mail que não exige informações sigilosas. Enfim, a reclamação pode ser enviada. E, ao menos, neste ponto respondem. Só que é necessário esperar para ver se as providências são, de fato, tomadas.

Enfim, pesquisando na internet, tal serviço já é objeto de reclamação de outros usuários. Esse caso ilustra o quanto é necessário nos mobilizarmos contra essa falta de organização no mercado, que não sabe impor os limites ao apelo de vendas.

O mesmo princípio vale para as dezenas de malas diretas também de financeiras, que oferecem ao seu nome (de forma personalizada) - um valor de R$ X de empréstimo, como se tivesse solicitado... Mais uma vez, a falta de ética dessa negociata de dados cadastrais impera e uma mensagem dessas cai como um pára-quedas em sua casa. E assim vai essa rede, que desconstrói o bom serviço esperado da relação entre prestadores de serviços e consumidores

Sucena Shkrada Resk

26/09/2007 12:11
De Antígona aos Direitos Humanos, por Sucena Shkrada Resk

Os primeiros conceitos de direitos humanos surgiram há cerca de 500 anos a.C., no período de Antígona e do seu pai, rei Creonte. Nessa época, os dois irmãos da princesa acabaram matando um ao outro, por causa da disputa pelo Reino. Creonte só quis dar honras de Estado ao seu predileto, relegando o segundo filho ao anonimato. Antígona, por sua vez, enterrou-o para não deixá-lo a mercê dos abutres. Seu principal argumento era que a determinação real ia contra a justiça e à lei de culto aos mortos. O seu pai, por sua vez, matou-a, por violar a sua determinação como chefe de Estado. Esse desfecho revela que as relações pouco mudaram em várias partes do mundo, apesar do peso dos milênios sobre essa narrativa.

"O episódio atesta que nem tudo que é colocado pelo Estado é justo", diz o diretor executivo da Conectas Direitos Humanos, o advogado Oscar Vilhena Vieira, que ministrou uma palestra sobre o tema, no último dia 24, no curso de Jornalismo Social, na Escola de Comunicação e Arte (ECA/USP).

Segundo o especialista, alguns séculos depois, com o Cristianismo, surge o conceito de justo do direito natural. "O argumento é que um é igual ao outro e todos são filhos de Deus. Isso imprime a idéia de universalidade, que é reforçada com o Novo Testamento", explica.

Mas com o Renascimento (séculos XV e XVI) e o Iluminismo (XVII e XVIII), os questionamentos sobre esse tipo de pensamento dão lugar a reações, como de Maquiavel. "Ele mata a idéia de Deus e quer dizer que cada um escreve sua própria história. O mesmo acontece com Michelângelo, que ao pintar o dedo de Deus na Capela Cistina, imprime na verdade, a imagem projetada do homem", analisa Vieira. Leonardo Da Vinci, com a figura do homem no centro do universo, vem nessa mesma corrente.

Os pensadores Hobbes e Locke reforçam o conceito do homem como sujeito. "Na modernidade deixamos de ser objeto do interesse do Estado e da religião e passamos a ser sujeito de nossa própria história. O que nos faz diferentes é o fato de sermos capazes de não agir somente pelo desejo de maximização de nossos interesses, porque temos eventualmente a opção de não fazer. É o livre arbítrio", afirma o diretor da Conectas.

Assim fica concreto o aspecto da moralidade, de discernir o certo do errado. "Com a Revolução Francesa (séc XVIII) e a Americana (XIX), há a produção de cartas de direitos. Em todos os artigos surgem as palavras todos e ninguém, uma associação à universalização e a não-tolerância a privilégios. Isso exige que haja a obrigação de se respeitar a liberdade de expressão e impõe, por sua vez deveres", diz Vieira.

O grande divisor de águas é a 2ª Guerra Mundial, com cerca de 45 milhões de pessoas mortas, entre 1937 e 1945. "A maioria é morta pelos próprios Estados. Havia justificativas, de que não eram arianos (Alemanha), por exemplo". A resposta a esses desmandos ocorre em 1948, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, pela Organização das Nações Unidas (ONU).

"Mas somente a declaração não teria peso, então, foi feito um conjunto de tratados internacionais, uma forma de a comunidade internacional defender os indivíduos contras os próprios Estados", afirma Vieira. Num primeiro momento, essa decisão foi recebida com frieza, porque havia um temor quanto à quebra das soberanias. Em 1966, surgem os Pactos Internacionais de Direitos Políticos e de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais para dar maior sustentação.

A questão é que cada país tinha de ratificar os tratados, para ser de fato, parte integrante dessa engrenagem. "O Brasil só assina os tratados, com Sarney, em 1985. E o pacto vigora, de fato, no país, a partir de 1991, na fase Collor, quando são aprovados pelo Congresso e ratificados".

Em 1989, a Queda do Muro de Berlim abre portas para mais adesões. "As ratificações permitem que a comunidade internacional interfira e causam desdobramentos para que as constituições dos países se adaptem. No Brasil, por exemplo, houve essa necessidade quanto à tortura", exemplifica Vieira.

Mesmo assim, muitos países não concordam com toda a totalidade das determinações dos tratados e assinam os documentos, com ressalvas, como a determinação de prisão perpétua. Esse é o caso do Brasil. Com a criação do Tribunal Penal Internacional de Haia, em 1993, alguns ditadores foram presos, como Slobodan Milosevich (já falecido), da Sérvia.

Um ponto delicado nesse processo é o da fiscalização do sistema internacional. Como dar conta? Na esfera global, foram criadas várias instâncias pela ONU. Já no âmbito regional, pela União Européia (UE), pela Organização dos Estados Americanos (OEA). Na América do Sul, houve especialmente o Pacto de San José da Costa Rica, em 1969.

O Massacre do Carandiru, por exemplo, refletiu na dificuldade de financiamentos internacionais para a revitalização do Rio Tietê. "O Brasil foi considerado culpado e recorreu à OEA, e com isso, teve de criar a lei contra a tortura. A Lei Maria da Penha, mais recente, contra violência doméstica, foi resultado também de uma condenação internacional".
"Há dois anos foi criado um Conselho de Direitos Humanos na própria ONU, que possibilita medidas punitivas, como boicotes econômicos", diz Vieira.

Apesar de todos estes artifícios legais, a linha tênue entre direitos e deveres é quebrada diariamente pelo mundo. Fora guerras, genocídios, há uma agressão silenciosa - a pobreza - essa marca que praticamente faz sumir milhares de pessoas, como no Brasil, que estão abaixo dela, e não são contempladas de uma forma segura pelo direito internacional e, nem pela Constituição Brasileira. A maior prova disso é a própria existência permanente desta situação no país.

Sucena Shkrada Resk

18/09/2007 23:29
Mantas cinzas, por Sucena Shkrada Resk

Uma, duas, três...dez mantas cinzas entrincheiradas como em um front, por pouco, não sinalizam vidas - se não fosse o sobe e desce do ressoar da respiração dos moradores em situação de rua, que estão sob elas. A cena na noite da capital paulista, mais especificamente nas proximidades do Largo São Francisco e na Praça da Sé, são o retrato de uma situação socioeconômica, que a metrópole tenta ocultar no breu da região central.


A queda da temperatura, na faixa dos 15 graus, revela uma situação ainda mais triste, já que o pano de feltro pouco protege do frio. Cobertos até a cabeça, os andarilhos se encolhem para ver se o corpo esquenta. Nessa solidão paradoxalmente conjunta, nem tudo está perdido. Cidadãos voluntários caminham ao encontro dessas pessoas, com sopões ou quentinhas, para tornar a situação menos desoladora.


Quanto tempo será que estão nessa vida errante, sem emprego, moradia, alimentação...Será que um dia tiveram um lar, uma família em que as risadas e choros foram compartilhados? Muitas interrogações. Apesar de não saber seus nomes, eu me senti parte de suas vidas - nem que fosse por poucos minutos.


Da janela do ônibus, registrei essas cenas nesta semana, como um travelling de gravação. Mais um pouco adiante, ainda vi mais três mantas cinzas, do lado de dentro das grades que protegem a apoteótica Catedral da Sé. De repente, de uma delas, apareceu uma pequena cabeça de criança. Lá estava um menino bocejando e "morrendo" de frio. As crianças da Sé. Essa Sé que remonta uma história de décadas de pequenos que se tornaram grandes, outros que não conseguiram crescer e de novos pequenos, que vivem sem a proteção do Estado, da família e da sociedade.


A noite se foi, o dia chegou e as marcas de garrafas vazias, alguns papelões e restos de comidas foram deixados por esses cidadãos, que não estão nos bancos das escolas e nem fazem parte das estatísticas das carteiras de trabalhos assinadas e, nem sequer, do trabalho informal. Brasileiros como nós, mas que têm sobre suas vidas um peso e medida diferenciada numa nação que ostenta a tarja da democracia social.
Sucena Shkrada Resk

05/09/2007 23:38
As fronteiras das zonas de conflito, por Sucena Shkrada Resk

A Faixa de Gaza, com o passar das décadas, passou a ser um muro de diferenças étnicas, religiosas, históricas e culturais entre palestinos e israelenses. E hoje, sem dúvida, é uma das regiões do planeta mais difíceis de se cobrir jornalisticamente. O repórter e produtor palestino Khaled Abu Toameh narrou sua experiência de 24 anos na zona de conflito, nesta terça-feira (5), em evento organizado pelo Comunique-se, em São Paulo. Sua exposição deu uma pequena noção do que é ser um correspondente de guerra.

"Quando se está numa área como a Cisjordânia e Gaza, não dá para acordar de manhã e ir a uma aldeia ou campo de refugiados, falar bom dia e tudo bem. O jornalista precisa de um tradutor que conheça a região. As pessoas lá não confiam em estrangeiros", conta o repórter do Jerusalém Post e colaborador da BBC, entre outros veículos internacionais.
>br>Toameh, apesar de ser árabe tem cidadania israelense e atua em um jornal judeu, o que pode causar estranheza à primeira vista. Mas ele logo esclarece, que sua decisão se deveu a seu posicionamento contrário à gestão da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), desde Yasser Arafat (que faleceu em 2004) até o atual primeiro-ministro Salam Fayyad .

"Quando eu terminei o Jornalismo, não quis ficar na OLP (por onde teve uma curta experiência), porque seria como trabalhar num jornal do Saddan Hussen, sem auto-crítica e debate aberto. A manchete seria sempre Arafat. Todo jornalista precisa ter a palavra livre e consegui isso ironicamente num jornal judeu e na mídia internacional", afirma. Para Toameh, não há mídia livre na Palestina, desde a década de 70 e, hoje, o problema evoluiu por causa das dissidências do Hamas e Fatah. "Muitos colegas perderam a própria vida. Arafat ao entrar em 94, mandou perseguir os profissionais contrários ao regime e cerca de 30 foram mortos e perseguidos", afirma.

De acordo com Toameh, os conflitos também se estendem à imprensa. "Atualmente há três principais veículos de imprensa na Palestina, financiados pela OLP. Já o mundo árabe tem como forte representante a TV Al Jazzera, do Quatar, que é contralada pelos governantes ditatoriais. Eles tentam veicular manchetes com questões sensíveis ao mundo árabe. Mas a alternativa não é animadora, já que a Alcaida e o Osama Bin Laden escolhem a emissora para falar. A TV hoje está proibida em 10 países da região e tem mais liberdade, ironicamente, em dois birôs em Israel", conta.

O jornalista considera que a gestão política desgastada na Palestina é um dos principais fatores para o atual quadro do conflito e ainda tece crítica ferrenha a supostos desvios de dinheiro, durante esse período. "Cerca de U$ 6,5 bi de ajuda internacional, após o Tratado de Oslo, foram jogados no lixo. O povo não teve acesso a esse dinheiro", diz.

Os dois períodos da Intifada (revolta popular palestina contra a ocupação israelense), de 67 a 93, e de 2000 até hoje criaram uma desastabilização de grandes proporções, que são vivenciadas diariamente. Mortes, fogo cruzado e emboscadas são uma constante neste território, de acordo com o repórter. Após duas décadas, ele diz "ficar indiferente" a tanta tragédia, para poder suportar o sofrimento e dor. "Tenho empatia pelos judeus e palestinos, me corta o coração ver uma mãe de qualquer um dos lados perder seus filhos. O que não falta é sofrimento humano. Mas temos de ser fortes. É a única forma de trabalhar e sobreviver para contar essas histórias", afirma Toameh.

Ele diz que é impossível contar o número de situações de risco pelas quais passou. "Na primeira intifada, os palestinos jogavam pedras em nós. Era preciso implorar que não nos matassem. Na atual, viajamos pela Cisjordânia com coletes à prova de bala e em carros blindados". Toameh enfrenta um embate interno. "No dia em que me sentir ameaçado fisicamente, abrirei uma mercearia, mas escolhi uma profissão em que sabia os riscos envolvidos. Se tiver de pagar um preço, não tenho medo da morte", diz.

Segundo o jornalista, o único modo de sobreviver nessa zona de conflito é contando a verdade. "Caso contrário, se perde a credibilidade e reputação", garante.

E uma dessas verdades é que a ajuda humanitária é imprescindível para o povo palestino. "E não dá para entender porque os países árabes não investem nenhum dinheiro lá. Aproximadamente 70% das pessoas que vivem em Gaza está desempregada", diz o repórter. Mais um desgaste para o povo é a ocupação militar. "Em Israel, hoje existe uma grande maioria da população que não quer controlar a vida dos palestinos. Muitos até falam em dividir Jerusalém".

Nesse universo geopolítico conturbado, em que há uma sucessão de conflitos de interesses, Toameh alerta que é também preciso evitar generalizações, que geram estereótipos. "O Islã foi sequestrado por uma minoria - Alcaida e Jihad - que distorceram a imagem do mundo árabe. Por outro lado, há os movimentos Fatah e Hamas, na Palestina", analisa.


Sucena Shkrada Resk

31/08/2007 22:32
Os Bastidores da Voz Operária, por Sucena Shkrada Resk

Dez anos de pesquisa e milhares de horas de dedicação a uma única causa: desvendar o universo da comunicação trabalhista no Brasil. Com esse empenho, um dos fundadores do Núcleo Piratininga de Comunicação - o ex metalúrgico e estudante de Filosofia Vito Giannotti, lançou no último dia 30, o livro "História das Lutas do Trabalhadores no Brasil", na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).


Sem medo de se revelar "anarquista", e com um jeito irreverente e sem "papas na língua", o especialista em lutas de classe narra alguns dos momentos marcantes da obra, como a descoberta de que em pleno início do século XX, já havia iniciativas de jornais diários dos trabalhadores, algo que não acontece hoje. Segundo ele, durante um período político contubardo em 1919, o periódico "A Plebe", de São Paulo, tem uma curta fase de diário até 20 de outubro do mesmo ano, após sua sede ser destruída por radicais e policiais. No mesmo ano, em Recife, A Hora Social é porta-voz dos operários. Essas e outras descobertas recheiam as 311 páginas da publicação, pela Mauad Editora.

"Pesquisei mais de 400 manuscritos e fontes. De 1890 a 1930, houve mais de 500 jornais operários no Brasil. De uma maneira geral, eram politizados, anti-capitalismo e clerical. Também se preocupavam com a cultura", conta Giannotti. Já de 1922 a 64, houve "uma farta imprensa comunista", de acordo com o especialista. " Na fase ditatorial até 1980, foram cerca de 150 títulos sob censura e nos anos 1970 é iniciada a imprensa sindical, mas que não veicula notícias além do interesse de sua categoria", afirma. De acordo com Giannotti, em pleno século XXI a efervescência de décadas passadas parece ter se acabado. "Hoje a imprensa sindical não sabe para onde ir", considera.

Nesse vaivém da história, Gianotti analisa cada período no Brasil com o contexto mundial, momentos marcantes de manifestações trabalhistas, tanto nas palavras, como em greves e passeatas, além de sua leitura sobre a percurso político nacional na dicotomia das chamadas correntes de esquerda e direita. Enfim, uma leitura interessante sobre o universo do trabalhador - em sua maioria - do chão de fábrica, geralmente relegado a segundo plano na extensa bibliografia brasileira.

Sucena Shkrada Resk

29/08/2007 16:17
Um dos últimos moicanos, por Sucena S Resk

Num dia desses, em São Caetano do Sul, saí da Biblioteca Municipal, nas proximidades da avenida Goiás, e olhei para o outro lado da rua, onde um homem debruçado sobre uma bancada em uma lojinha, que não deve ter mais do que 3m2, me chamou a atenção. Eu me detive mais atentamente à cena e percebi que era um relojoeiro - entende-se, um profissional que conserta os tradicionais relógios de corda - uma atividade quase extinta na era digital.


A curiosidade me levou até lá, pois vi duas vitrines laterais com peças raras, de onde ressoava o tic tac à base de corda. João Gallo - esse é seu nome - se virou para me atender com um raro pincenê sobre um dos olhos, que estava sendo usado para mais uma investigação minuciosa de uma obra de arte de décadas passadas, que estava sob seu cuidado.


Perguntei a ele, há quanto tempo mantinha seu negócio na cidade. E o sr. Gallo me disse que eram quase 40 anos, sendo que já somava 62 anos de profissão. "Aqui eu só conserto relógio de corda, nem sei mexer com os modelos mais modernos", frisou com orgulho.

Com mais um pouco de prosa, descobri que em sua árvore genealógica havia fundadores do próprio município no século XIX, como Antônio Gallo. Lá estava eu diante de um senhor de cabelos grisalhos, descendente de colonos que deram início a São Caetano de imigração italiana, que ama seu ofício até hoje. Com isso, um dia aparentemente comum em meu cotidiano ganhou um repertório novo, que pude compartilhar nesta página com vocês...Afinal, me deparei com um dos "últimos moicanos" do século XXI.

Sucena Shkrada Resk

29/08/2007 09:20
Movidos à superação, por Sucena Shkrada Resk

Eles carregam a identidade tribal dos Nandis, do grupo Kalenjin, e representam 2% da população queniana. Seus nomes atravessam continentes e conquistaram o respeito internacional. Paul Tergat, Robert Cheruiyot, Noah Ngeny, Guilbert Okari, Lydia Cheromei, Margareth Karie e Anne Bererwe, entre outros. Sim, estou falando dos atletas quenianos que são o que podemos chamar de exemplo de obstinação da "elite do esporte". Eles revelam a que vieram nas provas de pedestrianismo e maratonas pelo o mundo a fora, inclusive, na São Silvestre brasileira.

As pernas longilíneas, o corpo fino e esguio e um fôlego de dar inveja revelam horas e horas de treino e objetivos de superação. São um digno exemplo para se quebrar estereótipos geralmente aplicados à população africana, devido ao recorte socioeconômico. É importante ressaltar, que muitos dos problemas enfrentados pelos povos daquele continente são oriundos de décadas de dominação colonizadora...Que rendem mais uma reflexão. No caso do Quênia, é uma ex-colônia britânica, que ficou independente em 1973.

Segundo uma pesquisa dos especialistas Rodrigo Luiz Avancini e Claudio André Barbosa, do Centro de Estudos de Fisiologia do Exercício, a explicação para tanto sucesso obtido pelos quenianos nas corridas de longa distância alia genética privilegiada, treinamento contínuo, e com um detalhe, a uma altitude superior a 2 mil m.


Em reportagem recente exibida pelo Globo Esporte, no centro de treinamento dos atletas, deu para compreender o que move esses cidadãos africanos. A disciplina, o esforço e a vontade de se superar começam desde a infância, quando têm de percorrer distâncias de até 6 km para chegar à escola, já que vivem em uma zona rural. Também suam e adquirem resistência ao ajudar suas famílias nas plantações de chá. E nos treinamentos como atletas, percorrem até 42 km por dia, em relevos acidentados, que variam de 1 mil m a 2,4 mil m de altitude.

Desde a década de 60, os quenianos já conquistaram cerca de 40 medalhas nas principais corridas mundiais. Mas as suas conquistas vão muito além do brilho do ouro ou prata no peito. Essas tribos dão sustentabilidade a gerações futuras. Criaram uma infra-estrutura, que não existe infelizmente na realidade de muitos conterrâneos de seu país.


O case queniano se multiplica em vários lugares do mundo. No Brasil, temos grandes estrelas como Franck Caldeira, Clodoaldo Gomes da Silva, Ronilson dos Santos, Marilson Gomes dos Santos, Lucélia Peres, Maria Zeferina Baldaia...


E um dos exemplos mais marcantes das maratonas é do etíope Tesfaye Jifar, vencedor da São Silvestre de 2001 (entre outras provas mundiais). Ele mostra que nunca é tarde para se começar. À época, com apenas quatro anos no esporte - período curto se comparado aos demais concorrentes -, com humildade chegou ao pódio. Destemido, respeitou os adversários e não se intimidou com os obstáculos da prova e nem com a limitação de um olho cego. Recuperar as notícias da época e ver o sorriso esboçado em seu rosto é realmente um incentivo para qualquer pessoa que pretende se dedicar a um sonho, seja ele no esporte ou em qualquer outro segmento.
Foto 1: Etíope Tesfaye Jifar (crédito: site Percorrere)
Sucena Shkrada Resk

28/08/2007 18:42
Reflexão: Um caldeirão de adversidades, por Sucena Shkrada Resk



A situação do Afeganistão, na Ásia Central, volta a preocupar o mundo - entretanto - é necessário entender de que mundo estamos tratando, ocidental ou oriental. E o país carrega um fardo muito grande, que deixa marcas profundas em cerca de 26 milhões de cidadãos.
A diversidade étnica - com 10 grupos de predominância islâmica é uma característica sociohistórica dessa população, que sofre a cisão entre uma parcela predominante de sunitas e minoritária de xiitas. Os conflitos extrapolaram as fronteiras geopolítica e sofrem a intervenção internacional, com tropas militares da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), principalmente após o atentado de 11 de setembro, nos EUA.

Nesse caldeirão de adversidades, a política esfacelada do país é um ponto nevrálgico, com as ações da milícia extremista talibã, que surgiu em 1993. Apesar de ter saído da liderança governamental em 2001, após a intervenção internacional liderada pelos EUA - em represália ao ataque à Torres Gêmeas, em Nova York (creditado a Osama Bin Laden) - ainda apresenta forte ação de guerrilha. Nesses confrontos diários, civis inocentes estão sendo atingidos constantemente pelo conflito.

A região fortemente acidentada, com clima árido, além de ser abalada por acidentes naturais, sofre também com as armas mortais deixadas literalmente pelos homens sob a terra. Estima-se que hoje haja mais de 4 milhões de minas terrestres, um presente indesejado da fase da guerra com a extinta URSS (1978-1989), que já deixou e ainda deixa uma multidão de mutilados e vítimas fatais.

Com esse quadro geopolítico complexo, o êxodo de boa parte da população nos anos 90 foi mais um resultado dessa combinação de fatores. Enfraquecido, o povo afegão subsiste principalmente da agricultura e da pecuária e trava uma luta diária contra minas, seca e a falta do mínimo de infra-estrutura. Faltam água potável, comida, remédio, saúde e educação. As mulheres sofrem uma repressão acirrada em seus direitos mais básicos. E a taxa de analfabetismo é uma das mais altas do mundo. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o analfabetismo predomina nas áreas rurais. Os índices são assustadores e atinge aproximadamente 90% das mulheres e 65% dos homens.

Crianças, adultos e idosos trabalham na lavoura e andam quilômetros para ir às escolas ou encontrar os produtos de primeira necessidade. E, para completar esse quadro de extrema pobreza, o país mantém mais um título indesejável. Tem como uma das principais fontes de recursos, a produção de ópio, que vai resultar no abastecimento do mercado mundial de drogas.

Falar nos direitos cidadãos ao povo afegão deve parecer uma retórica de palanque político. A nossa leitura ocidental com certeza não tem a dimensão das proporções do sofrimento dessa gente. Quando os noticiários exibem as cenas dessa nação fragilizada, com toda a sorte de sofrimento, o que mais impressiona é conhecer histórias de famílias mutiladas, que unidas enfrentam inimigos visíveis e invisíveis.

Sucena Shkrada Resk

25/08/2007 21:07
Comunicação e cidadania caminham juntas?, por Sucena S.Resk'

Crédito/foto: Sucena S.Resk



Os ruídos de comunicação são uma constante na área jornalística e em outras mídias. Não é difícil entender o porquê desse problema, já que se trata de um universo sujeito a erros e diferentes interpretações. Esse foi um dos pontos discutidos, durante o Seminário Comunicação e Trabalho: Pluridisciplinaridade, Interfaces e Mediações, realizado nos últimos dias 23 e 24, pelo Grupo de Trabalho e Comunicação, da Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo (ECA/USP).
A professora de Mestrado da ESPM-SP, Rose de Melo Rocha, coloca em xeque o jargão "uma imagem vale mais que mil palavras", que quase se transformou em dogma nos dias de hoje. "A função pedagógica do olhar representa a cidadania visual, que é capaz de estimular o exercício de leitura", diz. A especialista ainda analisa que o poder da imagem iludir ou revelar é uma realidade tangível. E é justamente aí que está a importância do papel do comunicador. Ter responsabilidade ao transmitir a informação...
O ex-presidente da Radiobrás, o jornalista Eugênio Bucci, cita como exemplo a cobertura da Guerra no Iraque pelos EUA. "A primeira vítima da guerra é a verdade. O processo truncado da comunicação pode levar a perdas, mortes e impactos na cidadania", diz.
Segundo ele, no Brasil acontece a mesma coisa em proporções diferenciadas. "O ideólogo vai cedendo lugar à figura do marqueteiro. Tragédias podem ser evitadas ou causadas pela gestão comunicacional", considera. Em sua opinião, a informação passa a ter valor de mercadoria na sociedade globalizada. "Em alguns casos, representa o valor do Produto Interno Bruto (PIB) maior do que muitos países", afirma o jornalista.
Na esfera governamental, Bucci critica a figura do segredo de Estado. "Os poderes públicos precisam se caracterizar pela ação ativa de abrir a informação, do que optar pela retenção, que é a forma mais escolhida", afirma. E ao voltar à realidade nacional, afirma que não há como mascarar que a pobreza no Brasil produz seres invisíveis. Com isso, essas pessoas raramente são ouvidas. E quando são, por muitas vezes sofrem a estigmatização.
Um alento diante dos ruídos comunicacionais é a capacidade de duvidar do cidadão. Ao exercer esse direito e, porque não, dever, dá um sinal de que ainda há algo positivo no processo. "Esse é um começo ao se olhar a imagem", diz a professora da ECA/USP, Maria Aparecida Baccega.
Sucena Shkrada Resk

16/08/2007 14:25
O valor da ajuda humanitária, por Sucena Shkrada Resk


O terremoto que atingiu o Peru, de 7,9 graus na escala Richter, na noite do último dia 15, está mobilizando uma rede de ajuda humanitária, que conta com apoio de países vizinhos da América Latina e da Europa, além da Cruz Vermelha e da Organização das Nações Unidas (ONU). Estima-se em levantamento preliminar do Instituto Nacional de Defesa Civil do Peru, que cerca de 400 pessoas estejam mortas e 1,3 mil feridas. O Brasil deve cooperar com o envio de medicamentos e alimentos não-perecíveis, conforme foi anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo a BBC de Londres, o último terremoto com vítimas no país ocorreu em 3 de outubro de 1974. Na época, a intensidade foi de 6,6 graus, e o resultado foi uma saldo de mortos e 2.500 feridos. Mais de três décadas depois, o incidente geográfico ocorre com maior proporção, mas a história revela que há registros de terremotos no país, nos últimos 400 anos, com cerca de 800 mil vítimas fatais.


A soma do esforço desses países supera a simples relação diplomática e as palavras "bonitas" dos governantes, que recheiam as notas oficiais. Quando profissionais e voluntários dessas nações chegam aos locais dos desastres, com sua mão-de-obra ou com o envio de produtos de primeira necessidade, a esperança de um mundo mais humanizado não adormece na dicotomia das guerras e conflitos mundiais. Essas pessoas têm um imenso valor como ser humano, pois com despreendimento, também correm perigo, mas não dão um passo atrás ao se tratar de ajudar o próximo, independente de quem seja.

Nessa atmosfera, não há desentendimentos étnicos, religiosos ou econômicos que sejam maior que a mobilização cidadã frente a um desastre natural dessas proporções.


Na matéria, que li há pouco no Estadão, a necessidade do que hoje chamamos de "corrente do bem" é iminente. Entre as inúmeras necessidades, há o registro do apelo do ministro peruano, para que os cidadãos peruanos doem sangue, porque os hospitais estão lotados. Não tenho dúvidas, que muitas pessoas farão isso. Por outro lado, equipes de resgate se empenham em encontrar mais pessoas com vida nos escombros. Cada segundo é precioso nessa procura.

Para nós, que estamos a km de distância da tragédia, talvez a dor seja menor do que para os familiares das vítimas, que estão vivenciando a angústia de perto. Mas com certeza, a sensibilização é grande. Cada um em seu credo, que acompanha as notícias desse terremoto, está emanando pensamentos de fraternidade para as vítimas e ao pelotão de pessoas que arregaçou as mangas em seu auxílio. Essa é a mínima contribuição que podemos fazer para a população atingida pelo incidente.

Sucena Shkrada Resk

13/08/2007 09:58
A inclusão pela música, por Sucena Shkrada Resk


Crédito/foto: Divulgação



Por anos a fio, a favela do Heliópolis - que passa por um processo de urbanização - mantém o título de ser a maior de São Paulo, e ainda causa impacto para quem passa pela região do Sacoman, em São Paulo. Na mancha urbana, erguem-se casebres, sobrados de alvenaria agrupados e conjuntos habitacionais, que se misturam no cenário, mostrando a fragilidade socioeconômica que atinge milhares de trabalhadores.

Mas a aparente fragilidade esconde um poder de superação e idealismo de dezenas de jovens, que encontraram na música, a melhor forma de expressar o seu potencial e ultrapassar fronteiras geográficas e da insustentável desigualdade social brasileira.


Os artistas - sim - ARTISTAS com letra maiúscula - são integrantes da Orquestra Sinfônica de Heliópolis. Fruto do projeto lançado em 1996, pelo Instituto Baccarelli (que leva o nome do maestro que originou esse trabalho), com vigor e resistência, se mantém até hoje, por meio de patrocínio da iniciativa privada, facilitado pela Lei de Incentivo Cultural Rouanet.


Andrea, Carla, Edna, Renato...(você pode prestigiar os nomes dos cerca de 80 instrumentistas no site www.institutobacarelli.org.br) ganham o mundo em apresentações diversas no país e, inclusive, no exterior. Quando sobem ao palco, liberam sensibilidade e disciplina sob a regência do maestro, e provocam no público aquela grata sensação de reconhecimento.


A harmonia entre violinos, violas, violoncelo e contrabaixo,flautas, oboé, clarinetes, fagotes, trompetes, trompas, trombones, tuba, tímpano e percussão revela porque vale a pena o incentivo a esse exercício de cidadania. O projeto não atinge só os adolescentes, mas toda a família. É um efeito multiplicador. Músicos veteranos dedicam algumas horas de suas agendas para formar essa nova geração. É uma troca de repertório, energia, que cada um guarda dentro de si.


No ano que vem, o projeto cairá na passarela do samba. A Escola de Samba Vai-Vai irá homenagear o projeto em seu enredo. A sinfônica cairá no ritmo do Carnaval...e, quem sabe abrirá mais um instrumento de divulgação para sensibilizar a iniciativa privada e o poder público, a fim de ampliar a experiência em outras comunidades de baixa renda pela Grande São Paulo. Esses brasileiros só precisam do incentivo para florescer as suas habilidades de músicos, poetas e artistas, na selva de pedra. Nós, enquanto sociedade, temos muito a colaborar e ganhar com isso.

Sucena Shkrada Resk

12/08/2007 11:15
Ainda existe um bom jornalismo...,por Sucena S. Resk

Ligar a TV e se deparar como uma boa programação na grade aberta é algo cada vez mais raro, mas felizmente acontece... Neste domingo (dia 12/08) assisti à matéria do repórter Carlos Dorneles e equipe, no Globo Rural, sobre a comunidade quilombola do Sul da Bahia, que na minha opinião, teve o valor de documentário. Apresentou um conteúdo abrangente e rico em informações sobre brasileiros de mais uma região rural esquecida, de certa forma, pelo poder público, que encontram no esforço conjunto, maneiras dignas de subsistência.

A reportagem tratou especificamente de 8 comunidades que vivem na região entre Ituberá e Nilo Peçanha. Os trabalhadores braçais têm como fonte principal de sobrevivência, a colheita e trabalho com a piaçaba, mas abriram um leque de empreendedorismo, quando começaram a agregar outras atividades produtivas.

Os baianos descobriram, por meio da formação de uma cooperativa, uma boa fonte de renda com a criação de uma fábrica de vassouras piaçabas. Outro grupo está se dedicando a criadouros artesanais de tilápias no rio dos Patos. E numa terceira frente, começam a cultivar colméias com as abelhas urussu (que não têm o ferrão, como a africana), para a produção de mel. Tudo isso exige um verdadeiro esforço a várias mãos, para garantir no fim do mês, uma faixa aproximada de um salário mínimo, em muitos casos.

É desses cidadãos brasileiros que ganham honestamente seu dinheiro e não recebem o que constitucionalmente deveriam receber, que estou falando. E o que me chamou mais atenção dentro dessa realidade, foi a parte da reportagem que divulgou a existência de uma Escola de Amor à Terra. Isso mesmo. Nesta seara da educação comunitária, jovens na faixa dos 18 anos aprendem o que a região onde moram tem de riquezas naturais e de cultivo, durante o período de dois anos. A proposta principal é evitar o êxodo desses adolescentes para as cidades grandes - muitas vezes malsucedido-, por meio do estímulo à batalha de um trabalho na terra natal.

Na luta pela sobrevivência, há espaço para o resgate da identidade cultural, que vai se perdendo com o passar das décadas. Jamilton, Gideon, Damiana, Maria...e outras centenas de trabalhadores, crianças e jovens formam um pelotão coeso. Um flagrante disso, pôde ser feito, durante o registro da apresentação de peças do folclore. São a ladainha de reis e a dança das lavadeiras e dos velhinhos (caboclos), entre outras. As cantigas e as danças ritmadas com toques teatrais tomam conta das ruas de terras dos pequenos povoados. O momento é de pura alegria. Homens, mulheres e pequenos quilombolas vestem roupas coloridas de algodão, colocam chapéus e turbantes ou máscaras tribais, e deixam se levar por esses momentos mágicos...

Enfim, uma delícia de se ver e ouvir, que certamente emociona, pois por mais editada que seja a matéria, não deixa de traduzir a regionalidade pura e simples de uma gente de carne-e-osso, que têm muito a nos ensinar - inclusive - um mingau que demora 13 dias para ficar pronto. É o mingau feito por "dona Damiana de Jesus", com coquinho de piaçaba. Esse quitute, infelizmente, só o Dorneles e seus colegas puderam degustar...Mas quem sabe, um dia, essa iguaria não chega até nós, não é?...

Sucena Shkrada Resk

05/08/2007 09:01
A riqueza do algodão colorido, por Sucena Shkrada Resk

Crédito/foto: Sucena S. Resk

Campina Grande, na Paraíba, apresenta muito mais riquezas do que a Festa Junina, repercutida mundialmente. Lá, cidadãos brasileiros cultivam o algodão colorido, uma técnica que elimina desperdício e a agressão à natureza. Cooperativas de agricultores florescem nessa nova guinada da tecnologia do agronegócio e têm um acompanhamento atento da Embrapa. Esse tipo de iniciativa, entretanto, não é rotineiro nas manchetes de jornais.

Durante uma oportunidade de trabalho que tive, no ano passado, pelo Sebrae, pude descobrir produtos - como bolsas e calçados - originados dessa matéria-prima, e a existência da Coop Natural. O grupo é formado por agricultores e microempresários, que na sua simplicidade e sabedoria, enxergam longe.

Considero importante registrar a existência dessa comunidade nordestina, como tantas outras, que tem o seu ganha pão baseado em princípios ecologicamente corretos, e semeiam bons exemplos para o país. Para chegar a essas iniciativas enfrentam todo o tipo de dificuldades, mas mesmo assim, seguem em frente, em busca do trabalho digno e sem favorecimentos.

Sucena Shkrada Resk

04/08/2007 08:40
O legado do bordado dos Dumont, por Sucena S. Resk

Crédito/foto: Sucena S. Resk


A família Dumont, do município de Pirapora, MG, leva sua regionalidade Brasil a fora, por meio da tradição do bordado de mais de 50 anos. Sob a batuta da matriarca Antonia Dumont, seus filhos Angela, Demóstenes, Marilu, Marta e Sávia multiplicam a arte, por meio do crivo em telas e nas páginas da literatura infantil.

Para não deixar a tradição morrer, há 5 anos, o Instituto Promoção Cultural Antonia Dumont com apoio da Fundação Banco do Brasil e do Sebrae, entre outras instituições e órgãos, realiza oficinas de 80h, em vários municípios de nove estados brasileiros. Cerca de 8 mil mulheres, dos 14 aos 80 anos, já aprenderam os detalhes da arte do bordado.

"Nós valorizamos as especifidades locais, os valores culturais e a melhoria da qualidade de vida dessas comunidades. Nosso objetivo é atender pessoas de baixa renda e que também estejam em risco social, que queiram formar associações e cooperativas ou já tenham constituído um grupo de trabalho", conta Savia Dumont, uma das coordenadoras do projeto (na foto, durante Mostra Sistema Fiesp de Responsabilidade Social, no Ibirapuera).

Segundo a artista, a família Dumont acredita que a transformação social passa pela arte. "Queremos transmitir de que maneira essa mulheres podem encontrar na delicadeza, uma maneira de trabalhar e gerar renda", diz.

O público infantil também não é esquecido pelos mineiros de Pirapora, que revelam mais uma faceta de sua arte, em 19 livros, em parceria com grandes nomes da literatura nacional, ora na ilustração com bordado, ora na expressão das letras. Com isso, semeiam um terreno fértil para que outros brasileiros descubram e exerçam sua criatividade.

Sucena Shkrada Resk

04/08/2007 07:31
Os pneus no contorno da arte, por Sucena Shkrada Resk

Crédito/foto: Sucena S.Resk

O que têm em comum o ex-ajudante de pedreiro Marcelo Ferreira de França e os estudantes Dimas Volpato e Érica Souza, de São Paulo? Os três integram a Organização Não-Governamental (ONG) Arte em Pneus, na qual transformam as circunferências de borrachas em pufs artesanais, objetos de decoração, carros e aviões de brinquedos. Com isso, contribuem para deixar a cidade menos poluída.

Os jovens artesãos aprenderam a arte com o designer Daniel Beato, 30 anos, que em 2001 descobriu que a matéria-prima do pneu poderia se transformar em artefato, gerando renda e contribuindo para a preservação do meio ambiente.

"Um dia eu perguntei para um borracheiro, o que fazia com os pneus que trocava. E ele me disse que acabavam descartados na rua. Então, comecei a recolhê-los depois que fiz um trabalho na faculdade sobre reaproveitamento de materiais. Sabia que poderia dar uma outra destinação", conta Beato.

E a expansão de seu projeto aconteceu em 2003, quando apresentou suas peças no Mercado Mundo Mix e um empresário sugeriu a ele que agregasse valor com um projeto de conscientização ambiental. "Acabei me tornando ecologista. Lixo só é lixo se não é usado direito. Agora, aos poucos, estamos nos transformando em consultores de resíduos sólidos", diz.

Para França, que há quase dois anos, trocou as pás de pedreiro pelo novo ofício, a recente profissão deu uma perspectiva positiva a ele, sua esposa e filho. Olha com orgulho os caminhões e pequenos aviões que foram produzidos por suas mãos. "Eu quero que esse projeto cresça ainda mais", afirma, enquanto mostra as peças em um estande da Mostra Sistema Fiesp de Responsabilidade Social, no Pavilhão da Bienal, no Ibirapuera.


Dimas Volpato confessa que o aprendizado da arte em pneus une o útil ao agradável. "Adoro ser multiplicador", diz o estudante, que faz uma jornada dupla no terceiro setor, ao participar como educador em uma outra ONG - Mestres da Obra, que ensina pessoas de baixa renda a trabalhar com material reciclado na construção civil.


E os sonhos desses trabalhadores começam a se transformar em realidade. A possibilidade de expansão da Arte em Pneu nasceu com um convite da Reciclanip, que mantém mais de 200 dos chamados ecopontos no país (para reciclagem de pneus), e propôs que a ONG seja multiplicadora em outros estados. "O primeiro local que eles deverão ir, ainda em agosto, é Teresina, PI, adianta o representante da empresa, Álvaro Greenhalgh de Oliveira.
obs: foto da esquerda para a direita (Daniel, Érica, Marcelo e Dimas)

Sucena Shkrada Resk

04/08/2007 06:53
A arte de reciclar tomou conta da sua vida, por Sucena S.Resk

Crédito/foto: Sucena S. Resk

A paulista Joana Albino da Silva, 44 anos, se rendeu à arte de confeccionar bolsas, pufs, porta-papéis com PETs e transmite seu ofício a pessoas que passam por albergues públicos ou estão em situação de rua. Ela integra a CoopArte, na região de Pinheiros, na Capital, que se dedica a um projeto de geração de renda e inclusão social a jovens filhos de catadores de sucata e cidadãos que estejam em risco social.

"Há cerca de 10 anos fiquei desempregada e meu colega Anderson, que fazia reciclagem, me convidou para triar o material na Coopamari. Esse meu lado artista nasceu sem querer nessa época, porque uma educadora pediu a minha ajuda para fazer uma encomenda de quase 500 peças. Aprendi na marra e não quis parar mais", narra a artesã.

O seu sustento veio através da arte. "Agora quem pode ensinar sou eu. Isso é gratificante. Mesmo que eu consiga fazer a faculdade de Educação Física, um sonho que tenho para o futuro, nunca vou parar com esse trabalho", afirma Joana, que conseguiu concluir o primeiro grau e pretende retornar à sala de aula.

Sucena Shkrada Resk

02/08/2007 09:10
Idealistas à prova do tempo - Parte 2, por Sucena S.Resk

Crédito/foto: Sucena S. Resk

O produtor cultural Wolney Porto, 57 anos, é mais um Dom Quixote da Seresta em Conservatória, RJ. Desde 2000, ele se dedica à empreitada de manter os Museus Vicente Celestino e de Sílvio Caldas/Nelson Gonçalves/Gilberto Alves e Guilherme de Brito, sem contar com apoio efetivo do poder público e da iniciativa privada. Com um ingresso de R$ 1,00 e a venda de CDs, além de recursos próprios, e a ajuda de amigos como Ricarddo Pontes, 50, ele dá continuidade ao seu ideal de preservar o registro histórico de ícones da seresta brasileira.

Até quando terá fôlego para essa jornada praticamente solitária é um ponto de interrogação. Trabalhos como este deveriam ser olhados com maior atenção pelas autoridades, pelos meios acadêmicos e, inclusive, no campo da iniciativa privada. Afinal, o incentivo cultural está aí e este é um bom exemplo de um projeto com as cores nacionais.

Sucena Shkrada Resk

31/07/2007 16:32
Idealistas à prova do tempo-Parte 1, por Sucena S. Resk

Crédito/foto: Sucena S. Resk

Quem diz que os idealistas são de uma raça extinta, certamente não conhece alguns personagens ímpares do distrito de Conservatória, no RJ. Entre eles, Joubert Cortines de Freitas, 86 anos, um dos fundadores do Museu da Seresta e Serenata, que há praticamente 50 anos preserva a tradição das trovas e romantismo, por meio de registros históricos no passar das décadas e da memória oral. O professor de matemática aposentado e seresteiro junto com o seu irmão José Borges de Freitas Netto (já falecido) perseguiram por anos a fio a meta de não deixar morrer uma das principais peças do cancioneiro popular brasileiro.

Com um sorriso e simplicidade de quem não gosta de se enaltecer, Joubert fala desse projeto a quatro mãos, com orgulho, e transmite resistência a modismos e influências comerciais.
Os cabelos brancos e uma memória impecável, para quem já sofreu uma leve isquemia, revela um jovem dentro de uma armadura madura.

Mas o momento que mais se sente à vontade é quando dedilha o seu violão e entoa canções tradicionais acompanhado por outros menestréis, noite a dentro. Nesse momento, se sente em casa e se deixa levar pela melodia....


Sucena Shkrada Resk

30/07/2007 15:04
Os dom quixotes da Seresta Brasileira, por Sucena S. Resk

Conservatória, em Valença, no Rio de Janeiro, é um daqueles lugares em que o tempo parece ter parado para não se perder na falta de memória da história nacional. No minúsculo distrito, com seus casarios centenários, personagens idealistas em uma teimosia serena - num bom trocadilho - ajudam a perpetuar a tradição da Seresta Brasileira.

Joubert Cortines de Freitas, Marlene Borges (viúva do falecido José Borges de Freitas Netto), Wolney Porto, Marluce Reis Magno, Elenice Mendes Lessa e muitos outros anônimos reavivam as trovas em cantatas ao violão, fotos manchadas pelo tempo, velhas bolachas de ícones, como Vicente Celestino, Silvio Caldas...

Enfim, com esses personagens pretendo dar início a um trabalho mais contínuo de retratar a importância de pessoas que contribuem de forma positiva para a história do Brasil

Sucena Shkrada Resk

11/07/2006 22:50
Brasileiros sem meias palavras, por Sucena S. Resk

Um dia desses, em viagem de trabalho pelo Sebrae, ao minúsculo estado de Sergipe, me deparei com um grupo de brasileiras no povoado de Patu, que encontram na arte da confecção de roupas, a dignidade para superar a adversidade da pobreza do semi-árido. Debruçadas sobre máquinas de costura, fazem camisas e blusas, e deixam do lado de fora o paradoxo de uma região, em que a água é um bem precioso trazido em baldes no lombo de burros. Essa imagem não sai de minha mente, quando me entristeço por algo que me aborrece no cotidiano urbano. Eu me questiono se, de fato, tenho um problema

A resposta é quase que imediata. Mais uma vez, as lembranças vêm carregadas com as cores da realidade. Afinal, a palavra desânimo não faz parte do vocabulário dessas trabalhadoras, que olham com uma ponta de orgulho a sede de sua cooperativa erguida por meio de uma batalha diária. E nada mais justo que esse orgulho. São responsáveis por boa parte do sustento de suas famílias, predominantemente de agricultores, que degladeiam constantemente com um inimigo poderoso - a estiagem.

Daí chego à seguinte conclusão. Aqui está um exemplo de brasilidade, sem afetações ou com data marcada, como vivemos durante o período da Copa do Mundo. Essas pessoas de carne e osso não seguram bandeiras ou vestem a camisa com a estampa do Brasil. Elas simplesmente são o Brasil, sem meias palavras.

Sucena Shkrada Resk
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